JOÃO MANUEL ROCHA e LUÍS VILLALOBOS
A Time e a Forbes já a consideraram uma das mulheres mais influentes do mundo. Com fama de negociadora, Luísa Diogo destaca o pragmatismo da China nas relações com terceiros
A China não tem "dogmas", nem "uma agenda prévia", e é isso que a distingue de outros "parceiros" no relacionamento económico com África, afirma a primeira-ministra de Moçambique, Luísa Diogo, que está a notar "isso também em Portugal". Numa entrevista à margem do encontro Global China Business, que esta semana decorreu em Lisboa, a chefe de Governo, de 51 anos, referiu-se às recentes eleições que reforçaram a Frelimo como um elemento de consolidação da democracia, disse desconhecer se vai manter-se no cargo que ocupa desde 2004 e considerou "absurdo" o cenário de poder ser uma futura candidata do partido governamental à Presidência da República.
Moçambique acaba de ter eleições. Como interpreta o reforço da Frelimo, a queda da Renamo e o aparecimento de um novo partido, o MDM?
A Frelimo e o candidato Armando Guebuza têm uma vitória esmagadora. A democracia está-se a consolidar, primeiro pela maneira como os moçambicanos encaram os manifestos eleitorais, a tranquilidade e a serenidade com que fazem as escolhas. Por outro lado, porque não há bipolarização, surgiu um terceiro partido, e isto mostra que em Moçambique a democracia ainda traz as suas novidades. A oposição não é só a voz da Renamo, vai passar a ser [também] a voz de mais um partido e isso é bom para os moçambicanos e para a Frelimo, que terá oportunidade de ouvir outras vozes.
Vai continuar em funções?
Isso não depende de mim. Faço parte de um partido que formou, e continua a formar, muitos quadros, tem um grande leque de escolhas e vai encontrar a pessoa mais indicada para primeiro-ministro. Se não for eu, vai certamente ser um dos melhores para que continue a dar os resultados que [o Governo] está a dar ao povo moçambicano.
Alguns países doadores mostraram reservas ao processo eleitoral. A possibilidade de uma alteração na atitude desses países, que são muito importantes para o Orçamento de Estado, é uma preocupação?
Os doadores, o grupo dos 19, reagiram na altura da deliberação quanto aos candidatos [rejeitados na corrida eleitoral] e mais tarde este mesmo grupo veio a manifestar uma grande tranquilidade, um grande alívio.
Havia duas alternativas: ou não se ia pela lei e derraparíamos completamente - porque [quer] os candidatos que tivessem a documentação em dia [quer] todos os outros entrariam [nas eleições]; ou então não entraria nenhum. O único parâmetro que podia ser utilizado, objectivo, era seguir a lei. O resto seria um terreno altamente movediço, considerando o número de candidatos. Se não se seguisse a lei, não haveria outro parâmetro objectivo para dizer: este entra como candidato, este não entra.
Falta mudar a lei para que haja um aperfeiçoamento?
A lei eleitoral tem beneficiado porque o processo democrático é jovem, o processo multipartidário começou em 1994, beneficia sempre de melhoramentos. O grande privilégio que Moçambique tem é que sempre que se debate no Parlamento, a lei procura sair sempre com um consenso. Mesmo que a Frelimo apareça com uma grande maioria, procura aproximar posições. Por acaso este assunto não foi objecto de divergência. As regras do jogo estavam na lei. O segundo aspecto que achei interessante é que, logo que se tomou a decisão, os partidos arregaçaram as mangas, avançaram para a campanha em festa. Não houve boicotes e as pessoas fizeram a sua votação com liberdade, transparência e tranquilidade.
Acha que os doadores ficaram satisfeitos?
Os parceiros têm manifestado a sua posição de tranquilidade, os observadores já se pronunciaram. São observadores da União Europeia [UE], da SADC [Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral], da Commonwealth e os observadores nacionais. Todos manifestaram que a campanha foi um momento de festa. Eu tive oportunidade de ver observadores da UE na Zambézia, onde fiz a campanha, e ficavam impressionados com a maneira como a população fazia a festa da campanha eleitoral, em liberdade. As caravanas opostas cruzavam-se tranquilamente, sem confrontações. Portanto, quaisquer situações que tenham surgido são marginais e estamos satisfeitos.
Disse que Moçambique tem enorme necessidade de novas infra-estruturas. Onde é que se vai buscar o dinheiro? É aqui que surge a China?
[Há] a exploração de diversas janelas. Moçambique tem os seus parceiros tradicionais que ajudaram logo a seguir à guerra de desestabilizaçã
É isso que a leva a dizer que a China não tem dogmas?
Não tem dogma, essa é que é a questão. Essa falta de dogma é que vem complementar os recursos que correspondem às prioridades do país. Estamos a notar isso também em Portugal, como na assinatura do último acordo com o ministro das Finanças português...
Também sem dogmas?
Exactamente. Onde é que estamos a meter os recursos que temos com Portugal? Fundamentalmente em estradas e pontes, áreas extremamente sensíveis. Muitas vezes alguns dizem: "as estradas não são viáveis" ou "as pontes não são viáveis". Eu pergunto: como é que uma ponte vai ser viável se nem existe? Este dogma da viabilidade ou não viabilidade muitas vezes é contestado por causa disso. Mas com Portugal estamos a fazer isso perfeitamente, e não é a China. É preciso olhar para as prioridades do país de forma aberta. Não impor, não trazer uma agenda prévia. E Portugal, nestes últimos três anos, tem conseguido fazer isso.
PÚBLICO – 13.11.2009




Absolutamente fabuloso.
Nunca na minha vida li uma entrevista tão profunda, tão didáctica, tão significativa.
A visão estratégica, a dissertação sobre economia de cooperação, melhor de recepção, o modo de funcionamento da sociedade do país, a alegria e comparência massiva do Povo Moçambicano às urnas, o esmagamento da oposição,...
Qual Isabel dos Santos, qual Angela Merkel, qual Hilary Clinton,…não passam de pigmeus, ao pé desta grande estadista.
Assinem / saquem lá os cheques, mas em branco.
Em branco, ok?
Posted by: umBhalane | 13/11/2009 at 17:19