Correspondênci@Electrónic@
Por: Viriato Caetano Dias, em Lisboa
Há factos que me surpreendem para os quais gostaria de encontrar uma razão lógica. A política, à semelhança de futebol, é um jogo sem lógica.”
Estava a caminho de Faro para exercer o meu direito de voto quando o meu telemóvel tocou. Era um amigo que queria me transmitir a notícia do dia no país que tinha a ver com o facto do nome do Eng.º Venâncio Mondlane ter sido indigitado para o cargo de Secretário-Geral (SG) do Movimento Democrático de Moçambique (MDM). Mal disse “bom-dia” para eu desconfiar, à partida, que o que vinha do outro lado do continente era uma notícia, já em si, irresoluta. Mas não constituía, para mim, uma novidade, até porque dia antes, na véspera do escrutínio, tinha lido no site “Moçambique para todos” do meu generoso amigo Fernando Gil, a mesma notícia, citando o Diário de Notícias.
Todavia, ainda que nada neste mundo me surpreenda, confesso que queimei alguns minutos da viagem, entre o apreciar a linda paisagem da terra do poeta António Aleixo (o autor do celebre verso: Sei que pareço um ladrão, mas há muitos que eu conheço que, sem parecer o que são, são aquilo que eu pareço), e compreender a razão da hipotética escolha do Eng.º Venâncio para o cargo de SG do MDM.
Como não sou alheio ao MDM, sendo que, naturalmente, dei provimento a notícia do dia em detrimento da paisagem, até porque estava em condições de fazer as duas coisas em simultâneo – meditar e compreender a engenhosa magnitude da paisagem de Faro – foi o que aliás, mais tarde, acabei mesmo por fazer. Os versos de António Aleixo que tinha imbuído em Nampula, no tempo da academia, ajudaram-me, outrossim, a encontrar várias saídas para tamanha incompreensão da notícia.
Há uma enorme crise de visão a longo prazo que alguns partidos, às vezes até é o próprio Estado, revelam ao confiar os cargos de tamanha responsabilidade a certas pessoas sem o merecer, ou seja, em função dos títulos e apelidos de família que elas ostentam, em detrimento de quem tenha muita experiência e conhecimento de causa. Os títulos e os apelidos de família valem aquilo que valem. Nem sempre os títulos académicos são sinónimos de sabedoria.
Quando assim acontece – só por milagres é que o nosso Aparelho do Estado não tomba – é porque estamos perante uma situação de tráfico de influências, o Estado está à deriva.
Estou em crer que o Eng.º Venâncio Mondlane não se atrelou em títulos nem no facto de ser filho de um dos militantes da Frelimo para si impor na plateia do social.
Deve ter ralado muito coco – como alguns moçambicanos – para merecer o que é. Mas, verdade seja dita, o cargo de SG não é tarefa fácil, no mínimo, exige-se de alguém que tenha – acredito que o Eng.º Venâncio não tem – estômago de ferro e testa de betão para engolir tantos sapos. Pessoalmente tenho as minhas dúvidas se o Engº Venâncio teria tripas suficientes para levar o MDM ao poder, apesar do seu invejável currículo na área bancária. O crédito que possui na área bancária junta-se a de um excelente comunicador, arte que exerce com imparcialidade e isenção. Mas falta-lhe ser por dentro o MDM. Não basta pretender ou querer ser, é preciso ser. Falta-lhe, digo eu, uma certa originalidade e carisma. Para se exercer a docência, por exemplo, é preciso que o “bicho” esteja na massa do sangue da pessoa e não a solidariedade para com à área. Na escolha de uma profissão a caridade não deve ser um elemento fundamental, mas sim a competência merecida e reconhecida.
Foi precisamente o cargo para SG que levou à morte política de muitos políticos de gabarito, bem como dos seus respectivos partidos que, infelizmente, jazem no túmulo da desgraça como são os casos do PADEMO, FUMO, PAMOMO, PPLM, e muito recentemente o PDD, PIMO e companhia, LTD. Não compreenderam que ser SG é um cargo de alta responsabilidade e coragem, eu diria mesmo, de alto risco, qualquer passo em falso pode ser fatal, quer para a pessoa que o exerce quer para o partido que representa.
É que o cargo de SG não deve ser confundido com o de comentador ou de porta-voz do partido. São realidades totalmente diferentes.
Ora vejamos, eu entendo que um comentador de televisão (sem qualquer intenção de fazer pouco ao Engº Venâncio) é aquele que faz a especulação dos factos, suposições, advinhas. É, no fundo, uma espécie de um curandeiro científico, enquanto um porta-voz é aquele que vende o programa do partido, faz eco ao pensamento do partido e defende-o, quando necessário, dos possíveis ataques públicos contra o partido. Mas atenção, não deve ser um papagaio como, aliás, se pode ver em alguns. Já o SG é o denominador comum, é aquele que tem o xadrez político do partido. É o SG quem, finalmente, conhece e organiza a base, porque ele, já em si, é uma base, para além de ser é uma espécie de pêndulo que executa toda uma função para a transmissão das horas.
O desaire político da Renamo fez com que muitos dos seus quadros de proa abandonassem aquele partido da oposição. Uma boa parte deles filiou-se ao MDM. Outros tantos ficaram órfãos políticos à espera de uma possível adopção (fica dado o anúncio). Finalmente um terceiro grupo, não sendo fanático do partido nem da política, mas emprestada a esta ingrata missão, apenas para servir de veículo para a difícil satisfação das reais necessidades do povo. Dentre os quais (depois de passar a lupa e a pente fino) resgato à figura do Dr. Manuel de Araújo.
Estamos a falar de um jovem político de mão, um académico que jamais renunciou a academia. Defendeu de forma peremptória e sacrificada os interesses do povo na última legislatura na “escolinha de barulho”, claro, no parlamento.
Seria uma figura consensual no estandarte do partido, mas também a nível da plateia do social, visionário e de uma personalidade forte; o Dr. Manuel de Araújo (pessoalmente não o conheço de lado nenhum, nunca vi nem sequer faço a ideia da sua morfologia humana a não ser, francamente, através de uma foto sua de meio corpo postado no seu blogue, bem como através de obra feita) é um chamariz. Seria a minha aposta para tomar às rédeas do MDM.
O Dr. Manuel de Araújo não só seria um bom SG do MDM como também um estratega político para promover a imagem do partido além fronteiras.
Uma coisa é certa, o xadrez politico nacional é jogado no exterior. Os tempos que correm, para uma África à deriva e cada vez mais sangrenta, é fundamental construírem aliados fortes para garantir a sustentabilidade do partido.
A arrogância e o conformismo ficaram para lá da história. É tempo da “nova geração” mostrar os seus dotes. E não venham dizer que a “nova geração” não serve para nada, porque é esta mesma geração, a nova, que tem vindo a multilicar-se de esforços para salvar alguns anciões, mas também alguns jovens, de muitas enfermidades como a malária, a tuberculose, o cancro, a menopausa, a infertilidade, etc., e, por outro lado, para que usufruam das tecnologias de ponta, o que antes era um sonho irrealizável.
A ser verdade esta notícia - não concordando com o nome do Eng.º Venâncio Mondlane - cabe, porém, unicamente, ao MDM decidir.
PS: Tanto Anibalzinho como Afonso Dhlakama, ambos gozam de prorrogativas do Estado moçambicano. O primeiro já confessou ter morto Carlos Cardoso, para além de se ter escapulido por três vezes das masmorras do país, fuga esta que teve envolvência de altos quadros da PRM como ele mesmo, mais tarde, viria a confirmar; o segundo, o líder da Renamo, inconformado com os resultados eleitorais de 28 de Outubro, ameaçou incendiar o país caso os órgãos eleitorais não decidam inverter os resultados ao seu favor. Perante tudo isto é a PGR que continua a dormir, ou melhor, a bocejar.
O AUTARCA – 05.11.2009




Naftal
Qual é a certeza que tens de que o tal delegado da Renamo em Mecula não conhecia o MDM e que foi pela camisete que o conheceu? Falaste com ele para saberes? O que te leva a concluir que Venâncio Mondlane e Manuel de Araújo não nutrem simpatias com o MDM? Falaste com eles e mesmo assim pensas que te disseram o que está na alma deles?
Então, vou-te contar umas coisas: 1) Sabias que Pio Matos e o Falecido Carlos Tembe eram (?) da Renamo? 2) Sabias que muitos coordenadores da Renamo nas zonas urbanas nos anos 80 faziam-se passar de membros do Partido de Vanguarda?
É típico de certa gente que logo que o MDM resgata alguém, é visto como um pecado, é partido de dissidentes. Todos o que aderem ao MDM não conhecem o Estatuto e Programa deste partido. É interessante, não é Naftal?
Posted by: Reflectindo | 07/11/2009 at 16:57
UmBhalane agradeco te pelos caracterizadores que me atribues, contudo, gostaria de te esclarecer que o que pretendi dizer eh que o MDM deve parar com a sua estrategia de construir a casa pelo telhado, o Deviz eh engenheiro sabe que nao eh dessa maneira que se constroi uma casa. Comecem pela base para ver se ate as eleicoes de 2049 podem comecar a ombrear com a Frelimo. Deu para entender?
Posted by: Naftal | 06/11/2009 at 11:32
Excelente, clara, a análise do Viriato.
O nome do Venâncio Mondlane apareceu na mídia como o posssível Secretário Geral, e urge saber se esse foi mesmo consultado ou se não passou de um "balão de ensaio". Se esse foi realmente consultado, há que saber se um recúo para outro nome não o colocará melindrado ou mesmo ofendido, ficando a pergunta: sua personalidade, seu "ego", aguentaria para o bem do partido? Aceitaria o surgimento de outro nome após a ventilação do seu próprio?
Agora se o surgimento do seu nome não passou de um "balão de ensaio" de algum setor (o MDM teria setores?) do Partido, vazado para a imprensa com a finalidade de pressionar, um "dou verde pra colher maduro", então o Daviz Simango está desobrigado, e, lógicamente livre para meditar na melhor indicação.
Entendo que a indicação para o Secrerariado Geral deva recair em uma pessoa capaz de atrair, pela conduta pessoal própria, ilibada, reta, figuras expoentes do pensamento, das artes, acadêmicos, movimentos estudantis (existentes ou por aparecer, a serem encorajados a partir de agora), as classes inconformadas. Tem que ser uma pessoa disposta ao sacrifício, mas que o faça com um sorriso nos lábios tanto ao colher as rosas como ao ferir-se nos espinhos.
Sei pouco ou nada sobre esses dois nomes que afloram na mídia como possíveis indicados. De um, praticamente nada, do outro apenas o nome do pai, sua história, me vem à mente, mas sabe-se que tanto um como o outro são pessoas dignas. Capazes para essa tarefa? Não sei! Ainda não houveram análises mais profundas sobre essa possibilidade. E essas análises competem apenas ao MDM fazer, com base nas suas necessidades de crescimento e afirmação num projeto para o futuro. Projeto que deve começar desde agora, já, ou melhor: desde "ontem"!
Posted by: JJLABORET | 05/11/2009 at 13:43
Creio que tudo depende da disponibilidade do Dr. Manuel de Araújo, depois o MDM, naturalmente. A falta de SG para o MDM desestabilzou e desestabiliza o partido, porquanto é um elemento determinante para colocar o partido a andar para a frente. Daviz Sozinho não basta, é preciso que hajam mais Davizis no terreno à semelhança da Freilo que coloca uma máquina inteira.
Quanto ao facto do Dr. Manuel de Araújo não ser membro do MDM é descutível. Ele tem uma massa da oposição, além de que é uma pessoa que já se mostrou disponível para apoiar este partido, ao fim ao cabo, o país na materialização dos seus anseios. O Engº Venâncio é, tal como Manuel de Araújo um excelente gestor, mas o segundo ganha vantagem no que concerne a questão de experiência política. São questões que podem ser confundida como comparação de homens e não ideias, por isso, ficou a discussão e é esta, na verdade, a minha pretensão.
Um abraço
Posted by: Viriato Dias | 05/11/2009 at 13:36
Naftal
Israel?
Corrosivo.
Provocante.
Posted by: umBhalane | 05/11/2009 at 13:10
Caro Craveira,
No Moçambique para Todos , se bem me recordo , tem link para o MDM-versus Estatuto.
A proposta ao cargo de SG é feita pelo Presidente ao propondo ao Conselho Nacional.O SG fará parte da Comissão Política.
Não faz parte de elementos a serem nomeados pelo Congresso.
Qualquer dos elementos terá capacidade teórica para o cargo.
Se o engº Daviz, quiser elevar o MDM a outro patamar, terá forçosamente de colocar nesse lugar, um autêntico GESTOR.
Presumo que há elementos válidos para este cargo, nas diversas comissões já nomeadas.É um espaço de coordenação e gestão.
O factor de conhecimento político é de sómenos importância!
"Papagaios"(desculpem o termo-é o mais compreensível) só para porta-vozes das várias áreas, com objectivos de enquadramento definido!
Com todo respeito ao MA ou VM, ambos são elementos a ter em conta, desde que específicamente assessorados!
Tenho dito!
Posted by: Mussandipata | 05/11/2009 at 12:26
Uma vez estava em Mecula e numa conversa que mantive com alguns residentes perguntei sobre a oposicao no Distrito ao que me responderam que por ali existia a Renamo so que no dia anterior tinham visto um grupo de pessoas vestindo camisetes do Deviz Simango e ofereceram uma ao Delegado Distrital da Renamo e a partir daquela camisete o infeliz do homem passou a ser Delegado Distrital do MDM, portanto tudo partiu de uma camisete o individuo nao conhece os estatutos e muito menos o programa do MDM. Digo isto porque quer me parecer que o MDM esta a procura de um SG noutros partidos, o Venancio e o Araujo sao do MDM? Porque nao propoe o proprio Dhlakama?
Posted by: Naftal | 05/11/2009 at 12:24
A análise do Viriato é excelente, embora eu não saiba as qualidades dos saiba se Venâncio Mondlane tem ou não qualidades para SG. O mesmo não sei do Manuel de Araújo e muito menos da sua DISPONIBILIDADE para exercer tal cargo. Neste momento não quero falar de algum nome, mas concordo com a visão dos que anteriormente comentaram. A partir de agora e isso já podia/pode ter começado, o MDM tem que trabalhar para a realização do congresso e lá eleger-se o SG. Para este cargo terá que haver, como disse o Craveira, vários nomes secretariáveis e os congressistas terem a oportunidade para escolher e não apenas carimbarem a escolha de uma minoria.
Posted by: Reflectindo | 05/11/2009 at 07:41
Meus caros, voces nao viram a notici verdadeia. leia o Canalmoz, entrem na pesquisa e coloquem Venancio Mondlane, a noticia aparece.
Obrigado!
Posted by: BN | 05/11/2009 at 07:36
MDM e o seu secretário Geral.Por indicacao ou eleicao?. Congresso ou comissao politica? Seria bom que o MDM iniciasse o seu trilho politico pela via de consensos. Já há escola politica em Mocambique, é so cabular, mas cabula pensada.
Posted by: Alberto C. | 05/11/2009 at 06:46
A escolha do SG tem de ser consensual e fruto de decisão do Congresso.
Penso que Manuel de Araújo pode ser uma boa escolha mas há uma outra figura que tem capacidade para exercer esse cargo: Maria Moreno!
Posted by: José | 05/11/2009 at 06:01
Gostei da analise.
Nao tenho os estatutos do MDM, mas seria bom que o SG fosse eleito, e nao indicado. Seria bom o MDM fazer um congresso ou uma reuniao equivalente e submeter varias propostas e deixar ao criterio dos congressistas escolher o SG.
Posted by: Craveira | 05/11/2009 at 04:48