Por Francisco Nota Moisés
Era ainda de manhã cedo quando secretamente cheguei ao sul do Malawi depois de ter passado as horas entre 1 as 6 de madrugada no caminho de Blantyre para Nsanje.
Pelas 6:30 estive a beira das águas turvas, cor castanha, do Chire, no lugar, digamos no porto donde canoas partiam para as zonas pantanosas e para Moçambique. Aqui o rio Chire partido do lago Niassa, conhecido no Malawi como lago Malawi, e parte do território malawiano, mas as zonas pantanosas com ervas e plantas aquáticas formando mangais em certas secções onde hipopótamos se escondem e grunhem de dia formam parte do território moçambicano, segundo a decisão que os imperialistas portugueses e britânicos tomaram quando decidiram a fronteira entre os territórios de Moçambique e da Niassalândia, hoje Malawi.
Enquanto esperando por uma almadia que os três homens malawianos que me serviam de guias arranjavam para me tomar para a zona do Chire em Moçambique no outro lado rio, vejo um velhote com dois rapazes a entrar numa almadia, possivelmente iam verificar as suas nassas para colher o peixe que elas tivessem apanhado.
Da primeira vez em 19 anos ouço os três a falar em sena bem acentuado visto que os malawianos no sul do seu país são senas.
Mas a minha língua já estava muito enferrujada por não a falar durante duas décadas, durante as quais falava português com exilados moçambicanos, Swahili, a língua franca de Africa oriental e umas das duas línguas nacionais e oficiais do Kenya com o inglês sendo a outra, e o francês com camadas estrangeiras em Nairobi.
Tomei uns dois dias para restabelecer e falar o sena confortavelmente enquanto em Chire nas casas dos aldeões, bebendo o vinho de palma e comendo com eles, mas ficava na base Chire.
Quando os meus guias conseguiram uma almadia, entrámos nela e os homens começaram a remar para atravessar o Chire próprio que não é largo. Mas as zonas pantanosas são extensas e levam muito tempo para as canoas atravessarem nas picadas abertas e usadas por hipopótamos nas noites e usadas pessoas durante o dia.
Um pouco tempo depois de entrarmos na zona pantanosa, começamos a ouvir vozes de pessoas vindas para onde íamos e indo em senso contrário a nós. Sem mais tardar, veio em vista toda uma longa coluna de almadias, uma atrás da outra com homens, alguns a remar e guiar as canoas e mulheres nelas de joelho.
Confuso, perguntei aos rapazes comigo: “quem são estas pessoas?”
“Elas veem de Moçambique e vão vender os seus produtos agrícolas no mercado estatal em Nsanje.”
Foi me difícil de entender que as pessoas nas zonas libertadas da Renamo produziam muita comida a ponto de irem vender no Malawi. Em todas as minhas cinco incursões, nunca levei comida do Malawi para eu comer em Moçambique. Havia tanta comida lá e eu comia mais lá em Moçambique do que onde eu vivia no estrangeiro.
“E sempre assim diariamente da segunda ao sábado, excepto nos domingos quando o mercado está fechado,” disse um dos rapazes.
“Será que esta gente pede permissão a Renamo para irem vender os seus produtos?” indaguei.
“A Renamo não se interfere com as vidas dos aldeões que a apoiam.”
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