Linha d'água:
Por Luís Loforte
SERVIÇO MILITAR OBRIGATÓRIO
Não tive acesso à proposta de revisão da Lei do Serviço Militar Obrigatório (SMO), mas acompanhei com atenção a sua apresentação na Assembleia da República. Pelo que ouvi, e li de forma dispersa nos jornais, não posso esconder a agradável sensação que tive de que provavelmente teremos conseguido um instrumento que nos torne a todos nós iguais perante a lei, quer no sacrifício, quer no benefício.
Todos sabemos a quem é que se tem destinado o SMO, mas talvez não tenhamos tido tempo suficiente para reflectirmos as consequências psicológicas da exclusão de outros sectores sociais deste país. Vou apenas socorrer-me de um episódio que se deu comigo, há dias, no sector de atendimento público de uma grande empresa sedeada em Maputo.
Liguei para um amigo, quadro sénior daquela empresa, pedindo-lhe ajuda para um atendimento personalizado, nomeadamente para subscrever os seus serviços. Solícito como sempre, o meu amigo recomendou-me que contactasse, ao balcão, uma rapariga “assim mista”.
Ao entrar, a minha primeira preocupação foi tentar, de imediato, descortinar a tal moça “assim mista”. De ponta a ponta, e de acordo com as nossas convenções de coloração epidérmica, só vislumbrei raparigas “assim mistas”, como “assim mistos” eram todos os homens ali presentes.
Voltei a ligar ao meu amigo, para que me desse outros imputs, se calhar mais generalistas.
Eu até nem estava a insinuar nada, ou a ser sarcástico, mas apenas preocupado com o meu objectivo. Só que ele assim o entendeu, ou não fosse ele dizer-me: “mas nem todos os dias é assim...”
Passei por uma situação idêntica há uns tempos, num voo das LAM, durante o qual deveria contactar uma assistente de bordo “mista, franzina”, na mira de uma ajuda específica.
Constatei que todas, rigorosamente todas, além de “mistas”, eram “franzinas”, como “mistos” e “franzinos” eram os comissários de bordo. Só resolvi o meu problema quando a procurei pelo nome, e não pelas características da epiderme.
Não tenho problemas em acreditar que a pessoa que me recomendou a assistente “mista, franzina” pudesse justificar-se pelo “...nem todos os dias é assim...”. Só que sejamos honestos e reconheçamos que esta pode ser a realidade de “...todos os dias” em muitos sectores de actividade do nosso país, como existe uma realidade inversa de “...todos os dias” no exército moçambicano.
Como moçambicano, alimento o sonho de um dia encontrar no exército, e em todos os sectores de actividade do meu país, todo o arquétipo social e racial que o compõe. E por isso concordo em que todos devem provar que serviram o exército de Moçambique, para poderem beneficiar do que ele preserva e promove: o emprego, a paz e o desenvolvimento.
CORREIO DA MANHÃ – 17.03.2009
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