Carta aberta de Dalila Cabrita Mateus:
Depois de tantos ataques a Portugal e aos portugueses, também hoje estive nas páginas do Jornal de Angola, órgão oficioso do regime angolano. O pretexto foi o início do julgamento da viúva do antigo Presidente da República de Angola, Agostinho Neto, por mim acusada do «crime de difamação agravada». Com efeito, na revista «Única» do Semanário EXPRESSO, de 5 de Janeiro de 2008, ( em resposta à questão do número de mortos resultantes do 27 de Maio de 1977, que, no livro PURGA EM ANGOLA, eu e meu marido calculámos em 30 mil), D. Maria Eugénia declarou que isso era mentira e que eu era «desonesta e mentirosa». Quando, afinal, tal número nem era originalidade nossa, pois tal fora dito pelo nacionalista angolano Adolfo Maria e pelo juiz militar José Neves, o qual, em 1979, integrara uma Comissão de Inquérito criada para apurar os «excessos cometidos com a repressão». De resto, já em 1982, a própria Amnistia Internacional situava os mortos entre os 20 e os 40 mil. Um crime contra a Humanidade, que fez dez vezes mais mortos que os do Chile de Pinochet. Mortos abatidos com torturas ou fuzilados sumariamente, sem nunca terem sido julgados. E ainda hoje não se sabe sequer onde repousam as ossadas.
Os ataques agora desferidos contra mim pelo Jornal de Angola nem são uma raridade. No número de 3 de Fevereiro de 2008 deste mesmo jornal, uma das testemunhas arroladas pela senhora D. Maria Eugénia Neto, lançou contra mim um «festival de impropérios» na expressão do jornalista angolano Reginaldo Silva, indo ao ponto de dizer: «assina modestamente com o diminutivo [isto é, chamo-me Cabrita) quando nem o aumentativo dá nota da sua baixeza moral». E a 19 de Fevereiro, o Jornal de Angola publicava uma Declaração da Fundação Agostinho Neto, de que D. Maria Eugenia é presidente, onde dizia que os livros publicados sobre o 27 de Maio por «ditas historiadoras» manipulavam a história e apenas contavam mentiras. Nada de espantar. Uma outra testemunha arrolada, a senhora D. Irene Neto, filha de D. Eugénia, insinuava no jornal O PAÍS: «Os historiadores às vezes são utilizados por estes ou aqueles, pagam-lhes».
Agora o Jornal de Angola procura diminuir-me pelo facto de ter chorado na audiência de julgamento e por ser portadora de uma mutação genética do factor V de Leiden, que me predispõe para ter AVC’s. E também pelo facto de ser professora do ensino básico no Agrupamento de Escolas de Benfica. Que fique, então, claro. Sinto-me honrada por ser professora de História no básico. E é prestigiante para alunos e escolas ter mestres e doutores a leccionar um nível de ensino complicado e difícil, exigente não só nas aprendizagens mas também nas atitudes e comportamentos.
O articulista do Jornal de Angola, chega a pôr em dúvida que eu seja historiadora. Apesar do mestrado e doutoramento obtidos com as mais elevadas classificações académicas. Apesar de ser investigadora integrada/doutorada do conceituado Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa. Apesar de, recentemente, ter sido convidada a enviar uma comunicação a uma Conferência Internacional em Goa ou a pertencer ao Conselho Científico duma Conferência promovida pela Universidade Pedagógica de Moçambique. E apesar de ser autora ou co-autora de vários livros sobre História, alguns deles esgotados.
Lisboa, 2013-02-28
DALILA CABRITA MATEUS





