
Não foi fácil a escolha destes trinta poemas.
É vasto e rico o mundo poético ligado aos novos países africanos de expressão portuguesa em termos linguísticos. Sempre o foi, aliás, ainda mesmo no tempo em que os olhávamos como simples colónias. Uma selecção implica necessariamente erros, falhas, esquecimentos injustos senão mesmo imperdoáveis. Temos disso plena consciência.
A escolha que se fez não obedeceu somente ao valor e importância do poema em si nem, tão pouco, à projecção obtida pelo poeta a que está ligado: teve também em conta - e, aí, o intérprete teve, necessariamente, uma última palavra - a sonoridade, a cadência, o ritmo que a arte de dizer implica. Porque há de facto poemas que nascem apenas para serem lidos em recolhimento e outros que, além dessa qualidade nata, contém a de se tornarem particularmente "dizíveis".
De qualquer modo, uma coisa é certa: o muito que o mundo lusófono fica a dever a Vitor de Sousa a partir deste momento e que nunca será demais aplaudir. Mas de que outra essência tem sido feita afinal a sua carreira, ao longo dos últimos 40 anos, se não disso mesmo - aplausos?
Guilherme de Melo
Numa edição da OVAÇÃO(2006), de Lisboa, encontramos:
1. Xicuembo de Rui Nogar
2. Quero ser tambor de José Craveirinha
3. Lá no "Água Grande" de Alda do Espírito Santo
4. Canção de Nha Chica de Armando Lima Jr.
5. Castigo Pró Combio Malandro de António Jacinto
6. Testamento de Raul Indipwo
7. Balantão de Pascoal D'Artagnan Aurigemma
8. A Ira de Jerónimo Salvaterra
9. Antigamente Era de Agostinho Neto
10. Carregadores de Rui de Noronha
11. Também fui Didi... de Frederico Gustavo dos Anjos
12. Quando eu morrer... de Alexandre Daskalos
13. Manta da Minha Mãe de Eunice Borges
14. Namoro de Viriato da Cruz
15. Quero um cavalo de várias cores... de Reinaldo Ferreira
16. Testamento de Alda Lara
17. Comércio de Orlando Mendes
18. Corpo Moreno de Francisco José Tenreiro
19. Pedido de Perdão de António Nunes
20. (Escre)ver-me de Mia Couto
21. Rebita de Tomaz Vieira da Cruz
22. Naturalidade de Rui Knopfli
23. Cogitações de Yolanda Morazzo
24. Regresso de Amílcar Cabral
25. As raízes do nosso Amor de Geraldo Bessa Victor
26. O Teu Corpo de Gulano Khan
27. Nova Poesia de Aguinaldo Fonseca
28. Não Basta estender as mãos vazias... de Daniel Filipe
29. A Flor que eu Canto de Helder Proença
30. Feitiço de Tinta de Carlos Castro
Ouça aqui, para aperitivo: "Quero ser tambor" de José Craveirinha(aguarde um pouco):
Download quero_ser_tambor.mp3
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Bom dia!
Até o dia 18/10 esta página estava dedicada a belas poesias e mensagens.
Entristecem-me as mensagens dos últimos dias.
Posted by: Jurraci Vieira Gutierres | 21/10/2008 at 11:27
Olá
Sou Sua Excelência Sr. Professor Doutor umBhalane, Administrador executivo para a área de angariação específica de poupanças que privilegiam altos rendimentos, segurança de capitais e rendimentos.
Sou casado com a Sra. Dra. Jessica Nuvoka e Morais de Macongo, pessoa bem relacionada na alta finança internacional, mormente no Continente Africano.
Aceitam-se depósitos de quaisquer moedas, bem remunerados, com taxas 3 vezes superiores à Euribor a 6 meses, e prazo a perder de vista.
Garantia - fundos de tesouro do Zimbabwe;
Valor mínimo - equivalente a 100 mil USA;
Prioridade de acesso – devido à grande procura, terão prioridade os depósito de maior montante;
Os restantes ficarão em lista de espera.
Apresse-se, e não perca tempo
Também fazemos empréstimos para investimento, com boas taxas de juro.
Garantias – bens imóveis em locais com potencial de desenvolvimento, a avaliar pela nossa equipa de peritos;
Montante empréstimo – até 1/3 do valor das garantias reais;
Taxa – Libor a 6 meses, indexada.
Nossa equipa de experientes economistas Nigerianos estará ao V/dispor.
Nosso endereço é:
Enfiarobarreteaospapalvos@hotmail.com
Ficamos à sua espera.
Sua Excelência Sr. Professor Doutor umBhalane.
Posted by: umBhalane | 19/10/2008 at 18:54
Olá
Sou Sua Excelência Sr. Professor Doutor umBhalane, Administrador executivo para a área de angariação específica de poupanças que privilegiam altos rendimentos, segurança de capitais e rendimentos.
Sou casado com a Sra. Dra. Jessica Nuvoka e Morais de Macongo, pessoa bem relacionada na alta finança internacional, mormente no Continente Africano.
Aceitam-se depósitos de quaisquer moedas, bem remunerados, com taxas 3 vezes superiores à Euribor a 6 meses, e prazo a perder de vista.
Garantia - fundos de tesouro do Zimbabwe;
Valor mínimo - equivalente a 100 mil USA;
Prioridade de acesso – devido à grande procura, terão prioridade os depósito de maior montante;
Os restantes ficarão em lista de espera.
Apresse-se, e não perca tempo
Também fazemos empréstimos para investimento, com boas taxas de juro.
Garantias – bens imóveis em locais com potencial de desenvolvimento, a avaliar pela nossa equipa de peritos;
Montante empréstimo – até 1/3 do valor das garantias reais;
Taxa – Libor a 6 meses, indexada.
Nossa equipa de experientes economistas Nigerianos estará ao V/dispor.
Nosso endereço é:
Enfiarobarreteaospapalvos@hotmail.com
Ficamos à sua espera.
Sua Excelência Sr. Professor Doutor umBhalane.
Posted by: umBhalane | 19/10/2008 at 18:51
Olá,
Meu nome é Dra. Debra Ballack. Venho de Munique na Alemanha, sou casada com o Sr. Johnson Ballack.
Gostaria de pedir-lhe uma pergunta simples? e isso é o que você precisa de um empréstimo, ou em busca de um empréstimo legítimos financiadores. Então já não há mais procura, como eu gostaria de informá-lo sobre um empréstimo mutuantes genuie e legítimo. Ele é o senhor deputado Mark Leonard de nomes, ele é CEO da Mark Lending Services. Sua empresa tem sido gerida pelo seu gerente, Sr. Gray nname por Alonso. Ele ofereceu-me um empréstimo cerca de um ano atrás, eu não sei se ainda hhe oferece empréstimo por você pode experimentar e ver a vir para fora. E ele foi, então, oferecendo bonança. Então, em vez dos 6.7% de taxa de juro, ele desceu para 3.0%. Estou fazendo isso para não fazer propaganda de seus serviços, mas para protegê-lo na escolha do direito empréstimo mutuantes. Não se deixe enganar por aqueles que pretendem ser empréstimo mutuantes.
Contacte-lo através de seu endereço de e-mail Mark.lending.services@live.co.uk
Posted by: Debra ballack | 19/10/2008 at 00:30
umas palavras aos novos escravos africanos
fizeram-nos sonharam com a liberdade, deram-lhes a miséria, fizeram-nos sonhar com a dignidade, deram-lhes a suprema humilhação de terem de pôr a cara no chão, a pedir a estropiada mão, quando por eles passa um negro antes camarada, agora, chefão, antes herói, agora Xipoco.
Choram pelos brancos que fugiram da violência, como aqueles filhos que choram por um Pai contra o qual os seus instintos adolescentes se rebelaram, substituído, agora, por um padrasto da mesma cor e que se revelou o mais cruel torturador...
Posted by: nini | 03/06/2008 at 15:54
Inês Afonso
Cheguei a este sítio em 10/2007.
Em Posted by: Nini | 30-04-2008 at 14:51 veio novamente à baila este artigo, e vi o seu pedido de "Alguem pode me enviar o poema Carregadores de Rui De Noronha? Obrigada"
Posted by: Ines Afonso | 22-01-2007 at 15:14
Desde então, tenho pensado muito em si, até porque tem também um nome muito bonito.
Procurei, procurei, procurei, e...encontrei.
Se já o tiver, fico contente por si, porque contente ficarei por TODOS.
CARREGADORES
A pena que me dá ver essa gente
Com sacos sobre os ombros, cansadíssima!...
Às vezes é meio-dia, o sol tão quente,
E os fardos a pesar, Virgem Santíssima!...
À porta dos monhés, humildemente,
Mal a manhã desponta a rir suavíssima,
Vestindo rotas sacas, tristemente
Lá vão espreitando a carga pesadíssima…
Quantos, velhinhos já, avós talvez,
Dez vezes, vinte vezes, lés a lés
Num dia só percorrem a cidade!
Ó negros! Que penoso é viver
A vida inteira aos fardos de quem quer
E na velhice ao pão da caridade…
In Sonetos – pag. 71
Nota de advertência
Há grande polémica quanto à integridade da obra do Poeta, conforme está no livro publicado após sua morte – Sonetos.
Suspeita-se de mutilação, desvirtuamento,…dos seus versos.
Posted by: umBhalane | 28/05/2008 at 22:20
Boa noite!
Sim, certíssimo.
Como não havia olhado as datas tinha feito um falso registro e procurei nas notícias de abril.
Aliás, um testemunho de que as coisas boas sempre são notícias.
E...que merecem destaque!
Muito agradecida.Até mais
Posted by: Juraci Vieira Gutierres | 06/05/2008 at 00:04
D. Juraci V. Gutierres
É isto que procura?
Abraço.
Posted by: umBhalane | 05/05/2008 at 10:07
Lá no água grande
Lá no "Água Grande" a caminho da roça
negritas batem que batem co'a roupa na pedra.
Batem e cantam modinhas da terra.
Cantam e riem em riso de mofa
histórias contadas, arrastadas pelo vento.
Riem alto de rijo, com a roupa na pedra
e põem de branco a roupa lavada.
As crianças brincam e a água canta.
Brincam na água felizes...
Velam no capim um negrito pequenino.
E os gemidos cantados das negritas lá do rio
ficam mudos lá na hora do regresso...
Jazem quedos no regresso para a roça.
Alda do Espírito Santo
Posted by: umBhalane | 02/05/2008 at 01:12
Namoro
Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
e com a letra bonita eu disse ela tinha
um sorrir luminoso tão quente e gaiato
como o sol de Novembro brincando de artista nas acácias floridas
espalhando diamantes na fímbria do mar
e dando calor ao sumo das mangas.
sua pele macia - era sumaúma...
Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas
tão rijo e tão doce - como o maboque...
Seu seios laranjas - laranjas do Loge
seus dentes... - marfim...
Mandei-lhe uma carta
e ela disse que não.
Mandei-lhe um cartão
que o Maninjo tipografou:
"Por ti sofre o meu coração"
Num canto - SIM, noutro canto - NÃO
E ela o canto do NÃO dobrou.
Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
pedindo rogando de joelhos no chão
pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigénia,
me desse a ventura do seu namoro...
E ela disse que não.
Levei à avó Chica, quimbanda de fama
a areia da marca que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço forte e seguro
que nela nascesse um amor como o meu...
E o feitiço falhou.
Esperei-a de tarde, à porta da fábrica,
ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
paguei-lhe doces na calçada da Missão,
ficamos num banco do largo da Estátua,
afaguei-lhe as mãos...
falei-lhe de amor... e ela disse que não.
Andei barbado, sujo, e descalço,
como um mona-ngamba.
Procuraram por mim
" - Não viu...(ai, não viu...?) Não viu Benjamim?"
E perdido me deram no morro da Samba.
E para me distrair
levaram-me ao baile do sô Januário
mas ela lá estava num canto a rir
contando o meu caso às moças mais lindas do Bairro Operário
Tocaram uma rumba dancei com ela
e num passo maluco voamos na sala
qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou: "Aí Benjamim!"
Olhei-a nos olhos - sorriu para mim
pedi-lhe um beijo - e ela disse que sim.
Viriato da Cruz
Posted by: umBhalane | 02/05/2008 at 01:04
Testamento
À prostituta mais nova
Do bairro mais velho e escuro,
Deixo os meus brincos, lavrados
Em cristal, límpido e puro...
E àquela virgem esquecida
Rapariga sem ternura,
Sonhando algures uma lenda,
Deixo o meu vestido branco,
O meu vestido de noiva,
Todo tecido de renda...
Este meu rosário antigo
Ofereço-o àquele amigo
Que não acredita em Deus...
E os livros, rosários meus
Das contas de outro sofrer,
São para os homens humildes,
Que nunca souberam ler.
Quanto aos meus poemas loucos,
Esses, que são de dor
Sincera e desordenada...
Esses, que são de esperança,
Desesperada mas firme,
Deixo-os a ti, meu amor...
Para que, na paz da hora,
Em que a minha alma venha
Beijar de longe os teus olhos,
Vás por essa noite fora...
Com passos feitos de lua,
Oferecê-los às crianças
Que encontrares em cada rua...
Alda Lara
Posted by: umBhalane | 02/05/2008 at 00:53
ANTIGAMENTE ERA
Antigamente era o eu-proscrito
Antigamente era a pele escura-noite do mundo
Antigamente era o canto rindo lamentos
Antigamente era o espírito simples e bom
Outrora tudo era tristeza
Antigamente era tudo sonho de criança
A pele o espírito o canto o choro
eram como a papaia refrescante
para aquele viajante
cujo nome vem nos livros para meninos
Mas dei um passo
ergui os olhos e soltei um grito
que foi ecoar nas mais distantes terras do mundo
Harlem
Pekim
Barcelona
Paris
Nas florestas escondidas do Novo Mundo
E a pele
o espírito
o canto
o choro
brilham como gumes prateados
Crescem
belos e irresistíveis
como o mais belo sol do mais belo dia da Vida.
Agostinho Neto
Posted by: umBhalane | 02/05/2008 at 00:27
Naturalidade
Europeu, me dizem.
Eivam-me de literatura e doutrina
europeias
e europeu me chamam.
Não sei se o que escrevo tem a raiz de algum
pensamento europeu.
É provaável... Não. É certo,
mas africano sou.
Pulsa-me o coração ao ritmo dolente
desta luz e deste quebranto.
Trago no sangue uma amplidão
de coordenadas geográficas e mar Índico.
Rosas não me dizem nada,
caso-me mais à agrura das micaias
e ao silêncio longo e roxo das tardes
com gritos de aves estranhas.
Chamais-me europeu? Pronto, calo-me.
Mas dentro de mim há savanas de aridez
e planuras sem fim
com longos rios langues e sinuosos,
uma fita de fumo vertical,
um negro e uma viola estalando.
Rui Knopfli
Posted by: umBhalane | 02/05/2008 at 00:19
CASTIGO PRO' COMBOIO MALANDRO
Esse comboio malandro
passa
passa sempre com a força dele
ué ué ué
hii hii hii
te-quem-tem te-que-tem te-quem-tem
o comboio malandro
passa
Nas janelas muita gente
ai bo viaje
adeujo homéé
n'ganas bonitas
quitandeiras de lenço encarnado
levam cana no Luanda pra vender
hii hii hii
aquele vagon de grades tem bois
múu múu múu
tem outro
igual como este de bois
leva gente,
muita gente como eu
cheio de poeira
gente triste como os bois
gente que vai no contrato
Tem bois que morre no viaje
mas o preto não morre
canta como é criança
"Mulonde iá késsua uádibalé
uádibalé uádibalé...'"
esse comboio malandro
sòzinho na estrada de ferro
passa
passa
sem respeito
ué ué ué
com muito fumo na trás
hii hii hii
te-quem-tem te-quem-tem te-quem-tem
ANTÓNIO JACINTO
(Poemas, 1961)
Posted by: umBhalane | 02/05/2008 at 00:14
As Raízes de Nosso Amor
Amo-te porque tudo em ti me fala de África,
duma forma completa e envolvente.
Negra, tão negramente bela e moça,
todo o teu ser me exprime a terra nossa.
Nos teu olhos eu vejo, como em caleidoscópio,
madrugadas e noites e poentes tropicais,
visão que me inebria como um ópio,
em magia de místicos duendes,
e me torna encantado. (Perguntaram-me: onde vais?
E não sei onde vou, só sei que tu me prendes...)
A tua voz é, tão perturbadoramente,
a música dolente dos quissanges tangidos
em noite escura e calma,
que vibra nos meus sentidos
e ressoa no fundo da minh'alma.
Quando me beijas sinto que provo ao mesmo tempo
gosto do caju, da manga e da goiaba,
- sabor que vai da boca até às vísceras
e nunca mais acaba...
O teu corpo, formoso sem disfarce,
com teu andar desgoso, parece que se agita
tal como se estivesse a requebrar-se
nos ritmos da massemba e da rebita.
E sinto que teu corpo, em lírico alvoroço,
me desperta e me convida
para um batuque só nosso,
batuque da nossa vida.
Assim, onde te encontres (seja onde estivesses,
por toda a parte onde o teu vulto for),
eu te descubro e elejo entre as mulheres,
ó minha negra belamente preta,
ó minha irmã na cor,
e, de braços abertos para o total amplexo,
sem sombra de complexo,
eu grito do mais fundo de minh'alma de poeta:
- Meu amor! Meu amor!
Geraldo Bessa Victor
Posted by: umBhalane | 01/05/2008 at 23:44
Xicuembo:
Deus.
Espírito sobrenatural.
Quando um índivíduo está possesso.
Obra Poética de
José Craveirinha
Caminho
Pag. 228
Xikuembo (xicuembo ou t'xikwembo):
Espírito.
Poder sobrenatural.
Feitiço (feiticeiro).
Tabus e Vivências em Moçambique
Narrativas e Contos
Edgar Nasi Pereira
Caminho
Pag. 244
Posted by: umBhalane | 01/05/2008 at 22:25
Quero ser tambor
Tambor está velho de gritar
ó velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
só tambor gritando na noite quente dos trópicos.
E nem flor nascida no mato do desespero.
Nem rio correndo para o mar do desespero.
Nem zagaia temperada no lume vivo do desespero.
Nem mesmo poesia forjada na dor rubra do desespero.
Nem nada!
Só tambor velho de gritar na lua cheia da minha terra.
Só tambor de pele curtida ao sol da minha terra.
Só tambor cavado nos troncos duros da minha terra.
Eu!
Só tambor rebentando o silêncio amargo da Mafalala.
Só tambor velho de sangrar no batuque do meu povo.
Só tambor perdido na escuridão da noite perdida.
Ó velho Deus dos homens
eu quero ser tambor.
E nem rio
e nem flor
e nem zagaia por enquanto
e nem mesmo poesia.
Só tambor ecoando a canção da força e da vida
só tambor noite e dia
dia e noite só tambor
até à consumação da grande festa do batuque!
Oh, velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
só tambor!
José Craveirinha
Posted by: umBhalane | 01/05/2008 at 22:01
Boa noite.
Ás vezes fico um tanto sem rumo por não ter a mão dicionários Moçambicanos, mas desta vez procurei e achei (espero que sem confusões) eis:
“Por conseguinte, todo o referido processo de transformação, reencarnação, trânsito para fantasma, "xipoco" que deseja ascender ao estado de "xicuembo", é um jogo entre matéria e espírito, em que o mundo físico se interpenetra com o mundo espiritual e, consequentemente, as suas categorias fundamentais se encontram modificadas - o tempo e o espaço perdem o seu referente real, apresentando-se suspenso e prolongando-se para além do possíve”. In O dis-cursus do fantástico em A varanda do Frangipani de Maria Manuela J. C. de Araújo - Lisboa.
Senhor umBhalane, foi a força do pensamento, tinha acado de ler a poesia de Rui Nogar.
Posted by: Juraci Vieira Gutierres | 01/05/2008 at 21:52
Xicuembo
eu bebeu suruma
dos teus ólho Ana Maria.
eu bebeu suruma
e ficou mesmo maluco
agora eu quer dormir quer comer
mas não pode mais dormir
mas não pode mais comer
suruma dos teus ólho Ana Maria
matou sossego no meu coração
oh matou sossego no meu coração
eu bebeu suruma oh suruma suruma
dos teus ólho Ana Maria
com meu todo vontade
com meu todo coração
e agora Ana Maria minhamor
eu não pode mais viver
eu não pode mais saber
que meu Ana Maria minhamor
é mulher de todo gente
é mulher de todo gente
todo gente todo gente
menos meu minhamor
Rui Nogar
Posted by: umBhalane | 01/05/2008 at 21:27
De: Agostinho Neto
(sem a beleza da interpretação de Vitor de Souza)
Lá no horizonte
o fogo
e as silhuetas escuras dos imbondeiros
de braços erguidos.
No ar o cheiro verde das palmeiras queimadas.
Poesia africana.
Na estrada
a fila de carregadores bailundos
gemendo sob o peso da crueira.
No quarto
a mulatinha de olhos meigos
retocando o rosto com rouge e pó de arroz.
A mulher debaixo dos panos fartos remexe as ancas.
Na cama
o homem insone pensando
em comprar garfos e facas para comer à mesa.
No céu o reflexo
do fogo
e as silhuetas dos negros batucando
de braços erguidos.
No ar a melodia quente das marimbas.
Poesia africana.
E na estrada os carregadores
no quarto a mulatinha
na cama o homem insone.
Os braseiros consumindo
consumindo
a terra quente do horizonte em fogo.
Posted by: Juraci Vieira Gutierres | 01/05/2008 at 21:04
É...
Poesia e provérbios populares até casam, e bem!
"A ignorância e o vento são do maior atrevimento"
"A palavras moucas, orelhas moucas"
"Atrás do tempo, tempo vem"
"A um favor, mil favores; a piparote, chicote"
"Cá e lá más fadas há"
"Em casa de letrado nunca faltam razões"
"Não há pior cego que aquele que não quer ver"
"Nem sempre aquele que dança é o que paga a música"
"Obra de prudente é, podendo fazer mal, não o fazer"
"O mal vem às braçadas e sai às polegadas"
"Presunção e água benta, cada um toma a que quer"
"Quem desdenha quer comprar"
"A justiça tarda mas não falha"
"Segue a razão, ainda que a uns agrade, a outros não"
"Vozes de burro não chegam ao céu"
"Aos olhos da inveja todo o sucesso é crime"
...
É...
Posted by: umBhalane | 01/05/2008 at 19:49
E o poema "mãos", de Francisco José Tenreiro...esse toméense imortal!
Posted by: JJLABORET | 01/05/2008 at 04:28
É...
E no Brasil, os portugueses miscigenaram e formaram esta nação de pele morena, mais tarde imitados pelos japoneses, italianos, poloneses, judeus, libaneses, árabes, chineses, coreanos, etc., etc...
Formando esta raça cósmica!
Os portugueses não colonizaram o Brasil: Formaram um reino (Império do Brasil) e é mítica a estória de que o imperador Pedro I era aficcionado pelos encantos das "mulatas".
Há muitas formas de corrigir erros linguísticos sem ofender aqueles que os proferem. Aliás, quantas pessoas falam Xironga? E quantas falam Português?
Posted by: JJLABORET | 01/05/2008 at 04:10
Ó Moçambicano, esse seu comentário é mesmo faccioso e malicioso- se houve povo que respeitou as línguas nativas esse foi o Português- até usávamos palavras dessas línguas na nossa vida quotidiana. Vá lá perguntar aos ingleses que estavam na antiga Rodésia se alguma vez pensariam em fazê-lo. Nunca, jamais em tempo algum. Assim como os portugueses sempre se misturaram com as populações, casando com nativas, os ingleses nunca o fizeram.
Eu sei que a tentativa é a de passar a imagem do colonialismo atroz, mas isso é totalmente falso (más pessoas há em todo o lado, mas, numa larga maioria, todos vivíamos em paz e num clima verdadeiramente intercultural). Agora, é que foi aí implantado um colonialismo do negro pelo negro...No tempo "colonial", não havia as disparidades sociais, nem a miséria ultrajante contraposta a um luxo ultrajante que se verificam agora aí.
Como vê, os seus complexos vêm logo ao de cima, ainda para mais porque não entende que frequentemente acontece que os empréstimos linguísticos estejam sujeitos a uma adaptação idiossincrática. Para além dos empréstimos, outros vocábulos estão sujeitos a adapatções diferenciadas em termos semânticos- por ex. geleira, que nós usávamos em Moçambique para designar um frigorífico, não quer dizer o mesmo que em Portugal.
Posted by: Nini | 30/04/2008 at 14:51
Gostei imenso do CD e como gosto de dizer poesia, gostava de ter as letras. Alguém me pode enviar os poemas? Obrigado
Posted by: Jota Bastos | 19/05/2007 at 20:45
Até hoje estou para saber quem disse ao Vitor de Sousa que Xicuembo quer dizer feitiço? Em xironga xicuembo quer dizer espírito ...era o mesmo que dizer em português que espírito era sinónimo de feitiço... estes portugueses, estes portugueses sabichões que deturpam a língua dos outros e dizem ainda que conhecem os africanos...a prova do desconhecimento é o desprezo pelas línguas africanas que sempre foi a tónica (além de proibição) e dá nisto...em xicuembos à la portuguesa.
Posted by: Moçambicano | 24/02/2007 at 21:57
olá!
adorei o áudio! como encontro outros? parabéns pela seleção.
Posted by: ana rüsche | 23/02/2007 at 02:10
o meu e-mail: inesafonso747@hotmail.com
Ines Afonso
Posted by: Ines Afonso | 22/01/2007 at 15:16
Alguem pode me enviar o poema Carregadores de Rui De Noronha? Obrigada
Posted by: Ines Afonso | 22/01/2007 at 15:14