02-05-2006

"Moçambique -Eleições Gerais de 2004 - Um olhar do Observatório Eleitoral".

Lançado livro sobre eleições de 2004
Foi lançado há dias, em Maputo, o livro intitulado "Moçambique -Eleições Gerais de 2004 - Um olhar do Observatório Eleitoral".
Com este livro os autores pretendem contribuir para a promoção e participação da sociedade civil moçambicana nos processos eleitorais.
Sugerem, ainda, um debate sobre o aperfeiçoamento e a sustentabilidade do sistema de representação política.
ZAMBEZE - 02.05.2006

30-04-2006

“A Política Educativa do Colonialismo Português em África - Da I República ao Estado Novo (1910-1974)”

A África Debate tem o prazer de convidar V. Exa para o evento abaixo mencionado:

A África Debate (www.africadebate.iscte.pt)associação de investigadores na área de Estudos sobre África, vai apoiar o laçamento, na RDP África, do livro “A Política Educativa do Colonialismo Português em África - Da I República ao Estado Novo (1910-1974)”, da autoria do associado José Guimarães, editado pela Profedições / Jornal A Página.
O lançamento será realizado na próxima 4ª feira, 3 de Maio, às 18.00 horas.
A apresentação da obra será da responsabilidade da Presidente da África Debate, Isabel Lopes Ferreira.

Do livro em apreço extrai-se o seguinte texto:

“A política educativa do colonialismo português em África manifestou uma coerência de propósitos que nunca foi alterada em função da natureza do regime que, em cada momento, a traçou e aplicou.
É assim que, apesar das profundas diferenças entre a I República e o Estado Novo, não se verificou qualquer alteração do rumo da política educativa levada à prática por aqueles regimes nas colónias portuguesas de África. A sua continuidade traduziu-se, antes, no reforço de uma prática obscurantista ao serviço da dominação colonial. É dessa política educativa que aqui se trata”.

27-04-2006

Mais um museu na Ilha de Moçambique

Foi inaugurado, Segunda-feira, 24, na Ilha de Moçambique, província de Nampula, o Centro de Conservação Marítima.
A empresa Arqueonautas tem como objectivo identificar, localizar e proteger bens culturais naufragados em águas territoriais moçambicanas, formar quadros locais, preparando especialistas para áreas profissionais ligadas à exploração oceânica e a exposição dos objectos recuperados.
O administrador delegado da “Arqueonautas Worldwide S.A, Niki Sandizell,” disse na cerimónia de inauguração do museu que “os nossos objectivos só poderão ser considerados concretizados quando a população da Ilha de Moçambique, da província de Nampula e os turistas que visitam esta ilha puderem ver expostos esses
objectos no Museu da Ilha de Moçambique, nomeadamente no Museu da Marinha”.
Por seu turno, Jacinto Veloso, Presidente da Património Internacional referiu na cerimónia que contou com a presença de diversas personalidades, com particular destaque para o administrador da Ilha de Moçambique, presidente da Associação dos Amigos da Ilha de Moçambique, director do Museu da Ilha de Moçambique, entre outras.
Celso Ricardo, na Ilha de Moçambique
ZAMBEZE - 26.04.2006

Para lembrar:
http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/files/como_alguns_patriotas_moambicanos.doc

21-04-2006

Sufiante lança livro no “Camões”

O Instituto Camões-Centro Cultural Português acolherá nas suas instalações, no dia 12 de Abril do corrente ano, o lançamento da obra de Assane Sufiane intitulada Troca de dívida por activos: o exemplo da dívida de Moçambique a Portugal.
A obra será apresentada por Jochen Oppenheimer, Professor Catedrático do Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade Técnica de Lisboa.
-Sobre o livro
A troca de dívida por investimentos é um dos mecanismos que os países com dívida externa elevada, e não só, têm estado a utilizar para aliviar o peso da dívida e captar investimento directo estrangeiro.
Para a sua efectivação, o processo envolve três intervenientes: o país credor, o investidor e o país devedor. A articulação entre estas partes do triângulo é o objecto de estudo deste trabalho, considerando o caso da dívida externa de Moçambique a Portugal.
Para o caso estudado, este mecanismo envolveu, entre os activos a serem trocados por dívida, empresas moçambicanas a serem privatizadas para além de aplicações financeiras para a criação de novas empresas ou em investimentos de melhorias já existentes.
O presente trabalho descreve e analisa esta operação de debty-equity swap, tendo em atenção a rentabilidade das operações por parte das empresas compradoras da dívida, o seu impacto sócio-económico no terreno e os ganhos ou prejuízos dos dois países envolvidos.
O trabalho analisa onze operações envolvendo nove empresas. As operações analisadas tiveram lugar nos anos de 1993 a 1999 envolvendo no total treze projectos de investimento.
Entretanto, Assane Sufiane nasceu em 1963 em Lichinga – Província do Niassa. Foi estudante em Cuba de 1977 a 1981.
É licenciado em Administração e Gestão de Empresas pela Universidade Católica de Lisboa e Mestre em Desenvolvimento e Cooperação Internacional pelo Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade Técnica de Lisboa.
SAVANA - 10.04.2006

18-04-2006

Historiador moçambicano distancia-se da Linha Oficial

por João Cabrita

Título: Escapar aos Dentes do Crocodilo e Cair na Boca do Leopardo
Autor: Yussuf Adam
Editora: Promedia (Maputo, 2006), 478 pp ; 150,000MT

A tese de doutoramento do historiador moçambicano Yussuf Adam, defendida na Universidade de Roskilde, Dinamarca, acaba de ser publicada em livro, com o título, Escapar aos Dentes do Crocodilo e Cair na Boca do Leopardo. É um trabalho originalmente publicado em inglês em 1996, e que trata da "evolução do quadro sócio-económico em Moçambique após a independência”. Adam apoia-se em três factores distintos, designadamente as estratégias de desenvolvimento e políticas complementares seguidas pelo governo da Frelimo, a ajuda externa prestada ao país, e a chamada "desestabilização".
Leia em:
Download escapar_aos_dentes_de_crocodilo.doc

17-04-2006

Almeida Santos escreve livro

Almeida_santos09
O ex-presidente da Assembleia da República e presidente do PS, Almeida Santos, anunciou ontem em Maputo o lançamento para breve de um livro sobre as suas memórias da “vivência da era colonial” e da descolonização.
“O livro já está escrito, espero que a verdade seja reposta”, disse Almeida Santos, referindo-se à imagem negativa da descolonização que admitiu existir em “muitos portugueses”.
CORREIO DA MANHÃ - 16.04.2006

16-04-2006

Centro de Estudos Brasileiros presidido por moçambicano pela 1ª vez

O escritor e jornalista Calane da Silva tornou-se esta semana no primeiro moçambicano nomeado para o cargo de director do Centro de Estudos Brasileiros (CEB), através de concurso público, o que também acontece pela primeira vez.
Em comunicado de imprensa, a Embaixada do Brasil em Maputo refere que abriu a possibilidade de os moçambicanos ocuparem a direcção do CEB, com o objectivo de "reforçar a irmandade entre os dois países, no espírito da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa" (CPLP).
Antes desta inovação, os directores do CEB eram seleccionados no Brasil, sublinha a mesma nota de imprensa.
O CEB desenvolve em Moçambique várias iniciativas de âmbito cultural e académico, destacando-se o "Programa Convénio Estudantes", que permite aos estudantes moçambicano fazerem cursos de graduação e pós-graduação nas universidades brasileiras.
No quadro desse programa, o CEB seleccionou este ano 13 candidatos a cursos de licenciatura, de entre 16 concorrentes, e 15 para cursos de pós-graduação, de 27 inscritos.
NOTÍCIAS LUSÓFONAS - 14.04.2006

13-04-2006

MISSA PAGANIZANTE de LADRÕES da ESCRITA

Conto Pindérico
de João Craveirinha

MISSA PAGANIZANTE
de LADRÕES da ESCRITA

“A Tico Dji Bolili, A Kê Ê Na Nau!”
(Provérbio ronga com mais de 100 anos. Tradução: - o País caiu na podridão, já não há respeito!)

Na savana ausente de ideias e de cócoras, um candidato a escriba de jornais, próximo de uma barraca de cerveja, vai recopiando textos alheios. Em simultâneo, copioso se espuma no esforço de olhar de amiúde o fundo da garrafa em busca de ideias ausentes que tardam em surgir para iluminar o “galo” inchado luzindo, no alto do seu corocoto, coroca, da última queda das suas incursões nocturnas ao som da shigumbaza na discoteca improvisada do John Muzamba, refugiado da Serra Leoa, ali p’rós lados da Polana Caniço.

Leia tudo em:
Download missa_paganizante_de_ladres_da_escrita.doc

Em Moçambique – Plágio de personagem de romance de João Craveirinha (parte 2 e última)

(em debate no mocambiqueonline)
…………………………………………..
…Plágio de personagem de romance de João Craveirinha mas também insulto na caricatura ao Poeta José Craveirinha na figura do Sogro…poeta e jornalista…subentendendo-se nas entrelinhas do texto…com clareza!
…………………………………………..
O texto em questão e respectiva análise comprovativa:
………………………………………….
SAVANA Maputo 24.03.06
Missa Pagã
Por Fernando Manuel
O meu sogro é jornalista

Eu tenho dezanove anos de idade e estou perdidamente perdida por um moço quatro anos mais velho do que eu, não é bonito de cara mas tem um corpo maravilhoso, flexível como uma haste de bambú ao vento e uma alegria e beleza de alma que me põe quase que louca, de tão transtornada de prazer.
Chamo-me Jezzebell.
Ele chama-se Tiago. Completo é Santiago Gonera Samuel. Define-se como “um criativo”, é irriquieto pôca, tem curso médio de design pela Escola Nacional de Artes Visuais e já tentou tudo na vida: “Jezze”, diz-me, quando o recrimino, timidamente, sobre o seu modo de vida, ele que é tremendamente temperamenal, explosivo mesmo (já comprou e vendeu cama, já comprou e vendeu DVD’s, já ajudou os pais em enrascadas de pagamento de energia e água mas nunca pára – “Jezz”, diz-me ele, “eu preciso de dinheiro para fazer arquitectura. O kôta teu sogro, meu pai querido, mal se aguenta nas canelas para nos dar de comer. Eu preciso de me virar”.
Diz isto com um sorriso distraído e olhar a vasculhar as profundezas dos meus olhos e ri-se. Ri-se de forma tão franca, honesta e livre que, sem eu o querer conscientemente, ponho-me também a rir e ele abraça-me e beija e… “Jezzebell, je t’aime”. Melhor do que isto, dito pela sua voz precocemente rouca, só morango com chantyly…
…E gosto da minha sogra. Poderá vir a sê-lo?
Sei lá! Ela é tão exigente! Outro dia mandou-me fazer os preliminares para fazer uma mathapa com caranguejo. Significando: pilar a mathapa com alho junto qb, ralar o coco, pilar o amendoim, cozer o caranguejo em água e sal e deixar tudo a postos, cada ingrediente na sua tigela.
Saí-me mal: ela olhou para aquela confusão toda e disse, severa: “é essa porcaria que você quer dar ao meu filho, para comer quando estiveres casada, senhora doutora? 0 meu filho não come diplomas. Vá lá para a sala ver a porcaria dos filmes de Jean Claude Van Damme. E, se você casar com o meu filho, eu corto uma parte do meu clítoris e dou de prenda”.
Suspiro:
“Mas eu perdoo. Tenho 19 anos e estou perdidamente apaixonada por um de 23, não tenho culpa de não saber fazer mathapas Tanto mais que, de facto, o que me fascina naquela casa é a figura do meu sogro: magro, de pele extremamente clara (será anémico, pergunto, sempre que o vejo, mas pergunto em silêncio a mim própria) nada mais que 1,65 metro de altura nos seus 53 anos de idade, lábios frementes, o rosto feito um pergaminho de chocolate museu de rugas de perenes perguntas sobre a vida, de tronco nu, calções e descalço, na cozinha, de dia ou de noite, afogado no meio de livros e revistas e jornais, com os óculos de lentes mais grossas que o fundo de um garrafão de 20 litros de capacidade – já cá não se fazem – a ler, ler, ler, a levantar os olhos cuja íris não se vê por detrás de lentes que tais a responder, distraidamente, “oh, olá Deolinda” eu a dizer “não sou Deolinda, pai, eu sou a Jezzebell, namorada do teu terceiro filho, ele ah, vocês são iguais…”
Depois tira os óculos, olha para mim fixamente, esfrega o cano do nariz, que tem finas gotículas de suor húmido e acrescenta, com um sorriso belo, infantil, fresco como as pétalas de uma flor – qualquer que seja – numa manhã de orvalho em Maio e diz: “seja como for, tenho muito orgulho nos meus filhos. Eles têm bons gostos. És muito linda. Como é que disseste que te chamas?”.
“Jezzebell, pai.”
“Jezzebell. Tudo em ti é bonito. O que é que gostarias de ser quando adulta?”
“Uma versão mais apurada de jornalista.”
“E isso vem a ser o quê, Jezzebell?”
“Poetisa, pai!”
“Isso é pura loucura. Mas admiro a tua coragem. Sê feliz, poetisa.”
“O que me deseja é impossível, pai. Eu sei. Um poeta nunca é uma pessoa feliz. Mas eu assumo essa loucura. Só espero que me não faça perder o meu grande amor. O seu filho”.
“Jezzebell: os grandes amores nunca se perdem.”
“Pai: vou pedir à mãe Magadzi para me ensinar a fazer mathapa com caranguejo e arroz de coco. Agora vou deixá-lo. Estou a ver que está a ficar impaciente. Está a ler o quê mesmo, pai? Ah: Viver Para Contá-la. Gabriel Garcia Marquez. Hum, hum…”
“Hum, hum, hum… Jezzebell.”
“Hum, pai.”
Eram 3 da manhã, chovia, a casa era de madeira e zinco e se calhar nem era ninguém, e ninguém sabia se eram lágrimas de dor, gotas de chuva ou pura empatia de gozo, o simples gozo de se sentir que se está vivo:
“Amo-te muito, Jezzebell”, eram 5 da manhã e continuava a chover
“Eu também, pai! Mas como é que vou dizer isso ao teu filho ?…”

Autópsia do plágio ou imitação ordinária…

Intróito

Em propaganda (acção psicológica), utilizam-se técnicas de injúria mais ou menos disfarçadas. A escola e a técnica são as mesmas para dissecar um texto quer em literatura quer em jornalismo quer em discurso político ou quer ainda num panfleto de agitação. É só estar-se atento na leitura e aprofundar todos os subentendidos escondidos mas sempre visíveis para quem for bom observador. Uma espécie de gato escondido com a cauda de fora. Em todos os casos é necessário uma releitura atenta e lenta, cuidada e com perspectiva indo mais fundo na intenção da mensagem. A base sempre é uma acção psicológica sobre o leitor e não é por acaso que em todas as campanhas de marketing ou políticas ou em guerras o factor psicológico de alienação de massas tem um papel muito secreto, meio invisível. Dependerá também de mais ou menos talento dos escribas na limpidez da mensagem ou então encriptada (codificada) somente para o destinatário ou alvo a atingir reconheça ser a “vítima” e sua possível reacção para gerar polémica. Cabe ao lado dos técnicos da contra – propaganda ou contra-informação desmontar essa teia maquiavélica e expor a trama mesmo que apareça aparentemente inocente e sem intenção.

Houve alguma hesitação em reagir. Mas o caminho é para a frente.

Dentro destes considerandos se enquadra o plágio da personagem do romance Jezebela – Jezy imitados com malícia jocosa por Fernando Manuel do Savana para parodiar depreciativamente com a figura do poeta José Craveirinha (na sua macheza), através do autor do Romance Histórico Jezebela – O Charme Indiscreto dos Quarenta – Crónica de uma Mulher….
O autor de Jezebela por sinal não é “magro” nem tem nora…
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Excerto de Citação : Missa Pagã
Por Fernando Manuel - O meu sogro é jornalista

…”o que me fascina naquela casa é a figura do meu sogro: magro, de pele extremamente clara (será anémico, pergunto, sempre que o vejo, mas pergunto em silêncio a mim própria) nada mais que 1,65 metro de altura nos seus 53 anos de idade, lábios frementes, o rosto feito um pergaminho de chocolate museu de rugas de perenes perguntas sobre a vida, de tronco nu, calções e descalço, na cozinha, de dia ou de noite, afogado no meio de livros e revistas e jornais, com os óculos de lentes mais grossas que o fundo de um garrafão de 20 litros de capacidade – já cá não se fazem – a ler, ler, ler,”… fim de citação…

A descrição física não é a de um homem de 53 anos…mas de um ancião perto dos 80 anos…Trata-se no fundo de uma provocação sem mesmo servir a carapuça não se podia deixar impune sem denúncia…este insulto camuflado à memória do Poeta José. E num estilo vexatório para qualquer pessoa mais velha. Quando o Fernando Manuel chegar à idade proveta a ver se gostará de ser achincalhado pela idade mesmo agora com velhice precoce…em África antigamente um ancião era respeitado por ser um conselheiro …la Va ku Tsinya…pois a idade era sinónimo de sabedoria e havia que respeitar aos mais velhos… mas hoje caminhamos cada vez mais para sermos imitadores baratos do lixo dos outros…em nome da dita globalização da ordinarice…

Regressando ao tema (excerto):
…“O que me deseja é impossível, pai. Eu sei. Um poeta nunca é uma pessoa feliz.”
…outra malícia disfarçada…em alusão ao Poeta José…

O nome da personagem:

1. Quase todos os nomes modernos provem de nomes da Bíblia Hebraica do Antigo Testamento dos Cristãos e dos Muçulmanos…como por exemplo Manuel, José, João, Maria, Paulo, Zacarias etc., e por suposto Jezebel que o autor João C. adaptou do hebraico (nome comum) e não da Bíblia…somente pela sonoridade do nome…Jeze + bela… no entanto não existe nenhuma Jezy em lado nenhum. É um produto da criatividade de JC no Romance…

2. Em literatura pode haver coincidências mas nunca neste caso…pois a prova é a forma como é escrito o nome de Jezebela – Jezy, no diminutivo que é uma invenção do autor João Craveirinha …não existe em nenhum lado nem em nenhuma Bíblia. A personagem (como escreveu Fernando Manuel) – “Jezzebell / “Jezze”,/ “Jezz”, é um plágio barato depreciativo…num texto sem estrutura literária em que se misturam alhos com bugalhos sem base de cultura geral sustentável…exempli gratia: - “porcaria dos filmes de Jean Claude Van Damme.” Com …”Está a ler o quê mesmo, pai? Ah: Viver Para Contá-la. Gabriel Garcia Marquez. Hum, hum…” Pobre Garcia Marquez misturado fora de contexto…

3. Outra citação retirada do texto:
...“Uma versão mais apurada de jornalista.”
“E isso vem a ser o quê, Jezzebell?”
“Poetisa, pai!” ...

Valham-nos as Musas do Parnaso...desde quando que uma versão apurada de jornalista dá Poeta (isa)...mesmo em ficção?

É que antes de ser jornalista 1º tem de se ser repórter mas em Moçambique todo o mundo já é jornalista...cronista etc e tal…
Em tudo na vida há hierarquia e níveis de valor...e de muito traquejo, experiência, perícia, como dizem os comentadores dos Futebóis…mesmo entre os que escrevem há hierarquia e deveria haver respeito mútuo mesmo assim…temos os mesmos direitos cívicos, sociais e humanos aí somos iguais (ou devíamos ser)...as capacidades essas nunca são iguais numa "tabula rasa" (tábua rasa horizontal) nem na aplicação da Justiça...e em Moçambique ainda há os resquícios do slogan da igualdade que nunca existiu nem na China na era de Mao Tse Tung … apesar da propaganda e Moçambique igual... é como no Animal Farm de George Orwell – “uns animais são mais iguais que outros”…apesar de se pensar que todos os animais eram iguais…com a Revolução dos porcos...mas não era bem assim…no Animal Farm...

4. Na interpretação de um texto baseamo-nos sempre na busca comparativa de silogismos, metáforas, simbolismos e outras formas de analogias…mas temos de ter sempre uma percepção de qual a intenção do autor com esse texto…a mensagem… Fundamentalmente é básico como ao lermos uma simples mensagem ou bilhete…há sempre um alvo a atingir…uma dica…

5. A regra de análise é a mesma em qualquer forma de interpretação textual discursiva – a síntese do main lead dos 5 W’s + 1…até no interrogatório policial moderno é a mesma regra ou na recolha de informações resumidas seja para o que for ou em jornalismo ou apontamentos para consultar mais tarde: - Paradigma: -

1. What? (O quê?) = Texto Missa Pagã – O meu sogro é jornalista
2. Why? (Porquê?) = Atingir Poeta José Craveirinha via João C.
3. Who? (Quem?) = Por Fernando Manuel
4. Where? (Aonde?) = Em Moçambique
5. When? (Quando?) = semanário SAVANA, Maputo 24.03.06
+ 1 How? (Como ?) = Divulgação
……………………………………………………………….

Síntese final:
Fernando Manuel do jornal Savana em Maputo, plagiou intencionalmente a personagem do Romance “Jezebela (Jezy) – o Charme Indiscreto dos Quarenta – Crónica de uma Mulher” (ver anexo crítico). Plágio de personagem e pior deturpando a temática mais séria do romance histórico (de João Craveirinha) e biográfico (inédito) … Este romance foi classificado no Brasil em 2006, como o Romance da Lusofonia … e não está à venda em Moçambique por enquanto (infelizmente) …Está à venda na Alemanha, Suécia, Brasil e Portugal.………………………………………………………………………………
E o assunto encerra por aqui…nesta magnífica Escola e Laboratório Moçambicano de Sociologia Política e de Usos e Costumes que é o Moçambique On Line*…
* Forum de Moçambicanos na internet

30-03-2006

MOÇAMBIQUIZANDO de Delmar Maia Gonçalves

Moambiquizando_capa_1
MOÇAMBIQUIZANDO... Logo eu?
Em Moçambique entra-se pelo Índico... disse-me há dias um homem de olhos cor de pátria antiga, percorrido por pérolas de vegetação nas palavras sérias...
Eu disse-lhe, assim calado como um pássaro sentado aos pés de uma pedra, que costumo entrar pelo ar dentro das pessoas, indo com elas em barcaças frágeis, digo que isso são afectos ou talvez quem sabe é apenas uma arte, a de respirar?... Entrei em Moçambique, disse eu com meu ar de pedra aos pés de uma ave, pelos olhos do Delmar, o poeta, aquele que ali está, kanimambo vida que mo trouxe aos meus sentidos...
Eu que já estive em África, que tenho uma irmã que nasceu em África, sei tão pouco, nada de África... O que sei de Moçambique? Que me disseram para nele entrar pelo Indico e eu estou nele pelo sentir, que tem uma das campanhas mais bonitas de que ouvi falar, aquela de transformar armas em enxadas (ai quem me dera que no meu país as armas não estivessem tão apontadas e as enxadas dessem o pão a cada um e a todos um poema pão e o pão dos poemas fosse a nossa enxada, a nossa arma...).
E de repente, aqui me põem, as nuvens à cabeça, escrevendo sobre um livro que tem África no sangue brando... Depois, descubro com facilidade: isto tem a ver comigo... A poesia é mestiça, pois não há palavra negra nem vocábulo branco, nem se faz de cores primárias as palavras almas dos poetas... Depois há esta doçura de falar poetizando, no poetiz Delmar — o mesmo que quando me fala parece dizer: olha que tenho medo de dar um grito abafado —; e ao mesmo tempo, há uma tão estonteante e sábia crítica, uma agressividade que nunca comete agressão, uma exaltação que nunca é raiva, uma apreciação que é mais discernimento, uma pátria a bulir por dentro que não contém uma só fronteira...
A poesia é mestiça, irmã! Vê bem o que é isto, irmão, olha o poema que é de cor em cor! Não quero falar do livro, lá dentro, o livro que nos ficará cá dentro, sou como os makondes que sabem que havendo uma aura de mistério e segredo rodeando a preparação das máscaras e a dança propriamente dita, sendo por exemplo importante que não se saiba a identidade do dançarino, todos querem ficar para descobrir. Oxalá que sejam muitos os que querem ficar nestes poemas, com estes poemas. E que fique eu calado como um pássaro sentado aos pés de uma pedra, a entrar pelo ar dentro das pessoas, para que seja o poema a ouvir-se e não o amigo que aqui o apresenta...
Alexandre Honrado

Monólogo de um Mestiço

O bode expiatório

Porque teria
de preocupar-me
com os mestiços?
Não serão eles
tão racistas como os negros?
E se, não são como estes
o que importa, se são
igualmente tão racistas
como os brancos?
Não serão eles os mais
revoltados que estão contra
tudo e contra todos?
Que confiança poderia
Depositar numa mente híbrida?
Que sociedade teria
espaço para um banido?
Já percebi a raiz de todo o mal!
Já percebi o porquê
de tanto sofrimento nestas sociedades!
E por isso vos peço, por favor
brancos e negros!
Decretem o fim dos mestiços
Promulguem e aprovem a lei
anti-mestiçagem!
Mas céus! Não sem antes
exterminarem os seus criadores!
Para que então a morte
seja justa.
Afinal, não é tão
importante moralizar
a morte nestas sociedades?

Lisboa / Madoma, 23 de Outubro de 2001
Inédito
Contacto: minerva_dna@netcabo.pt

Arquivo Histórico de Moçambique

Degradação do edifício põe em risco arquivos
Infra-estruturas destruídas, casas de banho avariadas, inundações decorrentes de esgotos entupidos, documentos danificados, águas negras dentro das instalações, paredes do edifício húmidas, passagem de corrente eléctrica deficitária e funcionários debilitados completam o quadro negro do iminente desastre à vista nas instalações do «Arquivo Histórico de Moçambique» disse o respectivo director Joel das Neves Tembe em entrevista ao «Canal de Moçambique». Mas tudo indica que em Dezembro possa haver solução que se estima venha a custar cerca de 700 mil Euros, sensivelmente 1 milhão de USD. Até lá muito da História poderá perder-se. Uma nova morada poderá ser a solução.
Joel das Neves Tembe, disse ao «Canal» que o edifício do Arquivo Histórico de Moçambique está “doente” quanto às infra-estruturas físicas, mas o mais grave ainda é que a conservação de vários documentos ali depositados e de valor inestimável corre o risco de não poder ser feita e tudo aquilo se perder.
“Os problemas de deterioração do edifício como também de documentos acentuam-se cada vez mais”, disse.
O apelo do director do «Arquivo Histórico de Moçambique» não é novo, como também não é nova a indiferença. Só as sucessivas promessas de vontade política, repetidamente apregoada, de se combater o «deixa andar», nos impele a associar o «Canal» àquela instituição que, tanto de valor tem feito pelo futuro conhecimento do passado.
Segundo Tembe, como alternativa à degradação, paulatinamente crescente, optou-se por arranjar-se um espaço dentro daquele edifício que ainda apresentava boas condições; relativas boas condições. No entanto, ainda conforme Tembe, aquilo que era o tal espaço alternativo começa também a ficar afectado e já, daqui a algum tempo esse espaço também vai deixar de ser útil.
O cenário das instalações do «Arquivo Histórico» está tão negro que as paredes das diversas salas apresentam-se com rachas, fungos e tinta a escamar-se. Algumas salas já não têm soalho e há águas negras a correrem para além do próprio tecto apresentar fissuras. O grande problema é que as instalações do «Arquivo Histórico» situam-se no rés-do-chão e na cave dum prédio que por sinal tem deficiências de manutenção, e, consequentemente, todo o sistema de canalização de água para consumo e de esgoto, em geral de todos os andares acima, desagua nelas.
Segundo o director do Arquivo Histórico de Moçambique, devido à situação que estão a passar de momento, viram-se na obrigação de desenhar dois cenários transitórios de remoção do pessoal do edifício e de transferência da documentação importante, até Dezembro do ano em curso, para outras instalações, na baixa da cidade.
“A iminente situação no Arquivo Histórico de Moçambique obrigou-nos a desenhar dois cenários transitórios de remoção do nosso pessoal do edifício e de transferência de documentação importante, até Dezembro próximo, para futuras instalações na baixa da cidade”, garantiu.
Neves adiantou a dado passo que estão em vista planos futuros no sentido de transferir as instalações do Arquivo Histórico de Moçambique para a baixa da cidade, mais precisamente para a Rua de Timor Leste, ao lado das instalações onde funcionam as «Alfândegas».
Segundo Neves a transferência do «Arquivo Histórico de Moçambique» para a nova morada atrás referida acontecerá na base de um protocolo entre Moçambique e Portugal e em parceria com o Instituto Português de Acção e Desenvolvimento (IPAD) e a Universidade Eduardo Mondlane (UEM), processo orçado, numa primeira fase, em 700 mil euros, cerca de 1 milhão de usd.
Num outro desenvolvimento, Joel das Neves disse ao «Canal» que os funcionários, investigadores e leitores do Arquivo Histórico de Moçambique estão expostos a péssimas condições de trabalho derivadas não só da degradação atrás referida, mas também pelo facto de não existirem gabinetes para que aqueles possam exercer as suas actividades.
“As condições de trabalho que o Arquivo Histórico de Moçambique oferece aos funcionários, investigadores e até leitores são péssimas”, desabafou.
A fonte disse ainda que “os cerca de dois mil milhões de meticais, que a Universidade Eduardo Mondlane (UEM) injecta anualmente como bolo orçamental, é irrisório, porque não dá para fazer face às necessidades da casa”. “Temos enormes necessidades e o bolo orçamental é irrisório de tal forma que não dá para cobrir as nossas despesas”, concluiu Joel Tembe.
Conceição Vitorino - CANAL DE MOÇAMBIQUE - 30.03.2006

NOTA:
Antes de comentar transcrevo a notícia abaixo e que o MOÇAMBIQUE PARA TODOS transcreveu em 14 de Fevereiro de 2005:
Portugal apoia com 600 mil euros reabilitação de Arquivo Histórico de Moçambique
Portugal vai apoiar com mais de 600 mil euros a reabilitação do Arquivo Histórico de Moçambique (AHM), num projecto que visa a adaptação de um edifício a oficinas de micrografia e restauro de três depósitos históricos do país.
Um acordo de parceria entre a cooperação portuguesa - através dos institutos de Apoio ao Desenvolvimento (IPAD), do Livro e das Bibliotecas (IPLB), dos Arquivos Nacionais/Torre do Tombo (IAN/TT) e do Património Arquitectónico (IPPAR) - e a Universidade Eduardo Mondlane (UEM) será quarta-feira assinado em Maputo.
O acordo tem em vista o apoio à revitalização do maior depósito histórico de Moçambique, numa extensão de 26 quilómetros de estantaria de documentos nos três edifícios contemplados.
O director do Arquivo Histórico de Moçambique, Joel Tembe, disse hoje à Agência Lusa que o valor destina-se a execução de um projecto de arquitectura, de especialidade, fiscalização e adaptação de um edifício a oficinas de micrografia.
No âmbito da reabilitação do AHM, a UEM decidiu desactivar o edifício sede por não oferecer condições para o restauro e englobá-lo num dos três estabelecimentos a serem reabilitados com fundos portugueses e que passarão a funcionar como centro de investigação científica, referiu Joel Tembe.
Aquele responsável disse ainda que a UEM pretende informatizar as bibliotecas e instalar um programa de computador, avaliado em 200 mil euros, que permitirá a digitalização de todo AHM, numa iniciativa que se enquadra num outro projecto que contará com o apoio do governo do Japão.
"Pretendemos combinar as tecnologias, o que se traduz na aquisição de novas técnicas de informação digital combinadas com a microfilmagem, que é uma mais valia por poder conservar os filmes, em média, durante 500 anos", sublinhou.
Durante a sua presença em Moçambique, o IPLB e o IPPAR irão oferecer equipamento informático à Casa Museu José Craveirinha, em Maputo.

Agência Lusa - 14.02.2005

Assim, resta-me lançar um desafio ao CANAL DE MOÇAMBIQUE: Saber se Portugal não honrou este compromisso ou, se o honrou, saber onde está o dinheiro e desde quando. Será que está a render juros durante um ano ou dois até que seja disponibilizado?
Fernando Gil
MACUA DE MOÇAMBIQUE

29-03-2006

Wikipédia em língua tétun / iha lia-tetun

Finalmente temos aquilo que queríamos: já foi criada uma Wikipédia em língua tétum!

http://tet.wikipedia.org

Apesar do reduzido número de artigos em tétum da versão-piloto -- para minha surpresa --, os "developers" (os técnicos de informática que gerem o sistema) decidiram criar, desde já, esta nova Wikipédia.
Ou seja, agora é a sério. Já não se trata de uma versão de teste! Pelo que é de esperar um maior empenho de todos na criação de novos artigos em tétum.
Às pessoas a quem fiz chegar alguns pedidos de tradução, agradeço que me enviem as versões em tétum dos textos logo que possível para que eu os coloque "on-line". Sendo possível, o ideal será também que todos se registem nesta nova Wikipédia. Quem tiver dificuldade que me contacte e eu ajudo.
Peço também a todos que divulguem este iniciativa, principalmente junto dos timorenses, em Timor-Leste, em Portugal, na Austrália, na Indonésia ou onde quer que seja. E que todos ajudem nesta empreitada! Sim, porque esta enciclopédia livre é, acima de tudo, dos timorenses e para os timorenses. Eu fui apenas um português que ajudou a lançar esta iniciativa e que nunca poderei ter um envolvimento muito activo, pela simples razão de que não domino a língua tétum.
Um abraço a todos!
Manuel de Sousa
Porto, Portugal
manuel.sousa@tvtel.pt

27-03-2006

Borges Coelho vence edição de 2005

PRÉMIO JOSÉ CRAVEIRINHA DE LITERATURA

O escritor João Paulo Borges Coelho foi proclamado o vencedor do Prémio Nacional José Craveirinha de Literatura 2005, com a sua obra «As visitas do Dr. Valdez», segundo uma decisão do júri presidido pelo Professor Doutor Loureço do Rosário.

O Prémio Nacional José Craveirinha de Literatura 2005 vai ser entregue amanhã, terça-feira, dia 28 de Março de 2006, pelas 16:00 horas, numa cerimónia a realizar-se na sede da AEMO, sita no cruzamento das avendas 24 de Julho e Amilcar Cabral, em Maputo.

O concurso é promovido anualmente pela AEMO – Associação de Escritores Moçambicanos, com o patrocínio da HCB – Hidroeléctrica de Cahora-Bassa, SARL. Borges Coelho vai receber por este galardão o equivalente a cinco mil dólares norte-americanos.

O júri foi constituído pelo Professor Doutor Lourenço do Rosário, na qualidade de presidente, e pela Dra. Julieta Langa, pelo Dr. Artur Bernardo Minzo, pela Dra. Olga Pires e pelo Dr. Manuel Tomé, este último em representação do Conselho de Administração da HCB.

A atribuição do prémio ao trabalho de Borges Coelho baseou-se na inovação literária, no classicismo literário, no equilíbrio e harmonia narrativa, no domínio da língua e da escrita literária, na riqueza do conteúdo e representação de vários saberes, nomeadamente históricos, políticos, antropológicos e culturais.

Maputo, 27 de Março de 2006

24-03-2006

Mia Couto e Paulina Chiziane na Feira do Livro em Turim em Maio

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Chiziane
Os escritores moçambicanos Mia Couto e Paulina Chiziane vão participar na Feira Internacional do Livro de Turim, Itália, entre 04 e 08 de Maio, numa edição que homenageia a língua portuguesa.
O encontro, em que Portugal participará como país convidado de honra, contará com a presença de diversos autores de Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP).
Mia Couto disse que, durante a feira, os autores farão a apresentação de excertos de suas obras, seguindo-se "debates informais" sobre os mesmos livros, que serão escolhidos pelos organizadores do evento.
Em simultâneo com a realização da feira, que é uma das mais importantes da Europa, Turim vai ser a Capital do Livro do Mundo, uma distinção atribuída pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) a uma cidade com uma rica tradição cultural.
Mia Couto, autor de "Último Voo do Flamingo" tem mais de duas dezenas de livros traduzidos, o que o torna o escritor moçambicano de maior projecção, juntamente com Paulina Chiziane, a autora do romance "Niketche", recentemente adaptado para o teatro.
NOTÍCIAS LUSÓFONAS - 23.03.2006

22-03-2006

80 Anos – 80 Obras

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Irmã Gabriela
Exposição de Pintura da Irmã Gabriela
Biblioteca Municipal, de 18-03-2006 a 16-04-2006


Local Biblioteca Municipal
Data de 18-03-2006 a 16-04-2006
Horário 2ª a 6ª – das 11h00 às 19h00
Sábado, Domingo – das 15h00 às 20h00
Contactos Fax: 22 374 56 79
Morada Rua de Angola, 4430-014 VILA NOVA DE GAIA
Telefone 22 374 56 70
Email bmgaia@gaianima.pt
Preço Entrada livre

Caros amigos,
Em 2006 estou a viver oitenta anos que Deus me concedeu.

“O tempo da alma não se conta.”Camilo Castelo Branco

Uma data aberta ao meu Público com a Arte, já que foi este o dom de Deus que mais marcou, desde criança, a minha vida em Missão.
Nascida nos intervalos das várias Temáticas, que já foram aparecendo, formei ao longo de muitos anos, uma Colecção de quadros muito diversificada. Não duvido que seja insignificante. É. Mas toda surgiu em momentos especiais de contacto com a vida humana, a paisagem e naturezas várias.
Foi um olhar da alma e do coração. O instante da surpresa que nos surge e a que damos forma com grande encantamento.
Em cada quadro a emoção, a entrega interior em tempo de grande concentração.
Ao longo desta Exposição, a Todos acolherei com o afecto de um coração que muito sente cada Pessoa que, com alegria e em jeito familiar, se abeira de mim há tantos anos já.
Irmã Gabriela

Dados Biográficos

Nasceu em 1926 na cidade da Beira, mantendo a nacionalidade portuguesa. Iniciou aos oito anos a sua preparação artística com a noção de uma responsabilidade que lhe era inata e da qual nunca mais se separou. Radicou-se criança ainda, em Lisboa, onde frequentou e concluiu o Curso Geral dos Liceus. Muito conscientemente, em 1946, consagra-se a Deus na Congregação das Irmãs Doroteias.
Embora a expansão da arte não seja o carisma específico deste Instituto, tendo em conta esta vocação de artista, achou seu dever respeitá-la e proporcionar-lhe as condições adequadas para um trabalho sério em função de um Apostolado que, por ser Arte, é essencialmente espiritual. Teve por Mestres os Pintores Emmérico Hardwich Nunes e domingos Rebelo, mantendo por muito mais tempo o contacto com este. Foi subsidiada pela Fundação Calouste Gulbenkian em viagens de estudo, com incidência em Paris –o berço do Impressionismo.
A pedido do público e do seu mestre e amigo Domingos Rebelo, expõe pela primeira vez em 1966, no Palácio – Foz, em Lisboa, com inteira aprovação da Superiora Provincial.
Com raras excepções, o seu movimento de Arte incide em Exposições Temáticas.

“Aquela criança de olhos azuis, cor de céu, revelaria, desde muito cedo, o seu “tesouro de virtualidades” ao desabrochar precocemente para a Arte.
Sendo essa a “ (…) grande riqueza de cada ser anímico amanhecente”, a Irmã Gabriela viria a abraçar, por fidelidade aos seus desígnios mais profundos, as suas grandes paixões que, envoltas num harmonioso conjunto de critérios, viriam a ser assumidos por dupla vocação: a vida religiosa e a pintura. (…)
Ao falar-se da Irmã Gabriela torna-se obrigatório citar o meio ambiente que a envolve: a Quinta do Sardão. Sendo o seu espaço de acolhimento é, também, um lugar privilegiado a propiciar reflexões e emoções. A Irmã Gabriela tem, ali, na sua oficina “um casulo”, onde medita, delineia e pinta. Um oásis onde, por vezes, sacia-se com o vento brando da aragem, dos eflúvios exalados das árvores em flor, do gorjeio das aves que ali têm o seu habitat e pernoitam depois de trinados e chilreios. Até o rouxinol que arriba de Abril a Outubro vem fruir aquela ambiência e agradece com o seu canto ímpar. (…)

Parabéns à Irmã Gabriela pela festejada efeméride, rejubilando pelos oitenta anos que mantém de invulgar frescura.

Afectuosamente, felicito-a ex imo pectore.”
António Joaquim
2006

20-03-2006

Novo álbum de João Afonso inclui inédito de Zeca Afonso

Lisboa, 19 Mar (Lusa)
João Afonso canta um inédito do seu tio Zeca Afonso, "Bombons de todos os dias", no seu novo álbum "Outra vida", a lançar segunda-feira e que conta com as participações de Filipa Pais e Luis Pastor.
Outro destaque do álbum, editado pela Universal Music, é "Eco" que o moçambicano Mia Couto escreveu propositadamente para João Afonso.

Quatro anos depois do seu último álbum, "Zanzibar", João Afonso reafirma neste trabalho a sua vertente de baladeiro, mas renova o ambiente musical introduzindo instrumentos como o piano, a guitarra eléctrica, bateria, contrabaixo e clarinete.
A este novo ambiente musical não são alheios os músicos que o acompanham, nomeadamente João Lucas ao piano que é também produtor, director musical e arranjador, o guitarrista Francisco Abreu, o baterista e percussionista José Salgueiro, o baixista Yuri Daniel, Paulo Temeroso (sopros) e o cavaquinho de Jon Luz.
O cantautor espanhol Luis Pastor assina "Náfragio de las estrellas" e partilha a sua interpretação com João Afonso.
Filipa Pais partilha com João Afonso "à porta do mundo" escrito pelo próprio em parceria com José Moz Carrapa para um trabalho a solo de Filipa.
O álbum é composto por 13 temas, oito deles com música e letra de João Afonso que assina ainda a música de outros três, Maria Matias assina a letra e música de "Fado a cores" e o tema inédito de Zeca Afonso.
O disco inclui ainda uma versão acústica do tema de abertura "Acridoce".
João Afonso, 40 anos, sobrinho de Zeca Afonso, começou a cantar na década de 1980, tendo integrado as várias homenagens ao criador de "Grândola, vila morena" de 1987 a 1995, que culminou com a edição do álbum "Maio maduro Maio" com Amélia Muge e José Mário Branco, que recebeu o Prémio José Afonso 1996.
Colabora posteriormente em dois álbuns de Júlio Pereira e com o projecto Lua Extravagante.
Em 1997 edita o seu primeiro álbum a solo, "Missangas", e recebe o Prémio Blitz Melhor Voz Masculina.
A "Missangas" sucedeu o álbum "Barco voador".
NL.

‘Jezebela’, romance da lusofonia

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Adelto Gonçalves*

João Craveirinha, 58 anos, sobrinho do poeta José Craveirinha (1922-2003), nasceu na Ilha de Moçambique. Bastariam esses dois pormenores para justificar a apresentação de um escritor. Afinal, José Craveirinha, nascido na antiga Lourenço Marques, hoje Maputo, foi o maior poeta africano de língua portuguesa e não são poucos aqueles que ainda acreditam que o dom da poesia seja transmitido por genes, embora essa afirmação contrarie tudo o que ensina a Antropologia.
Além disso, a mítica ilha de Moçambique, capital das possessões portuguesas da contra-costa africana até 1897, abrigou, em épocas diversas, dois dos maiores poetas da língua portuguesa — Luís de Camões (1524(?)-1580) e Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810) —, além de ter sido visitada durante três dias por Manuel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805) em 1786, e cantada, nos últimos tempos, por outros grandes poetas como Jorge de Sena (1919-1975), Rui Knopfli (1932), Alberto de Lacerda (1929), Virgílio de Lemos (1929) e Luís Carlos Patraquim (1953). Portanto, nascer na antiga Muipiti, dos macuas, à beira do Oceano Índico, constitui um compromisso com a sensibilidade, com a poesia.
Com todas essas ligações sentimentais, João Craveirinha não podia deixar de ser também homem sensível, o que já deixara claro em sua carreira como pintor, com obras que estiveram em exposição em várias cidades portuguesas, Maputo, Joanesburgo e Bruxelas, além do Principado de Andorra. Artista plástico, designer gráfico e de publicidade, ele foi também animador cultural e realizador de rádio e televisão em Moçambique e é cronista de vários jornais de Moçambique e de sites, como Zambezia On Line (http://www.zambezia.co.mz) , além de ativista político com participação em vários edições do Fórum Contra a Exclusão Social de Minorias e Sobre Cooperação e Desenvolvimento em Bruxelas, Estrasburgo e Luxemburgo, patrocinados pelo Parlamento Europeu e Comissão Européia na década de 1990.
Depois de publicar, em 2001, Moçambique Feitiços, Cobras e Lagartos, Craveirinha lança-se, em 2005, como romancista, ao dar à estampa Jezebela — O Charme Indiscreto dos Quarenta — Crônica de Uma Mulher, num ano em que colocou no mercado de uma só vez mais cinco livros: O Macaco Macacão e o Macaco Macaquinho e outros contos (literatura infantil); A Pessoa de Fernando Ignorou a África? (teatro); In Memorian de José Craveirinha — Um Poeta Nunca Morre (com CD); Crônicas da Aldeia Global; e Crônicas do Futebol no País da Marrabenta, todos pela Universitária Editora, de Lisboa.
Jezebela, que surpreende logo a partir da capa que reproduz a imagem de um nu feminino pintado pelo autor, é, nas palavras de seu criador, a crônica romanceada de uma africana moderna diante da globalização e da história comum de Portugal, Moçambique e Brasil, a uma época em que o mundo ocidental parece não compreender as outras culturas, especialmente a islâmica, o que tem precipitado o tão anunciado choque de civilizações.
Como observou no prefácio o poeta Calane da Silva, professor da Universidade Eduardo Mondlane, de Maputo, Jezebela constitui uma maneira engenhosa que Craveirinha encontrou para unir num romance crônicas, palestras e entrevistas que deu em várias ocasiões à imprensa ou à televisão de Moçambique, discutindo aspectos sócio-históricos e da etno-história moçambicana. Assim, em vez de publicar mais um livro de crônicas, o autor preferiu abrir-se para uma nova experiência literária em que se sai muito bem porque o livro não perde a linguagem despretensiosa das crônicas e ainda ganha ritmo romanesco.
De fato, a história de amor de Jezebela Lopes Castanheira, nascida em Quelimane, filha de pai português e mãe africana, e crescida à beira do Minho, com Vanderley Jansen Caetano de Menezes, natural da Beira, do bairro crioulo da Manga Loforte, ao percorrer toda a narrativa, seduz com certa malícia o leitor que, ao mesmo tempo, quase sem sentir, vai adquirindo informações preciosas sobre a história de Moçambique, desde a época da colonização portuguesa, que, provavelmente, só encontraria se se dispusesse a ler os cartapácios de História, com suas extensas notas de rodapé.
Jezebela, divorciada, quarentona de porte atlético, mãe de Luana, passa a viver com Vanderley, formado em Psicologia, pai de um menino. Enquanto vivem a febre de amor dos primeiros anos, conversam, vêem a TV Miramar, de propriedade da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd), que retransmite os programas de Raul Gil e Netinho, da Rede Record, de São Paulo, sucessos de audiência no país, e lêem artigos do cronista João Craveirinha nos jornais.
Eis aqui um grande exercício de metalingüística, em que o autor aparece como protagonista de um romance escrito em terceira pessoa, a exemplo do que fez o argentino Ernesto Sábato (1911) em Abaddón El Exterminador (1975). Seus textos publicados anteriormente em outros veículos ou palestras dadas em instituições são discutidos por seus personagens, que freqüentemente se referem a eles com ironia e, às vezes, até desprezo, embora sempre haja quem também os aprove. “Então, Vander, gostaste da palestra de João Craveirinha? Pergunta Carol Mahamude. — Assim, assim. O fulano é um convencido. Julga que sabe muito. Um zarolho no meio de ceguetas...”, lê-se à página 97. “Não sejas invejoso, amor... eu gostei. Aprendi muito! Arremata Jezebela”, lê-se a seguir.
Como se vê, Jezebela é, antes de tudo, um romance de corte autobiográfico, com uma estrutura narrativa aparentemente fragmentária, que serve para o autor expor suas idéias sobre as questões suscitadas pela realidade multicultural do povo moçambicano, como os traumas transgeracionais deixados pela escravatura na Zambézia.
Diz Craveirinha, através de seu personagem Vanderley, que esses traumas deixaram em alguns complexos de inferioridade como fruto da herança servil colonial em relação ao europeu e mesmo ao goês ou indo-português. Noutros, diz, deixaram a superstição da crença em espíritos desencarnados e encarnados a cobrar dívidas passadas de tempos em que foram maltratados como escravos em determinada família de senhores de prazos brancos e mestiços e sinhás — donas negras e mestiças.
A luso-africana Jezebela convive num ambiente híbrido, multi-étnico e religioso em Moçambique e, depois, em Portugal. No fim da vida, regressa à terra de origem, voltando para Maputo, para viver sozinha, depois de pagar “um preço muito grande pela sua libertação e emancipação feminina”.
Já Vanderley, separado de Jezebela, recebe um convite para exercer psiquiatria clínica em Curitiba, onde conhece um novo amor, Alicia Mei Ling, moçambicana de origem chinesa, nascida em Lourenço Marques e crescida na Mafalala, refazendo-se, assim, o percurso da lusofonia.
Atam-se, dessa maneira, os laços com os remanescentes do êxodo sino-moçambicano que se deu com a descolonização em 1975 e retomou um périplo que começou com a fuga de chineses para Hong Kong, depois da luta entre nacionalistas e os comunistas de Mao Tse Tung, passando por Macau e Moçambique, até chegar, por fim, às cidades brasileiras de São Paulo e Curitiba.
Como se vê, Jezebela reúne personagens que quase nunca encontramos na literatura de língua portuguesa, embora, diariamente, deparemo-nos com elas nas ruas de nossas cidades. Por tudo isso, justifica-se atribuir a Craveirinha o mérito de ter escrito o romance da lusofonia.

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JEZEBELA — O CHARME INDISCRETO DOS QUARENTA/CRÓNICA DE UMA MULHER, de João Craveirinha. Lisboa, Editora Universitária, 248 págs, 2005. www.universitariaeditora.com
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* Doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br
O PRIMEIRO DE JANEIRO - 20.03.2006

19-03-2006

Morreu filósofo Fernando Gil

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O filósofo português Fernando Gil morreu este domingo, em Paris, aos 69 anos, numa informação revelada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior.
Fernando Gil, nascido em 1937, licenciou-se em Direito na Universidade de Lisboa e em Filosofia na Sorbonne, onde se doutorou em Lógica. Entre as obras que publicou, destacam-se ‘La logique du Nom’ (1972), ‘Mimésis e Negação’, ‘Viagens do Olhar’ e ‘Mediações’. Além disso, foi consultor do actual ministro da Ciência, José Mariano Gago, e do antigo Presidente da República Mário Soares durante os seus dois mandatos.
NOTA:
Fernando Gil nasceu em Muecate, actual Província de Nampula, em Moçambique e filho da escritora Irene Gil:
Consulte
http://www.iplb.pt/pls/diplb/!get_page?pageid=402&tpcontent=FA&idaut=1426228&idobra=&format=NP405&lang=PT

06-03-2006

COOPERAÇÃO SEM DESENVOLVIMENTO, de João Milando

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João Milando, natural de Cabinda – Angola, tendo sido bolseiro do Centro de Antropologia Cultural e Social, do IICT de 1999 a 2001, é presentemente investigador do Instituto de Ciências Sociais/Universidade de Lisboa após ter realizado provas para a obtenção do grau de Doutor em Ciências Sociais integrado no programa de Estudos Africanos do ISCTE, no ano de 2003. A sua área de investigação "Desenvolvimento Participativo em Condições Adversas: Aspectos Africanos", relaciona-se com os constrangimentos sociais e culturais aos projectos de desenvolvimento que põem em causa a sustentabilidade dos mesmos. Na sua prática de investigador tem procurado encontrar resposta para algumas questões essenciais tais como: a existência ou não de mecanismos de intervenção social que permitem induzir, objectivamente, processos de desenvolvimento; a existência ou não de possibilidades reais de afirmação do desenvolvimento participativo em contextos institucionais caracterizados pela resistência, ou oposição, das elites dominantes locais ao processo; a existência ou não de ferramentas teórico-operacionais que permitam superar a resistência das elites dominantes aos processos de desenvolvimento participativo.
Conheça mais em
http://www.ics.ul.pt/corpocientifico/joaomilando/

O lançamento do livro de João Milando terá lugar na próxima 6ª feira, dia 10 de Março, pelas 18h30, na Livraria Buckholz, Rua Duque de Palmela, nº 4, em Lisboa

Mia Couto critica exigência islâmica de demissão jornalistas

O escritor Mia Couto, o mais traduzido autor de Moçambique, contestou as exigências de muçulmanos do país de demissão do director e do editor do semanário Savana, classificando-as como uma "ofensa contra as regras da sociedade".
Num artigo publicado naquele semanário, fortemente criticado pelos muçulmanos pela inserção de caricaturas de Maomé, Mia Couto acusa os autores das exigências de se quererem "substituir aos mecanismos que um Estado de Direito confere a quem se crê ofendido".
Afirmando ser contrário à publicação dos `cartoons`, o escritor e antigo jornalista, considera que exigir a demissão da direcção do Savana "é uma ofensa contra as regras da sociedade" moçambicana.
O Savana, um dos jornais de referência de Moçambique, tem sido alvo de protestos e de pressões por parte de sectores da comunidade muçulmana de Moçambique por ter publicado, a 17 de Fevereiro, sete polémicas caricaturas do profeta.
Logo nesse dia, dezenas de manifestantes cercaram as instalações do jornal, provocando estragos ligeiros e exigindo as demissões do director e editor do jornal, Kok Nam e Fernando Gonçalves, respectivamente.
Dias depois, milhares de muçulmanos concentraram-se em invulgares manifestações em Maputo, Beira e Nampula, repetindo as mesmas exigências, até agora sem resposta por parte da cooperativa Mediacoop, Jornalistas Associados, que detém o Savana e o diário por fax Mediafax.
"Essa reclamação atropela o direito de um jornal poder escolher, manter e defender - de forma autónoma e sem pressões exteriores - os seus próprios dirigentes", considera o autor de "O último voo do flamingo", que recorda que foram pedidas desculpas pelos responsáveis pelo jornal pela publicação dos desenhos.
"Essa admissão de culpa é um primeiro sinal para que o jornal e os dirigentes da comunidade muçulmana se possam sentar e, em diálogo, encontrem formas de garantir que este tipo de abuso não se venha a repetir", escreve Mia Couto, numa crónica sob o título "Em nome dos princípios".
Os muçulmanos, que segundo o último recenseamento representam cerca de 17 por cento dos 18 milhões de moçambicanos, têm grande poder económico, dominando o comércio nas principais cidades, mas essa influência não se estende à governação do país dominada pela FRELIMO desde a independência, em 1975.
LUSA - 06.03.2006

03-03-2006

Cinema 700: monstro ressuscitado

Matola vai testemunhar esta tarde a ressurreição do Cinema-700, há muito adormecido sob uma nova designação, auditório municipal.
De acordo com Felizardo Cumbe,as obras de reabilitação custaram cerca de 700 dólares americanos e foram executadas pela Sociedade Imobiliária Cinema 700: monstro ressuscitado de Gestão, Lda. (Sogitel).
Segundo a fonte, diversas actividades culturais irão abrilhantar o evento que contará com mais de 700
convidados entre membros dos governos central e provincial, corpo diplomático, religiosos, intelectuais,
artistas, entre outros. (CS)
A TRIBUNA FAX - 03.03.2006

28-02-2006

A QUINTA LUSITANA - O "ESTADO DE TANGA" E... ALGO DEMAIS!, de Brasilino Godinho

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Brasilino Godinho, nasceu a 25 de Outubro de 1931, na cidade de Tomar. Desde os tempos da juventude ligado às actividades da construção e engenharia civil acumulou larga experiência nesses domínios e um conhecimento profundo dos funcionamentos dos aparelhos do Estado e das câmaras municipais que o habilita a ser observador atento, interveniente e crítico das políticas e dos comportamentos dos agentes e órgãos do Estado e do poder local.
Depois de um percurso profissional iniciado nos anos cinquenta, que o levou até várias parcelas do território continental e das ilhas adjacentes, fixou-se definitivamente em Aveiro, a partir de 1963, onde conserva residência.
Ao longo dos anos tem mantido colaboração regular de textos de opinião nalguns diários, semanários e quinzenários da imprensa regional. A nível da imprensa nacional e especializada integrou o quadro de colaboradores técnicos do jornal U&C – Urbanismo & Construção, durante vários anos.
Entre outras causas que têm suscitado a sua atenção esteve largos anos empenhado na luta pela transformação do famigerado IP5 em auto-estrada. Igualmente, envolveu-se através da imprensa, com firme determinação e convicção, nas lutas travadas em prol da rejeição da Regionalização programada pelo partido detentor do Poder (PS) e pelo repúdio da outra envergonhada regionalizaçãozinha existente nos formatos das Comissões de Coordenação Regional – comissões que tiveram a arte de transformarem as suas sedes em novos e entorpecentes “Terreiros do Paço” dispersos pela “paisagem provinciana” envolvente de Lisboa…

Actualmente, assina uma crónica semanal (às terças-feiras) no “Diário de Aveiro”.
Sócio nº. 14 493 da Sociedade Portuguesa de Autores, publicou três obras:
O PRESIDENTE - poesia (obra de sátira política – 245 pág.).
UM DIA DESCI À CIDADE… - poesia (175 pág.)
A QUINTA LUSITANA – ensaio político-social (480 pág.)
A publicar: CRÓNICAS IRREVERENTES…
É titular do blog http://quintalusitana.blogspot.com
Leia aqui um excerto da obra:
Download qlparte_i.doc

Para adquirir escreva para brasilino.godinho@netvisao.pt

25-02-2006

Ao encontro dos Mambos - Autoridades tradicionais vaNdau e o Estado em Moçambique

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Ao Encontro dos Mambos de Fernando Florêncio é uma obra que melhor nos leva a compreender as relações entre "as autoridades do estado" e as "autoridades tradicionais" em Moçambique.
Após a introdução que aqui transcrevo, leia um pouco do Capítulo VI, em anexo.

Prefácio
Desde os primórdios da antropologia social e cultural, a questão dos sistemas de auto-regulação política, económico-ecológica e sócio-cultural das sociedades diversamente apelidadas de originais, primitivas e tradicionais da África, América e Ásia tem sido um tema permanente.
Em África, a ocupação territorial por metrópoles europeias a partir de meados do século XIX e a edificação dos correspondentes Estados coloniais introduziram neste contexto preocupações novas: com a manutenção, alteração ou destruição destes sistemas e a sua articulação com o novo fenómeno do Estado territorial.
Ao contrário de que previam as ideologias «nacionalistas» de vária índole, a passagem dos territórios coloniais para o estatuto de países independentes (à face da lei internacional) não tornou esta temática obsoleta ou, quando muito, histórica. Bem ao contrário: com uma acuidade não raras vezes maior do que na época colonial, as questões que então se levantavam voltaram a manifestar-se face aos esforços de «construção nacional» e de implantação dos Estados pós-coloniais. A debilidade de muitos destes Estados, frequentemente ligada à eclosão de conflitos armados, conferiu entretanto a estas questões um carácter qualitativamente novo.
A nível internacional, esta última fase tem sido objecto de numerosos estudos, especialmente sob o prisma dos «chefes tradicionais», ou «autoridades tradicionais», sua legitimidade e suas funções, tanto na perspectiva das sociedades («comunidades») envolvidas como na perspectiva dos respectivos «Estados nacionais». Ao mesmo tempo, e com a constituição do domínio interdisciplinar dos estudos africanos a partir dos anos 50, também esta problemática deixou de ser do domínio exclusivo de uma só disciplina, a antropologia, envolvendo nomeadamente a ciência política e a sociologia.
Devido ao desfasamento dos estudos africanos modernos em Portugal, causado pela trajectória política do país no século XX, a temática das «autoridades tradicionais» africanas surgiu entre nós como problemática científica pós-colonial só nos anos 90, sob o impacto do debate internacional, mas também sob o impulso do debate político que começou a desenvolver-se em torno desta problemática nos países africanos de língua portuguesa situados no continente, especialmente em Moçambique. A dissertação de doutoramento em Antropologia Social de Eduardo Costa Dias, bem como as dissertações de mestrado em Estudos Africanos de Fernando Florêncio e Víctor Hugo Nicolau, todas defendidas no ISCTE em meados dos anos 90, terão porventura sido entre nós os primeiros trabalhos de envergadura onde esta problemática foi abordada — por sinal, em relação a três países diferentes: Guiné-Bissau, Moçambique e Zimbabwe.
A continuação destes passos iniciais foi incentivada pelo lançamento, no quadro do Centro de Estudos Africanos — ISCTE e com o apoio da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, de um projecto sobre «Autoridades tradicionais e Estado em África», que reuniu os três investigadores acima referidos, aos quais se agregaram mais outros, e que, para além dos três países em epígrafe, passou a incluir também a Senegâmbia. Convirá mencionar que a equipa deste projecto manteve frequentes contactos, com manifesto benefício mútuo, com a de um projecto que correu em paralelo no mesmo Centro sobre «Recomposições dos espaços políticos na África lusófona», igualmente financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Ambos os projectos não apenas proporcionaram extensas pesquisas «de terreno», como também contactos com diferentes redes internacionais e uma reflexão teórica aprofundada.
É neste contexto francamente estimulante que Fernando Florêncio elaborou a partir de fins dos anos 90 a dissertação de doutoramento que deu origem ao presente livro, pondo a proveito de maneira exemplar oportunidades e «insumos» que um ambiente propício lhe facilitava e outros conquistados por um esforço pessoal consequente, imaginativo e incansável.
O livro constitui, a dois títulos interligados, um marco para a «produção científica internacional».
Por um lado, representa uma contribuição de primeira importância para o conhecimento de Moçambique. Depois da dissertação de José Fialho Feliciano, baseada numa investigação realizada na segunda metade dos anos 70, a obra de Fernando Florêncio é o primeiro trabalho aprofundado e de envergadura sobre as sociedades rurais moçambicanas. A este título, o seu mérito consiste não apenas em actualizar os nossos conhecimentos, mas também em substituir a imagem ideal-típica frequentemente veiculada por uma análise mais diferenciada, desenvolvida numa perspectiva diacrónica. Ao mes cientistas sociais, moçambicanos e outros.
Por outro lado, estando ele próprio solidamente ancorado no debate científico internacional sobre a temática das «autoridades tradicionais», o livro de Fernando Florêncio irá, sem dúvida, dar impulsos importantes a este mesmo debate. Com efeito, no âmbito da literatura sobre a matéria, ele representa uma das raras combinações bem sucedidas entre uma notável precisão teórica, uma metodologia rigorosa e cuidadosa e uma riqueza descomunal de dados empíricos.
A todos estes títulos, o trabalho aqui apresentado constitui um «produto de excelência» do domínio científico interdisciplinar dos estudos africanos em ciências sociais que — pondo a proveito o que de válido foi realizado neste campo já em condições coloniais e inserindo-se decididamente no contexto internacional — tem vindo a constituir-se em Portugal desde 1974. E há razões bastantes para justificarem a expectativa de que constitua, juntamente com outros, um indicador de que este domínio esteja numa fase adiantada da sua consolidação mo tempo, introduz no debate político acerca do papel real e desejável das «autoridades tradicionais», que em Moçambique continua aceso e carece de uma base adequada de conhecimentos válidos, uma contribuição científica extraordinariamente sólida que tem todas as hipóteses de vir a ser uma referência obrigatória para o debate político e para a investigação entretanto empreendida por alguns.
Lisboa, Dezembro de 2004.
FRANZ WILHELM-HEIMER

Leia mais:
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Veja:
http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2006/02/ao_encontro_dos.html

MOÇAMBIQUIZANDO de Delmar Maia Gonçalves

Editorial Minerva e o autor têm o prazer de convidar V. Exª, família e amigos, para a sessão de apresentação da obra de poesia MOÇAMBIQUIZANDO de Delmar Maia Gonçalves, a realizar no sábado, dia 11 de Março de 2006, pelas 18:30 horas em

PALÁCIO GALVEIAS - Biblioteca Municipal Central
Sala das Colunas - Campo Pequeno - Lisboa

Autocarros: 1, 17, 21, 27, 28, 44, 45, 47, 49, 54, 56, 83, 90 / Metro: Campo Pequeno

Coordenação da sessão e breve reflexão sobre a obra pelo animador-cultural Ângelo Rodrigues. Apresentação da obra e autor pelos escritores Alexandre Honrado e Jorge Viegas. Intervenção do artista plástico Roberto Chichorro. Selecção e leitura de alguns poemas da obra por Elsa de Noronha, Olga Santos, Jorge Viegas, Filipa Gonçalves, Isabel Carreira e Marta Rodrigues. Momento musical pelo músico moçambicano Genito (Timbilas).

Este evento contará com a presença do Embaixador de Moçambique em Portugal.

Gratos pela honra da comparência

Delmar Maia Gonçalves é professor do Ensino Básico, especializado e pós-graduado em Relações Internacionais Africanas. Está representado em várias antologias nacionais e internacionais. É colaborador de vários jornais e revistas. É embaixador da paz na organização internacional The Interreligious and Internacional Federation for World Peace. É Membro fundador do Centro Cultural Luso Moçambicano; membro fundador do Espaço Rui de Noronha – Associação; membro do Instituto Paulo Freire de Portugal; da Associação de professores de Português; membro fundador do Movimento Jovem Moçambicano de Intervenção Cultural em Portugal e membro fundador da AIDGLOBAL-ONGD.
Publicou em Junho de 2005, o livro de poesia MOÇAMBIQUE NOVO, O ENIGMA também pela Editorial Minerva.
O autor foi premiado este ano com o prémio literário África Today.

Formato: 21 x 14,5 cm
Páginas: 88
Pintura da capa: Roberto Chichorro (artista plástico)
Concepção da capa: Atelier Minerva e Miguel d’Hera
Preço de capa (IVA incluído): 10 €
Contactos:
Rua da Alegria, 30 - 1250-007 Lisboa
Próximo do Parque Mayer - Metro Avenida
Tel. 21 3224950 - Fax 21 3224952
minerva_dna@netcabo.pt

23-02-2006

Revista LATITUDES, nº 25

Latitudes2501

LATITUDES - Cahiers Lusophones, é uma revista editada em França, bilingue em francês e português, que, através de vários números tem dedicado espaço a Moçambique. Ora o nº 25 que ora apresento é quase na totalidade dedicado a Moçambique. Assim aqui deixo o seu sumário, bem como a indicação de nºs. anteriores com conteúdo relacionado com Moçambique. A capa contem um desenho de Chichorro
Veja aqui:
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Poderão encontrar nas livrarias Barata, Buchhlolz Portugal, Bulhosa e FNAC

18-02-2006

Lançamento do livro 'Cabora Bassa - A Última Epopeia'

Palácio de Belém é «um espaço menor» para a «homenagem que tarda» aos heróis

Na zona exposicional do Café Santa Cruz - paredes-meias com a igreja onde está sepultado o primeiro rei de Portugal, D. Afonso Henriques - foi lançado na noite de quinta-feira passada o último livro do jornalista A. Santos Martins - 'Cabora Bassa - A Última Epopeia'.

Apresentou o livro o também historiador e vereador da Cultura da Câmara Municipal de Coimbra, Dr. Mário Nunes, que fez o elogio do autor e confessou aos presentes ter-se interessado tão vivamente pela obra que a leu «de um só fôlego».

Para Mário Nunes, o trabalho daquele autor conimbricense desperta o que de melhor há no orgulho patriótico português, sublinhando que ficou bem vincado no livro que, mesmo no período anterior à descolonização de 1975, como aconteceu na região do Zambeze moçambicano, os Portugueses escreveram em África epopeias que não desmereceram das dos séculos das Descobertas e da Expansão.

De acordo com o autor, também este seu livro - fruto de quase quarenta anos de investigação histórica e de 'memórias' que trouxe do Vale do Zambeze, onde fez Jornalismo antes, durante e até à conclusão daquela que é uma das maiores barragens hidroeléctricas do mundo -, foi escrito «quase de um só fôlego», depois de o actual Presidente de Moçambique, Armando Guebuza, ter visitado Portugal no início de Novembro de 2005 e o Governo de Lisboa assinar um protocolo para a entrega «ao desbarato» da posição portuguesa na «Hidroeléctrica de Cahora Bassa».

O lançamento do livro aconteceu precisamente no dia em que o Conselho de Ministros tomou decisões sobre as privatizações a fazer em 2006 e 2007 - e o autor sublinhou que metade do «perdão» do Governo de José Sócrates a Moçambique, no caso daquela monumental barragem, daria para evitar as privatizações a fazer na EDP, na Galp-Energia e na REN (Rede Eléctrica Nacional).

«Se o perdão servir apenas o Povo Moçambicano, tudo bem, mas se for para engordar a Geocapital de Stanley Ho e Almeida Santos ou outros grupos capitalistas internacionais, então... tudo mal» - disse o autor de 'Cabora Bassa - A Última Epopeia, antes de referir que a HCB começou a gerar lucros de exploração em 2004, depois de muitos anos de exigências aos contribuintes portugueses (fala-se em 15 milhões de euros por ano), devido à longa e sangrenta guerra civil (Renamo-Frelimo) que se travou no território após a entrega de Moçambique ao movimento guerrilheiro liderado por Samora Machel.

O autor lembrou também que o Vale do Zambeze moçambicano («onde Portugal cabe várias vezes»), foi o território ultramarino onde os portugueses penetraram mais profundamente, logo a partir do início do século XVI.

«O habitual era instalarem-se feitorias fortificadas junto ao Índico, como aconteceu em Sofala e na Ilha de Moçambique. Mas logo nos primódios do século XVI os portugueses subiram o rio Zambeze até 800 quilómetros da costa, erguendo povoações, igrejas, organizando feiras para o comércio. Sena, Tete, Chicoa e o Zumbo são testemunhos da coragem dos nossos sertanejos e missionários. Mas também nos derramámos, naquele século, pelo território que é hoje o Zimbabwe».

Santos Martins, depois de lembrar que há cem anos (1905), «o nosso almirante Gago Coutinho» foi o primeiro europeu a subir à montanha do Kassongo (onde se desenvolveu Cabora Bassa)», não foi «nada meigo» com o britânico David Livingston.

«Livingston foi, sem dúvida, um grande explorador na segunda metade do século XIX. Mas também um grande mentiroso, pois chamou a si descobertas que os Portugueses haviam feito... 300 anos antes»!

Depois de referir que Cabora Bassa foi erguida no meio de um território fortemente afectado pela subversão armada da Frelimo - «que para ali orientou todo o seu esforço de guerra» -, ainda assim a majestosa barragem foi erguida, até lá chegaram todos os grandes equipamentos para a sua central hidroeléctrica e «o enchimento do seu imenso lago artificial, com quase 300 quilómetros de extensão, começou na data prevista e sem qualquer interrupção».

Para que isso acontecesse, houve um «esforço sublime de milhares de civis e militares», muitos dos quais morreram ou ficaram estropiados «para que se consumasse a última epopeia dos portugueses em África».

Para o autor, o Palácio de Belém é «espaço menor» para «a condecoração que tarda». Se o novo Presidente da República decidir homenagear aqueles heróis anónimos, «pois que o faça no anfiteatro que existe no Monumento das Descobertas e da Expansão, junto à Torre de Belém».

17-02-2006

Nos alvores de um país novo

António Sopa

A recente publicação do álbum “Do Rovuma ao Maputo: A Marcha Triunfal de Samora Machel”, do tenente-coronel na reserva Raimundo Domingos Pachinuapa, celebra os 30 anos de independência moçambicana, homenageia o primeiro líder do país, Samora Moisés Machel, e, se se quiser, inaugura informalmente as celebrações que irão decorrer durante todo este ano, no âmbito do vigésimo aniversário da sua morte.

Há, após trinta anos de país independente, um claro défice de publicações sobre a “luta armada de libertação nacional” e os primeiros anos que se seguiram à proclamação da independência, em 25 de Junho de 1975. Há uma lacuna ainda mais grave de memórias dos próprios participantes que viveram esse período, apesar de promessas regularmente enunciadas e de projectos desenvolvidos em diversas instituições nacionais. O lançamento de livros, cujos autores tiveram uma participação relevante na saga independentista e na construção do projecto socialista, é, por isso mesmo, esperado com interesse e emoção pelo grande público, na perspectiva que novos dados e explicações sejam sugeridos, iluminando períodos ainda tão profundamente desconhecidos.

Assim, o livro do combatente, que viria posteriormente a ocupar importantes cargos governamentais no Moçambique independente, foi igualmente esperado com ansiedade. Mas aquilo que procurávamos encontrar ali, o que pensamos ser mais precioso, e que passa pelo registo pessoal do autor, a partir da vivência do acontecimento, pura e simplesmente não se encontra ainda nestas páginas. O leitor fica elucidado da sólida e profunda amizade que ligava Samora e Raimundo Pachinuapa, expressa na “nota pessoal” e em algumas das fotografias do livro, mas o que se segue é apenas a visão da imprensa da época, a partir de extractos publicados em obra antiga (“Datas e documentos da história da FRELIMO”, org. de João Reis e Armando Pedro Muiuane) e de imagens recolhidas nos diferentes arquivos do país.

Ora, o tenente-coronel Raimundo Pachinuapa foi um actor privilegiado da “viagem do Rovuma ao Maputo” e de muitas outras situações vividas no passado, não só pelo lugar que ocupava na estrutura do movimento independentista moçambicano mas até pelas relações de amizade que tinha com a liderança da FRELIMO, pelo que está em condições para fazer um relato diferente, mais pessoal, trazendo à superfície acontecimentos que possam ajudar a conhecer melhor a figura de Samora e a recepção do seu discurso nos vários cantos do país, em vésperas de alcançar a sua liberdade.

Parece-nos claro que a “viagem do Rovuma ao Maputo” serviu simultaneamente para mobilizar a população do país para os objectivos que se enunciavam e que se podem exprimir, de forma grosseira, na “sociedade nova”, sobretudo em áreas onde a influência da guerra libertadora não se tinha ainda feito sentir, ao mesmo tempo que uma parte da direcção da organização tinha um primeiro contacto directo com as populações, apesar das viagens regulares de informação do Primeiro-Ministro do então “Governo de Transição”, Joaquim Chissano, à Tanzânia. Mas é também uma “viagem” pelas emoções, de reencontros com pessoas (com o pai, Mandande Moisés Machel, por exemplo), rememorização de situações vividas e de tomada de decisões fundamentais (V Sessão do Comité Central, na praia do Tofo). Seria interessantíssimo saber dos preparativos da viagem, a despedida e o agradecimento à Tanzânia, a entrada em território nacional, a receptividade do discurso, já que sabemos que não foi o mesmo em todos os locais, os contactos com o povo miúdo e as personalidades locais, um interminável rol de grandes e pequenos acontecimentos, num hipotético diário a ser construído pelo autor.

Este comentário, que exprime a insatisfação dum leitor interessado, mais do que traduzir um desapontamento, serve igualmente para lançar um repto ao autor, que se traduz pela elaboração das suas próprias memórias pessoais, sabendo que elas terão uma importância excepcional para o conhecimento dos períodos referidos.

O livro é uma bonita peça bibliográfica, graficamente impecável, com um preço acessível.

Do Rovuma ao Maputo: A Marcha Triunfal de Samora Machel: Primeiro

Presidente de Moçambique

Raimundo Domingos Pachinuapa

Maputo, Edição do Autor, 2005, 63 p.

SAVANA – 17.02.2006

15-02-2006

Disputa por status foi "motor" da história, diz Fragoso

RAFAEL CARIELLO
da Folha de S.Paulo

João Fragoso defende, desde a sua tese de doutorado --"Homens de Grossa Aventura" (Civilização Brasileira)--, que a montagem da economia colonial brasileira não foi orientada pelas exigências de "acumulação de capital" das economias dos países europeus colonizadores --idéia que de alguma maneira unifica os trabalhos clássicos de Caio Prado Jr., Celso Furtado e Fernando Novais.

Contra a lógica desses autores, que tendiam a ver a sociedade brasileira como mera cópia imperfeita --e reflexo econômico-- da sociedade européia, Fragoso propõe que a sociedade que se criou no Brasil obedece a uma lógica própria.

Veja tudo em:

Download disputa_por_status_foi.doc

11-02-2006

Ao Encontro dos Mambos - Autoridades tradicionais vaNdau e Estado em Moçambique

Encontro_mambos_capa_1  Fernando Florêncio

O Estado moçambicano, à semelhança do Estado colonial, invoca as autoridades tradicionais vaNdau como veículo de penetracão, controlo da população rural, e de legitimação do próprio Estado. Processo esse que se institucionalizou em 2000. As autoridades tradicionais participam assim activamente no processo de formação do Estado distrital, que se constitui como uma arena política local, onde interagem diferentes actores. A tese desenvolvida nesta obra pretende sublinhar que as autoridades tradicionais vaNdau desempenham uma pluralidade de papeis sociais, políticos, administrativos, jurídicos, simbólicos. É nessa multidimensionalidade de papéis que se joga a legitimidade das autoridades tradicionais, face às populações que representam.

Data de Publicação: 01-11-2005
Nº de Páginas:
298
ISBN:
972-671-160-6
Pedidos em    http://www.ics.ul.pt/imprensa/det.asp?id_publica=147

10-02-2006

'Cabora Bassa - A Última Epopeia' (2)

Cabora_bassa_capa_1 CABORA BASSA - A ÚLTIMA EPOPEIA será lançado no próximo dia 16, em Coimbra, pelas 18 horas, no histórico Café Santa Cruz.

Veja:

http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2006/02/cabora_bassa_a_.html

09-02-2006

O MAR QUE TOCA EM TI

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Inez Andrade Paes nasceu em Porto Amélia. Foi passar o Natal de 2005 a Pemba. E resolveu verter as suas emoções para o papel. Eis O MAR QUE TOCA EM TI.

"É a força desta Natureza que toda a cidade ainda preserva, deste Mar que ilumina as noites sem Lua, que me obriga a escrever. Quem quer ser responsável, o deve fazer com a justiça e a dignidade a que a vida obriga"

....................................

"A véspera de Natal amanheceu cor de chumbo o Mar em cada vaga traz mãos aflitas feitas de água, espuma e areia, um misto de sensações percorreu em mim sempre em dúvida de ter na memória um Mar assim. Só o Mar do Atlântico bate assim e mostra mãos aflitas a sair do fundo.

Saímos para o passeio habitual, os corvos estavam inquietos, com a mesma inquietude e preocupação de alguns olhares que passam por mim.

Na praia vejo homens que apanham as algas e ao fundo um tractor espera que os montes sejam feitos para os recolher. Dirijo-me ao homem que conduz o tractor e pergunto o que vão fazer com as algas.

- É só para limpar. Diz

- Mas não as vão usar para nada?

- Não, senhora!

Nesse momento junta-se mais gente. Em assembleia falo da utilidade que as algas têm. Poderiam ser aproveitadas para adubar algumas terras, amontoadas ali mesmo na praia num lugar mais acima. Como estamos na época das chuvas, a própria água as lavaria. Só a mão-de-obra para as apanhar e as revolver de vez em quando seria precisa, a última camada sempre deixada como um tapete que apanha o sal.

No meio da gente oiço de novo em Macua o nome do meu Pai. Um homem magro e alto destapa serenamente a cabeça num gesto a arrastar o chapéu pelo corpo, até tombar com a mão. Dirige-se a mim num cumprimento dizendo que tinha trabalhado com meu Pai. Os mais jovens olham-me curiosos e escutam o que os mais velhos dizem da minha parecença familiar.

Agradeço aos ouvintes que sorriem, esperando que pelo menos um deles transmita para alguém a utilidade que as algas têm. O Sol apareceu mais forte, desta vez a volta para casa é feita pela estrada. Toco nos muretes ainda resistentes ao tempo com as suas figuras geométricas, alguns já mais desfigurados pela força das raízes das grandes árvores a ondular os passeios e a formar novos desenhos. Como  é bom  sentir estas  sombras.  Impossível deter o  sorriso permanente nos lábios, lambidelas apanham lágrimas de suor que nos refresca e salga a boca.

Do outro lado da rua olho a loja da cooperativa de artesanato local. Desde a minha chegada reparo que homens chineses ali estão todos os dias em conversa com os jovens. Pergunto a um dos jovens quem são e ao que vêm?

- Vem comprar marfim. Diz.

- Marfim? Mas não é proibido?

- Não é proibido não, senhora. E tem muito.

- Os elefantes são a meus olhos animais sagrados pela forma como se dedicam à família desde o nascimento à morte . Esta sacralidade está a ser devastada silenciosamente, por alguém que já destruiu a sua Natureza e vem impor a outros povos a sua forma de estar com Ela.

- Formas e locais sagrados, serão só vistos por alguns. Esses obrigatoriamente e de forma sábia deverão prevenir os incautos.-

Passamos a fronteira de ar condicionado da recepção que dá acesso à casa e entre estalidos na madeira de malas a chegarem e a irem me apercebo que de minha face vem um ar zangado. Lagartixas de cauda azul apontam-me o caminho e desfazem a minha expressão."

..........................................

Pedidos : MINERVA OVARENSE   3880-213 OVAR  TEL.:  351.256573323

08-02-2006

Armando Artur substitui Craveirinha no Fundo Bibliográfico

O Presidente moçambicano, Armando Guebuza, nomeou hoje Armando Artur para o cargo de vice-presidente do Fundo Bibliográfico de Língua Portuguesa (FBLP), em substituição de José Craveirinha, falecido em 2003, anunciou a presidência.

Armando Artur desempenhava as funções de secretário-geral da Associação de Escritores de Moçambique (AEMO) e de representante da Associação Africana de Escritores.
O FBLP, organismo tutelado pelo gabinete do primeiro-ministro, dedica-se à promoção de livros e à orientação de leituras para os estudantes do nível básico, através da realização de feiras de livros nas escolas do país.
Criado em 1992, o FBLP é igualmente responsável pelo principal Centro de Documentação de Moçambique, que já formou 92 bibliotecários, desde a fundação em 1998.
O FBLP tem como presidente Lourenço do Rosário, reitor do Instituto Superior Politécnico e Universitário, a maior instituição privada do ensino superior de Moçambique.

NOTÍCIAS LUSÓFONAS - 07.02.2006

06-02-2006

HOMENAGEM CULTURAL a Poeta Moçambicano em PORTUGAL(2)

Como programado decorreu hoje no Instituto Camões a Homenage m a José Craveirinha no 3º aniversário do seu passamento. Entre outras personalidades esteve presente o Sr. Embaixador de Moçambique e o vice -presidente do IC em representação da Presidenta do Instituto Camões. Desta sessão apresentamos algumas fotos de reportagem. E parabéns ao João Craveirinha por este belo convívio em torno de José Craveirinha

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NOTA: Click nas imagens para ampliar

Legendas: de cima para baixo da esquerda para a direita :
Segunda parte (após o filme sobre o laureado Poeta José):
1ª e 2ª fotos  vista geral público;
3ª foto - embaixador de Moçambique dr Miguel Mkaima entre dra Paula Ferraz Presidenta da direcção do ERNA e dra Elsa Noronha fundadora do Espaço Poeta Rui Noronha (ERNA), parceira do evento com o Instituto Camões (IC)...
4ª foto vice - Presidente do IC no discurso de abertura em representação da Presidenta da Instituição
5ª dra Elsa Noronha do ERNA idem
6ª Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário de Moçambique em Portugal, convidado de honra
7ª Poetisa luso-Moçambicana Gilda Vasconcelos na abertura do sarau lendo Poema de JC
8ª João Craveirinha (coordenador, animador cultural e coreógrafo do evento)
9ª dra Ana Paula e sr Timóteo Tiny (em mini - coreografia), à esquerda dra Fátima Freitas vice-coordenadora
10ª dra Paula Ferraz da ERNA
11ª sr Timóteo e dra Ana Paula de novo
Esteve também presente no evento do IC, um descendente Moçambicano de Pedro Baessa, intérprete de Caldas Xavier e de Mouzinho de Albuquerque. Outra figura presente o sr Hilário da Conceição do Sporting Clube de Portugal, oriundo do mítico Bairro da Mafalala de LM (hoje Maputo), imortalizado na poética de José Craveirinha.
Hilário da Conceição, é uma das glórias do Futebol Português ( e Moçambicano). Iniciado no Atlético Nacional de Lço Marques (LM) e SCLM, filial do Sporting de Portugal em LM. No SCP ( sede de Lisboa) teria a maior projecção atingindo o estrelato  mundial absoluto na célebre selecção Portuguesa dos Magriços classificada em 3º lugar no Mundial de Londres 1966...Hilário da Conceição (SCP), Vicente (CFB), Eusébio e o capitão Coluna (SLB), foram os baluartes dessa mesma selecção histórica (outro Moçambicano, o guardião Costa Pereira, outra grande figura da selecção Portuguesa e do Sport Lisboa e Benfica -SLB).

Recama lança “História de Moçambique”

Um resumo de diferentes obras

Um manual intitulado “História de Moçambique, de África Universal”, da autoria de Dionísio de Recama, licenciado em Administração pública pela Faculdade de Letras e Ciências Sociais da Universidade Eduardo Mondlane (UEM), foi recentemente lançado em Maputo.

“História de Moçambique, de África e Universal” consiste em resumos de diferentes obras historiográficas, abrangendo temas abordados ao longo das classes com a disciplina de história nos currículos educacionais moçambicanos até 12ª classe. A obra é editada pela Plural Editores.
ZAMBEZE - 05.02.2006

05-02-2006

No bicentenário da morte de Gonzaga

“O autor de Marília de Dirceu escreveu a coleção de poemas líricos mais popular da língua portuguesa, com um número de edições só superado por Os Lusíadas, de Camões”

ADELTO GONÇALVES - Especial para o Jornal Opção

TOMÁS GONZAGA: EM BUSCA DA MUSA CLIO, de Danyel Guerra. Porto, Armazém Literário, com apoio da Legião da Boa Vontade, de Portugal, 189 págs., 2004. E-mail: danyelguerra@hotmail.com

Daqui a quatro anos, entre 25 de janeiro e 1º de fevereiro, será assinalada a passagem do bicentenário da morte do poeta Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), nascido em Miragaia, no Porto, e falecido na Ilha de Moçambique, na costa oriental da África. Embora Gonzaga tenha sido um dos maiores poetas da língua portuguesa — capaz de se rivalizar em vida com Bocage (1765-1805) em citações na Gazeta de Lisboa, embora estivesse bem longe do Reino —, a levar-se em conta algumas experiências recentes, não se pode esperar grandes comemorações para a data.

Faz-se este aviso com tanto tempo de antecedência com a esperança de que as forças vivas da Invicta e, quem sabe, do Estado de Minas Gerais, onde fica a cidade de Ouro Preto, a antiga Vila Rica, da qual Gonzaga foi ouvidor antes de se envolver na conjuração mineira de 1789, deixem de lado a indiferença que tem marcado o seu relacionamento com a figura do autor de Marília de Dirceu, a coleção de poemas líricos mais popular da língua portuguesa, com um número de edições só superado por Os Lusíadas, de Camões, como assinalou o poeta Manuel Bandeira (1886-1968).

Só um fato dessa envergadura, estivesse em causa um poeta de língua inglesa ou espanhola, já seria suficientemente forte para que fossem realizadas festividades da maior repercussão em ambos os lados do Atlântico. Infelizmente...

Seja como for, da direção da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, por ocasião do Colóquio Internacional Leituras de Bocage nos séculos XVIII-XXI, ao final de novembro, que marcou o bicentenário da morte do poeta, este historiador literário trouxe para o Brasil a promessa da realização de um congresso similar em 2010. Conhecendo-se a garra das docentes da faculdade, sob a direção da professora Maria de Fátima Marinho, pode-se confiar que pelo menos esse colóquio haverá de ser realizado.

Também se pode esperar da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Ouro Preto, que, por iniciativa do historiador Luiz Carlos Villalta, venha a dar a sua contribuição, promovendo colóquio e outros eventos em homenagem ao poeta.

Gonzaga no supermercado — No que respeita a este articulista, já dei a minha contribuição com o livro Gonzaga, um Poeta do Iluminismo, biografia do vate, a primeira desde que o professor M. Rodrigues Lapa publicou um ensaio biográfico há mais de meio de século. E que assinalou o meu doutoramento em letras na área de Literatura Portuguesa pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo em 1997, sob a orientação do professor Massaud Moisés e com o apoio do professor Fernando Cristóvão, da Universidade de Lisboa.

Lançado em 1999, pela Editora Nova Fronteira, do Rio de Janeiro, pelo empenho do poeta Alberto da Costa e Silva, ex-embaixador do Brasil em Portugal e ex-presidente da Academia Brasileira de Letras, autor do prefácio, não se pode dizer que o livro tenha constituído um êxito de livrarias, embora tenha sido largamente citado em ensaios acadêmicos e resenhado em periódicos do Brasil e Portugal.

Nos últimos dias, talvez porque estivesse ocupando espaço em seu depósito, a Nova Fronteira vendeu o resto da primeira edição, com outros tantos livros encalhados, para a rede de supermercados Extra, do Grupo Pão de Açúcar. Assim, os exemplares, que inicialmente custavam 44 reais cada, estão sendo liquidados nestes primeiros dias de 2006 pela bagatela de 9,90 reais, em meio a beterrabas, chuchus, bananas, cocas-colas e bugigangas chinesas. Como as pilhas de livros decrescem a cada dia, conclui-se que a pouca cultura do povo brasileiro está diretamente ligada à falta de dinheiro no bolso.

Diante disso, parece claro que a Nova Fronteira não deve estar muito animada a discutir uma segunda edição. Mas, como detém os direitos exclusivos para a língua portuguesa, se alguma editora portuguesa quiser aventurar-se a uma edição terá de chegar a um acordo com a sua congênere carioca, o que, convenhamos, é sempre um obstáculo a mais.

Pouco ânimo — Aparentemente, porém, nem mesmo a proximidade do bicentenário da morte do poeta parece animar as editoras portuenses a colocar no mercado a biografia de um ilustre filho da cidade: pelo menos a Campo das Letras e a Edições Caixotim, ambas do Porto, já declinaram gentilmente o oferecimento, tendo em conta as atuais circunstâncias do mercado livreiro em Portugal, sobretudo nas áreas de ensaísmo, biografia literária etc. Pelo jeito, o bicentenário da morte de Gonzaga passará sem que sua nova biografia ganhe edição portuguesa.

Aliás, antes da assinatura do contrato com a Nova Fronteira, o original havia sido aprovado para publicação pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda, de Lisboa. Depois, com o interesse da Nova Fronteira, houve até a possibilidade de uma edição conjunta, mas a oferta que partiu do Rio de Janeiro não animou a IN-CM, que desistiu de vez.

Em razão disso, em Portugal, quem quiser conhecer o livro terá de consultá-lo na Biblioteca Pública Municipal do Porto, na Biblioteca Nacional de Lisboa ou na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra — para onde enviei, à época, exemplares de minha cota de autor. No Porto, o interessado pode também passar pela Livraria Nova Fronteira, na Galeria Brasília, na Rotunda da Boavista, que lá, até dois meses atrás, havia alguns raros exemplares em exposição.

Em busca da Musa Clio — A outra alternativa, mais fácil porque em edição portuguesa, é adquirir o livro Tomás Gonzaga: Em Busca da Musa Clio, de Danyel Guerra, em que Gonzaga, um Poeta do Iluminismo está fartamente citado e elogiado. Trata-se de um belíssimo ensaio de um jornalista brasileiro, nascido em Bangu, no Rio de Janeiro, radicado no Porto e licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

O principal objetivo desse trabalho de divulgação histórica, segundo seu autor, é tornar conhecido (e reconhecido) o homem oculto sob o criptônimo Dirceu, antes de mais, na sua cidade natal. Com isso, por meio de Tomás Gonzaga: Em Busca da Musa Clio, o autor procura iluminar a história pessoal e evocar a memória dessa figura tutelar da poesia neoclássica luso-brasileira, cujo estro antecipou o Pré-Romantismo.

Vivendo há mais de 20 anos no Porto, Guerra surpreendeu-se com o desconhecimento que o portuense dedica a seu conterrâneo, cuja memória está preservada numa ruela de Miragaia e numa placa afixada no prédio onde nasceu. “Muitos portuenses julgam-no nascido em Coimbra ou em Lisboa. (...) Alguns arriscam o Brasil como país natal. Hipótese que, ainda hoje, é aventada pela maioria dos brasileiros”, lamenta-se Guerra. Não é só. Como lembra Guerra, um autor brasileiro, Júlio José Chiavenato, no livro Inconfidência Mineira: As Várias Faces, publicado em 2000, teve a desfaçatez de admitir que Gonzaga nasceu em Moçambique.

Não é o caso de repetir aqui dados biográficos do poeta, mas apenas lembrar que, para Guerra, Gonzaga, um Poeta do Iluminismo é um sólido contributo para o que designa de “processo de dessacralização dos inconfidentes”, que, de certa maneira, foi iniciado pelo historiador inglês radicado nos Estados Unidos Kenneth Maxwell, autor de A Devassa da Devassa (Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1977).

Já que elogio em boca própria soa como vitupério, passamos ao leitor a incumbência de tirar as suas próprias conclusões, inteirando-se cada vez mais da história de vida e da obra do poeta que sonhou transformar-se no paladino daquela que teria sido a primeira república da América do Sul.

Sem assumir-se como uma ação investigativa, Tomás Gonzaga: Em Busca da Musa Clio, segundo seu autor, constitui “um ensaio historizante, a vocação mágica de agir como um fósforo que, repentinamente aceso, “com’on baby and light my fire” está fadado para deflagrar um fogo intenso, duradouro e purificador”. Que ajude a despertar instituições públicas e privadas, editoras, universidades e, principalmente, estudantes para a importância da obra de Gonzaga é também o que esperamos. 2010 logo chega.

ADELTO GONÇALVES é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br

-Saiu hoje no Jornal Opção, de Goiânia (wwww.jornalopcao.com.br)

Inconfidentes e traficantes negreiros

Adelto Gonçalves

Adelto_gonalves_2 De um tempo a esta parte, historiadores brasileiros e portugueses estão cada vez mais integrados no seu ofício com uma troca constante de experiências e visões que só têm contribuído para o crescimento dos estudos sobre a história comum dos países de língua portuguesa. Um exemplo disso é o livro Modos de Governar: idéias e práticas políticas no Império português — séculos XVI a XIX (São Paulo, Alameda Casa Editorial, 2005), organizado pelas professoras Maria Fernanda Bicalho e Vera Lúcia Amaral Ferlini.
A obra é produto dessa troca de experiências que vem desde Julho de 2001, quando foi organizado o grupo de trabalho “Modos de Governar: política, negócios e representações do Império Português ao Império do Brasil”, surgido no âmbito do XXI Simpósio Nacional de História da Associação Nacional de Professores Universitários de História (Anpuh), realizado na Universidade Federal Fluminense, em Niterói, com a presença de historiadores brasileiros e portugueses. ...

Leia o texto completo em:

Download inconfidentes_e_traficantes_negreiros.doc

04-02-2006

Pachinuapa lança livro sobre Machel

Antigo combatente

Um livro sobre Samora Machel, Primeiro Presidente da República de Moçambique, é o tema da obra de estreia de Raimundo Pachinuapa.

O livro tem como título "Do Rovuma ao Maputo, a Marcha Triunfal de Samora" e é da autoria do antigo combatente e tenente general na reserva, Raimundo Pachinuapa.

ZAMBEZE - 01.02.2006

03-02-2006

'Cabora Bassa - A Última Epopeia'

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Tal como Sofala - onde os Portugueses instalaram a sua primeira Capitania de Moçambique (em 1505) - Cabora Bassa mereceu novo livro de A. Santos Martins neste início de 2006, servindo-lhe de pretexto o facto de o Governo de Lisboa ter decidido entregar aquele majestoso empreendimento hidroeléctrico (um dos maiores do mundo) ao Governo de Maputo.

Para o autor, Sofala foi o 'Alfa' da presença portuguesa em Moçambique; e Cabora Bassa o 'Omega', donde lhe chamar «a última epopeia, o derradeiro esforço entre os actos mais sublimes dos Portugueses no meio milénio que passou desde as Descobertas marítimas que deram 'novos mundos ao mundo' até à chamada 'Revolução dos Cravos' (1974) e à política seguida pelos seus responsáveis, civis e militares, de entrega das Províncias Ultramarinas a movimentos ditos 'de libertação'».

Com o livro 'Cabora Bassa - a última epopeia' - que será lançado em Coimbra no decorrer do mês de Fevereiro -, o autor pretende homenagear todos aqueles que resistiram em Moçambique aos chamados 'ventos da História'. Mas com ele também se dirige às novas gerações de portugueses e moçambicanos, tratando do que foi o grandioso Plano do Zambeze, esse 'pinhal de naus por fazer' com que gente lusa, nas últimas décadas da sua presença naquele novo país do Índico, tentou fazer nascer «uma nova Civilização» que libertasse os povos da vasta região - e outras regiões da África Austral - do subdesenvolvimento que continua a fustigar, da forma mais atroz, os povos do Continente Negro.

Para que o Plano do Zambeze chegasse onde chegou e Cabora Bassa nascesse, milhares de portugueses e moçambicanos deram o melhor do seu esforço e muitas vidas se perderam, sobretudo depois de a Frelimo para ali dirigir o seu esforço de guerrilha, com o objectivo de impedir - o que não conseguiu! - a monumental barragem hidroeléctrica e a formação da sua imensa albufeira.

'Cabora Bassa - a última epopeia' é fruto do trabalho de um jornalista instalado em permanência naquela região moçambicana, durante alguns anos, precisamente para acompanhar o Plano de Desenvolvimento do Vale do Zambeze. Mas há capítulos sobre a presença portuguesa ao longo de quase meio milénio, onde se revela um empenhado estudioso da História de Moçambique.

NOTA: Pedidos à Feira Permanente do Livro, com sede no Arco de Almedina, 33-35, 3000 COIMBRA (telefone 351.239 838 192)

'Sofala - O primeiro templo da Igreja Católica na África Oriental Portuguesa'

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Mais um livro do jornalista e historiador conimbricense A. Santos Martins, desta vez um livro (lançado em finais de Novembro de 2005) contra o esquecimento a que foi votado, em Portugal, o Quinto Centenário (1505-2005) do estabelecimento da primeira Capitania portuguesa em Moçambique (a feitoria fortificada de Sofala) e do primeiro templo da Igreja Católica na África Oriental. E sobre esse esquecimento o autor faz uma 'provocação' à hierarquia da Igreja, ao Poder Político e às autoridades académicas do seu país.

Porque foi, pura e simplesmente, ignorada a efeméride, o autor - que viveu 13 anos em Moçambique - passa a livro todo o seu trabalho de investigação histórica de muitos anos sobre a instalação dos portugueses em Sofala, a progressão de agentes do Estado, aventureiros, comerciantes e missionários para o Alto Zambeze moçambicano, o que se passou com o Islão - que «estava lá» - e tanto mais que ocorreu, ao longo de quase cinco séculos, desde aquela primeira Feitoria até a região do interior africano onde ficava a Corte do Monomotapa.

Breve biografia do Autor

Santos_martins_1 Armando dos Santos Martins (A. Santos Martins) nasceu em Coimbra de família com fortes raízes nos contrafortes da Serra da Estrela e no Baixo Mondego. Depois dos seus estudos como Aluno Salesiano, ingressou na Força Aérea Portuguesa e partiu para Moçambique, com 19 anos de idade, integrado nas forças expedicionárias que foram combater a subversão armada naquela antiga Província Ultramarina. Ali nasceram três dos seus quatro filhos. Já como profissional da Imprensa (e Rádio), foi Correspondente de Guerra nos distritos flagelados pelo conflito. Deslocado em permanência, pelo 'Notícias' de Lourenço Marques, para a cidade de Tete, exerceu aqui também as funções de director do Emissor Regional do Rádio Clube de Moçambique. Acompanhou como jornalista os últimos anos do Plano de Desenvolvimento do Vale do Zambeze e a construção da barragem hidroeléctrica de Cabora Bassa. Regressado a Portugal em 1976, nesse ano trabalhou como redactor no 'Diário de Coimbra'. Ingressou nos quadros de 'O Comércio do Porto' em 1977, onde permaneceu até 1999, com funções de chefia e direcção. Entretanto, fundou e dirigiu na sua cidade natal o semanário 'Jornal Vale do Mondego'. Estudioso da Epopeia lusa, tem numerosos trabalhos publicados sobre a Expansão Marítima e a presença dos Portugueses no Índico. Em 2005 foram editados os seus livros 'História da Casa do Minho' (2º. volume), 'Santa Maria Lúcia de Jesus e do Coração Imaculado' (já traduzido em Espanhol), 'Os 5 Papas que peregrinaram em Portugal', 'João Paulo II em Coimbra' e 'Sofala - o primeiro templo da Igreja Católica na África Oriental Portuguesa'.

NOTA:

Pedidos à Feira Permanente do Livro, com sede no Arco de Almedina, 33-35, 3000 COIMBRA (telefone 351.239 838 192)

31-01-2006

Morreu Orlando da Costa, escritor sob o 'signo da ira'

Orlando_costa Nascido em Lourenço Marques, hoje Maputo, no seio de uma família goesa, de brâmanes católicos, Orlando da Costa foi criado em Margão, Índia, de onde partiu muito do perfume e sabor dos seus escritos. Ficcionista, dramaturgo, poeta, morreu, ontem, em Lisboa, onde chegou aos 18 anos e se licenciou em Ciências Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras. Contava 76 anos. Era pai de António Costa, actual ministro da Administração Interna, e de Ricardo Costa, jornalista.

Apaziguador no uso da palavra, não alheado da acção cívica, pulsa na sua obra uma consciência social e política lado a lado com um olhar minucioso sobre o coração dos homens nos seus amores e desamores, na alegria, no sonho, no deserto da solidão.

Colega de Maria Barroso, de Augusto Abelaira e de Jacinto Baptista, Orlando da Costa, militante do PCP, apoiou a candidatura de Norton de Matos e foi preso três vezes pela Pide (1950-1953). Da última vez, permaneceu no cárcere em Caxias por cinco meses e uma semana (acusado de militar em defesa da paz). Aí escreverá a sua tese. Passou pelo ensino particular até ser proibido de ensinar e trabalhou na publicidade.

Os seus livros de poesia, como A Estrada e a Voz, Os Olhos sem Fronteira e Sete Odes do Canto Comum circularam amiúde entre os amigos e os intelectuais, mas O Signo da Ira, totalmente passado em Goa (Prémio Ricardo Malheiros, Academia das Ciências, 1961), vendeu dez mil exemplares, apesar de a Pide o ter proibido de circular. A mulher, em seus anseios, fragilidades e força, esteve sempre no centro da sua prosa, como em Podem Chamar-me Eurídice ou em Os Netos de Norton.

Mário de Carvalho destaca a "humanidade e companheirismo" de Orlando da Costa, classificando a sua prosa como "muito apurada". Para José Manuel Mendes, presidente da Associação Portuguesa de Escritores, de que Orlando da Costa foi vice-presidente, a obra do romancista é "um dos momentos mais relevantes da ficção portuguesa".
DIÁRIO DE NOTÍCIAS - 28.01.2006

29-01-2006

ALFARRABISTAS E LIVREIROS ANTIQUÁRIOS EM PORTUGAL

Embora não exaustiva, junto uma listagem dos principais alfarrabistas de Portugal.

Veja em:

Download alfarrabistas_e_livreiros_antiqurios.htm

27-01-2006

HOMENAGEM CULTURAL a Poeta Moçambicano em PORTUGAL

Craveir1 3 Anos do passamento do Poeta - Herói Moçambicano, JOSÉ CRAVEIRINHA

(06 Fevereiro 2003 / 2006)

Programa

Fevereiro 2006

Um Evento Cultural terá lugar na segunda feira 06.02.2006 pelas 18 horas na Sede - auditório do Instituto Camões em Lisboa (à rotunda do Marquês de Pombal - praça escritor Camilo Castelo Branco), rua Rodrigo Sampaio 113, r/c, 1150 - 279, Lisboa, telefone 213 109 100.

O Programa constará de uma projecção de DVD - vídeo (em telão), da sua vida e obra, contada pelo próprio Poeta -mor (50 min.) e na segunda parte, de um sarau de poesia com música e pequeno bailado coreográfico (40 min.), alusivos ao mesmo Poeta Moçambicano, JOSÉ CRAVEIRINHA (28.05.1922 / 06.02.2003).

Este evento, com alguma alteração programática, será repetido no dia 10 Fevereiro 2006 em Lisboa, com início pelas 18 h.,  na Sede da Casa de Angola em Lisboa -, Travessa da Fábrica das Sedas, nº 7, 1250-107 Lx, telefone 213 829 487 (ao Largo do Rato / CTT). www.casadeangola.com

Os Angolanos em Portugal  pretenderam também participar  na Homenagem ao Poeta Moçambicano JOSÉ CRAVEIRINHA.

(Ambos os eventos com a coordenação de João Craveirinha como animador cultural)

Visite:

http://www.macua.org/craveirinha.html

26-01-2006

"CAMINHOS PERDIDOS NA MADRUGADA" de Costa Monteiro

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Costa_monteiro Fernando da Costa Monteiro Vouga, nasceu em Lamego, em 1940. Após ter terminado os seus estudos liceais, alistou-se como voluntário no Exército, tendo ingressado na Academia Militar onde frequentou o curso de Cavalaria.
Promovido a oficial, foi colocado em várias unidades da sua arma. Fez três comissões em África nos três teatros de guerra. Depois desempenhou diversas funções, em que se destacam oito anos como professor do Instituto de Altos Estudos Militares, em Lisboa.
Frequentou cursos profissionais, dois dos quais nos Estados Unidos. Terminou a sua carreira militar como oficial de ligação junto à Agência Logística da OTAN, no Luxemburgo, com o posto de coronel. Reformou-se aos cinquenta e dois anos.

Literáriamente Costa Monteiro já tem várias obras publicadas mas são para as cuja acção se desenrola em Moçambique que chamo a vossa atenção: "TRAVESSIA" e "CAMINHOS PERDIDOS NA MADRUGADA". No seu essencial entre Cabo Delgado e a Zambézia. Retrato de uma época que não mais se apagará da memória de quem a viveu, mas que urge dar a conhecer a todos os portugueses.

Ao acaso, transcreve-se o Capítulo VI de "Caminhos Perdidos na Madrugada":

Download CaminhosVI.doc

Em relação a "TRAVESSIA", vejam:

http://www.macua.org/livros/travessia.html

Editor: Editorial Escritor, Lda. R. S. Nicolau, 119 2ºFrente 1100LISBOA

          Tel: 351.213470367

Email autor: fernandovouga@netmadeira.com

25-01-2006

"Invejocionites da pretalhada"

Por Florentino Dick Kassotche

 contei esta história por várias vezes a muitos meus amigos de andanças, e hoje decido compartilhá-la com o meu vasto público leitor. È uma história triste, mas interessante ao mesmo tempo. Quando eu comecei a compartilhar a mesma casa com a minha namorada dinamarquesa, as suas duas empregadas, que eram pretas iguais a mim não se sentiram bem em ter um patrão preto. No dia em que levei comigo alguns meus pertencentes e passei a noite naquela casa que viria mais tarde, a ser também minha, logo na manhã seguinte, como se eu não representasse algo para elas, as duas senhoras entraram casa de banho adentro, a assobiar, fingindo que estavam muito preocupadas com a limpeza. Lembro-me que continuei o meu banho num à-vontade que lhes pôs mal dispostas, e desse dia em diante nunca mais viriam a repetir a brincadeira na casa de banho e nem num outro canto da casa, reconhecendo, assim, a presença de um homem e imune a provocações sem concatenação.

Vieram outras provocações, mudanças bruscas de ementas, para o pior, claro, quando soubessem de antemão que a “patroa" delas não viria a uma dada refeição; o uso excessivo e abusivo de telefone fixo, e na minha presença, numa clara demonstração de que eu, antes de fazer parte do agregado daquela casa, tudo aquilo era permitido: jogos de ciúmes em relação às minhas amigas, numa de defenderem a patroa, mas com outros objectivos; a não entrada de mais bocas para a casa de que elas eram verdadeiras donas da cozinha; visitas de seus familiares nas horas em que a patroa não estava em casa, numa de que os parentes de uma funcionária doméstica não podem morrer de fome, enquanto elas estiverem a trabalhar para uma patroa abastada; entre muitas façanhas.

Vendo que eu não me chateava com todas essas provocações, as duas irmãs decidiram aprontar uma pesada: conhecendo o mealheiro da senhora, retiraram de lá uns mil dólares. Passados três dias, a “senhora” em pleno almoço, quis saber:

-Terás levado, por acaso, mil dólares de um dos meus esconderijos? - Ela pergun­tou-me.

-Mil dólares? Não!, e nem sei onde é que guardas dinheiro nesta casa.

-Posso pôr as mão no fogo que as minhas empregadas não são capazes de um acto igual. Estão comigo há mais de cinco anos, e nunca houve uma coisa do género.

-Estás indirectamente a insinuar que fui eu a fazer desaparecer o dinheiro?

    Não posso dizer que sim ou não, só que deve haver uma mão estranha que deve querer aproveitar-se da tua presença nesta casa.

Senti-me ultrajado nesse dia, mas não tinha maneiras da me defender. Mesmo que o quisesse, não sei se a minha sócia tinha ouvidos abertos para mim! De tanto confiar nos seus empregados, o único suspeito, fora a nossa ligação sentimental, era eu,

De um dia para o outro, os tipos da raça dela, que por força de circunstâncias, tinham se tornado meus amigos de convívios, olhavam para mim com um ar do desprezo e desconfiança. A minha própria sócia, embora fizesse esforço de fazer de conta que tudo estava bem, eu sentia nos seus gestos uma certa repulsa, um certo distanciamento.

Fui ter com o meu pai adoptivo, o velho Ismail, e dei-lhe o picture do que se estava a passar comigo.

- E o que esperavas que as pretinhas fizessem? Antes de seres promovido a “patrão” elas eram as verdadeiras donas de casa. Quando a patroa delas viajasse, elas tomavam canta da casa, e agora, com a tua presença tudo mudou na vida delas. Se, controlavam o dinheiro disto ou daquilo, agora, és tu. Se se beneficiavam disto ou da­quilo, por mais que continuem a usufruir desses direitos, mas já não é da mesma maneira como dantes A tua presença ofusca muitas coisas; alterou modus vivendi delas. E para demonstrarem o seu não consentimento com a tua cara-presença, elas preferiram dar-te a entender do jeito que estás a contar-me.

- E não aceito ser acusado sem mais nem menos. Quero pôr esta história em pratos limpos.

- Como, meu filho?

- Quero um bilhete, que hei-de viajar para Tete, e depois para Angónia.

- E achas que essas pretas hão-de ter medo dos teus curandeiros?

- Caso não, hão-de pagar por aquilo que fizeram.

- Não sejas maldoso. Antes de partir, despede-te da tua namoradinha e das ditas empregadas, passando por explicar-lhes o que vais fazer e o que representará isso na vida futura de quem, real­mente, pegou na massa,

E à hora de almoço, a presença das empregadas junto da patroa.

- Chamei-vos que é para vos informar que amanhã, terça-feira, viajo para Angónia, uma das zonas do país onde existem cientistas tradicionais que podem nos ajudar a recuperar o dinheiro que desapareceu nesta casa. Não sei o que há-de acontecer com a pessoa que levou o dinheiro, mas não venham dizer, um dia, que eu fui mau. Com a Angónia não se brinca, minha gente!

E, de facto, eu viajara. Chegado ao destino, quando eram dezassete do mesmo dia, a minha namorada telefonaram-me:

- Eh, podes voltar, que o dinheiro já apareceu!

-Como assim?!

    - Num sitio que nunca esperava - em baixo do meu computador. Dos mil dólares, faltam cento e cinquenta, Antes de te pedir desculpas, tenho que confessar que a magia da Angónia deve ser tão forte que deixou as ladras sem fôlego! Já agora, gostaria de conhecer esses teus curandeiros, que é para tratar o cofre do meu serviço, que tem sido visitado por umas forças estranhas.

- Diga-me uma coisa: quem é que pôs o dinheiro nesse sitio?!

- Forem as duas. Confessaram e estão arrependidas. Queriam que tu saísses sujo dessa jogada e perdesses a confiança da minha gente.

Três dias depois voltei de Tete, Reuni-me de novo com as mesmas pessoas e pedi que fizessem confissões explícitas em frente de mim, caso contrário, corria-se o risco de a pessoa que tinha levado o dinheiro perder todos os dedos da mão que foi autora do crime, um por um. E as duas, com lágrimas nos olhos, confessaram o crime e as intenções da mesma: estavam acostumadas a trabalhar para a branca e a minha presença atrapalhava muita coisa.

      Moçambicanamaniamente reflectindo, os níveis de confiança-desconfiança têm a ver com as cor-cores, etnias, origens, grupos de pertença, formações académicas, ,,,, E na esteira de empregadas, quantas outras, de outros níveis, num jogo de afirmações sociais, preferem acidificar kinships seculares, em troca de reconhecimentos pontuais!? Fabricam-se culpados, esquecendo-se totalmente de que a vida é uma sucessão de tempos: passado-presente-e-futuro. E quem saberá o que reserva o futuro para cada ser existencial? E o futuro a virar-se presente, qual será a contribuição do passado, para uma biografia imaculada de toda uma vivência?

A inveja, um dos sete pecados capitais!

ZAMBEZE - 15.12.2005

23-01-2006

O Amanhã tarda em chegar

O_amanha_constana_capa Constana

A Folheto Edições & Design tem o prazer de convidar V. Ex.ª para a apresentação do livro "O amanhã tarda em chegar", XIX volume da colecção "25 Poemas" de Constança Aguilar e fotografias de Rafael Barroca.
A sessão terá lugar no próximo dia 28 de Janeiro de 2006, pelas 16 horas, na Biblioteca Municipal de Tomar.

“O Amanhã” de Constança Aguilar e Rafael Barroca

“O Amanhã tarda em chegar” é o nome do livro de Carla Martins sob o pseudónimo de Constança Aguilar com fotografias de Rafael Barroca pertencente à colecção “25 poemas” da editora leiriense Folheto Edições e Design.

A apresentação desta obra literária realizar-se-á na Biblioteca Municipal de Tomar no próximo dia 28 de Janeiro, pelas 16 horas.

Segundo José Travaços Santos este livro “trouxe-nos o encanto muito particular duma singular sensibilidade poética, expressa em palavras ordenadas e dispostas com elegância e musicalidade”, acrescenta ainda que “há beleza, profundidade e qualidade” nos versos da autora.

José Manuel Silva, refere que “estes poemas são grito, força, alma, corpo de mulher… estes poemas são um princípio”.

Arménio Vasconcelos autor do Proémio deste livro revela que “os poemas são adoçados e amaciados como se tratasse de uma escultora”, refere ainda que “possuindo uma cultura rica de humanismo, projecta a autora uma personalidade de inteireza nas páginas que nos são oferecidas”. No que diz respeito à ilustração da obra poética, Arménio Vasconcelos remata que “as fotos que ilustram os poemas do presente livro, são outros tantos poemas”.

Carla Martins é natural de Moçambique, tendo-se interessado desde criança pela literatura. Depois da Escola Primária e secundária em Tomar, envereda pela gestão de empresas tendo concluído a sua licenciatura no Instituto Superior de Línguas e Administração - ISLA de Leiria. Profissionalmente exerce funções de gestora e é Técnica Oficial de Contas desde 1997. Assumindo o compromisso de nunca se desligar do mundo artístico, participa como contadora de histórias em festas e encontros com alunos das escolas, e em saraus como declamadora de poesia.

Rafael Barroca é natural da Nazaré e desde sempre desejou dedicar o seu tempo à arte de fotografar. A partir de

2000 a

Arte revela-se na sua vida com a escultura e o teatro, mas foi a fotografia que sempre se destacou pela sua emotividade. Conta com várias participações em concursos fotográficos para revistas e instituições resultando em exposições diversas. Na área da escultura destacam-se os 1.º e 2.º lugares de artes plásticas num concurso organizado pelo S.D.P.J. de Leiria. Efectuou ainda alguns troféus para festivais e galas dos mais diversos fins.

Contactos:

Tel./Fax: 244 815 198

Email: folheto@iol.pt

http://folhetoedicoesdesign.blogspot.com/

04-01-2006

Reverter – em bom português

Sobre a "reversão" de Cahora Bassa para Moçambique, leia-se este interessante artigo, publicado hoje no Correio da Manhã(Maputo):

O pensamento de: António B. de Melo

Reverter – em bom português 

Reversão é um substantivo feminino que deriva do latim original reversione. Diz-se, informa-me o meu velho Lello & Irmão, edição de 1978, do “acto de reverter”, “regressar ao primeiro estado” ou “a um estado anterior”.

Em caso mais particular, pode ser ainda dizer-se “o direito de reaquisição em que o bem que alguém disponibilizou a um terceiro volta para a sua posse quando esse terceiro morre sem deixar filhos”.

Aos exmos. Leitores desejo um muito, muito próspero e feliz ano em 2006.

Um dos programas que aprecio na RTP, a estação de televisão pública portuguesa que se difunde em partes do território nacional mercê de um acordo de “cooperação” cultural qualquer, é uma pecinha de um minuto e meio, ao contrário dos seus insuportáveis noticiários de hora e meia, que são uma mistela de propaganda popularucha, missa governamental solene e conversa insuportável para os velhos reformados daqui, amenizado pelo detalhe do apresentador principal, José Rodrigues dos Santos (o que tem as orelhas grandes), ter nascido e crescido algures em Moçambique. Trata-se de uma rubricazinha que nos deve ensinar como se fala “bom português”.

Se ao vê-lo o Leitor por vezes se sentir inadequado porque mais que metade das vezes erra, não se preocupe. Acontece a muito boa gente aqui em Tugaland.

Foi por isso que não me perturbou absolutamente nada quando uma boa parte da imprensa moçambicana, emaranhada na emoção do histórico momento, especialmente quando o ministro Namburete saiu do avião de Lisboa, atrás do Presidente Guebuza, brandindo na mão o memorando da HCB (antes de seguir para os negócios de Pequim), selando o grande negócio como da “reversão” da barragem no Zambeze para os moçambicanos.

Leia o texto completo em:

Download reverso_de_cahora_bassa.doc

18-12-2005

Sérgio Vieira Considera “A MORTE DE SAMORA MACHEL” Livro Inspirado pela PIDE

Semanário Domingo (Maputo, 4 Dez 05 p. 8)

Carta a Muitos Amigos - por Sérgio Vieira

Na invenção da História, parece que saiu um novo opúsculo em Maputo com a versão do apartheid sobre o assassinato de Samora Machel e dos seus colegas. Funda-se na versão do apartheid e em especulações e camuflagens proporcionadas por elementos ligados no passado à PIDE e aos serviços rodesianos e sul-africanos. Veja-se, para comprovar, a lista dos agradecimentos que o autor endereça.

Penso que o estado Moçambicano, para que não se sufoquem os factos, deveria republicar o relatório moçambicano e o soviético assim como os dados das chamadas caixas negras. Igualmente, deveria publicar a comunicação que o presidente Chissano fez à II Legislatura da Assembleia da República.

Um abraço à verdade quando se trata de História e não de ficção.


Autor de  “A MORTE DE SAMORA MACHEL” Responde a Sérgio Vieira


Semanário Domingo (Maputo, 18 Dez 05 p. 9)


Ex.mo Senhor Jorge Matine
Ilmo Director do Semanário Domingo

j.domingo@tvcabo.co.mz

Na edição do dia 4 do corrente, o V/colaborador, Sr. Sérgio Vieira, proferiu
uma série de alegações francamente difamatórias, lesivas da minha dignidade,
e que merecem o seguinte reparo, no âmbito do direito de resposta consagrado
na Lei de Imprensa em vigor no país:

1. O livro, A Morte de Samora Machel, de minha autoria, não contém a "versão
do apartheid" sobre o acidente de aviação de Mbuzini, mas sim os pontos de
vista dos países que integraram a respectiva Comissão de Inquérito,
nomeadamente a África do Sul, Moçambique e a extinta União Soviética.

2. O livro fundamenta-se no relatório elaborado por aquela comissão, o qual
inclui, entre outros, dados comprovativos dos erros flagrantes cometidos
pela tripulação do Tupolev presidencial e que viriam a causar o acidente.
Tais dados foram recolhidos por investigadores dos três países acima
mencionados.

3. As individualidades a quem, no livro, agradeço o apoio prestado, apenas
me auxiliaram na interpretação de inúmeros pormenores técnicos constantes do
relatório em causa, para além de terem facilitado entrevistas com diversas
fontes, todas elas, aliás, devidamente identificadas.

4. A responsabilidade pelos pontos de vista e interpretação de determinados
factos mencionados no livro é inteiramente do autor, não reflectindo nenhuma
outra posição, tanto oficial, como particular.

5. É, portanto, gratuita, a insinuação feita pelo Sr. Sérgio Vieira de que o
livro, A Morte de Samora Machel, contou com o apoio de antigos agentes da
PIDE e das suas congéneres rodesiana e sul-africana, e isso é facilmente
comprovado pelo facto do V/colaborador, como lhe é peculiar, não ter
fundamentado a atoarda ora propalada e não o poderia ter feito pois nem
sequer havia lido o livro, conforme ele próprio admite.

Sem outro assunto a tratar, creia-me

De V.Exa

Atenciosamente

João M. Cabrita

Recorde em:

http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2005/11/no_escrever_a_h.html

17-12-2005

Sobre a CULTURA

Pensamento de João Craveirinha

A verdadeira Cultura não tem Partido Político porque ela própria –, “per si” – é um “Partido espontâneo de ideologia” social, saída da própria sociedade, evoluindo (ou involuindo) através do tempo. É por essa razão que não se inventa uma cultura popular. Somente os regimes de ditadura (como a que Moçambique teve), pretendem inventar uma (in)cultura para o Povo, destruindo a existente cultura urbana (em evolução rumo à modernidade), impondo muitas vezes contra – valores rurais medievais e retrógrados. Depois, chamam a isso de Cultura revolucionária. Na realidade, tratou-se de uma reacção contra – natura, isto é, atitude reaccionária no verdadeiro sentido da palavra.
JC – 16.12.2005.

15-12-2005

Porcalhices da Política

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O autor, Adulcino Silva, e a Papiro Editora têm o prazer de convidar V. Exa. a estar presentes no lançamento do livro "Porcalhices da Política", que terá lugar no dia 20 de Dezembro de 2005, pelas 18h00, na Livraria Barata, sita na Avenida de Roma, 11 A, em Lisboa.

Papiro Editora: Tel.: 220103900

14-12-2005

RECORDAÇÕES DE LOURENÇO MARQUES

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CARLOS ALBERTO VIEIRA

Carlos Alberto Vieira nasceu em João Belo, actual cidade do Xai Xai, capital da província de Gaza; mas foi em Lourenço Marques, hoje Maputo, que viveu os primeiros anos da sua vida.

Na década de 30, o seu pai emigrou para Portugal, fixando residência na cidade do Porto. É justamente nesta cidade que Carlos Alberto faz a escolaridade, nomeadamente o terceiro ano do curso industrial.

Aos 12 anos Carlos Alberto constrói a sua primeira máquina

fotográfica.

Em 1945, já fotógrafo, decide regressar a Moçambique, e ingressa de imediato nos quadros do jornal Diário de Notícias como fotojornalista. Em poucos anos foi nomeado chefe da secção fotográfica, mais tarde torna-se accionista do jornal, acabando, no entanto, a sua carreira profissional como editor fotográfico.

As imagens deste livro, recolhidas entre 1945 e 1975, representam uma pequeníssima parcela do acervo fotográfico deste fotojornalista que durante mais de cinquenta anos palmilhou Moçambique. Fotografou de tudo. Desde o sofisticado empreendimento comercial a projectos de natureza sócio-económica, passando pelas cidades, vilas e aldeias. Fotografou a fauna e a flora. E fotografou também as guerras que assolaram Moçambique.

Samora Moisés Machel, o presidente fundador da República de Moçambique, escolheu muitas vezes Carlos Alberto para seu retratista.

Carlos Alberto Viera morreu a 9 de Fevereiro de 1995, em Maputo, deixando três filhos, dois dos quais, o Joaquim Carlos e o Rui, são fotojornalistas.

NOTA: Belíssimo livro, ao qual outros se seguirão, já à venda nas livrarias em Portugal. Este é dedicado à Cidade de Lourenço Marques para onde nos transporta, deliciando-nos.

13-12-2005

‘Jezebela’, romance da lusofonia

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Adelto Gonçalves

         João Craveirinha, 58 anos, sobrinho do poeta José Craveirinha (1922-2003), nasceu na Ilha de Moçambique. Bastariam esses dois pormenores para justificar a apresentação de um escritor. Afinal, José Craveirinha, nascido na antiga Lourenço Marques, hoje Maputo, foi o maior poeta africano de língua portuguesa e não são poucos aqueles que ainda acreditam que o dom da poesia seja transmitido por genes, embora essa afirmação contrarie tudo o que ensina a Antropologia.

Leia em

Download Craveirinhaadelto.doc

29-11-2005

Boletim Africanista

Boletim Africanista, Ano VI, n.º 11, Novembro 2005

Editado pelo Núcleo de Estudos Sobre África do

Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades (CIDEHUS)

Universidade de Évora (UE)

Palácio do Vimioso, Apartado 94 – 7002-554 Évora. 

E-mail: nesa@uevora.pt

Agenda africanista

-         17 e 18 de Novembro de 2005 - II Colóquio Internacional sobre Trabalho forçado africano ­ experiências coloniais comparadas. Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Organização do CEA / FL / UP. O campo de estudos ...

Veja em

Download boletim_africanista11de2005.doc

28-11-2005

Agostinho Neto: a sacralização de um déspota

CARLOS PACHECO*
Acaba de vir a lume em Portugal uma biografia assinada por vários autores consagrada a Agostinho Neto – Uma vida sem tréguas, 1922/1979 -, que tem no jornalista Acácio Barradas o seu coordenador.

A primeira impressão que se colhe desta obra é o tom de unanimidade que percorre todos os seus textos. Nenhum dos depoimentos oferece um relato histórico objectivo da personalidade e do percurso político do líder africano. Talvez porque as pessoas convidadas a dar o seu
testemunho estejam todas intimamente ligadas ao regime do MPLA e incapazes, por um mimetismo ideológico, de falar de um outro Neto, diferente do estereótipo propagandístico que se tem esculpido dele.

Efectivamente a imagem que o livro fixa do fundador do Estado angolano é a do humanista, do chefe carismático, dotado de virtudes excepcionais e que sabiamente governou o seu povo. No entanto, da primeira à última página não se encontra uma voz dissonante, todos vão na mesma direcção ao render culto à figura do "herói". O livro funciona qual uma peça de ritual destinada a consolidar o mito, sendo
que para isso se silenciaram determinadas acções de Neto à cabeça do movimento de libertação, e depois como estadista, deixando de lado o extenso catálogo das suas vítimas, o desastroso balanço da sua governação e o deserto trazido a Angola pela desvairada intolerância da sua "república".

Neto personificou em África, como mais ninguém, "as doutas trevas do socialismo autoritário", para usar uma expressão de Octávio Paz, escritor mexicano. Na Angola que ele concebeu não havia lugar para os moderados nem para os sem partido. Uns e outros eram fustigados na imprensa oficial como suspeitos de se quererem substituir aos antigos
senhores. Ficar de fora [ou não se juntar ao MPLA] significava ser inimigo do povo, ser contra-revolucionário. Aliás, lembro-me de um comício em 1976, no largo do palácio, em que Neto ao discursar para a multidão ali concentrada a incitou com estas palavras: "se virem um
contra-revolucionário levem-no à DISA" [a polícia política].

Contra-revolucionário no léxico dos ideólogos do MPLA não servia tanto para identificar as pessoas que descressem em silêncio [e na intimidade de si próprias] das propostas da ideologia dominante; mas as que não participavam "dos rituais e das práticas exteriores" que conferiam "existência material" à ideologia. Um dos rituais era dar
vivas ao MPLA e ao camarada presidente Agostinho Neto no final de cada reunião [de braço levantado e punho cerrado]; ou varrer as ruas, ou cortar cana-de-açúcar no Caxito, ou descarregar navios.

Os servidores públicos conformavam-se e aderiam a estes exercícios. Era o que os dirigentes chamavam de reeducação das massas na produção directa. Não seguir estes preceitos pressupunha riscos muito sérios. Era-se acusado de pequeno-burguês e de traidor aos princípios revolucionários. Nem a população europeia foi poupada a tais constrangimentos. Segundo o próprio Neto, ela também deveria associar-se às comissões populares de bairro, à defesa popular e a "todas as formas de organização" do MPLA.

Era um quotidiano infernal fundado no conceito do "homem novo", que reproduzia a  rotina do "socialismo realmente existente" da União Soviética, ia China e de outras "democracias populares"; e que Václav Havel, ex-presidente da República Checa, descreve muito bem no Poder dos sem Poder. Por medo, os súbditos submetiam-se a este estilo de
vida e adoptavam aquilo a que Boris Pasternak, escritor russo (1890-1960), deu o nome de "linguagem da mudez", porque só ela garantia a sobrevivência e o êxito de quem a usava.

Dizer que Neto exerceu um papel notável nos negócios da administração do país, é esquecer o desmantelamento anárquico a que se procedeu nas estruturas intermédias do aparelho de Estado, nas fábricas e em outros sectores económicos. A extinção das juntas de freguesia e das
administrações civis é um exemplo entre muitos. Com a integração destes órgãos nas comissões populares de bairro, logo adveio o caos: a maior parte dos arquivos desapareceu, roubados ou queimados. Pelo país fora centenas de arquivos conheceram a mesma sina provocada por reestruturações irracionais. Nas unidades de produção confiou-se a direcção a Comissões administrativas que foram preenchidas por
incompetentes, analfabetos e comissários políticos que, glosando o estribilho da "unificação de todos os trabalhadores", se entregaram a uma rapina sistemática dos bens públicos.

Quanto mais Neto perorava sobre a transformação da economia colonial numa economia ao serviço do povo, mais Angola se afundava. Ele e os do seu grupo, na verdade, não tinham a menor percepção dos problemas do país. Vindos da guerrilha somente embebidos de palavras de ordem, assim passaram a governar: com exortações e com quadros políticos de fraca envergadura e sem nenhuma preparação técnica, mas que Neto em Setembro de 1975 considerava os mais aptos a gerir o desenvolvimento nacional pela via socialista em íntima ligação às massas populares.

Por outro lado, apontar Neto como um humanista, é uma redundância. Um humanista não assassina e não persegue os seus rivais com a fúria com que ele o fez desde os tempos da luta armada; um humanista não cria um Tribunal Militar Especial, totalmente invisível, responsável entre 1977-79 pela liquidação física de milhares de cidadãos nacionais, a lembrar as tristemente célebres Alçadas dos tempos do absolutismo monárquico; um humanista não permite torturas e execuções sumárias, não provoca assassinatos jurídicos, não tolera práticas abusivas de investigação criminal e sequer mantém em cárcere privado tanta gente durante vários anos.

Pelo contrário, um humanista pauta-se pelo respeito à justiça e pela defesa dos direitos e garantias dos cidadãos. Deste modo, ao agir por vingança qual um deus da morte, Neto manchou a dignidade do seu cargo e apenas mostrou ser o chefe de um Estado facinoroso que não soube
defender os seus filhos.

Tão-pouco se pode tê-lo na conta de um democrata. Já não o era nos tempos de estudante em Portugal, como o puderam perceber alguns dos seus colegas que conviveram com ele mais intimamente, entre os quais Amílcar Cabral. A sua pulsão autoritária era patente nos mínimos gestos. O resto viria a confirmar-se no maqui. O seu conceito de autoridade revelou-se sempre do tipo marcadamente cesarista. Ele não
se esforçava por aplicar a arte da sedução e da persuasão,
especialmente com os indiferentes e recalcitrantes, afim de assegurar a união das hostes. Por ter construído a sua autoridade pela forca, pela subjugação e pela ameaça, não admitia questionamentos.
Desgraçado de quem lhe desobedecesse. Foi um tirano na acepção rigorosa da palavra.

Replicar-me-ão que uma das virtudes de Neto foi a firmeza com que defendeu a integridade territorial de Angola. Com certeza, todavia isso não basta para o qualificar como um político superior. Stalin também defendeu a sua "Santa Rússia" da invasão hitleriana, mas nem por isso deixou de ser um monstro para o seu povo. Talvez me perguntem se, depois de tudo, Savimbi ou Holden Roberto não teriam
feito melhor à testa do Estado. Nem pensar. Teria sido pior.
*HISTORIADOR ANGOLANO

PÚBLICO - 28.11.2005

FRONTEIRAS PERDIDAS

Sal e esquecimento
JOSÉ EDUARDO AGUALUSA

Carlos Escuder vendeu facilmente as fotografias que fez na Ilha. Eram todas elas muito boas. Publicou-as numa conhecida revista madrilena.
Só as vi, porém, no mesmo dia em que, por uma dessas incríveis coincidências que fazem com que, tantas vezes, a vida pareça menos verosímil do que a literatura, li a notícia da morte de Mauro. Na revista madrilena havia uma foto dele, extraordinária, contemplando absorto a Fortaleza de São Sebastião.

Cheguei à ilha na companhia de Escuder, jovem fotógrafo catalão, que se propunha construir, para uma tese de mestrado, um portfolio sobre o esquecimento. Carlos lera no Le Monde uma reportagem com o título, não muito original, convenhamos, "A Ilha Esquecida", e fora isso que o trouxera até ali. A mim trouxera-me a poesia de Rui Knopfli:

"A fortaleza mergulha no mar / os cansados flancos / e sonha com impossíveis / naves moiras. / Tudo o mais são ruas prisioneiras / e casas velhas a mirar o tédio. / As gentes calam na / voz / uma vontade antiga de lágrimas / e um riquexó de sono / desce a Travessa da Amizade. / Em pleno dia claro / vejo-te adormecer na distância, / Ilha de Moçambique, / e faço-te estes versos / de sal e esquecimento".

Estava sentado a uma das mesas do restaurante África Blues, na área internacional do aeroporto de Joanesburgo, e tinha nas mãos "A Ilha de Próspero", com fotografias do próprio Knopfli, quando Carlos me abordou: "Vai para a Ilha?"

Fizemos juntos a viagem de avião para Maputo, e de Maputo para Nampula. Em Nampula alugámos um taxi. O motorista era um velho seco, frágil, de cabelo inteiramente branco e o rosto sulcado por fundas rugas, mas um sorriso intacto, luminoso, que parecia ter sido estreado naquele mesmo dia. Chamava-se Ben, diminutivo de Benigno, Benigno Meigos, o que me pareceu um bom presságio, sabendo-se que a palavra meigo provém do grego magikós, pertencente à magia, aquele
que encanta.

A Ilha, que foi capital de Moçambique até 1898, está ligada ao continente por uma estreita e compridíssima ponte, ferrugenta, como uma corrente a prender um barco ao cais. O abandono não me surpreendeu. Era o que eu esperava: velhos casarões atordoados sob um sol feroz. Um lento cerco de praias, um mar cor de esmeralda, as enormes árvores fatigadas, cobertas de poeira. Havia também jovens à sombra jogando ntchuva, ou simplesmente imóveis, silenciosos, de
braços cruzados. Mais tarde, nas varandas, vi mulheres, em capulanas coloridas, alongadas sobre esteiras (algumas delas com o telemóvel pousado junto à cabeça). Naturalmente, já não encontrámos riquexós.

Benigno parou o carro junto a um largo portão - uma pousada -, recebeu o que lhe era devido e prometeu regressar à tarde, para nos levar a conhecer a Ilha, e uma praia, no continente, que era a única, assegurava, onde nos convinha tomar banho. O proprietário da pousada, Mauro, um italiano ruivo, de meia idade, trazia vestida uma t-shirt cor de laranja na qual se podia ler - "Deus acredita em mim". Não
fiquei muito convencido. A cabeleira ruiva, desordenada,  dava-lhe  um  ar meio atónito, implausível. O próprio Deus, vendo-o assim, talvez o colocasse em dúvida.

"Esta ilha é um sumidouro", disse, num português triunfante, depois que nos sentámos diante dele, à sombra lilás de um caramanchão coberto por buganvílias. Mandou que nos servissem um sumo de caju, muito fresco, e continuou:

"Vejam bem, os estrangeiros vêm para esta Ilha para esquecerem algo, ou alguém, ou para serem esquecidos. O poeta Tomás António Gonzaga, por exemplo, e os seus companheiros da inconfidência mineira. As pessoas chegam a este lugar e são esquecidas e depois elas próprias se esquecem de quem foram. Gonzaga esqueceu-se da bela Marília.
Talvez até se tenha esquecido do Brasil. Deixou descendentes aqui, sabiam?"
"E o senhor?", perguntei-lhe: "veio para esquecer ou para ser esquecido?"
O italiano sacudiu a áspera cabeleira ruiva:
"Ambas as coisas."
Carlos quis saber se lhe poderia fazer um retrato, ali mesmo, sentado à mesa, sob aquela luz de fantasia. Mauro assustou-se:
"Não, não! Fotografias não!..."

A veemência com que se recusou a ser fotografado irritou Carlos.

"Não é italiano", assegurou-me nessa noite, enquanto passeávamos pela Ilha: "é basco. Disfarça o sotaque, talvez tenha passado alguns anos em Itália antes de vir para aqui, mas de vez em quando distrai-se e então volta a ser basco. E também não é ruivo, não percebeste?, pinta o cabelo."
No dia seguinte, ao almoço, Mauro bebeu um pouco para além da conta. Bebemos todos. Abraçou-se a mim:

"Numa outra vida fiz muitos disparates, muita confusão."
Repetiu a palavra confusão. No geral é uma palavra que agrada aos estrangeiros que vivem, ou visitam, Angola ou Moçambique.
Kapuscinski, na sua delirante reportagem sobre a independência de Angola, "Mais um dia de vida", dedica-lhe vários parágrafos.

"É isso", insistiu Mauro: "fiz maning confusão. Mais tarde arrependi-me. Arrepender-me foi a parte pior. Agora só quero esquecer, ser esquecido. Espero consegui-lo..."

Quando li a notícia da sua morte soube que não o conseguira. Um homem branco montado numa moto, dizia o jornal. Passou diante da varanda onde Mauro descansava, estendido numa rede, e disparou um único tiro.
Depois desapareceu.

PÚBLICO - 27.11.2005

Processos políticos da Luta pela independência

AUTOR Maria do Carmo Medina
EDITOR Almedina 390 págs.,
Numa linguagem excessivamente datada, própria dos defensores de certas causas, a jurista Maria do Carmo Medina apresenta-nos aqui a obra que o ano passado lhe valeu em Angola o Prémio Nacional de Cultura e Artes, na área da Investigação em Ciências Humanas e Sociais. Para o júri, a escolha justificou-se pelo "aturado trabalho
de utilização de fontes cruzadas de diversos arquivos, pessoais e institucionais", ao desenterrar todo o sistema legal que no início da década de 1960 vigorava em Portugal. E o trabalho é agora antecedido de uma introdução histórica em que Maria da Conceição Neto, professora universitária em Luanda, nos fala dos 4.604.362 negros e dos 172.529 brancos que há 45 anos viviam em Angola, juntamente com 53.392 mestiços.

Tudo isto para que se compreenda melhor a actividade de Mário de Andrade. Viriato da Cruz, Lúcio Lara, Agostinho Neto e Joaquim Pinto de Andrade, entre outros, a favor da independência, que ao fim e ao cabo não viria a dar tanta felicidade aos seus compatriotas quanto eles o desejariam. Como anexos do livro, a querela definitiva de um primeiro processo contra os nacionalistas, as alegações de recurso,
uma exposição enviada ao ministério do Ultramar por habitantes de Luanda, panfletos apreendidos e outros documentos.

A autora procura evidenciar como foi criada pelo Estado Novo, a que chama "ditatorial e fascista", a cobertura legal concedida à polícia política, como é que ela actuava e como é que as demais estruturas judiciais e administrativas com ela colaboravam. J.H.

PÚBLICO - 26.11.2005

27-11-2005

“Zoologia dos Trópicos”

“Zoologia dos Trópicos” é uma exposição inédita dividida em duas alargadas apresentações individuais: uma do já veterano e brasileiro Nelson Leirner (São Paulo, 1932) e outra do jovem moçambicano Jorge Dias (Maputo, 1972).

Cidade: Lagos (Portugal)
Local: Centro Cultural de Lagos
Período: De 29 de outubro a 31 de dezembro de 2005
Telefone:

+351 282770450

E-mail: exposicoes.ccl@cm-lagos.pt

Veja:

http://www.artafrica.gulbenkian.pt/html/artistas/artistaficha_i.php?ida=401

http://muvart.tvcabo.co.mz/portugues/jorge.html

UNESCO reconheceu "natureza única e rara da timbila"

Pict0003 Maputo, 25 Nov (Lusa) - O director da Companhia Nacional de Canto e Dança de Moçambique(CNCD), David Abilio, disse hoje que proclamação pela UNESCO da timbila como património da humanidade consagra mundialmente "a natureza única e rara" daquele instrumento tradicional moçambicano.

A timbila, um instrumento de percussão utilizado pela etnia chope, da província de Gaza, sul de Moçambique, foi hoje proclamada obra-prima do património oral e imaterial da humanidade pela UNESCO.

"Depois de vários estudiosos internacionais e obras terem chamado a atenção para a natureza única e sem comparação da timbila, já não era sem tempo uma consagração deste género", disse à Lusa o director da CNCD, tutelada pelo Ministério da Educação e Cultura de Moçambique.

David Abílio elogiou "a complexidade sonora e a execução da timbila", referindo que esses atributos foram sempre admirados "pelos pesquisadores mais atentos aos instrumentos e ritmos tradicionais".

Reconhecendo as virtudes da timbila, a CNDC sempre tocou o instrumento em todas as suas digressões pelos mais de 100 países onde actuou, acrescentou Abílio.

O director da CNCD disse ainda que a dimensão da timbila ultrapassa "as fronteiras do canto e dança, pois com ela os tocadores chope ridicularizaram a dominação colonial e agora cantam e tocam a paz e sensibilizam as suas comunidades sobre os problemas actuais".

O director da CNDC acrescentou que a proclamação pela UNESCO vai atrair mais interessados em pesquisar "as qualidades raras da timbila", promovendo assim digressões para Zavala, o distrito de onde é oriundo o instrumento, e "levando consigo algum desenvolvimento para aquelas comunidades pobres".

25-11-2005

CPLP: Dicionário Temático da Lusofonia lançado quarta-feira em Lisboa

Mais de 350 pessoas participaram na elaboração do Dicionário Temático da Lusofonia, que reúne informação alargada sobre os oito países e regiões onde se fala português, a lançar quarta-feira na Sociedade de Geografia de Lisboa.
O objectivo do Dicionário de tipo enciclopédico é dar a "conhecer a mentalidade dos países lusófonos", disse hoje à Agência Lusa o professor Fernando Cristóvão, um dos responsáveis pela sua elaboração e presidente da Associação da Cultura Lusófona, com sede na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, que lançou o projecto.

"Tudo o que encontrámos que tivesse interesse para os países e regiões lusófonos foi carregado no dicionário", acrescentou, precisando que "358 pessoas espalhadas pelo mundo inteiro participaram na sua elaboração, dando uma imagem da lusofonia".

Além de Portugal, Brasil, Angola, Cabo-Verde, São Tomé e Príncipe, Moçambique, Guiné-Bissau e Timor-Leste, contribuíram entre outros para a feitura do dicionário especialistas espanhóis, franceses, alemães, russos, checos, do Senegal e Goa.

O dicionário, com 1.000 páginas e 536 entradas, num único volume, abrange assuntos tão variados como a geografia, história, economia, arte, literatura, antropologia, religião, cultura, património, sistemas sociais e de saúde.

A obra inclui igualmente explicações sobre as expressões mais populares utilizadas nas regiões lusófonas, ou palavras como "saudade" ou "morabeza".

Apesar de ser destinado ao público em geral, o dicionário é "direccionado para jornalistas, professores, diplomatas e estrangeiros", afirmou o professor.

A elaboração da obra, que durou cinco anos, foi apoiada pelo Instituto Camões, Fundação Calouste Gulbenkian, Fundação Luso- Americana para o Desenvolvimento e Fundação Oriente, e custará cerca de 50 euros.

Os professores Urbano Tavares Rodrigues, Adriano Moreira, Alfredo Margarido e o antigo presidente da Assembleia da República António Almeida Santos foram alguns dos portugueses que colaboraram na obra.

NOTÍCIAS LUSÓFONAS - 22.11.2005

MUSEU NACIONAL DE ETNOLOGIA EM FRANCA DEGRADAÇÃO

Namp05_1 Localizado em Nampula

O Museu Nacional de Etnologia (MUSET) em Nampula não dispõe de fundo de investimentos para a sua reabilitação, como tinha sido anunciado em meados de 2004, pelo respectivo director, Guilherme Kulyumba, que garantia a existência, nos cofres de Estado, de mais de 800 milhões de meticais.

Para Kulyumba, a promessa então feita pela Direcção Provincial de Finanças não passou de um “falso alarme”, uma vez que chegada a hora do inicio das obras, o dito passou por não dito, alegadamente porque o Museu de Etnologia não tinha cabimento orçamental para a reabilitação daquela infra-estrutura que, por sinal, é de interesse nacional.

Este procedimento, que Kulyumba apelidou de má fé, veio criar grandes constrangimentos, tanto para a instituição, como para o público utente que estava na expectativa de ver o museu com uma face nova e condigna. Aliás, o edifício em referência já há muito que clama por uma reabilitação total, pois o tecto apresenta grandes fissuras, as casas de banho encontram-se degradadas, para além do bloco administrativo se encontrar sem meios materiais à altura duma instituição de dimensão nacional.

A reabilitação total ou parcial deste museu está muito longe de se concretizar, porque não vejo nenhuma luz verde a curto e médio prazos. Enquanto não houver autonomia, continuaremos a depender dos que até agora querem ver isto a afundar, para virem depois chamarem-nos incompetentes - desabafou a fonte.

No entanto, o director provincial de Finanças, Mussa Inze, confirmou a existência de tal montante, justificando que o atraso na concessão dos fundos foi derivada do envio tardio da requisição, que se registou em Janeiro de 2005, depois do encerramento do exercício, que normalmente ocorre em 31 de Dezembro de cada ano.

Se realmente houve culpado, é quem se atrasou na adjudicação da obra e não a nossa instituição. Concluiu Mussa Inze.

Refira-se que o Museu Nacional de Etnologia não dispõe de autonomia orçamental, razão apontada pelo seu director como mais que suficiente para a actual situação de desespero financeiro em que se encontra, porque depende de terceiros, no caso vertente, da Educação e Cultura, que, no seu entender, ainda não enquadrou o museu nas prioridades do sector.

Kulyumba observou, ainda, que a verba atribuída para o funcionamento do museu, que varia entre 18 a 20 milhões de meticais, está aquém das suas reais necessidades.

WAMPHULA FAX – 11.11.2005

09-11-2005

Não escrever a história a partir dos restos do apartheid!

Mbuzini

Não escrever a história a partir dos restos do apartheid!

Por Paul Fauvet*

Duvidar sobre a versão oficial de acontecimentos dum passado recente pode ser uma atitude saudável para um jorna­lista.  Mas o artigo sobre a tragédia de Mbuzini de Luís Nhachote (nas páginas centrais do Savana de 21.10.05) rejeita  a versão “oficial” moçam­bicana, só para abraçar a versão oficial do regime do “apartheid”!

É espantoso que não só Nhachote, mas, também, o jornal Zambeze e mesmo a televisão STV declaram que o livro do propagandista

pró-Renamo João Cabrita, com o título “A Morte de Samora Machel”, é alguma coisa nova, espectacular, nunca vista antes.

A obra de Cardoso e Mbu­zini

Na realidade, Cabrita simplesmente re-edita as alegações de 1986/87 do regime então vigente em Pretória. Essas alegações, incluindo o suposto plano para invadir o Malawi, tiveram na altura a resposta das autoridades e da imprensa moçambicanas.

E Luís Nhachote deve saber que o jornalista que mais escreveu sobre Mbuzini foi o nosso colega Carlos Cardoso, na altura director da AIM.

Em vez de escutar fontes moçambicanas, em vez de ler, por exemplo, os artigos que Cardoso escreveu em 1986/87, Nhachote preferiu fazer a sua história a partir da lata de lixo do apartheid.

Para os seus artigos sobre Mbuzini Cardoso gan­hou o prémio sobre o jorna­lismo investigativo da Orga­nização Nacional de Jorna­listas (ONJ). É pena que nos dias de hoje esses artigos  tenham caído no esqueci­mento.

É indicativo da baixa qualidade do livro de Cabrita que Carlos Cardoso e a AIM não sejam citados como fontes — embora sejam, de longe, as fontes mais impor­tantes devido à sua tese de que o desastre foi provocado pelos militares do apartheid.

Para preencher essa lacuna, nada melhor que voltar ao ano distante de 1986, voltar ao trabalho de Cardoso. Na recente bio­grafia de Cardoso, da minha autoria, conjuntamente com Marcelo Mosse, nos capí­tulos sobre Mbuzini, consta o seguinte:

“A primeira indicação de que poderia ter sido uma sabotagem electrónica veio  de onde menos se esperava. Sérgio Vieira recorda que, quando chegou a Koma­tipoort, a caminho de Mbuzini, a 20 de Outubro, o Comis­sário Johann Coetzee, da Polícia sul-africana, depois de apresentar condolências, soltou esta informação: ‘Mi­nis­tro, sabe o que diz a minha tripulação? Tem de se procurar um emissor de radio por ali’. E apontou na direcção das montanhas. Assim, os pilotos de heli­cóptero da polícia, menos de 24 horas após o de­sastre, acreditavam que o Tupolev tinha sido induzido a sair da rota por um rádio-farol pirata....”

As manobras sul-africa­nas

A 21 de Outubro recebi uma chamada do escritório da UPI (agência noticiosa americana) de Joanes­burgo. O correspondente da UPI achava que a AIM devia saber que ele tinha recebido uma chamada anónima de um homem identificando-se como ofi­cial da força aérea sul-africana que alegava saber que a Força Aérea sul-africana tinha colocado um falso rádio-farol algures na região da fronteira e que isso causara a queda do avião.

Fernando Lima ligou dos Estados Unidos. Disse que um oficial da força aérea americana afirmava que isso era possível, usando equipamento elec­trónico em terra, de modo a desviar um avião da sua rota es­tando o piloto con­vencido que seguia a rota certa.

Este oficial disse que conhecia bem o Tupolev 134 e sabia que os militares sul-africanos tinham a tec­no­logia para interferir no sistema de navegação do Tupolev. Usando esta tec­nologia podiam criar uma falsa rota que podia induzir o piloto em erro.

Assim, diferentes fon­tes, a milhares de quiló­metros de distância, tinham tido a mesma suspeita de que não se tratava de um simples caso de erro do piloto, mas que o avião tinha sido deliberadamente atraí­do para fora da sua rota.

O Governo sul-africano sem dúvida que se com­portou como alguém que tinha algo a esconder. A dada altura, Pik Botha anunciou que havia álcool nos corpos dos membros da tripulação soviética. Tecnicamente, a afirmação era correcta, uma vez que o álcool é um dos sub­pro­dutos da decomposição dos corpos. Mas o que Botha queria sugerir é que o avião se despenhara porque os pilotos estavam bêbados....

Mas a manobra de di­versão mais efectiva foi a súbita divulgação de um documento alegadamente retirado do local do de­sastre. Pik Botha convocou uma conferência de im­prensa, afirmando que o documento era a prova de uma conspiração de Mo­çambique e do Zimbabwe para derrubar o governo do Malawi.

Quando as notícias desta conferência de im­prensa chegaram à AIM, Cardoso telefonou imedia­tamente a Teodato Hun­guana (o então ministro de informação). Esta era a primeira vez que Hunguana ouvia falar das afirmações de Botha.

“É uma tentativa grosseira de transformar a vítima em réu, fazer do agredido agres­sor, fazer do invadido invasor, apresentar o desestabilizado como desestabilizador”, ex­cla­mou para Cardoso. Não tinha a menor ideia sobre se o documento apresentado vinha ou não do avião e declarou: “Alertámos a comu­nidade internacional para um facto extremamente grave – a África do Sul está a fazer tudo para impedir o normal procedimento da investi­gação às causas da morte do Presidente Samora Machel”.

Pouco depois as palavras de Hunguana percorriam o mundo através de um des­pacho da AIM. Hunguana recordou este incidente como um dos exemplos do profis­sionalismo de Cardoso: a pronta reacção de Cardoso à conferência de imprensa “ajudou a neutralizar os planos da África do Sul”.

Investigações da AIM

De facto, em cada estágio a AIM estava em cima da notícia, e Pretória concluiu que não podia fazer decla­rações sem a resposta de Maputo...

Uma das áreas-chave investigada pela AIM foi o sistema de radar sul-africano. Porque a pergunta óbvia era: porque é que não foi usado o sistema de controlo aéreo para avisar o piloto que o Tupolev estava fora da rota e em risco de entrar no espaço aéreo sul-africano? Os sul-         -africanos menosprezaram isto dizendo que o avião estava a voar a tão baixa altitude que saiu dos moni­tores do radar e os con­troladores aéreos assumiram portanto que tinha aterrado em Maputo.

Pik Botha afirmou a 1 de Novembro que o Tupolev “simplesmente desapareceu dos monitores. Ninguém em controlo do radar podia ou teria imaginado que hou­vesse alguma coisa anormal nisso”.   Botha pintou um qua­dro que dava o sistema de radar como primitivo ou ineficiente, moni­torado por pessoal desatento.     Mas uma investigaçãozinha da AIM, usando fontes sul-africanas publicadas, de­monstrou que Pik Botha estava a mentir. Mais de dez anos antes, a África do Sul tinha resolvido o problema de “aviões desaparecidos” dos monitores do radar. Em Mariepskop, junto das mon­tanhas do Drakensberg, foi montado um sistema de aviso concebido para alertar sobre “aviões hostis apro­ximando--se da África do Sul”.

O regime do apartheid vangloriou-se disso. O “Star” de Joanesburgo, em Feve­reiro de 1975, escreveu sobre este sistema que “pode detectar a maior parte dos movimentos numa vasta circunferência entre o oeste do Botswana, o norte da Rodésia, o sul de Moçam­bique e o leste do Natal. Calculadores de altitude são posicionados perto e podem calcular a altura de qualquer aeronave detectada pelo scaner. Este material era transmitido por computador ao quartel-general do sis­tema de defesa radar sul-africano, em Devon, que avaliava se a aeronave que se aproximava era amiga ou inimiga.

Em 1982, o sistema sofisticou-se com a aqui­sição do sistema de radar computorizado Plessey AR-3D. A própria empresa Plessey publicitou que o sistema dá “um quadro completo da situação no ar ao pessoal do comando central”.

Um quadro completo, não um quadro parcial, donde um objecto do tama­nho do Tupolev-134 podia desa­parecer miste­riosamente.

Além disso, em Março de 1985, uma nova rede de radar de baixa altitude foi tornada operacional ao longo da fronteira com Moçam­bique. Pik Botha tinha-se vangloriado do novo sistema e as suas palavras podiam encontrar-se na imprensa sul-africana da altura, 19 meses apenas antes do desastre de Mbuzini....

Também em Março de 1985, toda a fronteira do Transvaal ocidental foi de­clarada um “espaço aéreo especialmente restrito” e Malan (ministro de Defesa sul-africano) anunciou que “todas as ajudas tecno­lógicas possíveis estão a ser usadas para garantir a sua eficácia”. Para obter auto­rização para entrar nesta área restrita, os pilotos deviam contactar o quartel-general da força aérea. Mas o Tupolev entrou directa­mente na área restrita e não houve nenhuma ten­tativa para o dissuadir disso.

Em Novembro de 1986, Botha tinha convenien­te­mente esquecido as suas tiradas anteriores sobre as capacidades do radar da África do Sul...

Uma vez saído o relatório factual (da comissão de inquérito tripartida), a coo­peração da África do Sul na investigação do desastre terminou. Pretória tinha feito o mínimo requerido pelas normas da ICAO. Passou então a rejeitar os pedidos de Moçambique para uma investigação do VOR que o avião tinha seguido.

A controversa Comis­são Margo

Em vez disso, os sul-africanos organizaram a sua própria audição pública sobre o acidente, dirigida pelo juiz Cecil Margo, que conseguiu ter êxito em des­viar as críticas ao governo.

A Comissão Margo nem remotamente foi imparcial. De fontes em Pretória Car­doso soube que um dos seus membros era também admi­nistrador da COMAIR, uma companhia aérea usada como frente pelas forças armadas sul-africanas para o reabastecimento da Re­na­mo e da Unita.

Mas, apesar de nem Moçambique nem a URSS estarem representados na Comissão Margo, surgiam de vez em quando per­guntas inconvenientes da parte dos advogados sul-africanos. Foi assim que perguntaram a Pik Botha porquê teria ele feito falsas acusações de que a tri­pulação do Tupolev estava embriagada. Margo inter­veio para impedir mais inter­rogatórios desta natu­reza.

Como se previa, a co­mis­­são de inquérito Margo atirou as culpas para a tripulação soviética e tanto as auto­ridades moçam­bicanas como as soviéticas rejeitaram as conclusões. O relatório Mar­go saiu a 9 de Julho de 1987, mas Armando Guebuza (na altura ministro dos Trans­portes e Comu­nica­ções) reiterou que o trabalho da comissão inter­nacional de inquérito estava longe de ter terminado. “Só se pode chegar a conclu­sões depois de todos os factos terem sido inves­tigados”, disse, “e parti­cularmente este novo ele­mento vital – onde estava este VOR, era uma arma­dilha ou não? Mas os sul-            africanos, na sua maneira arrogante e intransigente do costume, continuaram com o seu próprio inquérito e mandaram-nos o relató­rio”...

Nos finais de Junho de 1987, Magnus Malan de­clarou que não toleraria “a exportação da revolução” não só no sentido de suble­vação violenta, mas, tam­bém, na forma de propa­ganda anti-apartheid. Num artigo de 30 de Junho, Cardoso escreveu: “Esta é a primeira vez que um diri­gente do regime do apar­theid tenta tão aber­tamente impor a jornalistas e políticos nos estados da linha da frente o mesmo nível de censura que impõe aos jornalistas dentro da própria África do Sul”.

A propaganda da SABC e o seguidismo cabritista

A 9 de Julho a SABC celebrava a conclusão do inquérito Margo com um ataque à AIM e a Carlos Cardoso em particular. Éra­mos todos descritos como “agentes soviéticos”.

“Pouco depois do de­sastre, os doutrinadores soviéticos começaram a conceber e efectivar uma intrincada estratégia de desinformação”, clamava a SABC. “Moscovo cooptava a assistência de agentes so­viéticos de influência dentro das agências do governo de Moçambique. Os meios de comunicação de Mo­çambi­que participaram em pleno nesta campanha e serviram para dar ímpeto à operação inteira”.

“Dias antes da morte de Machel, Carlos Cardoso, o director do instrumento de propaganda da Frelimo, AIM, um marxista ortodoxo, es­peculou que a África do Sul ia possivelmente retaliar pela explosão da mina que matou seis soldados sul-africanos. Num artigo, Car­doso decla­rou explicitamente que o Presidente Machel era um alvo provável de uma ten­tativa de assassínio”. Neste ponto a peça da SABC mostrava a fotografia de Cardoso no ecrã.

“Cardoso emergiu mais tarde como figura-chave na estratégia de desinformação soviética”, continuava a SABC. “Na sua capacidade de director da AIM, ele esteve na origem de uma grande percentagem da produção total de desin­formação”...

A isto seguiu-se, dias mais tarde, uma carta formal ao governo enviada por Colin Patterson, chefe da mis­são comercial sul-afri­cana em Maputo, protes­tando contra os artigos de Cardoso. Hunguana mos­trou a carta a Cardoso.

Patterson escreveu: “Con­­­­sidero decepcionante que Moçambique tenha se­guido tão servilmente a linha de Moscovo sobre Mbuzini. O que torna o assunto mais triste é que Moscovo conhece a verdade e tenta defender a sua reputação e posição em África, ao passo que Mo­çambique aparente­mente permite que o empurrem para assumir um ponto de vista totalmente desmentido pela evidência e as con­clusões de peritos mundiais, para promover a sua própria inexplicável campanha de difamação contra a África do Sul”.

Segue-se a ameaça ve­lada: “Deste modo, la­mento dizê-lo, Moçambique  já foi perigosamente longe na via da desconfiança e sus­peição, no que diz res­peito ao povo e governo da África do Sul”.

À distância de 15 anos, as invectivas da SABC e de Patterson sobre a conspi­ração soviética dão vontade de rir. Mas na altura pare­ciam carregadas de amea­ça.

Finalmente, a questão de sucessão. A ideia de que Chissano “golpeou” Mar­celino dos Santos só pode convencer alguém que não estava em Moçambique (Cabrita) ou era jovem demais para recordar o ambiente daquela altura (Nhachote). Na realidade, Chissano era o sucessor evidente. Eu me lembro bem de discussões infor­mais entre jornalistas, anos antes de Mbuzini: ninguém duvidava: Chissano seria o próximo presidente. Assim, a decisão rápida da Fre­limo depois da morte de Samora de eleger Chissano presidente  não tomou ninguém de surpresa (em Maputo pelo menos, em­bora talvez não nas hostes de apartheid).

Falcões de ontem e de hoje

Como Mbuzini contribuiu para a paz

Por Luís Nhachote

O nosso colega media­FAX (edição de 24 de Ou­tubro) noticiou que proe­minentes figuras políticas nacionais afectas ao partido Frelimo puseram em causa o livro do inves­tigador moçam­bicano João Cabrita – “A Morte de Samora Machel”, no tocante à versão do autor sobre a forma como perdeu a vida o fundador da República Popular de Moçambique e também sobre o alegado plano de guerra que visava a invasão da República do Malawi, deposição do presi­dente Banda e instalação de um novo regime no país vizinho.

O veterano e histórico da Frelimo Marcelino dos Santos disse ao mediaFAX que “quem é moçambicano não duvida que Machel foi morto pelo apartheid”.

O conceituado escritor e intelectual Luís Bernardo Honwana, tal como Sérgio Vieira, na sua qualidade de co-fundador do Centro de Documentação Samora Ma­chel, também desmentiu que Samora tivesse morrido numa missão de guerra.

Ambos insistem que o primeiro presidente moçam­bicano morreu no cumpri­mento de uma missão de paz. Minutas de uma reunião realizada no dia 16 de Outu­bro, três dias antes da morte de Samora Machel, na posse do SAVANA, ilustram que este morreu em missão de guerra.

O que diz o livro de Cabrita

O livro de Cabrita, de facto, faz referência e cita documentos sobre um plano militar que terá sido fabricado por Moçambique e pelo Zimbabwe para o derrube do regime do Presidente Kamu­zu Banda, da República do Malawi, tido então como retaguarda da RENAMO-Resistência Nacional Mo­çam­bicana.

Desenvolvendo a sua tese sobre o aproveitamento político do desastre de Mbu­zini, Cabrita trás dados novos afirmando que houve um aproveitamento “genera­lizado”, quer por parte dos Estados da então Linha da Frente e da sua aliada e extinta União Soviética comu­nista, quer da própria África do Sul, quer ainda dos partidos da oposição que se viriam a estabelecer em Moçambique depois de 1992 quando é assinado o Acordo Geral de Paz em Roma.

O autor de “A Morte de Samora Machel” escreve a dado passo: “A própria África do Sul, como que numa tentativa de desviar as aten­ções do seu alegado envol­vimento na morte de Samora Machel, fez uso de um documento da Presi­dência da República moçambicana descoberto entre os des­troços do Tupolev em Mbu­zini, o qual dava conta de um plano concebido pelos Go­ver­nos de Moçambique e do Zimbabwe para se invadir o Malawi e depor o regime de Kamuzu Banda.”

O investigador João Cabrita, que em “A morte de Samora Machel” trouxe ao público peças do inquérito ao acidente de Mbuzini – peças essas de que o nosso governo sempre dispôs, mas manteve sempre, inex­pli­cavelmente, em segredo –, a dada altura  refere que “o documento (da reunião de 16 de Outubro de 1986) deixa transparecer a relu­tância do então presidente zambiano, Kenneth Kaunda, em apoiar o plano (de Samora), cuja fase inicial incluía o encerramento de todas as fronteiras com o Malawi”.

E acrescenta, voltando a citar o documento, que Machel “pretendia asse­gurar, com carácter de urgência, o desdobramento na província da Zambézia de 1500 homens idos de Maputo e Nacala, assim como a transferência de aviões MiG-17 e helicópteros de combate da Beira para aquela província. Aviões MiG-21 seriam transferidos de Maputo para Beira, de onde operariam.”

As minutas de Maputo

O documento a que nos temos estado a referir são as minutas de um encontro entre delegações de alto nível de Moçambique e do Zimbabwe realizado em Maputo a 16 de Outubro de 1986, portanto 3 dias antes do Tupolev de Samora Machel se despenhar em Mbuzini, na África do Sul, a poucos metros da fronteira moçambicana.

O SAVANA conseguiu obter algumas dessas mi­nutas e de uma leitura atenta do documento se pode constatar o ambiente de grande tensão militar então reinante na zona da África Austral. A linguagem utiliza­da nessa reunião é reve­ladora do agudizar do conflito armado em Moçambique e das posições extremadas que o nosso país, assim como o Zimbabwe pareciam estar dispostos a adoptar para se pôr cobro à insta­bilidade político-militar no nosso País.

Dizia Samora Machel na abertura do encontro de 16 de Outubro de 1986, em Maputo: “A atmosfera da nossa região em relação aos bandidos armados está muito elevada. Parece que pela primeira vez sentiram o perigo que representa o banditismo armado na nossa região.”

Em suma, era uma lin­gua­gem de homens de guerra, temperados na guer­ra, dispostos a continuar a fazer a guerra com o fito de  acabar com a guerra. Na sua ordem de ideias, o alcance da paz seria, sem dúvida, o seu objectivo final. Mas o preço em vidas e infra-estruturas teria sido enorme para Moçambique e para a região, mais ainda sem garantias de sucesso, de­preende-se da leitura das minutas de Maputo. A busca da paz com outra estratégia provou-se ser um caminho mais acertado. Hoje todos beneficiamos dela se a lin­guagem belicosa não voltar ao léxico político nacional pela voz de quem parece precisar dela para regressar à ribalta...

Antes do início do en­contro de 16 de Outubro de 1986 (3 dias antes da fata­lidade aeronáutica que pôs termo à vida do primeiro Comandante-em-Chefe das FPLM) que contou com a participação dos ministros de estado da Segurança e da Defesa do Zimbabwe, res­pectivamente Emerson Mu­nangagwa e Ernest Kadan­gure, para além dos co­mandantes do Exército e da Força Aérea de Robert Mugabe, nomeadamente o Ge­ne­ral Rex Nhongo e o Mare­chal Tungamiray, entre ou­tros, o Presidente Samora Machel fez questão de or­denar que o embaixador do Zimbabwe  acreditado em Maputo, senhor Mvundura, abandonasse a sala de reu­niões.

As minutas do encontro citam Samora Machel como tendo dito a-propósito: “Os embaixadores são compli­cados. Quando me reúno com o Primeiro-Ministro estão presentes e quando me reuno com os militares querem também” estar presentes. (NB: Robert Mugabe ainda não era presidente, o PR do Zimbabwe era Canan Bana­na)

Referindo-se ao Malawi, o falecido presidente Machel é citado nas minutas a dizer que “neste momento o que nos interessa é o foco do banditismo armado no Ma­lawi. E, neste momento, a África do Sul está a fazer força, a 80 quilómetros daqui, acusando Moçambique de várias coisas, que é para não atacarmos o centro e eles continuarem a fazer do Ma­lawi a sua base.”

   

O plano de guerra de Sa­mora

Virando-se para o General Rex Nhono, o presidente Machel começou por dizer: “Rex, vamos dar tarefa aos políticos. Primeiro-Ministro (Mário Machungo, de Moçam­bique, hoje PCA do BIM) e Emerson consigam que:

1.  Malawi aceite que as forças de Moçambique atra­ves­sem Zambézia/Tete/Zam­bézia através do seu território [...] assim como dê auto­rização para tropas zimba­bweanas passem de Tete/Zambézia/Tete.

2.  Zimbabwe proponha ao Malawi que utilizemos o porto da Beira... Esta é a parte política e só pode ser feita por gente da segurança e contra-inteligência.

3.  Moçambique e o Zimbabwe descubram nova força no Malawi. Banda está gasto. Não deixemos a África do Sul colocar a direcção no Malawi. Não deixemos os ingleses, os americanos, a RFA escolher líderes para o Malawi.  Os militares sabem como devem fazer as coisas.

4.  Ganhemos o povo inteiro do Malawi. Nas nossas declarações sempre afir­memos que o povo do Malawi é nosso amigo, as auto­ridades é que são más, a sua acção é que prejudica as nossas relações. Ganhemos a maioria. Aqui estamos a seguir a teoria de Mao Tsé Tung: ganhar a maioria, isolar a minoria e aniquilar um por um. Nós podemos também organizar uma frente de libertação do Malawi, equipar e infiltrar no Malawi para liquidar os bandidos lá. Podemos também definir os alvos para essa frente de libertação do Malawi. O melhor combate é transferir a guerra da tua zona para a do inimigo e fazer dela carreira de tiro.”

Kaunda contra a guerra

No prosseguimento da sua alocução na reunião de 16 de Outubro de 1986, o Presidente Samora ordenou que os militares colocassem “todos os meios na Zambézia o mais urgente possível” acrescentando: “Nós fe­chare­mos a fronteira com o Malawi. Sem armas e meios nada podemos fazer. Seria suicí­dio. Se não fazemos isso o Malawi vai continuar a meter bandidos armados. Temos algumas forças especiais para cumprir operações especiais. E temos cerca de 41 MiGs21. A vitória prepara-se. A vitória organiza-se. Exige sangue frio.”

De acordo com  Samora Machel, “o Presidente Ken­neth Kaunda não garantiu fechar a fronteira com o Malawi. Fizeram-lhe a per­gunta e não deu resposta satisfatória.” 

Tanzânia também era alvo

Ainda segundo Machel, “quando fecharmos a fron­teira devemos ter a certeza de que se o Malawi desviar as suas mercadorias para a Tanzânia nós vamos partir as pontes que o ligam à Tan­zânia. Mas terão de ser pontes que levarão 4 a 5 anos a construir. Se desviar a rota através da Zâmbia, não vamos partir as pontes da Zâmbia, mas partiremos as do Malawi que dão saída para a rota Kasangulo/Botswana e entrar para a África do Sul. Se partirmos as pontes que os levam à Tanzânia e à Zâmbia temos o Malawi nas mãos.” 

Virando-se para o vice-ministro da defesa moçam­bicano, Armando Panguene (hoje embaixador nos Esta­dos Unidos da América), e o ministro de estado zimba­bweano para a Defesa, Ka­dan­gure, Samora Machel afirmou:

“Já defini o meu pen­samento. Ponham lá a fun­cionar”.

Ao que Kadangure, de acordo com as minutas, respondeu: “Sim, pode ser feito”.

O antigo presidente mo­çam­bicano informou os seus interlocutores que a 10 de Outubro, isto é, 6 dias antes da reunião de Maputo, ele reunira-se “nesta mesa com moçambicanos, cubanos e soviéticos,” tendo ficado decidido que Sebastião Mar­cos Mabote (então chefe do Estado-Maior das Forças Armadas de Moçambique - FAM-FPLM) “devia seguir imediatamente para a Zam­bézia” a fim de “reconhecer o efectivo dos bandidos arma­dos em cada distrito e pre­parar um campo para receber 1.500 homens que sairão de Maputo e de Nacala.”

Segundo as suas próprias palavras, o presidente Machel queria: “transferir os MIGs21 para a Beira e a partir de lá vão operar. Os Migs17 e helicópteros de combate irão para a Zambézia que é perto do Malawi e de todos os distritos que os bandidos armados ocuparam no nosso país.”

E a finalizar, as minutas citam Machel como tendo dito: “Assim vemos friamente a situação. Esta é a nossa estratégia. O ponto é: como participa o Zimbabwe nisto tudo?”

SAVANA – 04.11.2005

07-11-2005

MEMÓRIAS ULTRAMARINAS

Virgínia Cabral Fernandes esteve em Moçambique, onde nasceu em 1916, em Goa e Angola. É dessa sua vivência que nos dá o seu relato que poderão encontrar em:

Download memrias_ultramarinas.pdf

01-11-2005

MAGAZINE - GRANDE INFORMAÇÃO

Acaba de ser colocado nas bancas o nº 0 da Revista MAGAZINE - GRANDE INFORMAÇÃO de que apresentamos dois excertos.

A toda a sua equipa os votos de trabalho profícuo e cheio de sucesso.

- DA REVISTA

Download magazine00a.pdf

- MOÇAMBIQUE - DESTINO DE ELEIÇÃO EM ÁFRICA (Reportagem)

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Contacto: Sílvia Fernandes   info@magazine.com.pt

"Concepções da Frelimo são iguais às de Portugal"

Cahen entrevista
Michel Cahen Historiador francês

As etnias moçambicanas estão a ser estudadas por este investigador do Centro de Estudos Africanos da Universidade de Bordéus, que coordena também a 'Lusotopie' 

armando
Rafael


Quando é que começou a interessar-se por Moçambique?
Em Julho de 1975. Tinha 22 anos e, como muitos dos meus amigos da Sorbonne, ainda estava influenciados pelos acontecimentos de Maio de 1968. A maioria veio para Portugal, para ver a Revolução dos Cravos, mas eu não. Optei por África.
Porquê?
Era estudante de História e, à semelhança de muitos estudantes na altura, fazia longas viagens, de quatro, cinco meses... A maioria ia para a Índia, mas eu optei por África. E, em 1975, fui a Moçambique. Fui à boleia desde Nairobi e cheguei à zona das "três fronteiras" - Moçambique, Malawi e Zâmbia - pouco depois da independência. Esperei três dias para apanhar boleia de um camião para a Beira. O motorista era um antigo membro dos comandos, com uma tatuagem no braço.
Passou a fronteira sem problemas?
O soldado da Frelimo não sabia muito bem o que fazer... Como eu não tinha visto, deu-me uma guia de marcha para ir até à Beira...
E foi...
Sim, mas o mais interessante foi que o antigo comando tinha um auxiliar o Pedro, que lhe preparava o pequeno-almoço, o almoço e o jantar. Mas nunca comia connosco, o que era estranho. Um dia, virei-me para o motorista e perguntei-lhe: "Então e o Pedro? Não come?" Ainda hoje recordo a sua admiração: "O Pedro? O Pedro só come à noite." Ou seja, como era preto, o Pedro só comia à noite, e pronto! Isso fez-me pensar na similitude que podia existir entre o colonialismo francês e o colonialismo português, que não passava tanto pela implantação do grande capitalismo, mas mais pelos militares, pelos padres, pelos servidores da administração, pequenos comerciantes... Essa conversa fez-me pensar nas semelhanças entre os colonialismos francês e português e no tipo de colonialismo que poderia ser produzido por uma metrópole europeia com poucas potencialidades de investimento em capitais. Muito diferente, por exemplo, da Grã-Bretanha e da Holanda.
Isso levou-o a interessar-se por Moçambique?
Isso e o regime de partido único. Ao contrário dos meus amigos, que tinham apoiado a luta contra o colonialismo, transformando, depois, esse apoio numa solidariedade com o partido único, sempre fui contra os partidos únicos.
É essa a razão que o levou também a sublinhar a incoerência dos militares que fizeram uma revolução em nome da liberdade e da democracia em Portugal, lançando uma descolonização que transferia os poderes para partidos únicos nas colónias?
É. Até porque isso deriva de um certo paternalismo de alguma esquerda europeia que, nessa altura, se manifestava contra as ditaduras na América Latina, apoiando, no entanto, regimes de partido único em África porque consideravam isso como uma etapa na criação da nação. Qual nação? A nação que nascia das fronteiras coloniais que tinham dividido vários povos?
Voltou muitas vezes a Moçambique?
Voltei em 1981, 1985, 1988... Comecei a interessar-me pelo impacto dos regimes de partido único na desagregação das sociedades tradicionais, já que a Frelimo apostou num paradigma de modernização autoritária e de transformação rápida que não respeitava as identidades sentidas pelas populações. Para a Frelimo havia um só povo, uma só nação e um só partido, do Rovuma ao Maputo. Afinal, uma concepção semelhante à dos portugueses, para quem Moçambique só era Moçambique porque era Portugal.
Começou a estudar as etnias...
E a tentar perceber o fracasso das aldeias comunais. Para quem era da Frelimo, o fracasso das aldeias comunais resultava do facto de o Estado não ter conseguido pôr em prática a linha do partido. Para mim, o que importava passava por outra coisa o princípio da aldeia comunal era, em si mesmo, uma agressão à sociedade camponesa.
Porquê?
Os africanos têm uma relação muito forte com o espírito dos seus antepassados. Pelo que deixar as suas terras significava também deixar os antepassados para trás.
Como é que explica as agressões da Frelimo às estruturas tradicionais?
O que se pode esperar quando se enviam jovens de 18 anos para os campos, onde era suposto terem de se impor a régulos com mais de 70 anos? Isso é uma agressão completa. E quando eles proibiam os rituais da chuva e depois não chovia? Muitas vezes, ouvi pessoas do povo referirem-se aos responsáveis que vinham de Maputo como "o camarada que veio da Nação". Isso é um vocabulário popular muito interessante. Ou seja, o povo era o povo organizado, que era membro do partido e da administração do Estado. Quando havia fome, uma pessoa do povo tinha direito a um saco de arroz. O popular só recebia um quilo.
Daí, passou para a Renamo?
O que me interessou na Renamo foi perceber que, ao contrário do que muitos tinham previsto, ela não tinha acabado com a independência do Zimbabwe, em 1980. O que significava que a Renamo era autónoma e conseguia sobreviver para além do apoio da África do Sul. Nessa altura, havia quem dissesse que a Renamo exprimia apenas os interesses do apartheid. Mas essa imagem não era compatível com a sua influência. Quando Samora Machel morreu, em 1986, a Renamo actuava em 80% do território. Em parte, as pessoas sentiam-se agredidas pela Frelimo e acreditavam que a Renamo as protegia do Estado.
Entrou em contacto com a Renamo?
Só visitei as suas zonas de influência em 1994. Segui a sua campanha eleitoral durante meses...
E interessou-se pela Renamo...
Mais pelo mundo das etnicidades, já que a Renamo pouco, ou nada, diz sobre as etnicidades. A Frelimo é que transformou a questão das etnicidades num facto político, quando as agrediu. Não percebendo que os regulados estavam em crise no final do período colonial, altura em que muitos filhos ou netos de régulos preferiam ser motoristas de táxi na cidade do que régulos nas aldeias. Ao tentar apagar tudo, a Frelimo recriou-lhes essa legitimidade.
É essa relação da Renamo com os régulos que explica a votação em 1994?
Creio que muitos dos que, em 1994, votaram na Renamo o fizeram porque se sentiam marginalizados. E não apenas pela Frelimo. Muitos votaram contra a sua própria marginalização pelo Estado moderno.
Conscientes do que faziam?
Penso que sim. Repare-se que as comunidades que mais apoiaram a Frelimo foram precisamente aquelas que melhores relações tinham com os portugueses. E as populações que mais se revoltaram contra os portugueses foram as que estiveram mais perto de Renamo.

DN – 30.10.2005 -Leonardo Negrão

31-10-2005

Nascida para reinar

Reinata Conheci Reinata Sadimba, a famosa ceramista moçambicana, num dia de inverno, escuro e ventoso, extraviado em pleno verão afro-austral.
Uma amiga espanhola, a viver em Maputo, insistiu em que a acompanhasse ao atelier da artista. Encontrámos três mulheres sentadas sobre esteiras, conversando numa língua radiante, enquanto das suas mãos distraídas, afundadas entre a viva escuridão do barro, iam nascendo fabulosos seres. Soube logo, das três, quem era Reinata, mesmo nunca a tendo visto antes. Há artistas assim: não os conhecemos, mas somos capazes de os reconhecer, quando pela primeira
vez os encontramos, porque as obras deles contém algo do seu carácter.
Reinata é uma mulher pequena e magra, com o rosto laboriosamente tatuado, e um piercing sob o lábio inferior, que lhe confere um aspecto simultaneamente arcaico e contemporâneo. Nascida à margem de toda a modernidade, a muitos quilómetros da esperança e da prosperidade, parecia destinada ao mesmo destino infeliz da maioria da população moçambicana.
Todavia, iludiu-o. Como conseguiu triunfar? Eu digo-vos - através do exercício quotidiano da alegria, de um permanente espanto infantil perante a beleza do mundo, de uma feroz vontade de viver, e, finalmente, de um desrespeito soberano pelas normas, a que poderíamos também chamar inconformismo. Tudo isto transparece nas peças que saem das suas mãos. São mães exibindo os filhos ao mundo ou amamentando-os. Casais que se amam, homens com mulheres, mas também mulheres com mulheres e homens com homens, numa sexualidade explícita, desenfreada, que parece desdenhar, com uma clara gargalhada, toda e qualquer convenção.
Reinata vem de uma aldeia, no norte de Moçambique, em Cabo Delgado, com alguma tradição de cerâmica utilitária, como potes e moringas. Terá sido ela, porém, a primeira a moldar figuras. Hoje as suas peças, um verdadeiro exército de seres prodigiosos, ameaçam invadir o planeta, sendo possível encontrá-las em museus e colecções privadas, em todas as grandes cidades europeias e americanas. Na aldeia de Reinata já toda a gente molda formas humanas e animais. É assim que se criam as tradições.
Conta-se que numa recente visita a Lisboa, Reinata se encontrou com Jorge Sampaio. O presidente português, fascinado com o trabalho da artista, quis saber em que a poderia ajudar. O que queria ela?
Traduzida a questão Reinata sorriu:
"Um marido!"
Ao que consta propunha-se ficar com o próprio Jorge Sampaio. Presumo que qualquer que seja o mundo onde viva não deva ser nada fácil para uma mulher independente, rebelde e criativa, como é o caso de Reinata, encontrar um companheiro. Os homens de todas latitudes receiam as mulheres assim. Todavia são elas quem empurram o mundo. No
caso de Moçambique, Reinata é mais do que um exemplo de esperança - é a própria esperança, criando luz, inclusive nas tardes de Inverno.

PÚBLICO - 30.10.2005

20-10-2005

Livro critica falhas da segurança na morte de Samora Machel

Maputo, 19 Out (Lusa) - Os serviços de segurança moçambicanos cometeram diversos erros durante a viagem aérea de Samora Machel, denuncia um livro publicado em Maputo sobre o desastre que vitimou o presidente moçambicano, passam hoje 19 anos.

João M. Cabrita, autor de "A morte de Samora Machel", hoje lançado em Maputo, sobre o desastre aéreo de 1986 que vitimou Machel e mais 33 passageiros e tripulantes do voo presidencial, critica o comportamento do Ministério da Segurança - SNASP, na época dirigido por Sérgio Vieira.

"Terá forçosamente de explicar para a história da nação moçambicana as razões das graves lacunas observadas no sistema de segurança nacional no dia em que ocorreu o desastre", escreve Cabrita, sobre Sérgio Vieira, um dos defensores da tese de que o presidente moçambicano foi vítima de terrorismo de Estado, possivelmente do então regime de "apartheid" sul-africano.

A queda do Tupolev-134A, com tripulação soviética, ocorreu ao princípio da noite de 19 de Outubro de 1986, quando o aparelho regressava a Maputo, vindo da Zâmbia, onde Machel participara numa cimeira com os seus homólogos zambiano, Kenneth Kaunda, angolano, José Eduardo dos Santos, e zairense, Mobutu Sese Seko.

Por razões que continuam a gerar polémica, o aparelho embateu numa montanha na África do Sul, já bastante perto da fronteira com Moçambique, quando deveria estar a aterrar no aeroporto de Maputo.

De acordo com o autor do livro a "secreta" moçambicana falhou ao não garantir que o voo se mantivesse afastado do espaço aéreo sul- africano, "demais a mais estando aquele Ministério na posse de informações de que (a África do Sul) preparava um ataque directo contra Maputo e o derrube do regime de Samora Machel".

Falhas em "todas as estações de radar situadas na região sul de Moçambique", que não informaram do desvio de rota, inexistência de protecção eficaz à estação VOR (Rádio VHF Omnidireccional), na cabeceira da pista principal do aeroporto de Maputo, e o lançamento de operações de busca apenas quatro horas depois da perda de contacto da torre com o aparelho presidencial são outras situações denunciadas por Cabrita.

"Este livro é mais uma tentativa que tenho feito para apresentar uma versão diferente dos acontecimentos daquela que é hoje tida como a única", disse à Agência Lusa João Cabrita, em declarações por telefone a partir da Suazilândia, onde vive.

No livro, o autor denuncia igualmente o comportamento da tripulação soviética que acusa de estar "distraída com questões estranhas ao voo".

"O comandante procurava por uma caneta para anotar o número de cervejas e coca-colas a encomendar do bar da aeronave para a tripulação levar para casa após a aterragem em Maputo (Ó) o co-piloto escutava uma estação de rádio da União Soviética, que transmitia um boletim de notícias, seguido de um programa musical", refere Cabrita sobre o ambiente no +cockpit+, numa altura em que já havia sinais contraditórios sobre a rota seguida.

O lançamento de "A morte de Samora Machel" (edição Nováfrica, Maputo, 2005) realizou-se à margem das poucas iniciativas oficiais que hoje assinalam o 19º aniversário da morte do carismático primeiro presidente de Moçambique.

As cerimónias evocativas, dirigidas por Maria da Luz Guebuza, mulher do actual presidente de Moçambique, Armando Guebuza, decorrem no local do acidente, Mbuzini, nelas participando cerca de 600 pessoas, a maioria jovens do movimento "Continuadores".

Também hoje, o Centro de Documentação Samora Machel, dirigido pela sua viúva, Graça Machel, inicia um programa de comemorações culturais e recreativas que decorrerá durante um ano.

LAS.

15-10-2005

A MORTE DE SAMORA MACHEL (2)

"A Morte de Samora Machel"

© João M. Cabrita 2005

Edições Novafrica - Maputo – Moçambique

Introdução

Cerca de duas décadas após a morte do Presidente Samora Machel, persistem dúvidas quanto às circunstâncias do desastre ocorrido em território sul-africano, envolvendo a aeronave que o transportava. E não é para menos: antes de se ter nomeado a Comissão de Inquérito que investigaria as causas do desastre, já corria célere a versão de que o mesmo resultara de um acto de sabotagem. Posteriormente, os factos apurados pela referida comissão e as conclusões a que chegou viriam as ser considerados, unilateralmente, como tendo sido "cozinhados" pelo então regime da África do Sul de modo a se apresentar a ocorrência como um mero acidente.

Leia em:

Download introduo.doc

Veja:

http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2005/10/a_morte_de_samo.html

Recorde:

http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2004/10/dois_pronunciam.html

14-10-2005

A Morte de Samora Machel

Livro_capa_w200 19 anos após o desastre de Mbuzini persistem dúvidas sobre o que terá realmente acontecido na fatídica noite de 19 de Outubro de 1986 quando uma aeronave do tipo Tupolev-134A, sob os comandos de uma tripulação cedida ao governo de Moçambique pela então União Soviética, embateu contra a região montanhosa dos Libombos, em território sul-africano, causando a morte de Samora Machel e de outras 33 pessoas.

Será que de facto se tratou de um "acto de terrorismo de Estado" como insistentemente alegam as autoridades moçambicanas?

Terá havido alguém em Moçambique que facilitou tal acto, como publicamente o declarou a viúva do primeiro chefe de Estado moçambicano?

Ou foi tudo consequência de erros da tripulação?

Estas e outras questões pertinentes são tratadas em A Morte de Samora Machel. O autor reconstrói com rigor os momentos que antecederam o desastre, e desmistifica tudo quanto de fantasioso se tem propalado a respeito do sucedido há 19 anos, apoiando-se para tal num minucioso relatório da comissão de inquérito que investigou o acidente de Mbuzini, mas que em Moçambique continua a não ser do domínio público.

Para encomendar

http://www.samoramachel.com/encomendar.htm

11-10-2005

O Fruto Oblíquo de Gilda de Vasconcelos

Frutobliquo_gilda Título: Fruto Oblíquo
Autora: Gilda de Vasconcelos
Preço: 10 euros
Ano de publicação: 2005
Formato: 14,5x20,5 cm
Acabamento: brochado com badanas
Disponibilidade: Disponível
N.º de páginas: 80
ISBN: 989-614-027-8
Classificação: poesia
Sinopse:
Fruto Oblíquo é uma adequada metáfora para a temática que percorre a escrita poética que a autora propõe à partilha nesta obra. Trata-se da temática da vida como enigma, solidária de um desassossego interrogativo implícito, mesmo nos seus momentos mais afirmativos. Se, por um lado, persiste nesta obra o fascínio pelo sumo da vida, vertido em pormenores e simplicidades de surpreendente singeleza, por outro, há o oblíquo que nos rouba ao embalo da geometria em que procuramos, em que gostaríamos, de enquadrar a vida.!
O lançamentõ desta obra realizou-se no passado dia 8, no Palácio Séjour, em Lisboa.
Resta acrescentar ser Gilda de Vasconcelos natural de Nampula, Moçambique.

09-10-2005

Prémio José Saramago atribuído a Gonçalo M. Tavares

Gonalo_tavares_premio Lisboa, 08 Out (Lusa) - O Prémio Literário José Saramago 2005, da Fundação Círculo de Leitores, foi hoje atribuído e entregue num hotel de Lisboa a Gonçalo M. Tavares, pelo seu romance "Jerusalém", na presença do Nobel da Literatura português.

O galardão, este ano na sua quarta edição, é atribuído bienalmente desde 1999 pela Fundação Círculo de Leitores para celebrar a atribuição do Nobel da Literatura a José Saramago (1998).

O prémio, no valor de 25.000 euros, destina-se a promover a cultura e o património literário em língua portuguesa, através do estímulo à escrita.

A obra premiada, escolhida entre 43 concorrentes, já tinha recebido no ano passado Prémio "LER Millennium BCP", associado à revista LER e atribuído pelas Fundações Círculo de Leitores e Banco Comercial Português.

Gonçalo M. Tavares nasceu em 1970 em Angola. Autor de ficção, ensaio, poesia e teatro, recebeu já o Prémio Branquinho da Fonseca da Fundação Calouste Gulbenkian e do jornal Expresso com a obra "O Senhor Valery" (Caminho) e o Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores (APE) com "Investigações. Novalis" (Difel).

O júri deste ano do Prémio Literário José Saramago, presidido por Guilhermina Gomes, incluia Nelida Piñon, José Eduardo Agualusa, Pilar del Rio e Vasco Graça Moura.

Paulo José Miranda, com a obra "Natureza Morta" (Editora Cotovia) foi o vencedor de 1999, José Luís Peixoto, com "Nenhum Olhar" (Temas e Debates), conquistou-o em 2001 e Adriana Lisboa, com "Sinfonia em Branco" (Editora Rocco - Brasil) foi a vencedora de 2003, a última edição.

CM/AG.

07-10-2005

Maputo acolhe primeiro encontro de escritores hispano-africanos

Escritores da Espanha, Moçambique e Angola vão participar, entre 10 e 14 deste mês, em Maputo, numa série de conferências e mesas-redondas sobre a "Imagem de África na Literatura Contemporânea", anunciou hoje a embaixada espanhola em Maputo.

Segundo um comunicado de imprensa, o encontro vai juntar os escritores espanhóis Javier Reverte e Alfonso Armada, o angolano José Eduardo Agualusa e os moçambicanos Mia Couto, Nelson Saúte, Suleimane Cassamo e Paulina Chiziane.
No encontro, que decorrerá na Universidade Eduardo Mondlane, vão ser ainda debatidos temas como "Relação entre tradição e modernidade", "África e o difícil relacionamento com a Europa", "As viagens e a escrita", "Escrever e criar em África" e "Do Jornalismo à literatura".

NOTÍCIAS LUSÓFONAS - 06.10.2005

02-10-2005

Turismo no arquipélago das Quirimbas

Image65j_1Ilha de Ibo, um encanto decadente

A ilha do Ibo - no arquipélago das Quirimbas - é um destino que começa a aparecer nos roteiros turísticos mais sofisticados a cinco e seis estrelas, como Quilálea e Matemo.

O Ibo ainda mantém um ar decadente, e já despertou o interesse nacional e internacional pelo grande património arquitectónico que possui, pelo que representa na história dos povos português e moçambicano.

«Casas de pedra e limo, bichos obstinados na sua quietude. Pacientes, embalados pelo vaivém das marés. Deixando que o sal lhes carcuma a pele por terem desde há muito desistido de contrariar o tempo», escreveu numa estória da ilha, João Paulo Borges Coelho.

As ruínas das casas, as ruínas das varandas, elemento tão característico da ilha, as ruínas das estradas, tudo isto foi levantado e estudado pela Faculdade de Arquitectura e Planeamento Físico (FAPF) de Maputo e publicado agora em livro, «Ibo - a casa e o tempo» pela pena de Júlio Carrilho, poeta e arquitecto e oriundo do Ibo. É apresentado ao público, em Maputo, juntamente com «Pemba, as duas cidades», levantamento da cidade de cimento e da «informal»: a expansão recente da antiga Porto Amélia é constituída da adaptação à resistência permanente no ambiente urbano de uma tipologia de casa pré-colonial transformada e evoluída através de uma sabedoria antiga e ainda viva.
A ilha do Ibo já foi um terra de comércio de escravos. Quando a capital dos grupo de ilhas Quirimbas foi mudado para Pemba, a ilha do Ibo já não foi mais nada. Ficou refém das marés vivas e do esquecimento do tempo, com as varandas sempre mais vazias e sempre mais decadentes. Já se pensou fazer dela o centro de Zona Especial de Turismo, mas não deu em nada.
Hoje o ambiente é mais favorável e muito se deve à mudança de mentalidade da qual a FAPF é certamente uma das principais mentoras, com o director José Forjaz e uma equipa de arquitectos moçambicanos e italianos que estão a levar a cabo o levantamento do património arquitectónico moderno moçambicano.
Em Moçambique, onde os monumentos históricos não são certamente uma presença significativa, parece ainda mais importante tutelar este património arquitectónico que constitui a cara mais evidente das cidades de cimento, seja pela qualidade específica seja pela dimensão e o papel urbano, elemento importante pelo turismo urbano e sustentável, actual aposta de desenvolvimento.
«Ibo- a casa e o tempo» tem o aspecto mais de um diário de viagem do que um tratado de arquitectura. Júlio Carrilho, entre plantas urbanas e fotos de edifícios, relata as entrevistas feitas com os velhos habitantes que todos os segredos sabem das casas, das argamassas, da cal e das ervas usadas para ser mais forte. Reconhece um espaço especial a quem quando a maré não deixa pescar, come apenas maçanicas.
E faz um acto de amor para com a sua ilha, alimentando o optimismo da convicção de que «também o presente ciclo de degradação e um certo marasmo será ultrapassado pela redescoberta da riqueza natural, de novas vocações para o relançamento económico e social e da importância do património tangível e intangível das ilhas no seu conjunto e do Ibo, em particular».

Paola Rolletta

30 Setembro 2005

30-09-2005

NO 79º ANIVERSÁRIO DE NOÉMIA DE SOUSA, FIGURA INALIENÁVEL DA POESIA MOÇAMBICANA

Noemia_sousa KHOMALA!

Por Vasco Fenita

Se estivesse viva, Noémia de Sousa, poetisa moçambicana (ou poeta, em designação mais apropriada face à sua envergadura) , completaria setenta e nove anos no pretérito dia 20 de Setembro.

Noémia de Sousa, nome por que é literariamente conhecida Carolina Noémia Abranches de Sousa Soares, nasceu na Catembe e emigrou para Portugal em 1951. Deste país, rumou em 1964 para Paris (França), onde permaneceu até 1975, altura em que decidiu regressar e fixar residência em Lisboa, até à sua morte ocorrida a 4 de Dezembro de 2002.

Considerada figura inalienável da literatura moçambicana, sobretudo da vertente poética, Noémia de Sousa destacou-se particularmente na abordagem de temas de exaltação de valores patrióticos e de denúncia da opressão colonial. A sua produção poética encontra-se dispersa em diversas publicações nacionais e estrangeiras.

Das quais, foram coligidos por Nelson Saúte os poemas que deram à estampa o único livro publicado em vida, em 2001, sob o título “Sangue Negro”. Acerca do qual, o abalizado crítico literário Francisco Noa afirmou: “Feita arma ou confissão, a poesia de Noémia de Sousa , reunida na obra “Sangue Negro”, exprime não só as inquietações de espírito de um sujeito, claramente localizado no tempo e no espaço, como também prefigura sentimentos, percepções e aspirações, onde converge toda uma nação por acontecer.

Daí que defendamos que a poesia de Noémia de Sousa, declamatória e musical, concorre decisivamente para a emergência tanto da consciência literária como da consciência de cidadania de um país que ainda não existia, como diria José Craveirinha.”

O excerto do poema “Se me quiseres conhecer”, que a seguir transcrevemos, traduz o arreigado espírito nacionalista de Carô (como era afectuosamente tratada pelos familiares e amigos) que sonhava e lutava sem tréguas por uma pátria livre e soberana:

Se me quiseres conhecer,

Estuda com olhos bem de ver

Esse pedaço de pau preto

Que um desconhecido irmão maconde

De mãos inspiradas

Trabalhou e talhou

Em terras distantes lá do norte.

Ah, essa sou eu:

Órbitas vasias no desespero de possuir a vida.

Boca rasgada em feridas de angústia,

Mãos enormes, espalmadas,

Erguendo-se em jeito de quem implora e ameaça,

Corpo tatuado de feridas visíveis e invisíveis

Pelos chicotes da escravatura

(...)

WAMPHULA FAX – 30.09.2005

29-09-2005

Lançamento de duas obras do Arquiteto Júlio Carrilho em Maputo

Julio_carrilho Apresentação de livros - Por iniciativa da Faculdade de Arquitectura da UEM, serão apresentados na sexta-feira, dia 30, em Maputo dois livros ilustrados sobre as casas (arquitectura) do Ibo e Pemba respectivamente, de autoria do Arq. Júlio Carrilho.
Amigo que leu o livro sobre o Ibo recomenda-os e afirma:
- Não são livros só de desenhos e plantas, ou com interesse apenas para arquitectos e engenheiros. São bem mais do que isso. Não adianto mais para não vos tirar o prazer da surpresa.

Custo das obras: 150 mil Mt. e 100 mil Mt. respectivamente.
Foram editados 500 exemplares de cada um.

A apresentação terá lugar 6ª feira, 30 de Setº, às 17h, na Faculdade de Arquitectura - Maputo e será feita por João Paulo Borges Coelho.
Nota: Notícia recebida de Jaime Ferraz Gabão

27-09-2005

Exposição de escultura e pintura do artista moçambicano Ntaluma

Associação de Estudantes Moçambicanos em Portugal

Núcleo de Coimbra (AEMOP/NC)

Rua Padre António Vieira,

Edifício da A. A. C.

3000-315 Coimbra

E-mail: nemoc@ci.uc.pt

Tlf: 933427376/966241600

Ofício Nº.78/05 N. Ref.ª AEMOP/NC V. Ref.ª Data: 27/Setembro/2005

CONVITE

Vimos por este meio convidar V. Ex.ª a estar presente na inauguração da
exposição de escultura e pintura do artista moçambicano Ntaluma, alusiva
aos 15 anos de carreira deste e ao 13º aniversário dos Acordos Gerais de
Paz e de Reconciliação Nacional, no dia 04 de Outubro de 2005, às 19.00h,
no Instituto Português da Juventude, Rua Pedro Monteiro 73, 3000-329
Coimbra.

Conheça o artista em

http://makonde.no.sapo.pt/

24-09-2005

Faleceu o professor Luis António Domingues Polanah, antropólogo moçambicano,professor reformado da Universidade do Minho

Polanah Com muita mágoa comunico a todos que faleceu o professor Luis Antonio Domingues Polanah, antropólogo moçambicano, professor reformado da Universidade do Minho, estrenuo defensor da lusofonia da Galiza, Portugal,Brasil, PALOP, Timor; membro fundador das Irmandades da Fala  em Portugal em 1991 e membro do Conselho Cientifico da Comissao galega do  Acordo Ortografico da Lingua Portuguesa; foi membro do Centro de Estudantes  da Casa do Imperio de Coimbra, fez uma coletanea de poesia dos escritores  africanos na altura; Vice presidente das Irmandades da Fala, faleceu há dias;  eu mantinha conversas telefonicas com ele que se ia despedindo da
vida  lucidamente; publicou nas nossas revistas trabalhos de antropologia,linguistica,poesia,etc. e apoiou os nossos congressos
lusofonos  e atividades de todo genero; foi-se um amigo da Galiza e de todos
nos; as  tertulias com ele , Orlando de Alburquerque, etc em Braga eram muito
boas e  estimulavam o debate e o pensamento critico e livre.

Dizia que o homem precisa da utopia e da luta.
Lamento imenso notificar a noticia dum amigo que faleceu e que
defendia a  nossa lingua portuguesa. Faleceu e foi a enterrar em Braga.
O Presidente das IFGP e da CGAOLP, 
J.L.FONTENLA
* professor universitário galego
** presidente da Comissão Galega do Acordo Ortográfico e das Irmandades da Fala da Galiza e Portugal
*** Advogado
............................................................................
Da homenagem que lhe foi prestada em 2001:

HOMENAGEM

Luis António Domingues Polanah

Ao comemorar 80 anos de vida, o Professor Luís António Domingues Polanah foi homenageado com a publicação de um livro que revela a sua faceta artística.

Muitos poemas, algumas cartas e variados trabalhos de pintura e desenho podem ser apreciados nesta obra idealizada por Maria de Jesus Mesquita.

Nascido a 21 de Junho de 1921, no Chinde, em Moçambique, o notável antropólogo e membro da Direcção do NEPS “no sangue, no temperamento e na filosofia de vida o encontro harmonioso de três raças – branca, o avô materno; - negra, a avó materna; - amarela/ hindu, do pai; três continentes – Europa, África e Ásia, tendo como denominador comum o continente africano.

Também teve três casamentos com mulheres muito diferentes, apesar de serem todas oriundas do continente africano”, realça a autora.

Professor Jubilado da Universidade do Minho, Domingues Polanah já editou três livros resultado do trabalho científico que tem desenvolvido: «O Nhamussoro e as outras funções mágico-religiosas», tese de licenciatura, apenas publicada em 1987; «Comunidades camponesas no Parque Nacional da Peneda-Gerês», em 1981; e «Campesinos de Sayago. Estrutura social y representaciones simbólicas de una comunidad rural», tese de doutoramento, em 1996.

Com uma trajectória académica ímpar, este membro do NEPS por várias vezes foi distinguido publicamente. Em 1966, recebeu o 1º Prémio de Literatura Colonial «Frei João dos Santos”, do Ministério do Ultramar. Precisamente, trinta anos depois, em 1996, foi agraciado com o prémio de investigação cultural «Marqués de Lozoya» pela Dirección General de Bellas Artes y Biens Culturales do Ministerio de Educación y Cultura pelo trabalho apresentado para a obtenção do grau de doutoramento.

A recente publicação do livro “Horizontes de Polonah” oferece uma perspectiva pouco conhecida do antropólogo, evidenciando as suas qualidades literárias, a capacidade reflexiva sobre os desafios da vida e o apreço pelas Belas Artes, curso que chegou a frequentar, mas que resolveu abandonar para se dedicar à Antropologia. ·

Boletim Informativo

nº 20 n Julho de 2001

PUBLICAÇÃO DO:

NÚCLEO DE ESTUDOS

DE POPULAÇÃO E SOCIEDADE

Instituto de Ciências Sociais

Universidade do Minho

Pólo de Azurém

Guimarães

21-09-2005

"OS ELEFANTES NÃO ESQUECEM"(2)

Abel_coelho_1 É já no próximo dia 22 que será, na FNAC-CC COLOMBO(Lisboa) pelas 21H00, feito o lançamento público do livro de Abel Coelho "OS ELEFANTES NÃO ESQUECEM".

O Autor que estará presente, sendo natural de Inhambane e decorrendo a acção do livro em Moçambique, convida à especial presença dos moçambicanos.

Sobre a obra veja

http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2005/08/os_elefantes_no.html

11-09-2005

JOÃO CRAVEIRINHA LANÇA 3 LIVROS

CONVITE

A Universitária Editora de Lisboa , convida ao lançamento de 03 livros do cronista e pintor moçambicano, João Craveirinha, a ter lugar no Palácio Galveias em Lisboa, respectivamente nos dias 21, 28 Setembro e 6 de outubro 2005:
Palácio Galveias r/ch - Campo Pequeno Lisboa:
Livrocapapessoa_2 Dia 21 Setembro 2005 - 19.30 hrs - Teatro - E a Pessoa de Fernando Ignorou África? Quarta - feira
Jezebela_capa_1 Dia 28 Setembro 2005 - 19:30 hrs - Romance - Jezebela - O Charme Indiscreto dos Quarenta (Crónica de uma Mulher). Quarta - feira
Macaco_capa_1 Dia 06 Outubro 2005 - 19:30 hrs -Literatura Infantil - O Macaco Macaquinho e o Macaco Macacão (para colorir). Quinta - feira
Estes livros foram apresentados pelo autor na Suécia - Universidade de Estocolmo / Livraria Latina e na Alemanha - Frankfurte Livraria TFM / Universidade de Colónia, em Abril /Maio 2005
No Prelo : Um Poeta Nunca Morre - In Memoriam de José Craveirinha (crónicas familiares ilustradas) - Aspectos inéditos da Vida e Obra do Poeta  José Craveirinha - do nascimento à sua morte.
(A Universitária Editora de Lisboa tem sua filial no Espaço Coimbra na baixa Paulista - Brasil : http://www.universitariaeditora.com/editora/menuapoio/outras.htm )

03-09-2005

DOIS NOVOS LIVROS

MEMÓRIAS DA GUERRA EM ANGOLA
O Despertar dos Combatentes

AUTOR Joaquim Coelho
EDITORA Clássica
384 págs.

O grosso volume "O Despertar dos Combatentes - Fotos com estórias em
Angola" é o resumo de uma série de rascunhos que o militar Joaquim de
Sousa Coelho escreveu durante os primeiros anos da guerra colonial,
na década de 60, ficando assim como testemunho de uma época.

O autor procurou trazer mais luz para "aqueles anos de angústia e de
sofrimento" em que dezenas de milhares de jovens portugueses seguiam
anualmente para África, de onde alguns nem sequer voltavam. E fê-
lo "em memória dos que morreram como heróis inocentes e dos
estropiados do corpo e da alma", recordando que "ainda estão por
resgatar algumas centenas de corpos dos combatentes que o Poder
renegou e que, por falta de dinheiro para os trasladar e entregar às
famílias, ficaram enterrados nos tocais mais recônditos".

Trata-se do primeiro livro de uma anunciada série de três sobre o
quotidiano dos soldados em Angola, Moçambique e Guiné, os três
teatros da guerra que se travou de 1961 a 1974 e que muitos dos
portugueses com menos de 35 anos não sabem hoje o que teria sido,
apesar de ela haver afectado seus pais e outros parentes. Navios como
o Vera Cruz e o Massa andavam então em viagem constante do Tejo para
os portos africanos, a transportar carne para canhão arrancada das
lavras e oficinas, para defesa de uma política que acabou por se
revelar impossível.

Os dias de terror de Março de 1961 no Norte de Angola estão bem
documentados nas fotografias com que Joaquim Coelho ilustra este
impressionante documento, sobre tudo o que se passou em Damba,
Maquela do Zombo, Nambuangongo e tantos outros lugares que antes do
25 de Abril povoavam o nosso imaginário.

Meios de transporte insuficientes para tanta tropa, comida e bebida
por vezes escassas, quando se estava no mato, armamento inadequado -
tudo isso é denunciado por este homem, natural de Penafiel, que
esteve na Força Aérea Portuguesa e nas Tropas Especiais de
Intervenção, havendo colaborado como repórter fotográfico com o
jornal diário Província de Angola e com a revista semanal Notícia, de
Luanda. Para que a memória perdure e se consigam esconjurar os
fantasmas de um passado recente. JORGE HEITOR


ESTÓRIAS EM LUSO-QUIMBUNDO
Macandumba
AUTOR José Luandino Vieira
EDITOR Caminho 184págs.,

Acaba de ser publicada na Editorial Caminho uma reedição de três
estórias de José Luandino Vieira, inicialmente publicadas em 1978,
sob o título "Macamdumba", para ficarmos a conhecer melhor a obra de
quem julgou ser possível a simbiose entre uma língua europeia e o
quimbundo, do grupo banto.

O sapateiro-andante Pedro Caliota, os brancos de baixa condição, os
cabo-verdianos, os naturais de São Tomé e, sempre, sempre, a gente
dos musseques, os bairros de areia grossa da periferia de Luanda, são
os protagonistas destas estórias sobre a paradigmática década de
1960, quando os povos de Angola pegaram em armas para acabar com a
colonização. Escritor de leitura extremamente difícil, válida
sobretudo como documento de uma época, sinal de revolta, Luandino
(nome de adopção) dá-nos aqui o retrato do tempo em que ainda não
fora possível alfabetizar devidamente as populações e que por isso
mesmo elas tinham de fazer uma ginástica tremenda entre o falar dos
seus pais e a língua do colono.

O contista que se começou a revelar no fim dos anos 50 e que escreveu
o seu primeiro romance em 1961, precisamente o ano em que começou em
Luanda e no Norte do país a luta pela independência de Angola, foi um
dos primeiros e quiçá um dos últimos a usar em grande escala
expressões em quimbundo pois que os novos poderes viriam a
privilegiar claramente o português.

A crioulidade e o hibridismo são coisas patentes na autêntica ponte
entre dois continentes que é a escrita deste autor de 11 livros
essencialmente dedicados à cidade que o viu crescer e onde foi
durante largos anos uma figura de proa da intelectualidade. As
estórias que ora nos são dadas sob uma bela capa de António Ole já
tinham conhecido, pelo menos, edições em 1978, 1989 e 1997,
designadamente em braille.

JORGE HEITOR - PÚBLICO - 03.09.2005

31-08-2005

José Rodrigues ilustra livro a favor de escola moçambicana

O escultor José Rodrigues ilustrou o livro infantil "Duas Histórias Verdadeiras", de Luísa Pádua Ramos, cujas receitas da venda vão reverter a favor da Escola Ntwananu, nos arredores de Maputo, anunciou hoje a Associação Portugal-Moçambique.

O livro será apresentado a 7 de Setembro no Espaço Moçambique, no Porto, numa iniciativa conjunta da Associação Portugal-Moçambique e da cooperativa Gesto.
Após a apresentação do livro, o investigador e historiador Jossias Filipe vai animar um colóquio sobre os Acordos de Lusaka de 7 de Setembro de 1974.
Em comunicado, a associação refere ainda que vai assinalar a 20 de Setembro o segundo aniversário do Espaço Moçambique com a inauguração de uma exposição de cerâmica de Heitor Pais e uma palestra da governadora civil do Porto, Isabel Oneto.

NOTÍCIAS LUSÓFONAS - 31.08.2005

25-08-2005

LUÍS CASTRO LOPO

Luis_castro_lopo LUÍS CASTRO LOPO  nasceu em Lourenço Marques em 1958. Frequentou a Escola Superior de Belas Artes  de Lisboa. Visita os museus da Europa, estudando detalhadamente os grandes Mestres da Pintura.  Está representado em diversas colecções públicas e privadas em Portugal e no estrangeiro.  Destacado  nas capas da revista “Selecções do Reader’s Digest” em Julho de 1990 e 1992 em Portugal e Agosto de 1990 e Julho de 1992 no  Brasil. Também mencionado em alguns livros, tais como:  “Aspectos das Artes Plásticas em Portugal, Vol.II; “Artes Plásticas Portugal-O artista, seu mercado”; Batik/Graphic’96  e  “Who is who of the Artists in Portugal”.

Conheça em

http://luiscastrolopo.com.sapo.pt/

24-08-2005

Prémio Sonangol de Literatura para escritores de Cabo Verde e S. Tomé

Os escritores Malé Madeçu, de S. Tomé e Príncipe, e Fidalgo Preto, de Cabo Verde, são os vencedores ex- aequo do Prémio Sonangol da Literatura, a mais importante distinção atribuída em Angola nesta área cultural.

O são-tomense Malé Madeçu foi premiado pela obra +Retalhos do Massacre de Batepá+ e o cabo-verdiano Fidalgo Preto por +Baban - O Ladino+.

Na perspectiva do júri, as duas obras destacaram-se entre as cerca de três dezenas de trabalhos concorrentes pela "salvaguarda dos valores étnicos e sócio-culturais dos seus países".

Nesse sentido, o júri considerou que Malé Madeçu promove na sua obra "uma valorização do património cultural de S. Tomé e Príncipe", salientando que o livro premiado "constitui a memória da ruptura entre o império e a colónia".

A obra +Retalhos do Massacre de Batepá+ possui "um grande valor como epopeia da resistência político-cultural, que alimenta o patriotismo das gerações jovens, geralmente desconhecedoras da sua própria história".

No caso do romance "Baban - O Ladino", o júri entende que ele está "profundamente estruturado no sistema sócio-cultural de Cabo Verde", retratando "o problema da cidadania" no quadro da "conquista da liberdade democrática".

Relativamente a esta obra, o júri destacou "a arquitectura do anti-herói e a interacção das personagens na codificação crítica da tragédia da seca em Cabo Verde".

O júri decidiu ainda atribuir uma menção honrosa à obra +Levélengué - As Gravanas de Gabriela+, do escritor são-tomense Natasha Lueje, pseudónimo literário de Joaquim Rafael Branco.

O Prémio Sonangol de Literatura, que atribui 25 mil dólares ao vencedor, será entregue numa cerimónia a realizar em Luanda a 25 de Fevereiro de 2006, data do aniversário da Sociedade Nacional de Combustíveis de Angola, patrocinadora deste prémio.

Concorreram a esta edição do Prémio Sonangol 72 obras, mas apenas 32 foram seleccionadas para apreciação do júri, composto por três elementos de Angola, um de S. Tomé e Príncipe e um de Cabo Verde.

O Prémio Sonangol de Literatura, instituído em 1993 para promover o trabalho dos escritores angolanos, foi alargado nas últimas edições a autores de Cabo Verde e de S. Tomé e Príncipe.

Na próxima edição, que se realizará em 2010, este galardão será também aberto a escritores de Moçambique, Guiné-Bissau e Timor- Leste.

LUSA - 22.08.2005

17-08-2005

Documentário sobre Mariza em repetição

Mariza5_1 Se estiver em Portugal, veja no próximo dia 22 de Agosto, às 22H00 no Biography Channel.

"Se eu sobrevivesse, iria ser canto-a e chamar-me-ia Mariza", lembra a fadista. Esta foi a promessa feita pelo pai de Mariza quando a filha nasceu prematuramente. Uma promessa que se concretizou e que foi revelada na apresentação do documentário que o The Biography Channel, repete dia 22 de Agosto às 22 horas.

Pela primeira vez, os pais de Mariza, são entrevistados num programa de televisão. A propósito do documentário realizado pelo brasileiro Sérgio Oksman, Mariza confidenciou "Achei estranho pôr a minha vida num canal que costumo ver." Mariza afirmou ainda "É muito difícil ver os meus pais e pessoas que me ajudaram a falar sobre mim, emociona-me."

Na opinião de Mariza, o fado não é só triste, mas também é alegre desde o seu início "Não era só a triste melancolia dos marinheiros, mas também a alegria dos brasileiros e o ritmo dos africanos."

A tristeza, a melancolia, o amor, a alegria, a paixão, são sentimentos da vida que podem ser cantados em forma de fado.

Nascida em Moçambique, Mariza veio viver com os pais para Lisboa e, devido à influência paterna  - "o meu pai ouvia só fado", - tornou-se fadista.

Apesar de confessar que sente o apelo por outros géneros musicais, Mariza afirma que "estava escrito que tinha de ser assim", ou seja, o seu destino era ser fadista. E é esse destino que se cumpre cada vez que sobe a um palco ou grava um disco.

Nas suas digressões, Mariza tem um ritual que partilhou com os jornalistas "Nos hotéis, para relaxar, lavo e estendo a roupa, parece que já estou em casa, é uma forma de chegar a casa mais rapidamente ver aquele estendal, que me faz lembrar os da Mouraria."

O documentário foi realizado por altura do lançamento do álbum Transparente. Os ensaios, as entrevistas com correspondentes estrangeiros, o primeiro concerto no Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra, e os momentos nos camarins que antecederam o espectáculo podem ser vistos no filme.

www.biographychannel.tv

09-08-2005

"OS ELEFANTES NÃO ESQUECEM"

Abel_coelho Elefantesnao_esquecem_capa_1

Já à venda nas livrarias.

Abel Coelho é Natural de Inhambane-Moçambique.

NOTA DO AUTOR:

Vinte e cinco anos depois da revolução e da independência de Mo­çambique decidi dar uma volta pelo país e rever lugares de infância. A guerra tinha acabado, o regime de partido único tinha dado lugar ao multipartidarismo e a liberdade de expressão pareceu-me ser uma realidade tão grande quanto a paz que pude testemunhar por todos os caminhos e cidades por onde passei.

Na comitiva de viagem éramos sete: a minha cunhada e o meu ir­mão que funcionavam como cicerones e nos mostravam sítios que há muito deixara de ver, a minha mãe e o meu pai, para quem quase tudo o que viam lhes trazia recordações do passado, a minha sogra e a minha mulher, sempre dispostas a maravilharem-se com os cantos que fizeram parte da minha meninice e eu, que em cada paisagem, em cada povoação e em cada aldeia, me via menino branco de pé des­calço, correndo por ali sem me preocupar com o fim do espaço.

O carro da frente saiu da estrada principal e voltou à direita no que parecia ser uma picada, reconheci-a: - "vai dar a uma velha quinta onde passei parte da minha vida de criança" - digo para a minha mulher. Sinto as memórias desse tempo entrarem por mini à velo­cidade com que nos aproximámos da quinta. Depois de uma lomba ela aparece ao fundo da estrada: a casa está seca, a tinta desapareceu e as paredes têm rugas como se o tempo as tivessem mirrado: pará­mos em frente e reparo que as janelas não têm vidros, parece uma casa morta, de pé. A volta está lá tudo, a velha tangerineira está ainda fértil, a laranjeira com enxerto de limoeiro, precisada de poda insistia ainda em manter-se viva no seu canto, o jardim cujas roseiras desa­pareceram dos canteiros deram lugar agora a tufos de capim seco. O espaço parecia-me mais pequeno mas isso era coisa do tempo, estava tudo em silêncio e não se via ninguém por ali, era como se a quinta tivesse sido abandonada. Em passo lento entrei na casa pelo buraco deixado pela porta que já não existia e no interior, na mesma sala onde passei vários natais, a mobília tinha desaparecido, o chão estava ocupado com cocos secos colocados em montes que iam até a meio da divisão; nos outros quartos a mesma coisa. As paredes estavam cobertas de palavras de ordem escritas a carvão: "viva a revolução", - "independência ou morte venceremos", - "morte aos colonialistas". Eram marcas de um tempo posterior à minha passagem por ali.

Segui o corredor e quando saía pela porta dos fundos que dava acesso à parte de trás, vejo uma mulher negra de rosto familiar mas não a reconheço imediatamente; era velha, muito velha, sofri­da e magra como só a falta de alimento nos pode deixar; paro na ombreira e fico à porta a observá-la mas não me vê, está atenta ao grupo que deu a volta à casa e se encaminha para ela. O meu pai pára em frente a menos de um metro dela, olham um para o outro como se de uma visão se tratasse e ficam assim, por um momento; quase sem controle ele deixa escapar: - "Josefa" - dos olhos da velha correm lágrimas, mantém-se estática e só os lábios se movem para dizer: "Olha o que fizeram da nossa terra Martins...olha o que fize­ram da nossa vida..." Abraçaram-se e, foi a segunda vez na vida que vi o meu pai chorar.

Vêm-me à mente os tempos da revolução, o medo de ser branco, o medo de falar, o medo de não falar, o tempo da ditadura e dos amigos presos.

Está tudo diferente agora para melhor, as coisas estão no bom cami­nho, o multipartidarismo, o fim da guerra civil, a liberdade de expres­são e a vontade dos políticos da nova geração em fazerem melhor são sinais de esperança, mas para trás fica uma geração sofrida, perdida talvez, e a quem ninguém ainda pediu perdão pêlos males feitos em nome de verdades absolutas.

A voz fraca da "Josefa" soa-me como um grito de quem implora por justiça e, diante dele, é difícil olhar para o futuro sem nos lembrar­mos do passado.

OS ELEFANTES NÃO ESQUECEM é isso, uma história do passado, onde tudo o que for igual é pura coincidência, como coincidência é o nome das pessoas, dos lugares, dos actos e das atitudes.

Não pretendo com o tema desenterrar ódios, mas já é tempo de libertarmos o que nos vai na alma, de assumirmos esse passado, de assumirmos que houve sofredores e carrascos num tempo ido, num tempo que, felizmente, já faz parte da nossa história.

Abel Coelho

Pintor Lívio de Morais quer ser conhecido no seu país

Lívio Morais, um pintor moçambicano a residir em Portugal há mais de 30 anos, tem tido sucesso pelo mundo fora, mas confessa que o seu maior sonho era ser conhecido no seu país.

Por Manuela Ferreira
da Agência Lusa

«O meu país ainda não me conhece. Penso que, quando isso acontecer, terá outra maneira de se aproximar de mim, porque eu estou a fazer tudo por isso. Gostaria que o meu país se orgulhasse daquilo que eu faço e que já é muito conhecido cá fora», disse à Agência Lusa o pintor moçambicano.
O drama de Lívio de Morais é o mesmo de milhares de artistas africanos que deixam os seus países para trás para aperfeiçoarem os seus conhecimentos, evoluindo mais depressa do que aqueles que deixaram na sua aldeia, pelo que acabam por não ser compreendidos por eles.
Quando, em 1986, o escritor nigeriano Wole Soyinka recebeu o Prémio Nobel da Literatura, uma jornalista perguntou-lhe o que mais poderia ele querer.
O galardoado respondeu que estava por realizar o seu maior sonho: que a mãe, que continuava a viver na sua aldeia natal, Abeokuta, pudesse ler um livro seu, o que não era fácil porque ele escrevia em inglês, idioma que ela nunca dominara.
Mas se Lívio de Morais não é muito conhecido em Moçambique, é uma presença constante em exposições de Norte a Sul de Portugal, a última das quais em Vila do Conde.

Expôs também em Espanha, Alemanha, Canadá e mesmo Moçambique.

Pintor, escultor, ensaísta, investigador de arte africana, professor liceal reformado e presidente da Assembleia de Freguesia do Cacém, Lívio de Morais nasceu em 1945 na província da Zambézia.

Mais tarde, partiu para Maputo (então Lourenço Marques) e depois para Portugal, onde se licenciou na Faculdade de Belas Artes de Lisboa.
Apesar da sua longa vivência europeia, as suas raízes continuam bem visíveis na sua obra, devido à recorrência de dois temas: as máscaras africanas e as mulheres.
«Hoje, as pessoas, em todo o mundo, quando olham as máscaras relembram as raízes africanas», explica, a propósito do primeiro daqueles temas, acrescentando: «Acho que se eu continuar a pintar as máscaras, estarei no caminho da identidade africana. Nunca deixarei de as pintar. Na máscara está escondido o rosto verdadeiro do africano com a sua História, com os seus ritos de passagem (nascimento, iniciação, casamento e morte) que, para quem acredita neles, são as fases fundamentais da passagem do ser humano por este mundo».

Lívio de Morais promete para "muito em breve" uma exposição de pintura só de máscaras africanas, em Lisboa, e recorda que também ele participou, em criança, em ritos como o da iniciação.
Cita, a propósito, o poema «Infância Perdida» de Noémia de Sousa, (jornalista e poetisa moçambicana, radicada em Portugal, onde morreu em Dezembro de 2002).
A investigação histórica sobre máscaras africanas levou-o a proferir conferências sobre esse tema em universidades como as de Barcelona, Vigo, Funchal e Bolonha.
No que se refere aos seus quadros de mulheres carregando e amamentando os filhos, colhendo e vendendo cajú, o pintor considera que elas são «um tema fascinante, universalista, que desperta em nós a ternura, a afectividade e a sensualidade».
Opina que o tema das mulheres, na Arte, tem uma acção catártica porque traz à superfície «os sentimentos mais puros, mais humanos» e faz despertar «a alegria de viver e de amar».
«Quem olha para uma mulher, seja qual for a sua idade, não consegue ser agressivo», opina Lívio de Morais.
Sublinha que a mulher que pinta é a mãe, transbordando ternura pela família «na sua ocupação permanente em coisas pequenas mas imprescindíveis, numa tarefa que não tem fim».
«Eu pinto a azáfama da mulher africana do campo, onde não há recursos», resume o artista moçambicano.
Admite que as suas cores evoluíram nos últimos tempos: «Neste momento, estou a viver uma fase de alegria e de esperança, da multiplicidade da cor, sem deixar as cores quentes».
À questão se um africano pode viver apenas da sua Arte na Europa, Lívio de Morais responde afirmativamente, mas ressalva que, neste momento, o Velho Continente está «a marcar passo», pelo que só é possível singrar com «muito trabalho e dedicação, e um pouco de ajuda».
Foi pensar na ajuda aos artistas africanos na Europa que o pintor fundou com outros e preside ao Centro Cultural de Moçambique, que conta já com uma galeria de arte, no Centro Comercial Apolo, em Lisboa.

Lívio de Morais é igualmente escritor e ilustrador de livros, com quatro obras publicadas, uma delas dedicada a Fernando Pessoa. Também desenhou selos para a Guiné- Bissau e postais para Angola e Cabo Verde.

Casado com uma portuguesa, a filha, Laura Morais, segue-lhe as pisadas, tendo já exposto na Galeria Gam, em Lisboa.

Veja: http://liviodemorais.com.sapo.pt/

08-08-2005

Após o sonho Europeu Portugal verá o pesadelo

Afirma Orlando Castro numa entrevista a Patrisia Ciancio e que integra um trabalho apresentado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Patrisia Ciancio apresentou na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, para o Curso de História das Relações Internacionais, uma Monografia sobre «A Língua Portuguesa Como Veículo de Aproximação Entre os Países Lusófonos». Para este trabalho a autora entrevistou diversos especialistas na Lusofonia, entre os quais o Jornalista Orlando Castro, o nosso colunista responsável pela secção Alto Hama, para quem “Portugal está adormecido com o sonho europeu, esquecendo que a sua História está também e sobretudo em África”, pelo que, “quando acordar, vai ter um enorme pesadelo”. Sobre o Acordo Ortográfico, Orlando Castro afirmou que “para os africanos que passam fome, e são muitos milhões, não interessa como se escreve comida. Querem é comida”.


Com redobrado prazer, transcrevemos a entrevista que Orlando Castro deu a Patrisia Ciancio no âmbito do referido trabalho apresentado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

1. Existe um uso mal conduzido da Língua Portuguesa por parte das diplomacias brasileira e portuguesa em alinhavar uma política externa estratégica mais efetiva, através da valorização do idioma?

De uma forma geral, Portugal e Brasil continuam a valorizar o acessório e a subestimar o essencial. Por isso, julgam que o idioma (eu prefiro falar da língua) é algo que não precisa de ser alimentado, que não precisa de ser valorizado. É pena. Por este andar, não tardará muito que a Lusofonia dê lugar à francofonia ou a outra fonia qualquer. Em vez de se potenciar a língua como o principal elo de ligação, como factor decisivo de todas as outras vertentes da sociedade globalizada, estamos a pensar que essa é uma vitória eterna. E não é.

2. Em entrevista com o presidente da ABL, Alberto Costa e Silva, que inclusive foi embaixador em Portugal, ele me disse que o Português hoje cresce mais do que o francês, por exemplo, e que é uma das grandes línguas de cultura deste século. O senhor concorda?

Não. Não concordo. O português não está a crescer. Está a aguentar-se. Apenas isso. E até mesmo em matéria cultural, não é uma das grandes línguas, embora se tivesse engenho e arte lá pudesse chegar. Não se pode olhar o Português virando os olhos para o umbigo do Brasil. Nas comunidades de origem portuguesa, as novas gerações pouco ou nada falam português. Nos PALOP (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa) assiste-se ao legítimo proliferar dos dialectos locais e ao galopante êxito do inglês. O Português tenderá (se nada for feito) a ser apenas uma língua residual.

3. Qual é o grau de importância do Acordo Ortográfico para os países a CPLP? Até que ponto é necessário?

Pouca ou nenhuma importância tem. Basta olhar para a sua forma de escrever e, é claro, para a minha. Aliás, até pelo número de falantes, todos acabaremos por falar e escrever o português do Brasil. Assim, deveríamos deixar que a língua fosse cada vez mais viva e seguisse o seu trajecto natural. Desde logo porque todos nos entendemos, mesmo que utilizemos grafias diferentes. Creio até que o Acordo Ortográfico não passará de uma forma de amordaçar a língua, limitando a criatividade de que o Brasil é um soberano exemplo.

4. Em outra pergunta ao já referido presidente da ABL, questionei quais seriam os reais rumos do Acordo Ortográfico. E ele me respondeu que está na dependência talvez de uma ação política de Portugal, Brasil e Cabo Verde para que os demais países ratifiquem seus termos. Como o senhor acha que isso poderia ser conduzido?

Do meu ponto de vista deveria ser pura e simplesmente anulado. A língua portuguesa deveria fluir de forma natural, ao sabor de cada país que - por várias razões - tem palavras diferentes, grafias diferentes e vivências diferentes. Já reparou que os meus netos podem não ter um único dos meus nomes? Deixarão por isso de ser meus netos? Não. É claro que não. E não vale a pena criar um Acordo para que tenham.

5. Existe algum estudo sobre o surgimento do termo lusofonia? Como surgiu, sua história, o que significa hoje e o que pode vir a significar um dia?

Não conheço nenhum estudo sobre o surgimento do termo. No entanto, a Lusofonia começa a surgir depois da independência dos países africanos de língua portuguesa, há 30 anos, na linha - por exemplo - da francofonia. Significou, significa e significará a tentativa de definir um conjunto de países que têm em comum a língua, língua essa originária de Portugal, o país dos Lusitanos, sendo que Luso significa português. No futuro poderá (poderia) significar muito mais, não estivesse Portugal refém da União Europeia e o Brasil da América Latina.

6. Por que Brasil e Portugal não exportam a Língua Portuguesa (e com ela hábitos e costumes) estimulando seu ensino em outros países, em uma ação conjunta, assim como a Aliança Francesa fez ao longo dos tempos com seus centros de cultura? Isso por um lado seria transformar os valores culturais em mercadoria, mas não deveria haver uma propaganda maior dessa riqueza? Quais são os maiores divulgadores da Língua Portuguesa hoje (as novelas, a música, esportes como a capoeira etc)? E em termos de ação governamental, o que é feito para difundir o idioma?

Ao contrário do que fazem franceses e ingleses, os portugueses e os brasileiros (mais os lusos) têm por hábito deixar para amanhã o que deveriam ter feito ontem. Não existe, na língua como noutros sectores, uma conjugação estratégica de objectivos. Cada um rema para o seu lado e, é claro, assim o barco comum (a Lusofonia) não chega a nenhum porto. Há projectos sobrepostos, e muitas áreas onde ninguém chega. Ninguém não é verdade. Chegam os ingleses e os franceses. É claro que, pela sua universalidade, as canções são o maior veículo de difusão. Mas isso só não chega. Conheço gente em Angola que canta as canções do Roberto Carlos mas que, de facto, não sabe falar português. A CPLP deveria ser o organismo que, por excelência, poderia divulgar a língua. Está, contudo, adormecida. Quando acordar verá que a Lusofonia já morreu...

7. Portugal está muito mais voltado para a Europa, no caso. Mas o senhor enxerga alguma possibilidade de intensificar a relação entre os países da CPLP, e o Acordo Ortográfico não seria um bom começo para selar uma maior cooperação?

É claro que o futuro de Portugal passa também, eu diria essencialmente, por África. Acontece que, nesta altura, a União Europeia continua a mandar muito dinheiro para Portugal. E, ao contrário de outros tempos, Lisboa não está interessada em dar luz ao mundo. Ao contrário de muitos outros países que estão na UE mas também em África, Portugal está adormecido com o sonho europeu, esquecendo que a sua História está também e sobretudo em África. Quando acordar vai ter um enorme pesadelo. Não creio que o Acordo Ortográfico seja útil. Para os africanos que passam fome, e são muitos milhões, não interessa como se escreve comida. Querem é comida.

8. A Língua Portuguesa possui grande impacto mundial? Será que não precisa ser defendida com uma política agressiva? Quem tem mais força e vontade política para levantar esta bandeira, Brasil ou Portugal?

Possui algum impacto mundial, mais por força e graça dos outros do que por trabalho dos que falam português. Ou seja, a China – por exemplo – está a preparar muitos dos seus melhores quadros para que dominem a língua portuguesa. Fazem-no para conquistar os mercados lusófonos. Nada mais do que isso. É claro que deveria haver acções conjugadas para semear a nossa língua, independentemente de eu escrever "acção" e você escrever "ação" . Mas isso não existe. De uma forma geral, todos continuamos à espera que o burro aprenda a viver sem comer. Mas, quando olharmos para o lado, vamos ver que quando o burro estava quase a saber viver sem comer... morreu. Acredito que ou o Brasil, pela sua expressão numérica de gente que fala português e pela sua qualidade de potência mundial, dá uma ajuda decisiva ou, então, não vamos a lado algum.

9. Portugal e Brasil têm uma relação diplomática hoje forte o suficiente para abraçar a questão da Lusofonia?

Têm uma relação diplomática (entre outras) bem forte. No entanto, têm igualmente interesses diferentes e estratégias às vezes antagónicas. Por isso continuo a pensar que o Brasil têm de ser a locomotiva que fará vencer a Lusofonia. Se o Brasil parar, sejamos claros, Portugal não tem pernas para andar.

10. Os demais países da CPLP, africanos, por exemplo, não ficam de certa forma às margens de todo esse processo, não somente do Acordo Ortográfico, mas de tudo o que pode representar a criação de um bloco lusófono de relevância no sistema internacional?

Ficam e estão à margem. Desde logo porque ainda existe, dos dois lados, o complexo do colonizador e do colonizado. Portugal ainda não percebeu que foi o «pai» mas que os «filhos» já são independentes. Os países africanos ainda não compreenderam que o «pai» errou em muitas coisas mas que não é por isso que deixou de ser «pai». Mais uma vez terá de ser o Brasil a mostrar o caminho e a dar a oportunidade ao muito, muito mesmo, que esses países têm para dar à causa da Lusofonia.

11. Depois de 60 anos de tentativa de consolidação, por que o senhor acha que o Acordo Ortográfico até hoje não foi firmado?

Porque não serve para nada. O português do Brasil (um pouco também à semelhança dos países lusófonos da África) é uma língua viva e todos os dias rejuvenescida. Ao contrário, em Portugal é uma língua fechada, parada. É portanto, difícil harmonizar (não na lei mas na prática corrente) uma forma de escrever. Não creio, aliás, que essa harmonização seja necessária.

12. Gostaria que o senhor comentasse o trecho de uma das respostas feitas ao Sr. Alberto Costa e Silva: "Quando os portugueses proclamaram a república em 1910 fizeram uma lei mudando e facilitando a ortografia para fins de alfabetização. A ortografia era considerada muito complicada, que dificultava a alfabetização. Então, impuseram por lei uma nova ortografia. Ora, as leis feitas para Portugal eram válidas somente para Portugal e não para o Brasil, os legisladores portugueses não podiam legislar sobre uma língua que não era só propriedade deles, era co-propriedade do Brasil. Então, o que aconteceu, nós tivemos que fazer a nossa ortografia. Então, desde então, temos discutido com os portugueses para unificar esta ortografia. Isso é algo extremamente curioso, porque sem nenhuma razão ou antecedentes disso, a ortografia da Língua Portuguesa passou a ser ditada por decreto, por leis de governo".

De facto é assim. E não há decreto que nos valha quando, cada vez mais, a Língua Portuguesa é alimentada e forma diferente de acordo com cada uma das realidades sociais, económicas, culturais etc. dos países onde está instituída e que, ainda por cima, estão geograficamente tão separados.

Observações adicionais colocadas de maneira espontânea por Orlando Castro:

A Lusofonia, essa realidade que em muito ultrapassa os 200 milhões de cidadãos em todos os cantos do planeta, parece condenada a ser ultrapassada, ou até mesmo aniquilada, por qualquer outra fonia. Tudo porque Portugal, mais do que dar nova luz ao Mundo, parece preocupado apenas com os limites físicos das ocidentais praias lusitanas. Portugal não pode (ou, pelo menos, não deve) esquecer que tem responsabilidades na defesa e na divulgação de uma língua que faz História. Esquecer, ou lembrar uma vez por ano, todos aqueles que dão corpo e alma à Lusofonia não passa de um vil crime. E é um crime porque, afinal, é preciso que Portugal trabalhe para os milhões que têm pouco e não, como vai acontecendo, para os poucos que têm milhões.

Parafraseando Luís de Camões, em português se canta o peito ilustre lusitano e, na prática, importa recordar que a ele obedeceram Neptuno e Marte. Além disso, importa dizê-lo, manda cessar (se para tal todos os lusófonos tiverem engenho e arte) «tudo o que a Musa antiga canta».

Quando será que, de forma consciente e consistente, Portugal entenderá que «outro valor mais alto se alevanta»?

Por culpa (mesmo que inconsciente) dos poucos que não vivem para servir e que, por isso, não servem para viver, continuam os milhões que se entendem em português a comer e calar, amordaçados pela mesquinhez dos que se julgam detentores da verdade.

É claro que, como em tudo na vida, não faltarão os que dirão que não é possível entregar a carta a Garcia. Dirão isso e, ao mesmo tempo, apontarão a valeta mais próxima. A História do Mundo desmente-os. A História de Portugal desmente-os. Além disso, não custa tentar o impossível, desde logo porque o possível fazemos nós todos os dias.

Mas não será com esses que se fará a História da Lusofonia apesar de, reconheço, muitos deles teimarem em flutuar ao sabor de interesses mesquinhos e de causas que só se conjugam na primeira pessoa do singular.

Para mim a Lusofonia deveria ser um desígnio nacional. Defender esta tese é, provavelmente, pregar paras os peixes. Mas, creio, vale a pena continuar a lutar. Lutar sempre, apesar da indiferença de (quase) todos os que podiam, e deviam, ajudar a Lusofonia.

Será desta? Não creio. Até agora continuam a ser mais os exemplos dos que em vez de privilegiarem a competência preferem a subserviência.

Um amigo, também ele apaixonado pela Lusofonia, fez-me o retrato do que entende ser o mal da nossa (lusófona) sociedade:

«Quem trabalha muito, erra muito; quem trabalha pouco, erra pouco; quem não trabalha, não erra; quem não erra... é promovido».

Será? Pela experiência, creio que é mesmo assim. No entanto, penso que não poderá continuar a ser assim, a não ser que queiramos ver a Lusofonia substituída pela Francofonia ou por outra qualquer fonia.

Será isso que, por exemplo, os políticos das pátrias que integram a Comunidade de Países de Língua Portuguesa querem que aconteça? Será isso que os empresários querem que aconteça?

Cá estamos para ver, esperando que não se repita a história do burro que quando estava quase a saber viver sem comer... morreu.

E se cá estamos para ver, também cá estaremos para dizer quem foram os que estavam a cantar no convés enquanto o navio se afundava.

Resta-me acreditar (continuar a acreditar) que a Lusofonia pode dar luz ao Mundo e que, por isso, não há comparação entre o que se perde por fracassar e o que se perde por não tentar.

Para este trabalho foram entrevistados cinco especialistas no assunto lusofonia:

O então presidente da ABL - Academia Brasileira de Letras, Alberto Costa e Silva; o criador do Fórum Lusófono, Helder Sanches; Tânia Pego, professora brasileira de Literatura que mora Portugal; Orlando Castro, jornalista; e o professor Teotonio de Souza, diretor do Departamento de História da Universidade Lusófona, Lisboa.

NOTÍCIAS LUSÓFONAS - 08.08.2005

07-08-2005

Artistas africanos têm galeria em Lisboa para divulgar a sua arte

Manuela Ferreira, da Agência Lusa

Lisboa, 07 (Lusa) - Artistas africanos menos conhecidos pelos portugueses têm agora, em Lisboa, uma galeria que mostra alguns dos seus melhores trabalhos, sejam eles do ceramista Heitor Pais, do pintor José Pádua, ambos moçambicanos, ou do escultor angolano Magina.

Com pouco mais de seis meses de funcionamento, a Galeria de Exposições do Centro Cultural Luso-Moçambicano, na Loja 43 do Centro Comercial Apolo
70, promoveu já em vários pontos de Portugal seis exposições, a última das quais está patente, até ao final de Agosto, em Vila do Conde.

Nesta última exposição, que assinala o 30º aniversário da independência de Moçambique, estão expostos trabalhos de vários pintores moçambicanos com maior ou menor experiência - Butcheca, Saranga, José Pádua, Gumatsy, Quehá e Lívio de Morais.

O Centro Cultural Moçambicano criado em finais do ano passado agrega um leque variado de individualidades africanas, para além de artistas. Os antigos futebolistas Mário Wilson e Eusébio são alguns dos seus patrocinadores mais entusiastas.

O presidente, Lívio de Morais, um pintor moçambicano a residir em Portugal há 26 anos, explicou à Agência Lusa que "o objectivo e a razão de ser" do Centro Cultural é "a divulgação da cultura moçambicana e africana na Europa, através de Portugal, privilegiando a língua portuguesa".

Por razões históricas, não teria sentido o Centro Cultural Moçambicano nascer e ter sede noutro país europeu¯, comenta o pintor, acrescentando que o objectivo é também aproximar cada vez mais as culturas, "ao encontro da nova mentalidade universal do Conhecimento, Convivência, Tolerância e Paz Mundial".

Com 235 sócios, o centro visa actuar em diversas áreas para além da Cultura, com realce para a área social, onde se acompanham já cidadãos moçambicanos com menores recursos, mesmo quando hospitalizados ou presos.

O associativismo é por natureza o meio de pensar, decidir e viver comum, salienta Lívio de Morais, explicando que entre os objectivos do centro está também o acompanhamento jurídico para garantia e defesa dos direitos sociais e humanos dos moçambicanos em Portugal.

As crianças, as mulheres e os estudantes universitários moçambicanos em Portugal merecem atenção particular deste Centro Cultural, que também
pretende actuar na área de formação, prevendo-se o início de cursos de informática para Setembro.

A Gastronomia, o Desporto e a Saúde são outros sectores em que o Centro Cultural Moçambicano pretende desenvolver acções de dinamização.

A literatura africana, considerada como uma componente indispensável para a divulgação da língua africana e meio indispensável da cultura africana na Europa, merece também o interesse do Centro que pretende, nomeadamente, editar jovens escritores.

Contamos com o pouco que nos derem, nem que seja uma carta com umas palavras de encorajamento, diz Lívio de Morais, adiantando que qualquer oferta é bem vinda, quer se trate de livros, cadeiras, mesas ou pequenos
donativos financeiros.

Enquanto sonham com uma sede em que possam ter uma biblioteca, dar apoio aos sócios e realizar acções de formação, foram dados passos decisivos com a abertura da Galeria de Exposições.

O português Paulo Ossião, o cabo-verdiano David Levy Lima, a guineense Manuela Jardim são alguns dos artistas integrados no projecto.

Neste momento, a Galeria tem em exposição obras de Malagatana, Lívio de Morais, Magina e Heitor Pais, que podem ser adquiridas por valores que oscilam entre algumas centenas de euros e os 1.400.

02-08-2005

Família de Craveirinha acusa editor de dificultar publicação inéditos

A família do poeta moçambicano José Craveirinha acusou o responsável da extinta editora portuguesa Dacapo de "estar a dificultar" a publicação de 38 poemas inéditos, na sua posse, gravados em cassete pelo próprio autor, em 1987.
O editor, por seu lado negou as acusações, garantindo nunca ter sido contactado pela família do poeta, e manifestou a intenção de doar os poemas ao Ministério da Educação e Cultura de Moçambique.
Segundo o filho do poeta, Zeca Craveirinha, o editor da Decapo, João Ribeiro, a residir em Moçambique, exige cerca de 70 mil euros como condição para devolução dos inéditos, facto que, disse, está a "indignar" a família.
"O João Ribeiro está a pedir somas elevadas em dinheiro para devolver as cassetes da obra do meu pai", afirmou Zeca Craveirinha ao semanário Domingo, considerando a atitude do editor "um insulto" à memória do maior poeta moçambicano, falecido em 2003. José Craveirinha terá manifestado, antes da sua morte, a pretensão de ver os seus poemas gravados em disco para posterior publicação, disse ainda o filho.
João Ribeiro, por seu lado, negou ter cobrado qualquer montante como condição para a devolução da obra à família, que, afirmou, "nunca" o contactou, mas sublinhou a necessidade de se pagar os custos de produção da gravação.
"Até hoje não fui contactado pela família", mas "os custos de produção têm que ser pagos", afirmou Ribeiro.
O antigo director da Dacapo referiu que pretende doar a obra ao Ministério da Educação e Cultura de Moçambique, por se tratar de poemas "didácticos".

NOTÍCIAS LUSÓFONAS - 01.08.2005

31-07-2005

PARTES DE AFRICA

Partes_africa_capa Em 'Partes da África', Helder Macedo - grande nome da literatura lusitana, ao lado de José Saramago - reconstrói a África e resgata os fatos históricos de um mundo regido por tirania e arbitrariedade. Acima de tudo, a obra é uma reflexão política, que se sustenta na visão cosmopolita do autor-personagem, descendente de uma família de governadores coloniais que optou pela facção anticolonial. Como o seu autor, 'Partes da África' também representa um rompimento com as estruturas tradicionais. Helder Macedo, em um brilhante concerto estilístico, liberta-se dos paradigmas literários e cria um texto de labirintos, um mosaico de espelhos que reflete, em seus fragmentos, temas plurais e personagens delineadas pela memória e pela imaginação.

Editorial Record - ISBN 8501056715

Luiz Alberto Machado entrevista o escritor moçambicano Rogério Manjate.

Rogeriomanjate1 BRASIL/ MOÇAMBIQUE

O escritor e ator Rogério Manjate, editor de MADERAZINCO - único site de literatura existente em Moçambique , de onde já conhecia  PALAVRARTE e se correspondia com seus editores, esteve há pouco tempo no Nordeste do Brasil e  teve a oportunidade de se encontrar com  correspondentes do nosso site no Nordeste : Cláudio Aguiar (Pernambuco) e Luiz  Alberto Machado (Alagoas), que realizou a entrevista que apresentamos.
                                                                                                                 Os editores

 - Vamos começar pelo papo na praia da Pajuçara, em Maceió, na beira do Atlântico, bebericando e conversando sobre muitas coisas. Uma curiosidade bastante interessante é que falamos a mesma língua, cada qual com suas peculiaridades, embora você esteja no Índico e nós brasileiros, no Atlântico. Inclusive, há aquele fato de que depois de alguns quilômetros saindo de Maputo, outras línguas surgem. Fala um pouco a respeito disso, dessa diversidade lingüistica e da formação moçambicana.

Uma das riquezas de Moçambique é a grande diversidade cultural, tu tens um rio que divide o país de uma forma peculiar, a sul do Rio Zambeze tens uma sociedade patrilinear e a norte matrilinear; isto provoca uma grande diferença. Mais, tens cerca de 23 línguas nacionais, e isto pode implicar a presença de mesmo número de culturas, com as suas semelhanças e diferenças.
É mais ou menos isto, andas 400 Km, e ouves uma nova língua. Meus pais falam chope, que apenas percebo, nasci em Maputo, falo changana e ronga; as línguas que se falam a partir dos cerca de 900 km de Maputo eu não percebo, só identifico uma ou outra palavra por elas serem bantas. A língua portuguesa é que estabelece, a famosa unidade nacional, é a língua oficial, mas que não é falada por mais de metade dos 16 milhões de habitantes, devido ao alto índice de analfabetismo. Como podes imaginar a literatura não é para muitos, confinando-se às cidades, e para os privilegiados. Esta coisa das línguas, vai associada com a diversidade de ritos, de danças, de ritmos musicais que este país tem. Por exemplo, o norte de Moçambique, tem grandes influências árabes, pois estes estiveram antes dos portugueses a fazerem trocas comerciais (no entanto Vasco da Gama descobriu Moçambique) aliás há semelhanças nesse aspecto com o nordeste do Brasil, e essa influência está presente na música, na gastronomia, e mais. Por isso, moçambicanidade é algo que se vai construindo a cada dia e vai levar muito tempo, e não sei que rumos tomará com a globalização ocidental. E a moçambicanidade é algo que a literatura vinca bastante.

- Fala agora sobre a literatura moçambicana, como ela se encontra hoje?

A literatura de Moçambique é jovem ainda, porque durante um período ela era feita apenas por portugueses ou descendentes, e até que os moçambicanos tivessem direito a escolarização, para poderem entrar nesse universo levou muito tempo, isso só começou no início do século passado. E eles aprendiam e apreendiam valores europeus, tanto que eram obrigados a renegar a moçambicanidade (todos os valores culturais nativos) tornando-se assimilados, e aceites como portugueses de segunda ou terceira... e só nos anos 40 é que houve uma espécie de rebeldia, a partir deste tempo é que se sente a presença de elementos moçambicanos, o pensamento africano dos escritores (Noémia de Sousa, Craveirinha, e outros). E ainda hoje dá-se continuidade disso, e tornando-se a literatura moçambicana cada vez mais universal, moçambicanamente eu acho - sente-se isso em Patraquim, Mia, White e outros... e já o fazia Rui Knopfli nos anos 50. Mas neste momento a economia do mercado das cabeças dos políticos lixa tudo; mas nos últimos 5 anos voltam a aparecer mais livros, algumas editoras, mas como em todos os países pobres, existe uma falta de políticas culturais e educacionais, generalizada. E isso é fatal. Acredito que daqui mais 5-10 anos vai ser mais expressivo ainda, porque já existe um pequeno movimento literário esporádico, concursos literários para jovens, há pequenas manifestações privadas nesse sentido e no apoio à edição de livros. Falar da literatura moçambicana actualmente, é perigosa a generalização; os bons autores continuam bons, e continuam a produzir, muitos deles esporadicamente... a literatura tem como chave o trabalho individual, mas o colectivo é fulcral, como por exemplo a formação de novos leitores. Por isso edições são de 1000 exemplares, mal distribuídos, reeditados 5 anos depois, se. Nada ou pouco está sendo feito, em relação à estrutura da literatura, das artes em geral. Mas segue o seu caminho, e vai crescer ainda mais. Há muitos autores a serem traduzidos, a serem conhecidos em várias paragens.

- Sobre isso, você em 2000 organizou uma coletânea da literatura moçambicana publicada num belíssimo volume que conta, ainda, com a presença de artistas do Brasil, de Cabo Verde e de Portugal. Como se deu essa experiência? Como você vê o intercâmbio entre esses países?

Existe na cidade do Porto, o projecto Identidades e a Cooperativa Cultural Gesto, como se pode perceber pelos nomes, eles vêm desenvolvendo trabalhos que implicam cooperação com outros povos; e porque ambos são suportados por professores e alunos da faculdade de Belas Artes da Univ. Do Porto, em Moçambique começou com a Escola de Artes Visuais em Maputo; e depois as actividades alargaram-se, em 2000 foi a literatura, num diálogo com as artes plásticas, cujo trabalho será continuado ainda este ano se fundos houverem, mas no sentido contrário, os artistas plásticos fazem as obras e os escritores escrevem a partir delas, num diálogo de identidades. E isso envolve escritores e artistas plásticos do Brasil, Cabo-Verde, Portugal e Moçambique. A Colectânea Breve de Literatura Moçambicana é uma selecção de textos, poemas e contos, de vários autores que vão desde os anos 40 até 2000, deixando perceber as várias fases e temáticas da literatura moçambicana. Este tipo de intercâmbios é de extrema importância porque ultrapassa os políticos, que ficam sempre na mesma canção. Porque vai fundo, é muito baseado na identidade, nos afectos, no conhecimento do outro. E é através destes intercâmbios que percebemos até que ponto não somos lusófonos, mas sim moçambicanos, brasileiros, angolanos, que até falamos uma língua que não é tão mesma assim. Mas infelizmente estes intercâmbios são raros, porque nos nossos países, os políticos, não promovem cultura, agora criou-se uma coisa chamada CPLP, que é basicamente política, como se fosse um portal para gastar mais dinheiro em nome dessa cooperação. E o pior de tudo é que as iniciativas partem de Portugal e não directamente entre os restantes países, o que criaria uma maior dinâmica e verdadeira troca. Não existe cooperação Sul-Sul: dinheiro não há. Então ficamos nas estratégias neocoloniais
movidas pelo ocidente. Por exemplo agora há uma televisão via satélite chamada RTP África, feita directamente de Lisboa para os países africanos, onde mais de 75% de programação é portuguesa. Mas será que era esta a televisão que os africanos queriam? Foram perguntados? É feita para os imigrantes portugueses? para que africanos, os que estão em África ou na Europa?... Mas, "quem parte não é o mesmo que regressa", reza o aforismo. Neste momento a cooperação é triangular, e Portugal é o centro...

- Você foi agraciado em 2001, com o prêmio do Concurso Literário TDM, resultando na publicação do seu livro "Amor Silvestre". Como é que a literatura chega na sua vida? Aproveite e fale desse seu livro publicado.

Tenho um irmão que gosta de literatura, eu criança ele já era universitário, o exemplo da família, e isso influenciava-nos a todos. Em minha casa houve sempre livros, lembro-me de "Mayombe" do angolano  Pepetela, e achava esses dois nomes engraçados e misteriosos... cresci e facilmente peguei num livro para ler. Dava-me prazer. E quem lê, muito facilmente pensa que pode escrever. E este meu prazer de leitura empurrou-me para o teatro. Não fui aconselhado, eu fui espontaneamente. Vi umas peças de teatro e achei que era capaz de fazer também. E a vontade de escrever um poema, um conto, foi aguçada pelo teatro. E mais, no mesmo teatro trabalho com escritores, o sueco Henning Mankell, como encenador, e também com o Mia Couto, numa relação em que ele é mais do que colaborador. E por acaso foi ao Mia que mostrei o meu bloco de poemas em 1996 e foi bastante carinhoso e disse-me: já és poeta. Usei esta frase como trampolim, até hoje. Com o tempo, eu fui rejeitando esses poemas, escrevendo outros. E na mesma altura comecei a escrever contos, que formam  o livro Amor Silvestre. Os  primeiros foram escritos em 1996, depois abandonei-os porque apercebi-me que eu ainda não tinha o domínio da linguagem literária, para poder contar as histórias. Então fui ler, mas era uma investigação às técnicas do conto. Por isso eu digo que se trata de um livro de um leitor, não de um escritor. O meu principal exercício até hoje é o de ser bom leitor. Em 99, finalmente apanhei livros do Guimarães Rosa, o mestre, e comecei por Tutaméia, e fui lendo cada vez mais contos, Garcia Marques, Canneti, Hesse, Tchekhov, e outros tantos... brasileiros também. Então este é o livro das influências, como acontece em todas as artes, afinal o que é ser original, acho que é preciso partir do que já está feito, onde parece que tudo já foi feito.... Só voltei a pegar nesses contos abandonados em 99, recriando-os e criando outros, e reescrevendo-os até ao dia em que fui deixar o exemplar para o concurso, que felizmente ganhei e valendo-me a publicação do livro. Em muitos dos contos, quis preservar a tradição oral, fiz investigação do conto tradicional moçambicano e africano, e quis manter a sua linguagem e saberes. E um deles é a recriação de dois contos num só. Outros foram escritos a partir de poemas, que ao relê-los, descobri que com um bom bisturi podiam contar uma boa história, e fiz a "clonagem". E tentei escrever esses contos como se fossem poemas, deixando o silêncio percorrer as palavras. Gosto muito da poesia. E este nome Amor Silvestre provém de uma pergunta que eu me fiz um dia: como é o Amor em pessoas tão pobres, na miséria?... E é a esta gente, às pessoas da Malanga (bairro onde nasci, cresci e vivo, nos arredores de Maputo) e todas Malangas deste país, que eu quero prestar uma pequenina homenagem.

- Como é conciliar literatura, agronomia e teatro?

Assim que acabei o ensino secundário, eu entro no teatro como amador, e a agronomia foi o curso que tinha escolhido, não tem nada a ver com sonho de menino, nada dessas coisas, mas decisão do momento... e sabes em países pobres sobre a arte é sempre a mesma coisa: "tens de fazer algo mais seguro". Mas os sonhos não são seguros. E eu sou desses loucos que escolheram o sonho para viver: "viver é melhor que sonhar". Eu, no entanto, me apaixonei pelo teatro, e o curso passou para segundo plano desde que entrei no Mutumbela Gogo e trabalhar como profissional, em 92 - são as digressões, os festivais, então leva tempo... Agora, a literatura e o teatro não precisam de conciliação nenhuma. São a mesma coisa quase. Eu tenho usado o teatro na minha escrita; escrevo como se estivesse a encenar e a ver acontecer no palco. E de certa maneira estou preocupado com a dramaturgia. E nos meus textos tento sempre criar imagens cheias de movimento. Procuro também imprimir a poesia do teatro, também o humor... não sei se o tenho conseguido passar para o leitor, mas esse é o meu objectivo ao escrever. Por exemplo a escrita do Guimarães Rosa, do Garcia Marquez é assim, e é bastante cinematográfica; o leitor vê o que lê. Os conhecimentos que adquiro na agronomia: é um curso superior, e qualquer um serve para a formação de qualquer um, e isto reflecte-se principalmente na capacidade da assimilação, da organização do pensamento... pensar rápido, ser pragmático. E penso que o facto de ter estudado ciências facilita-me nalgumas coisas no teatro, na literatura e aí fora.

  - O que poderia falar da atividade teatral que você desenvolve em Moçambique?

O teatro moçambicano é novo ainda, e o que se fez nos finais dos anos 80 foi a incorporação dos elementos culturais moçambicanos no teatro, a dança e a música, e assim se fizeram adaptações de textos moçambicanos, contos que tinham a ver com a realidade de Moçambique, ao invés de fazer arte por arte, como se fizera antes, representando os clássicos europeus. Pois fez-se um teatro que se identifica com a cultura moçambicana, "todo o artista tem de ir aonde o povo está". E isso foi a chave do teatro em Moçambique. E o Mutumbela Gogo foi o precursor. É um teatro de improvisação, um teatro do actor. Muitas vezes partindo de um mote, e os actores começam a improvisar, construindo a peça, tal como na escrita de um conto ou romance. Por isso que há muitas criações colectivas. E também há uma ausência de dramaturgos, obrigando à adaptações de contos. E o teatro em Moçambique é de intervenção social, mas com bastante arte. Também adaptamos peças estrangeiras, já fizemos Dário Fo, Willy Russell, Chico Buarque e outros, neste momento estou para estrear Homens, de Jan Erickson, sueco. Em suma diria que é o teatro moderno europeu, mas com uma linguagem africana, moçambicana. Uma vez num festival em Zurique apresentamos "os meninos de ninguém", cinco dias esgotados, as pessoas iam lá para ver danças, o exótico, o africano selvagem, que é o que vem habitualmente dos africanos que aparecem por lá. Ficaram quedos: de onde vocês são? Estudaram na Europa? É Stanislavsky?... Porque era o teatro que eles conhecem, mas, com uma dose africana na expressão, no ritmo - música e danças, por acaso urbanas, o rap. E o grande desafio para nós é termos de abordar temas sociais actuais, que a priori são óbvios, e termos de transcender através da arte...

- Vamos falar agora do Maderazinco. O que é exactamente este projeto, quais os objetivos, a que se propõe?

O Maderazinco é apenas uma tentativa despretensiosa de fazer chegar a literatura moçambicana ao mundo, mas ao mesmo tempo criando um espaço novo para os jovens escritores moçambicanos. Por acaso fui movido pela mesma vontade que de outras revistas e jornais on-line, porque não há absolutamente nenhum site moçambicano sobre literatura, cultura; infelizmente este é o primeiro e único. Neste momento não há revistas literárias em Moçambique. O Maderazinco não tem apoios financeiros ou coisas parecida, senão humanos, ou mesmo literários, dos vários colaboradores. A classe política é cada vez mais inculta e eles é que são os burgueses.
Trabalho praticamente sozinho nisto, as pessoas agora não têm tempo para este tipo de coisas, por isso é difícil formar equipa, no dia que envolver dinheiro virão aos magotes para apoiar. Não me queixo, é apenas a realidade. O que mais me apraz, é que tem dado resultados maravilhosos. Foi assim que conheci os companheiros maravilhosos do Palavrarte, já pude privar contigo Luís, com o Cláudio Aguiar. Outros fazedores de literatura  pelo mundo.
Pessoas que visitam o site têm endereçado palavras tão carinhosas e isso é espectacular. Muitas pessoas não conhecem a literatura moçambicana, e confessam que a partir do Maderazinco, dá para cheirar alguma coisa, por vezes estudantes visitam o site e pedem variadas informações. Isso me faz feliz.

- No meio da nossa conversa você me falou muito da literatura, da música e do teatro brasileiro, e, também, da preocupação  de uma outra imagem que chega daqui em Moçambique. Como é que o Brasil chega até você, que impressão você levou do Brasil?

Brasil não conhece Moçambique, pois só lá chega quando há catástrofes, e grande parte de brasileiros com quem falei pensa que África é um país, quanto mais Moçambique! confesso fiquei chocado... e são pessoas que meia volta dizem, eu sou africano! Mas a nós o Brasil chega das telenovelas, que são vistas desde 85. É por isso que ouvi uma estudiosa portuguesa um dia dizer que "neste momento teme mais o imperialismo cultural brasileiro" mais por via da televisão, a telenovela. Vais hoje aos países que falam português, Portugal também, vais encontrar influências brasileiras na linguagem quotidiana. E isto também reflecte-se na música, só chega a brega. Mas pessoas bem informadas, cultas, conhecem um pouco mais do Brasil, mas melhor mesmo é indo... a literatura brasileira tem influenciado bastantes autores moçambicanos, sem sombras de dúvida. A música também, veja que eu, por exemplo, escrevi o conto Jorogina e o Mar, inspirado na poesia de José Craveirinha e também nas músicas do Chico Buarque e a eles dedico: a sensibilidade, a forma genial como o Chico trata as prostitutas na sua música.
Adorei o Nordeste, o grande movimento cultural que se faz sentir, as comidas, meu deus. Trago comigo uma imagem muito boa do Brasil, a força que vocês fazedores de arte têm, as grandes iniciativas que pude testemunhar, o grande movimento que se faz para o resgate das identidades culturais, (com algum (e contra o) preconceito) principalmente a africana, apesar de algumas vezes me parecer que querem ser mais africanos que os próprios africanos, a euforia é notável, e acho que é movido pela perda das raízes, o que se tenta buscar agora. E pensam que nós africanos também temos o mesmo problema, por exemplo a luta negra; os cenários são diferentes. Mas muitas pessoas esquecem-se que África também sofre as suas transformações, é a urbanização, globalização, essas coisas que afectam todas culturas.

- E os seus projetos literários e teatrais?

Neste momento ando a escrever os meus continhos e poeminhas, devagarinho, o compromisso é pessoal. Ando a estudar a escrita do romance, depois de nos últimos 7 anos ter estudado o conto. Quem sabe mais 5 anos escrevo um. Mas uma das coisas que eu trouxe do Brasil, foi a paixão pela escrita para crianças, ando a escrever poemas e contos para crianças também - "o semáforo / é um camaleão avariado / um mau aluno do arco-íris / anda a decorar as cores / verde amarelo vermelho / vermelho verde amarelo amarelo vermelho verde." Adoro, é tão prazeroso, porque sou eu, a minha infância, a minha criança... E vou tentar fazer com que a revista Maderazinco seja impresso, para que seja distribuído por aqui. No teatro a vida continua, vamos fazendo as nossas peças, temo agendados mais 3 espectáculos para este ano, e ando a pensar em fazer o meu primeiro monólogo, ou então encenação de uma peça. Pois estas duas coisas são os desafios seguintes para mim como actor.

- Encerrando, deixa uma palavra final para os que prestigiam o Palavrarte.

Eu conheci o Palavrarte através de uma amiga que mo aconselhou, eu também já o fiz chegar a várias outras pessoas. É um canto maravilhoso, onde o encontro com o outro é lúdico. E identifico-me bastante com esta revista, o facto de poetas, ficcionistas criarem o seu próprio espaço, fazerem-se conhecer em outras paragens, comunicando, e é exactamente o que estamos a fazer neste momento, o intercâmbio que não espera. Bem haja Palavrarte!

15-07-2005

Sobre Tomás Antônio Gonzaga*

PREFÁCIO
Alberto da Costa e Silva

A primeira imagem que guardei de Tomás Antônio Gonzaga foi a de um jovem de perfil, tristonhamente belo, os longos cabelos ondulados a caírem sobre os ombros, a escrever versos no cárcere. O quadro é de João Maximiano Mafra, e os traços do poeta, inteiramente imaginados. Quando preso, provavelmente não era assim, nem tampouco, talvez, um senhor de amplo ventre, a disfarçar o começo da calvície. De cada uma das numerosíssimas feições com que se reconheceu, a olhar-se, ao longo dos anos, nos espelhos, e que mostrou ao afeto, à simpatia, à indiferença, ao aborrecimento, à irritação e à hostilidade de seus contemporâneos, não podia ficar memória, a não ser que algum retrato nos preservasse uma delas, antes que se findasse no momento.

É possível que se visse como, a partir de seus poemas, o imaginou o artista e talvez soubesse, já no exílio, que seus versos eram o que de melhor sobrava de sua biografia, uma biografia a que não faltava a infâmia de haver participado de uma conspiração contra a Coroa.

Adelto Gonçalves não nos redesenha o retrato que não temos. Mas, de certa forma, refaz a imagem que intimamente cada um de nós foi formando do poeta, ao recontar, da perspectiva que lhe deu a leitura rigorosa dos documentos (muitos deles examinados pela primeira vez), a história de Gonzaga, das Marílias que amou ou supôs amar e os poemas que escreveu.

Ao fazê-lo, foi reconstituindo e, portanto, reinventando, como se fosse Frans Hals a pintar os seus grupos de guardas cívicos de Haarlem, não só a comunidade dos conjurados mineiros, mas também Vila Rica, o Brasil e o império de que era parte. Nos grandes quadros coletivos que se sucedem neste livro, nem uma só das figuras aparece, contudo, imóvel, e a maioria está quase sempre a mudar de posição, pobremente humana, tristemente débil nas tentativas de dar realidade às ambições pequeninas e a um grande sonho.

Esta personagem procura a sombra; aquela disfarça um riso maroto; e aquela outra trapaceia sem rebuço. Não falta sequer um iluminado de voz alta e franca, nem quem sempre se atrase, por indeciso ou covarde. Alguns não chegam a anti-heróis, mas quase todos deviam pedir desculpas ao futuro. Adelto Gonçalves não os castiga nem os veste de piedade; mostra-os como lhe parece que foram, enredados na fantasia, na inveja, no engodo, na suspeita mútua, na intriga, na ânsia de enricar, no gosto do mando e das gloríolas, na prevaricação, no peculato e na rapina. Despidos da aura da História, aparecem como gente de seu tempo e de sempre. Desamparados ou esperançosos. Contraditórios. Exuberantes. Amargos. Ofendidos pela pobreza do dia-a-dia ou visionários. Muito menores do que, já os sabendo frágeis, os julgávamos.

Tinham o ouro por húmus. Não ignoravam que era matéria podre, mas esperavam que regenerasse as suas vidas, pois, embora se sentissem americanos brasileiros, continuavam a perseguir o sonho da riqueza rápida, pelo achamento do ouro, da prata e das pedras preciosas – o sonho que habitava o espírito de cada descendente daqueles europeus que a tinham ido buscar, primeiro, na Índia e na pimenta e, depois, no Brasil e no açúcar, em Angola e no escravo. Não nega Adelto Gonçalves que, além de quererem soltar-se das exações da Metrópole, desejavam os inconfidentes a independência e a liberdade. No que parecia o isolamento das montanhas mineiras, três ou quatro deles estavam, aliás, em dia com o pensamento de seu tempo. Aspiravam a continuar no Brasil o processo de libertação do continente que os norte-americanos haviam iniciado havia pouco mais de 20 anos. E sua conjura – e disto às vezes nos esquecemos – antecedeu à Revolução Francesa.

Estavam, ainda que não o soubessem, na vanguarda do século, mas não incluíram nas suas intenções revolucionárias a abolição da escravatura, nisto acompanhando também os próceres que fizeram a independência dos Estados Unidos: nem George Washington nem Thomas Jefferson pensaram em libertar os seus escravos. E não há como esquecer que o próprio Tiradentes possuía quatro negros. Adelto Gonçalves desfaz, porém, a lenda de um Tomás Antônio Gonzaga envolvido com o mercadejo de alma e corpos em Moçambique.

E nos conta como a um outro contemporâneo – que, embora participante das conspirações pela independência, escapou da rede repressora lusitana – foi reservado o destino de tornar-se um dos grandes traficantes negreiros da Contra-Costa. É possível que não passasse pela mente de Eleutério José Delfim que o comércio a que se entregara contrariava inteiramente as suas convicções de republicano, liberal e maçom, pois, ao que parece, a liberdade, a igualdade e a fraternidade não incluíam os africanos. Não deve, por sinal, ter sido ele uma exceção, ainda estando por estudar-se a participação de maços e afrancesados no tráfico negreiro até as vésperas de sua extinção.

Talvez não venhamos a saber jamais, por exemplo, se aquele Domingos José Martins, que foi um dos maiores mercadores de escravos da África Atlântica, herdou, juntamente com o nome, algumas das idéias de seu pai, fuzilado pelos portugueses, por haver sido um dos cabeças da Revolução Pernambucana de 1817.

Uma das boas surpresas deste livro é a reconstrução dos dias moçambicanos de Tomás Antônio Gonzaga. Como tantos outros degredados políticos brasileiros, o poeta seria prontamente admitido na vida local, em funções de responsabilidade. Faltavam pessoas instruídas nas colônias de um Portugal pequeno, pouco povoado e pobre para as exigências de seu enorme império. Por isso, Adelto Gonçalves pode mostrar-nos o poeta, novamente servidor da justiça, a olhar da janela de um prédio do governo as ruas poeirentas do exílio, a acostumar-se a ser novo meio e a emaranhar-se em suas maledicências, animosidades, discórdias e ressentimentos.

Moçambique era em tudo muitíssimo mais magro do que a Vila Rica de onde Gonzaga fora retirado, a Vila Rica que Adelto Gonçalves também traz da História para os nossos olhos, em páginas em que se alternam a descrição contida e o relato afetuoso, o sarcasmo e a comiseração, o entusiasmo e a elegia. Sucedem-se ou se juntam nas ruas e salas da cidade mineira as personagens que ajudariam a entretecer o destino de Gonzaga.

Entram e saem pelas suas portas não só o alferes Joaquim José da Silva Xavier, a pregar idéias nele fortalecidas por José Álvares Maciel, mas também os governadores dom Rodrigo José de Meneses, dom Luís da Cunha Meneses e o visconde de Barbacena, os poetas Cláudio Manuel da Costa e Alvarenga Peixoto, a mulher deste. Bárbara Eliodora, o cônego Luís Vieira da Silva, os padres Carlos Correia de Toledo e Melo e José da Silva de Oliveira Rolim, o tenente-coronel Francisco de Paula Freire de Andrade e o coronel Joaquim Silvério dos Reis. As musas de Gonzaga, entre as quais Maria Dorotéia Joaquina de Seixas, aparecem nas varandas, espreguiçam-se nas redes ou se abanam com leques nas festas do palácio.

Eis que esta obra não é apenas uma nova biografia de Tomás Antônio Gonzaga. É a primeira grande biografia do poeta. Nela, Adelto Gonçalves amplia, completa e retifica as páginas iluminadoras que escreveu, há mais de 57 anos, Rodrigues Lapa. Mas Adelto não se restringe a essa tarefa já por demais importante para os que sabem que Marília de Dirceu é a coleção de poemas líricos mais popular da literatura de língua portuguesa, com um número de edições só superado por Os Lusíadas, conforme nos recordou Manuel Bandeira. Adelto entrega-nos também um instigante ensaio de história social das Minas Gerais e do Moçambique da segunda metade do século XVIII.

Haverá quem estranhe estas ou aquelas conclusões do livro, as considere afoitas, tímidas, exorbitantes ou exageradas e com elas não concorde. Para opor-se, porém, às teses de Adelto Gonçalves e com ele abrir polêmica – ainda que aquele tipo de debate que o leitor pode manter silenciosamente com a página escrita --, terá, para confirmar a interpretação correta dos documentos que as abonam, de reler Gonzaga, um poeta do Iluminismo, nota de pé de página por nota de pé de página. Pois, se este é um livro com o gosto de um jornalista pelo ineditismo e pela surpresa, assenta-se na aplicação e no rigor de um scholar.

Rio de Janeiro, 1998.
________________

Alberto da Costa e Silva, ex-embaixador do Brasil em Portugal, Nigéria, Colômbia e Paraguai e presidente da Academia Brasileira de Letras em 2002-2003, é autor de A enxada e a lança: a África antes dos portugueses, 1992, A manilha e o libambo: a África e a escravidão, de 1500 a 1700, 2002, Um rio chamado Atlântico, 2003, Poemas Reunidos, 2000, Espelho do Príncipe, 1994, e O pardal na janela, 2002, entre outros.

__________________
* Prefácio de Alberto da Costa e Silva escrito para o livro "Gonzaga, um Poeta do Iluminismo" (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), de Adelto Gonçalves, e que consta das págs. 21 a 24 do livro "Das mãos do oleiro" (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2005), que acaba de chegar às livrarias

Adelto Gonçalves

13-07-2005

Pedido de contribuições para a revista Lusotopie

A revista Lusotopie. Recherches politiques sur les espaces issus de l’histoire et de la colonisation portugaises procura, para os seus dois números do ano de 2006, artigos sobre questões contemporâneas e acontecimentos políticos recentes nos países de língua portuguesa, ou interessando aos países de língua portuguesa.

Os artigos serão submetidos à avaliação e podem ser em francês, português, ou inglês; excepcionalmente, também numa outra língua de alfabeto latino.

Entre os temas que interessam à revista, podemos citar :
– a derrota da direita portuguesa e o contexto europeu
– as eleições gerais na Guiné-Bissau
– a terceira vitória da Frelimo em Moçambique : estabilidade política ou marginalização maciça ?
– Angola na paz, Angola na miséria?
– Lula I a caminho de Lula II?
– o PT na governação [gouvernance] ?
– Lula face ao projecto ZLEA (ALCA)
– Galiza sem Fraga
– Portugal, Angola e Brasil face à guerra no Iraque (análise comparativa)
– Portugal, Espanha, França e o referendo impossível de encontrar (a constituição europeia)
– Cabo Verde na União Europeia?
– etc.

Qualquer outro tema relativo a questões contemporâneas pode ser apresentado. Os autores ficam desde já informados de que a sua autorização para serem publicados na revista é igualmente válida para a colocação dos respectivos artigos em fila de espera. Atenção: os prazos são muito curtos! Os artigos devem chegar à secretaria da redacção durante o mês de Agosto ou, o mais tardar, no início de Setembro de 2005 para o primeiro número de 2006 (a sair em Abril de 2006); em Novembro, para o segundo número (a sair em Novembro de 2006). As propostas de artigos devem ser enviadas exclusivamente a Brigitte Lachartre : <lachartre.b@wanadoo.fr>. É obrigatório que os artigos venham acompanhados de um resumo de cerca de quinze linhas em estilo impessoal (esse resumo será publicado nas três línguas).

* * *
Para conhecer melhor Lusotopie, pode visitar a página da revista na Internet (http://www.lusotopie.sciencespobordeaux.fr/).

Lusotopie é a partir de agora publicada por Brill (Leiden), mas a orientação científica da revista não mudou. O volume 2004 (último volume publicado por Karthala, Paris) contém um dossier sobre “Médias, identidades, poder” (nas bancas em Setembro de 2005). O primeiro volume a publicar por Brill (Novembro de 2005) contém um dossier sobre « Genre et rapports sociaux dans les espaces lusophones / Gênero e relações sociais nos espaços lusófonos / Gendered social relationships in Portuguese-speaking spaces ».

28 de Junho de 2005

ENCONTRO DE ESCRITORES

Integrado no FESTIVAL ÁFRICA – Festas de Lisboa

2005, a

EGEAC e a livraria Mabooki – Livros e Mais, Lda. tem o prazer de a(o) convidar para:

"O TIGRE NÃO PRECISA DEMONSTRAR A SUA TIGREZA" (Wole Soyinka)

ENCONTRO DE ESCRITORES

Com a participação de: Luís Carlos Patraquim, Arlindo Barbeitos, Maria Alexandra Dáskalos, Luís Hopffer de Almada e Bahassan Adamodjy. Moderador: Pedro Rosa Mendes

DIA 20 DE JULHO ÀS 17H00 NO TEATRO S. LUIZ. - Jardim de Inverno

Rua António Maria Cardoso, 54 (Chiado)

(pedimos o favor de confirmar a sua presença neste evento para o telefone: 213422441 ou telemóvel: 933463952)

10-07-2005

«O Jardim de Outro Homem»

É a terceira longa-metragem e a maior produção cinematográfica moçambicana. O filme de ficção «O Jardim de Outro Homem», do realizador Sol de Carvalho, começa a ser rodado este mês em Maputo, anunciou hoje a produtora.

Segundo um comunicado de imprensa da produtora moçambicana Promarte, a película foi orçada em 850 000 euros.
O enredo baseia-se na história de uma jovem que vive num bairro suburbano de Maputo, que se vê confrontada com a chantagem do professor de Biologia e com a oposição da família, para realizar o sonho de fazer o curso de Medicina.
O filme está a ser financiado pela ICAM (Instituto do Cinema, Audiovisual e Multimédia) de Portugal, Fond Sud e ADC Sud e Amiens de França, União Europeia, Agência Suíça da Cooperação, Global Initiative dos Estados Unidos da América, Festival de Gutemburgo da Suécia e pelo Conselho Nacional do Combate à Sida de Moçambique.
Na mesma nota de imprensa, Sol de Carvalho lamenta a «falta de apoio institucional» do Governo moçambicano, sublinhando tratar-se do filme mais caro da história do cinema do país.
«Sendo o filme mais caro da história do cinema moçambicano, é necessário, contudo, salientar que a finalização do filme em película implica custos laboratoriais elevados. Por outro lado, o filme passa-se em vários locais o que elevou significativamente os custos, além da necessidade logística que é bastante grande», sublinhou.
«O Jardim de Outro Homem» é o terceiro filme de ficção do cineasta realizado este ano em Moçambique, que lançou igualmente uma curta-metragem intitulada «A Janela» e «Terra Sonâmbula», este último baseado no romance do escritor moçambicano Mia Couto.
«O Jardim de Outro Homem» é a terceira longa-metragem na história cinematográfica do país, depois da rodagem das películas «O Tempo dos Leopardos» e «O Vento Sopra do Norte», na década de 80.
8 Julho 2005

04-07-2005

LIVROS E EDITORAS

Notas de rodapé
Ungulani Ba Ka Khosa
Esta é para o Machado da Graça. Em declaração recente a um jornal da praça e outro estrangeiro(português), Machado disse que em Moçambique pouco se lê pelo simples facto de sermos poucos no traquejo da língua portuguesa. E avançou dizendo que o livro é caro e que a bolsa do moçambicano pouco chega para comprar um livro que é editado em pouco menos de mil exemplares. De que, e numa primeira leitura, tomando em conta, em termos maioritários, a portuguesa língua não está para todos. Mas esta razão não foi bem explicitada, pelo simples facto do Machado não ter dito que em Moçambique não se fala e não se escreve, em dimensão maior, a língua de Camões pelo facto de ela não se ter expandido à medida que todos queremos que ela seja entendida: o português como língua da Unidade Nacional. Esse objectivo não alcançado deve-se, em muito, caro Machado, a não proliferação do livro pelo país real. E a não disseminação do livro tem a ver com a inexistência de
distribuidoras críveis. Em termos estatísticos podemos, e estou certo disso, editar um livro com mais de dez mil exemplares! Há leitores para tal. As razões para que tal não aconteça não se prendem ao facto do português ser uma língua que veio de fora do nosso universo de pretos falantes do bantu
(nas suas variantes).
Pelo país inteiro, caro Machado, temos mais de cinco mil escolas. Se em cada escola houver uma biblioteca com cinco exemplares de cada edição, quantos livros teremos à disposição do moçambicano aprendiz de língua segunda? E a que preço estaria o livro para a diminuta bolsa dos nossos conterrâneos?
Estou em crer, caro Machado, que o facto de sermos Homens de opinião, não nos leva a passarmos por análises simplistas como a que o senhor teceu.
VERTICAL - 04.07.2005

Morte de Carlos Chongo faz vítimas!

HOSPITAL CENTRAL DE MAPUTO

Eliseu Sueia, sociólogo, foi destituído, ontem, como porta-voz do Hospital Central de Maputo, o maior de Moçambique, presumindo-se que seja vítima do seu próprio pronunciamento público, que apontou o governo moçambicano como sendo culpado pela morte, na última sexta-feira, à noite, do músico e compositor Carlos Chongo.

No último sábado, Eliseu Sueia, em contacto com a STV, canal de televisão privado, no país, disse que se o governo moçambicano tivesse intervido, a tempo, a morte de Carlos Chongo ter-se-ia evitado.

Refira-se que, aquele músico e compositor, não recebeu tratamento a tempo de modo a remover o tumor maligno que acabou sendo uma das causas da sua morte. Nos finais do ano passado, foi avançado que para a remoção do tumor maligno, eram necessários 35 mil randes, porque já se exigia a quimioterapia, um tratamento que só podia ser feito na vizinha África do Sul. O valor não foi conseguido de imediato, e à medida que o tempo passava, a doença ia desgastando Carlos Chongo, e os valores foram subindo até às centenas de milhares de randes, o que não foi possível, apesar dos esforços dos músicos e Sociedade Civil, no geral. O governo, pelo que se sabe, embora não obrigado, não teve uma contribuição visível no caso.

Em contacto, ontem, com o IMPARCIAL, Sueia confirmou que já não era mais porta-voz do maior hospital do país, e que tal medida lhe teria sido comunicada pelo novo director-geral, António Cândido, que terá ficado surpreendido com o seu pronunciamento na comunicação social sobre a morte de Carlos Chongo.

«Não há nada de ilegal - disse o sociólogo - é uma questão de confiança. Apenas cessei funções como porta-voz, cargo de confiança, mas continuo funcionário do Estado», sublinhou.

Sueia disse, por outro lado, ter ficado aliviado com a medida, porque, nos últimos tempos, se sentia «pressionado», para além do «clima de tensão» que estaria a reinar no Hospital Central, que dificultava o Carlos Chongo foi o líder de uma banda musical (uma das mais populares em Moçambique pós Independência, devido à intervenção social das suas composições) que ele criou e liderou desde a década 70, onde, também, se salienta o nome da cantora e bailarina, Zaida Chongo, sua esposa, falecida no ano passado, vítima de doença.

Francisco Cândido é o líder do novo elenco do Hospital Central de Maputo, indicado por Ivo Garrido, ministro de saúde do governo (de Armando Guebuza) que aposta no combate ao "deixa-andar", que, apesar disso, o tal executivo não conseguiu evitar passar por cima da lei, nas suas nomeações, que acabaram ferindo o diploma ministerial nº 40/2004, de 18 de Fevereiro, que estatui a necessidade de um concurso público para indicação do pessoal de direcção da maior unidade hospitalar do país.

JAQUES FELISBERTO - IMPARCIAL – 05.07.2005

P:S.: A minha homenagem a Carlos Chongo

http://www.macua.org/mp3/sibo.html

Fernando Gil

03-07-2005

Primeiro documento em língua portuguesa será apresentado sábado

Pactoirmos Lisboa, 01 Jul (Lusa) - Aquele que é considerado o primeiro documento escrito em língua portuguesa, intitulado "Pacto de Gomes Pais e Ramiro Pais", será apresentado sábado num congresso de História em Vila Nova de Famalicão pelo historiador José António Souto.

O documento foi assinado por dois irmãos na freguesia de Arnoso Santa Maria, em meados do século XIII, e, segundo o catedrático espanhol José António Souto, é "o primeiro texto escrito em galaico- português de que há conhecimento".

O documento é apresentado sábado no âmbito do congresso Vila Nova de Famalicão - Terra com História que começa hoje naquela cidade no âmbito das comemorações do oitavo centenário da Carta de Foral doada por pelo Rei Sancho I, os 170 anos da fundação do concelho e os 20 anos de elevação a cidade.

O documento deverá integrar a colecção "Oito séculos", editada pela Quási Editores, como o apoio da Câmara famalicense, num volume onde a sua transcrição será acompanhada por um texto explicativo do catedrático da Universidade de Santiago de Compostela, José António Souto.

O congresso histórico tem lugar no Centro de Estudos Camilianos, em São Miguel de Seide, e conta com a presença, entre outros, do professor José Hermano Saraiva, que falará sobre "Famalicão Terra com História".

Para além de Hermano Saraiva, participam também no congresso o professor Armando Coelho, da Universidade do Porto que falará sobre as origens do concelho desde o neolítico à romanização, e o professor José Viriato Capela, da Universidade do Minho (UM), que irá pronunciar- se acerca da formação do moderno concelho famalicense.

Por seu lado, o professor Lopes Cordeiro, também da UM, irá debater o período entre 1926 e 1947, com o Estado Novo como pano de fundo.

Durante os dois dias do congresso serão ainda abordados temas relacionados com o património artístico-religioso, numa comunicação do investigador Martins Vieira.

Os professores Américo António Lindeza e Sérgio Paulo de Sousa, da UM, irão referenciar as afinidades entre a literatura e o concelho, enquanto António da Costa Lopes falará da produção da poesia trovadoresca e medieval em terras famalicenses.

NL. - Lusa/Fim

01-07-2005

Filme de Ruy Guerra no Festival de Moscovo(Recordando)

PORTUGAL SA

"Portugal SA", filme de Ruy Guerra, foi seleccionado para o 26º Festival Internacional de Cinema de Moscovo, na Rússia, que arranca sexta-feira, revelou a produtora MGN Filmes.
O filme, produzido por Tino Navarro, integra a competição oficial do certame, ao lado de 16 outras longas-metragens, e assinala a única participação de uma produtora portuguesa no festival.
"Portugal SA", estreado em Portugal em Janeiro, é uma metáfora satírica sobre um país "onde tudo se compra e tudo se vende" e que dá a conhecer um outro lado da sociedade portuguesa e os bastidores da vida política nacional.
O elenco conta com as participações de Diogo Infante, Ana Bustorff, Cristina Câmara, Maria do Céu Guerra, Henrique Viana, Luís Madureira, João Vaz, João Reis e Cristina Carvalhal.
Ruy Guerra (1931), natural de Moçambique, está ligado desde há muitos anos ao cinema brasileiro, designadamente o Cinema Novo da década 1960, tendo realizado filmes como "Os Cafajestes" (1963), "Fábula da Bela Palomera" (1987), bem como "Ópera do Malandro" (1985) e "Estorvo" (2000), a partir de obras de Chico Buarque.

Também em 2000 realizou o telefilme "Monsanto", exibido na SIC.

JORNAL DE NOTÍCIAS - 15.06.2004

30-06-2005

ATÉ AMANHÃ CORAÇÃO

A opinião de: Luís Abel Cezerilo*

BREVÍSSIMAS PALAVRAS

“Com tais fragmentos foi que escorei minhas ruínas”. T. S. Eliot
“Herdar é ler o que nos é legado” Bennington

Como já diria Roland Barthes, em O rumor da língua “a linguagem literária excede sempre qualquer esquema descritivo, escapa sempre às malhas grosseiras de metalinguagem técnica”. De acordo Leila Perrone-Moisés, suas análises, as de Barthes, o conduziam a ver menos o que se encaixava nos modelos do que aquilo que os desmantelava.” (2004).
Ainda para Perrone-Moisés, o texto literário tomado por esse autor não foi dominado por necessidade de decifrá-lo, visto que foi o indomável que o seduziu e que provocou, em vez de uma simples grade de leitura do texto-objeto, a produção de um novo texto tão complexo e fascinante quanto aquele que lhe servira de pretexto. A tentativa de saber o que o texto literário significa revelou-se para Barthes como uma impossibilidade e um logro.
Contudo, o texto escrito ultrapassa o mero acto de reter o dito. A tensão que se estabelece é, portanto, entre o “dizer original” e a inevitável abertura que sempre leva em conta a alteridade – o outro– a quem esse dizer, afinal, se destina. Este não corresponde ao que chamaríamos de um “interlocutor originário”, como alguém que, tem diante de si a tarefa de compreender , imposta pelo próprio texto, pois, como diz Gadamer, “um texto não é um objecto dado mas uma fase na realização de um processo de entendimento”.
Assim é a poesia de Eduardo White. Por meio de sua escrita, defrontamo-nos com essa impossibilidade de que se queixava Barthes. A propósito, ele é enfático em relação a isso. Neste livro, White já adverte a respeito da dificuldade de compreender o poeta. Enfaticamente ele especula: Mas porque é que não me consigo fazer compreender? Não é atrevimento esta coisa do poeta pretender fazer-se compreender? É claro que é. (pag. 21).
Com essa advertência, temos a total segurança de que nunca vai haver tempo para a última palavra. White, assim como cada leitor(a), é a letra da palavra que nunca se completa. Ainda que a tarefa do(a) leitor(a) não deva ser a de interpretação da poesia whiteana, continua valendo a tarefa de assimilar o texto poético sem domesticá-lo, incorporá-lo sem neutralizá-lo.
White oxigena sua capacidade de escrita e investe em um temário que o persegue implacavelmente. Tomando as palavras de T. S. Eliot, – escritor exponencial da poesia inglesa –, “Dirás que estou a repetir/ Alguma coisa que antes já dissera. Tornarei a dizê-lo” –, testemunhamos no poeta uma repetição que não se confunde com o velho lustrado de novo. Ao repetir, White difere, conforme a lógica da repetição e diferença do filósofo Jacques Derrida. Portanto, ao repetir, inova. Num jogo de perguntas e respostas, Até amanhã coração entabula solilóquios e diálogos com o povo e com ele mesmo sobre a situação do país: Anda por aí o boato de que a população não foi votar nas eleições por que o governo deu tolerância de ponto. Mas têm o quê contra a população essa gente? Povo quando tem tolerância de ponto vai cumprir os seus deveres cívicos? Não! (pag. 4).
Jakobson já lembrara que a obra literária não é jamais original, ela participa de uma rede de relações entre ela mesma e as outras obras do mesmo autor, da mesma época, do mesmo género.
Sustentar a tese de que não existe obra original não significa dizer que ela seja destituída de inovação. Ao se inscrever em temas e universos já aludidos em obras anteriores, Eduardo White rompe com o estabelecido, apresenta novas formas de lidar com os mundos interno (pessoal, subjetivo) e externo (o país, os problemas sociais).
De um lado ele desvela as fraquezas do poeta que se confundem com as do humano: É que as pessoas pensam que quando se escreve poesia nós a devemos ser. Mas nem sempre é assim. Também somos os homens com as suas fraquezas e dúvidas, com os seus medos, com os seus mistérios. De modo que, é freqüente ela partir como é freqüente eu escrever-lhe em face e sobre isso. É a vida. Aliás é a minha vida, de outro, ele ironiza com o poder: Num País onde se rouba quase tudo, já nem tempo há para se roubar a poetas. E logo poetas, meu caro, e logo poetas roubados num país onde eles são mais pobres do que por natureza. (pags.40-. 41)

Ivan Junqueira, organizador da obra de T. S. Eliot, afirma que a medida de um poeta, pelo menos enquanto sujeito de pensamento, jamais poderá ser dada pela coerência ou a amplitude de sistemas filosóficos, morais, religiosos, políticos ou sociais sobre os quais estejam porventura apoiadas suas realizações artísticas, mas somente por aquilo que, dentro da estrutura específica do poema, expresse o equivalente emocional do pensamento. (2004: 5).
A escrita literária de Eduardo White, mesmo que se vincule a “função de socialização", no dizer de Kandjimbo (2002), assume veemente compromisso com a palavra, com inovações de linguagem que se exibem na materialidade do texto escrito, em sua textualidade.
E White pode ser visto por essa medida. Com um irónico exercício do estilo, ele expressa esse equivalente emocional do pensamento por meio da poética do fragmento. Com parágrafos iniciais aparentemente soltos, o poeta vai compondo gradativamente um texto único. Em muitas páginas descobrem-se frases intencionalmente autónomas, mas que se instituem em remissão a tantas outras que as antecederam: Mas o país não está bom. O País não está bom.(pag. 11)
Do ponto de vista estrutural, toda a poesia whiteana “caracteriza-se pela experiência da fragmentação, da multiplicidade descontínua de matrizes composicionais, do desenvolvimento assimétrico das partes isoladas, as quais se reúnem uma “espécie de todo”, isto é, no mosaico do organismo poemático maior”. (Junqueira, 2004: 18).
Inegavelmente, a sua obra tem como espinha dorsal poemas separados, fragmentados que vão se ordenando segundo uma sequência lógica que se enreda por meio de temas, personagens e cenários como a criança, o velho, o país, a natureza, o louco, a mulher, o amor, o próprio poeta, que pode ser cada um (a) de nós e vice-versa. Todos esses elementos comparecem em Até amanhã coração como dever de ofício, como fonte de inspiração. Todo(a) poeta tem seus (uas) fontes de inspiração e White se acerca da sua de forma visceral: O amor. Essa palavra tão intrínseca aos meus poemas (...). Por amor os meus versos respiram, acendem-se, levantam-se da tinta que os conteve. (pags. 76-77)
À guisa de introdução, White já se apóia em mais uma das suas fontes de inspiração, a criança: “Pouca gente sabe ser criança, pouca gente tem a coragem de descer à pequenez do aventureiro e frágil sonhador que ela é, à indimensionável pureza que representa. Uma criança não é propriamente um anjo, mas as suas asas”.
Essa constatação do poeta oferece elementos que desenham o universo sobre o qual ele se movimenta.
Para a criança, o quotidiano não é fonte de monotonia. É fonte permanente de espanto e, portanto, de novidade. O espanto da criança, para o adulto, corresponde a uma falta de saber sobre determinada coisa. Na verdade, considera o psicanalista Didier-Weill, “o olhar espantado da criança é testemunho de que ela vê algo que o adulto cessou de ver”. (1997: 26).
Picasso costumava dizer em entrevistas que sua bússola era a tentativa de reencontrar o olhar que tinha sido dele aos dois anos. A inocência da criança serve de motor para mudanças, num exercício infindável de criatividade, porque resistente ao pronto e acabado.
É assim, como uma criança, que White comporta-se. Ao constatar as assimetrias sociais do país, expressas, por exemplo, na dicotomia desenvolvimento e miséria humana . White não se cansa de inventar, de apostar no novo, de voar, de sonhar, de se lançar: Então é deste modo que te afirmo: Agora beijo-te e esse beijo é a bandeira com que visto a minha cidadania. O de moçambicano sonhando-se com a outra liberdade que tarda, a do direito da liberdade de beijar-te num país qualquer, com dinheiro no bolso, a pensarmos felizes na nossa viagem de regresso (...). (pag.33).
A mulher amada é um dos sustentáculos, outra fonte de inspiração para os seus lampejos de esperança. Do lugar introspectivo em que vê o mundo, o quarto, o espaço subjetivo, White enamora e admira Guta, que o faz ver o mundo a partir de tons cromáticos. Do azul (símbolo de beleza, de alegria, de calmaria) ao cinza (sinal de tristeza, fealdade, amargura), White se orienta de acordo com os tons de cada momento vividos ao lado da mulher: a Guta veste-se e a casa fica mais azul ainda. Cheia de estrelas espalhadas pelo chão. Está bonito o Mundo, está tranquilo e mágico como uma mulher que se veste. Respiro o poeta na cor achocolatada da Guta. Aveludada mulher que me atura. (pag.34)
Atravessando pelos labirintos da linguagem, Eduardo White atravessa o país, o seu mundo interno, as quedas subjetivas inevitáveis. Interpela o país, o poder. Até Deus é espreitado pela cortante palavra do poeta. Ele não se resigna com o sofrimento terreno à espera do paraíso celestial: É tão mórbido, assim, o futuro que nos está predestinado? Esta disciplina do horror e do sacrifício, do fogo e do solistício? É Tão cruel a dor que nos vaticinas, a miséria que nos reservaste? (pag. 67).
Esse conjunto de coisas forma o tecido da poesia de White neste Até amanhã coração. É mais um presente para o(a) leitor(a) que terá acesso a obra de um poeta que não deixa de ser criança, amante, eterno apaixonado pelo país e pelas mulheres. Com mestria do velho, as suas palavras, em cada empreendimento, ganham densidade e escapam a qualquer tentativa de enquadramento. O mistério nas letras, conforme diz Todorov, tem isto de atraente: torna-se mais espesso à medida que se tenta dissipá-lo (1970). E é assim com Eduardo White. Eis a beleza de mais um gesto deste poeta.

* Prefaciador do livro do escritor Eduardo White - até amanhã coração-  que hoje é lançado em Maputo
VERTICAL - 30.06.2005
Veja:

22-06-2005

Génese apocalíptica

Foto1_1 Pedro Muiambo*

No princípio deus criou o céu e a terra. Mas logo depois, respirando omnisciência, concluiu que o céu e a terra, contrariamente aos cérebros da maioria dos dirigentes partidários em Moçambique, não podiam permanecer vazios, era preciso preenchê-los com maravilhas. Então criou as estrelas, a cevada (matéria prima importante para o fabrico da cerveja), o pai da Quiyone e várias outras maravilhas.
Um enjoado dia, deus se cansou da sua criação, pois entendia que a mesma carecia de perfeição, principalmente em relação ao relevo, pois, porquanto se recordasse não fora sua ideia original que o Monte Quilimanjaro permanecesse vitaliciamente onde está.
Não, o plano era o de que, por volta do ano 1998, aquando das eleições municipais em Moçambique, aquele aglomerado de rochas voasse e viesse desabar sobre o
edifício onde funciona a CNE, soterrando todos os que lá ocupam posições de chefia.
- Vou destruir a Terra - decidiu o pai lá do céu.
Foi com tal propósito em mente que criou o homem, mas como precisasse garantir a loucura deste, criou também a mulher, dizendo: «Ela destruirá o homem e ambos
constituirão a tendência suicida da natureza».
Mas, no princípio deus era muito burro... Se ao menos tivesse acatado os conselhos de Sócrates, o grande filósofo, não teria cometido um lapso de tal gravidade que até custa a acreditar...o de criar um tipo de seres cujas almas comportavam a "areté", ou seja, a "virtude".
Ora, como todos sabemos, a "arete" socrática  significa exactamente isto: thkdgsakf gfd, o que para os leigos pode ser traduzido em "aquilo que se torna um ser bom e perfeito naquilo que é". Por exemplo, a "virtude" do cão: é de ser (aquilo que deve ser) um bom guarda e caçador; a da Lurdes Mutola: correr e correr mesmo que ninguém a esteja a perseguir; a do Baptista: beber vinho e esquecer o juízo no
porta-luvas do carro; e assim por diante. Todos virtuosos, as plantas e os animais, e até os malfadados homens, viviam em perfeita harmonia. Havia fartura e felicidade. O termo ug encontrado nas  escavações arqueológicas em Manyikeni, ecoando nas
cavernas, ilustra que os animais tinham, inclusivamente, o domínio da palavra, ou seja, eles proseavam com os homens e diziam coisas muito interessantes, mais interessantes pelo menos do que dizemos nós no Moçambiqueonline. Era perfeitamente normal ouvir um luze-cú (pirilampo) gritar: "ó leão, passe-me o papel higiénico!".
E deus disse: "Deste modo nunca conseguirei destruir o mundo. Tenho que criar uma espécie de anticristo".
E começou a cogitar como é que faria...
Passados alguns segundos, lançou para a terra uma fatia de maná celestial. Um porco que andava a passear pelo prado verdejante viu o maná, cheirou-o, gostou e
comeu. Resultado: foi assolado por uma dolorosa diarreia, de tal azar que foi obrigado a defecar ali mesmo na relva. Era um excremento castanho com alguns
tons amarelados. Estavam patentes os vestígios da última refeição do porco, isto é, mangas podres. Era um excremento tão mal cheiroso, mas nem por isso pior que o hálito da minha sogra. Era, acima de tudo, como diria o meu professor de psicologia: "um senhor cocó".
Todavia, aquele excremento era muito estranho: crescia a cada dia; era impermeável à erosão das chuvas e dos ventos; e inclusivamente, ninguém conseguia removê-lo do chão para o deitar mais adiante na floresta... Por causa disso, começou a girar em seu torno um rico anedotário popular. Contava-se por exemplo de um lavrador que, passeando pelo planalto, por pouco não o pisa. Fica-se por ali especado a olhar para aquele montinho de ex-comida... «Parecem fezes», desconfia.
«Pelo menos em termos de aspecto, parece fezes». Após o que, passa um dedo pelo montinho e cheira: «Tem cheiro de merda». Depois lambe o dedo vagarosamente e exclama: «Merda! Sabe a merda. É merda». E, aliviado, acrescenta: «Ainda bem que não pisei».
Entretanto, o excremento ia crescendo dia após dia.
Passado um mês, já tinha o tamanho do lenço do Iaacub Sibindi. Mais um mês e alguém jurou ter visto o namorado de Edite, a minha irmã, isto porque o excremento foi ganhando características humanas, embora continuasse a tresandar. Algum tempo ainda e... da porcaria se fez um homem. O fulano já balbuciava algumas palavras, como por exemplo: futuro melhor, boicotem as eleições, não aceitamos os resultados das eleições, reabilitarei Xipamanine, etc.
Então Deus esfregou as mãos e disse:
- Está feito: das fezes criei o homem que corromperá toda a humanidade. Faltar-lhe-á aquilo que um dia Sócrates, preocupado com o descalabro do mundo, chamará "enkrateia" ou seja "autodomínio", ou ainda, "o domínio da própria racionalidade sobre a própria animalidade". A destruição do mundo é uma questão de séculos.
Deus chamou então o anjo mais novo do céu e ordenou que ele escolhesse um nome para a sua nova criação, à qual, ele pessoalmente ou divinamente, costumava
chamar, "das fezes nascestes, às fezes tornarás".
O anjo-criança gritou maravilhado: "PASSA A CHAMAR-SE POLÍTICO".
E Deus viu que era muitíssimo bom.

*Escritor e ensaísta

16-06-2005

A Construção da Nação em África

A Construção da Nação em África
Pedro Borges Graça
2005
ISBN 9724024857
339 pags.

Envio em 24 horas

Preco S/IVA: € 19.05  PVP: € 20.00     4010$00

CONTEÚDO

A construção da nação em África resulta da interacção entre a herança africana e o legado colonial, entre os valores africanos e os valores europeus ou ocidentais, entre a tradição e a modernidade. E dessa interacção está a resultar a formação de um terceiro elemento, que não é o somatório dos outros dois mas sim algo de novo que comporta ambivalência cultural e cuja identidade se define mais facilmente pela alteridade no contexto internacional. Esta realidade pode ser observada no caso moçambicano, tanto nas massas como nas elites, tanto no trabalhador que emigra para a África do Sul como no diplomata que se confronta com os seus congéneres africanos anglófonos ou francófonos ou, até mesmo, apesar da afinidade linguística, no estudante moçambicano em Portugal face aos seus colegas guineenses ou angolanos. Mas, para todos os efeitos, a língua portuguesa é o cimento da construção da nação em África na área lusófona. www.almedina.net Prefácio Os temas da Nação e do Nacionalismo foram dos mais dominantes durante todo o período da descolonização, assumidos em planos diferentes pelas soberanias coloniais europeias e pêlos movimentos de libertação. As primeiras tinham apoio num conceito histórico da própria identidade, referência teórica num pensamento dividido entre a matriz sobretudo cultural de Renan e a matriz sobretudo étnica de Ficht, e apoio político nas formulações de Willson sobre a relação entre o Estado e a comunidade nacional; os segundos, usavam igual semântica para uma formulação ideológica cujo conteúdo mobilizador era o da submissão alienante a uma potência responsável pela igual condição dos habitantes do território. A França, para abandonar o Império em resultado da equação de forças, foi além do limite das capacidades na Argélia porque, como disse Mitterand, esta tinha sido, era, e seria a França. Quando Portugal, na vigência da Constituição de 1933, afirmava a unidade nacional de todo o território, apoiava-se na suposta unidade da diáspora do povoamento, e nas fidelidades das restantes etnias às quais uma corrente doutrinária, com assento universitário, não reconhecia nem a nacionalidade nem a cidadania. A nação, de acordo com o conceito que finalmente foi consagrado pela orientação de Willson, no fim da guerra de 1914-1918, era entendida como uma comunidade na identificação sociológica, e avaliada como a expressão mais sólida da solidariedade que orienta a decisão de suportar em comum as adversidades, os desafios, os projectos, mantendo-se assim na sucessão das gerações, e ambicionando a suficiência de meios, recursos e determinação para gerir politicamente, com independência, os seus destinos. Na conclusão de Lord Acton, de regra foi o Estado que deu origem à Nação, e não a Nação que antecedeu o Estado, reservando assim uma intervenção determinante para a variável do poder político e da relação duradoira entre a dependência da população de uma sede do poder, e o seu envolvimento longo num projecto estratégico de governo. Isto com a necessária reserva de reconhecer que a condição comum de submissão a um poder alienígena também determinou a decisão de um poder rebelde lutar pela libertação, independentemente de a população ter atingido a definição de solidariedade abrangente do modelo nacional. Por outro lado, é de considerar também que a realidade nacional não obriga a que a decisão para a escolha do modelo de governo recuse soluções de soberanias cooperativas, de serviço, federativas, ou unitárias. A questão transversal é a de salvaguardar a nação, sempre que este patamar da evolução foi atingido. Esta importância da nação, frequentemente acrescida de um projecto nacionalista que tenderá para reprimir internamente discórdias ou dissidências, e para animar expansionismos agressores de outras comunidades com apelo a uma ideologia de justificação, originou um trânsito semântico das palavras para as ideologias de libertação dos territórios coloniais. Tais movimentos declaravam-se nacionalistas, e chegavam ao poder acrescentando frequentemente a convicção democrática, umas vezes assumindo formalmente o modelo das democracias ocidentais, outras vezes o modelo das democracias populares. Este percurso de imagem cobriu a formação de Estados que governam um aglomerado de etnias longe de corresponder a uma comunidade nacional, e que são Estados autoritários também longe de qualquer modelo democrático, muito claramente longe dos ocidentais. O primeiro desvio consolidou-se com a aceitação do critério da própria ONU relativo às fronteiras geográficas, condicionando as independências pela definição arbitrária que as potências colonizadoras tinham estabelecido, e que os estatutos da OUA declararam definitivas. No que toca ao segundo desvio, talvez a primeira referência esteja no facto de que nenhuma das metrópoles colonizadoras, ainda que sendo democracias estabilizadas como eram a Inglaterra e a França, organizou qualquer regime de carácter democrático nas respectivas colónias. Quer o seu representante se chamasse vice-rei, governador, ou alto-comissário, era sempre de um poder indiviso que se tratava. Este modelo era o mais próximo das tradições locais, e os movimentos de libertação, sobretudo os que adoptaram a luta armada, foi a apropriação desse poder que tiveram como objectivo estratégico, um alvo apoiado na experiência da cadeia de comando do período dos combates. Ainda em casos como os de Leopold Senghor e Houphouet-Boigny, no Senegal e na Costa do Marfim, o poder foi vitalício não obstante a formulação constitucional e o passado de experiência de participação no poder governativo da França. Senghor teve a sabedoria de se retirar já na quarta idade, mas Boigny não evitou a triste degradação do exercício. O facto, dolorosamente sublinhado pela evolução da África do Sul até ao milagre do aparecimento de Mandela, é que a luta pela aquisição, manutenção, e exercício do poder, ancorado numa sede de apoio penosamente defendida, traduz o modelo dominante, com a referência à Nação e ao nacionalismo remetida para a definição ideológica formulada com ambígua tradução, e como projecto a realizar, não como referência a uma realidade existente. Enquanto manifestações de violência extrema vão pontuando o trajecto de numerosos regimes, é promissor que a literatura vá revelando ensaístas, contistas, romancistas, poetas, que proclamam a urgência da liberdade, apelando ao modelo democrático, de que a soberania colonial não deixou exemplo, como indutor pacífico da convergência do cosmopolitismo herdado para o modelo de comunidade talvez nacional. Um passo que inicia uma longa e acidentada caminhada, mas uma esperança que anima o trabalho de Pedro Graça, confiante no poder da palavra. Adriano Moreira Índice Capítulo I - Introdução Capítulo II - A Perspectiva Africanista Capítulo III - A Construção da Nação em África Capítulo IV - Estruturação da Cultura Moçambicana Capítulo V - Conclusão (Para a Compreensão da Construção da Nação em Moçambique)

14-06-2005

África, 30 anos depois

Livro Visão: África, 30 anos depois

Visao_africa
A Visão produziu um livro em comemoração dos 30 anos de independências, procurando entre outras coisas evidenciar as mudanças. Serão 240 páginas a publicar no próximo dia 16 de Junho.

Custará 14.90 euros e acompanha a revista. Nesta semana nas bancas, portanto.

Quando é que os portugueses chegaram a estes países? O que lá encontraram? Quais foram os principais momentos da sua História? Quem são as principais personagens? Quais são as principais riquezas de cada um deles? O que lá se produz? Quantas pessoas lá vivem? África, 30 anos depois faz o retrato dos países nos dias de hoje, reúne todos os dados estatísticos, apresenta os novos mapas e uma valiosíssima colecção de fotografias. Para além das reportagens, as crónicas de Cáceres Monteiro; Joaquim Letria; Edite Soeiro; José Silva Pinto; J. Plácido Júnior; Luís Almeida Martins; Pedro Vieira; Rodrigues da Silva. E ainda, os balanços de Adriano Moreira, Pezarat Correia e Vítor Crespo.

O PESO DAS MEDALHAS DE FRANK HOLLIS

A Mabooki – Livros e Mais, Lda tem o prazer de a(o) convidar para o lançamento do livro:

O PESO DAS MEDALHAS DE FRANK HOLLIS

de Eugénio Monteiro Ferreira

Mukixe, Produções Audiovisuais, Lda

Dia 16 de Junho, 5ª Feira, às 19h30

Rua João Pereira da Rosa, 8, 1200 – 236 Lisboa

(Bairro Alto, junto ao Conservatório de Música)

www.mabooki.com

“A ESQUERDA INTERNACIONAL DA LINGUAGEM E A DIREITA DAS MULTINACIONAIS – QUE ASSIM CUMPRE O SEU PAPEL – AO APOIAREM A LIBERTAÇÃO RÁCICA

EM SI MESMA E

O NACIONALISMO (FASCISTA OU DE BRANDOS COSTUMES)

EM DETRIMENTO DA INDEPENDÊNCIA

“BURGUESA” E “NEOCOLONIALISTA” NO ESPAÇO SOCIAL

ATIRAM, SEM MÁGOA, PARA O CAIXOTE DE LIXO DA HISTÓRIA, A CONSTRUÇÃO DE UM PAÍS E SÉCULOS DE TRANSIÇÃO VIOLENTA E DESUMANA, PARA O CAPITALISMO NA ÁFRICA AUSTRAL

E AJUDAM SIMULTANEAMENTE À RE-ORGANIZAÇÃO DE UMA DIREITA, RACISTA, SELVAGEM, ULTRALIBERAL OU NEO-SALAZARISTA, DE TEMPOS SUPOSTAMENTE JÁ PASSADOS, BLOQUEANDO POR MAIS ALGUMAS DÉCADAS A EMERGÊNCIA DUMA ESQUERDA FORTE E DETERMINADA,

NA ETERNA ANGOLA POTENCIALMENTE RICA E NA ACTUALMENTE DERROTADA PÁTRIA DE TODAS AS CORES DO ARCO-ÍRIS.” (Eugénio Monteiro Ferreira)

10-06-2005

SEITAS RELIGIOSAS COMUNISMO E MAÇONARIA EM ÁFRICA

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Adulcino_silva

Foi hoje lançado pelo autor, Adulcino Silva, jornalista e natural de Angola, junto ao Monumento dos Combatentes, o livro SEITAS RELIGIOSAS, COMUNISMO E MAÇONARIA EM ÁFRICA.

Um livro diferente que revela as verdades sobre os culpados do desastre africano. Quem financiava, utilizava e quais os objectivos das organizações religiosas em África?.

Quem corrompeu quem? Quem traiu? Quem forçou a "descolonização"? O que foram as "guerras por procuração"? Quais as investigações e as conclusões da PIDE sobre a luta de Portugal em África. Paulo VI e Portugal. A droga usada como arma de guerra.

Aqui encontrará as respostas e pormenores diversos que o surpreenderão.

NOTA: Edição do Autor - Contacto: Tel.: 351.917411432

08-06-2005

" A ESCRITA DE JOSÉ LUANDINO VIEIRA"

A Mabooki- Livros e Mais, Lda  e a Editorial Caminho 
tem o prazer de a (o) convidar para o encontro:

" A ESCRITA DE JOSÉ LUANDINO VIEIRA"

Participam, entre os outros:

Ondjaki . Antonio Tomas.  Luis Carlos Patraquim . Richard Zenith.

Dia 15 de Junho, 4ª Feira, às 18h30 

na livraria Mabooki – Livros e Mais,Lda
Rua João Pereira da Rosa, 8
1200-236 Lisboa

(junto ao conservatório de Música, Bairro Alto)

Telf.: 21 3422441

mabooki@yahoo.com / www.mabooki.com

07-06-2005

Prémio Instituto Camões para Conto e Banda Desenhada

O Instituto Camões em Moçambique institui um concurso anual denominado Prémio Instituto Camões para Conto e Banda Desenhada.

Este Prémio/Concurso é de âmbito nacional e está aberto a estudantes de Escolas Secundárias Gerais 2, do Ensino Médio, Técnico e Universitário.

Veja em

http://www.instituto-camoes.pt/destaques/premioic_mz.htm

04-06-2005

Patraquim, o poeta da lusofonia

Carlos_patraquim_1 Adelto Gonçalves*                  

            Escrever sobre a poesia de Luís Carlos Patraquim é mergulhar no processo que o sociólogo e antropólogo cubano Fernando Ortiz definiu, na década de 1940, como transculturação, que significa não apenas a aquisição de uma cultura distinta em que outra se perde ou fica desenraizada, como quer dizer o termo aculturação (do inglês acculturation), mas também todas as fases do processo transitivo de uma cultura para outra, com a conseqüente criação de novos fenômenos culturais.

Essa definição, que pode ser lida em Contrapunteo cubano del tabaco y el azúcar (Barcelona, Editorial Ariel, 1976), serviu de base para o ensaio “Nicolás Guillén: o itinerário de um poeta”, que publiquei na Revista Iberoamericana, da Universidade de Pittsburgh, Pensylvania, EUA, nº 153-153, julho-dezembro de 1990, pp.1171-1185, mas pode ajudar também a compreender a poesia não só de Patraquim como de outros poetas moçambicanos de sua geração, como Eduardo White, Nelson Saúte e outros, que avançaram pelas trilhas abertas por Luandino Vieira e José Craveirinha, a maioria sob uma certa influência dos brasileiros Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto.

            A princípio, pode-se imaginar que o processo transculturador na antiga África portuguesa não teve a influência de uma terceira cultura, a indígena, como a Cuba de Nicolás Guillén, com seus índios ciboneies e tainos, mas só quem desconhece a diversidade de nações que compõem o mundo africano pode se deixar levar por esse engano. Na poesia de Guillén, já não há um dialeto negro nem uma fonética diferente da do resto dos cubanos, mas os recursos estilíticos e as onomatopéias que utiliza, com certeza, foram os negros que transferiram para o espanhol falado em Cuba.

            A exemplo da poesia de Guillén, na de Patraquim, nascido em Lourenço Marques (atual Maputo), Moçambique, em 1953, de descendência portuguesa, pode-se surpreender a presença de vocábulos procedentes não só de línguas africanas, como o macua e o ronga, mas também do inglês e do africaner, como se vê em O osso côncavo e outros poemas, antologia que acaba de sair reunindo grande parte de poemas publicados anteriormente em Monção (1980), A inadiável viagem (1985), Vinte e tal formulações e uma elegia carnívora (1991), Mariscando luas (1992) e Lidemburgo Blues (1997).

            Por ter passado para a poesia esse processo transculturador vivido em África, Patraquim tornou-se, desde que apareceu no cenário cultural lusófono no começo da década de 1980, uma das vozes mais inovadoras da poesia moçambicana, afastando-se do tom triunfalista de caráter eminentemente ideológico que marcou a produção poética da fase pós-independência. Aliás, o triunfalismo e o engajamento político nunca serviram para enriquecer a poesia de ninguém, como mostra a fase populista de Ferreira Gullar na décadas de 50 e 60, por exemplo.

Por se colocar à distância da radicalização política, a  poesia de Patraquim veio contrastar “com a postura, muitas vezes, vitoriosa do discurso mimético e pleno, erguido da então recente independência política”, fazendo uma “escolha porventura difícil, subvertendo a monção favorável do slogan, da palavra de ordem e, diga-se também, o vazio editorial que, na altura, o primeiro livro do poeta veio preencher”, como diz no posfácio Ana Mafalda Leite, aliás, com conhecimento de causa porque testemunha desses acontecimentos. Co-autora com Patraquim e Roberto Chichorro de Mariscando luas, Ana Mafalda tem sido, por assim dizer, uma espécie de anjo protetor dos poetas moçambicanos da nova geração com suas análises percucientes e que muito tem ajudado a divulgar essa produção.

Diz Ana Mafalda que a escrita de Patraquim se enraíza nos múltiplos modernismos do século 20 e “é alimentada por uma força pictórica e simbólica e por uma rítmica que faz dos textos espaços de mediação reflexiva e onírica, em que o sentido se vislumbra e anuncia, refeito num movimento de recordações de leitura”. O que diz a crítica pode ser conferido com facilidade no poema “Muhípiti”, em homenagem à Ilha de Moçambique, pedaço de terra perdido no oceano Índico que teve a ventura de receber em épocas distintas três dos maiores cultores da língua portuguesa – Luís de Camões, Manuel Maria de Barbosa du Bocage e Tomás Antônio Gonzaga.

            

            É onde deponho todas as armas. Uma palmeira

                        harmonizando-nos o sonho. A sombra.

            Onde eu mesmo estou. Devagar e nu. Sobre

                        as ondas eternas. Onde nunca fui e os anjos

            brincam aos barcos com livros como mãos.

                        Onde comemos o acidulado último gomo

            das retóricas inúteis. É onde somos inúteis.

                        Puros objectos naturais. Uma palmeira

            de missangas com o sol. Cantando.

                        Onde na noite a Ilha recolhe todos os istmos

            e marulham as vozes. A estatuária nas verilhas.

                        Golfando. Maconde não petrificada (...).

            

            Neste poema, no qual estão presentes todos os elementos que formam a arte poética de Patraquim, pode-se perceber o olhar luso-africano de quem, tendo vivido até a juventude em Maputo, evoca a magia da Ilha de Moçambique, a primeira capital da possessões portuguesas da chamada contracosta africana, que conheceu de perto em várias oportunidades e à qual pretende ainda voltar outras vezes. Conheceu-a também da memória dos outros que viveram na Muipiti, ilha em macua, o dialeto do nação predominante no local. Por isso, trata de fazer homenagem a outros poetas que antes dele a cultuaram, como Rui Knopfli em “A Ilha de Próspero”. Aliás, quem conhece o poema de Knopfli descobre com certa facilidade as referências metalingüísticas que Patraquim faz ao poeta.

            É, porém, em “Lisabona”, nome antigo de Lisboa, que Patraquim deixa de ser só africano para se assumir como o poeta da lusofonia. Com ritmo preciso e regular, faz o percurso de onde tudo começou — ali onde a terra se acaba e o mar começa —,  desde o “mal cozinhado”, lupanar a que Camões freqüentou, vai às áfricas e américas para retornar ao Lumiar, pedaço africano de Lisboa agora no século 21, passando por Luanda, Maputo, Guiné, o Nordeste brasileiro e a “traição de Calabar”, recordando que tudo começou na ultramarina cidade, essa “Lisboa alvoroçada”.

                        (...)Ó camoniano fado, em  verdade rasga-me esses versos por aí, tenórios,

            e leva-nos, co´as pragas e massinguita das Ethiópias perdidas,

                        Ao mal-cozinhado, ao tempero finíssimo de oitavas e tercetos,

            À traição de Calabar, às areias onde se nasce,

                        Vulcânico; em verdade, Lisabona de Luanda e Maputo,

            E os nomes da Guiné: a algaraviada crioulando-te os frisos

                        de gurupés e ouro preto;

E limpa-me esse branco, tão sujo, ó ultramarina cidade,

Lisabona alvoroçada!

Poeta fino, às vezes hierático, Patraquim é um consumado artista do verso que sabe como pagar o seu mais íntimo tributo, evocando aqui e ali Whitman, Cesário Verde, Pessoa, Camões, Drummond, sem esquecer os luso-africanos que vieram antes dele como Rui Knopfli, David Mestre, José Craveirinha e outros.

Colaborador do jornal A Voz de Moçambique, refugiou-se na Suécia em 1973. Regressou ao país em janeiro de 1975, depois da independência, integrando os quadros do jornal A Tribuna. Membro do núcleo fundador da Agência de Informação de Moçambique e do Instituto Nacional de Cinema de 1977 a 1986 como roteirista/argumentista e redator do jornal cinematográfico Kuxa Kanema, foi criador e coordenador da Gazeta de Artes e Letras (1984-1986) da revista Tempo.

Desde 1986, reside em Lisboa e colabora na imprensa moçambicana e portuguesa, faz roteiros para cinema e escreve para teatro. Foi consultor para do programa Acontece, de Carlos Pinto Coelho, da Rádio e Televisão Portuguesa, (RTP) e é comentarista da Rádio Difusão Portuguesa (RDP)-África. Foi galardoado com o Prêmio Nacional de Poesia (Moçambique) em 1995. Merece muito mais.

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O OSSO CÔNCAVO E OUTROS POEMAS, de Luís Carlos Patraquim. Lisboa, Editorial Caminho, 191 págs., 2005. www.editorial-caminho.pt

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*Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br

Nota: Carlos Patraquim na foto

Setentrião é o primeiro volume de "Índicos Indícios"

Setentrio_capa1 Barcos de outrora num país do Índico
Jorge Heitor

Setentrião é o primeiro volume de "Índicos Indícios", um conjunto de estórias de "barcos encalhados onde a vida retoma aos poucos o seu curso normal" e de outras formas de navegação, em busca da verdade e do futuro escritos por João Paulo Borges Coelho. O autor, doutor em História Económica e Social pela Universidade de Bradford, no Reino Unido, que do Porto foi para Moçambique apenas com alguns meses, é um dos grandes cantores da gesta moçambicana, desde a linha do Rovuma até ao ancoradouro da Catembe ou à ilha da Inhaca.
Qual Fernão Lopes de uma nova pátria, ele entende que a literatura é um processo importante de se interpretar tudo aquilo que de há um século para cá se tem passado nas Quirimbas, em Sofala, em Santa Catarina e em outras partes do mais populoso dos países africanos de língua portuguesa.
O estertor de um mundo antigo, colonizado, e o despertar de um novo, designadamente aí pelos idos de 60, os tempos áureos de Mondlane e de Marcelino dos Santos, é-nos aqui recriado. São cinco os indícios, mas a estes se irão decerto juntar em breve outros, os de Meridião, para completar o quadro, de modo a que todos venhamos a conhecer devidamente as estórias das ilhas de Bazaruto, das terras de Gaza e do rio Incomati. "Estas estradas como espaços vazios que as crianças atravessam sem correr o perigo que as colha um carro" são alguns dos caminhos a palmilhar por quem queira conhecer verdadeiramente Moçambique.
O peixe seco, o feijão encarnado da Zambézia e os cabritos da Gorongosa são algumas das notas da imensa sinfonia que João Paulo tem vindo a compor, desde que em 2003 concluiu "As Duas Sombras do Rio" e em 2004 publicou "As Visitas do Dr. Valdez".
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Índicos Indícios I Setentrião
Autor: João Paulo Borges Coelho
Editora Caminho
214 págs., 11 euros

24-05-2005

Países seqüestrados pelos deuses

Adelto_gonalves1 RESENHA
Adelto Gonçalves


Nos países onde os partidos de esquerda chegaram ao poder, o fervor revolucionário tem sido sempre trocado pelo populismo e o capitalismo segue com sua força destrutiva e indestrutível. Em Moçambique, uma das mais pobres e martirizadas nações do mundo, depois 30 anos de guerra civil, não foi diferente. É o que se pode ver em O último voo do flamingo, romance do moçambicano Mia Couto, que aproveita mais uma parábola africana para contar as mazelas de um momento histórico de um país em que antigos ativistas de esquerda, agora agarrados ao poder como mariscos nas velhas fortalezas coloniais, empreendem o conhecido jogo pautado pelo favorecimento pessoal e pela indiferença do povo, a vítima de sempre.

A parábola, que inspirou o romance, o próprio romancista a descreveu no discurso em que agradeceu o Prêmio Mário António da Fundação Calouste, em Lisboa, a 12 de junho de 2001, lembrando que, no Sul de Moçambique, os flamingos, quando retornam de suas demoradas viagens, são vistos como eternos anunciadores de esperança. Diz o autor que, um dia, foi assaltado por uma terrível angústia: e se os flamingos não voltassem mais? Com certeza, também não mais voltaria a esperança.

Portanto, O último voo do flamingo fala do imenso rapto da esperança praticado pela ganância dos poderosos. E esses poderosos não são apenas aqueles muito conhecidos e visíveis, que costumam se reunir numa estação de esqui na Suíça, mas aqueles que se movem quase invisíveis nas próprias nações e enriquecem à custa de tudo e de todos, roubando dos cofres públicos o dinheiro que serviria para alimentar crianças famélicas.

Embora moçambicano de primeira geração, de pais portugueses, Antônio Emílio Leite Couto, Mia desde criança, carrega a alma negra e oriental de quem cresceu em meio a esse mundo miscegenado por negros, árabes, europeus e indianos. Foi jornalista a partir de 1974, quando tinha apenas 19 anos de idade e assumiu a direção da Agência de Informação de Moçambique. Em seguida, foi diretor do jornal Notícias de Maputo e da revista Tempo porque, num país onde tudo ainda estava por fazer, as pessoas assumiam cedo as responsabilidades na vida. Encontrou ainda tempo para estudar medicina e licenciar-se em biologia.

Num lugar em que persiste uma forte tradição de transmissão dos saberes essencialmente pela voz, Mia Couto logo encantou-se por esse mundo oral, que tem procurado passar para seus livros que já não são poucos. Descobriu que esse caminho era possível depois de ver como Guimarães Rosa retransmitia as vozes do sertão de Minas Gerais. Como Guimarães Rosa, tratou de inventar palavras e fazer trocadilhos, às vezes de mau gosto, como o título Mar me quer que deu a um livro de 1997 (Lisboa, Caminho), mas que, em razão da magia que perpassa a sua escrita, acabam ganhando outra dimensão.

Desta vez, em O último voo do flamingo, Mia Couto conta a história de um italiano, Massimo Risi, que, conhecendo mal o português, é designado pela Organização das Nações Unidas (ONU) para investigar fatos estranhos que estão ocorrendo com soldados das forças de paz: seus corpos desaparecem sem deixar vestígios, mas suas genitálias surgem sempre intactas, uma delas encontrada em plena via pública de Tizangara, imaginária cidadezinha do interior de Moçambique.

Os depoimentos de moradores e autoridades são sempre contraditórios, o que impede o representante da ONU de fazer um relatório minucioso, bem dentro do espírito cartesiano dos donos do mundo, que possa entregar a seu chefe em Nova York. Sem maiores conhecimentos do país, o italiano acaba sempre enredado nas misteriosas histórias contadas pelos moradores e envolvido nas tortuosas relações políticas locais.

Quem escreve o livro, porém, é um modesto funcionário de Tizingara, nomeado tradutor oficial pelo administrador Estevão Jonas, o protótipo do ex-revolucionário agora muito mais preocupado em manter o poder e disposto a fazer qualquer conchavo para não retroceder na carreira.

Guiado pelo tradutor, o estrangeiro começa as investigações sobre os soldados de capacetes azuis que explodiam sem explicação. E as soluções que aparecem são as mais engenhosas, como a convocação da prostituta Ana Deusqueira para analisar aquilo que, em tese, seria sua especialidade, na tentativa de descobrir a quem pertenceria um órgão sexual exposto na rua.

Não é só. O italiano ainda seria enredado por Temporina, que, como diz o seu nome, seria capaz de viver ludibriar o tempo, mulher de corpo exuberante e com feições de anciã. O sábio da história, porém, é o pescador Sulplício, pai do tradutor de Tizangara, que, a rigor, já não é deste mundo. Como se vê, é o realismo fantástico que norteia este livro.

O que Mia Couto faz é uma crítica corrosiva àqueles que, em outros tempos, esgoelavam-se num discurso em que condenavam todas as sujeiras dos poderosos, mas que no poder agora se lambuzam com a podridão e semeam a guerra e a miséria numa terra antes tão fértil. “Estes poderosos de Tizangara têm medo de suas próprias pequenidades. Estão cercados, em seu desejo de serem ricos. Porque o povo não lhes perdoa o facto de eles não repartirem riquezas. A moral aqui é assim: enriquece, sim, mas nunca sozinho. São perseguidos pelos pobres de dentro, desrespeitados pelos ricos de fora. Tenho pena deles, coitados, sempre moleques”, diz a prostituta Ana Deusqueira, conhecedora das fraquezas dos homens.

Como a esquerda no poder chafurdou-se também na lama, já não há nenhuma alternativa para a população pobre. É essa a mensagem niilista que passa o livro de Mia Couto em que os mortos continuam a governar os vivos e chegam ao máximo de seqüestrar o verdadeiro Moçambique, como já acontecera com outras terras de África.

“Entregara-se o destino dessas nações a ambiciosos que governaram como hienas, pensando apenas em engordar rápido. Contra esses desgovernantes se tinha experimentado o inatentável: ossinhos mágicos, sangue de cabrito, fumos de presságio (...). Tudo fora em vão: não havia melhora para aqueles países. Faltava gente que amasse a terra. Faltavam homens que pusessem respeito nos outros homens”, escreve o tradutor, desolado, observando que, talvez por isso, os deuses africanos, vendo que não havia solução, decidiram transportar aqueles países para esses céus que ficam no fundo da terra.

Ao se chegar ao fim deste livro, o leitor brasileiro há de perguntar: será que esses deuses, talvez confundidos por uma mesma língua, não seqüestraram também o Brasil, levando-o “para um lugar de névoas subterrâneas, onde as nuvens nascem”? Realismo mágico à parte, como o leitor brasileiro deve ter percebido pela falta do acento circunflexo no vôo do título do livro, a Companhia das Letras sabiamente decidiu preservar o português moçambicano de Mia Couto, exemplo que deveria ser seguido por todas as editoras não só brasileiras como portuguesas e africanas, quando editassem autores da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), pois, afinal, se todos nos entendemos em português, não será por um acento ou um pê a mais ou a menos que vamos deixar de nos ler mutuamente. E descobrir como somos iguais.
_____________________

O ÚLTIMO VOO DO FLAMINGO, de Mia Couto. São Paulo, Companhia das Letras, 225 págs., 2005, R$ 36.

Adelto Gonçalves
23.05.2005

LISBOA NA CIDADE NEGRA

LISBOA NA CIDADE NEGRA
de JEAN-YVES LOUDE
Dia 2 de JUNHO 2005 às 18h30
com Jean-Yves Loude e António Loja Neves

Nos séculos XVI e XVII Lisboa contava com cerca de 10% de negros.
Hoje quantos existirão na cidade que Tanner disse branca?
Jean-Yves Loude, escritor e etnólogo, um apaixonado pelo continente africano, conduz-nos através do livro "Lisboa na Cidade Negra", que a D. Quixote acaba de editar em língua portuguesa,  pelos trilhos das raízes negras de Lisboa.
O Parque Mayer é o ponto de partida de um jogo de pistas neste livro de Loude. Um verdadeiro labirinto que ele percorreu em meses de estudo. Escravatura, mestiçagem, e(i)migração, culturas, perpassam por aqui e... muitas referências.

Jean-Yves Loude, autor entre outros de "Cabo Verde: Notas Atlânticas, regressa a Lisboa para o lançamento do seu livro e estará no Instituto Franco-Português no dia 2 de Junho às 18h30 para dele falar.
António Loja Neves fará a apresentação.
Estão todos convidados.

"Eu não ignorava a realidade da presença africana em Lisboa, uma presença de cinco séculos, devida à escravatura, e que o importante afluxo de emigrantes dos países da África lusófona faz persistir ainda hoje. De cada vez que a necessidade de investigação sobre as explorações portuguesas ao longo das costas do oeste africano, ou sobre a história de Cabo Verde, me levaram até Lisboa, fui sempre amigavelmente desviado para lugares de vida da diáspora caboverdiana.
Mas a ideia de considerar a presença africana em Lisboa tema de investigação, nunca me tinha surgido. De repente, ela impunha-se, revelada pela imperiosa vontade de uma "Maria Fantasma" apenas imaginada e logo desaparecida..."  (extractos)

O autor percorreu durante meses a Lisboa da imigração. Ele dá visibilidade às contribuições culturais de caboverdianos, angolanos, moçambicanos, guineenses, são tomenses e voz a essa comunidade que tão longamente permaneceu silenciosa.

22-05-2005

CULTURA ACÚSTICA E LETRAMENTO EM MOÇAMBIQUE

Cultura_acustica A Editora PUC-SP – Educ e o Autor convidam para o lançamento de

CULTURA ACÚSTICA E LETRAMENTO EM MOÇAMBIQUE
Em busca de fundamentos antropológicos para uma educação intercultural de José de Sousa Miguel Lopes

Dia 28 de maio de 2005 às 11 horas, na Quixote Livraria e Café
Rua Fernandes Tourinho, 274
Savassi – Belo Horizonte - BRASIL
Telefone: (31) 3227-3077

Educ– Rua Ministro Godói, 1197 – Perdizes – SP
Cep 05015-001 – Pedidos por Fax: (11) 3873-3359
E-mail: educvendas@pucsp.br
Site: www.pucsp.br/educ

Resumo do trabalho e texto da contracapa:

As questões de escolarização e de letramento que envolvem o povo de Moçambique estão embebidas dos decisivos problemas que a modernidade impôs aos povos da periferia do mundo ocidental e cristão; portanto, a nós brasileiros também.

O autor nos incita a pensar que não há uma linha reta a unir a difusão da leitura e escrita em sociedades como a moçambicana, e a partilha universal dos benefícios das culturas urbanas e tecnológicas. Porque a palavra escrita não carrega apenas os benefícios das belas-letras; ela pode ser, como mais das vezes tem sido, o algoz da “cultura acústica”, da memória, do fio do tempo de que cada membro de uma nova geração pode ser herdeiro e portador. José Miguel fala de Moçambique como se lesse a palma da mão. Estava lá, entre as lideranças revolucionárias que lutaram por uma nova cultura e uma nova sociedade pautada em uma economia autônoma. Falando de Moçambique, contudo, ele abre seu pensamento para os universais problemas de inclusão social por via da escolarização.

Mirian Jorge Warde

Neste trabalho, o autor analisa a cultura moçambicana, que designa como acústica, porque tem no ouvido, e não na vista, seu órgão de recepção e percepção por excelência.

Nessa cultura se recorre (como artifício de memória) ao ritmo, à música, à dança, à repetição e à redundância, às frases feitas, às fórmulas, às sentenças, aos ditos e refrões, à retórica dos lugares-comuns e às figuras poéticas.

Contudo, no pós-independência, a política lingüística adotada pelo poder político não levou em consideração esses traços fortes da oralidade (presentes nas línguas autóctones), o que acabou influenciando o processo de letramento.

Às elevadas taxas de iletramento herdadas do período colonial vieram somar-se, com o passar dos anos, as preocupantes taxas de evasão e repetência, sobretudo nas primeiras classes da escolarização formal e no processo de erradicação do iletramento entre jovens e adultos.

Uma das razões para o agravamento das taxas de iletramento está na adoção da língua portuguesa como língua oficial e língua de ensino e na conseqüente rejeição, por parte do poder político, do estudo, da sistematização e da introdução das línguas autóctones moçambicanas nas primeiras classes. Mas, mais do que isso, a rejeição desse rico universo lingüístico pode estar contribuindo para perdas irreversíveis das tradições orais, ao mesmo tempo que constitui um desrespeito e uma desvalorização das várias culturas étnicas. A longo prazo, se se mantiver tal política lingüística, poderão ocorrer perdas significativas na memória coletiva, podendo também extinguir-se algumas ou uma grande parte das línguas autóctones.

A manter-se a atual política de homogeneização cultural, estarão igualmente sendo criadas condições para a ampliação das tensões étnicas, provocando clivagens no tecido social moçambicano. Para problemas tão complexos, sustentamos que se deverá implantar, em termos lingüísticos, um bilinguismo que possa abrir caminho a uma revalorização da(s) cultura(s) acústica(s) e, consequentemente, das línguas autóctones, sem prejuízo para o fato de que em inúmeras funções a língua portuguesa continue desempenhando o papel de língua oficial, construindo, assim, uma cada vez mais efetiva educação intercultural.

José de Sousa Miguel Lopes

CULTURA ACÚSTICA E LETRAMENTO EM MOÇAMBIQUE

em busca de fundamentos antropológicos para uma educação intercultural

José de Sousa Miguel Lopes

9 7 8 8 5 2 8 3 0 2 8 5 1

ISBN 852830285 -7

Nota Biográfica:

   José de Sousa Miguel Lopes pediu-me para divulgar o Convite de Lançamento do seu livro "Cultura Artística e Letramento em Moçambique" com o subtítulo "Em busca de fundamentos antropológicos para uma educação intercultural".

   José Lopes foi residente na Maxixe e aluno do Colégio de Inhambane. Lecciona numa Universidade do Estado brasileiro de Minas Gerais e esteve em Lisboa em Dezembro último, em visita particular, onde se encontrou com diversos inhambanenses e maxixenses.
   A capa do livro é de autoria de Fortunato Amaral (Russo), antigo aluno do Colégio de Inhambane. Este artista criou os primeiros selos de correio de Moçambique, logo após a independência.
   - Essa foi a maneira que encontrei de prestar homenagem a todos os amigos e colegas de Inhambane - diz o nosso amigo José Lopes no seu e-mail, que me enviou hoje.
Fernando Ferreira

14-05-2005

O lançamento (de Pipas de Massa) ocorrerá a 1 de Junho (Dia Mundial da Criança) na Feira do Livro de Lisboa

Ruipaes01_2 O lançamento (de Pipas de Massa) ocorrerá a 1 de Junho (Dia Mundial da Criança) na Feira do Livro de Lisboa, que ocorre anualmente no Parque Eduardo VII de 25 de Maio a 13 de Junho;
Estará presente Rui Andrade Paes (de Pemba) para uma sessão de autográfos.

Não há nada agendado para uma vinda de Madonna a Portugal; Carmen Dolores, a veterena actriz portuguesa, também lá estará para uma leitura do livro; Madonna já autografou 10 livros (duas colecções completas dos seus 5 primeiros livros) que serão leiloados e cujo lucro será revertido em favor da Acreditar - Associação de Pais e Amigos de Crianças com Cancro.
Um anúnico televisivo deverá estrear em breve.
=NOVA YORQUE - Depois de ser lançado mundialmente em Lisboa, a apresentação de Lotsa de Casha (Pipas de Massa) vai seguir para Nova Iorque, no dia 7 de Junho, onde estarão presentes Madonna e Rui Andrade Paes (de Pemba) na Borders.
O Drowned Madonna informa hoje que no mesmo dia ocorrerá uma Festa de Caridade apoiada pela Unicef e que será apresentada por Matt Lauer da NBC.
 
Do site português "Madonna Sanctuary"
Ver

13-05-2005

Mais uma obra de Mia Couto traduzida e publicada em França

La Librairie Portugaise & les éditions Chandeigne vous invitent au lancement de :

Charlemagne, Lampião & autres bandits

Anthologie de la « littérature brésilienne de Cordel », traduite par Anne-Marie Lemos & Annick Moreau

&
Tombe, tombe au fond de l¹eau

de Mia Couto
traduction d¹Elisabeth Monteiro Rodrigues

en présence des traductrices et du dessinateur brésilien Nelson Cruz
illustrateur du Conte de l¹école de Machado de Assis

le jeudi 26 mai 2005, de 17 h à 20 h
à la Librairie Portugaise -10 rue Tournefort - 75005 Paris - 01 43 36 34 37

Caïpirinha maison !

ÁFRICA RADIO MOÇAMBIQUE

Ouça música de Moçambique, 24x24 horas em

http://www.live365.com/stations/carramo

12-05-2005

No tempo da imprensa popular

Opinião
Adelto Gonçalves
10/05/2005 - DIÁRIO DOS AÇORES

Se o comunismo hoje já não seduz a juventude, sendo mais uma manifestação folclórica ou peça de museu, já houve tempo em que era uma palavra generosa que corria o mundo e incendiava corações e mentes, motivando centenas de pessoas a arriscar a vida em favor dos deserdados da terra. Como se sabe, os velhos anarquistas sempre tiveram razão: o comunismo daqueles que lideraram partidos e sindicatos, que diziam falar em nome do povo e defendiam uma ditadura transitória para um socialismo idílico, muitas vezes, acabava onde começava a própria algibeira.
Nos países em que chegaram ao poder, os comunistas fizeram, não raro, pior do que aqueles a quem acusavam de despóticos e sanguinários: organizaram campos de concentração que nada ficaram a dever aos dos nazistas, mandaram fuzilar antigos companheiros de aventura, avançaram no erário público, chafurdaram em negociatas, perseguiram e eliminaram adversários, viveram como nababos, construíram fortunas que colocaram a salvo no exterior e outras tantas iniquidades.
Dessa história, porém, ficaram exemplos de idealismo daqueles que se sacrificaram em nome de uma causa que se mostrou falaciosa e falida. No Brasil, um desses exemplos é o jornalista Francisco Ribeiro do Nascimento, mais conhecido como Chiquinho, que, aos 77 anos, decidiu registrar um pedaço de sua vida dentro do Partido Comunista Brasileiro (PCB), o Partidão.
Com tantas histórias para contar, Chiquinho, porém, não tratou de escrever as suas memórias nem de reconstituir o passado de acordo com suas conveniências, como fizeram tantos, mas reuniu em livro patrocinado pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo e editado pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 91, edições do jornal Tribuna do Pará, de Belém, referentes ao período que vai de 3 de Julho de 1954 a 31 de Agosto de 1958, tempo em que foi jornalista e, ocasionalmente, director da publicação.
Mais importante do que as folhas microfilmadas que assinalam um tempo de intenso combate político e social no País, é o registo da própria vida do autor do livro reconstituída em prefácio pelo presidente do Sindicato dos Jornalistas, Fred Ghedini: nascido na Ilha de Marajó, Chiquinho teve dez filhos com sua única companheira e nunca se afastou da coerência política que sempre o fez denunciar e lutar contra as injustiças sociais. Estudante secundário em 1945, quando o Brasil foi democratizado, entrou, aos 18 anos de idade, no PCB recém-legalizado. Reconhece até hoje que esse partido foi a sua “universidade” e responsável pela sua formação humanística, mas, em 1983, depois de 38 anos de militância, preferiu deixar a agremiação.
Nesse intervalo de tempo, enfrentou muitas dificuldades. Em 1954, quando trabalhava como técnico de laboratório em Parintins, no Amazonas, foi preso por liderar uma manifestação que comemorava o aniversário do líder comunista Luís Carlos Prestes. Dez anos mais tarde, quando houve o golpe militar que silenciou e amordaçou a Nação, Chiquinho mergulhou na clandestinidade para não ser preso e torturado.
Teve de deixar a família à própria sorte, abandonando Belém às escondidas, viajando de boleia rumo ao Sul. Radicou-se em Santos com nome falso, fez força para disfarçar não só o sotaque nortista como para evitar o seu palavreado revolucionário da época, sobrevivendo como vendedor ambulante. Quando pode, pediu à família que viesse a reunir-se com ele. Como jornalista militante, desde 1982, participa das actividades da delegacia regional do Sindicato dos Jornalistas em Santos.
“Páginas de Resistência: a imprensa comunista até o golpe militar de 1964” — esse o título do livro — resgata do esquecimento, na verdade, apenas uma pequena parte da imprensa ligada ao Partidão, ainda que apresente uma lista de periódicos de linha comunista até 1964, além de prestar uma homenagem a militantes assassinados pela ditadura. Se a leitura da Tribuna do Pará dos anos 50, com o seu estilo passional e participativo, semelhante nos seus arroubos ao Hora do Povo de hoje, pouco tem a ensinar ao estudante de Jornalismo, muito tem a contribuir para os estudos que procuram recuperar a história da imprensa nacional, muitas vezes apenas restrita à chamada grande imprensa.
Se algum paralelo se pode traçar entre épocas já distantes, é que a tão injusta e desigual sociedade brasileira pouco mudou, pois as notícias estampadas pela Tribuna do Pará na década de 1950 ainda são rigorosamente iguais às que costumamos ver na imprensa tradicional de hoje: reforma agrária, conflitos e assassinatos no campo, salários indignos, desemprego, imperialismo, ‘grilagem’ de terras, opressão dos latifundiários, trabalho escravo em fazendas.
O jornal Tribuna do Pará, fundado em 1946 e extinto em 1958, fez parte da imprensa popular — não só comunista, aliás — que antecedeu a imprensa alternativa, de actuação marcante durante os 21 anos da ditadura (1964-1985). Ao contrário da imprensa alternativa, que já rendeu bons livros como os de Bernardo Kucinski e Rivaldo Chinem, a imprensa popular anterior ao golpe de 1964 ainda não encontrou o seu grande historiador.
Portanto, com o seu livro, Chiquinho dá uma importante contribuição para um trabalho de maior fôlego que ainda está à espera de um grande pesquisador, ao mesmo tempo em que passa às novas gerações uma lição de vida: a história daqueles que nunca capitularam diante dos poderosos e jamais calaram diante das injustiças e que, por isso mesmo, foram mais fortes que o mundo que os sucedeu.
_________________________

“PÁGINAS DE RESISTÊNCIA — A IMPRENSA COMUNISTA ATÉ O GOLPE DE 1964”, de Francisco Ribeiro do Nascimento. São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo, 212 págs., 2003. E-mail: livros@imprensaoficial.com.br
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Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – O Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br

O primeiro romance de Domingos Pedro

Xidambane_1

Xidambane_2

05-05-2005

Manuel Gomes - Mais um Moçambicano em destaque

OrquestravilarealNo dia 7 de Maio em Vila Real num Teatro novo, MANUEL GOMES - MAESTRO, vai dirigir a Orquestra do Norte, no Concerto de Primavera.

O Maestro estudou no Colégio de Inhambane e era conhecido por Manecas e filho do Sr. Newton Gomes das Finanças.

04-05-2005

O lançamento mundial de 'Pipas de Massa'

Lotsa_madona_1 A excepção deve-se ao facto de o ilustrador ser português o próximo livro de Madonna, Pipas de Massa, vai ser primeiro editado em Portugal e só uma semana depois conhecerá edição mundial. A Dom Quixote, editora em Portugal da série de livros infantis da cantora pop, iniciada em Setembro de 2003 com As Rosas Inglesas, está a preparar um programa especial para o dia 1 de Junho que conta com a participação de Rui Paes, o autor das ilustrações. Além de uma sessão de autógrafos, a actriz Carmen Dolores irá ler a história numa sessão pública em local ainda a anunciar.

Pipas de Massa é o quinto livro infantil assinado por Madonna e, como os anteriores, também neste a cantora/escritora cede os seus direitos à Spirituality for Kids Foundation, uma instituição norte-americana de ensino. Os quatro títulos anteriores venderam, no conjunto, cerca de dois milhões de cópias em todo o mundo, 30 mil dos quais em Portugal. O primeiro, As Rosas Inglesas, foi o que mais vendeu, tendo originado à sua volta um fenómeno de merchandising. De tal forma que tanto os editores (a Callaway) como a autora já pensam na sequela. Assim, é provável que a Pipas de Massa se siga As Rosas Inglesas II.

Em Pipas de Massa, como nos livros anteriores, a moral é universal - a verdadeira felicidade está na partilha -, mas a inspiração é italiana. A começar pelo título Lotsa da Casha, no original. Em português, optou-se por Pipas de Massa, que não transmite a intenção de "italianizar", como no inglês e que pode causar estranheza na leitura. Na tradução assinada, mais uma vez pela dupla familiar Miguel e Susana Serras Pereira, o protagonista, Pipas, aparece com uma pronúncia estranha, que troca os "ss" pelos "ch", numa tentativa de reconstruir o sotaque italiano do inglês de Madonna. Uma estranheza de que fala Rui Paes, o ilustrador, colocando algumas reservas à tradução nacional. "Talvez por ter lido tantas vezes a história em inglês", justifica.

Itália - país onde Madonna tem raízes familiares - está também muito presente na ilustração. A pedido da própria, como faz questão de salientar Rui Paes, que diz ter-se inspirado na cidade Siena e na arquitectura de Génova para construir os ambientes onde decorrem as aventuras do tão amargo, quanto rico, Pipas. Até agora Rui Paes ilustrara apenas um livro de contos assinado pela mãe, a escritora Glória de Santana. Tinha, então, 18 anos.

Entretanto, em matéria de ilustração limitara-se aos palcos, num trabalho de cenografia que não considera muito distante, na forma, da tarefa de dar imagem às palavras de um livro. Num e noutro caso é preciso criar ilusão.

O interesse desta série de livros de Madonna está na assinatura, mas, sobretudo, na grande qualidade das ilustrações que os acompanham. São elas que trazem um enorme valor acrescentado a narrativas com pouco de original. São elas, ainda, que fazem destes exemplares objectos de culto para quem valoriza a imagem. Madonna sabe disso. E os seus editores também.

DIÁRIO DE NOTÍCIAS - 04.05.2005

Retrato do português que ilustrou Madonna

Ruipaes01_1 A reserva impede-o de revelar o nome da casa e o dos seus proprietários, mas é entre telas de Rubens, Van Dyck e Bruegel que Rui Paes trabalha.

Enviados A génova
isabel lucas (Texto)
Rodrigo cabrita (fotos)

Madonna escolheu um pintor português para ilustrar o seu último livro para crianças. Pipas de Massa conta a história de um velho rico e infeliz que descobre a alegria da partilha. Um enredo simples a contrastar com o barroco da ilustração assinada por Rui Paes, nome com quem a estrela pop divide o protagonismo desta história traduzida em mais de quarenta línguas, publicada em 110 países e com lançamento mundial agendado para Portugal, no dia 1 de Junho (Dia Mundial da Criança).
Rui Paes estava em Génova quando foi contactado pela Callaway Editions, a editora dos livros infantis de Madonna. A New York Times Magazine publicara, pouco antes, um artigo sobre uma sala pintada pelo português num castelo da Noruega. Foi em Fevereiro de 2003. Esse ambiente palaciano seduziu a autora e quatro meses depois Rui Paes interrompia o trabalho que estava a fazer num palácio daquela cidade italiana para se instalar no seu atelier de Londres a tentar dar forma à narrativa e às personagens criadas por Madonna.
Com um vasto currículo na área do trompe-l'oeil, parte da vida e da obra de Paes decorre em palácios. Paredes, murais e telas de grandes casas do Egipto, Alemanha, Inglaterra, Líbano, Noruega e, agora, Itália constam de um percurso onde o figurativo vai ganhado cada vez mais força. É a subir a escadaria do Palazzo Reale, em Génova, que este artista, quase um desconhecido em Portugal, confessa o fascínio pelo barroco - e pelas formas antigas de pintar -, manifestado em traços que parecem fora de época ou, antes, desafiar as tendências do tempo actual.
Vive e trabalha paredes meias com aquele ambiente, num palácio vizinho construído no início de seiscentos e que guarda uma das maiores e mais importantes colecções privadas de pintura, na Europa. "Estar aqui é uma inspiração muito grande. O barroco é uma das linguagens mais divertidas e cativantes para ser reutilizada. Na pintura mural, é a técnica mais satisfatória. Mas tem de ser muito bem compreendido, já que parece ser muito frívolo. Mas não é. É muito bem enraizado e dá uma grande liberdade", defende, de olhos postos num fresco que decora a Sala dos Espelhos, do Palazzo Reale.
A reserva impede-o de revelar o nome da casa e o dos seus proprietários, mas é entre telas de Rubens, Van Dyck e Bruegel que Rui Paes pinta, numa sala que dá para a Via Balbi, uma das artérias mais importantes de Génova, projectada no início do século XVII, quando ali começaram a construir grandes palácios, e que hoje já não tem o brilho desses tempos.

Vida palaciana. É nessa rua, bem junto à Piazza dell'Annunziata, que vive desde 2000, numa estada que interrompe sempre que tem de responder a outras solicitações e que deve terminar dentro de três ou quatro meses. "O Van Dyck pintou os marqueses no século XVII e eu, agora, estou a fazer quadros com os empregados", ironiza, ao ser questionado sobre o trabalho que está a fazer. E percebe-se a reserva no sorriso que quer colocar um ponto final sobre o assunto. A mesma que lhe foi pedida quando lhe falaram da hipótese de ilustrar um livro de Madonna. Ficou surpreso com o trabalho, mas o nome não lhe tirou a fala, garante. Mandaram-lhe a história e pôs mãos à obra. Foi cerca de um ano e meio de trabalho feito no campo, perto de Cambridge, e que o ocupou entre dez e doze horas por dia. Seis meses na concepção e na estruturação, oito meses para a pintura, em aguarela sobre fundo de papel. Tudo somado, foram 70 aguarelas, numa escala entre vinte e quarenta por cento acima do tamanho em que o livro foi impresso.

Em todo o processo, autora e ilustrador falaram duas vezes. "Da primeira vez, ela ligou-me para dizer que estava muito satisfeita com as ilustrações. Mais tarde fui eu que lhe telefonei a pedir desenhos dos filhos para incluir no livro, e ela mandou." As reacções iam-lhe chegando através da editora. No fim, pediu-lhe que fizesse "uma ou duas pequenas" alterações. Do trabalho no castelo norueguês "importou" para o livro a ambiência e os macacos. Isso mesmo. São esses os elementos decorativos mais marcantes, inspirados no Castelo de Chantilly, em Paris. "Nesse trabalho usei uma técnica de chinoiserie do século XVIII, a importação europeia dos elementos decorativos chineses nos grandes ambientes palacianos. Um dos melhores exemplos está em Chantilly. É um grande hall de entrada num castelo em cima do fiorde de Oslo. Embora tivesse sido construído nos anos 20, só um quarto é que era de época. Tudo o resto foi feito com um certo teor revivalista. Sugeri, então, o esquema da chinoiserie, rococó. A sala estava toda dividida em painéis. Fiz 16 painéis com seis metros por um. Usei uma série de elementos decorativos, utilizando macacos vestidos como em Chantilly".
Foram os macacos que seduziram Madonna. São os macacos o elemento que percorre todo o livro. "Diverti-me muito com este trabalho. Foi difícil, mas tive toda a atenção, tanto da editora como da própria Madonna", diz em jeito de balanço de uma experiência que gostaria de repetir. Basta que haja convite e empatia com o ambiente da história a ilustrar. Afirma que o facto de se ter iniciado nestas lides com Madonna não o coloca em bicos de pés, mas reconhece a importância que tem para a divulgação da sua obra o facto de o seu nome surgir ao lado do da autora de Material Girl "Inevitavelmente, vai ter um papel determinante."

O percurso. A viver em Londres desde 1986, quando, bolseiro da Fundação Gulbenkian, se candidatou ao mestrado de Pintura no Royal College of Art, Rui Paes conta com várias distinções num currículo que oscilou entre o figurativo, o monocromático e de novo o figurativo.
Natural de Pemba, Moçambique, onde nasceu em 1957, filho de um arquitecto (Andrade Paes) e de uma escritora (Glória de Sant´Anna), começou a pintar muito antes de conseguir copiar gravuras de Rafael. Tinha uns sete ou oito anos. "Sempre que me aborrecia com os meus irmãos, refugiava-me com os meus lápis e guaches numa espécie de ilha onde mais ninguém tinha acesso", lembra, sublinhando pormenores da praia de onde saiu com 11 anos para fazer o liceu em Aveiro. Andou entre os dois continentes até entrar para a Faculdade de Belas Artes do Porto, depois de ter hesitado em ir para um curso ligado ao ambiente. O chumbo a Química afastou-o. "Ainda bem", reconhece agora.
Terminado o curso de Pintura, em 1981, foi professor no ensino secundário. Paralelamente, participava em exposições e venceu o prémio revelação na Exposição Nacional de Arte Moderna, Arús. Entretanto, concorreu a um lugar no Royal College of Art. Foi aceite. "Nunca tinha pintado tantas horas todos os dias. Deram-me um lugar para pintar e tive de criar a minha própria disciplina."Fazia, então, uma pintura despojada, monocromática. Grandes telas, todas a vermelho. Foi uma fase. O figurativo haveria de voltar em força quando começou a trabalhar com Graham Rust, um dos mestres da ilusão pictórica. Nunca mais abandonaria o trompe-l'oeil, que foi intercalando com as telas. Nunca mais bandonaria, também, Londres.

Em Portugal, tem um filho. E trabalhos em várias colecções privadas. Para o ano, talvez haja uma exposição.

DIÁRIO DE NOTÍCIAS – 04.05.2005

Veja: http://www.macua.org/Rui_Paes.htm

29-04-2005

Rui Andrade Paes ilustra capa de livro de Madona

Rui Andrade Paes (Filho da poetisa do mar azul de Pemba, Glória de Sant'Anna e irmão da também artista plástica Inez Andrade Paes, natural de Moçambique ) ilustrou o próximo livro infantil da Madonna, que irá sair no próximo dia 1 de Junho.
Eis aqui a referência à notícia no DN:
...“Desde há uns cinco anos, muitos editores a apostam na ilustração”, refere, salientado, aí, o papel da Bedeteca e do Salão de Lisboa na divulgação de talentos portugueses “O ilustrador tem vindo a ganhar um estatuto que já lhe permite partilhar a autoria de um livro com quem o escreve.” Um reconhecimento que passa fronteiras: Madonna escolheu o português Rui Paes para ilustrar o seu próximo livro Pipa de Massa, com edição marcada para 1 de Junho.
© JTM/Diário de Notícias
O livro vai-se chamar em Português "Pipa de Massa".
Lotsa_madona

28-04-2005

REDE BIBLIOGRÁFICA DA LUSOFONIA

A Rede Bibliográfica da Lusofonia (RBL) é o programa de intervenção na área do livro e da promoção da leitura nos PALOP (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa) e em Timor Lorosae. Ao IPLB cabe conduzir as negociações com os interlocutores africanos coordenando, em conjunto com a Biblioteca Nacional e o Instituto dos Arquivos Nacionais Torre do Tombo, todas as acções que visam promover o livro, a leitura e a informação documental.
Financiada pelo Ministério da Cultura, a RBL cruza-se com a área de intervenção da cooperação portuguesa (Instituto Camões e Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento). O IPLB é o organismo executor, nomeado por despacho conjunto do Ministério da Cultura e da Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação, representante único do Estado Português para este efeito.

http://www.iplb.pt/pls/diplb/!main_page?levelid=22

27-04-2005

15 pintores evocam com exposição a vida e obra Malangatana

Malangatana Quinze artistas moçambicanos vão apresentar, em Maputo, uma exposição evocativa da vida e obra vida do pintor Malangatana Nguenha, que no próximo ano será homenageado em Moçambique e Portugal pelo seu 70º aniversário.


A exposição, que será inaugurada na quinta-feira num novo recinto de cultura designado "Espaço Joaquim Chissano", é organizada pelo Banco Comercial Internacional e de Fomento de Moçambique (BCI), detido pelos bancos portugueses Caixa Geral de Depósitos (CGD), maioria, e Banco Português de Investimento (BPI).

Os 15 artistas moçambicanos, "irão fazer uma retrospectiva dos últimos 30 anos da vida e obra do pintor moçambicano, que transpôs fronteiras de Moçambique através das suas telas e de uma relação directa de convívio intelectual e artístico", refere um comunicado do BCI.

Entre os participantes contam-se os pintores Naguibe, Víctor Sousa, Butcheca, Carmen e Samate.

No âmbito da homenagem dos amigos de Malangatana, agendada para 2006, quando o pintor completar 70 anos, serão realizadas exposições e documentários sobre a vida de obra do artista.

Em Portugal, estas acções serão coordenadas pela Fundação Mário Soares.

A homenagem será também marcada pela conclusão das obras do Auditório de Matalane, da Fundação Malangatana e da Casa Museu Malangatana, projectos iniciados pelo artista, mas ainda não concluídos por falta de fundos.

Lívio de Morais

Lívio de Morais Nasceu na Zambézia, Moçambique, a 10 de Maio de 1945. Pintor, escultor, ensaísta e crítico de arte africana. É licenciado em artes plásticas (1978): Escultura pela ESBAL (Universidade de Lisboa). É professor de História de Arte.
Fez fotografia de cariotipo para a investigação médica (Genética). Fez estudos de Sociologia e Antropologia na Universidade Católica de Lisboa. Proferiu conferências sobre Arte e Máscaras na Universidade de Barcelona (1992 e 1994). É membro da Casa de Moçambique em Lisboa.


Algumas Exposições Individuais
Museu de Ponta Delgada (Açores), Hotel Albatroz (Cascais), Galeria 601 (Lisboa), Galeria Miron (Lisboa), Galeria central de Monchique (Algarve), Forum Picoas (Lisboa), Galeria Símbolo (Porto), Universidade Anthropos (Barcelona), Galeria Arte Periférica (Massamá), Galeria do Mónaco, C.G.D. (Massamá), Espaço Veredas (Sintra), Galeria 1990 d.C. (Viana do Castelo), Bodas de Prata: 25 Anos de Artes Plásticas na Galeria da Cervejaria Trindade (Lisboa), Hotel Penta: Quinzena Cultural de Moçambique 1993, Arte Mar (Sesimbra), Galeria da Óptica do Conde Redondo (Lisboa), Galeria F. Torralba Terrasa (Barcelona).

Algumas Exposições Colectivas
International House, Palácio Anjos, Arte Galeria Municipal da Amadora, Miron, Hotel Alfa, Galeria 601, Galeria da Faculdade de Letras de Lisboa, II e III mostra de escultura de Arte Livre da Câmara Municipal da Amadora, Galeria Municipal de Lisboa (Belém), Óbidos (Descobrimentos Portugueses), Pintores e Escultores de Moçambique, III Salão de Pequeno Formato (Casino Estoril), Artistas Africanos (BNU Lisboa), Galeria Moira, III Bienal Internacional de Pintura Contemporânea de Óbidos, Xadrez das Artes (Porto), Academia da Marinha (Lisboa) - Port. Art. I e II, XXI e XXII Salão de Outono (Casino Estoril), I Trienal Latina, 500 anos das Descobertas (Mosteiro da Batalha), IV Salão do Pequeno Formato (Casino Estoril), Óptica Conde Redondo, Colectivas contra a Sida e contra o Racismo, África Amiga, Portarte 1993, Exposição Internacional no centro Cardinal França, 20º Aniversário do 25 de Abril (Amadora), A Mulher: Museu Municipal de Loures, Lisboa 94: Hotel Meridiano (G. Casino Estoril).

Intervenções. Ilustração de Obras Literárias
Criação de selos e postais para a Guiné-Bissau, Cabo Verde e Angola, Esculturas em betão e bronze para Portugal, Canadá e Estados Unidos da América.

Diversas Publicações:
Investigação de Máscaras e Arte Africana. Faz parte da telenovela "O Grande Irã", Retrato a Rui de Noronha na quinzena cultural de Moçambique (F. C. Gulbenkian) 1993. Organização da Exposição Internacional da Casa de Moçambique. Citado pela Drª Manuela Synek (historiadora) na obra "Aspectos das Artes Plásticas em Portugal", pags. 26, 67 e 343. Representado no Museu da Marinha em Lisboa, Instituro Politécnico do Minho (pintura), Escola Ferreira Dias do Cacém (busto em bronze do patrono), Piscina Municipal de Alfornelos: Mulher Sentada (escultura em betão), Escola Primária de Alfornelos: A Paz (escultura em betão), Universidade Anthropos de Barcelona (pintura), Embaixada de Moçambique (Lisboa), Colecção Dr. Mário Soares: Oferta na Presidência Aberta a Minorias Étnicas (1993), BNU Lisboa, APPLA Lisboa, GAN Lisboa, Brasil, Itália, Barcelona, Guiné e Embaixada de Angola em Lisboa. Palácio Guel (Barcelona), Consulado de Portugal em Barcelona.

Prémios:
1991 - Obra de mérito "Ouro Líquido" Pintura, 1ª Port Art em Portimão.
1992 - 3º Prémio de artigo de crítica de Política Internacional sobre Timor-Leste (Prémio Jornal Público).
1993 - Prémio Internacional (Prémio Prestígio AI-UÉ), no 30º aniversário da Organização da Unidade Africana (OUA).

Algumas peças da obra de Lívio de Morais

Lívio de Morais
"ÁFRICA"
Óleo sobre tela 60x50

Lívio de Morais
"Maternidade"
Óleo sobre tela 55x46
Lívio de Morais
"Mulheres da Ilha de Moçambique"
Óleo sobre tela 55x38


Lívio de Morais
"Mulheres com farinha de milho"
Óleo sobre tela 35x27
Lívio de Morais
"Colheita do Cajú"
Óleo sobre tela 65x50


Lívio de Morais
"MULHER MACONDE"
Escultura, bronze 30x25x30
Lívio de Morais
"CURANDEIRA MACONDE"
Escultura, gesso patinado 40x30x30

Retirado de Arquivo Vivo de Moçambique

26-04-2005

CINEPORT NA TELA – nº 01

Cataguases(Brasil), 19 de abril de 2005
Editores: ronaldowerneck@cataguazes.com.br e fernanda.brasileiro@terra.com.br

Esta é a primeira edição do CINEPORT NA TELA, o boletim virtual do Festival de Cinema de Países de Língua Portuguesa, que acontece na cidade de Cataguases – MG, Brasil, entre os dias 01 e 12 de junho de 2005.

Cidade do modernismo literário da Revista Verde, espaço emblemático da arquitetura modernista no interior brasileiro e, principalmente, cenário das primeiras realizações cinematográficas de Humberto Mauro, o "pai do cinema nacional", nada mais justo que Cataguases se torne agora palco de um grande festival de cinema.

Retomando a ousadia de outrora, essa pequena mas antenadíssima cidade de Minas Gerais viabiliza agora o I CINEPORT, o maior festival de cinema dos países de língua portuguesa, evento criado pela Fundação Cultural Ormeo Junqueira Botelho, entidade cataguasense que tem se destacado na cena mineira pela qualidade de seus empreendimentos culturais.

O CINEPORT congregará as cinematografias das oito nações que formam a CPLP-Comunidade dos Países de Língua Portuguesa: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste.

Nosso boletim, que estará na rede a cada semana, já começa com uma notícia auspiciosa: entre as muitas personalidades que estarão presentes em Cataguases, acaba de confirmar sua participação o ex-presidente português Mário Soares, que irá inclusive proferir palestra na ocasião.


Mário Soares, Mônica Botelho e Mário Alves.

MÁRIO SOARES
NO CINEPORT

O ex-presidente de Portugal, Mário Soares, recebeu na tarde de ontem na sede da Fundação Mário Soares, em Lisboa, a Diretora Geral do CINEPORT e Presidente da Fundação Cultural Ormeo Junqueira Botelho, Mônica Botelho. No encontro, estavam presentes os parceiros estratégicos do Festival CINEPORT em Portugal: os jornalistas Augusto Vilela e Mário Alves e Helder Costa, um dos expoentes da dramaturgia portuguesa, diretor do Grupo de Teatro "A Barraca", todos eles membros da ONG Etnia-Cultura e Desenvolvimento. Convidado a participar do I Festival de Cinema de Países de Língua Portuguesa-CINEPORT, Mário Soares não só confirmou sua presença ém Cataguases como fará palestra enfocando a "cultura como fator de integração dos povos de língua portuguesa".

"Wragda", de Frederico Cardoso.

OS TRÊS ANOS DO CCHM E
OS INDICADOS DO ANDORINHA

Em Cataguases, completa três anos agora no dia 30 de abril o Centro Cultural Humberto Mauro, um dos espaços nobres da Fundação Cultural Ormeo Junqueira Botelho, que programa uma série de eventos para comemorar a data. Já no dia 29, sexta-feira, haverá a pré-estréia dos curtas-metragens "Fotografia da Voz", de Júlio Mauro, e "Wragda", de Frederico Cardoso, dois filmes realizados em Cataguases no ano de 2004. E também a exibição de "O Anunciador – O Homem das Tormentas", longa-metragem de Paulo Bastos Martins filmado na Cataguases dos anos 60.

No dia 30 de abril, sábado, haverá a divulgação dos filmes indicados ao Prêmio Andorinha do CINEPORT, com a presença de Paulo Cezar Saraceni, Presidente da Confraria do Cinema.

Logo após, show com o compositor e pianista Gilberto Mauro, sobrinho-neto do cineasta Humberto Mauro

ANDORINHA DIGITAL:
INSCRIÇÕES ATÉ DIA 20

Encerram-se dia 20 as inscrições para o Prêmio Andorinha Digital. Até o momento, foram inscritos mais de sessenta filmes. Ainda há tempo para colocar seu filme entre os concorrentes. Não perca a oportunidade de ser um dos premiados na primeira edição do CINEPORT. Inscrições no site www.festivalcineport.com. A lista dos selecionados para o Prêmio Andorinha Digital será divulgada via internet no dia 15 de maio. 

O sol das utilidades.

CATAGUASES & O CINEPORT:
AÇÕES QUE SENSIBILIZAM

O CINEPORT vem procurando interagir com a população de Cataguases, visando a motivá-la para o Festival que acontece em junho. Um desses esforços de interação dá-se por meio da peça teatral "O Sol das Utilidades", montada pela Cia. Gesamtkunstwerk de Teatro, da Fundação Cultural Ormeo Junqueira Botelho, que é encenada duas vezes diariamente nas escolas do município. A peça é centrada no mundo dos países envolvidos no CINEPORT: são onze atores que se revezam nos papéis que encantam crianças e adolescentes de várias faixas etárias, narrando temas sobre as descobertas, a colonização, as conquistas portuguesas e a veiculação da língua portuguesa entre os povos. O espetáculo, que abre oficialmente as ações de interação CINEPORT – Educação, contemplará um universo de 1.850 alunos.

24-04-2005

CENTRO CULTURAL LUSO MOÇAMBICANO

Com sede provisória no:

Centro Comercial Apolo 70-Loja 43- Galeria de Arte

Rua Júlio Dinis N° 10- Lisboa

O CENTRO CULTURAL LUSO MOÇAMBICANO tem a honra de convidar V. Ex3 para um almoço de confraternização de todos os associados do CCLM para a celebração da escritura notarial do Centro Cultural Luso Moçambicano fundado a 04 de Dezembro de 2004.

Na presente data somos 180 sócios inscritos, passados cinco meses de fundação. A escritura será celebrada no dia 28 de Abril/05,em Lisboa.

O almoço será no dia 7 de Maio/05, às 12 horas, no Restaurante SOGRAMA no Centro Comercial Apolo 70, Rua Júlio Dinis, N° 10, em Lisboa, perto do Campo Pequeno.

Será apresentado buffet completo, incluindo um prato africano: (prato, bebida, sobremesa e café).

Cada sócio pode vir acompanhado de familiares ou amigos.

O preço do buffet é de 15,.. que será cobrado a cada pessoa à entrada do restaurante. As inscrições podem ser feitas de três maneiras:

-No Centro Cultural Luso Moçambicano das 10 às 19 horas de 2a a Sábado.

-Pelo telemóvel: 962904607. 

-Via Internet para E-mail.  livio_de_morais@hotmail.com

Para o bom funcionamento do encontro, e por recomendação da gerência do Restaurante, consideramos que é fundamental ter atempadamente (até dia 2 de Maio) o número total de presenças, por isso, no dia 3 de Maio não será possível aceitar inscrições.

Após o almoço, pelas 17 horas será inaugurada uma Exposição Colectiva de Pintura e Escultura do Centro Cultural Luso Moçambicano na Galeria Luís Madureira, em Sintra. Sete Artistas participantes:

Malangatana, Lívio de Morais, José Pádua, Franc Ntaluma ——MOÇAMBIQUE

Paulo Ossião———— PORTUGAL

David Levy Lima—— CABO VERDE

Manuela Jardim--—— GUINÉ BISSAU

O Centro Cultural Luso Moçambicano conta com a sua presença nesta tarde de Sábado, dia 7 de Maio/05.


Até dia 07 de Maio/05.

Pela Comissão Instaladora,

Lívio de Morais

Lisboa, 20 de Abril de 2005

17-04-2005

JEZEBELA

Já nas livrarias de Portugal, com a chancela da Universitária Editora, e autoria de João Craveirinha.

– Percurso actual (ficcionado) por Moçambique, Portugal (Lisboa) e Brasil (Curitiba), através de uma crioula euro – africana de Moçambique (JEZEBELA), natural de Quelimane e de infância e adolescência vividas em Portugal (Minho)...O triângulo cidades de Tete, Quelimane, Nampula em destaque. (Cidades de Maputo, Inhambane, Beira e ilhas de São Tomé e Príncipe de relance). Ficcionado do presente com abordagens da História do Vale do Rio Zambeze dos Prazeiros e Guerras da Zambézia. Das Feitorias europeias à invasão alemã a Moçambique na 1ª Grande Guerra Mundial. “Flashes” a nomes de famílias da actualidade...com um toque esotérico no final. Prefácio pelo Poeta Moçambicano e Professor Universitário, Calane da Silva.

248 Páginas – Formato A5… capa a cores pintura do autor. Livro a ser apresentado no Norte da Europa, Portugal, África e Brasil durante 2005. Editado pela www.universitariaeditora.com de Lisboa.

Jezebela_capa

O MACACO macaquinho, o MACACO MACACÃO

Já nas livrarias de Portugal, com a chancela da Universitária Editora, e autoria de João Craveirinha.

LITERATURA INFANTIL MODERNA, apesar de baseada na tradição oral baNto de Moçambique é um Livro abrangente para crianças, jovens e adultos, terminando sempre com uma MORAL da “Estória”. Contém alguma influência das Fábulas do Poeta Francês, La Fontaine e do Inglês George Orwell. Ilustrado com desenhos (do autor), para colorir a lápis de cor...56 páginas...Formato A4… capa a cores. Prefácio pelo agente literário Alemão, Gunter Wieden -hoefer. Livro a ser apresentado no Norte da Europa, Portugal, África e Brasil durante 2005. Editado pela www.universitariaeditora.com de Lisboa.

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E a Pessoa de Fernando Ignorou África?

Já nas livrarias de Portugal, com a chancela da Universitária Editora, e autoria de João Craveirinha.

Normalmente os artistas plásticos inspiram-se em obras literárias. João Craveirinha, neste Livro para Teatro, inspirou -se numa pintura sua em tela, de 1.20m x 90cm, feita em 1990 / 91 e exposta pela primeira em 1992, na Galeria da SPA, Sociedade Portuguesa de Autores em Lisboa. O tema deste LIVRO (e Pintura), está relacionado com o facto do poeta luso, FERNANDO PESSOA, ter vivido na África do Sul, mais concretamente em Durban – Natal e nunca ter transparecido esse aspecto nas suas memórias de adolescente, em terras do antigo Império Zulo de Shaka a Cet-shuaio, passando por Dingane, antigos soberanos da orgulhosa e temida estirpe dos filhos do céu – Izulo – como a si próprios se intitulavam. Outra personagem principal no Livro, é a consciência colectiva de África, simbolizada pelo espírito azul de uma Princesa suázi / ronga, rodeada de bailado esotérico. Imagens em cadeia vão passando pelo imaginário da Peça Teatral desde Bartolomeu Dias ao Estado Novo e à 2ª Grande Guerra Mundial, passando pelo 5º Império das Descobertas Portuguesas, à Globalização dos nossos dias, sem esquecer Nelson Mandela, Patriarca Africano da Fraternidade Universal. Livro de Formato A4, 56 páginas. A ser apresentado no Norte da Europa, Portugal, África e Brasil durante 2005. Editado pela www.universitariaeditora.com de Lisboa.

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Machado de Assis e a escravidão

Literatura cidadã
Depois dos estudos que John Gledson, Roberto Schwarz, Raymundo Faoro, Massaud Moisés e Josué Montello, entre outros, produziram sobre Machado de Assis e sua obra, seria de esperar que mais ninguém escrevesse um livro capaz de oferecer novas descobertas a respeito do chamado bruxo do Cosme Velho.

HISTÓRIA

                        Machado de Assis e a escravidão

                                                                               Adelto Gonçalves

         Depois dos estudos que John Gledson, Roberto Schwarz, Raymundo Faoro, Massaud Moisés e Josué Montello, entre outros, produziram sobre Machado de Assis e sua obra, seria de esperar que mais ninguém escrevesse um livro capaz de oferecer novas descobertas a respeito do chamado bruxo do Cosme Velho. Mas eis que surge uma obra que vem jorrar luz especialmente sobre uma época em que o Brasil imperial oferecia ao mundo o curioso espetáculo de um país no qual todos condenavam a escravidão, mas quase ninguém queria dar um passo para viver sem ela. Essa obra é Machado de Assis, historiador, de Sidney Chalhoub, professor do Departamento de História da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que acaba de ser lançada pela Companhia das Letras, de São Paulo.

            Conhecido historiador da escravatura e da vida operária entre 1850 e 1910 em Visões da liberdade: uma história das últimas décadas da escravidão na Corte (1990), Cidade febril: cortiços e epidemias na Corte Imperial (1996) e Trabalho, lar e botequim:o cotidiano dos trabalhadores no Rio de Janeiro da Belle Époque (2001), Chalhoub fez o que, até agora, ninguém havia feito: investigou com cuidado a vida do funcionário público Joaquim Maria Machado de Assis, lendo tudo o que pôde encontrar sobre o seu trabalho na segunda seção da Diretoria da Agricultura do Ministério da Agricultura durante o período em que chefiou tal repartição – de meados de 1870 até o final da década de 1880.

Vasculhando a documentação do Arquivo Nacional do Rio de Janeiro, o historiador logo descobriu que os principais assuntos da seção eram política de terras e escravidão. A rigor, a seção estava encarregada de acompanhar a aplicação da lei de 28 de setembro de 1871, depois conhecida como Lei do Ventre Livre. Os meandros dessa luta política e social – seus vaivéns motivados pela hipocrisia e, especialmente, pelos interesses econômicos dos mandões do tempo –  refletem-se diretamente na obra do maior romancista da literatura brasileira.

            Chalhoub procurou mostrar, entre outras coisas, que o processo histórico que resultou da lei de 1871 – assim como suas conseqüências –  esteve no centro da concepção de romances como Helena, Iaiá Garcia, Memórias póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro. Tal processo, segundo o autor, é também o núcleo de sentido no conto “Mariana”.

Ao escrever esse conto, porém, diz o historiador, Machado não podia supor que estaria, logo depois, profundamente envolvido na aplicação cotidiana da lei de 28 de setembro. Para o pesquisador, o romancista formou-se (e transformou-se) ao longo da década de 1870 em diálogo constante com a experiência de funcionário público e cidadão. Eis aqui a tese principal de Chalhoub: a experiência histórica de 1871 ajudou a delinear uma nova personagem literária – Machado de Assis. Segundo essa tese, é possível, de fato, investigar as relações entre a experiência do funcionário e a famosa virada narrativa do romancista, ocorrida entre 1878 e 1880, ou entre Iaiá Garcia e Memórias póstumas de Brás Cubas.

            Escrito em estilo que busca repetir o humor fino e cortante de seu alvo, o livro de Chalhoub traça um perfil da hipócrita elite brasileira que se estabeleceu apoiada sobre o braço do escravo, reproduzindo alguns hilariantes discursos ou diálogos travados no Parlamento a uma época em que o Brasil dava ao mundo o triste espetáculo de representar o último baluarte da escravidão.

Discutia-se quem estava contra a lei. E, na realildade, quem estava contra a sua própria lei era a sociedade senhorial brasileira, pois se a lei de novembro de 1831, a chamada lei “para inglês ver”, tivesse sido mesmo cumprida em suas disposições relativas à liberdade dos africanos introduzidos no país desde então, restariam pouquíssimas pessoas ainda legalmente escravizadas em 1871. Explica-se: os escravos existentes no Império provinham basicamente do contrabando e da escravização ilegal de pessoas livres. Seria muito simples: bastaria aplicar o código penal vigente para acabar com aquela hipocrisia toda sobre direitos de propriedade.

            Mas não foi assim, como se sabe. Os grandes proprietários como urubus agarrados à carniça lutaram até o último momento para impedir a assinatura pela princesa Isabel da Lei Áurea de 13 de maio de 1888 e, insatisfeitos, ainda incentivaram o marechal Deodoro a dar o golpe militar que, no ano seguinte, instauraria a República.

            Antes de entregar o butim, porém, senhores de escravos uniram-se, muitas vezes, a autoridades locais para fraudar processos que visavam a dar liberdade a cativos. Chalhoub reproduz um parecer do funcionário Machado de Assis a respeito de uma tramóia ocorrida no município de Codó, no Maranhão, entre senhores de escravos e autoridades, que resume várias das trapaças levadas ao conhecimento do Ministério da Agricultura.

No parecer, Machado refere-se a proprietários que manipulavam regras do fundo do governo para obter a alforria de escravos ditos “inválidos”, pois, obviamente, esperavam arrancar do governo indenização superior ao valor que conseguiriam por tais cativos ao negociá-los no mercado, além de livrar-se da obrigação de sustentar tais pessoas.

            O autor levantou que Machado de Assis, atrás do pseudônimo Manassés, em crônica publicada a 15 de junho de 1877, tratou do mesmo tema, comentando inicialmente a história de um benfeitor anônimo da Santa Casa de Misericórdia. O sujeito doara nada menos do que vinte contos de réis à instituição e mantivera-se incógnito, quando o normal seria anunciá-lo nas gazetilhas.

A propósito do assunto, o cronista lembra de outro caso em que outro sujeito libertara uma escrava e amargara a impossibilidade de anunciar ao mundo a sua “caridade”. É que se tratava de uma escrava muito idosa, a necessitar de amparo na velhice. Ou seja: por trás da pretensa “caridade”, havia proprietários que estavam a se valer do fundo do Estado para ganhar dinheiro dando em troca liberdade a escravos idosos e inválidos, depois de lhes espremer como bagaço, livrando-se da responsabilidade de sustentá-los no inverno da vida.

            Em seu livro, Chalhoub procura mostrar que, na década de 1870, o outrora jovem liberal Machado de Assis compartilhava a desilusão de alguns velhos companheiros de lutas políticas, depois de ver que o gabinete comandado por Cansansão de Sinimbu não fora fiel ao programa liberal de 1868, rasgando-o, como, freqüentemente, fazem muitos  partidos quando chegam ao poder.

Diz o autor que o funcionário continuaria a cumprir, anos a fio, fosse qual fosse o gabinete da vez, a obrigação – exercida com evidente convicção ideológica e, acrescentamos, solidariedade racial, não carregasse ele na cor uma parte de sua origem – “de defender as prerrogativas do poder público contra a sempiterna sanha senhorial”. Para o historiador, o literato Machado de Assis transformaria a experiência histórica da década de 1870 na força criadora que fecundaria livros inesquecíveis como Memórias póstumas de Brás Cubas e outros posteriores.

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MACHADO DE ASSIS, HISTORIADOR, de Sidney Chalhoub. São Paulo, Companhia das Letras, 2003, 345 págs.  E-mail: editora@companhiadasletras.com.br

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Adelto Gonçalves, doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo, é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: marilizadelto@uol.com.br

Suplemento Cultural, de A Tarde, de Salvador - 16.04.2005

12-04-2005

ENCONTRO COM O MESTRE MALANGATANA

CARTAS DA BEIRA DO INDICO

ENCONTRO COM O MESTRE MALANGATANA

O Mestre como era há uns bons anos atrás!

Moçambique teve sempre personalidades de renome mundial, nomeadamente no desporto onde se destacaram nomes como Eusébio e Coluna e mais recentemente Lurdes Mutola campeã mundial e olímpica de atletismo.

Após a independência destacaram-se, no mundo das artes e das letras, duas outras personagens que são hoje a coqueluche deste jovem país: Malangatana e Mia Couto. Eles são as figuras de topo de uma vasta plêiade de pessoas ligadas à cultura de Moçambique justamente porque as suas obras se tornaram muito conhecidas e atingiram grande fama praticamente em todo o mundo.

Como pessoas célebres que são, ganharam o estatuto de figuras públicas muito conhecidas e estimadas por toda a gente.  Ambos foram dotados, para além das suas capacidades artísticas e intelectuais, do dom da simplicidade que o povo tanto aprecia. Numa palavra, eles são o orgulho dos moçambicanos!

Curiosamente, eles são muito amigos e, para minha felicidade, ambos fazem parte do número dos meus velhos amigos moçambicanos, conforme tive já a oportunidade de aflorar  no meu Site pessoal e  em trabalhos anteriores inseridos nesta comunidade. Eles se cruzaram na minha vida em situações diferentes mas tão marcantes que me dão o direito de lhes reclamar alguns momentos de cavaqueira nem que para isso tenha de invadir os portões de acesso às suas casas!

Só que, em relação a Malangatana, as coisas não têm sido fáceis pois já não o encontrava a jeito há cerca de quinze anos. Os seus afazeres e constantes viagens pelo estrangeiro não me proporcionaram uma aproximação durante todo este longo tempo, apesar de várias tentativas que sempre fiz durante as minhas regulares estadias em Moçambique.

Conseguir a aproximação a esta importante figura pública, que sendo originária do povo humilde prima por ser um homem simples e modesto, não é muito fácil uma vez que a sua ocupação profissional o absorve totalmente,  quer no atelier a pintar e gravar, quer a viajar por esse mundo fora ocupado nas suas exposições pessoais ou a participar em congressos, exposições ou colóquios do seu ramo. É ainda membro da Assembleia Municipal de Maputo, um cargo político que lhe trouxe imensas responsabilidades nomeadamente na recepção de delegações estrangeiras ou individualidades que se deslocam a Moçambique e cujo estatuto implica atenções especiais da parte do Governo. Ele é um digno anfitrião e um autêntico ex-libris da cidade capital e do próprio país.

O DESEJADO ENCONTRO

Finalmente, o tão desejado encontro aconteceu no passado dia 21, na sua casa-atelier do bairro do Aeroporto em Maputo, tendo para tal recorrido à intervenção do  Mia  que contactou  o Mestre acabado de regressar de mais uma viagem a Portugal.

Como minha filha Paula tem também muito à vontade junto deste ilustre personagem, foi ela quem completou os acertos finais para o encontro e fez questão de me acompanhar munida da “Olympus” para registar e colher imagens do mesmo e do magnífico museu deste consagrado artista.

Antes de tomarmos o caminho para aquele bairro tive ainda a oportunidade de reler as partes mais significativas dos textos do seu Livro-Álbum “Malangatana”, editado em 1998 e que felizmente me fora oferecido no último Natal pelo mano mais velho do meu genro Armando Couto. Isto para reavivar a memória em relação ao fabuloso palmarés deste ilustre moçambicano e ficar mais preparado para o visitar no seu habitat.

O Livro "Malangatana"

A rica biografia deste homem e as considerações sobre a pessoa e sua obra, feitas por consagrados críticos das artes e das letras, quer nacionais quer estrangeiros, expressas naquela excelente obra, deixaram-me francamente confuso sobre o sucesso do encontro que estava prestes a ter com o famoso pintor, sendo que ele agora é um ídolo de reputação nacional e internacional. Interrogava-me se ele me iria reconhecer e se não me dispensava mais que algumas palavras de circunstância e os cumprimentos da praxe!

Lá fui a meditar nas minhas dúvidas,  confiante apenas nas faculdades persuasivas para dar a volta a eventuais dificuldades e evitar que o desejado encontro com o velho amigo acabasse numa frustrante jornada sentimental.

ANDO NA TUA TRÁS...."

Ando na tua trás” há mais de quinze anos! Foram estas as primeiras palavras que dirigi ao velho amigo que nos aguardava no atelier de trabalho do rés do chão da sua grande residência, usando assim uma expressão popular muito em voga em Moçambique. A sua reacção não se fez esperar com um “Bayete Gonçalves” e uma palmada na mão à boa maneira do cumprimento entre os jovens actuais, seguida de um prolongado abraço.

"Bayete Gonçalves!"

A final fui reconhecido e o à vontade do nosso anfitrião foi tão manifesto que a breves momentos a descontracção era recíproca. Que alívio!

O que se seguiu durante toda a tarde daquele dia memorável, foi para mim e para a Paula um autêntico deslumbramento. Um desfiar de recordações de um passado já com mais de meio século, desde que nos conhecemos em Marracuene, sede administrativa da  sua terra Natal onde iniciei a minha carreira em Moçambique no longínquo ano de 1952. Ele tinha nessa altura 16 anos e eu 20!

Durante os anos que precederam a sua ida para Lourenço Marques, em 1956, Malangatana fez-se notar na vila pela sua participação em várias actividades culturais (música e danças tradicionais) e desportivas. Naturalmente que os nossos encontros se sucederam nomeadamente no futebol que ambos praticamos e também na Administração onde ia com frequência tratar de assuntos pessoais ou visitar um seu parente próximo que ali trabalhava comigo.

Depois de reavivarmos a memória citando factos e pessoas desses velhos tempos, nomeadamente  dos administradores mais marcantes dessa época (Marques da Cunha e Granjo Pires), do padre Lourenço (que nos casou), dos Panguenes, dos Andrades, dos Lopes de Castro, dos Verdes, dos Bourlótos, dos Figueiredos (meus sogros), do velho Nunes (do Pavilhão de Chá), dos Faria Lopes e Lopes Marques (chefes de estação dos Caminhos de Ferro),  dos Parentes, do Mendes (das excursões fluvias) e de outras figuras daquela bonita vila à beira do Incomáti,  alargamos as nossas  recordações ao período do pós independência quando ele era responsável do Departamento de Cultura do Ministério do Trabalho e eu adjunto da direcção dos Serviços de Fauna Bravia do Ministério da Agricultura, altura em que os nossos contactos foram frequentes pois estes Serviços forneciam o marfim de elefante para o sector de artesanato sob sua responsabilidade naquele Ministério.

Com a Paula numa das salas onde estão belos quadros e esculturas

A partir de 1990, data do meu afastamento de Moçambique para me fixar em Portugal, limitei-me a acompanhar, de longe, as notícias sobre a carreira fabulosa deste homem, que se tornou um dos pintores mundiais de vanguarda da actualidade, assim como escultor de grandes méritos.  A sua fama o tornou uma figura de grande prestígio, acumulando prémios sobre prémios, condecorações sobre condecorações, incluindo a Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, de Portugal. A sua vastíssima obra (Pintura, Desenho, Aguarela, Gravura, Cerâmica, Tapeçaria e Escultura), encontra-se em vários museus e galerias públicas, bem como em colecções privadas, espalhadas por inúmeras partes do Mundo. Tem ainda pintados ou gravados imensos murais não só em Moçambique como noutros países africanos, da Europa e do continente americano. O seu espólio pessoal, de valor incalculável, enche literalmente toda a sua grande casa-atelier de Maputo, aguardando o seu próximo destino que será o Museu da “Fundação Malangatana”.

e

Aspecto parcial do atelier

Toda a actividade artística e social deste grande senhor não o afastou, contudo,  dos contactos com o povo humilde e sobretudo das crianças. Na sua terra natal ele impulsionou um importante projecto cultural – Associação do Centro Cultural de Matalana – de cuja direcção é presidente. No seu bairro criou uma escolinha para as crianças aprenderem a pintar. Tem sido membro de Júris de vários eventos nacionais e internacionais das Artes Plásticas, mantendo a ligação à UNICEF relativamente ao Júri para os Cartões de Boas-Festas.

A sua próxima obra, que será a maior, é a sua própria “Fundação Malangatana”, que será erguida também na sua terra natal e para a qual já conta com o respectivo projecto do seu grande amigo, o arquitecto e pintor português Miranda Guedes (Pancho), um dos grandes impulsionadores da carreira deste artista na sua fase inicial quando era ainda um modesto empregado de bar e da cozinha do velho Grémio (o Clube de Lourenço Marques), de parceria com o Dr. Augusto Cabral actual director do Museu de História Natural.

Crianças angustiadas

As ligações de Malangatana a Portugal são muito estreitas, quer no âmbito institucional quer no relacionamento com as pessoas que o acarinharam nos tempos do seu lançamento na vida artística. Aqui tem feito muitas exposições individuais e elaborou, no Pavilhão de Moçambique da Expo-98 na qual foi Vice-Comissário Nacional para a área da Cultura a de Moçambique, uma escultura móvel bem como um bonito painel mural.

O seu Livro/Álbum “Malangatana” é uma encantadora obra por onde perpassa toda a magia e esplendor de uma vasta colecção das suas pinturas, desenhos e esculturas. Foi numa das páginas brancas deste Livro que o Mestre pintou   uma bonita aguarela assinalando a visita que lhe fiz e  que simboliza a nossa velha amizade. A todo o tamanho da página ao lado escreveu uma mensagem que muito nos sensibilizou e que é uma evocação especial dos velhos tempos de Marracuene (ex-Vila Luisa), com especial destaque para as suas belezas naturais, para os hipopótamos e crocodilos do grande rio Incomáti e para as actividades turísticas  da vila. Escreveu ainda, numa outra página, uma dedicatória para as comunidades de Maputo, Inhambane,  Beira e outras, que aqui deixo como se impõe.

Na fase inicial da pintura

A Paula observando o Mestre quando executava o quadro

Quadro e dedicatória concluídos

A Mensagem para as Comunidades

Agradecendo ao Mestre!

Antes de deixar a casa-atelier de Malangatana, percorremos todas as salas onde se encontram expostos muitos dos seus quadros e  esculturas, obras estas que executou ao longo da sua carreira e que foi seleccionando para fazerem parte do seu espólio inegociável. 

Subindo para o 1º andar da maravilhosa casa-atelier

A visita acabaria pelas cinco da tarde porque Malangatana tinha tarefas na Assembleia Municipal, até onde o acompanhámos a seu pedido. Antes de nos despedirmos dirigiu-se à Paula e repetiu o que já nos  havia dito no seu atelier: não te esqueças que quero fazer uma festa convosco e restante família em Marracuene, na próxima vinda de teu pai a Moçambique!

A despedida junto do Município

Nas horas que se seguiram a este encontro  meditei profundamente  sobre aquela figura imponente e bonacheirona, na sua simplicidade e delicadeza de trato, na sua sabedoria, na sua obra que os críticos tanto elogiam, na áurea que o envolve e como conserva tanto vigor e alegria de viver a pesar de rondar os 70 anos e ultimamente ter sido sujeito a delicadas intervenções cirúrgicas. Quando deixei este ilustre personagem à porta do Município de Maputo, naquela tarde inesquecível sentia-me imensamente feliz e, tal como Mia Couto escreveu em 1986 a propósito de mais uma exposição do Mestre - “Sai-se de uma exposição de Malangatana com a sensação de que já não somos os mesmos que éramos quando entrámos”- , também fiquei com a sensação de que já não era o mesmo!

24 de Março de 2005

Celestino (Marrabenta)

NOTA FINAL

Esta “Carta” foi alinhavada três dias depois do encontro com Malangatana, a bordo do avião da TAP durante a viagem de regresso. Só hoje é publicada porque fiquei sem ligação à Internet devido a não ter movimentado a conta da Telepac durante mais de três meses. Restabelecida (e alterada) para o tão desejado ADSL, aqui deixo esta que é a última da série de 16 modestas crónicas que ao longo dos mais de cinco meses de permanência em Moçambique tive o prazer de escrever para as Comunidades onde muito me orgulho de participar. Prometo voltar com outras notícias e imagens que trouxe na minha bagagem!

Um abraço do tamanho de Moçambique para todos os que tiveram a paciência de ver e ler este espaço!

Quintinha Marrabenta, em Amor, 10 de Abril de 2005

Celestino (Marrabenta)

P.S.:Ao amigo Celestino Gonçalves o meu abraço e agradecimento por tudo o que aqui nos transmite e emociona.

Fernando Gil

11-04-2005

MORABEZA

Dia 11 e 25 Abril às 21.30h na livraria Ler Devagar

De Constantino Martins

Portugal, 2004/ 90 min

Lisboa. A minha cidade. Dizem que está sempre em obras, uma espécie de estaleiro gigante. Acho que é verdade, sempre vi Lisboa em obras. E pensar que as mesmas mãos que lhe colocam os tijolos também abraçam as cordas de um violino. Um filme sobre música Cabo Verdiana  e não só.

Ler Devagar - Rua de São Boaventura, 115. Bairro Alto. Lisboa. Telefone:21.324.1000 fax:21.325.9994

06-04-2005

"38 anos depois – MOÇAMBIQUE REENCONTRADO POR UM COMBATENTE"

Autor: Manuel Pedro Dias

Editora: Edição do autor – Odivelas, Portugal – 2005.

ISBN: 9729060371 (Depósito Legal n.º 22386/05)

Assunto: História do regresso de antigos combatentes aos locais de acção militar.

Outros dados: O livro tem 128 páginas e 276 fotografias a cores e 5 mapas.

Comentários:

Manuel Pedro Dias é um dos dinâmicos organizadores do Batalhão de Caçadores n.º 1891, que cumpriu o serviço militar em Moçambique, entre 1966 e 1968.

Em 2004, em conjunto com antigos companheiros da vida militar, organizaram uma visita a Moçambique, com destaque para os locais onde fizeram a sua vida militar.

Desta visita aos cenários de guerra, passados quase duas décadas e meia, recordaram e viveram dias de confraternização com antigos amigos e adversários e foi desta deslocação que nasceu a ideia de produzir um livro com todas estas informações.

Assim, o livro reflecte a comparação entre o que os antigos militares conheceram e o que de facto encontraram, inserindo fotografias do início da sua campanha militar e os mesmos locais visitados 25 anos depois. Foi deste modo que resultou um livro que transborda memórias e recordações, conseguindo o autor até comparar situações bem concretas dado o espólio fotográfico que reuniu no seu baú de memórias.

Moçambique, o norte da acção militar e até as grandes cidades, são revisitadas e comparadas com os finais da década de sessenta.

Um testemunho a não perder, dada a qualidade do material que o autor em boa hora conseguiu reunir e dar à estampa em edição própria. 

COMO ADQUIRIR O LIVRO:

Contactar o autor, Manuel Pedro Dias - telemóvel 914631055

ou pelo e-mail - manuelpedro.dias@iol.pt

Carlos Serra

The Diana Files: The Huntress-Traveller Through History

Adelin1 Fiona Claire Capstick foi galardoada com o Prémio Literário do Internacional Coucil for Game and Wildlife Conservations (CIC) relativo ao ano de 2005, foi anunciado pela Princesa Maria zu Stolberg-Wernigerod, com o seu livro The Diana Files: The Huntress-Traveler Through History, publicado na África do Sul pela prestigiada Editora Rowland Ward Publications de Johannesburg.

Fiona é co-autora, com Adelino Serras Pires, do livro Ventos de Destruição, em edição portuguesa da Bertrand Editora, em

http://www.macua.org/livros/serraspires.html

Podem ver a release-press em

Download fiona_press_release.pdf

05-04-2005

A história revisionista omite factos e personagens reais...

"GUEBUZA: A Paixão pela terra"

Autor:

Renato Matusse

Editora:

Edição ‘Macmillan Moçambique L.da’ – Maputo, Moçambique – 2004.

ISBN:

0797826653 (WIP 864)

Assunto:

Biografia de Armando Guebuza.

Outros dados:

O livro tem 256 páginas e 100 fotografias, 80 a p&b e 20 a cores.

Comentários:

A leitura deste livro, obra de um pretensioso e nada modesto "professor doutor com tese de doutoramento" que até gasta algumas das páginas iniciais a explicar porque é PHD !!! (Páginas XIX e seguintes...), é algo de confrangedor e à boa maneira das escolas do desaparecido leste socialista, faz da história uma ciência revisionista, em que a verdade dos factos é a verdade da ideologia que perfilha.

Renato Matusse tentou branquear a história recente de Moçambique neste pretensa biografia de Armando Guebuza, para tal, a verdade dos factos foi completamente escamoteada e tudo o que era incómodo (Factos, nomes, acontecimentos etc), foi pura e simplesmente omitido!

Vejamos.

Sobre a história da luta de libertação nacional e as negociações de Paz e o Acordo de Roma que conduziu ao pluripartidarismo.

No primeiro caso, foram omitidos todos os nomes dos chamados ‘dissidentes’ (Miguel Murrupa, Joana Simeão, Domingos Arouca, Uria Simango, Lázaro Kavandame, etc.), que se crusaram inevitavelmente com o ‘biografado’ além de não terem existido diversos acontecimentos negros na história da FRELIMO, como a luta pelo poder entre o grupo de Simango e a ala marxista de Machel e Marcelino, a morte de Filipe Magaia e a ascenção de Samora no Departamento de Defesa, bem como a luta em torno da Escola de Quadros em Dar-es- Salam, entre muitos outros episódios...

No segundo caso, Armando Guebuza surge nesta ‘obra biográfica’ como um autêntico herói do diálogo e da Paz! A ele se deve êxito das conversações de Roma, que conduziram o país à paz e às primeiras eleições pluripartidárias! Ok, mas afinal, essas conversações foram realizadas com quem? O leitor que não souber ou que tiver dúvidas fica sem saber com quem foram feitas essas negociações e quem foram os seus protagonistas, para além do herói Guebuza obviamente!

De facto, o autor cometeu a proeza de nunca referir que Armando Guebuza representava uma das partes da guerra civil, a FRELIMO, e que do outro lado havia a RENAMO que por seu lado tinha uma delegação chefiada por Raúl Domingos...

Nem uma única vez os nomes de Raúl Domingos (o outro negociador a quem se deve a mão estendida e a deposição das armas da guerrilha), Afonso Dhlakama, Vicente Ululu Joaquim Vaz, ou até a sigla do próprio movimento com quem foi estabelecida a paz são editados nesta pretensa obra, do tipo biográfico e histórico.

Armando Guebuza foi "o negociador chefe para a paz em Moçambique", escreve o autor, mas afinal negociou com quem? Nunca se refere com quem afinal foi negociada a paz...

Jacinto Veloso foi à África do Sul negociar a paz em 1984, e nunca se diz com quem... Negociou com os sul-afrianos e com uma delegação da RENAMO, composta entre outros por Evo Fernandes e Joaquim Vaz, pois para tristeza do autor até foram publicadas fotografias do fato na imprensa internacional!

Se afinal Armando Guebuza negociou com ninguém a paz em Roma, esteve lá porque "haveria a garantia de que a FRELIMO não iria negociar a capitulação nem a partilha do poder..." É assim que o autor, suprime factos importantes da realidade (a outra parte nas negociações), e logo a seguir cita o seu herói como sendo uma garantia de que não haveria rendição ao adversário... Mas, afinal esse adversário que nunca se cita é existente e amedronta ou a garantia de que não haveria capitulação do governo da FRELIMO não passou de um sonho mau?

De facto, a falta de rigor e qualidade deste ópusculo ideológico, tipo livrinho de propaganda, é tanta que fiará na história recente de Moçambique, como tendo sido escrito por alguém, que apesar de puxar pelos seus galões de ‘professor doutor’, não passa de um bajulador e o pior do que os brasileiros chamam de ‘puxa saco’, ou em português vernáculo ‘graxa’.

Duas notas finais. No prefácio do livro, assinado por Joaquim Chissano, é referido que Armando Guebuza é "o meu ‘compagnon de route’ " !!! Mas, alguém tinha dúvidas que os dois homens sempre foram cúmplices? Era preciso dizer publicamente nesta pretensa biografia?

A última nota para o texto inserido na contra-capa, assinado por Nelson Mandela. Diz o ex-presidente sul-africano que Armando Guebuza "era um homem de talento excepcional" e que há muito houvia referência sobre a sua popularidade... Se Mandela se desse ao trabalho de, à semelhança do que fez na África do Sul com a ‘Comissão da Verdade e Reconciliação’, ouvir os moçambicanos, ficaria de certo a saber quem foi o autor e protagonista das expulsões dos portugueses "20/24" com os passaportes carimbados como traidores e as rusgas nas cidades em busca de tudo o que era contrário à FRELIMO para produzir o ‘Homem novo’ frelimista através do internamento nos Campos de Concentração das províncias nortenhas, onde pereceram milhares de pessoas sem que até hoje os familiares conheçam sequer o destino das suas ossadas!

Obviamente que esta acção e responsabilidade de Guebuza é também completamente omitida. Afinal, toda a verdade histórica é omitida.

Ingloriamente, porque muitos moçambicanos já tiveram a coragem de por em letra de imprensa os seus testemunhos, que têm dado a conhecer a verdadeira face deste heróis solitários de coisa nenhuma, porque segundo Renato Matusse só os próprios existiram...

Este é um livro que deve ser lido e guardado para ficar a conhecer o caracter dos seus autor e ‘biografado’. A não perder e ler rapidamente para acreditar.

CSerra - 'Chilinguine'

31-03-2005

E a Pessoa de Fernando Ignorou África?

Em breve nas livrarias de Portugal, com a chancela da Universitária Editora, e autoria de João Craveirinha:

Livrocapapessoa_1 

29-03-2005

URIA SIMANGO - Um homem, uma causa (3/3)

João Craveirinha

email: joaocraveirinha@yahoo.com.br

CONCLUSÃO – Duas Fontes não paradigmáticas

Em relação ao livro de Barnabé Ncomo e sem pretender fazermos um juízo que possa ser mal interpretado deixaríamos no entanto reparos sobre duas das fontes apesar do merecido mérito de “relatos” da época, pecando no entanto, pela intenção óbvia subjacente: Tratam-se das referências à participação do intitulado grupo Português dos DEMOCRATAS de Moçambique, citado na página 209 do Livro Moçambique – Sete de Setembro – Memórias da Revolução, escrito em Dezembro de 1976, no Rio de Janeiro – Brasil, por Clotilde Mesquitela. A autora, esposa do deputado Gonçalo Mesquitela da A.N. (de Oliveira Salazar) é Mãe dos irmãos Mesquitelas, fundadores em 1974, de uma organização para-militar portuguesa, ultra nacionalista e colonial –, Dragões da Morte. Segundo seu Boletim Informativo nº 1 esta “organização clandestina” no preâmbulo, 1º, visava -…”pôr termo às conversações com a FRELIMO, nem que tenhamos que começar a fazer TERROSISMO URBANO, para fazer calar os inconscientes que dão vivas à FRELIMO.”…Este grupo “dizia” ter …”20. 500 homens armados de todas as raças e credos espalhados por todo o Moçambique”…in Moçambique 7 de Setembro, página 246, Mesquitela, Clotilde.

O referido livro, faz uma referência incorrecta (entre outras), mencionando na página 104, linha 5 e 6, imputando ao cronista desta coluna, actos nunca praticados pelo mesmo. Refere-se a eventos pouco antes da ocupação da RCM – Rádio Clube de Moçambique que passamos a citar: - …”Recebemos a indicação de que Stélio e Zito Craveirinha e Isaías Tembe, agitadores da Frelimo, andam a distribuir G-3 no «caniço». E, em consequência disso, já tinham dado entrada na morgue do Hospital Miguel Bombarda três corpos de negros. Ao obtermos a confirmação do Hospital, soubemos mais, através de um enfermeiro que, perfeitamente desorientado, nos disse: «Entraram três mortos, mas dois não passavam de brancos com a cabeça rapada e pintados de preto». Identificados um pouco depois, viemos a saber serem de dois universitários que se tinham infiltrado, para tentar provocações, na intenção de levantar a zona do «caniço» contra a população branca, e que os próprios pretos tinham liquidado!”…e mais adiante: …”As buzinas não paravam, o hino era cantado com a mesma fé e desejo de um Moçambique Livre e Português”… Na altura destes eventos o cronista desta coluna aguardava “julgamento” em Tanzânia na FRELIMO. E só teria havido uma G-3 nas mãos do Isaías (dos pesos e halteres). Nem a sabia manejá-la devidamente. Tinha “capturado” a um elemento anti – Frelimo madeirense de um grupo vindo da África do SUL (?!), que se havia introduzido na Mafalala – “ 1ª zona libertada” de LM. Mas isso é outro assunto. Era este cenário que Uria Simango iria encontrar em Lourenço Marques e ingenuamente acreditaria poder fazer “manobras de pressão” à FRELIMO numa partilha de Poder com elementos portugueses anti – Independência. À partida tudo se conjugaria para um fracasso político do COREMO a que aderira. Os portugueses coloniais não estavam interessados em o apoiar rumo a uma Independência mas utilizando-o a um estilo UDI – Independência unilateral à Ian Smith da Rodésia (na altura), mas vinculados a Portugal. Uria Simango ao se aperceber do beco sem saída em que se envolvera recua para Malauí(Malawi), onde o inguaze – Presidente Hasting Kamuzu  Banda sela seu destino entregando-o à Frelimo.

Outro “pequeno” reparo ao livro de Ncomo é o da incorrecção da importância havida no papel do dito grupo de DEMOCRATAS Portugueses (MDM), nas conversações com o MFA versus FRELIMO, conducentes à Independência. In página 288 nota 431em rodapé. O processo inicial directo de contactos com o MFA e a FRELIMO, foi efectuado pelo grupo dos antigos presos políticos da FRELIMO tendo por porta-voz o Poeta José Craveirinha. Não é somente por ser um Poeta de renome que se encontra no Panteão dos Heróis mas este detalhe terá pesado muito. O Marechal Costa Gomes e o MFA não tinham autoridade política sobre José Craveirinha e seus camaradas da FRELIMO, antigos companheiros de prisão.

À posterior surgiria o “Movimento dos Democratas de Moçambique”, mas de Portugueses, a que Mário da Graça Fernandes fez parte. Aliás, Mário da Graça Machungo (Mahlungo?). Um dia contamos o resto.

Ao que nos levou o livro – URIA SIMANGO – Um homem, uma causa. Em boa hora, graças ao empenho e pesquisa de Barnabé Ncomo. Só quem trabalha se expõe. Que estas linhas sejam um pequeno contributo e estímulo para mais trabalhos seus neste campo difícil e “perigoso” da investigação da História recente, numa busca incessante de aperfeiçoamento do rigor da verdade. Um muito obrigado pelo privilégio de termos relido este livro polémico, mas necessário aos estudiosos e ao cidadão Moçambicano “cego” e carente de suas Raízes e Identidade. (in Jornal O AUTARCA da Beira) – FIM. 29.03.2005

28-03-2005

URIA SIMANGO - Um homem, uma causa (2/3)

Dialogando

Por: João Craveirinha

E-mail: joaocraveirinha@yahoo.com.br

CRÍTICA LITERÁRIA ● CRÍTICA LITERÁRIA

EXÓRDIO(2)

Foi – nos possível “consultar”, o livro de Barnabé Ncomo, citado em epígrafe, 1ª edição, graças ao empréstimo do mecunha “malantro”, Fernando Gil do “saite” Macua. Livro – oferta, autografado pelo autor B. Ncomo, dedicado a F. Gil, português natural de Nampula (ilha).

Grosso modo e infelizmente, o livro, não tem um estilo definido de narrativa literária. De amiúde, envereda por um tipo de escrita Histórica mais credível e contraditoriamente noutros casos, sem enquadramento sintagmático, cita fontes duvidosas por partirem de opositores à Independência dos “Pretos” – espinha atravessada na garganta de muitos pró-coloniais, saudosistas do Império perdido. Presume-se que a intenção de B. Ncomo não seja essa. Talvez, a falta de distanciamento “étnico-cultural” e de perspectiva Histórica, lhe tenham impedido separar o milho do capim. Todavia, esse aspecto não lhe retira o mérito de pioneirismo, nesta senda pelo levantar do “véu”, de um determinado período da nossa História “apócrifa” ou maldita. As fontes devem se cruzar para avaliação e contextualidade.

APROFUNDAMENTO : Etno-História Moçambicana

A falta do ensino da etno – História nas Universidades Moçambicanas é uma falha gritante que pode criar confusão na actualidade em relação ao inter relacionamento e consanguinidade étnica no passado. O próprio Reverendo URIA SIMANGO tem avoengas (avós) Rongas iMpfumos vindas do SUL. A Mãe era uma iMpfumo por ser TIVANE – em linhagem directa NHONDZOMA do Rei inLharuti iMpfumo (inHLARUTI). “Regressado” da Suazilândia no século XVII / XVIII (1600 / 1700) da região de Psatine (inHlati inkulo), fixa-se com seus filhos – iMpfumo “iMpfumo”, Polana, Massinga e TIVANE (uá in’Tiwane). Após a morte do pai, guerras inter – clânicas provocariam uma diáspora entre os príncipes – irmãos. iMpfumo sai vencedor e fixa-se na Matola (dos iMpfumos maTsolo mais tarde). Uá iMpfumo, governaria toda a região da actual caMpfumo / cidade Maputo, limitando com a caTEMBE, moAMBA, maHOTA e maRRACUENE. Massinga migra com seu clã para Inhambane. Polana fixa-se exactamente onde está o Hotel com o seu nome, numa área da Escola Comercial, Ponta Vermelha – Sommerschield / campo de Golfe à Costa do Sol. TIVANE uáMpfumo migra para Gaza. Muitos grupos da região a partir de 1820 seriam integrados no exército inGuni (dos grandes), com a “invasão” de Sochangana – descendente dos Tembes. Entra por maPutso (o verdadeiro), vindo de Pongola (Zulolândia). Seus antepassados teriam saído em 1500, da Ponta Malongano – êMalanguene (caTembe), se fixando na cordilheira dos Libombos. Os TIVANES assim como muitos outros seriam absorvidos e integrados nos regimentos inGunis, do futuro Imperador de Gaza (Sochangana). São levados para Manica e Sofala, em particular entre Mussapa ao Buzi. Não é por acaso que os chefes ou tinDuna de maior confiança de Gungunhana eram os velhos muTAZABANO e SIMANGO já inDaos. Uma das suas tarefas, era a de controlar maGuiguana de maCôssine, antigo submetido – cozinheiro e criado de seu pai umuZila. Os primeiros “maChangana” foram os vaNdao submetidos a Sochangana (Soh – CHANGANA). Muitos anos depois (c. Abril 1889), Gungunhana, o neto, retira-se de Mossurize (e de Udengo onde está o túmulo do Pai). INVADE O SUL DO SAVE com cerca de 100 mil vaNdao, famílias, guerreiros do tempo do pai e gado, com apoio dos portugueses. Massacrariam pelo caminho os pacíficos agricultores e artistas vaLengue (chopes), rumo ao “khokholo” de Mandjacaze (Mand – lha; inKazi), derrotando Binguane Mondlane (Mond-lhane). A origem do nome inDao teria a ver segundo a tradição oral, com a chegada dos novos conquistadores inGunis fugidos de Tchaca Zulo, em 1818 / 20. Um deles, Zuan-guen-daba, ao chegar a uma povoação Shona em Manica, teria dito espetando uma lança no chão : …”iNDAO la mina”…é minha terra…outra tradição diz que iNxaba – inQaba, também fugido de Tchaca, recebido pelas mulheres de uma povoação Shona, de joelhos, batendo palmas, o teriam saudado: …”iNDAO-ú-ê Baba”…seja bem-vindo Pai…

As invasões inGunis na primeira vintena do século XIX, reforçariam o processo de mestiçagem inter étnica. Não nos esqueçamos que os Muchangas (muHLANGA), Mandjazes (Mandlaze), Djalalas(Dlalala), Djacamas (Dlakhama), inGonhamos (inGonyamo), Machavas, Guenhas, Ncomos, Mugabes e muitos outros, hoje assumindo-se como iNDAO / shona, terão a sua origem entre os inGunis ou Zulos a SUL. Um dos chefes de Tchaca Zulo era muHLANGA (Muchanga). Mais tarde se fixariam na região Shona, em Mussapa, nos princípios do século XIX. Em Harare encontram-se iMpfumos (hoje aculturados de shonas). A guerra da RENAMO contra a FRELIMO, finalizaria essa mestiçagem étnica, FORÇADA, em Moçambique. (Conclui na próxima Crónica).

CORREIO DA MANHÃ(Maputo) - 28.03.2005

23-03-2005

URIA SIMANGO - Um homem, uma causa (1/3)

Dialogando

Por: João Craveirinha

E-mail: joaocraveirinha@yahoo.com.br

AMICUS PLATO, SED MAGIS AMICA VERITAS

(Estimo Platão, mas estimo ainda mais a verdade)

Exórdio

Desde o lançamento do livro de Barnabé Lucas Ncomo em 2004 que o cronista desta coluna tem recebido inúmeras mensagens a pedirem um comentário. Insistência essa, por saberem da presença de João Craveirinha em alguns desses últimos momentos históricos de 1967 a 1976, com um intervalo de Junho 1972 a Julho 1974, em Zâmbia, Tanzânia e Quénia, referidos no livro.

É quebrado o silêncio. Mas, escrever sobre o livro é uma tarefa um pouco ingrata por conhecer de relance o Barnabé Ncomo que tem o mérito de ter colocado a “descoberto” um período conturbado da Luta de Libertação Moçambicana, ainda que numa embrulhada de elementos. No entanto, os meus temores se concretizaram –, do livro se ter transformado num panfleto contra a essência da própria Independência em si mesma, por todos aqueles que até hoje estão contra a legitimidade de ter sido conduzida pela FRELIMO (não a herdeira no Poder), mas a Frente de Libertação de Moçambique.

Conjecturar hoje que haveria outra via é extemporâneo.

O colonialismo Português era reticente a qualquer tipo de Independência e ainda hoje tem os seus herdeiros em Moçambique, em Portugal e na diáspora Portuguesa.

Evidentemente que um dia quando se escrever sobre a via político – militar do Comandante FILIPE MAGAIA, talvez aí, sim, o processo tivesse sido outro e mais regiões Moçambicanas teriam sido atingidas pela guerrilha.

Todos os processos políticos da História das Nações tem os seus lados obscuros e violentos. Lamentavelmente é assim. Caso o Reverendo Uria Timóteo Simango, tivesse obtido o Poder, a situação seria igual, com outra face somente. A moeda é sempre a mesma.

Mas sem dúvida, Uria Simango, foi um Nacionalista Africano que regou com o seu sangue de Mártir a Independência

Moçambicana e há que honrar esse legado sem o desvirtuar com os falsos defensores, de HOJE, da Liberdade do negro – africano. Nessa época, essas vozes pró Uria Simango de hoje, se o encontrassem na guerrilha anti-colonial (“o terrorista” Uria Simango), tê-lo-iam fuzilado depois de o torturar pois a convicção Nacionalista era muita em Uria Simango. Não cederia ao colonialismo Português. Uria Simango, protestante envangélico, provinha da escola do Nacionalismo Negro Rodesiano

(Zimbabué) e Sul-Africano do “BLACK MAJORITY RULE” (governo da maioria negra). Raízes profundas de Uria Simango no anti-apartheid da Rodésia e da África do Sul. Apartheid que os imigrantes Portugueses nesses Países e os de Moçambique, na sua maioria, pactuaram e apoiaram. O “moto” – slogan “ Juntos Venceremos” era o da santa aliança entre o Portugal colonial (Angola e Moçambique) e a Rodésia e África do Sul (bóer -africaner). As respectivas 3 bandeiras entrelaçadas (1957 / 1974), simbolicamente, e o projecto da Hidroeléctrica de “Cabora” Bassa, faziam parte dessa

aliança, para a Hegemonia Branca na África Austral. (Cahora).

Esses, hoje, são os que mais choram lágrimas de crocodilo com o livro de Barnabé Ncomo.

O cronista desta coluna, para escrever estas linhas, teve de ter o distanciamento necessário psicológico, não misturando os factos das suas vivências magoadas na própria FRELIMO, no cativeiro, na sua tortura psicológica e física, “ouvindo e sentindo solidariamente” também, a tortura em grupo dos outros. Em particular a do Rev. Uria Simango, próximo do cronista desta coluna, nesses momentos, em Nachingueia, 1975. Em 1976, o martírio continuaria em Mitelela ex- Nova Viseu.

(CONTINUA na próxima segunda-feira 28 e termina na terça-feira 29 Março)

O AUTARCA – 23.03.2005

Premiado “Acampamento de Desminagem”

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O filme “Acampamento de Desminagem”, realizado por Licínio de Azevedo e produzido pela Ébano Multimédia, recentemente lançado em Maputo, foi duplamente premiado no 15º festival de cinema africano, Ásia e América Latina que teve lugar em Milão, Itália de 14 a 20 de Março corrente.


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A obra recebeu o prémio internacional WEEC (World Environmental Education Congress ), para o melhor documentário que mostra a relação entre o homem e o ambiente sob o ponto de vista físico, social e cultural. Também recebeu o segundo prémio da mostra competitiva dos três continentes chamada “Janela sobre Mundo”.
Único a receber dois prémios, “Acampamento de Desminagem”, segundo o comentário do Júri, “os campos minados e as consequências das guerras civis, já foram objecto de muitos documentários, mas Azevedo, inverte a rota do seu filme, voltando a câmara para os homens que hoje desminam os campos”.

ZAMBEZE ONLINE - 23.03.2005

http://www.zambeze.co.mz/zambeze/

Uma lágrima sem dor

Durante vinte e cinco anos, um maronga fechou-se num quarto com um propósito “quixotesco” : fazer um dicionário ronga/

português/português ronga.

E entretanto cantava. E sonhava. E, em dando, gravava: voz grave, talvez nem tanto, muita tristeza, aquela tristeza que só vai na

alma de quem ama porque sabe amar, sabe o que significa amar, sabe que amar é chorar suaves lágrimas perante o espectáculo de uma gota de orvalho numa manhã de Junho, talvez em Mecanhelas.

Ou em Bilibiza. Naqngade, a cidade do futuro, sonho da nossa juventude no delirium tremens de Samora, as consultas no HCM a sete Meticais e meio, os medicamentos de borla, os magarefes a fazer com as nossas mulheres aquilo que não aceitavam que as fizessemos, a troco de um quilo e meio de carne de segunda com osso, os padeiros, as jornadas de trabalho voluntário obrigatório, a dialéctica (análise/síntese/análise) as recepções no “Tapete Vermelho”, o Big Brother a pentear o cabelo ralo com um pente vermelho, ralo, a assobiar Ife Ana Frelimo Zoona, as tardes de sorna e gin made with melaço no quintal da tia Maria dos Anjos, o pessoal do Kuxa Kanema, o pessoal da Tempo, algum do Notícias, Domingo não havia, SAVANA, mediaFax, Demos, O País, o Imparcial, o Embondeiro, o que tal e tal não

havia.

Havia era um túnel no fundo da luz. “Havia uma pedra no meio do caminho/ No meio do caminho havia uma pedra”, Carlos Drummond de Andrade, brasileiro de sangue negro que nem eu.

Ele morreu com menos de 50 anos. Ele morreu de malária cerebral. Se bem que é possível um artista ronga, de sangue ronga, morrer de malária no século XXI.

Ele chama(va) -se Baptista Panguana.

Numa tarde de sexta-feira, Setembro do ano passado, ele pôs um monte de papel sebento à minha frente, na esplanada do Goa, e disse-me: “Fernando: recuperei a minha obra”.

Era um dicionário ronga/ português.Português/ronga. Tinha proposto à imprensa universitária, da universidade pública Eduardo Mondlane, a sua edição.

“Sim”, disse a UEM, “podemos fazer isso.

Mas não vamos dizer que o dicionário é seu.

É património cultural da nação, cê tá vendo ?”.

Às três da tarde de sábado passado, 19, fui enterrar o Ermelindo Mwya, Coronel da Frelimo na reserva. Amigo daqui, do lado

esquerdo do meu peito.

Duas horas antes, na mesma capela do HCM, tinha enterrado o Baptista Panguana.

Sem lágrimas.

Lembrei-me apenas que lágrima em ronga se diz nyembeti.

Fernando Manuel – MEDIA FAX – 22.03.2005

14-03-2005

MAIMUNA BUNDASTAG da Araújo Street (Conto ex - Erótico )

João Craveirinha

email: joaocraveirinha@yahoo.com.br

EXÓRDIO

Maimuna era uma mulher exuberante mesmo nos seus 65 anos de idade, restos dos tempos da sua beleza radiosa, do ano de 1960 com 20 anos. Era daquele tipo de mulher de pele de veludo cor de cacau que antes de entrar num sítio já estava entrando com seus mísseis Pershing peitorais, made in Moçambique, dali dos lados de Inhambane. E depois de sair passando por uma porta, ainda estava saindo com o seu Bundastag rico e volumoso como um Parlamento, mas para melhor, pois muito bem torneado, proporcionalmente. Aliás era no seu Parlamento (de Maimuna), onde grandes debates poliglotas tinham tido lugar. Isso, antes da queda (?!) do muro da vergonha das bandas da Araújo street, na antiga Lourenço Marques do xicolonhi muMadji, vulgo Português de “Lijibóa”.

Bem, Maimuna tinha um corpo fantástico, adelgaçando-se numa cintura fina, cintura de pilão explodindo numas ancas poderosas e afunilando-se no seu centralismo democrático, num estreito de Gibraltar com um V de vitórias confirmadas, dos inúmeros desembarcados na praia molhada de Dunkerque, do seu canal de Moçambique. Maimuna, provinha de Inhambane, conhecida pelas noitadas dos bailes de “chongaria” no barracão em “Santarém” no meio do coqueiral, não longe da Fortaleza na terra dos “fai Kóko”. Região de especialistas da cozinha fina “afrodisíaca”, de mariscos com leite de coco ou de amendoim, arroz branco solto, “ashar” de manga picante e da deliciosa casquinha de caranguejo de Inhambane e ainda bolinhos, chá carregado tipo Ceilão, bem quente, com leite condensado. Mas isso são coisas do passado em que Maimuna coitada, depois de abandonar a terra natal “migrando” para caMpfumo (Lourenço Marques), sobreviveria na Araújo street, hoje reclassificada como rua de Bagamoyo, em (des) homenagem a essa escola dos tempos da luta armada contra o “inkalonhi mupuiti”. Traduzido do kiMakonde, dará colono português.

DESENVOLVIMENTO

Ironicamente, Bagamoyo (Tanzânia), ao contrário desta (rua), Bagamoyo falsa, era uma escola secundária por onde passaram quadros do Moçambique Independente. A rua Bagamoyo em Maputo, é uma reciclagem da rua Araújo “ mui mal parida” da prostituição. Na verdadeira Bagamoyo em Tanzânia (1968 / 1974), pelo menos nesse tempo, não se falsificavam certificados de acesso à Universidade. Actualmente, talvez seja possível não ter a 9 ª classe e com o dinheiro do pai comprar em alguma Escola Secundária ou Universidade Moçambicana, esse acesso Universitário e com mais dinheiro e sorte lá virá uma bolsa de estudo talvez para Portugal onde esse estudante poderá se alienar totalmente. Não havia o mínimo de bases ao sair de Moçambique. O que esperavam? Milagres ou maCumba? Pior que no tempo colonial dos “negros assimilados portugueses”. Esses pelo menos tinham “staile e finesse”. Bebiam conhaque com os “ drs brancos”, fumavam charuto, e a maioria só com 4ª classe. Até se davam ao luxo de brincar com a língua portuguesa escrita, falada e de bonita caligrafia. Tal era o nível superior para irritação do cantineiro “reinol”, vindo do “Reino” de Portugal. Ele que vinha civilizar os “pretos” sairia civilizado com estes. É !! Contradições do colonialismo em África!

CONCLUSÃO

Mas voltemos à nossa personagem. Maimuna, Rafique (amiga em suahili), seu nome de nascença. Foi apelidada de Bundastag por um marinheiro alemão –, o Fritz de Hamburgo, freguês habitual, quando o seu navio mercante aportava a LM, cidade colonial capital. Essa assiduidade germânica, ficaria impressa no código genético dos olhos verdes e cabelo alourado de um de seus filhos.

Em 2005, Maimuna já uma respeitável senhora e avó de família, andava triste. Passara por todo um processo de auto-reabilitação com o seu engajamento (não dos “gajos” que conheceu), mas sim nacionalista no assumir de uma consciência de pessoa humana, vítima também de um colonialismo que pelos vistos a perseguiria (não a eterna “Perseguida” no meio das suas coxas), mas perseguida pelo passado (com suas “ex-colegas”), através de fotografias expostas no carrossel das auto – estradas da comunicação. Torna-se grave, sem a devida auto-censura, no mínimo, tapando os olhos das retratadas, reconhecíveis pelos seus descendentes, amigos e sabe – se lá mais quem. Este tema na “Linha d'Água”, não se afundou e navega muito bem pelas auto -estradas do cyber espaço neste momento. Abusar passados 45 anos, ainda, com as inguavaniçes (prostituições) da imagem, à custa das coitadas vítimas do xicolonhi, é indigno. Talvez porque essas mulheres retratadas, sejam material de ÉBANO (para os autores), e não seres humanos.

Daí a insistência “exibicionista” para gáudio da sociedade machista e as mulheres infelizmente ainda batem palmas. Se isso fosse na Europa ou América, sem consentimento das visadas, dava Tribunal, porque NÃO PRESCREVE no tempo.

CORREIO DA MANHÃ(Maputo) - 14.03.2005

10-03-2005

Orlando da Costa - Sem flores nem Coroas

Publicações Dom Quixote / Lisboa, 2003
         
Nascido em Lourenço Marques (1929) e tendo vivido a infância e adolescência em Goa, Orlando da Costa radicou-se na capital em 1947 e licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras de Lisboa. Estreou-se como poeta em 1951 (A Estrada e a Voz), mas a sua actividade literária desdobra-se sobretudo pela ficção e pelo teatro, onde se destacam romances como O Signo da Ira"(1961), Podem Chamar-me Eurídice (1964) ou Os Filhos de Norton (1994) e a peça agora reeditada mais de trinta anos sobre a sua primeira edição de 1971.
Sem Flores Nem Coroas retoma esse mundo distante do período colonial português, numa Goa que ainda não tinha luz eléctrica, mas incide nos seus três actos na questão da “perda da Índia” ou na eliminação de Goa, Damão e Diu do império português em tempos ainda salazaristas. Tal como fez no romance O Último Olhar de Manú Miranda (2000), Orlando da Costa regressa às terras de origem e, com todo o atrevimento literário em pleno período marcelista, escreveu esta peça de denúncia e de protesto no seio de uma família goesa que vive o drama da perda de identidade por entre conflitos que de todo se não resolvem ou entendem, mas na intenção denunciadora de uma realidade social e humana que sempre clamava por justiça.         
Ainda sob a forma de um teatro bem empenhado, Sem Coroas Nem Flores, pela profunda intensidade dramática, é de facto um claro desafio, como observa Luiz Francisco Rebello no prefácio desta reedição, “para um encenador a quem não seja indiferente colocar a sua capacidade criativa ao serviço de uma dramaturgia de genuína matriz portuguesa”.

In: www.apagina.pt/arquivo/Artigo.asp?ID=2718

NOTA:

Orlando da Costa é pai de António Costa.

Era mais que esperado o seu regresso. E, na ausência de António Vitorino, faz sentido que seja o número dois do Executivo. António Costa, 43 anos, é militante socialista desde a adolescência. Alinhou sempre, até ir para o Governo de Guterres (primeiro nos Assuntos Parlamentares, depois na Justiça), pelo sector sampaísta, em cujo escritório fez o estágio de advogado.

Depois da derrota de 2002, continuou a liderar o grupo parlamentar, envolvendo-se na defesa de Ferro Rodrigues perante o processo Casa Pia. Recuou para o Parlamento Europeu em Junho. Mas a vitória do PS obrigou-o agora a desistir do seu retiro europeu.

Fonte:dossiers.publico.pt/

25-02-2005

Pão nosso de cada noite

Ricardo Rangel: slides da busca do pão no tempo da boémia

Por Luís Nhachote

Já muito foi escrito, dito e cantado sobre Ricardo Rangel, decano incontornável do foto-jornalismo moçambicano.

Escrever mais o quê? Que chegou mais um livro seu ao mercado? Que era o mais esperado?

Não. Hoje, em pou­cas palavras, vamos recontar a história, narrada no dia do lançamento do livro — na primeira pessoa do singular, sobre as cir­cunstâncias em que Rangel capturou os retratos históricos da famosa Rua Araújo, desde os anos lon­gínquos anos 50 até 74 quando a revolução saída de fresco das matas, decidiu proibir o exercício da profis­são mais antiga do mundo.

O acto do lança­mento do concorrido livro coincidiu com o seu octagésimo primeiro aniversário natalício....

Fala Ricardo Rangel

Contou o bom do jovem Rangel — aos 81 ainda exibe frescura —, que nos idos anos cinquenta, à saída da redacção do jornal, por ser tardia, às vezes, nas madrugadas, o local onde desaguavam, para o café ou um copo era a Rua Araújo, agora imortalizada em slides que são autênticos documentos históricos.

A primeira vez, numa cena típica de ingenuidade, Rangel disparou o flash, em pleno cabaré:

“Toda a gente virou para mim, ameaçou-me arrancar a máquina”. A partir daquela, e das milhares de noites que se seguiram, o jovem Rangel nunca mais cometeu esse pecado. “Uma vez a Amina, a prostituta mais famosa da Rua Araújo, que era também conhecida por Brigitte Bardot, ou BB, disse--me que eu andava a brincar com a máquina e que não estava a tirar fotos nenhuma”. Depois da pausa, típica daquelas de quem fala com os olhos no passa­do, continuou: “Eu disse a ela que estava a tirar fotografias, e ela então disse: e aquela coisa que faz bum bum (referia-se ao flash)” (risos, muitos risos) “então eu fiz-lhe algumas fotografias, e, no dia seguinte, eu trou­xe-lhe uma”. Nova pausa. “Ela estava no balcão com um tipo, que o deixou e foi chamar as amigas que me pediram retratos, elas fizeram posses e eu fotografei-as”. Assim foram as noites, as ma­drugas dos anos 50/60 até princípios de 70, na companhia do nosso poeta nacional José Craveirinha — que imortalizou estas noites em poemas célebres —, Rui Nogar “tinha combinado com o Craveirinha que ele é quem iria escrever sobre estas fotografias”.

A última foto, a fechar o livro foi tirada em 1974. “O presidente da primeira república tinha proibido o exercício da profissão mais velha do mundo.

“Então eu tinha decidido chamar esta foto a última prostituta, mas, depois de uma discussão com o Calane, ficou o último pão”.

O livro, com textos de José Craveirinha, Calane da Silva, Luís Bernardo Honwana, José Luís Cabaço e Nelson

Saúte, que é o proprietário da editora Marimbique, que edita o livro.

savana - 18.02.2005

22-02-2005

FEIRA DO LIVRO PORTUGUÊS: UM PONTAPÉ À ILITERACIA?

KHOMALA!

Por Vasco Fenita

Porque o vocábulo é de nova geração, de parturejamento recente e, consequentemente, ainda não figurar em muitos dicionários, talvez seja conveniente esclarecer aos menos atentos que iliteracia é, entre outros significados, sinónimo (no caso vertente) de aversão (ou falta de hábito) ao livro e à leitura.

Posto isto, debruçarmo-nos-emos sobre o tema fulcral deste despretencioso rabisco: a Feira do Livro Português, que encerra amanhã, quatro dias depois de patente ao público no Museu de Etmologia de Nampula, cuja sala, pejada de livros de variados temas, registou massivos e sucessivos afluxos ( enquanto, claro, o “stock” não foi substancialmente depauperado) de pessoas, dentre os quais se incluiam até mesmo os de proveniência de províncias vizinhas, que não quiseram desperdiçar a oportunidade soberana de adquirirem obras literárias de indiscutível mérito e actualidade a preços relativamente irrisórios.

Congratulemo-nos efusivamente, sem reservas, pela feliz iniciativa, augurando veemente que a sua reedição (em Nampula) ocorra a breve prazo (se possível, em periodicidade semestral)) para que, de facto, se concretizem os desideratos propostos no que concerne à criação e sedimentação do hábito da leitura na nossa sociedade, vibrando portanto, um vigoroso pontapé à chamada iliteracia.

Até porque mercê da experiência agora adquirida, a própria “Nisomé ” ( uma das promotores da referida Freira do Livro Português), consoante declaração de uma das responsáveis, acha-se capaz , doravante, de arcar, de per si, com a organização de um evento de cariz similar.

Facto que concorrerá inelutavelmente para desonerar os custos inerentes aos encargos organizacionais.

Outrossim, sugerimos que sejam equacionados mecanismos mais eficientes para obstar os açambarcamentos registados impudentemente nesta edição inaugural da Feira do Livro Português. Aliás, o produto dessa descarada “candonga” está já patente nos habituais postos de venda de jornais.

WAMPHULA FAX – 22.02.2005

17-02-2005

Livro de poemas de Craveirinha lançado na próxima semana(1)

Igrejamunhuana

Em complemento à notícia publicada em

http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2005/02/livro_de_poemas.html

bem como do comentário de seu sobrinho João Craveirinha, que amavelmente enviou a foto que anexamos.

16-02-2005

Pintura: Ex-presidente de Moçambique inaugura em Braga mostra de Elias Mathonse

O ex-presidente da República de Moçambique, Joaquim Chissano, inaugura quinta-feira, no Museu Nogueira da Silva em Braga, uma exposição de pintura do artista moçambicano, radicado na cidade, Elias Mathonse, anunciou hoje fonte universitária.

A fonte adiantou à Lusa que o ex-presidente moçambicano desloca-se a Braga para receber, no dia da Universidade do Minho, o doutoramento "honoris causa", que foi aprovado pelo Senado em finais de 2004.

Elias Mathonse expõe 23 quadros, todos eles com temáticas ligadas à vida do único país do Índico que fala português.

Elias Mathonse - irmão de António Mathonse, um antigo adjunto e homem de confiança de Joaquim Chissano e que hoje é embaixador de Moçambique em Angola - encontra-se radicado em Braga, para onde veio estudar Engenharia Civil, há 15 anos.

Desde então e apesar de ter passado "momentos muito difíceis", Elias Mathonse nunca desistiu da ideia que abraçou em menino numa escola primária de Magude, no sul do país - "desenhar e ser pintor".

O artista, que reconhece ter já uma "grande costela" portuguesa, manteve nos seus desenhos a tinta da china e nas suas pinturas os temas rurais da vida quotidiana de Moçambique: as mulheres reunidas à sombra de uma árvore, os trabalhos agrícolas, as tarefas do dia-a- dia, os pássaros, etc.

Com um currículo que passa, desde 1975, por exposições em Moçambique, em várias cidades portuguesas, nos Estados Unidos e na Suíça, Elias Mathonse sente-se "honrado" com a presença na cidade do ex-presidente moçambicano.

Mathonse está representado em dezenas de colecções particulares espalhadas por todo o país.

Africanidade - 15.02.2005

Livro de poemas de Craveirinha lançado na próxima semana

Craveiri

Um livro com poemas eróticos inéditos do escritor moçambicano José Craveirinha, vencedor do Prémio Camões em 1991, será lançado próxima semana na capital de Moçambique, Maputo, foi hoje anunciado.

Publicado pela Moçambique Editora, da portuguesa Texto Editora, o livro contém mais de 100 poemas, divididos pelo autor em dois grandes títulos: "25 rezas de amor e dois catecismo" e "25 unhadas às gatas".

A primeira parte do ciclo do livro contém linguagem litúrgica, enquanto a segunda é influenciada pela tradição de poesia libertina do século XIX.


Este será o primeiro lançamento do livro, que já está a ser comercializado em Portugal, estimando-se em dois mil o número de exemplares a ser vendidos no país, disse hoje à Lusa fonte da editora moçambicana.


O poeta, que morreu em 2003 vítima de doença prolongada, é considerado um dos maiores escritores africanos e o único em Moçambique que conta com um projecto de Casa Museu.


Este espaço está hoje apetrechado com dois computadores e uma impressora doados pelo Instituto Português do Livro e Bibliotecas e o Instituto Português do Património Arquitectónico, equipamento que em vida o Craveirinha nunca utilizou na sua produção literária.


A doação é "um pagamento à dívida que Portugal tem para com Craveirinha" por este ter contribuído, através das suas obras, para o enriquecimento do património linguístico português, considerou à Lusa o responsável pelo Instituto Português do Livro e Biblioteca (IPLB), Rui Pereira.

A residência de José Craveirinha, localizada na Mafalala, um dos bairros periféricos de Maputo deverá ser "brevemente" transformada em casa museu, segundo disse o filho do poeta, Zeca Craveirinha.

Africanidade - 16.02.2005

06-02-2005

IN MEMORIAM de meu BABA MEDÓGO

Por João Craveirinha

JOSÉ CRAVEIRINHA 28.05.1922 / 06.02.2003

(Pela Segunda vez Órfão)

Nas tradições africanas, como as dos “baNto”, não existia o conceito de tio, tia, primos e avós. O avô é o Pai grande – o ancião – e a avó é a Mãe grande. O pai é simplesmente chamado de pai (baba). O tio é o pai pequeno (baba medógo). Os irmãos e primos são todos irmãos. Aliás, a cultura suhaíli serve de paradigma.

Dentro deste contexto posso dizer que fiquei órfão pela segunda vez em 6 de Fevereiro de 2003, do meu baba medógo Sontinho, José (porque nasceu num Dominguinho). Seria o maior Poeta de uma família de poetas e artistas natos e desportistas. Da primeira vez fiquei órfão em 4 de Julho 1997, aquando do desaparecimento físico em Portugal, de meu baba (bava), pai genético Mapilene, João (23.11.1920), o Segundo Poeta da família. Até em Latim Poemetos de Amor escrevia e aluno de vintes da Primária ao Liceu 5 de Outubro. O Primeiro Poeta conhecido da família, foi o Baba meculo (Pai grande), o algarvio José João, de mãe holandesa e de pai João Fernandes, judeu imigrado de Marrocos – um Sefardim, portanto. Na oriental praia moçambicana, nasceriam dois filhos do Baba meculo, José João Fernandes (o da amásia da “craveirinha”- local de cravos - flores - em Aljezur, Algarve), e de uma mãe meTombazana – rapariga – muRonga, a nossa avó Mangachane, rebaptizada de Carlota, filha dos maFumo de Bokisso e do Sabié, em caMpfumo. Nos registos consta ter nascido nas terras do chefe muLengue vulgo chope, Intchai-tchai (Xai-Xai), nos princípios do século XX. A Mamã grande, Mangachane, separada, teve um filho de um muRonga, que faleceu emigrante na África do Sul.

Os dois “mulatinhos”, João (1920 – 1997) e José (1922-2003), nasceriam no CHAMANCULO, na antiga estrada onde 40 anos antes, passavam os guerreiros do temido Zixaxa (pai de nuãMatidjuana desterrado nos Açores), quando avançavam no séc. XIX, para atacarem a cidadela de Lourenço Marques – xiLunguíne, na baixa. O local existe ainda hoje, defronte da antiga padaria do português Serrano.

Na adolescência, os dois irmãos, iriam viver para o bairro Arcas (vizinhos do Poeta Rui de Noronha), perto da Mafalala de adopção mais tarde e imortalizado no Mundo por José CRAVEIRINHA apesar de ter nascido no CHAMANCULO. Nesse local de nascimento passava a Estrada do Zixaxa que ia para o Xipamanine pelo campo de Futebol do Mahafil Issilamo. Entre essa Estrada e o minKadjuíne situa-se o grupo desportivo João Albasine, do Zagueta, 1º. Clube nacionalista africano de Moçambique (1915 / 20). Nesse Clube, o Poeta José Craveirinha conhecido por Intsilana (cavalo marinho), começaria em 1936 / 40, a prática do Futebol Federado da AFA – Associação de Futebol Africano, além do famoso Rondeu, irmãos Lucas da Fonseca –, Manuna, Matateu e Vicente e ainda Coluna de Magude, etc., e tal, nos tempos do racismo do branco em Moçambique, sem misturas sociais só sexuais, sempre com a “coitada e servil” da negra por baixo. O nome da Estrada do Zixaxa (Zihlahla) seria mudado nos anos 1950 / 60 e ainda permanece o nome de Rua dos Irmãos Roby “heróis coloniais portugueses” de Angola.

Na minha adolescência, O meu Baba medógo, JOSÉ, me repetia: - Na vida é preciso fazer tudo com nível. Nas Artes e Letras, no Desporto, Comer à Mesa, no Vestir e no Amar uma Mulher. O nível podia ser intelectual ou físico. O Pai (pequeno), JOSÉ, fazia tudo com nível. Bem, com nível não. Fazia tudo com ALTO NÍVEL ESTÉTICO.

Em vésperas do meu embarque à Europa (fins 2001), meu Pai (pequeno) me disse: - Sabes, agora eu sou o teu Pai. O meu Irmão e teu Pai, já partiu. Só me tens a mim. Além do Hélder teu irmão (em Lisboa), tens da minha parte o Stélio (Newton), o Júnior (Zeca) e a Carla (Soverano) em Madrid, são teus irmãos. Vocês têm de estar unidos e tu és o Mais Velho. Aproximam-se tempos mais difíceis, sobretudo para o STÉLIO Newton desprotegido.

JOSÉ CRAVEIRINHA, o POETA e ESCRITOR da Modernidade moçambicana, não morrerá jamais. A sua dimensão ultrapassara a dimensão do País Moçambique muito antes do Prémio português Camões, em 1991. Ele próprio era um País, na Universalidade da sua capacidade filosófica de (re) interpretar a vida, com a sua visão premonitória na esperança de um amanhã melhor, ainda por acontecer...

... A emoção do momento me embarga a criatividade bloqueando a continuidade deste modesto apontamento IN MEMORIAM de meu BABA MEDÓGO, e, me fico por aqui... (FIM)

CORREIO DA MANHÃ(Maputo) - 07.02.2005

José Craveirinha - Faleceu a 6 de Fevereiro de 2003

Craveirinha4 Passa hoje o 2º aniversário da morte de José Craveirinha.

MACUA DE MOÇAMBIQUE recomenda a visita aos links abaixo, onde pode ver e ouvir o Poeta, além de saber um pouco mais sobre o mesmo e a sua obra:

http://www.macua.org/emtransito.html

http://www.macua.org/JOSECRAVEIRINHABarradas.htm

Pena que, em Moçambique, me pareça ter sido esta data já quase esquecida.

Fernando Gil

Mia Couto lança nova obra

Miacouto01_1"Pensando Igual" é a nova criação literária do escritor moçambicano, Mia Couto, que é lançada hoje, na capital do país.

A referida obra tem, também, as assinatura dos escritores brasileiros designadamente Moacyr Scliar e Alberto da Costa e Silva.

Segundo uma nota de imprensa recebida na nossa redacção, com aquela publicação, pretende-se «aproximar, fazendo uma ponte literária, Moçambique da Academia Brasileira de Letras e de Mia Couto, único membro correspondente africano daquela instituição. Pretende-se que a obra tenha distribuição em todos os países da CPLP». A cerimónia de lançamento da referida obra vai decorrer no Centro de Estudos Brasileiros (CEB).

IMPARCIAL – 08.02.2005

05-02-2005

Experiência Empresarial Brasileira na África/Livro

O livro A Experiência Empresarial Brasileira na África (1970 a 1990), de Ivo de Santana, baseia-se em ampla pesquisa bibliográfica e análise da atuação de entidades, pessoas e empresas que se destacaram no comércio Brasil-África. Procura esclarecer a relativamente bem sucedida tentativa brasileira de perseguir a hegemonia no chamado bloco Sul. Nesse sentido, traça um panorama extenso das relações Brasil-África, desde os anos cinqüenta até os noventa retratando o apogeu, declínio e a posterior retomada desse intercâmbio, bem como suas perspectivas futuras.
A obra tem origem na tese de mestrado defendida pelo autor na Universidad de Extremadura (Espanha) em março de 2002. A tradicional aridez das teses acadêmicas foi transformada num produto editorial capaz de proporcionar o prazer da leitura, a facilidade da busca da informação e do conhecimento.

Ivo de Santana é doutorando em Ciências Sociais na Universidade Federal da Bahia, Mestre em Administração e Comércio Internacional pela Universidad de Extremadura e Analista do Banco Central do Brasil.

A Experiência Empresarial Brasileira na África (1970 a 1990). Salvador. Editora Ponto & Vírgula Publicações. 167p. 2004. ISBN 85-88487-12-8. Valor: R$ 20,00. O
livro pode ser adquirido na Livraria Grandes Autores -
www.grandesautores.com.br

03-02-2005

Moçambique – Feitiços, Cobras e Lagartos

Jcraveirinha_instcamoes1_1 Da esquerda para a direita: Adido Cultural e Embaixador de Portugal em Moçambique. Vice – Ministro da Cultura de Moçambique Luís Covane, Dona Edite da Minerva Central e o autor João Craveirinha Feitic02_1 Comentário por Luís COVANE na apresentação do Livro Moçambique; Feitiços, Cobras e Lagartos· O Dr. Luís COVANE é Historiador e vice – Ministro da Cultura de Moçambique na África Oriental do sul em 2003. Em 14 de Março de 2003 fez a (re) apresentação de um livro de João CRAVEIRINHA… no Instituto Camões, em Maputo por ocasião do 95º aniversário da 1ª Livraria portuguesa na África Austral. Contou com a presença do Embaixador e do Adido Cultural de Portugal na República de Moçambique. Apresentação do Livro por Luís Covane: …É para mim uma grande honra e privilégio proceder à apresentação deste livro, embora seja pela 2ª vez, uma vez que tive a oportunidade de assistir ao 1º lançamento onde uma personalidade das letras moçambicanas fez uma sábia e eloquente apresentação desta obra, intitulada: “Moçambique: Feitiços, Cobras e Lagartos! Crónicas Romanceadas.” Este lançamento, integra-se nas celebrações do 95º aniversário da Minerva Central, casa que ao longo de quase um século, acarinhou os estudantes, professores, estudiosos e amantes da leitura em Moçambique. Aproveito esta oportunidade para felicitar a Minerva Central pelo seu aniversário e formular votos para que continue a prestar a sua valiosa contribuição na luta pela elevação do nível sócio-cultural e cientifico dos moçambicanos através da disponibilização do livro. João Craveirinha é um investigador, escritor, amante da história e cultura moçambicanas que dispensa apresentação. A modesta biografia que nos é apresentada na obra, permite visualizar a grandeza do homem, do investigador e incansável trabalhador na busca do esclarecimento do passado, do presente e dos desafios da sociedade moçambicana. O livro de Craveirinha é muito especial. A sua leitura não é cansativa. Não é preciso ler todo o livro para compreender a história; cada texto é uma história completa e sem qualquer tipo de ligação com o anterior ou o seguinte. A história da sua produção justifica a sua natureza. Este livro é uma brilhante colectânea de textos. A obra é composta por vinte e quatro textos, sendo dez dos quais caracterizados por uma grande componente de história e etno-história e os restantes por aspectos sócio-culturais e económicos que marcaram e marcam a sociedade moçambicana. As partes que tratam da história ou etno-história confirmam que João é um profundo conhecedor dos arquivos, dos documentos e escritas sobre o passado longínquo e recente de Moçambique. A maneira como ele aborda algumas peças da história pré-colonial de Moçambique, principalmente sobre os processos ocorridos na 2ª metade do sec. XIX, lança sérios desafios aos historiadores e estudiosos moçambicanos. Para os que terão a oportunidade de ler este livro, chamo à atenção para as dificuldades de conferência ou verificação das fontes consultadas, resultante da opção que ele tomou de explicitar algumas e deixar a maioria na penumbra. A decisão de não revelar todas as fontes parece um convite para a pesquisa. É um convite para visitarmos os acervos documentais do Arquivo Histórico de Moçambique, do Instituto de Investigação Sócio-cultural (ARPAC) e outros. Confesso que a quantidade de dados é impressionante. Nomes, datas, locais e episódios emprestam às partes históricas da obra um rigor discursivo de qualidade invejável. A obra de Craveirinha ofereceu detalhes inéditos sobre o crescimento da cidade de Maputo. É impressionante o tratamento dos conflitos entre os portugueses e os reinos e as chefaturas vizinhas da Baía, bem como as guerras entre o Estado de Gaza e as formações políticas do sul e centro de Moçambique. A origem e o desenvolvimento dos bairros da Mafalala, Chamanculo e Munhuana nos são historiados de uma maneira igualmente bastante detalhada. Temos informações muito interessantes sobre os conflitos luso-britânicos pela posse de Lourenço Marques que culminaram com a arbitragem do Presidente Mac-Mahon em 24 de Julho de 1875 a favor dos portugueses. Quero manifestar a minha concordância com o autor quando cita o Prof. Dr. Tito Lívio “A história é uma reconstituição da realidade que contém mais que a realidade, o que não está nos documentos: a contribuição do espírito”. Acredito que muitos dos que tem trabalhado na arte da escrita da história reconhecem que no penoso processo cognitivo as divergências entre os historiadores não surgem na identificação e categorização dos factos históricos, mas exactamente na sua interpretação. É na construção do discurso histórico que os elementos subjectivos, como muito sabiamente reconhece o autor, ao citar o Prof. Lívio, onde surgem os posicionamentos, os objectivos e as motivações dos sujeitos do conhecimento. Isto significa que por mais profundo que seja o conhecimento ele nunca é igual ao objecto do conhecimento. O conhecimento é, sim, produto da interacção entre o sujeito e o objecto do conhecimento. Com Craveirinha encontramos fundamentação suficiente para dizermos que a história não é igual ao passado. Temos elementos para dizermos que o elemento subjectivo é incontornável na produção de textos históricos. Sentimos em cada parágrafo dos seus textos que o historiador é um ser social que vive intensamente o seu tempo e o seu meio social, que o influenciam sobremaneira. O historiador escreve para audiências bem definidas. O texto histórico visa influenciar e/ou moldar atitudes, comportamentos no presente e na previsão do futuro. Craveirinha está muito presente nesta obra como um homem e como agente activo na luta pela transformação da sociedade em que vive. Não me parece relevante discutir as convicções e opiniões do homem João Craveirinha aqui expressas. O importante é a sua contribuição que nos permite revisitar o passado recente e remoto da nossa sociedade. O desejo de moldar atitudes e comportamentos, principalmente de amor à pátria, justifica que governos e instituições canalizem recursos para a investigação e ensino da história. Programas de história são concebidos para que o cidadão, desde a sua tenra idade, se apetreche não só de conhecimentos dos factos do passado, mas essencialmente para desenvolver o espírito patriótico e de pertença a um povo com tradições e valores que o tornam diferente dos outros. A história tem um papel a desempenhar na afirmação de uma sociedade e de um povo. No nosso caso, a história oferece os alicerces da moçambicanidade. É muito interessante a citação extraída de uma publicação colonial referente à posição de Manicusse em relação ao comércio dos escravos: “Aquele que vende seu semelhante merece com justiça ser perseguido e caçado mais do que os leopardos e leões...”. Esta declaração do 1º Imperador de Gaza ajuda a esclarecer a natureza dos poderes africanos antes da conquista colonial e permite fazer uma avaliação diferenciada dos interesses e fontes do poder. Ficamos a saber que nem todos os aristocratas africanos viam no comércio de escravos uma forma importante de acumulação de riqueza e de reforço do seu poder e prestígio. Aprendemos igualmente que a justificação dos europeus para a prática do comércio de escravos não era por razões humanitárias. Os ideólogos europeus da última fase do capital mercantil em África sustentavam que a transformação do homem em mercadoria era para salvar os cativos das infinitas guerras sangrentas que caracterizavam a África Negra. Agora ficamos a saber que era mentira! Eram os europeus que instigavam as guerras intra e inter estados, reinos e chefaturas como forma de produção de escravos. É impressionante como o autor diagnostica o estado de saúde da capital do país e propõe alternativas para se sair da crise. O autor regista nesta obra seis espaços que poderiam ser eleitos para acolher a capital do país: Gurué, Morrumbala, Nampula, Nacala, Ilha de Moçambique e Lichinga. É uma opinião! Ele identifica as cidades que já foram capitais de Moçambique e discute, alguns exemplos de países cujas capitais não são cidades costeiras nem portuárias. Uma coisa que Craveirinha não esgota é porque é que muitas pessoas falam sempre mal da capital, mas que ninguém a quer abandonar. Nesta obra ele faz desfilar as mulatas Safirana de Chamanculo, Saira da Matola 700, Gabriela da Mafalala e a sogra para nos mostrar os perigos da degradação do tecido social em Maputo. Nesta viagem somos obrigados a fazer paragens múltiplas para pensarmos no dia a dia pouco dignificante de algumas vizinhas ou filhas de vizinhos e das jovens desconhecidas que vemos na rua. Os comportamentos condenáveis representados por estas personagens, encontram em João Craveirinha explicação no nosso complexo sócio-cultural. Os maus espíritos e a feitiçaria explicam quase tudo. O autor dispensa o recurso a causas de natureza económica e política na explicação da actual situação de Moçambique. O espaço que hoje se chama Moçambique foi delimitado numa situação colonial. Antes da imposição do domínio colonial coexistiam em “Moçambique” várias unidades políticas, umas centralizadas, outras de carácter linhageiro. É neste espaço outrora caracterizado por uma grande fragmentação política que hoje estamos a construir uma nação una e indivisível, que reconhece a diversidade étnica sócio-cultural e histórica. Isto quer dizer que as histórias locais do período pré-colonial devem ser investigadas, divulgadas e respeitadas, sem que no entanto esse exercício concorra ou contribua para minar a nossa unidade em permanente construção. Para terminar, gostaria de dizer que foi bastante gratificante ler a obra de Craveirinha. Este livro é mais um testemunho de que o homem, como ser social, é dialogante, tendo necessidade de interagir constantemente com os seus semelhantes. Crónicas Romanceadas é um instrumento de troca de ideias, opiniões, conhecimentos e convicções. A escrita é a forma que Craveirinha elegeu para o diálogo, sempre necessário, sobre o nosso passado, presente e perspectivas do futuro. Parabéns Craveirinha! Parabéns por este livro de 24 livros! Muito obrigado! - Maputo, 14 de Março de 2003 Para mais informações sobre a obra –, Moçambique – Feitiços, Cobras e Lagartos ver nos seguintes saites: Moçambique: Feitiços, Cobras e Lagartos – João Craveirinha: - http://www.macua.org/livros/feiticos.html - www.me.co.mz – autores pag. 4 - http://maputo.co.mz/article/articleprint/375/1/54 - http://www.ccpm.pt/r31_p69.htm - www.TE.pt ou www.MEDIABOOKS.pt e ver...À conversa com…outras entrevistas Breve Bibliografia – - História da África Negra de Joseph KiZerbo e de John Fage - Os Negros em Portugal – Uma Presença Silenciosa … José Ramos Tinhorão - Os Pretos em Portugal colecção Pelo Império edição anos 1930 - Navios Negreiros : http://www.segal1945.hpg.ig.com.br/navio.htm - Chronological References: Cabo Verde / Cape Verdean American : Raymond Almeida : http://www.umassd.edu/specialprograms/caboverde/cvchrono.html (…”historians Sena Barcelos, Antonio Carreira, and Daniel Pereira, ethnographers Felix Monteiro and Luis Romano, official U.S. Customs records, the research of Richard Lobban, Deidre Meintel, Marilyn Halter, George Brooks, and other contemporary American scholars, interviews with Cape Verdean-American community scholars”…) - Companhia de Moçambique - http://companhiademocambique.blogspot.com/ - Mártires de Massangano – autor Capitão Pereira Galante – Imprensa Nacional 1945 – Lourenço Marques (edição proibida pelo governo colonial por se referir às humilhantes derrotas portuguesas contra o Bonga de Tete durante 35 anos) - Augusto de Castilho na Zambézia – autor Dr Victor Santos, colecção Pelo Império nº 125 – Lisboa 1952 - A República Militar da Maganja da Costa 1862-1898 – autor José Capela, edições Afrontamento. Porto 2ª edição. (1ª edição Maputo 1988) - Escravismo Colonial em Moçambique – autor José Capela, edições Afrontamento. Porto 1993 - Glórias e Martírios da Colonização Portuguesa – autor General Ferreira Martins, colecção Pelo Império nº 56 – Lisboa 1939 - Caldas Xavier – autor Manuel Múrias, colecção Pelo Império nº 90 – Lisboa 1943 - Neutel de Abreu – autor Manuel Ferreira, colecção Pelo Império nº 116 – Lisboa 1946

01-02-2005

Editora portuguesa procura histórias de emigração para editar em livro

Trabalhos podem ser enviados até 15 de Abril

2005-01-31 16:20:38

Lisboa - A Tarso Edições desafia os portugueses que residem ou já residiram no estrangeiro a redigir as suas experiências de vida e a enviá-las até ao próximo dia 15 de Abril para a editora, que seleccionará as melhores histórias de emigração para publicar em livro.

A ideia de reunir estas histórias em livro «surgiu da circunstância de sermos um país de emigrantes e não sabermos nada do seu percurso, sabemos meia dúzia de clichés preconceituosos que na maioria das vezes não correspondem nem de longe à realidade», explicou ao Jornal Digital Paula Neto, que fundou a Tarso Edições no final do ano passado, em Lisboa.

As histórias podem ser escritas na primeira pessoa, por familiares e/ou amigos e não devem ultrapassar três folhas modelo A4. Os textos seleccionados serão editados em livro cujo lançamento terá lugar na Festa do Emigrante da RDP Internacional, em Agosto deste ano.

Todas as histórias deverão ser acompanhadas dos dados pessoais do autor/protagonista (nome, morada, contactos telefónicos, país) e enviadas para: t.edicoes@netcabo.pt .

(c) PNN Portuguese News Network

26-01-2005

Morte de Pinto Bull é perda de «biblioteca universal», diz o Governo

A morte do académico e político guineense Benjamim Pinto Bull representa "perder uma biblioteca intelectual universal", pois trata-se de um homem que foi um dos impulsionadores da cultura africana, afirmou hoje o porta-voz do governo da Guiné- Bissau.

Em declarações à Agência Lusa, Filomeno Lobo de Pina indicou que a morte, hoje, de Benjamim Pinto Bull, que contava 89 anos, é a perda de uma "referência nacional", não só para a Guiné-Bissau mas também para o mundo lusófono, "de todos os quadrantes políticos".

"Todos nós, mas sobretudo a Guiné-Bissau, perdemos uma biblioteca intelectual universal. Perde-se irreparavelmente uma referência nacional", sublinhou o também ministro da Presidência do Conselho de Ministros, Comunicação Social e Assuntos Parlamentares.

Lobo de Pina é o chefe de governo em funções na ausência do primeiro-ministro, Carlos Gomes Júnior, em digressão em França, Cuba e Venezuela que termina a 31 deste mês.

O funeral de Benjamim Pinto Bull, que faleceu em Lisboa vítima de doença prolongada, realiza-se quinta-feira no cemitério do Alto de São João, na capital portuguesa.

Pinto Bull era licenciado em Filologia Românica e estabeleceu-se em Portugal em 1984, leccionando nas universidades Internacional, Moderna e Lusófona nas áreas de Latim Jurídico e Literatura Africana de Expressão Portuguesa.

O académico, que teve também uma profunda ligação ao Senegal - foi tradutor oficial do antigo presidente senegalês Leopold Sédar Senghor - deixou pronta a sua autobiografia, intitulada "Memórias de um Luso-Guineense", com prefácio do também académico e político português Adriano Moreira, a publicar em breve.

Notícias Lusófonas - 25.01.2005

22-01-2005

UM "Clic" Diferente Da Nossa Terra E Nossas Gentes

Moambiqueterra_capa  Moctg01
Nizapaiva Calanesilva MOÇAMBIQUE - a terras e as gentes
De Niza Paiva (fotos) e Calane da Silva(texto)
INTRODUÇÃO:
             Em tempos de urgência um "clic" pode perpetuar o que os olhos-memória às vezes não retêm. A Niza abordou-me num tempo de pressas para ilustrar com palavras o que as fotos já mostram tão magnificamente sem precisarem de qualquer texto-cajado ou legenda-suporte a explicar o que estas imagens já por si falam, gritam, emocionam, reflectem, lembram e relembram, que contam sobre o palpitar da vida neste canto à beira Índico.

E cansados que estamos de imagens de Moçambique destruído pela guerra, de pessoas estropiadas pelas minas e de crianças famintas, animei-me por ver nas imagens, nos instantâneos de Niza Paiva este outro país, meu e dela, que continua a existir, um país belo, um país em reconstrução, um país cujas gentes se vão energizando de novas vontades.

Por ser uma obra que dá luz e cor de esperança a quem aqui vive e a quem aqui quer residir ou investir, não hesitei em aceitar o honroso convite apesar da urgência e do tempo muito limitado, que me foi dado para redigir o texto. Mas devo desde já acrescentar e salientar que aceitei esta interessante tarefa redactorial porque, igualmente, conheço e sou amigo da Niza Paiva desde a juventude e de quem fui também colega de trabalho.

De facto, Niza Paiva, tal como eu, foi profissional de jornalismo nesta mesma terra, profissão a que se entregou e nos entregámos de corpo e alma neste e por este país que passados tantos anos ela volta de novo a retratar com um objectivo bem definido: mostrar também a sua face bela, o anil deste mar, o verde e castanho deste chão com sabor a manga e a caju, a chá e a sândalo, perfumando este ar que o cheiro da terra molhada ajuda a inebriar e a encher os pulmões de vida quando quente chuva se precipita gostosa e benfazeja.

O percurso de vida e trabalho, de foto-jornalismo e de foto-arte de Niza Paiva já é longo e sempre num crescimento de qualidade como o comprovam as suas várias obras já publicadas e onde, lado a lado com imagens de Portugal, as de Moçambique, e particularmente as da província da Zambézia, já mereceram um destaque singular.

Niza Paiva não nega certa influência de uma excelente escola de foto-jornalismo que Moçambique sempre possuiu e que na arte de Ricardo Rangel um mestre que felizmente, ainda vive, é hoje referência africana e mundial.

As imagens que nesta obra vão desfilar perante os olhos dos leitores foram feitas por uma mulher nascida nesta terra com a alma repleta de carinho e ternura por este povo; por uma mulher que fez o seu trabalho com Amor para tornar ainda mais viva e multicolorida a sua mensagem de esperança.

Calane da Silva

Maputo, 2004

(Para adquirir - € 50.00 - contacte  mtg2004@netcabo.pt )

20-01-2005

Luís Carlos Patraquim lança antologia «O Osso Côncavo e Outros Poemas»

O livro "O Osso Côncavo e Outros Poemas" marca o regresso de Luís Carlos Patraquim ao meio literário e é lançado durante as Correntes D´Escritas, de 16 a 20 de Fevereiro na Póvoa de Varzim.

O escritor moçambicano reúne no volume cerca de 115 poemas publicados anteriormente em "Monção" (1980), "A Inadiável Viagem" (1985), ""Vinte e tal Formulações e uma Elegia Carnívora" (1991), "Mariscando Luas" (1992) e "Lidemburgo Blues" (1997).

Este ano membro do júri do Prémio Literário Correntes D´Escritas, Luís Carlos Patraquim inclui neste livro - editado pela Caminho e que conta com um posfácio de Ana Mafalda Leite - um glossário de termos característicos de Moçambique.

Nascido em Maputo em 1953, Luís Carlos Patraquim, escritor e jornalista, foi membro do núcleo fundador da Agência de Informação de Moçambique, que teve como director Mia Couto, autor a quem o poeta dedica alguns versos.

A residir em Lisboa desde 1986, colabora na imprensa portuguesa e moçambicana, escreve roteiros para cinema e teatro e já foi distinguido com o Prémio Nacional de Poesia em Moçambique (1995).

A Editorial Caminho lança também no ciclo de iniciativas literárias Correntes D´Escritas a obra "Os Olhos do Homem que Chorava no Rio", romance de Manuel Jorge Marmelo e Ana Paula Tavares descrito pelo escritor brasileiro Paulinho Assunção como "um livro-música-de- câmara" que traz "a poesia abraçada com a prosa".

20-01-2005 12:25:31
(Fonte : Noticias Lusófonas)

17-01-2005

As pedras e o arco do conhecimento literário

ESTUDOS

As pedras e o arco do conhecimento literário

Livro destaca a importância das fontes primárias como matéria de história

Adelto Gonçalves de São Paulo

            Já não estamos no tempo em que a apreciação historiográfica e crítica dependia de dados biográficos em termos naturalistas e deterministas, porque o texto passou a ser valorizado por ele mesmo, desde o new criticism. Contudo, caiu-se, em muitos casos, no erro oposto de se ignorar tanto o contexto histórico-cultural como o gosto dos leitores que, na sua maioria esmagadora, querem ler o texto literário também como expressão do projeto humano.

            As linhas acima foram escritas pelo professor Fernando Cristóvão, catedrático de Literatura da Universidade de Lisboa, para o prefácio de Bocage – O Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003), biografia do poeta  Manuel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805), mas se ajustam como uma luva também ao livro  As pedras e o arco: fontes primárias, teoria e história da literatura, das professoras Regina Zilberman, Maria Eunice Moreira, Maria da Glória Bordini e Maria Luíza Ritzel Remédios, todas ligadas à Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), que acaba de sair à luz pela Editora UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

            Na obra, as autoras observam que fontes primárias constituem, em princípio, matéria da história, que constrói uma narrativa a partir dos documentos que certificam o passado. Mas, como lembram, a Teoria da Literatura tende a abrir mão desse material, ao privilegiar o produto final, a obra publicada, em detrimento de suas origens e processo de criação.

            Não são poucos os acadêmicos que se inclinam por entender que o papel da biografia nos estudos contemporâneos das Letras, ou da História, ocupa um lugar secundário em vista do interesse de compreensão dos processos mais gerais de produção de sentido do que os estritamente dependentes do voluntarismo pessoal, partindo do pressuposto que a própria questão biográfica estaria em baixa nos estudos literários contemporâneos.

            Quando se trata de pesquisar a produção de um poeta dos séculos XVII, XVIII ou XIX, a situação ainda piora porque, como se sabe, a produção letrada desse período guarda referências óbvias a padrões retóricos tradicionais, que, de modo algum, podem ser interpretados em chave biográfica. Para esse tipo de teórico, qualquer biografia, que, obviamente, trata de vida e da obra de um  autor mais antigo, segue uma linha positivista. Supor que a biografia explique diretamente certas escolhas de composição, levando em conta que, no século XVIII, por exemplo, a produção letrada guarda referências óbvias a padrões retóricos tradicionais –  vale dizer, prescritivos e supra-pessoais –, já não tem mais sentido para esses teóricos.

            É claro que, hoje, o historiador literário não pode levar mais em conta versos como fontes documentais, como faziam os críticos românticos do século XIX. Mas nada o impede de citar versos, especialmente se estão ligados diretamente àquelas querelas comuns nos séculos XVIII e XIX, como a que levou Bocage produziu a produzir “Pena de Talião” em resposta a José Agostinho de Macedo.

            Se fôssemos levar em consideração objeções excessivamente teóricas, não teríamos escrito as biografias de Bocage e muito menos a de Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810). E, provavelmente, continuaríamos a tomar como "verdades definitivas" observações formuladas há mais de 60 anos pelo professor  M. Rodrigues Lapa. Nada contra o professor, um dos mais brilhantes filólogos e pesquisadores da História da Literatura Portuguesa. Até porque à época em que ele pesquisou os arquivos não estavam tão organizados como agora.

            Mas fatos são fatos. Uma das observações feitas por Lapa, sem nenhuma comprovação documental, é que o poeta Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), condenado por sua participação na conjuração mineira a degredo na ilha de Moçambique, no exílio casou com "a herdeira da casa mais opulenta em negócio de escravatura" (Obras Completas de Tomás Antônio Gonzaga, prefácio de M. Rodrigues Lapa, p. XXXVI, São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1942).

Com base nessa informação – a única disponível à época --, o historiador Luís Carlos Villalta, no estudo "O diabo na livraria dos inconfidentes" que faz parte do livro Tempo e História (São Paulo, Companhia das Letras, 1994), concluiu que o poeta "acabou por curvar-se ao caminho ditado pelo seu oportunismo" (pág. 385), ao casar "sem amor e com uma mulher mais rica" (pág. 386).

Valendo-se das informações de Lapa, Villalta ainda escreveu que o degredado Gonzaga "era um oportunista, ambicionava dinheiro e poder, e, até mesmo quanto à Carne, sua fidelidade à moral hegemônica esteve condicionada aos benefícios que poderia trazer-lhe" (pag. 386).

            Ocorre, porém, que, em nossas pesquisas no Arquivo Histórico Ultramarino, de Lisboa, encontramos documentação que prova que o sogro de Gonzaga, Alexandre Roberto Mascarenhas, nunca esteve entre os grandes traficantes negreiros. Era proprietário e pessoa de algumas posses, mas sempre esteve longe de ser considerado um potentado. Foi, isso sim, funcionário régio, ou seja, escrivão da provedoria-mor de defuntos e ausentes, repartição da qual Gonzaga passou a promotor e, portanto, seu superior hierárquico.

Nas várias relações de escravaturas, o nome de Mascarenhas (e, depois de sua morte, o de sua mulher Ana), quando aparece, surge como proprietário de um número reduzido de escravos, o que significa que os possuía  apenas para o trabalho doméstico ou na lavoura em pequena propriedade no continente fronteiro à ilha. Já os grandes traficantes negreiros são facilmente identificados porque aparecem como proprietários de centenas de escravos (em média 300) – a imensa maioria destinada à exportação. E constam da documentação da alfândega.

Por não ter encontrado os documentos que acabamos por localizar em nossas pesquisas, Lapa observou que Gonzaga, "provavelmente, consagrava as horas vagas ao rendoso comércio negreiro" (op. cit., pag.XXXVI), insinuando ainda que o poeta ajudara o sogro a arredondar a fortuna. Pura ilação. Encontramos documento que mostra que Alexandre Roberto Mascarenhas morreu em 1793 (AHU, secção de Moçambique, caixa 122, doc. 8, 6/1/1808), no mesmo ano em que Gonzaga casou com sua filha, Juliana de Sousa Mascarenhas. Portanto, pouco tempo teve para ajudar o sogro em algum trabalho.

Pela documentação, fica claro que Gonzaga, embora como advogado tenha prestado serviços a comerciantes negreiros, nunca se envolveu diretamente no tráfico de escravos. E, se sempre fez parte da elite do lugar, isso deveu-se muito mais aos seus próprios méritos, como único advogado formado em Coimbra e funcionário régio, pois, além de promotor do juízo de defuntos e ausentes, foi ainda advogado dos auditórios públicos, procurador da Coroa e juiz interino da alfândega. Só, já no final da vida, aparece como proprietário de 30 escravos (AHU, seção de Moçambique, caixa 121, doc. 98, 23/12/1807), o que, evidentemente, não é suficiente para incluí-lo entre os grandes comerciantes negreiros. Nem para apontá-lo como comerciante de escravos.

Isso deixa claro que, sem a pesquisa de arquivo, principalmente em fontes manuscritas – quando possível –, os estudiosos mais interessados em analisar a produção dos autores acabam por recorrer apenas a fontes impressas – o que é mais fácil, convenhamos –, repetindo e perpetuando, muitas vezes, involuntariamente,  informações equivocadas ou deturpadas.

Se excedemos os estreitos limites de uma recensão, é porque o livro As pedras e o arco levanta questões instigantes, como as que Regina Zilberman, doutora em Letras pela Universidade de Heildelberg, na Alemanha, levanta no ensaio “Minha teoria das edições humanas: Memórias póstumas de Brás Cubas e a poética de Machado de Assis”, pedindo uma revisão da Teoria da Literatura e da História da Literatura a partir da contribuição que, na sua condição material, oferecem essas áreas de conhecimento e reflexão.

Para a autora, as teorias da Literatura, formuladas ao longo do século XX, tenderam a postular que, uma vez convertida a origem em sua obra literária, rompem-se os laços que remetem esta última a seus começos, o que avalizaria e comprovaria sua autonomia e auto-suficiência. “Significativas para a elaboração do objeto artístico, elas são depois rejeitadas, os antecedentes transformados em entulho a arredar”, observa.

            Para Regina Zilberman, “num momento em que a História repensa seus fundamentos epistemológicos, e a pesquisa em obras literárias almeja ultrapassar os limites determinados pela orientação idealista dominante por longo tempo, talvez a investigação com fontes primárias tenha muito a oferecer”.

            Sábias palavras. Estava mesmo na hora de um estudioso da estatura intelectual da professora Regina Zilberman colocar as coisas no lugar. Não é porque a História da Lirteratura nasceu no século XIX, sob o domínio do historicismo, que terá de ser sempre confundida com positivismo e quejandos.

A História da Literatura renovou-se e, como observa a professora Maria Eunice Moreira, doutora em letras pela PUCRS,  no ensaio “Na rede do tempo: História da Literatura e fontes primárias – a contribuição de Joaquim Norberto”, volta a ocupar posição singular entre os estudos literários, “principalmente após a divulgação das teorias sobre a repercussão e os efeitos da obra através dos tempos”. Portanto, para a História da Literatura, tudo o que diz respeito a um autor interessa. E ponto final.

__________________________

AS PEDRAS E O ARCO: FONTES PRIMÁRIAS, TEORIA E HISTÓRIA DA LITERATURA, 

de Regina Zilberman, Maria Eunice Moreira, Maria da Glória Bordini e Maria Luiza Ritzel Remédios. Belo Horizonte, Editora UFMG, 351 págs., 2004, E-mail: editora@ufmg.br 

_________________________________

Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unuisanta.br

Gazeta Mercantil, de S.Paulo - 16.01.2005

07-01-2005

Lustosa da Costa - Mais que um jornalista

Poderá parecer estar esta notícia fora do âmbito desta página. Mas tratando-se de um amigo de Moçambique (em relacionamentos pessoais e conteúdos nos seus livros) não consegui fugir a esta tão gostosa sensação de o saber homenageado e de esperar por livros de Moçambique para a "sua" biblioteca. Lustosa certamente retribuirá.
Envie livros seus, por favor, para a Biblioteca Municipal de Sobral, estado do Ceará- BRASIL. Basta colocar Praça da Sé e CEP: 62 010 381 como endereço.
Regional Diário do Nordeste
05 de Janeiro de 2005. Fortaleza, Ceará.
Fotos: Wellington Macedo
Fotos: Wellington Macedo
A biblioteca foi construída onde antes funcionava uma usina de beneficiamento de algodão
CULTURA
Biblioteca pública homenageia jornalista

Sobral (Sucursal) — “Por onde eu andava me sentia envergonhado quando as pessoas me perguntavam se Sobral já tinha uma biblioteca pública. A pessoa que mais me cobrou isso foi o jornalista Lustosa da Costa, e desde quando consegui recursos e tomei a decisão de dar início às obras eu o comunicava passo a passo da construção, por isso, merecidamente em sua homenagem a biblioteca traz seu nome”, disse o ex-prefeito Cid Gomes durante a inauguração ocorrida na noite de sexta-feira, 31 de dezembro. Esta foi à última obra a ser inaugurada na gestão de Cid. Estavam presentes o ministro Ciro Gomes e a esposa Patrícia Pillar, o cantor sobralense Belchior, o ex-secretário de cultura do estado Augusto Pontes e outros.

Lustosa da Costa em seu discurso falou na brilhante contribuição do prefeito para o desenvolvimento cultural de Sobral, da importância da biblioteca para o Município e lembrou que em 1955, no jornal estudantil que ajudava a produzir, já cobrava a criação de uma biblioteca p

Lustosa da Costa aprecia a placa em sua homenagem
ública na cidade. “Fiquei muito feliz e espero ajudar no que for possível para que a biblioteca tenha um conjunto de obras que possa ajudar na contribuição cultural de Sobral. Uma biblioteca é algo fantástico, é sempre uma jazida, é uma mina de preciosidades que as pessoas podem pesquisar. A leitura é sempre uma forma de elevação da personalidade das pessoas, e esta biblioteca irá contribuir para elevar o nível cultural da população inclusive os mais pobres”, comentou Lustosa, que relembrou de seu tempo quando não havia biblioteca e ele sempre pedia livro emprestado. Ele ressalta que a nova geração é privilegiada com o acesso fácil a 50 mil volumes que ali estarão brevemente disponíveis.

O jornalista, que tem Sobral como seu berço cultural, ficou surpreso com a homenagem e disse ter recebido um presente régio. Segundo ele, esta foi uma das maiores alegrias de seus 60 anos de vida. Sua alegria foi tão grande que no primeiro dia do ano, logo que amanheceu, ele estava no prédio da biblioteca para verificar se havia mesmo a placa com seu nome ou se era um sonho ou delírio de sua vaidade. “Havia mesmo a placa e havia mesmo a biblioteca. Era real”, constatou Lustosa.

“Cidade do conhecimento”. É esta a previsão do ex-secretário da Cultura e do Turismo do Município e atual vice-prefeito, José Clodoveu de Arruda (Veveu). Ele afirma que, futuramente, Sobral será conhecida e consolidada como sendo a “Cidade do Conhecimento”.

“Nós estamos conseguindo democratizar o acesso ao saber através da leitura e do conhecimento. A biblioteca veio para preencher um vazio e preencher com muita qualidade”, afirmou Veveu.

O prédio foi construído onde antigamente funcionava uma usina de beneficiamento de algodão. O local foi adaptado para a construção da nova estrutura que conservou parte das paredes laterais como memória da construção antiga. Serão 50 mil títulos que deverão atender a crianças, jovens e adultos. Livros raros, mapas, literaturas, poesias, livro de imagens, enciclopédias, contos e ainda um acervo para deficientes visuais, laboratório para a restauração de livros, hemeroteca e um conjunto de 16 computadores ligados à internet, possibilitando pesquisas na rede mundial de computadores. O local será ainda equipado com 12 computadores para cyber café na previsão inicial.

Cerca de 50 mil títulos irão compor futuramente o acervo. Deste número, dois mil já foram doados pela Biblioteca Nacional, uma parte será comprado pelo Município, outros através de parcerias com ONGs, órgãos públicos estaduais, nacionais e internacionais, e ainda através de campanhas de doações que devem ser lançadas. Será um investimento final de, aproximadamente, R$ 4,5 milhões.

HOMENAGEADO - Natural de Cajazeiras (PB), o jornalista Lustosa da Costa chegou em Sobral no ano de 1942. Na época, com quatro anos de idade, morou na terra de Dom José até o final de 1955. Estudou no seminário e de lá saiu em 1953 para o colégio sobralense. Chegou a participar ativamente de movimentos estudantis criando dois jornais em 1955: o Clarim, com Aldo Melo e o Idealista, com João Alberto Bezerra. Mordido pela paixão política chegou ainda a participar de vários comícios da época e estrelou como articulista, em agosto de 1954, no Correio da Semana.

O jornalista diz ser sobralense por decisão pessoal e já recebeu da Câmara Municipal o título de “cidadão sobralense”. “Escolhi a cidade para ser minha, estudei sua história, mergulhei fundo em seu passado”, comenta Lustosa, que se diz apaixonado por Sobral. Quando cumpriu temporada de estudos em Paris, em 1995, ele escreveu a obra “Sobral não é uma cidade, é uma saudade chorando baixinho em mim”.

Veja: http://www.macua.org/livros/dicionariolc.html

email: sobralense@uol.com.br

04-01-2005

“A PÁTRIA NÃO É A LÍNGUA PORTUGUESA

PALESTRA APRESENTADA NA SOCIEDADE DE LÍNGUA PORTUGUESA

NOVEMBRO 25,26 E 27, 1999

CONGRESSO DO 1º CINQUENTENÁRIO DA SLP

“A PÁTRIA NÃO É A LÍNGUA PORTUGUESA

Leia em

http://oz.com.sapo.pt/A%20PATRIA%20NAO%20E%20A%20LINGUA%20PORTUGUESA.pdf

03-01-2005

Um livro polémico sobre Moçambique

A transformação da Resistência Nacional de Moçambique (Renamo) de grupo
armado em partido político, a partir da assinatura do Acordo Geral de Paz,
de 1992, em Roma, é o objectivo da investigação do francês Michel Cahen, do
Centro de Estudos da África Negra do Instituto de Estudos Políticos de
Bordéus.
A guerra de agressão sul-africana contra o regime marxista da Frente de
Libertação de Moçambique (Frelimo), de Samora Machel, transformara-se numa
"terrível guerra civil", que de 1977 a 1992 provocara provavelmente um
milhão de mortos, num país de 15 milhões de habitantes.
O que Cahen tratou de investigar foi a transformação da Renamo de "exército
selvagem", tal como era entendida pelo regime de Maputo ou pelos seus
simpatizantes, em partido político digno de participar nos novos tempos e de
vir a ter uma forte bancada parlamentar.
Tentanto colocar de lado as suas ideias iniciais sobre o conflito, em que os
guerrilheiros que se opunham a Machel eram tidos como "bandidos", o
historiador de Bordéus procurou compreender as motivações que levaram largos
sectores da sociedade moçambicana a acolher uma estrutura contestatária.
A sua obra explica-nos como é que um grupo que fora criado pela Rodésia
racista de Ian Smith e depois apoiado pela África do Sul do apartheid se
soube transformar, com os anos, numa autêntica força alternativa da
sociedade moçambicana, com aspirações a um dia conseguir o poder pela via
eleitoral.
Cahen chegou à conclusão de que o grupo de Afonso Dhlakhama se conseguira
constituir em movimento conservador e populista susceptível de apelar aos
habitantes de uma parte significativa do país, que mais não fosse pelo
simples facto de a capital se encontrar muito longe do centro e deixar muita
gente com uma certa sensação de abandono.
Maputo fica no extremo sul de Moçambique e as populações de províncias como
Manica, Sofala e Zambézia consideram-se esquecidas pelo poder central,
tendendo assim a votar na Renamo como um partido que melhor poderá
representar os seus interesses. O investigador diz mesmo que é como se
Perpignan fosse a capital francesa ou Vila Real de Santo António a capital
portuguesa.
Todo o esforço de Cahen vai no sentido de demonstrar a necessidade de se
atender muito a sério às necessidades dos que não vivem nas grandes cidades
ou, pura e simplesmente, na extremidade meridional do país. "Pessoas
abandonadas à sua sorte há demasiado tempo", as dos meios rurais do Centro e
Norte de Moçambique.  Jorge Heitor

Título: "Os Outros"
Autor: Michael Cahen
Tradução: Fátima Mendonça
Editor: P. Schlettwein Publishing (Basileia, Suíça)
Págs. 230
Jorge Heitor - PÚBLICO

28-12-2004

Biografia de Simango terá nova edição

Uriasimango_capa A biografia do antigo vice-presidente da Frelimo( movimento e não partido), Uria Simango, deverá ter uma segunda edição. Em contacto com o IMPARCIAL, Barnabé Lucas Ncomo, autor do livro “Uria Simango: Um homem, Uma causa” fez saber que os 2500 exemplares da 1ª edição já se encontram esgotados em

Moçambique.

O livro em causa, retrata de forma minuciosa o percurso de Uria Simango, o Reverendo protestante que foi vice- presidente da Frelimo, nos anos de Mondlane.

Uria Simango, pai do edil da cidade da Beira, Deviz Simango e do deputado pela Renamo-União Eleitoral Lutero Simango, foi fuzilado extra-judicialmente pelo regime monolítico dirigido por Samora Machel.

No seu livro (um best seller) Barnabé Lucas Ncomo, faz crer que o fuzilamento de Simango terá ocorrido algures em M’telela na Província nortenha do Niassa. Acredita-se que na mesma ocasião terão sido mortas outras figuras tidas como “reaccionárias” pela lógica do regime Machelista.

Uria Simango, que pelos estatutos da Frelimo deveria substituir Eduardo Mondlane, assassinado em 1969, foi membro do “triunvirato” formado imediatamente a seguir à morte do primeiro presidente da Frelimo. Outros membros do trio eram Marcelino dos Santos e Samora Machel. Simango desiludiu-se com os seus colegas de liderança e retirou-se do movimento não, sem antes, tornar pública uma carta intitulada “ Triste Situação no Seio da Frelimo”. A referida carta denunciava as atrocidades cometidas contra alguns militantes de primeira hora pela liderança de Samora Machel assessorada pela denominada “Gang de Argel”. Paradoxalmente, segundo Ncomo, alguns membros séniores do partido Frelimo, só à posteriori tiveram conhecimento do fuzilamento de Simango. Aquando do lançamento da primeira edição do livro em referência os antigos camaradas de armas de Simango primaram pela ausência.

CM – IMPARCIAL – 28.12.2004

26-12-2004

XV Concurso Internacional Literário (de VERÃO) Contos, crônicas e poesias

Arnaldo Giraldo Edições AG
REGULAMENTO
XV Concurso Internacional Literário (de VERÃO) Contos, crônicas e poesias

Inscrições ATÉ: 15/02/2005.

A Edições AG convida escritores e poetas a participar do XV Concurso
Internacional  Literário de Verão. Os autores que tiverem seus trabalhos selecionados serão  convidados a participar da edição do livro em regime cooperativado.

   TÍTULOS JÁ PUBLICADOS:

* Folhas de Outono - 1 volume - 104 páginas - jul/98
* Sinfonia da Primavera - 2 volumes - 128 páginas cada - dez/98
* Reflexos de Outono - 2 volumes - 128 páginas cada - jul/99
* Vigor de Primavera - 2 volumes - 136 páginas - jan/2000
* 500 Outonos de Prosa e Verso - 3 volumes -144 páginas - set/2000
* Reverberações - 2 volumes - 160 páginas cada - maio/2001
* Emoções - 2 volumes - 136 páginas cada - (nov/2001)
* Luz e Sombra - 2 volumes - 144 páginas volume I/ 104 pag vol II - maio/2002
* Energia Latente - 2 volumes - - out/2002
* A Forja da Liberdade - maio/2003
* A Árvore da Vida - nov/2003
* Idiossincrasias - maio/junho de 2004 - 176 e 192 páginas.
* Humano, humano demais - nov/2004)
* Agreste Utopia´-previsão:maio/2005

Cada autor poderá participar nas categorias de conto, poesia e crônica, em
obras de tema  livre, com até (4) quatro trabalhos em cada categoria. Sugere-se que cada trabalho não  ultrapasse 4 (quatro) páginas. Os trabalhos devem ser enviados até 15/02/2005. Cada autor  poderá participar em mais de uma categoria. Os trabalhos deverão ser apresentados  datilografados ou digitados, com pseudônimo, em espaço dois, digitados de um só lado do  papel e tendo todas as páginas numeradas. Em envelope separado colocar breve currículo  do autor incluindo nome, pseudônimo, categoria a que concorre, endereço completo e  telefone para contato, bem como e-mail, se houver. Também aceitam-se trabalhos por  e-mail ( não mandar attached file) - coloque o trabalho no corpo da mensagem. Mande um  e-mail só, com os trabalhos na seguinte ordem:

* a)-dados pessoais completos (não esquecer CEP,DDD e telefone de contato), e-mail (Se tiver email, favor colocá-lo no texto) -
* b)-pequeno currículo - caso queira.
* c)-trabalhos, cada qual separado por 5 ou 6 asteriscos ou outro sinal qualquer para  indicar o fim da obra anterior.

   Os trabalhos deverão ser enviados para:
   XV Concurso Internacional Literário de VERÃO
   A/C : Arnaldo Giraldo
   Estrada do Campo Limpo, 6903 c/152
   05787-000 - São Paulo - SP
   Telefone para contato: (0xx11) 5841.3693

   Internet: www.giraldo.org

   e-mail: agiraldo@uol.com.br


   Os resultados serão divulgados até 15/03/2005 e os autores selecionados
serão  contatados para a organização da edição do(s) livro(s), cuja impressão
deverá dar-se no  decorrer dos mesess de jul/agosto de 2005 (dependendo da velocidade de adesão dos autores). O  envio dos livros aos autores deve dar-se no decorrer de agosto/setembro de 2005.

24-12-2004

O Natal dos meninos pobres

Mo3_1       Com um texto de Fernando Cruz Gomes ( meu amigo e angolano, no Canadá) desejo a todos os amigos do MOÇAMBIQUE PARA TODOS um Santo Natal e um Óptimo 2005.

        Que venturas cheguem à nossa África bem-amada, que bem necessitada está delas. Ah! ...e um abraço por me aturarem...

Fernando Gil

Fernando Cruz Gomes

Sol Português

"A VIDA É UMA PEÇA DE TEATRO QUE NÃO PERMITE ENSAIOS.
POR ISSO, CANTE, CHORE, DANCE, RIA E VIVA INTENSAMENTE ANTES QUE
A CORTINA SE FECHE E A PEÇA TERMINE SEM APLAUSOS."

(Charlie Chaplin)

Os anos já voaram. E de tanto frenesi na sua cavalgada, nem sequer nos apercebemos o rumo que tomaram, o sítio onde se esconderam. Triste, mas verdade. O homem novo não nasceu ainda e mesmo que teimemos, todos, em dizer que Cristo nasceu e que dele virá a Luz... a verdade é que nos atolamos nos mesmos ódios e nas mesmas vicissitudes que negam a existência do tal Homem Novo... que ele é.

Pior do que isso é verificar – e nós verificamos – como se pode estar tão crente em Deus-Menino, ao domingo – quiçá mesmo no Natal – e depois, no resto da semana, no resto do ano... sermos todos como que um “cristão invisível”, que abjura de pronto o que aprendeu e atira às malvas o conceito do Natal e da Paz que ele impulsiona.

Triste, de facto, é todas as pessoas – por estas alturas – dizerem (até com palavras bonitas) que crêem em Deus. E, depois, nas acções do dia-a-dia, mostrarem totalmente o contrário.

Se formos por aí, na turba multa das compras de Natal, ajoujando-nos com sacos e mais sacos, gastando em minutos o que ganhámos – ou não ganhámos, o que ainda é pior – num ano bem cheio. Se formos às igrejas e virmos o aparente crer que há em cada um. Se virmos o sorriso bonito de uma criança bonita. Se num hospital virmos o sofrimento deste, daquele e daqueloutro. Se nos embrenharmos no dia-a-dia das coisas inúteis que fazemos.... Se...

E, no entanto, o Natal seria para nos dar um ponto de referência. Daqueles que são perenes. Que nos unem. Que deixa entrar luz em coração onde haja trevas. Que se entrechoca com o vício e com a loucura, com a sandice e com a doença. Nivelando tudo e dando a tudo o bálsamo da tal nota de Paz. O Natal seria, de facto, isso mesmo.

O menino está ali. Frente aos brinquedos que não são dele. Que outros hão-de comprar. E o estar ali é como que um acto de ser. Como quem sorve em segundos o ar que outros levam para casa para sorver em anos. O Menino está ali. E mesmo que a mãe o empurre (“vamos... que se faz tarde..”), ele não consegue despegar-se da montra feita ilusão. Um pouco mais. É preciso um pouco mais. É que há, do outro lado, um menino ainda mais pobre. Com sinais claros de quem não come. Com o olhar triste de quem... talvez nem o afago de mãe tenha.

E o menino vai esperando. De soslaio... olha o outro. Que já o viu também. E que teve, afinal, os mesmos pensamentos. A jeito de uma angústia sadia... os corações de ambos entenderam-se. Entrelaçaram as mãos místicas do sofrimento feito acto de coragem. Semicerraram as pálpebras de uns olhos mortiços e entenderam, afinal, a mensagem que lhes era transmitida. De um ao outro...

E quando a mãe insistiu, o menino-primeiro... disse que não queria brinquedos. Que estava com fome. Que era melhor guardar o dinheiro para um copo de leite talvez com um bolo de arroz... daqueles que fazem as delícias dos meninos ricos.  A mãe lá foi. Entendendo (ou não entendendo, que vem a dar no mesmo...) que o seu menino estava, de facto, a viver o seu Natal.

Quando perpassaram um pelo outro, os dois meninos olharam-se. Nada disseram. Seguiram viagem ambos, com quase “escândalo” da mãe que não entendia. E a mãe dele... onde está a mãe dele?!

Sempre sem falar, entraram num café que havia por ali. Pediram leite... pediram pão. A mãe só olhava. Pediram o tal bolo de arroz. E eles, os dois, nem falar... falavam. Entendiam-se sem ser necessário a palavra. Ficaram por ali em amena cavaqueira dos corações. Daquelas que se não ouve e apenas se sente... A vida é, de facto, uma peça de Teatro

Os meninos entenderam-se. A mãe... havia de entender, quando viu a frase que alguém deixou por ali escrita. E que tinha a assinatura de um tal Charlie Chaplin, que ela conhecera, quando, há muitos anos, o seu proprio marido ainda era vivo.  A vida é, de facto, uma peça de Teatro que não permite ensaios. O melhor é por isso cantar, chorar, dançar. É viver intensamente antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos. Mas ela, lá bem no íntimo, já estava a aplaudir a peça do seu filho e do outro...

E eu, tamanhão que já sou... fui um daqueles meninos!

21-12-2004

Marcelina Chissano lança livro

"Com Moçambique no Coração", é o título de um livro de autoria da Primeira-Dama do nosso país, Marcelina Chissano, que é lançado hoje em Maputo, no Centro de Conferências Joaquim Chissano.

A obra, ilustrada a cores, retrata a experiência do gabinete da esposa do Presidente da República no esforço da mulher moçambicana na luta pelo bem-estar. Os textos que compõem o livro são de tratamento simples e apoiados de imagens que registam os projectos de desenvolvimento e formação da mulher concebidos pelo Gabinete da Primeira-Dama.

A cerimónia contará com a presença, entre outros, do Chefe do Estado moçambicano, Joaquim Chissano, membros do Governo e do corpo diplomático, deputados da Assembleia da República, representantes políticos e religiosos, artistas e de vários beneficiários dos programas do Gabinete da Primeira-Dama.

Noticias - 21.12.04

13-11-2004

Brasil dá primeiro passo para unificar língua portuguesa

22/10/2004 - 09h24
ANDRÉ SOLIANI
da Folha de S. Paulo, em Brasília

As duas ortografias oficiais da língua portuguesa --a do Brasil e a de Portugal-- estão prestes a se tornar uma só. Na quinta-feira (21), o governo brasileiro aprovou um protocolo que deverá, em breve, promover a unificação.

Com a reforma pela qual a língua passará, o trema deixará de existir, a não ser em nomes próprios e seus derivados, e o alfabeto passará a ter 26 letras --incorporará mais três: "k", "w" e "y".

O filólogo Antônio Houaiss, representante brasileiro durante as negociações com Portugal (que terminaram em 1990), aponta no livro "A Nova Ortografia da Língua Portuguesa" cerca de 40 mudanças que terão de ser incorporadas ou à ortografia brasileira ou à portuguesa.

As mudanças, no entanto, ainda dependem da aprovação do protocolo por Portugal e Cabo Verde. O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa existe desde 1990, mas nunca foi implementado, pois precisava da ratificação de todos os oito membros da CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa). Apenas três deles --Portugal, Brasil e Cabo Verde-- haviam começado a adaptar suas legislações ao acordo.

Para agilizar o processo de reforma da língua, os chefes de Estado da CPLP decidiram, na última reunião de cúpula, em meados deste ano, que bastaria a ratificação do acordo por três países para que ele passasse a valer. O protocolo assinado pelo Brasil ontem é o que permite a entrada em vigor do acordo com apenas três ratificações.

O governo brasileiro conta agora com a aprovação do protocolo em Portugal e Cabo Verde. Para isso, o Ministério de Relações Exteriores pediu às embaixadas brasileiras nos dois países que promovam a aceleração da aprovação do protocolo.

Mudanças

As novas regras ortográficas obrigarão os portugueses a grafarem algumas palavras como no Brasil. O verbete "acção" passará a ser "ação". Os portugueses também terão de retirar o "h" inicial de algumas palavras, como em "herva" e "húmido", que passarão a ser grafadas como no Brasil: "erva" e "úmido".

Para as palavras que admitem diferentes pronúncias, manteve-se a possibilidade de duas grafias. Os brasileiros escreverão "fato", e os portugueses, "facto". As duas formas de grafar esse substantivo serão consideradas corretas nos países signatários do acordo.

Segundo um integrante do governo ligado à área da cultura, que preferiu permanecer no anonimato para evitar desgastes com Portugal, a reforma fará com que o português falado no Brasil se torne o internacional.

Mas os brasileiros também terão de se acostumar com mudanças. Não se usará mais o acento circunflexo nas terceiras pessoas do plural do presente do indicativo ou do subjuntivo dos verbos "crer", "dar", "ler", "ver" e seus derivados. A grafia correta será "creem", "deem", "leem" e "veem". O acento circunflexo em palavras terminados em hiato "oo", como "enjôo", também cairá. O acento também deixará de ser usado para diferenciar "pára" (verbo) de "para" (preposição). Alguns acentos já haviam sido abolidos no Brasil na reforma ortográfica de 1971.

Na opinião de Carlos Alberto Xavier, assessor do ministro da Educação, a unificação da ortografia é importante para o futuro da língua portuguesa no mundo. O português é a terceira língua ocidental mais falada, atrás apenas do inglês e do espanhol.

O fato de existirem duas ortografias dificulta campanhas de divulgação do idioma e a sua adoção em fóruns internacionais. "A entrada em vigor do acordo é condição essencial para a definição de uma política de promoção e difusão da língua portuguesa", afirma nota divulgada ontem pelo Itamaraty.

07-11-2004

3 livros "explosivos" na Biblioteca do Macua de Moçambique

Na Biblioteca do Macua poderá desde já encontrar mais três obras que muito dizem à História recente de Moçambique:

Uriasimango_capa1_2 - URIA SIMANGO, UM HOMEM E UMA CAUSA, de Barnabé Lucas Ncomo, com algumas transcrições e fotos.

http://www.macua.org/livros/uriasimango.html

Escalada_capa1 - MOÇAMBIQUE - A ESCALADA DO TERROR, uma reportagem do jornalista Inácio de Passos, vários anos residente em Tete e na Beira, integralmente colocado na biblioteca, abarcando essencialmente o período de transição e os princípios da governação da FRELIMO, com nomes e não pseudónimos.

http://www.macua.org/livros/escalada.html

Opcaoespada_capa_1 - A OPÇÃO PELA ESPADA, de Pedro A. Marangoni, que relata a sua passagem por várias "guerras", incluindo a formação da Renamo, de que foi um dos primeiros instrutores. Entre outras inclui uma foto do autor com o Comandante André, que suponho ser a única disponível em toda a net.

http://www.macua.org/livros/opcaoespada.html

Cada vez mais resulta que a HISTÓRIA DE MOÇAMBIQUE, não é a que a FRELIMO transmitiu e ainda, desonestamente, transmite, pese o papel que teve na conquista da sua independência.

Finalmente, que é feito dos HISTORIADORES DE MOÇAMBIQUE ( que não da FRELIMO)?

06-11-2004

MIA COUTO TRADUZIDO EM HEBRAICO

Miacouto01
O livro ‘Terra Sonâmbula’, do moçambicano Mia Couto, acaba de ser lançado em Israel pela Editorial Carmel, sendo a primeira obra deste autor a ser traduzida para hebraico.
O tradutor de ‘Terra Sonâmbula’ é Ioram Melcer, que conta no seu currículo com a tradução de obras de Fernando Pessoa e de António Lobo Antunes.

As primeiras críticas à obra de Mia Couto são bastante lisonjeiras e salientam a oportunidade que o romance oferece para uma perspectiva sobre a vida em Moçambique pós-colonial.

Israel Carmel, proprietário da editora com o seu nome, é um pioneiro na publicação de obras portuguesas em língua hebraica, nomeadamente uma antologia de Fernando Pessoa (’93), ‘Meditações Sobre Ruínas’, de Nuno Júdice, e ‘Livro do Desassossego’ (2000), e ‘Poemas de Alberto Caeiro’ (’04), de Pessoa.

CORREIO DA MANHÃ - 03.10.2004

05-11-2004

As confissões de Melo Antunes

Além da "natural" responsabilidade dos dirigentes do PCP e do PS da altura, no processo de descolonização, recordo as palavras de Melo Antunes antes de falecer (Julho de 1999):
“(…) Muitos responsáveis políticos portugueses têm dito que a descolonização foi a que era possível. Acho que não é assim. Considero que a descolonização foi uma tragédia. Foi uma tragédia a maneira como a descolonização acabou por se realizar. Tal como a colonização o foi. Os dois aspectos estão ligados.
Não assumo a responsabilidade do que hoje lá se vive. Isso tem a ver com os movimentos e os seus líderes. Assumo a responsabilidade das negociações para a descolonização não terem sido conduzidas de modo a evitar situações, que acabaram por “descambar" naquilo que hoje existe nos ex-territórios portugueses africanos, (…)

Relembro estas palavras de Melo Antunes, pois julgo que a autora do livro/entrevista se esqueceu delas...

Confirmarei quando o livro for colocado à venda.

23-10-2004

URIA SIMANGO Um homem, uma causa

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Da obra de Barnabé Lucas Ncomo, com o título acima, aqui transcrevo, com a devida vénia, a Sétima Parte - Nas mãos dos algozes.

Chamo a vossa atenção de que poderão ouvir Uria Simango em
http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2004/10/stronga_confiss.html

bem como outra parte da obra em
http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2004/10/que_ligar_mtele.html

Download NASMAOSDOSALGOZES.doc

14-10-2004

Que ligará M'telela a Wiriamu?

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Mão amiga fez-me chegar o livro de Barnabé Lucas Ncomo "URIA SIMANGO Um homem, uma causa".
Aproveito para transcrever o capítulo abaixo:

Do Pelotão Maldito ao efeito boomerang
Manuel Mapfavisse era um dos mais temidos carrascos de M'telela desde a abertura do Centro em 1975. Estava à testa de um pelotão de guardas e, por ser mais instruído literariamente do que a maioria de outros guardas, servia de correio entre M'telela e Lichinga.
Natural de Ampara, no distrito de Búzi em Sofala, Mapfavisse havia recebido a alcunha de "o Bazuca", dada a sua estatura latagónica. Tal como o comandante e a grande parte dos que integravam a Companhia de 150 homens que guarnecia o Centro, Mapfavisse vivia com a família nas cercanias do mesmo.
A páginas tantas, a situação dos presos começou a preocupar um certo grupo de guardas. Condoía-lhes a situação de alguns presos doentes e particularmente da Dra. Joana Simeão. Como esta era ainda muito jovem, chegado o período menstrual, viam-na na sua cela a contorcer-se de cólicas sem poderem ajudá-la. Aos trapos que lhe atiravam como pensos para conter o fluxo sanguíneo, cabia a eles voltar a recebê-los através da portinhola da cela e desembaraçarem-se dos mesmos.
Deste modo, até princípios de 1977, havia em M'telela dois tipos de guardas para mesmos prisioneiros: Um grupo de defensores acérrimos da causa do regime e um outro que aparentava ser defensor dos direitos dos prisioneiros. Bazuca alinhou com o segundo grupo constituído pelo pelotão que ele chefiava. Num dia, sem dar conta da dimensão do problema que ia criar, planeia com alguns do seu pelotão a fuga de três prisioneiros dentre os quais a Dra. Joana Simeão. Mas antes, Bazuca ter-se-á queixado junto do comandante dos transtornos que aqueles três presos davam. Falou da situação de Simeão e de homens que se prezavam como tal - como aqueles guardas - terem que suportar situações que contrariam a tradição, lidando com coisas íntimas que só às mulheres diziam respeito, apenas porque a infeliz prisioneira não podia sair da cela. Aparentemente, a lamentação foi ao encontro da sensibilidade de Mombola e este, tomando a peito a questão, garantiu que encontraria uma solução. Efectivamente, Mombola encaminhou a preocupação a Lichinga, usando como argumento a tradição africana e os "perigos" que advinham de um homem lidar com coisas femininas daquele tipo. A resposta de Lichinga não se fez esperar. Veio "curta e grossa": "Mandem a Joana e os outros dois cortar lenha!...'»9.
Na gíria da guerrilha da Frelimo, especialmente desde a abertura da base Moçambique D, próximo de Nangololo, na província de Cabo Delgado, "cortar lenha" significava execução sumária de prisioneiros.
Recebida a Ordem de Serviço, Mombola incumbiria a missão precisamente a Bazuca, a quem deu aval para escolher alguns do seu pelotão para executarem a missão. Bazuca escolheu então quatro guardas dentre os que com ele conspiravam e deu instruções claras, alertando-os como deviam agir para libertarem os três presos sem levantar suspeitas.
As instruções de Lichinga haviam chegado numa altura em que o Comandante preparava uma viagem para aquela cidade, exactamente na companhia de Bazuca. Assim, achou-se por bem executar a "missão Joana" antes da partida, de forma a poder relatar os resultados à chefia da Contra Inteligência Militar na capital provincial.
Ao entardecer, os quatro homens, sob ordens de Bazuca, que na circunstância se viu impossibilitado de se fazer à mata dado o avalanche de trabalho que tinha que executar antes de seguir para Lichinga, retiraram os presos e encaminharam-nos para o local da execução. Chegados aí, os quatro guardas deram instruções aos presos para que escapulissem. Mas antes, terão exigido que estes lhes assegurassem possuir capacidades para alcançarem "terra firme" , isto é, o vizinho Malawi. E mais, exigiram aos presos que nunca revelassem as circunstâncias da sua fuga. O receio de possíveis transtornos recaía sobre Joana Simeão por na época o seu nome ter sido muito sonante na opinião pública moçambicana. Se reaparecesse no estrangeiro, certamente que iria complicar a vida dos guardas. Joana Simeão assegurou, então, que se manteria calada, e uma vez a salvo no estrangeiro adoptaria um outro nome como garantia de passar ao anonimato.
Tendo concordado que tudo ficaria no segredo dos deuses, os guardas dispararam alguns tiros ao acaso e depois instruíram os presos como deviam caminhar e comportar-se na densa floresta de Niassa. Iniciou assim a fuga dos três prisioneiros incómodos. Todavia. Joana ficaria para trás por não conseguir manter a passada" dos seus companheiros de cárcere. Como consequência disso, viria a ser recapturada dias depois.
Mas antes, regressados ao Centro, os quatro carrascos relataram os factos ao seu chefe - Bazuca - o qual, por sua vez, informou ao Comandante sobre o "pleno cumprimento" da Missão Joana. Sossegado, no dia seguinte, Mombola empreende então a viagem programada a Lichinga, na companhia de Bazuca para, entre vários afazeres, informar aos seus superiores hierárquicos acerca da execução da Dra. Joana Simeão e de outros dois prisioneiros.
Contudo, contrariamente às garantias dadas pêlos presos, as coisas no terreno complicaram-se. Um dos prisioneiros, conhecedor da mata e natural de Majune, uma vila situada a norte de M'telela, conseguiu lá chegar pedindo protecção a familiares seus. Estes imediatamente esconderam-no, para mais tarde tratar do seu envio para o Malawi onde residiam pessoas de família. Antes, porém, o antigo prisioneiro revelaria as atrocidades cometidas pelas autoridades em M'telela e as circunstâncias da sua fuga na companhia de Joana Simeão e de outro prisioneiro. Se bem que o homem não tivesse denunciado os guardas que lhe facilitaram a fuga, não evitou que a notícia se espalhasse entre os aldeões, chegando ao conhecimento das autoridades locais.
Notificadas as autoridades em Lichinga sobre o acontecido em Majune, Mombola, ainda mergulhado nos seus afazeres na capital provincial, foi posto ao corrente da situação pelo chefe provincial da CIM. Perante o choque inicial da notícia, e longe de imaginar que Bazuca fosse a pessoa que planificou tudo, o Comandante recorre a este para com ele estudar a forma de se livrar da situação. Igualmente alarmado, Bazuca apercebe-se da dimensão do problema que criou. Precavido, ciente do que lhe aconteceria se Mombola regressasse primeiro à M'telela, sugere ao comandante do centro que permaneça em Lichinga para ultimar os seus afazeres, e que ele regressaria de imediato a M'telela para acudir à situação. Tanto Mombola como o Chefe da CIM terão concordado com a ideia e deu-se instruções para que assim que chegasse ao Centro, Bazuca perseguisse os fugitivos. Aos infractores que deixaram escapulir os presos, devia-se-lhes "mandar cortar lenha", vituperou o chefe da CIM.
De regresso a M'telela, Bazuca move-se no sentido de evitar que o seu nome se associe ao plano da fuga. Age com cautela e rapidez. Fala em surdina com os outros chefes de pelotões que ficam estupefactos com a notícia. Informa-os sobre os passos à seguir, de acordo com as instruções que trazia. Numa missão silenciosa, os quatro carrascos foram imediatamente presos e não se lhes deu tempo para se explicarem, pois perante um quadro devidamente pintado por um homem de extrema confiança como o era Bazuca, a medida não sofreu qualquer suspeita dos restantes chefes de M'telela. Na calada da noite, os detidos foram levados para um local afastado e executados a golpes de baioneta desferidos por Bazuca e outros chefes de pelotões.
"Aqueles tipos morreram sem perceber porquê. Primeiro porque não lhes passou pela cabeça que um dos presos foi parar ao Posto administrativo de Majune. Segundo, como cada um deles foi amordaçado, tendo uma venda colocada sobre a vista, não era possível perceber quantas pessoas estavam a sua volta. Depois foram arrastados para sítios diferentes e mortos."50.
No dia seguinte a morte dos 4 guardas, iniciou a caçada aos fugitivos. Um grupo de cerca de quinze homens armados de kalashnicovs fizeram-se ao mato à caça dos fugitivos. A Dra. Joana Simeão viria a ser recapturada pouco tempo depois. Sozinha na mata de Majune, não conseguiu ir longe. Os guardas, ao avistarem-na, gritaram para que parasse. Por não obedecer à ordem, um dos guardas disparou, atingindo-a na mão direita. Meses depois seria sumariamente executada na companhia do Rev. Uria Simango e dos restantes prisioneiros políticos.
Cerca de uma semana após a execução dos quatro carrascos e da recaptura de Joana Simeão, Mombola regressou ao Centro tendo felicitado Bazuca pelo trabalho. Todavia, para as autoridades, os guardas de M'telela haviam vacilado. Era necessário imprimir uma maior rigidez na disciplina do Centro. Mombola regressou a M'telela com uma ordem severa para cumprir, e, aos chefes dos vários pelotões, viria a declarar:
" (...) o que aconteceu aqui é grave. Todos vocês sabem que isto não é brincadeira camaradas. Nós que somos responsáveis aqui podemos ser culpados e morrermos por brincadeiras de alguns desordeiros. Trago ordens que devem ser cumpridas, doa a quem doer. Todos aqueles que estavam de serviço naquele dia também sabiam do jogo. Os chefes em Lichinga disseram que é preciso punir severamente todos para servir de lição para que ninguém no futuro aceite mais ser comprado ideologicamente por estes reaccionários aqui:51 .
Dessa forma, os restantes quinze guardas de um pelotão de 20 homens comandados por Bazuca, morriam. Levados para o local da matança, foram todos executados.
Entretanto, eliminados os guardas, surgiu o problema de como se informar as esposas de alguns deles sobre o brusco desaparecimento dos maridos. A solução encontrada foi a de se liquidar não só as senhoras, mas também os filhos52.
Medida semelhante estava, ao que se diz, reservada aos filhos do Rev. Uria Simango. Depois de o ter mandado executar, o regime da Frelimo insistentemente endereçava convites aos filhos do casal Simango para que se deslocassem ao Niassa a fim de "visitarem" os pais. "0s meus tios disseram-me que, por duas vezes, apareceram na Beira, vindas de Maputo, pessoas das nossas relações familiares ligadas a Frelimo. Não vou dizer os nomes dessas pessoas. Diziam que o governo queria que nós fossemos visitar os nossos país em Niassa. Nunca falavam directamente comigo. Dirigiam-se aos meus tios e os tios nunca nos diziam nada porque éramos menores, para além de que se nos dissessem nós imediatamente passaríamos a viver imaginando sempre a hora da partida para Niassa e o reencontro com os país"*.
Desconfiados da "boa fé" do regime, os tios dos três rapazes sempre se opuseram. Tinham informações, vindas de outras pessoas ligadas ao poder, de que tais convites encerravam em si algo de sinistro, que culminaria com o desaparecimento dos filhos do casal Simango.
-"Arranjem-se como puderem, mas não deixem que os meninos sigam para Niassa porque de lá não mais regressarão com vida" – diziam.
Mas a uma dada altura a nostalgia provocada pela separação forçada da família ter-se-á apossado de forma dramática do filho mais velho do Reverendo Simango. O jovem optou então por arriscar, espantando a fera na sua toca. Nos fins de 1981, sem o conhecimento dos tios, Lutero escreveu uma petição ao então ministro residente na província de Sofala, solicitando-lhe que autorizasse a sua deslocação e dos irmãos a Niassa, a fim de visitar os pais. Numa reflexão retrospectiva, Lutero Simango acredita também numa possível existência de separação de poderes no seio da Frelimo daquela época, pois, segundo suas palavras, a existir um plano para os liquidar, ou o ministro residente não estava ao par dele ou, simplesmente, quis poupa-los. "De contrário, não faria o que fez"55.
Com efeito, em face da petição que lhe chegou as mãos, o então ministro residente mandou chamar o rapaz. Eis o que diz Lutero Simango:
" Quatro ou cinco dias depois de ter recebido a minha petição, logo de manhã cedo mandou um jeep militar lá para casa do tio Francisco onde eu vivia, no bairro do Esturro. Foram lá 4 militares bem fardados e armados com AKM's. Os meus irmãos viviam no Bairro do Vaz com o tio Elijah. Como o jeep chegou antes das sete horas, ao tocarem a campainha quem abriu aporta foi o tio Francisco que se preparava para ir ao serviço. Ao deparar com dois homens armados, o velho entrou em pânico. Mas os homens acalmaram-no. Disseram-lhe que não havia problemas nenhuns. Perguntaram muito civilizadamente se era naquela casa onde vivia o filho de Uria Simango. O meu tio disse que sim mas quis saber o que se estava passando. Os homens insistiram que não havia problemas nenhuns. Tinham vindo a mando de sua excelência levar o senhor Lutero para ir ao gabinete do governo, porque sua excelência queria falar com ele. Eu ainda estava na cama. Acordaram-me. E como o velho nada sabia da carta que eu havia feito, ficou mais baralhado. Preparei-me então para seguir com aqueles homens. Os tipos até me deixaram matabichar. Estavam todos atentos aos meus gestos e sorridentes. Acho que nunca tinham visto de perto um filho de um reaccionário!... Achavam graça me vendo comer. Depois saí com eles direitinho para o gabinete do ministro residente. Só que quando lá chego, quem me recebe não é o ministro. Foi o chefe do gabinete. O homem foi muito gentil também. Estava todo sorridente. Começou por oferecer-me um café que recusei. Depois disse que o ministro recebeu a minha carta e pediu-lhe que conversasse comigo antes de estar frente a frente com ele num encontro que se previa para a semana seguinte. Disse que o governo sabia que nós estávamos passando algumas necessidades. Que o camarada ministro deu instruções para disponibilizar uma casa recheada de mobílias e uma viatura para nos os três, etc., etc. Estavam dispostos a disponibilizar-nos uma mesada e garantir as necessidades escolares. Eu deixei-lhe falar e depois disse-lhe: ok, diga ao camarada ministro que eu aceito que o governo tome conta de nós e nos dê mundos e fundos. Mas há uma condição: Que tudo isso esteja aliado a preocupação número um, visitar os nossos pais. Que nos fosse permitido, nem que uma vez de seis em seis meses, visitar nossos país. De contrário, nada feito.
Ele disse que ia encaminhar a preocupação ao ministro. Só que nunca mais me contactaram e eu também não insisti, porque quando regressei a casa os tios estavam em alvoroço. Coitado do tio, nem foi trabalhar nesse dia. A tia Mazwiona, então, estava mergulhada num charco de lágrimas. Só parou de soluçar quando me viu a entrar. Contei-lhes o que havia feito. Nesse dia levei um bom puxão de orelhas e avisaram-me de que nunca mais queriam ouvir falar disso. Foi daí que passei a saber que já houve tentativas de levar-nos para Niassa, e tudo fora água abaixo porque outros diziam que isso significava morte certa. Isso aconteceu entre 1977 e 1978. Como eu não soubesse nada disso, durante as férias escolares de 1981, se a memória não me engana, fiz então a petição, sem conhecimento dos tios. No ano seguinte vim para a Universidade em Maputo. Nunca mais se falou do assunto, porque os tios voltaram a avisar-me que em Maputo eu tinha a missão de estudar e nada de me meter em coisas que podiam dificultar os meus estudos. Penso que eles já desconfiavam que os nossos pais estavam mortos."56.
Bazuca saiu limpo do esquema por ele montado, mas não viveria por muito mais tempo. Nos meados de Janeiro de 1982, eclodiu no Centro de M'telela um problema de índole passional. Uma das filhas do comandante Mombola, já suficientemente donzela para atrair a gula dos homens, seria o centro de gravitação de dois amores: o de Manuel Mapfavisse (Bazuca) e o do jovem operador de rádio de comunicações do Centro. Enquanto Mapfavisse se esgrimia em presentear a rapariga de bugigangas que trazia de Lichinga onde constantemente se deslocava em missão de serviço e em visita a sua esposa que já nessa altura vivia naquela cidade, clandestinamente, a donzela correspondia ao amor do jovem operador de rádio, fazendo de Bazuca um bobo contente. Bazuca sabia que apesar das suas aliciantes ofertas, quem efectivamente tirava proveito da beldade da rapariga era o homem das telecomunicações que, para além de ainda jovem e com boas perspectivas de vir a casar com a rapariga, era, por outro lado, mais culto literariamente do que ele. Bazuca não encontrava formas de se desembaraçar do jovem apaixonado.
Um dia, a esposa do comandante, vê, na calada da noite, um vulto a sair da janela que dava acesso ao quarto da filha. Alarmada com a situação, informou de imediato o marido o que acabava de presenciar. Ferido no seu ego, o casal Mombola entende então pôr a filha na "prensa", para que dissesse quem havia saído pela janela naquela noite. A menina nega pelas "cinzas dos seus antepassados" ter visto alguém. O assunto não morreu por aí. No dia seguinte ao acontecimento, Mombola pôs em formatura todos os guardas que não estavam de serviço na noite anterior. Deles procura saber quem andava a saltar das janelas das meninas na calada na noite.
Enquanto aguardava pela resposta, confidenciou o sucedido à Bazuca, um que se encontrava a seu lado. Este, sem perca de tempo, sentenciou:
"É o Radista" - referindo-se ao jovem operador de rádio:
Havia muito tempo que Bazuca andava desconfiado dos movimentos do rapaz. O operador de rádio foi assim arrastado da formatura e de seguida, severamente punido. Tudo ficou por aí.
Entretanto, a simples punição que consistiu em fazer buracos de dois metros de profundidade e tornar a tapá-los durante quatro dias consecutivos não agradou a Bazuca. O "radista" tinha que sair do seu caminho.
Numa das suas habituais viagens à Lichinga, Bazuca forja um documento, com carimbo e tudo, onde se lia que o "radista" devia ser fuzilado, porque, segundo dados em poder da Contra Inteligência Militar em Lichinga, o rapaz passava informações ao inimigo. No seu regresso ao Centro, Bazuca exibe a Ordem de Serviço a Mombola. Dada a autenticidade do documento, ao comandante nada restou senão executar a medida. Para alegria de Manuel Mapfavisse, aliás, Bazuca, o jovem "radista" foi executado, deixando-lhe livre o caminho para a rapariga em disputa.
Passaram-se semanas até que o comandante se deslocou a Lichinga, desta feita sem ser acompanhado de Bazuca. O jovem operador de rádio, fora, entretanto, substituído por outro, o qual, perante os insistentes pedidos de colegas em Lichinga, não ousava informá-los por via da rede de telecomunicações os pormenores do que ocorrera com o jovem colega. A notícia da liquidação do "radista" chegou a Lichinga por vias não claras. Os operadores de rádio naquela cidade faziam notar ao novo operador de M'telela que o assunto já constava da agenda do chefe provincial da CIM. De facto, assim que Mombola chegou a capital provincial, o chefe da CIM quis ouvir do comandante do campo de M'telela o que se passara com o jovem operador das telecomunicações daquele Centro. Mombola, perplexo e boquiaberto, apercebe-se de que algo não batia certo, pois que a execução daquele rapaz fora a mando daquele mesmo homem que agora o questionava. Não fazia sentido que o chefe local da CIM quisesse saber de histórias passadas. Decide-se a contar tudo e informa que agiu de acordo com a Ordem de Serviço vinda do gabinete do próprio chefe do CIM.
Em face do que acabava de escutar, o chefe da CIM aconselhou Mombola a manter-se calmo. Deu ordens para que Bazuca fosse chamado à Lichinga com a maior urgência possível.
Uma vez em Lichinga, Bazuca comparece no gabinete do chefe da CIM. A princípio não se apercebe de que havia algo de errado. Desperta quando viu o seu Comandante, de semblante pesado, a entrar e tomar lugar no gabinete sob ordens do chefe da CIM. Confrontado com a célebre Ordem de Serviço, Bazuca nada soube explicar. É imediatamente preso e encaminhado para as celas do comando provincial da CIM em Lichinga. Depois de se confirmar que a Ordem de Serviços havia sido forjada, e que afinal, a história da fuga de Joana Simeão havia igualmente sido por si esquematizada, Bazuca viria a morrer enquanto se encontrava sob detenção em Lichinga, ao que se diz, vítima de um golpe de baioneta espetada por um outro prisioneiro. O golpe, desferido do lado inferior esquerdo do pescoço, provocou-lhe morte instantânea e um certo alívio entre alguns dos seus colegas em M'telela que já andavam cansados das peripécias de Bazuca58.
"A partir da morte de Bazuca começou a desvendar-se muita coisa em torno dos seus segredos e da forma como Simango e outros presos foram mortos. Mombola, apesar de na altura ser o comandante do Centro, era um homem calmo. Era apenas obediente às ordens de Lichinga e não queria problemas para ele. Bazuca não. Esse inventava ordens dele e até aldrabava Mombola. Alguns até ficaram felizes quando se soube que ficou preso em Lichinga. Quando chegou a notícia da sua morte, então é que se pulou de alegria porque era daqueles que punia a torto e a direita lá no Centro. Alguns guardas tinham cicatrizes provocadas pelas punições dele e sempre que se envolvesse em problemas pessoais com pessoas em Lichinga, arranjava forma de trazê-las como presos em M'telela para maltratá-las. Quem me conta a história dele é um dos guardas lá de M'telela, pouco tempo depois que nos chegou a notícia da sua morte"59.
Precavendo possíveis transtornos por parte da esposa de Bazuca que certamente não tardaria a procurar saber junto da CIM em Lichinga das causas do silêncio do marido, e dado que esta não possuía filhos ou familiares próximos naquela cidade que pudessem reclamar o seu desaparecimento, a chefia da CIM entendeu "por bem" encaminhá-la à M'telela para visitar o marido "que estava passando alguns problemas de saúde!..."60. A senhora havia sido colocada na mesma palhota onde viviam Celina Simango e Lúcia Tangane. Foi executada no mesmo dia com estas duas.

Os responsáveis? Todos sabemos os nomes.
Mas que ligará M'telela a Wiriamu?
Vejemos o que escreve, em 1977, Inácio de Passos, residente em Tete, no seu livro "Moçambique a escalada do terror":

Um outro elemento da minha confiança — comandante de talabarte da Frelimo — era também meu confidente. Por ele tinha conhecimento dos resultados do trabalho de limpeza ao cérebro de que o Presidente Samora Machel estava a ser cobaia pelo grupo marxista do Partido, resultados que eram palpáveis nos seus discursos e nas suas atitudes. Esse comandante, que para sua segurança não divulgo o nome, alarmava-se de dia para dia com o procedimento dos dirigentes da Frelimo.
Como o comandante Machava, não representava nenhuma corrente política e ainda possuía em comum com ele o desejo de preservar a ordem social e barrar a evolução de Moçambique para o liberalismo e para a anarquia. Tanto um como outro declinavam a ocupação de papéis de executantes da verdadeira justiça que ambicionavam para Moçambique, e aguardavam com ansiedade o momento que lhes proporcionasse, como em 1964, colocaram-se inteiramente ao dispor do seu país, integrando-se sob o verdadeiro mando do povo.
Com ele falei sobre a Fumo. Com ele discuti, e nem sempre estávamos de acordo, sobre a Rádio África Livre. De tudo quanto lhe contava guardava segredo, pois sabia que o seu silêncio não era traição ao seu povo, pois traição às massas e ao Partido era o procedimento e as ideias dos actuais dirigentes. Mas também por ele tomei conhecimento de factos que sei que até hoje não foram por ninguém revelados.
Quem dirigiu os militares portugueses a Wiriamu, ao «massacre» que serviu de ponta de lança à propaganda anti-portuguesa, encetada com sucesso pelo padre Hastings?
Quem os guiou num pequeno «Volks Wagen», protegido por aperradas armas até ao acesso da picada e os acompanhou até ao local?
Quem assassinou, após o 25 de Abril, o seu serviçal, conhecedor do seu segredo, para que a sua criminosa atitude não fosse divulgada aos dirigentes da Frelimo?
O seu nome é Raul Frechaud Fernandes, primo carnal de Sérgio Vieira, um dos homens que dirige e automatiza Samora Moisés Machel.
— Mas a Frelimo não sabe isso? — interroguei-o.
— Eu próprio informei o comandante José Moiane e ele como comandante provincial não procedeu. O velho afirmou que atitudes antigas eram para esquecer. Eu creio que ele não quer tocar na família de Sérgio Vieira... — respondeu-me.
Raul Frechaud Fernandes, mestiço asiático, é dirigente do Departamento Distrital da Frelimo de Informação e Propaganda. Mas apenas ocupa esse cargo após a Independência. Possuía uma pequena cantina comercial de onde o povo de Wiriamu se abastecia. Desse povo veio a adquirir os meios de fortuna que hoje possui, pois lhe furtava o gado que vendia a militares portugueses em candonga.
Colaborou no assassinato do povo moçambicano que mais intimamente lhe esteve ligado mas hoje é um dos dirigentes do Partido. O povo, porém, sabe que os seus inimigos de ontem são os de hoje. São seus inimigos desde que as teorias e as atitudes do dr. Eduardo Mondlane foram silenciadas pelo deflagrar de um livro armadilhado.

Povo de Moçambique, acorda!
Fernando Gil

27-08-2004

"Uria Simango, Um Homem, Uma Causa

Retirado de um outro local da Internet (27.08.2004):
Deixo aqui uns pequenos excertos de um livro maningue interessante que acabei de ler, e que fala da vida de Uria Simango. O livro, para quem ainda não conhece ou ainda não leu, chama-se "Uria Simango – Um Homem, Uma Causa", da autoria de Barnabé Lucas Ncomo, e é a história daquele que supostamente terá sido um "traidor" da revolução moçambicana.
Aconselho a todos vocês a lerem o livro, porque repito, está maningue nice. Não só porque conta a História de Moçambique de outro modo, e não como nós a conhecemos, fazendo com que os actuais heróis moçambicanos, saiam desde livro um pouco (para não dizer muito) beliscados. Como também porque, tratando-se de um livro redigido por um moçambicano, é curioso verificar que este autor não comunga da ideia da maioria, quando diz que a culpa do estado actual do país é da colonização. Como ele diz, é preciso reconhecer que Portugal ia deixar no solo moçambicano o mínimo para um arranque visando o progresso, que era preciso saber aproveitar. Apesar de ninguém pôr em causa que Portugal espoliou desenfreadamente Moçambique de norte a sul.
Aqui ele vai de encontro ao que eu digo sempre... os tugas fizeram muita merda, mas já chega de culpar a colonização pah! Já passaram 30 anos... quando é que esse tipo de papo acaba?!?
Para terminar, só dizer que os sublinhados, as aspas, os itálicos etc. São todos meus. Fiquem bem!

"Simango acreditava que Moçambique tinha as mínimas bases de arranque para se apresentar ao mundo como um exemplo ímpar a seguir. Portugal não só havia colonizado e espoliado desenfreadamente de uma ponta a outra, as riquezas do país. Também, em abono da verdade, era preciso reconhecer que igualmente ia deixar no solo moçambicano o mínimo para um arranque visando o progresso, que era preciso saber aproveitar.
(...) É que cada estágio do paupérrimo desenvolvimento e progressivo subdesenvolvimento de África, para além da lendária culpa do sistema colonial, tinha também em si como razão a miopia política dos próprios homens que herdaram a histórica missão de conduzir os destinos dos povos do continente na era pós-colonização. E essa miopia consubstanciava-se na intolerância; na prepotência; na falta de pudor e, sobretudo, na falta de vergonha e realismo político.(Barnabé Lucas Ncomo/autor do livro)

Simango achava que as modalidades de ascensão do país à independência diziam respeito a todos os moçambicanos. Para tal, todas as forças políticas existentes no país tinham uma palavra a dizer, pois "o facto de um movimento lutar durante vários anos para a independência dum determinado país, não implica que todos os filhos desse país sejam a favor desse movimento, em termos ideológicos e na matéria de governação. É natural existirem outras opiniões nesse país; mesmo que sejam minorias, merecem o seu devido respeito"- dizia Simango.
Pelo contrário, a FRELIMO não aceitaria qualquer outra força política no país. Invocaria uma legitimidade exclusiva na representação do povo moçambicano, decorrente da luta armada de libertação nacional, e "contada não por votos, mas pelos seus mortos em combate."(Castigo Lucas Ncomo)

"Se o governo português vier a decidir o futuro de Moçambique só com a FRELIMO, qual será a nossa reacção? A nossa reacção deve ser uma manifestação do pensamento do povo moçambicano. O povo sentir-se-à magoado se o governo português fizer isso. Se o governo português fizer isso, terá feito um erro. Lamento informar que isso fará com que nasça uma situação tal que por enquanto eu não posso profetizar, mas não há dúvida alguma de que vai nascer uma situação que não é muito boa. Será um grande erro e o governo português assumirá uma grande responsabilidade pelas consequências... Quais são não posso dizer. Mas é natural que nasça uma situação não agradável."
(Conferência de Imprensa de Uria Simango na Beira – 24 de Agosto de
1974)

"Simango perdeu o controle da situação na FRELIMO não só em consequência da estratégia traçada pelos seus adversários, mas sobretudo porque foi traído e vendido pelos seus próprios irmãos oriundos da sua província e da sua tribo –os Ndaus. Contrariamente ao que o regime propalou a respeito da sua intelectualidade, comparando-a à de Eduardo Mondlane, Simango era um intelectual que se impôs na FRELIMO, desde a primeira hora, por mérito próprio e não pela beleza dos seus olhos. Era um homem eloquente que quando falava para uma multidão as pessoas deliravam. Era um adversário sério para Mondlane e toda a gente sabia disso. Todos os que conheceram Simango e Mondlane conheceram também a diferença entre estes dois homens.
Mondlane, apesar de ser académico, em termos de eloquência e retórica não chegava a um palmo de Simango. Se Simango estivesse vivo, a FRELIMO hoje depararia com problemas, porque nas campanhas eleitorais no sul de Moçambique, por exemplo, Simango falaria às populações na língua deles. O reverendo era um bom poliglota. Falava bem o tsonga, swahili, nyanja, português, inglês, ximakonde, sena e ndau. Mondlane, Samora e Chissano, por exemplo, não falavam nenhuma língua do Centro ou do Norte."
(Z. Maurício)

"Havia tribalismo na FRELIMO. Isso não se pode negar. Eu sou do Sul do país, mas tenho que admitir que havia tribalismo e quem o galvanizou foram algumas pessoas do sul que chegaram mais tarde, entre 1963 e 1965. Viviam muito preocupados com Simango e agitavam Mondlane dizendo-lhe que o Reverendo pretendia usurpar o Poder; que era preciso ter cuidado com ele etc. Souberam jogar, dividindo as pessoas e usando até alguns do centro e norte do país que pouco entendiam de afinidades e lealdades. Algumas dessas pessoas, ignorantes que eram, foram sendo usadas como marionetas sem se aperceberem que os outros pretendiam dividir para reinar."(José Massinga)

"Até o delito mais comum, de carácter pessoal, era transformado em crime de lesa pátria por via de mentira e artimanha, e recebido do grupo a pena capital por via de julgamentos apelidados de justiça
popular. A denominada justiça popular da FRELIMO, consistia, na realidade, em incitar a população ou uma multidão de combatentes através de discursos prenhes de acusações não provadas. Não se dava nenhuma possibilidade de defesa ao visado e, de seguida, perguntava-se ao chamado povo o que fazer com a pessoa. Em coro, os mais violentos títeres entre o povo, rasgavam as gargantas com "mata-se o gajo"; "vamos semeá-lo". E, para poupar munições, atirava-se a vítima aos lobos onde não faltavam paus e catanas para executar a sentença. Era um recurso muito corrente, utilizado pela facção sulista da FRELIMO para eliminarem os seus compatriotas nortenhos indesejáveis."(A. Mutusso)

Conclusão do autor do livro:
"Simango morreu vítima de uma causa: a causa da liberdade e da igualdade nos direitos e nos deveres entre os homens do seu país.
Todavia, seria vítima de uma outra causa inconfessa: a causa da tribo, da região e da ambição desmedida de alguns (...) tudo indica que Simango terá sido dos poucos na FRELIMO que sabia que a moral é apenas uma: - Não há duas morais, uma do indivíduo e outra da política ou do Estado.
(...) Tal como muitos, Simango não viveria para ver o tipo de independência que almejara. Mas a profecia por ele proferida em Agosto de 1974, segundo a qual se Portugal não honrasse os seus compromissos, e entregasse o poder político a uma só força em detrimento de uma processo democrático multipartidário, Moçambique mergulharia numa triste situação, vingou. Vingou no corpo e na alma dos moçambicanos, por via de um conflito sangrento de 16 anos que todos sentiram na carne.

23-08-2004

Será ‘Simango, uma obra, uma Causa’ a Biblia alternativa?

Por Manuel de Araújo
Domingo, 22 de Agosto de 2004
ZAMBÉZIA ON LINE
Desde os primordios da evolução humana, uma regra universal tem conseguido, com poucas excepções, impor-se e resume-se no facto de que ’ a História é escrita pelos Vencedores’! O resto não passa de 'estorietas' como o afirma Sérgio Vieira no seu artigo de 18 de Julho no Semanário Domingo!
Da Grécia Antiga, a Roma, passando pela I e II Guerras mundiais, sem menosprezar a epopeia de libertação de África, esta regra parece manter-se! Muitas vezes essa 'estoria' é transmitida de gerações em gerações alimentando sonhos e mitos que se mantém ao nível informal. Moçambique não tem sido excepção a esta regra. Durante anos os mitos sobre Ngungunhana, Maguiguane, Mataca e outros foram mantidos no informal e eram transmitidos de geração em geração através de contos, lendas e outras vias informais até que a Independência nacional os transformasse de lendas a História Oficial.

Nkomo, parece que consegue subverter esta lógica quase que universal ao transferir a 'estoria' oficiosa do informal para o formal. O livro de Nkomo, independentemente de constituir verdade absoluta, pois essa apenas existe na cabeça de individuos megalomanos consegue coleccionar numa obra a perspectiva, os... ... (VEJA O RESTO EM
http://www.zambezia.co.mz/index.php?option=content&task=view&id=9&Itemid=

22-08-2004

Reinata Sadimba, Uma Mulher com Nome de Barro

PUBLICO - Domingo, 22 de Agosto de 2004

Marta Curto

A noite é de festa. A sala do Centro Cultural Franco-Moçambicano, em Maputo, abre-se para mais uma exposição da ceramista Reinata Sadimba.
Luzes cuidadosamente colocadas iluminam as suas figuras esculpidas a barro. A desportista, a curandeira, as duas meninas que brincam, a mulher mutilada de guerra. Já não é a primeira vez que Maputo tem
oportunidade de ver as obras da sua patrícia. E sempre aflui em massa, talvez orgulhosa da compatriota que já expôs em Portugal, Reino Unido, Dinamarca, Suíça e Itália. Decididamente vaidosa de apresentar, num dos seus edifícios mais bonitos, as obras da mulher que tem no currículo uma escultura na sede das Nações Unidas.

No seu fato rosa fúchsia, Reinata Sadimba dá uma entrevista à Rádio Moçambique, sem conseguir esconder o nervosismo. Responde, concentrada, às perguntas, de olhar posto no microfone antigo e quase rudimentar que o jornalista segura. Fala sobre a voz que em sonhos lhe mandou esculpir barro, sobre o sucesso dos últimos 30 anos, os convites para expor no estrangeiro, os "workshops" em que participou.
Tenta falar português, língua que nunca chegou a aprender, por preguiça, falta de tempo ou simplesmente orgulho no seu próprio dialecto, o maconde. Parece querer esconder-se a um canto, meio perdida entre as atenções, os "flashes" das máquinas e a quantidade de gente que vem dar-lhe os parabéns em línguas que não entende.
Talvez se pergunte como ali chegou, saída de uma pequena aldeia da província de Cabo Delgado, uma aldeia chamada Nimo, que nem no mapa vem. Talvez se lembre do que os seus amigos e familiares disseram nos primeiros anos artísticos. Do quanto se riram dela e das "estranhas formas" que lhe saíam das mãos.

Durante a luta pela libertação, Reinata era mais uma maconde entre muitos. Trabalhou para a Frelimo antes da independência, transportando comida e material para o quartel, como a maioria da sua tribo, tão bem conhecida pela luta feroz que travou contra a colonização. Tatuou a cara, cortando-se com uma lâmina e dando cor ao golpe com pó de carvão, como ditava a tradição da tribo. E fabricou utensílios de cozinha em barro, como a sua mãe lhe ensinou. Pratos, panelas e colheres, todas tatuadas como a cara das suas cozinheiras.

Em 1975, a euforia da libertação deu azo a outras separações. Muitos homens decidiram abandonar as suas mulheres, trocá-las por outras, mais jovens e bonitas. Muitas ficaram felizes com a inovação, outras
ficaram sem homem nem o meio de sustento que lhes proporcionava. Reinata Sadimba pertenceu a este último leque de mulheres que, após lutarem contra a colonização, tiveram de lutar pela própria sobrevivência e a dos filhos. Pediu então aos seus antepassados, numa crença tão comum dos moçambicanos, que lhe mostrassem um caminho, uma luz ao fundo do túnel que o marido deixara escuro. A resposta veio-lhe em sonhos.

"Reinata, levanta-te e vai fazer barro", garante ter ouvido. Obedeceu e começou a esculpir. Sem ainda hoje saber como, foram-lhe saindo estranhas formas das mãos, formas que nunca vira, formas que a voz do sonho lhe garantia que iriam ser vendidas. Que seriam a resposta às suas preces. As outras mulheres riam-se da sua esperança ou ofendiam-se com aquele gasto desnecessário de barro. Mas Reinata foi fazendo, esculpindo, cozendo a sua fé. Até ao dia em que apareceu um grupo de suíços na aldeia. Estavam em Mueda, decidiram dar uma volta, encontraram Reinata. Levaram as suas esculturas para a terra natal,
fizeram-nas chegar a uma galeria de arte, as esculturas tiveram sucesso e foi assim que Reinata Sadimba acabou por fazer a sua primeira exposição num país frio, tão longe da humidade do seu, do calor sufocante que mal deixa respirar.

Hoje, é das escultoras moçambicanas mais conhecidas no mundo inteiro.
Participou em "workshops" que tiveram lugar em Londres e Maputo, expôs em Lisboa, África do Sul, Dinamarca, Suíça, Tanzânia e Itália e há quem já coloque o seu nome ao lado de artistas como Alberto
Chissano e Malangatana Ngwenha. Mas nem por isso Reinata deixa de se sentar todos os dias das 7h às 15h30 na mesma esteira colocada nas traseiras do Museu de História Natural de Maputo. Sem "atelier", é
feliz rodeada das suas esculturas, do seu barro ainda tosco, da água suja com que molda as figuras.

A escultura parece ser um homem ou uma cobra. Corpo de cobra. Cabeça de homem. Era uma vez um homem que tinha duas mulheres. Uma delas, vendo que era cada vez mais preterida, dirigiu-se a um curandeiro, pediu-lhe ajuda. O homem deu-lhe uma droga, mandou-lhe pôr o pó no banho do marido, prometeu que daria resultado. Escondida atrás da porta, a mulher esperou o efeito do medicamento, enquanto o seu amado se banhava. Mas o inesperado aconteceu. O curandeiro enganara-se, o homem transformou-se em cobra, a mulher assustou-se, garantiu não ter feito nada. Já no hospital, os médicos não acreditaram na mudança, queriam matar a cobra até que a mulher, louca de amor, desesperada com a visão do seu amado, contou a verdade, jurou não ter feito por mal. Os médicos deram um medicamento à cobra, que voltou a ser homem.

Quem conta a história é Samuel, filho de Reinata, principal tradutor das palavras macondes da mãe. Mas a artista jura que é verdadeira, que viu com os próprios olhos, o homem, a cobra, os dois num só. É daí que tira as ideias. Do que viu, do que a vida lhe mostrou. É assim que trabalha. Olha para o barro ainda tosco e vê nele uma forma. Uma feiticeira que se lembra de ter visto na infância a lançar uma maldição. A mulher de peito descaído que, incansável, pilava o milho. A outra que carregava duas crianças, uma à frente e outra atrás. Heroínas de uma vida, a inspiração de que precisa. Garante só criar mulheres, que os homens não gostam dela. Mulheres quase grotescas, de orelhas de abano e olhos rasgados, mulheres de corpo
tatuado e mãos grandes. Mulheres simples e sobreviventes. Pouco elegantes, mas reconhecíveis a olho nu como sendo as de Reinata Sadimba, a ceramista maconde nascida numa aldeia perdida no mapa de
Moçambique que hoje tem as suas obras espalhadas pelo mundo.

Não É Caro, É Arte

Sentada na sua esteira, Reinata tenta parecer calma em frente da câmara de filmar. Não gosta de dar entrevistas, mas sabe que são necessárias. Esta é para a televisão moçambicana. A próxima será para
uma revista portuguesa. Não param. Desde o início dos anos 90 que as
entrevistas não param. E nem mesmo depois de tanto tempo, Reinata sabe como se comportar. Fica nervosa, tímida quase, com vontade de ficar sossegada, mãos no barro, imaginação a criar arte. No fundo, aguenta as entrevistas como um mal que vem por bem. Como a única forma de conseguir sair da pobreza do seu país. Quando a maioria dos moçambicanos nem o salário mínimo - cerca de 20 euros - recebe,
quando o país tenta esquecer os dez anos de luta armada que afundaram a nação no lugar de um dos mais pobres do mundo, quando muitos dos seus compatriotas não come mais do que a mandioca que cultiva atrás da palhota, uma artista só pode contar com a divulgação mediática.
Moçambique não tem dinheiro para a arte e só se livra da maldição quem alargar fronteiras. Reinata sabe que já vendeu as suas obras a todos aqueles que têm dinheiro em Moçambique. Privados, embaixadas ou
empresas, quase todos têm uma escultura sua. Queda-lhe o resto do mundo.

As suas esculturas vão entre dos 35 aos 350 dólares, na vaidade de pôr os preços em moeda estrangeira. Se alguém lhe diz que são caros, responde que não, que são obras de arte, não há duas iguais. Aprendeu
a linguagem do "marketing", único recurso a quem se recusa a trabalhar fora de Moçambique.

16-07-2004

Júlio Meneses Rodrigues Ribeiro

JulioRibeiro
Conheça melhor essa terra chamada Moçambique, lendo os escritos de Júlio Ribeiro em
http://www.lantra.co.za/julio.mrr.htm
Recebi as seguintes informações biográficas:
"Dados biograficos do Julio Ribeiro, eu não tenho,mas conheci esse senhor pessoalmente e fui colega dos filhos no liceu.
Viviam na missao de Coalane e trabalhava para o Jornal Voz da Zambézia, onde também dirigia a tipografia da diocese.
É com certeza uma pessoa muito conhecida no meio literário Moçambicano e para a malta que estudou no liceu em Quelimane, talvez se lembrem dele como o marido da dona Ester professora de ginastica.
Tem filhos a viverem na cidade de Porto e pelo menos 2 em Maputo, um dos quais professor da Univ. Eduardo Mondlane.

15-06-2004

O feminismo negro de Paulina Chiziane

Adelto_GoncalvesNARRATIVA
O feminismo negro de Paulina Chiziane
Adelto Gonçalves

Se a literatura escrita por mulheres já é um mundo diferente, abordado por ângulos que romancistas e contistas homens dificilmente vêem, imaginemos, então, o que pode ser o mundo visto por uma mulher africana, moçambicana, ainda mais se é governado por costumes e tradições que nos soam estranhos. Esse estranho e mágico mundo é o que oferece em seus livros Paulina Chiziane, a primeira romancista de Moçambique.

De Paulina, a Companhia das Letras, de São Paulo, acaba de lançar Niketche, uma história de poligamia, que a Editorial Caminho, de Lisboa, publicou em 2002 e já está em segunda edição. Nascida em 1955, em Manjacaze, na província de Gaza, ao Sul de Moçambique, Paulina freqüentou estudos superiores de Lingüística em Maputo, mas não os concluiu, e atualmente vive e trabalha na Zambézia. A sua estréia deu-se em 1990 com a publicação de Balada de amor ao vento.

Depois, publicou Ventos do Apocalipse (1999) e O sétimo juramento (2000), todos pela Caminho. Aos 20 anos, ela cantou o hino da independência moçambicana, gritou contra o imperialismo e o colonialismo e, depois, com a guerra civil que arrasou o país, desencantou-se. Por isso, os seus livros nem sempre falam diretamente da guerra, mas de um país destruído, da miséria de seu povo, da superstição, dos rituais religiosos e da morte.

A autora recusa o rótulo de romancista, definindo-se apenas como contadora de histórias, inspirada naquilo que ouviu, quando criança e adolescente, da boca dos mais velhos à volta da fogueira. Niketche vem do nome de uma dança de iniciação sexual feminina da Zambézia e de Nampula, no Norte do país, região predominantemente macua, onde está a Ilha de Moçambique, primeira capital das possessões portuguesas da África Oriental e local de desterro do poeta Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), por onde passaram também em épocas diversas Luís de Camões (c.1524-1580) e Manuel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805).

O romance conta a história de amor entre Rami, mulher do Sul e de nível social superior à da imensa maioria das mulheres do país, e Tony, alto funcionário da polícia em Maputo. Casada há vinte anos de papel passado e aliança no dedo e mãe de muitos filhos, Rami, desprezada pelo marido, desconfia de aventuras extraconjugais de Tony. Então, descobre que o marido tem mais quatro mulheres e muitos filhos. Vai à casa de cada uma das rivais, às vezes sai no braço com elas, mas, no final das contas, trava amizade com todas a ponto de, em certo dia, reuni-las em sua casa para fazer uma festa-surpresa ao marido.

A iniciativa, porém, desperta a ira da sogra de Rami, para quem a monogamia é um sistema desumano que marginaliza uma parte das mulheres, privilegiando outras, “que dá teto, amor e pertença a umas crianças, rejeitando outras, que pululam pelas ruas”. Diz a sogra: “O meu Tony, ao lobolar cinco mulheres, subiu ao cimo do monte. Ele é a estrela que brilha no alto e como tal deve ser tratado. E tu, Rami, és a primeira. És o pilar desta família. Todas estas mulheres giram à tua volta e te devem obediência. Ordena-as”.

Lobolo é o dote que o homem dá à mulher ao casar, mas lobolar aqui serve também para definir o ato de quem sustenta um lar. Ao conhecer suas rivais, Rami vai entrar em contato com séculos de tradição e de costumes, a crueldade da vida e também com a diversidade de mundos e culturas que convivem em Moçambique.

É difícil entender estes pensamentos sem conhecer a dimensão da tragédia africana. Em país de poucos homens – milhares morreram na guerra, muitos ficaram mutilados, outros tantos emigraram –, as mulheres parece que aceitam dividir seus maridos umas com as outras, embora a poligamia venha de tempos já perdidos, quando os cultores do Islã desceram a África e disseminaram suas crenças e costumes.

Em alguns lugares de Moçambique, como na província sulista de Gaza, é comum que a mulher atenda ao chamado do marido de imediato, largando tudo o que está fazendo. Mais: quando o marido chama, ela não pode responder de pé. Também é difícil entender esta conversa sobre violência na família: “A minha mãe sempre foi espancada pelo meu pai, mas nunca abandonou o lar. As mulheres antigas são melhores que as de hoje, que se espantam com um simples açoite”.

Para as seguidoras de Simone de Beauvoir e Flora Tristán, tudo isto, certamente, parece estranho, mas é a forma que Chiziane encontrou de denunciar o sofrimento das mulheres africanas, subvertendo os valores tradicionais. Isso não significa que partilhe integralmente dos valores das feministas brancas. A dita civilização branca já levou tanto sofrimento à África que qualquer idéia, mesmo emoldurada por valores humanitários, sempre é recebida com desconfiança. E não poderia ser diferente.

O trágico é que o grito de Paulina, dificilmente, será ouvido ou compartilhado pelas mulheres de Moçambique, pois os escritores africanos escrevem para o leitor branco de fora de seus países que pode comprar seus livros, já que, em razão dos altos índices de analfabetismo e dos baixos níveis sócio-econômicos, as tiragens nos países africanos de língua portuguesa são ínfimas, o que não significa que em Portugal e no Brasil sejam muito superiores.

Já em Balada de amor ao vento (1990), seu primeiro romance, Paulina conta o relacionamento entre Sarnau e Mwando, da juventude à idade madura, suas alegrias e sofrimentos, até a separação dolorosa e o reencontro. Mas, antes de tudo, trata do conflito vivido por uma moçambicana entre o mundo moderno e o mundo tradicional, a África arcaica, seus valores eminentemente machistas em que a mulher só existe para servir ao homem e constituir seu objeto de desejo.

Paulina viveu no campo até os sete anos, quando se mudou para os subúrbios de Maputo, então a colonial Lourenço Marques, para estudar. No campo falava a sua língua materna, o chope, e, quando se mudou para a cidade, teve de aprender o português na escola, enquanto era obrigada nas ruas a falar o ronga, a língua nativa de Maputo.

Balada de amor ao vento recupera as histórias que Paulina ouviu em sua infância, quando ficava a escutar a avó contar casos ao pé da fogueira. Uma dessas histórias é a de Sarnau, a jovem que descobriu que amava Mwando, um rapaz que estava encaminhado para ser padre. O namoro, porém, não prospera, cada um vai para um lado e Sarnau acaba virando uma das mulheres do rei das terras de Mambone.

Depois de casada e bem casada, ela vê Mwando reaparecer e vive outro romance. Perseguidos, acabam de novo separando-se. Mwando, depois de se envolver com a mulher de um sipaio (soldado), foi deportado para Angola, onde passou quinze anos a plantar cana e café. Um filho de Sarnau, gerado por Mwando enquanto ela era rainha, acaba coroado rei, depois da morte do presumível pai, enquanto a mãe é obrigada a cumprir um destino de prostituição para sobreviver.

Este é um livro feminista, mas feminista à maneira africana: não é uma obra que desafie o estatuto da mulher africana ou moçambicana. Aliás, usar termos como africana e moçambicana é correr o risco das generalizações. No próprio Moçambique, há flagrantes diferenças: o norte é uma região matriarcal, onde as mulheres têm mais liberdade, enquanto o sul e o centro são regiões patriarcais, extremamente machistas. E a narrativa de Balada de amor ao vento ocorre em Gaza, a mais machista de Moçambique, onde a mulher, além de cozinhar e lavar, para servir uma refeição ao marido tem de fazê-lo de joelhos.

Portanto, este livro traz o olhar do feminismo negro, que é diferente do feminismo branco, porque muito mais trágico. Ou alguém duvida que a mulher negra sempre foi muito mais oprimida e massacrada que a branca, que vive do suor de seu próprio rosto há muito mais tempo, que responde por sua própria família desde épocas imemoriais, embora fuja à luz da razão discutir gradações de violência?

Basta ler O avesso da memória: cotidiano e trabalho da mulher em Minas Gerais no século XVIII, de Luciano Figueiredo (Rio de Janeiro, José Olympio/Edunb, 1993) para se perceber que o papel da mulher – e, mais ainda, da mulher negra – sempre foi esquecido em nossos livros de História, como se a colonização e a ocupação do território brasileiro tivessem resultado apenas da ação do homem.

E que as poucas mulheres idealizadas por nossa poesia arcádica oitocentista, como Maria Dorotéia Joaquina de Seixas, a Marília de Dirceu, de Tomás Antônio Gonzaga, e a Bárbara Eliodora, de Alvarenga Peixoto (1744-1793), só foram incensadas pelo romantismo do século XIX porque eram brancas, enquanto a negra Francisca Arcângela Cardoso, que deu quatro filhos a Cláudio Manuel da Costa (1729-1789) e lhe inspirou vários poemas, está esquecida até hoje.

Tal como na África a mulher negra na América também buscou suas próprias estratégias de sobrevivência, desempenhou papéis econômicos, criou os filhos e protagonizou muitas histórias – que, com certeza, estão à espera do talento de uma Paulina Chiziane brasileira para contá-las como se conta histórias à beira da fogueira e seguir uma tradição iniciada pela maranhense Maria Firmina dos Reis (182