- Velho discurso sobre homens armados da Renamo em Marínguè, com mentiras à mistura, volta ao de cima em período em que se volta a falar de eleições
O País continua dividido, passados que são cerca de 17 anos da assinatura do Acordo Geral de Paz (AGP). Tirando outros pontos ultrapassados do Acordo que a 4 de Outubro de 1992 em Roma pôs termo à guerra civil de 16 anos, no que toca a questões militares os antigos beligerantes – de um lado o Governo representado partido Frelimo, e do outro lado a Renamo, de Afonso Dhlakama, nunca se entenderam. E resultante disso o distrito de Maríngue continua a ser um pavio que a qualquer momento, se as divergências não forem ultrapassadas, pode voltar a fazer as armas ressoar. Foi o caso a semana passada.
Com efeito, Maringue, que é uma zona em permanente tensão, viveu momentos de agitação madrugada de quarta-feira transacta quando dois abuses de morteiro de 82 milímetros, hipoteticamente instalados, explodiram a dois quilómetros da base militar da Renamo, uma área restrita que se localiza a sete quilómetros da sede daquele distrito.
A questão dos seguranças da Renamo, que vem amiúde à tona em momentos de pré-campanha eleitoral, em todos anos eleitorais, está sempre latente, pois nenhum dos antigos beligerantes trata o assunto com a devida seriedade, sendo que a tensão que Maríngue vive poderá evoluir a qualquer momento se os dois lados não chegarem a entendimento, por via pacífica, no lugar de engendrarem golpes baixos como o que tem acontecido, para a capitulação de um ou outro lado. O recente caso é mais um exemplo do braço-de-ferro entre os dois ex-beligerantes, que pretendem obter vitórias militares, que nenhum dos lados logrou objectivamente em 16 anos dado que a guerra, embora a Renamo estivesse bastante mais avançada no terreno, terminou com um acordo de Paz. Por egoísmo de um e do outro, uma vez mais os interesses do Estado e do povo são postos de lado. É pelo menos este o conceito que está ultimamente a singrar no seio da sociedade civil que já não está disposta a tolerar ameaças militares.
Maringue é o único distrito onde se assiste a presença de funcionários governamentais munidos de equipamento militar como tanques sem que haja motivos para tal aparato.
Os elementos que referimos acima são importantes para esclarecer a confusão da última quarta-feira em Maringue. Segundo
Conforme um antigo militar perito em acções de sabotagem, objectivamente os quatro obuses que foram colocados intencionalmente a dois quilómetros da base da Renamo, tinham em vista levar a que a base da Renamo pegasse fogo depois daquela explosão. Conforme apurámos, foram accionados todos actos de execução, e logo depois da explosão de dois dos quatro obuses, oficialmente o Governo da Frelimo informava que tinha havido danos materiais e humanos, em grande proporção.
A voz oficial que fez circular a informação de que a base tinha pegado fogo acreditara na eficiência da operação, que não se consumou por circunstâncias alheias à vontade de quem a promoveu.
No silêncio da Renamo, que se seguiu, parecia que na verdade tudo tinha sido consumado. E foi daqui que, na fé do facto consumado, certos jornalistas foram convidados pelo Governo para irem testemunhar Maríngue em chamas e os danos humanos e materiais incalculáveis que alegadamente teriam resultado na destruição daquela base e na morte de seguranças de Dhlakama. Era afinal mais um exercício de manipulação da opinião pública. Chegados ao local os jornalistas constaram que aqueles que os tinham feito viajar com dinheiro do Estado “estavam a mentir”.
O jornalista do STV, Francisco Raiva, por exemplo, disse que acompanhara antes de chegar a Marínguè que tinha havido mortes entre populares. Mas o facto é que quando chegou a Maringue constatou que “a informação era falsa”. “Falara-se de violentas explosões, mas na verdade foi só uma explosão”.
A caminhada ao dito coração das trevas de Maríngue
Os jornalistas encetaram contactos com a delegação da Renamo em Maringue no sentido de aceder à zona restrita da Renamo, onde está localizada a dita base, o que foi possível depois de autorização telefónica emanada por Dhlakama, a partir de Maputo. Depois seguiu-se uma caminhada de cinco horas no meio das trevas, até à zona de incidente, que afinal está a dois quilómetros da base da Renamo.
Chegados à área do incidente, o delegado da Renamo, em Maríngue, António Campira, disse que as violentas explosões e danos materiais e humanos propalados por certa imprensa não passou de “boato” oficial do governo de Sofala.
“Talvez a pessoa que contactou a imprensa sabe quem fez explodir os obuses”, disse o delegado da Renamo aos jornalistas que foram ao local convidados pelo governo de Sofala para verem algo que afinal era mentira, segundo eles próprios nos disseram.
“Quero transmitir a partir daqui, para o povo moçambicano e o mundo que não houve nada do que se andou a dizer”, disse Campira aos jornalistas.
Governo distrital e o dito por não dito
O administrador, Absalan Chambela, acabou desmentindo a versão posta anteriormente a circular. Era uma saída airosa para uma mentira descoberta. “Tratou-se de uma explosão apenas, e não de varias explosões como o que foi avançado. Todavia, relativamente a dois outros obuses que ainda não foram desactivados, e que pressupostamente “podem explodir a qualquer momento”, Chambela disse: “vamos tentar encontrar uma plataforma para resolver a situação”.
Guebuza mentiu ao povo
Aquando da campanha eleitoral de 2004 Armando Guebuza disse à boca cheia que uma das suas prioridades, caso fosse eleito presidente do país, seria acabar com os “homens armados da Renamo” – designação atribuída pelo Partido Frelimo e Governo à segurança da Renamo e Dhlakama. Tal não aconteceu.
Cerca de cinco anos após a sua eleição não se cumpriu a sua promessa e às pressas está-se a tentar arranjar sarilhos para que tal promessa ainda vá a tempo de ser cumprida antes das eleições de 28 de Outubro.
Esta promessa visava corrigir o dossier deixado em aberto pelo "deixa-andar", como Guebuza chegou a nomear o executivo de Joaquim Chissano, o então presidente que considerara em 1999 que o assunto dos seguranças da Renamo não era preocupante, pois o caju quando está maduro cai.
Resta saber que justificação de Armando Guebuza irá agora apresentar face a esta promessa incumprida. A opinião pública, essa, já não acha piada a estas brincadeiras. Ver-se-à os que os próximos dias podem reservar ao País a partir de Marínguè, um espinho no pé da Frelimo. (Adelino Timóteo)
CANAL DE MOÇAMBIQUE – 01.06.2009





