Tenen completa sexta-feira 12 anos longe da barraca de fanado de onde foi retirada em Julho passado para não ser sujeita à mutilação genital feminina, prática que tem vindo a aumentar na Guiné-Bissau.
Em finais de Julho passado, Tenen decidiu ir fazer o fanado com umas amigas depois de proibida pelos pais, desconhecendo que o acto, que dá prestígio social a quem o pratica, terminaria com a mutilação dos seus genitais.
Impedida de sair da barraca, onde decorre o fanado, foi preciso pagar 114 euros às fanatecas (anciãs que praticam a mutilação) para Tenen regressar a casa dos pais.
Hoje a Agência Lusa foi procurar Tenen, que estava em casa porque "não houve aulas" devido à greve dos professores, que provocou o encerramento dos estabelecimentos de ensino do país. Questionada sobre como têm sido os seus dias, Tenen explicou que "não tem faltado à escola" e que tem ajudado a mãe na "venda dos sorvetes". Sobre a barraca do fanado não quis falar, preferiu antes pedir uma boneca como prenda de aniversário, para abrir na festa que faz sexta-feira. "Vamos comprar arroz, esparguete e peixe para festa e vão estar cá as minhas amigas", disse, aproveitando para pedir também umas sandálias para a escola. A prática da mutilação genital feminina na Guiné-Bissau tem vindo a aumentar, segundo um estudo realizado pela organização não-governamental guineense Plan em várias tabancas do país. O estudo refere que as motivações e as razões que têm levado ao aumento da prática da Mutilação Genital Feminina (MGF) passam por obrigação, a dever e a uma recomendação da religião islâmica, como um "passo necessário para se tornar muçulmano". "As raparigas muçulmanas têm ser mutiladas antes dos seis anos de idade, caso contrário não podem praticar a religião e família será responsável pelo pecado", refere o estudo da Plan.
A ONG guineense salienta, contudo, que a MGF não está mencionada no Corão, o livro sagrado do Islão, e que não é uma obrigação religiosa. Nesse sentido, a Plan acusa os imãs de saberem que a prática não é obrigatória e não partilharem essa informação com a comunidade.
A Plan alerta também que a prática da MGF está a ser feita em meninas que não pertencem a etnias praticantes.
Segundo o estudo, raparigas de grupos étnicos não praticantes da MGF podem acabar excisadas para serem aceites entre as amigas ou porque querem casar com homens de alguma tribo praticante.
O desconhecimento das consequências da prática leva também muitas jovens a serem mutiladas.
A Plan conclui também que as campanhas de sensibilização contra a MGF não têm resultado e que criaram resistência nas comunidades à abordagem do assunto.
A organização alerta que a prática está a aumentar e em crianças com cada vez menos idade, aconselhando as autoridades guineenses a abordarem o assunto incluído num plano de desenvolvimento.
Segundo a ONG, as campanhas apenas direccionadas para o fim da MGF não funcionaram, porque na, maioria dos casos, estão associadas a pessoas de etnia branca, que querem acabar com a prática ancestral e valores culturais.
Para um verdadeiro combate à MGF, a Plan defende campanhas integradas em planos de desenvolvimento e combate à pobreza e criação de novas fontes de rendimento para as fanatecas. Alerta também que é "preciso dar tempo às pessoas para mudarem as mentalidades".
lusa - 16.11.2007





