Editorial
Lançado que já foi o debate público da chamada Revisão da Constituição da República voltou à ribalta a questão de se poder vir ainda a introduzir uma cláusula que permita ao actual chefe de Estado voltar a recandidatar-se, apesar dessa possibilidade não constar do livro do ante-projecto apresentado pelo presidente da Comissão ad-hoc, deputado Eduardo Mulémbwè, membro da Comissão Política do partido chefiado por Armando Guebuza, actual chefe de Estado.
Os que aspiram a ver Guebuza continuar com o mesmo poder no Estado adiantam-se, a corta-mato, e insistem num “terceiro mandato para Guebuza”. Falam disso como se Guebuza nem precisasse de ir a votos para continuar no mesmo cargo, mesmo sabendo que sem ser de forma fraudulenta, viciando o recenseamento, assustando o eleitorado hostil ou comprando os resultados a quem realmente as venceu, o figurino das eleições anteriores teria sido outro.
Essas correntes pró-Guebuza andam seriamente preocupadas que lhes aconteça o mesmo que aos seguidores de Joaquim Chissano que passaram rapidamente de bestiais a bestas só porque lhes faltou a sustentação.
Sente-se porém que o entusiasmo na Frelimo pela continuidade de Armando Guebuza no poder não é comum a todas as tendências.
Quem acompanhou os pós-congressos depois da Independência facilmente percebe que o pós-congresso de Pemba não está a ser a mesma coisa. A alegria no seio do “partidão” não é a mesma. Há um desânimo enorme. Sente-se isso sem grande esforço.
Para além do descontentamento popular imenso que também é perceptível.
A greve dos médicos veio virar a mesa e serve agora de escola a muitos outros funcionários públicos. A greve dos médicos veio ajudar a compreender que o vento já se levantou para varrer o terreno. E “magermans”, “desmobilizados de guerra”, e tantos outros movimentos fazem-nos acreditar que o sol poderá em breve iluminar muito mais.
No partido Frelimo, da base ao topo, a imensa gente honesta que nela ainda está instalada apenas com sentido de sobrevivência, até já diz, ironicamente, que em Pemba não se tratou do X Congresso da Frelimo, mas, sim, do 1.0 Congresso de Guebuza.
A oposição que geralmente se preocupava e reagia a jogadas de diversão como esta agora do terceiro mandato, desta vez já percebeu que Guebuza até lhes convinha como adversário nas próximas Presidenciais. E quem diz ele, diz o edil de Maputo, de Nampula, da Matola, de Moatize e por aí afora, dado o clima de desânimo que se sente.
Sem quem deixou sempre as fraudes concretizarem-se e sem quem vencendo vendia os resultados eleitorais, vale a pena agora ir-se votar porque as reais possibilidades de mudança existem e a viragem pode-se conseguir tranquilamente. A oposição só tem de perceber isto.
Guebuza para organizar o partido e conseguir os aplausos por tal feito de que alguns tanto falam, cilindrou e desqualificou de tal forma todos os seus potenciais sucessores que deixou a sua organização descalça de alternativas. A oposição calada como anda é porque já percebeu que protestar por se estar a cozinhar um terceiro mandato é “dar ouro ao bandido”.
Os nomes em que Guebuza poderia apostar para, mantendo-se na presidência do partido, conseguir dirigir o Estado a remote-controlo são poucos e resumem-se, em nossa modesta opinião, à sua própria esposa e ao actual secretário-geral Filipe Paúnde.
Qualquer outro sabe-se perfeitamente que poderia facilmente pregar-lhe a mesma partida que Chiluba, na Zambia, pregou a Kenneth Kaunda quando o KK se impôs como presidente da UNIP e arranjou uma marioneta para avançar para a chefia do Estado. O plano de KK era o mesmo de Guebuza. Pensava que seria bem-sucedido.
Chiluba obedeceu-lhe até se consolidar como PR e depois mandou-o para a cadeia.
Uma hipótese de Guebuza poder tentar a sua continuidade no poder é usar a maioria qualificada na Assembleia da República para mudar a Constituição e assim abrir-se-lhe a possibilidade de ir mais uma vez a votos, mas isso por si só não lhe garante a vitória. Qualquer outra fórmula já parece tarde demais.
A contestação contra Guebuza não está só nas ruas. Está também dentro do seu próprio partido. Ele desenvolveu tantos anti-corpos que os candidatos da oposição só podem agradecer este cenário. Com Guebuza como candidato abrir-se-ia uma real possibilidade das tendências na Frelimo não se aglutinarem na hora do voto, dificultando até qualquer hipótese de manobra de gabinete. Mesmo dentro da própria Frelimo, Guebuza não conseguiria evitar uma enorme contestação, pois desta vez amplos sectores desejam um candidato que não seja mais originário do sul do país. E qualquer um do Norte ou do Centro é tarde para projectar.
Na Beira também se dizia que mesmo que a Renamo candidatasse uma pedra, a pedra venceria. Pergunte-se a Manuel Pereira – o tal da cancela no Save – se ainda se lembra da tunda que levou de Daviz Simango e até de Lourenço Bulha, da Frelimo, nas últimas eleições municipais.
E ao ponto que Guebuza levou os conflitos internos no partido, empobrecendo os seus camaradas para enriquecer (ele, sua filha e demais parentes directos) de forma desmedida, é muito improvável que a Frelimo volte a conseguir reunir os consensos que Chissano e Guebuza sempre conseguiram por terem o seu Dhlakama como o “inimigo” que sempre ajudou a unir o “partidão” em momentos cruciais e nunca aproveitou as oportunidades de fazer a oposição ascender ao Poder.
Por estas e mais razões, com a contestação nas ruas e o descontentamento na alma de milhões de cidadãos, as reais possibilidades da oposição ascender ao poder em muitos municípios já nas próximas autárquicas são imensas. Para que o país dê passos gigantescos no sentido de mais democracia é muito importante que não perca esta oportunidade real.
O povo já não precisa desta Frelimo para nada.
Os cidadãos já perceberam que a Frelimo é machamba de alguns.
O povo já viu que a elite desta Frelimo só lhe pede votos para depois poder fazer e desfazer em benefício próprio e dos familiares dos dirigentes.
Já existem no país cidadãos suficientes e muito mais responsáveis do que os que andam acantonados na Frelimo e no Estado a governarem-se, fingindo que governam.
Já existem no país cidadãos suficientes para apoiarem a oposição a chegar ao poder e todos juntos constituírem um poder alternativo ao actual que acumula riqueza todos os dias até desviando bens de apoio às vítimas das cheias.
Já não há como justificar-se que não há alternativa a este poder, nem nas autárquicas, nem nas provinciais, nem legislativas e presidenciais.
Temer que a senhora Maria da Luz Guebuza, actual primeira-dama, se venha a fazer a candidata à sucessora do seu marido, pelo Partido Frelimo, é um absurdo.
Temer Filipe Paúnde como candidato imposto por Guebuza com o fito de ser ele a marioneta que não se comporte como Chiluba relativamente a Kaunda, é outro absurdo tão grande que nem o mais etilizado se deixaria enganar.
Por isso insistimos que a dita revisão Constitucional deve ser séria e responsável.
Já ninguém se deixa enganar por quem já deixou cair a capulana que encobria as habilidades matreiras.
O povo já sabe que os senhores da Frelimo querem o poder para melhor usarem em seu próprio proveito o erário público. A revisão da Constituição para alavancar o poder actual não surtirá os efeitos desejados porque o povo já abriu os olhos.
O povo já sabe que não pode deixar de se recensear para ir votar em massas nas próximas eleições.
O povo já sabe que a alternativa a mudanças reais no país só pode acontecer por via do voto, civilizadamente.
A própria comunidade internacional – incluindo a China – já se apercebeu que este regime está na agonia e já não há nada que o salve. E sabe que Moçambique é um país de gente responsável capaz de governar melhor do quem tem estado no poder.
A comunidade internacional já viu que se o povo moçambicano não fosse responsável já tinha partido isto tudo.
Os moçambicanos já se aperceberam o que sobrou para eles com os sucessivos governos que o país tem tido é tão pouco que os ricos são todos chefes da Frelimo sustentados pelos cidadãos que se tem vindo a deixar enganar.
Os moçambicanos, sobretudo os jovens, já se aperceberam que está na hora de se acabar com quem tem estado no poder porque esses agora só atrasam o desenvolvimento do país, e só impedem uma melhor distribuição da riqueza.
Por isso vale a pena agora começarmos a pensar positivo. Vale a pena acreditarmos que a Paz deve ser preservada e que por via do voto se pode salvar Moçambique da pouca-vergonha que nos tem sido dada a ver.
Canal de Moçambique – 27.02.2013





