ESPINHOS DA MICAIA
Por Fernando Lima
Lendo de relance a nossa imprensa dá a ideia de um país em estado de sítio.
Os desmobilizados de guerra amotinam-se em frente ao gabinete do Primeiro-
-Ministro. Antigos agentes da segurança de Estado fazem literalmente o mesmo defronte dos edifícios do antigo SNASP.
Há uma carta a circular com reivindicações salariais dos enfermeiros. Os polícias ameaçam greve e há um manifesto epistolar feio com acusações de nepotismo e compadrio contra o chefe da polícia. Os “muçulmanos” são apresentados como colectividade unida e em uníssono clamando pela cabeça do chefe dos cinzentinhos de Maputo. O ministério da Educação diz que foi desviada dos cofres nos últimos seis anos uma quantia que poderá rondar os 144 milhões de meticais. As duas principais mineradoras do país declararam caso de “força maior” por não poderem fornecer carvão, porque a linha de Sena está paralisada. Pede-se a censura aos diálogos no “facebook” porque morreu uma apresentadora de televisão, a mesma rede social onde pólos políticos diferentes veiculam ameaças de morte por causa dos apoios às vítimas das cheias.
O ministro da Agricultura é zurzido impiedosamente na praça pública porque um chinês com palacete implantado em Pemba, jura a pés juntos que é um seu grande “brada” e lhe mete uns trocos no bolso.
Nos jornais, há claramente um aumento de pseudónimos para que o anonimato permita ajustes de contas diversos. Pede-se censura para quem não gostou da festa dos 70 anos do presidente, para quem está contra a ponte da Catembe e faz a leitura minuciosa dos Boletins da República que dão publicidade às sociedades comerciais de políticos do regime. Manda-se calar o coronel que já foi o chefão da Segurança porque é teimoso e insiste em mandar “recados aos amigos”.
Apesar de há muito se ter abstido de manifestar rancores dominicais.
Dir-se-ia que estamos quase na apoplexia da catarse pós-1992, quando a liberdade de expressão e a liberdade de imprensa permitiram uma torrente impetuosa de sentimentos recalcados durante décadas.
Anos antes, logo depois da independência, porque estávamos a construir o homem novo, decretámos como crime o racismo, o regionalismo, o tribalismo, como a religião era ópio para o povo. Nem a Constituição afasta o racismo, nem o labéu contra as igrejas fez com que diminuíssem os seus fiéis seguidores. A audiência no lançamento recente do livro de um bispo perseguido por associação a ilícitos vários, nem de perto, nem de longe se compara à presença noticiada na apresentação autorizada da biografia de Armando Emílio Guebuza.
Os ismos vários que a imprensa destila e recicla são como uma pequena Cahora Bassa em perda. A torrente não pára, embora seja possível determinar a previsibilidade dos ciclos. Os paliativos não funcionam, como o demonstraram as ensaiadas corridas para os tribunais.
Ora o actual ciclo, o contexto a que estão ligados os actuais “tumultos”, corresponde claramente à antecâmara do círculo eleitoral que se avizinha.
Depois da grande “noite das facas longas”acontecida em Pembano mês de Setembro, estão claramente desembainhadas as espadas, enquanto se afiam os punhais.
Há um candidato a escolher - e ainda não há certezas quanto aos nomes - para correr pelo maior partido do país nas eleições presidenciais de 2014. O Comité Central terá que ocorrer nos próximos meses.
Nos próximos meses há autárquicas. E apesar do deserto que é a participação popular nestes pleitos, há os candidatos que é preciso escolher e os que é necessário abater, queimar ou amputar.
Finalmente, há mesmo 2014, onde se joga o legado Guebuza, mas também 250 apetitosas cadeiras na sala que já teve o nome de um santo arcanjo.
SAVANA – 22.02.2013





