Lívio Morais, um pintor moçambicano a residir em Portugal há mais de 30 anos, tem tido sucesso pelo mundo fora, mas confessa que o seu maior sonho era ser conhecido no seu país.
Por Manuela Ferreira
da Agência Lusa
«O meu país ainda não me conhece. Penso que, quando isso acontecer, terá outra maneira de se aproximar de mim, porque eu estou a fazer tudo por isso. Gostaria que o meu país se orgulhasse daquilo que eu faço e que já é muito conhecido cá fora», disse à Agência Lusa o pintor moçambicano.
O drama de Lívio de Morais é o mesmo de milhares de artistas africanos que deixam os seus países para trás para aperfeiçoarem os seus conhecimentos, evoluindo mais depressa do que aqueles que deixaram na sua aldeia, pelo que acabam por não ser compreendidos por eles.
Quando, em 1986, o escritor nigeriano Wole Soyinka recebeu o Prémio Nobel da Literatura, uma jornalista perguntou-lhe o que mais poderia ele querer.
O galardoado respondeu que estava por realizar o seu maior sonho: que a mãe, que continuava a viver na sua aldeia natal, Abeokuta, pudesse ler um livro seu, o que não era fácil porque ele escrevia em inglês, idioma que ela nunca dominara.
Mas se Lívio de Morais não é muito conhecido em Moçambique, é uma presença constante em exposições de Norte a Sul de Portugal, a última das quais em Vila do Conde.
Expôs também em Espanha, Alemanha, Canadá e mesmo Moçambique.
Pintor, escultor, ensaísta, investigador de arte africana, professor liceal reformado e presidente da Assembleia de Freguesia do Cacém, Lívio de Morais nasceu em 1945 na província da Zambézia.
Mais tarde, partiu para Maputo (então Lourenço Marques) e depois para Portugal, onde se licenciou na Faculdade de Belas Artes de Lisboa.
Apesar da sua longa vivência europeia, as suas raízes continuam bem visíveis na sua obra, devido à recorrência de dois temas: as máscaras africanas e as mulheres.
«Hoje, as pessoas, em todo o mundo, quando olham as máscaras relembram as raízes africanas», explica, a propósito do primeiro daqueles temas, acrescentando: «Acho que se eu continuar a pintar as máscaras, estarei no caminho da identidade africana. Nunca deixarei de as pintar. Na máscara está escondido o rosto verdadeiro do africano com a sua História, com os seus ritos de passagem (nascimento, iniciação, casamento e morte) que, para quem acredita neles, são as fases fundamentais da passagem do ser humano por este mundo».
Lívio de Morais promete para "muito em breve" uma exposição de pintura só de máscaras africanas, em Lisboa, e recorda que também ele participou, em criança, em ritos como o da iniciação.
Cita, a propósito, o poema «Infância Perdida» de Noémia de Sousa, (jornalista e poetisa moçambicana, radicada em Portugal, onde morreu em Dezembro de 2002).
A investigação histórica sobre máscaras africanas levou-o a proferir conferências sobre esse tema em universidades como as de Barcelona, Vigo, Funchal e Bolonha.
No que se refere aos seus quadros de mulheres carregando e amamentando os filhos, colhendo e vendendo cajú, o pintor considera que elas são «um tema fascinante, universalista, que desperta em nós a ternura, a afectividade e a sensualidade».
Opina que o tema das mulheres, na Arte, tem uma acção catártica porque traz à superfície «os sentimentos mais puros, mais humanos» e faz despertar «a alegria de viver e de amar».
«Quem olha para uma mulher, seja qual for a sua idade, não consegue ser agressivo», opina Lívio de Morais.
Sublinha que a mulher que pinta é a mãe, transbordando ternura pela família «na sua ocupação permanente em coisas pequenas mas imprescindíveis, numa tarefa que não tem fim».
«Eu pinto a azáfama da mulher africana do campo, onde não há recursos», resume o artista moçambicano.
Admite que as suas cores evoluíram nos últimos tempos: «Neste momento, estou a viver uma fase de alegria e de esperança, da multiplicidade da cor, sem deixar as cores quentes».
À questão se um africano pode viver apenas da sua Arte na Europa, Lívio de Morais responde afirmativamente, mas ressalva que, neste momento, o Velho Continente está «a marcar passo», pelo que só é possível singrar com «muito trabalho e dedicação, e um pouco de ajuda».
Foi pensar na ajuda aos artistas africanos na Europa que o pintor fundou com outros e preside ao Centro Cultural de Moçambique, que conta já com uma galeria de arte, no Centro Comercial Apolo, em Lisboa.
Lívio de Morais é igualmente escritor e ilustrador de livros, com quatro obras publicadas, uma delas dedicada a Fernando Pessoa. Também desenhou selos para a Guiné- Bissau e postais para Angola e Cabo Verde.
Casado com uma portuguesa, a filha, Laura Morais, segue-lhe as pisadas, tendo já exposto na Galeria Gam, em Lisboa.
Veja: http://liviodemorais.com.sapo.pt/








