No recente encontro entre os administradores distritais e o governador da provincia, aqui em Quelimane, para lá das contas dos fundos de investimento público, aqueles dirigentes se ergueram em coro para falar dos seus problemas de classe. Ou seja: falta de viaturas para o exercício das suas actividades; falta, em alguns casos, de espaços físicos condignos para o exercício da função; salário de miséria e, admitiram também, a sua falta de qualificação. Esta frontalidade dos administradores distritais não deveria merecer outra apreciação senão um voto favorável por parte do Governo provincial, cujos membros nem sempre, ou quase nunca, têm a frontalidade suficiente para reconhecer as suas incapacidades.
Aliás, esta sensibilidade ficou quando o governador prometeu a realização, para breve, de um curso intensivo de contabilidade para os administradores distritais, como forma de poderem, com mais à vontade, que só o conhecimento dá, gerir os fundos de investimento público, que é, afinal de contas, um dos óbices de alguns membros desta classe dirigente.
É na esteira desta sensibilidade, que me parece que seria oportuno criar-se, igualmente, uma situação de aprendizagem de relações públicas, ética, sei lá, todas as formas que capacitam um homem que se preze de distinção, que é uma das carências destes administradores. Porque, não são poucas as vezes em que nos espantamos quando nos dizem que fulano é administrador distrital, a julgar pela forma como se veste, os modos, ou como se serve quando se trata dos banquetes em que toma parte.
Coloco muito acima estas carências comparativamente à falta de viaturas, por exemplo, não porque estas sejam dispensáveis, mas, pelo simples facto de, se o que está em causa é prestigiar a função, tal deverá passar por uma filtração de modos, aprendizagem de novos comportamentos, em suma, a moldagem de uma nova personalidade. Pois, não será pela sumptuosidade do palácio ou da imponência do gabinete, nem será pelo luxo da viatura em que se faça transportar, que irá conferir peso (poder), autoridade e respeitabilidade ao administrador.
Porque, a ser assim, merecer-nos-iam a maior deferência concidadãos que, à força de muito suor e, também, muita sujeira, conseguiram erguer palácios e munir-se de viaturas das mais cotadas e modernas marcas, ainda que com grandes carências de escolarização e de relações públicas, numa só expressão: de conduta duvidosa.
E já agora, por falar dos administradores distritais, porque nisto de se ser figura pública há motivos para aturadas e renovadas aprendizagens, por que não pensar-se na formação das respectivas “Damas Número UM”?
É que, desse modo, evitar-se-ia o embaraço que os administradores sentem de não saberem se podem ou não convidar o governador a jantar no seu palácio, ao tempo que dura a sua visita ao distrito. E isto porquê? Simples: o administrador está consciente das limitações da sua esposa em receber condignamente um tão ilustre visitante. O mais que ela sabe é receber os seus ou os pais do seu esposo, ou outros parentes, para os quais não precisa de especiais conhecimentos para além daqueles que lhe foram passados durante os ritos de iniciação ou na véspera do casamento, lá na sua remota localidade.
Evitar-se-iam, por outro lado, situações caricatas como mandar arrancar uma trepadeira, com a frágil argumentação de que “senão o capim vai entrar na janela”. Ou mesmo, quando se manda arrancar uns pés de belas plantas, para, em seu lugar, ordenar-se o velho jardineiro a abrir uns canteiros para fazer crescer batata-doce ou mandioca ou milho. É que, em casos destes, os velhos jardineiros dos palácios, iniciados no tempo colonial, se fecham em copas, para, matreiramente e no círculo dos seus amigos na “cabanga” do fim-de-semana, escarnecerem a manifesta falta de conhecimentos da nova inquilina do palácio.
Evitar-se-ia, ainda, que elas tomassem tão inadequadas iniciativas de pôr à venda nos seus domicílios de fosse lá o que fosse, em respeito por uma casa de deferência, que não pode (ria) ser ocupada por qualquer um, ou um qualquer cidadão, por muita política que se árvore conhecer.
Será que o Governo provincial, à semelhança das muitas associações deste país, não conseguirá interessar patrocinadores para iniciativas do género?
P.S. actual: Anos mais tarde, mais concretamente após vencer as eleições de 2004, mandato a que se seguiria outro, Armando Guebuza pôs fim às “primeiras damas” a vários níveis, ficando esse estatuto reservado unicamente à esposa do Presidente da República, no caso a sua própria esposa, Maria da Luz Guebuza.
DIÁRIO DE Moçambique – 13.02.2012





