Foram várias as tentativas de operacionalizar os sistemas de Chomba e Chudi para abastecerem o distrito Mueda e vila de Muambula, localizado no distrito de Muidumbe e do N’tamba, no distrito de Nangade. Hoje está-se na terceira fase de reabilitação, com pouca esperança por parte das populações a quem vão servir, derivado de tantas falhas.
Já se aventava, por ocasião da elevação da vila de Mueda para a categoria de autarquia, que as cisternas virariam solução ideal para a minimização do problema de água no planalto dos Macondes, muito precisamente na vila-sede de Mueda, por os apelos governamentais de construção de caleiras e cisternas domésticas terem sido bem correspondidos.
Na verdade, em Mueda, nos tempos que correm se considera a segunda maior alternativa de abastecimento de água, depois dos sistemas que há mais de 15 anos não chegam a funcionar em pleno, o de Chomba e Chudi.
Já passam cinco anos que as autoridades sossegavam dizendo que tudo estava a ser feito para que o município tivesse água, pois estava em curso um processo de mudança da tecnologia de bombagem do precioso líquido, através de grupos de motobombas, cuja eficiência era considerada fraca e obsoleta para introduzir o sistema de electrobombas, com o advento da energia eléctrica da rede nacional.
A demora da solução definitiva do problema passou a ser vista como repetidas promessas do Governo, sendo que as pessoas nunca descartam completamente o passado recente, cuja forma mais comum de obter água era de ir à fonte, neste caso percorrendo três quilómetros, que têm o peso de 5 por causa da subida que se tem que fazer, desde a baixa, em Chude, o ponto mais próximo.
Continuam na memória os momentos em que os privados também entravam no negócio, usando as suas viaturas para trazer água que já na vila a vendiam ao preço de 15 a 20 meticais, a lata de 20 litros.
Em pouco tempo a descrença reavivou as memórias dos residentes de Mueda, o que terá facilitado a adesão à orientação presidencial que parece, de acordo com alguns residentes, ter sido buscada na experiência de Mueda, tal é a forma massiva com que foi recebida.
“Ninguém veio me mobilizar para fazer esta cisterna. Entendi que é necessário. Fi-la para atender as minhas necessidades caseiras e também de outros que porventura procuram água” - Fidélis Chalivondo, do bairro próximo ao mercado central.
Com capacidade de 3.500 litros de água, a cisterna de Chalivondo foi construída em 1996, no meio de muitas privações, se bem que aquele depósito de água, naquele ano, constituía prioridade pelo que algumas necessidades deveriam se adiadas.
“A construção durou seis meses e hoje bebo um ano inteiro se não estiver a dar pessoas de fora, o que tem sido difícil, apesar da minha família ser de seis pessoas, temos sempre visitas, ainda que não vendêssemos nunca seriamos só nós a usar a água”, disse.
A cisterna de Chalivondo, tal como a maioria, recebe água por via do abastecimento geral do sistema, que não tem sido regular, bem como da chuva, através das caleiras montadas propositadamente para alimentá-la.

Esta é a maior cisterna do bairro cimento da vila de Mueda
A cisterna-mor de Likanógwa
NO centro do bairro-cimento da vila de Mueda, está um homem, de cerca de 70 anos que, entre muitos feitos que a sua história individual registou, construiu aquela que se pode considerar uma das maiores cisternas daquela vila autárquica. Chama-se Germano José Likanógwa.
“Fiz com uma perspectiva futurista, porque previa que os outros negócios que faziam e a minha saúde chegariam um dia ao fim. Iriam baixar e precisar de uma sustentabilidade, razão pela qual investi nesta cisterna que hoje diariamente me dá alguma quinhenta para comprar sal, açúcar…menos água”, explicou o septuagenário.
De 10 por nove metros, a cisterna de Likanógwa foi feita em cinco meses. Ele não sabe quanto deve ter custado, porque cada vez que viesse ter às mãos o dinheiro proveniente do seu trabalho o destinava imediatamente ao projecto de construção daquele depósito de água.
“Isto cheio, mesmo vendendo água, passo todo o ano sem precisar de outra fonte”, regozijou-se o nosso entrevistado, que acrescentou ter preços diferentes, conforme o período, seja ele chuvoso ou seco.
“Em tempo de crise de água, quando os sistemas não funcionam, vendo a 20,00 MT a lata de 20 litros de água, e em tempo de muita água, da chuva, baixo até 5,00 MT, a mesma quantidade”, explicou a nossa fonte.
Germano Likanógwa é dos poucos da sua idade que não esteve na luta de libertação nacional, num distrito em que quase todos são antigos combatentes, alegadamente porque ele nasceu na vila, e no tempo em que o processo atingiu o clímax já se encontrava na Tanzânia, onde fora aumentar os seus conhecimentos na arte de esculpir.
“Não tive oportunidade de participar na luta armada, apesar de ser 100 porcento maconde. Sempre estive aqui na vila, e quando fui para a Tanzânia não era para o processo de libertação, ia sim buscar mais conhecimentos para a minha arte”, esclareceu Likanógwa.
Entretanto, o nosso interlocutor voltou a chamar a atenção para o facto de que, no planalto, a par duma casa para habitação, a cisterna é um bem precioso que serve para o futuro de quem a constrói e dos seus filhos.
“É preciso pensar no futuro, porque tudo acaba. Tenho visto os meus conterrâneos que são antigos combatentes, que recebem dinheiro do Estado todos os meses, mas não se vislumbra algum investimento em resultado dessa sua condição especial” - criticou Likanógwa.

Xavier Vansela
O que dizem os números
O DISTRITO de Mueda, em 2012, promoveu e acompanhou a construção de 783 cisternas e igual número de caleiras, cifra que suplanta o que havia acontecido nessa matéria, no ano de 2011, sendo que o cumprimento se estima em 115 porcento, mas devido, à entrega e incorporação dos dados da área municipal, o que antes não sucedia.
Neste momento, segundo dados facultados ao nosso Jornal pelo Governo distrital, Mueda conta com 13.517 cisternas e 13.485 caleiras, o que põe esta divisão administrativa na posição de mais activa no combate aos males resultantes da falta de água canalizada, bem assim no cumprimento da orientação presidencial.
Aliás, de acordo com o administrador do distrito, Xavier Vansela, a decisão presidencial, na verdade, veio ao encontro dos anseios das populações de Mueda, das suas necessidades prementes, razão pela qual tem sido muito fácil a sua mobilização.
“Por isso, quando começámos a transmitir a mensagem de construção de cisternas, à luz da orientação presidencial, o número de aderentes subiu vertiginosamente. Hoje, a prioridade, para quem tem dinheiro em Mueda, é zinco para construir casa, e o resto aplicar na construção duma cisterna e respectivas caleiras” - ajuntou o nosso entrevistado.
De acordo com Vansela, há combatentes que apoiaram os seus filhos e sobrinhos a construir as suas casas e cisternas, para que proximamente não venham a ser dependentes de casas vizinhas e nem que haja disputa de cisternas entre familiares.
Trata-se do caminho mais prático, na óptica do administrador, pois em tempo de chuva o serviço de água não cobra, senão aos serviços dependentes do Estado, apesar das populações se abastecerem através de suas cisternas.
Xavier Vansela avançou ainda um outro exemplo decorrente da independência que os residentes da vila estão a ter em relação ao sistema institucional de distribuição de água, nomeadamente as contas dos serviços municipalizados que baixam em virtude da ausência de clientes, no período chuvoso.
“A conclusão a que se pode chegar é que quando a mensagem é bem transmitida e vai ao encontro das necessidades das populações, elas acatam sem reservas, como acontece, igualmente em relação à construção de latrinas”, sublinhou Vansela.
Na aldeia Nanhala, por exemplo, para lá da necessidade de higiene, a latrina tem outra utilidade ligada a problemas de ordem passional. Na verdade, a mensagem que é repetida naquela povoação é que quem não tem latrina em casa se sujeita a ver a sua esposa a ir constantemente ao mato para satisfazer as suas necessidades, saídas estas que podem ser aproveitadas para outros fins.
“Parecendo que não, essa mensagem acaba sendo muito forte. Portanto, é desse tipo de situações que aproximam as pessoas das mensagens que pretendemos transmitir, mesmo quando queremos mobilizar para que as pessoas paguem Imposto de Reconstrução Nacional”, disse Vansela.
Ainda no que ao saneamento diz respeito, Mueda promoveu no ano passado a construção de 273 latrinas melhoradas. A ideia era que naquele período fossem concluídas 350, o que faz com que o planificado tivesse sido alcançado em 78 por cento.
Da mesma forma, 352 latrinas tradicionais foram construídas, e seguindo as recomendações do Governo foram concluídas 74 casas com base em tijolo queimado, para além da produção de 31.617 tijolos.
Mueda fabricou no ano passado 222 lajes, 98 das quais pelo sector privado e 124 através do estaleiro distrital de latrinas melhoradas.

Cipriano Afonso Kapalekoko
Pede-se mais cloro em Mueda
LÁ está! Na mesma província, há regiões designadamente da zona centro-sul, onde o cloro é uma palavra que não se deve pronunciar à toa, simplesmente porque é associado ao surgimento de diarreias e vómitos, incluindo a cólera.
Por outro lado, temos o norte, principalmente nos distritos Muidumbe, Mueda e Nangade, onde os hábitos de higiene são uma cultura que terá sido trazida das ex-zonas libertadas, no período da luta pela independência, sendo que as palavras, aterros sanitários, latrinas e cloro, são exigência que parte da própria população.
No caso das cisternas, encontramos em todos os entrevistados uma reclamação que tem como base a irregularidade na cloração da água, o que inquieta os utentes, que acham que os serviços de saúde, em colaboração com os serviços distritais de planeamento e infra-estruturas, estão a negligenciar.
Cipriano Afonso Kapalekoko pertence aos serviços atrás referidos que respondem, igualmente, pelo saneamento, foi quem acompanhou a nossa Reportagem às visitas às cisternas.
Kapalekoko, antes dos cumprimentos da praxe, foi sempre bombardeado com perguntas sobre as razões porque ultimamente não põe cloro nas cisternas, facto que era habitual em tempos não muito distantes.
“Era eu a distribuir o cloro, quer dizer, a pôr cloro nas cisternas, mas ultimamente tenho sido um pouco raro”, explicou-nos Kapalekoko, ante a nossa estupefacção.
A fonte, depois de nos revelar que as reclamações tinham razão de ser, reconheceu que nos tempos que correm a regularidade com que recebe o cloro baixou provavelmente devido ao facto de se estar numa época em que o medicamento serve mais para as zonas ora assoladas pelas diarreias agudas e cólera.
Ante essa realidade, o nosso Jornal contactou o director de Saúde, Mulher e Acção Social, Ernesto António, que explicou o que se está a passar nos últimos tempos a ponto de os proprietários das cisternas apresentarem as suas reclamações com alguma insistência.
Ernesto António disse não haver falta do produto, mas que as pessoas não se estão a aproximar do respectivo sector da Saúde na comunidade, responsável pela cloração, tendo em conta que não tem que ser toda a gente a fazê-lo.
“Nem todo o mundo está capacitado para a cloração da água, pelo que ficou sob a responsabilidade do sector da Saúde na comunidade. Provavelmente se possa colocar aqui o problema de informação, precisamos de explicar as pessoas”, disse Ernesto António.
Aquele responsável da Saúde reconheceu, por outro lado, que nos tempos que correm há prioridades a nível de toda a província em relação à utilização do cloro, mas que não é por aí que se pode concluir ser a razão por que os proprietários das cisternas reclamam.
“Temos cloro, mas no quadro das prioridades que temos, como deve ter visto, mesmo à entrada da vila temos uma sentinela sanitária, mas não quer dizer que não possamos purificar a água das cisternas. É apenas uma questão de aproximação com o sector respectivo”, concluiu Ernesto António.
- Pedro Nacuo





