02-06-2006

UEM promove debate sobre sociologia em Moçambique

A UNIVERSIDADE Eduardo Mondlane, através do seu Departamento de Sociologia, organiza próxima semana, no campus universitário, uma mesa-redonda subordinada ao tema "A Sociologia em Moçambique", um encontro que visa estimular e aproximar os estudantes do debate sociológico a partir de perspectivas diversas, a histórica, a antropológica e a sociológica.
Ainda do mesmo evento pretende-se proporcionar uma reflexão sobre as Ciências Sociais em Moçambique.
NOTÍCIAS - 02.06.2006

12-05-2006

ILHA DE MOÇAMBIQUE E NAMPULA-CIDADE ACOLHEM DIA INTERNACIONAL DOS MUSEUS

O Museu Nacional de Etnologia de Nampula, em coordenação com a Embaixada dos Estados Unidos da América em Moçambique, promovem a realização de um ciclo de conferências no âmbito do Dia Internacional dos Museus, que se assinala na quinta-feira próxima e cujas comemorações decorrem,
este ano, sob o signo de “Os Museus e os Jovens”.
De acordo com o programa recebido na nossa Redacção, o evento terá por palco, na Província de Nampula, as cidades da Ilha de Moçambique (nos dias 15 e 16) e Nampula (nos dias 17 e 18), respectivamente no Museu de História e Museu Nacional de Etnologia.
As conferências, que versarão, essencialmente, sobre “Política de Diversidade Cultural e Desenvolvimento” e “Museologia Participatória”, serão orientadas por James Early, director para Cultura e Política Patrimonial do Centro para a Vida Folclórica e Património Cultural, de Washington, Estados Unidos da América.
WAMPHULA FAX - 12.05.2006

11-05-2006

França comemora pela primeira vez abolição da escravatura

A abolição da escravatura será comemorada pela primeira vez em França quarta-feira, depois do anúncio feito pelo Presidente francês, Jacques Chirac, a 30 de Janeiro.
A comemoração da abolição da escravatura em França continental pretende levar o país a assumir tanto as "páginas gloriosas" como as épocas de "sombra", disse Jacques Chirac, quando anunciou a data oficial da celebração da data.
"A grandeza de um país é assumir toda a sua história. Com as suas páginas gloriosas, mas também com a sua parte de sombra", disse o chefe de Estado, num discurso solene no palácio do Eliseu.
O 10 de Maio de 2001 foi a data em que o Senado (câmara alta do sistema parlamentar francês) adoptou por unanimidade a lei que reconhece o tráfico e a escravatura como um crime contra a Humanidade, tendo sido a França o primeiro país no mundo a fazê-lo.
Christiane Taubira, deputada da Guiana e autora da proposta de lei para o "reconhecimento do tráfico e da escravatura como um crime contra a humanidade", felicitou-se com a comemoração.
"Já não estamos em conflito. É a história de França assumida por toda a comunidade nacional", afirmou a deputada.
A França tem uma população negra de cerca de cinco milhões de pessoas.
A escravatura foi abolida definitivamente em França a 27 de Abril de 1848, mas na memória persiste o sofrimento de muitas vítimas, habitantes das antigas colónias e dos territórios que hoje são províncias ultramarinas francesas.
Muitas destas províncias já têm datas oficiais de comemoração da abolição da escravatura, pelo que o 10 de Maio será apenas celebrado na França metropolitana, que inclui a ilha da Córsega.
Jacques Chirac sugeriu ainda que as celebrações sejam realizadas em locais de homenagem à escravatura e que o 10 de Maio seja também assinalado em território africano.
LUSA - 09.05.2006

26-03-2006

Portugueses adoram Brasil

Sondagem: destinos da emigração pesam na escolha dos países do coração
Sonhos de riqueza com raízes na história e grandes férias, a preço acessível, com bom tempo e muita alegria, para além da facilidade do contacto e a familiaridade com astros de telenovela e ídolos do futebol são algumas das explicações para a predilecção arrasadora manifestada pelos portugueses na sondagem Correio da Manhã/Aximage sobre os países do nosso coração.
As férias no Brasil, a preço acessível, bom tempo e muita alegria constituem a nova face da identificação do Brasil com a riqueza
Brasil é sinónimo de fortuna para os portugueses. Foi a nossa terra do ouro e o dilecto ‘país irmão’. Além do ouro foi de lá que veio, com a assinatura de Gilberto Freyre (1990-1987), pedagogo, juiz e catedrático de Economia, a doutrina do luso-tropicalismo que considerava os portugueses como predestinados para ter boas relações com os povos dos trópicos, com três grandes países – Brasil, Angola e Moçambique – no primeiro plano.
As relações íntimas luso-brasileiras ultrapassam, de facto, muito as implicações históricas e não têm nada a ver com a proximidade que relaciona os portugueses com a Espanha. Mesmo discordando do luso-tropicalismo de Gilberto Frey, o investigador social angolano Filipe Zau também destaca a afectividade como factor primordial da ligação de Portugal com o seu país.
ATRÁS DA FORTUNA
A escolha dos portugueses é marcada nesta sondagem por um perseguir constante da riqueza que se nota até na simpatia por Espanha, o país vizinho e inimigo histórico da independência desde que, na Batalha de São Mamede, D. Afonso Henriques se emancipou da tutela de Leão e Castela. Como observou o embaixador de Espanha Enrique Panes ao CM, o tamanho dos capítulos dos livros de história estão sempre a mudar e a importância que antes se dava à rivalidade luso-espanhola passará com o correr dos tempos à cumplicidade e parceria que actualmente se desenvolve em todos os âmbitos pelos dois países ibéricos.
Indiscutível é o grande peso dos destinos de emigração entre os 17 países referidos na sondagem com a França e Suíça à frente de Moçambique e Angola e os EUA, Alemanha, Austrália e Canadá a obterem percentagens muito acima da força dos laços culturais e históricos.
A força da história pesará sobretudo na referência a Inglaterra, o mais antigo aliado de Portugal. E pouco mais, como se avalia pelo facto de Moçambique, mais distante e com uma pequena colónia de imigrantes em Portugal, pesar mais do que Angola e sobretudo do que Cabo Verde, mas o coração tem sempre razões que a razão desconhece.
BRASILEIROS REINAM ATÉ NOS ANÚNCIOS
Futebolistas e cantores brasileiros desde Vadinho e Elza Soares ou Ivon Cury sempre reinaram na cena portuguesa que viveu anos apaixonada pelos actores de telenovela como a ‘Gabriela’ Sónia Braga e o ‘Cacá’ António Fagundes que nos tempos recentes deram lugar a novos ídolos como Reynaldo Gianecchini ou Aline Moraes.
Os ídolos que com mais ou menos barulho chegam do outro lado do Atlântico são sem fim e hoje dominam até os placards de publicidade. A prova chama-se Ana Beatriz Barros, de 23 anos, e vê-se em todo o País a propagandear ‘lingerie’.
EMBAIXADORES DOS PAÍSES DO CORAÇÃO DOS PORTUGUESES MOSTRAM VONTADE DE RECIPROCIDADE
"ESPERO REFORÇO DA IRMANDADE" (António Paes de Andrade, Embaixador do Brasil)
“É com grande carinho e satisfação que acolho os resultados desta pesquisa e o carinho que os portugueses têm pelo Brasil”, disse o embaixador brasileiro em Lisboa, António Paes de Andrade, que cumpre missão em Portugal desde meados do ano passado depois de ter sido durante vários mandatos presidente da Câmara dos Deputados em Brasília e assumir nessa qualidade o lugar de presidente do Brasil em deslocação ao estrangeiro. E concluiu: “Tenho a certeza de que a recíproca também é verdadeira pois não estamos medindo esforços para bem receber os portugueses nos mais diferentes pontos do Brasil. Espero que cada vez mais as relações políticas, económicas e culturais reforcem essa irmandade luso-brasileira.”
"SOMOS PARCEIROS E CÚMPLICES" (Enrique Panes, Embaixador de Espanha)
“Mais do que países vizinhos, Portugal e Espanha têm hoje uma grande cumplicidade e desenvolvem uma parceria, com grande importância para os dois povos. É grande o conhecimento directo que portugueses e espanhóis têm uns dos outros. A Espanha é o destino de muitos estudantes portugueses tanto no programa Erasmus como para universidades. No sentido inverso há já mais de 130 mil postos de trabalho criados em Portugal pelo investimento directo espanhol. Mais, as pessoas conhecem a eficácia e honestidade da Banca espanhola. Portugal e Espanha entraram no mesmo dia para a Comunidade Europeia e fizeram muito trabalho em comum que vai mudar, de certeza, a extensão dos capítulos dos livros de história.”
"QUEREMOS MAIS DO QUE BRONZE" (Patrick Gautrat, Embaixador de França)
“Agradeço aos portugueses pela relação e o interesse que manifestam nesta sondagem pelo meu país. Esta relação é recíproca como testemunham todos os inquéritos do género em França. A comunidade portuguesa no meu país é um modelo de integração desde há 40 anos. Tradicionalmente os nossos povos foram muito próximos e, hoje, os laços culturais, económicos, educativos e universitários mantêm-se intensos, sem esquecer evidentemente o desporto, particularmente o futebol. Todos os dias, os colaboradores da Embaixada e do nosso Consulado-Geral no Porto testemunham esta realidade. A vossa sondagem atribui-nos a medalha de bronze do terceiro lugar; faremos o nosso melhor para ainda progredir.”
"SEGUNDO BRASIL HÁ DOIS SÉCULOS"
Os portugueses têm uma ideia de Angola como o segundo Brasil desde há quase dois séculos”, acentua Filipe Zau, angolano de 55 anos e investigador de ciências sociais que acaba de concluir doutoramento em Ciências da Educação na Universidade Aberta de Lisboa, depois de aqui trabalhar como diplomata e funcionário da CPLP.
Para Filipe Zau, a ligação entre Portugal e Angola vem da afectividade desperta pelos contactos, ao longo de cinco séculos entre portugueses e os povos do litoral angolano que, salienta, “começaram por ser a nível igual entre o rei do Congo e D. João II”, apesar de já existirem escravos negros no Portugal medieval.
“A afectividade é mais importante do que a língua comum e os laços culturais. Outra coisa não explica o carinho no Benfica pelo angolano Mantorras”, diz Filipe Zau que antes das “relações assimétricas”, por causa do tráfico de escravos, proselitismo cristão e atitude de conquista, o “rei do Congo teve fazenda em Portugal, os seus filhos estudaram no Colégio dos Lóios e um deles, D. Henrique, foi o primeiro bispo negro e teve diocese nos Açores”. E conclui: “Com o Brasil independente em 1822, as riquezas de Angola tornaram-na num segundo Brasil.”
"O MISTÉRIO DO ÍNDICO"
O mistério do Índico e aquele cheiro característico da terra e da aragem justificam a grande atracção por Moçambique”, observou Enoque João, presidente da Associação dos Emigrantes de Moçambique em Lisboa e médico homeopata que considera a popularidade de Eusébio só uma referência.
“Podemos falar dele como do Hilário, do Coluna e até do Carlos Queiroz como naturais de Moçambique com grande fama em Portugal e não são só eles que fazem soltar as lágrimas aos que vão e voltam a Moçambique. A afectividade intensa tem mais de mistério do Índico. É qualquer coisa que atrai e nos agarra àquela terra. Os moçambicanos são pessoas simples, sinceras, honestas e humildes que gostam tanto da sua terra que quase não emigram. Em Portugal, somos apenas 4800, muito menos que os angolanos e cabo-verdianos”.
ALIANÇA LIGA À INGLATERRA
O peso da mais antiga aliança histórica de Portugal, que remonta aos finais do século XIV, reflecte-se ainda nas preferências de muitos portugueses. Afinal, foi de lá que na primeira crise de independência, em 1383-85, veio o apoio militar e também uma princesa, D. Filipa de Lencastre, mãe da ínclita geração. Portugal retribuiu com D. Catarina que levou o tradicional ‘chá das 5’. Os dois países mantiveram a aliança, apesar do choque do Ultimato de 1891 e alguns graves prejuízos económicos para os portugueses.
ADMIRAÇÃO PELA SUÍÇA
A Suíça é a surpresa da sondagem CM e vai além do facto de uma portuguesa, Adozinda Silva, ser n.º 2 na lista do Partido que no próximo domingo disputa a 2.ª volta das eleições comunais suíças. Fabienne Chappuis, cônsul helvética em Lisboa, deu a sua opinião ao CM: A escolha reflecte as boas experiências vividas pelos emigrantes na Suíça e que eles transmitem aos familiares e amigos. Sei que os portugueses consideram a Suíça um país muito bem organizado, onde tudo funciona bem. Após 20 anos a trabalhar lá dizem-nos que tornamos fáceis as burocracias mais difíceis.”
O NOSSO MUNDO: A GEOGRAFIA DO CORAÇÃO
Brasil - 35,7%
Espanha - 13,3%
França - 11,4%
Inglaterra - 5,5%
Suíça - 4,3%
Moçambique - 4,3%
Angola - 3,2%
Itália - 2,5%
EUA - 2,0%
Alemanha - 1,6%
Timor - 1,4%
Suécia - 1,0%
Austrália - 1,0%
Holanda - 0,9%
Canadá - 0,8%
Dinamarca - 0,7%
Cabo Verde - 0,6%
JOÃO VAZ - CORREIO DA MANHÃ - 26.03.2006
NOTA: Pois é: Moçambique lá tão longe e tão perto...

20-03-2006

Descriminação foi abolida há 40 anos mas: “Existem novas formas de discriminação”

O Mundo celebra hoje, 21 de Março, o Dia Internacional para a Eliminação da Descriminação Racial, em reconhecimento àqueles que tombaram na longa história da igualdade de direitos e dignidade humana.
A data foi instituída há 40 anos pela Assembleia Geral das Nações Unidas, em 1966, após o massacre de Sharpeville, que mostrou crianças de escolas Sul Africanas a demonstrarem contra o regime do apartheid que era o símbolo da divisão e discriminação.

Desde 1994, o regime do apartheid foi abolido, substituído por um processo histórico de justiça, paz e reconciliação. Comemorando esta data presta-se tributo a todos homens e mulheres que com bravura conseguiram restaurar a nobreza dos valores de pluralismo e igualdade entre as pessoas.
Segundo um comunicado da UNESCO, as celebrações do dia 21 de Março deste ano marcam igualmente o quinto aniversário da Conferência Mundial contra o Racismo, a Xenofobia e a Relacionada Intolerância, que teve lugar em 2001, em Durban, na África do Sul. Esta conferência permitiu a adopção pela comunidade internacional de um programa de acção e renovar os seus compromissos para lidar com novas formas de desigualdade, exclusão e discriminação em todo o mundo.
“Nunca deveríamos assumir algo como óbvio. Existem novas formas de discriminação no emprego, no acesso à habitação, à saúde, à cultura e à educação que continuam a ameaçarem os direitos que pensávamos que fossem irreversíveis. Precisamos mantermo-nos alertas e mobilizarmo-nos ainda mais.
É essencial aumentar a nossa capacidade de agir para desenvolver a educação sobre os direitos humanos e ajuda no ensino, promover instrumentos normativos, celebrando a diversidade e o pluralismo, conduzindo acções coordenadas com os nossos parceiros da sociedade civil, especialmente com as cidades, e expandir a investigação cientifica”, alerta o Director Geral da Unesco.
No momento em que celebramos o sexagésimo aniversário da Organização, “deixe-nos providenciar, fiéis à nossa Constituição, respostas novas e adequadas para os dilemas que confrontam a nossa era de modo que cada um de nós possa tornar-se, uma vez mais, o protagonista da sua própria história”.
A.Sengo - ZAMBEZE - 20.03.2006

06-03-2006

COOPERAÇÃO SEM DESENVOLVIMENTO, de João Milando

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João Milando, natural de Cabinda – Angola, tendo sido bolseiro do Centro de Antropologia Cultural e Social, do IICT de 1999 a 2001, é presentemente investigador do Instituto de Ciências Sociais/Universidade de Lisboa após ter realizado provas para a obtenção do grau de Doutor em Ciências Sociais integrado no programa de Estudos Africanos do ISCTE, no ano de 2003. A sua área de investigação "Desenvolvimento Participativo em Condições Adversas: Aspectos Africanos", relaciona-se com os constrangimentos sociais e culturais aos projectos de desenvolvimento que põem em causa a sustentabilidade dos mesmos. Na sua prática de investigador tem procurado encontrar resposta para algumas questões essenciais tais como: a existência ou não de mecanismos de intervenção social que permitem induzir, objectivamente, processos de desenvolvimento; a existência ou não de possibilidades reais de afirmação do desenvolvimento participativo em contextos institucionais caracterizados pela resistência, ou oposição, das elites dominantes locais ao processo; a existência ou não de ferramentas teórico-operacionais que permitam superar a resistência das elites dominantes aos processos de desenvolvimento participativo.
Conheça mais em
http://www.ics.ul.pt/corpocientifico/joaomilando/

O lançamento do livro de João Milando terá lugar na próxima 6ª feira, dia 10 de Março, pelas 18h30, na Livraria Buckholz, Rua Duque de Palmela, nº 4, em Lisboa

25-02-2006

Ao encontro dos Mambos - Autoridades tradicionais vaNdau e o Estado em Moçambique

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Ao Encontro dos Mambos de Fernando Florêncio é uma obra que melhor nos leva a compreender as relações entre "as autoridades do estado" e as "autoridades tradicionais" em Moçambique.
Após a introdução que aqui transcrevo, leia um pouco do Capítulo VI, em anexo.

Prefácio
Desde os primórdios da antropologia social e cultural, a questão dos sistemas de auto-regulação política, económico-ecológica e sócio-cultural das sociedades diversamente apelidadas de originais, primitivas e tradicionais da África, América e Ásia tem sido um tema permanente.
Em África, a ocupação territorial por metrópoles europeias a partir de meados do século XIX e a edificação dos correspondentes Estados coloniais introduziram neste contexto preocupações novas: com a manutenção, alteração ou destruição destes sistemas e a sua articulação com o novo fenómeno do Estado territorial.
Ao contrário de que previam as ideologias «nacionalistas» de vária índole, a passagem dos territórios coloniais para o estatuto de países independentes (à face da lei internacional) não tornou esta temática obsoleta ou, quando muito, histórica. Bem ao contrário: com uma acuidade não raras vezes maior do que na época colonial, as questões que então se levantavam voltaram a manifestar-se face aos esforços de «construção nacional» e de implantação dos Estados pós-coloniais. A debilidade de muitos destes Estados, frequentemente ligada à eclosão de conflitos armados, conferiu entretanto a estas questões um carácter qualitativamente novo.
A nível internacional, esta última fase tem sido objecto de numerosos estudos, especialmente sob o prisma dos «chefes tradicionais», ou «autoridades tradicionais», sua legitimidade e suas funções, tanto na perspectiva das sociedades («comunidades») envolvidas como na perspectiva dos respectivos «Estados nacionais». Ao mesmo tempo, e com a constituição do domínio interdisciplinar dos estudos africanos a partir dos anos 50, também esta problemática deixou de ser do domínio exclusivo de uma só disciplina, a antropologia, envolvendo nomeadamente a ciência política e a sociologia.
Devido ao desfasamento dos estudos africanos modernos em Portugal, causado pela trajectória política do país no século XX, a temática das «autoridades tradicionais» africanas surgiu entre nós como problemática científica pós-colonial só nos anos 90, sob o impacto do debate internacional, mas também sob o impulso do debate político que começou a desenvolver-se em torno desta problemática nos países africanos de língua portuguesa situados no continente, especialmente em Moçambique. A dissertação de doutoramento em Antropologia Social de Eduardo Costa Dias, bem como as dissertações de mestrado em Estudos Africanos de Fernando Florêncio e Víctor Hugo Nicolau, todas defendidas no ISCTE em meados dos anos 90, terão porventura sido entre nós os primeiros trabalhos de envergadura onde esta problemática foi abordada — por sinal, em relação a três países diferentes: Guiné-Bissau, Moçambique e Zimbabwe.
A continuação destes passos iniciais foi incentivada pelo lançamento, no quadro do Centro de Estudos Africanos — ISCTE e com o apoio da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, de um projecto sobre «Autoridades tradicionais e Estado em África», que reuniu os três investigadores acima referidos, aos quais se agregaram mais outros, e que, para além dos três países em epígrafe, passou a incluir também a Senegâmbia. Convirá mencionar que a equipa deste projecto manteve frequentes contactos, com manifesto benefício mútuo, com a de um projecto que correu em paralelo no mesmo Centro sobre «Recomposições dos espaços políticos na África lusófona», igualmente financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Ambos os projectos não apenas proporcionaram extensas pesquisas «de terreno», como também contactos com diferentes redes internacionais e uma reflexão teórica aprofundada.
É neste contexto francamente estimulante que Fernando Florêncio elaborou a partir de fins dos anos 90 a dissertação de doutoramento que deu origem ao presente livro, pondo a proveito de maneira exemplar oportunidades e «insumos» que um ambiente propício lhe facilitava e outros conquistados por um esforço pessoal consequente, imaginativo e incansável.
O livro constitui, a dois títulos interligados, um marco para a «produção científica internacional».
Por um lado, representa uma contribuição de primeira importância para o conhecimento de Moçambique. Depois da dissertação de José Fialho Feliciano, baseada numa investigação realizada na segunda metade dos anos 70, a obra de Fernando Florêncio é o primeiro trabalho aprofundado e de envergadura sobre as sociedades rurais moçambicanas. A este título, o seu mérito consiste não apenas em actualizar os nossos conhecimentos, mas também em substituir a imagem ideal-típica frequentemente veiculada por uma análise mais diferenciada, desenvolvida numa perspectiva diacrónica. Ao mes cientistas sociais, moçambicanos e outros.
Por outro lado, estando ele próprio solidamente ancorado no debate científico internacional sobre a temática das «autoridades tradicionais», o livro de Fernando Florêncio irá, sem dúvida, dar impulsos importantes a este mesmo debate. Com efeito, no âmbito da literatura sobre a matéria, ele representa uma das raras combinações bem sucedidas entre uma notável precisão teórica, uma metodologia rigorosa e cuidadosa e uma riqueza descomunal de dados empíricos.
A todos estes títulos, o trabalho aqui apresentado constitui um «produto de excelência» do domínio científico interdisciplinar dos estudos africanos em ciências sociais que — pondo a proveito o que de válido foi realizado neste campo já em condições coloniais e inserindo-se decididamente no contexto internacional — tem vindo a constituir-se em Portugal desde 1974. E há razões bastantes para justificarem a expectativa de que constitua, juntamente com outros, um indicador de que este domínio esteja numa fase adiantada da sua consolidação mo tempo, introduz no debate político acerca do papel real e desejável das «autoridades tradicionais», que em Moçambique continua aceso e carece de uma base adequada de conhecimentos válidos, uma contribuição científica extraordinariamente sólida que tem todas as hipóteses de vir a ser uma referência obrigatória para o debate político e para a investigação entretanto empreendida por alguns.
Lisboa, Dezembro de 2004.
FRANZ WILHELM-HEIMER

Leia mais:
Download captulo_vi.doc

Veja:
http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2006/02/ao_encontro_dos.html

18-02-2006

Mutilação Genital Feminina

Uma Barbárie ao Serviço dos Machos e da Poligamia

          Em 28 países africanos, nalguns países árabes, no Iraque, Indonésia e Malásia é praticada a circuncisão da mulher. Esta consiste na mutilação genital,

na amputação do clítoris e dos lábios vaginais às meninas, geralmente a partir

dos cinco anos. Uma danificação irreparável para o corpo e para a alma.

Cientistas avaliam em cerca de 10 a 25% as meninas que morrem em consequência desta operação sem higiene que é efectuada com uma navalha ou caco. Os peritos avaliam em 130 milhões o número de mulheres mutiladas.

          Assim se elimina o prazer sexual das mulheres. É o mesmo que cortar a glande, o pénis ao homem. É uma tortura e um abuso sexual, a repressão da mulher e da sua sexualidade. Os homens ao roubarem o prazer sexual à mulher reduzem-na à função reprodutora. São medidas preventivas machistas. Assim impedem nas mulheres a masturbação, o desejo e impedem-nas de terem

relações sexuais antes do casamento. Por outro lado estas mulheres não têm demasiadas exigências aos homens na prática da poligamia.

          Apesar das Nações Unidas terem exigido tolerância zero no que respeita

a esta prática, continuam a ser vítimas deste costume três milhões de meninas

por ano.

Porquê o corte do clítoris?

          Porque é tradição e os homens o querem. Homens não aceitam casar com uma mulher que ainda tenha o clítoris. Consideram impura quem tenha o clítoris.

O prazer sexual é um direito reservado aos homens. A mulher está totalmente dependente do homem económica e socialmente. Não tem outra hipótese que não seja obedecer. Para não serem marginalizadas pela sociedade as mulheres aceitam tal barbaridade. Estas tradições das tribos obrigam ao desprezo da

mulher e à sua discriminação obrigando-as a sofrer toda a vida.

          Já em 1994 a ONU queria acabar com esta praga em dez anos. Mas nada, a tradição abominável continua na mesma. Umas dão-se em público outras em segredo.

         As meninas ou donzelas que não morrem precisam de meses até a ferida cicatrizar. Uma agravante do problema são as dores que acompanham a mulher durante toda a vida e a cicatriz rebenta repetidamente. As mulheres circuncidadas também não podem andar de bicicleta.

          Na Europa há dezenas de milhares de mulheres exiladas que sofreram

esta tortura. Aqui já começa a haver sensibilização para o problema, atendendo a que tem havido mulheres afectadas que denunciam tais práticas. Assim o tribunal alemão DGH determinou em 2005 (cfr. Acta: AZ XII ZB 166/03) que o desejo

duma mãe levar a sua filha para a Gambia pode ser suficiente para que lhe seja tirado o direito de cuidado da filha. Na Gambia 80 – 90 % das mulheres são mutiladas. Também o Tribunal Administrativo do Hesse reconhece o direito de

asilo quando há ameaça de mutilação genital. Neste caso foi reconhecido asilo a uma jovem de 18 anos e a uma menina de 9 anos da Serra Leoa onde 80 – 90 % das mulheres são mutiladas.

          Só na medida em que mulheres que sofreram esta discriminação se

dirigem a instituições poderão ser organizados projectos de colaboração

tendentes a fazer campanhas de esclarecimento nas regiões donde provêm. É preciso que os pais e jovens dispostos a quebrar com tão bárbara tradição sejam apoiados e honrados.

          Estas práticas constituem um testemunho de pobreza e de indiferença para os países ocidentais. Humanismo compromete. É totalmente incompreensível que estados civilizados onde os direitos humanos são tão apregoados como na Europa e onde há até um certo respeito por animais, se feche os olhos a  tal barbaridade e injustiça para com as mulheres. Só resta às mulheres, solidarizem-se já que os homens se escondem por detrás do respeito dos valores culturais. Respeito não, cobardia!

António Justo

Alemanha

11-02-2006

Ao Encontro dos Mambos - Autoridades tradicionais vaNdau e Estado em Moçambique

Encontro_mambos_capa_1  Fernando Florêncio

O Estado moçambicano, à semelhança do Estado colonial, invoca as autoridades tradicionais vaNdau como veículo de penetracão, controlo da população rural, e de legitimação do próprio Estado. Processo esse que se institucionalizou em 2000. As autoridades tradicionais participam assim activamente no processo de formação do Estado distrital, que se constitui como uma arena política local, onde interagem diferentes actores. A tese desenvolvida nesta obra pretende sublinhar que as autoridades tradicionais vaNdau desempenham uma pluralidade de papeis sociais, políticos, administrativos, jurídicos, simbólicos. É nessa multidimensionalidade de papéis que se joga a legitimidade das autoridades tradicionais, face às populações que representam.

Data de Publicação: 01-11-2005
Nº de Páginas:
298
ISBN:
972-671-160-6
Pedidos em    http://www.ics.ul.pt/imprensa/det.asp?id_publica=147

16-01-2006

MOGINCUAL, SUAS TERRAS E GENTES

Do Professor Dr. Carlos Bento que viveu vários anos em Moçambique, MACUA DE MOÇAMBIQUE e MOÇAMBIQUE PARA TODOS têm a honra de apresentar um estudo sobre o Mogincual, hoje pertencente à Provincia de Nampula, em Moçambique.

Veja e imprima:

Download Mogincual.pdf

21-08-2005

Correspondência de JC na internet sem revisão ortográfica

Devido ao seu grande interesse histórico-etno-linguístico, transcrevo:

Correspondência de JC na internet sem revisão ortográfica                    Enviado: 7/8/2005

(Correspondências online) – Resposta de João Craveirinha (JC) à  carta de um amigo investigador histórico…e molungo da Beira…

JMC escreveu:

Caro Amigo

grato pelas explicações a propósito de makwero.

Por acaso sabe-me dizer em que ano é que os britânicos conferiram o título
de "Sir" a Samora Machel?

Um abraço,

JMC…………………………………………………………………

(Resposta de JC) Meu caro JMC,

Essa do Samora Machel, SIR…é uma novidade para mim. Ainda se fosse ao Chissas...mas vou investigar...de facto algo me soou sobre isso na altura dele em vida…mas como a propaganda era rainha na altura…sempre duvidei… mas a ver vamos…

Post scriptum: A propósito ainda do prefixo MA nas palavras baNto (gente /pessoas)...

Regra geral, todas as palavras em "ki baNto" começadas em ma ou ama  são prefixos no plural (a esmagadora maioria das palavras da África Austral seguem esta regra)...ex. – em suázi e zulo : amassuáti ou amazulo = os suázis ou os

zulos...maShangaan, maRonga, maSena, máTsuá ( e vaTswa ou vaTsuá)... maNdao, maNguni, maShona, maChope, maGoerre, muMadji, xiColonhi (3 formas para português de Portugal)…os “brancos” nascidos em Moçambique tinham outro nome idiomático nativo (tipo código), face à influência (grosso modo) que tinham da África do Sul bóer em LM e influência da Rodésia os da Beira e Vila Pery…aliás como sabe

perfeitamente…ao que me refiro…

A norte do rio Zambeze em Moçambique o prefixo MA podia mudar para outro tipo de variação lexical do plural...face aos neologismos e arabismos adaptados... via suhaili…

No entanto mais correcto seria o prefixo Va / Ba plural de Mu (derivado de munto = pessoa = GENTE (baNto plural) como a si mesmos se intitulavam os africanos da África Central a Sul, antes da invasão europeia (mais significativa além da árabe)...o conceito de "branco /negro (amarelo), para a cor aproximada da

pele …não é conceito original africano (nem asiático)...deriva do preconceito eurocêntrico do mundo e da presunção de detentores da “luz branca divina superior” e do negro das trevas imerso na escuridão filho do diabo…e da maldição de Caim… "é uma "invenção" judaico - cristã - árabe, herdada pela Europa e introduzida e adaptada em África (e no mundo tbm), para justificar a escravatura como medida “profiláctica” de " trazer os cafres negros (selvagens - infiéis) das trevas da escuridão negra à Luz branca Divina do Deus comum de Abraão... por aproximação do mais claro se transformar em branco e o mais escuro em negro - preto...daí invocando uma legitimidade espiritual / religiosa (apesar de económica) de onde  surgiria o conceito antes do preconceito aos dias de hoje...base do racismo "dos mais claros"...no mundo inteiro…há séculos…é História e a crua realidade actual…só exorcizando esses fantasmas se alcança a fraternidade e sã convivência…não será negando como a avestruz…para bom entendedor não é necessária nenhuma palavra…eheheh…eheheh….ao contrário do aforismo da meia palavra (só nos pés como diz uma amiga minha, a meia)…ehehehe eheheh

Do termo árabe Bilad al Sudan (árabe)  daria a palavra Sudan / Sudão... provém de <: terra das trevas ou por outra ; terra dos negros...e a ela Omar sobrinho do profeta Mahome se teria referido , com desprezo, (após a morte de seu tio Profeta em 632 d.C) no início da Djiahde expansionista políticomilitar e económica em direcção à Índia 1º ): No entanto Mahome com algum carinho se teria referido ao maGribe / Magreb (a ocidente para os árabes – no norte de África ainda em poder dos vulgo negros) do maGribe ser uma das portas do Paraíso (na terra)...

O verdadeiro nome do Sudão anterior à invasão árabe era o reino da Núbia aliado  do reino de Memphis dos Faraós do antigo Egipto...

...não se confunda mo – Lungo com branco europeu ou mais claro…a palavra moLungo (mulungo) provém da palavra Deus (Grande Espírito) em kiBanto na África Central como no Kongo ou em Angola / e passou a querer dizer senhor e kuLunga algo positivo...xiLunguile = está muito bem…divinal….

Curioso o caso Moçambicano: - antes da chegada dos "senhores europeus, brancos", moLungos (senhores) -, eram os "reis e chefes" locais "negros"....mas estes ao serem dominados passaram a ser os brancos os "molungos de 1ª "...associando-se o termo à cor da pele muito mais clara dos colonos europeus....séculos mais tarde com a Independência em Moçambique a palavra regressou à origem...

Hoje em Moçambique moLungo  aplica-se a qualquer fulano com poder económico e ou político, independentemente de ser mais escuro ou mais claro...deixou de estar tão associada (de novo), à cor mais clara da pele do colono europeu da era colonial...a baixa de Maputo era chamada de xiLunguíne como  o local dos senhores e por analogia dos senhores brancos....em 1ª análise molungo nunca quis dizer somente "branco" mas –, senhor = master ...e como eram os brancos" então se fez "short cut" : - molungo = branco mas subentendendo-se o senhor = ruler, antes do prefixo MO or MU....singular masculino...ou indefinido para o feminino...como vê o racismo institucionalizado sempre teve remetente…o resto é mesmo preconceito eurocêntrico…

Bem meu caro por hoje é tudo.

Um abraço

JC

De: Joaode1

Enviado: 7/8/2005 01:17

Reenviado do LM /Maputo site retirado do

mocambiqueonline yahoo.groups

1 / 2 Correspondência de David Matsinhe do Canadá com João

Craveirinha sobre etno-História de Moçambique

"David M. Matsinhe" escreveu:
Dear JC,

Acho a sua resposta em si e interessante. E bem possivel que o Soshangana
tenha sido descendente de "ronga antiga", como sugeres. Tendo dito isso,
de adicionar que por mais que assim tenha sido, de 1500 a 1800 existe um
"time span" de 3 seculos durante os quais os tais decendentes de "ronga
antiga" evolveram em direccoes politicas, sociais, psiquicas,
linguísticas e culturais diferentes. Nao manteram intacta a identificacao

"original" dos seus supostos ancestros, os tais "rongas antigos" de

que falas.

Isto so em si da legitimade ao problema sociologico que coloco: os
conquistadores liderados pelo Soshangane, vindos da zona de Zululand,
traziam consigo uma lingua, habitos e costumes que nao eram Tsonga ou
Ronga. Como membros de "ruling class," de certeza que o seu tecido
cultural e linguistico viria ser real e de poder -- da elite. Como
evidencia houve fertilizacao da cultura e lingua dos vencidos e
dominados.
Houve Zuluficacao da cultura dos Tsongas, como o caso concreto de Ngiyana (aquela coroa preta na cabeca). Nao interessa se o Soshangana era ou nao Zulu. Sabe-se que na corte real ele, os filhos (Mzila e Mawewe) e o neto (Ngugunyana)praticavam o "habitus" Zulu (lingua, costumes e habitos
culturais semelhantes aos dos Zulus de Zulunad). Ngugunyana e um termo
Zulu e significa "pequeno rei" ou "xi-hosana" em Tsonga ou Ronga.
Soshangana (como Mzilikazi) era um comandante das forcas do Shaka. Ambos eram Zulus. Soshangana era Zulu de clan Mtetwa. Os povos que se
estabeleceram nos locais chamados Swaziland e Matabelaland (no actual
Zimbabwe) sao todos descendentes dos Zulus -- ou melhor, descendentes dos que actualmente sao conhecidos pro esse nome.

O interssante e que em Matabelaland e Swaziland as praticas, costumes,
atitudes, lingua, cultura -- o "habitus" no seu todo daqueles povos e
identico ao dos Zulus de Zulunad. Se o Soshangana e o povo que lederava
faziam parte do povo lidederado pelo Shaka em Zululand, como os
"settlers" de Matabelaland e Swaziland, porque e que o reino do Soshangana, reino dos filhos, e reino do seu neto Ngugunyana -- porque e que as 3 geracoes successivas do reino dos ivasores (Soshangane, Mzila/Mawewe e Ngugunyana) nao foram "successful" em implantar o habtus semelhante ao Zulu habitus tal como aconteceu em Matabelaland e Swaziland? Que estruturas sociais e psiquicas existiram entre os Tsongas por um lado, entre os invasores por outro lado, e entre os Tsongas e os invasores por mais outro lado que impediram esse processo no Sul de mocambique? Para mim esse e um problema sociologico interessante cuja resposta depende menos em saber se o Soshangana era ou nao descendente de ronga antiga. Ele, bem como os Zulus, era Nguni.

E uma resposta que nao se poder lograr sem explorar as dinamicas entre os
invasores/dominadores e os invadidos/dominados. E preciso explorar os
processos sociogeneticos e psycogeneticos das cortes reais: do
Soshangane, do Mzila/Mawewe e do Ngugunyana; os processos sociogeticos e psicogeneticos das cortes subordinadas (dos invadidos e vencidos) bem como as resultantes emocoes que atraiam ou repeliam o dominador. Existe desde a independencia uma tendencia de romantizar esta historia como se a invasão do Soshangane tivesse sido "an embrace of love" ou interpenetracao sensual amorosa entre amantes. Esquece-se que o abate e captura do Ngugunyana foi recebida com festejos entre os Tsongas e Rongas. Esquece-se que as guerras dos Zulus na Africa Asutral nos anos 1820s chamavam-se "mfekani" (em Zulu) ou "difekani" (em Tswana), o que significa "esmagamento" ou "the great crash." Isso involvedou sangue, dor, tristeza, estigma, vergonha e outras emocoes melancolicas que as 3 geracoes do reino dos invasores não conseguiram reprimir. Isto tem que ser investigado. Ideologia de libertacao foi importante e serviu os seus fins de libertacao. Agora precisamos de fazer producao e tratamento serios da historia.

1/2. De JC a DM

Caro David Matsinhe
a) Please, estude a etno História da Suazilandia e leia o meu livro sff:-
Moçambique - Feitiços, Cobras e Lagartos...e o Romance semi-Histórico JEZEBELA…

b) ...o ronga antigo ou arcaico deu origem ao zulo e suázi (inguni) e
Soshangana não entrou vitorioso em 1818 mas sim derrotado fugindo de
Tchaca Zulo depois deste ter derrotado Zuid...cujo general do exército era
o mesmo Soshangana....fugindo assim como seu parente Mzilikatsi que daria origem ao 2º Bulawayao (lugar da matança) em Zimbábue e aos
Matabeles..Lobengula etc...(sogro de Gungu dos muitos que teve)... a
saudação laudatória ou o xitocôzélo real dos suázis Dlamines
(De-Lhamines)...actuais verdadeiros iNgunis faz referencia à origem Ronga
-Tembe e a dos feiticeiros...e desde o sec. XVI ao actual...a tradição
nacional da recolha anual das ameijoas (tinbatsana) na Catembe para
cerimónias mágico espirituais no Palácio real suázi...por altura do
Inquaya suázi...com o sacrífico de um touro e de um jovem emolado na pega
desse touro...( a recolha das ameijoas na caTembe faz parte da tradição
ronga arcaica e actual) apesar da influencia dos vencedores zulos em serem
"iNgonhamas" – leões comedores de carne os suázis mantém desde o ano de 1500 as ameijoas mas continuam a rejeitar o peixe por ser "Inhoca" - cobra...

c) - (aliás uma das várias fontes foram os suázis a confirmarem e o ancião
Moçambicano Daniel Nconwana...(na altura ainda vivo) e guardião da biblioteca da Missão Suíça em Marracuene), mas sobre esta matéria leiam o
livro e depois conversamos melhor senão estou em redundâncias cansativas
que me remetem a 1997 quando iniciei como pioneiro em semanários em
Moçambique até hoje as crónicas históricas no Demos e fui melhorando com novas pesquisas e abordagens...A resposta está na História Suázi assim
como o termo depreciativo shangana (não era nome de grupo étnico) que
quer dizer escravo guerreiro de Soshangana tal qual os Atchicundas na
Zambézia...o foram dos prazeiros mestiços de negro-goeses e portugeses e
os Bongas de Tete até de chinês de Macau...dariam origem aos sipaios...(para mais precisão ver livro Jezebela do autor JC)

d) ...em Gaza a maioria da população era vaLengue vulgo chope antes da
invasão por Pongola de Soshangana e seu grupo fugindo de Tchaca...em
1818...nada a ver nesta fase com o iM'Fecane...guerra de terror...

e) Essa confusão sobre os zulos e ingunis (quer dizer os grandes) é uma
confusão dos cronistas coloniais europeus exceptuando um ou outro...face à
derrota com os mutetuas (izulos) terem adoptado alguns aspectos da cultura
que os derrotou (como o caso dos Moçambicanos que se assumem fanáticos
benfiquistas ou de outros clubes de Portugal por avassalamento da força
dos portuguesismos culturais....eheheheh eheheh...) é sociologia e
psicologia de massas...imita-se e adaptam-se costumes dos vencedores...e
pode acreditar que Portugal venceu em Moçambique está aí a prova nos
futebóis e na RTPÁfrica e a RDP em sinal aberto arrumando com a TVM e a RM
estatais...ehhehehe...isto é provocação mas tbm triste realidade....melhor
rir que chorar...com esta ingerência à soberania de Moçambique...enfim...era o mesmo que a TVE espanhola ou AL Jazeera árabe fosse autorizada em sinal aberto em Portugal...nem a RTPÁfrica tem sinal aberto em Portugal (as privadas TVi e a SIC não deixaram e houve falta de vontade política portuguesa)...Moçambique continua a ser a região onde se vê mais a RTPÁfrica devido ao sinal aberto...e idem para a Rádio RDPÁfrica...que não se sintoniza fora de Lisboa...enfim...Angola não autorizou só por antena parabólica...restam STP, GB e CV...em sinal abertos...

f) Voltando a Soshangana ele era iNduandue (ramo dos Dlamines e aparentado a Mzilikatse) e não Mutetua...Soshangana estava subordinado a Zuid e não a Dinguinssuaio que era Mutetua e protegeria Tchaca... Dinguissuaio viveu anos entre os Tembes e Mpfumos e portugueses na Catembe e caMpfumo e na cidadela de Lourenço Marques...Baía da Lagoa ou Delagoa Bay à inglesa...em meados do sec. XVIII ( 1750/70)...debaixo da protecção dos rongas...que ainda detinham algum poder...sobre a Baía e os europeus...

g) ...se o meu amigo David maTsinhe chegar à casa real dos Dlamines na
Suázilandia entre os anciãos e dizer que ..."ni uma ca Tembe la va ku
loia"...vão-lhe chamar de príncipe e dar-lhe honrarias...(sobretudo em
(Nlhati) iN- lhate inkulo) ao contrário se disser que é shangaan vão -lhe
desprezar por lhe considerar descendente de escravos de seus
antepassados...e insultar-lhe...

h) ...É preciso atenção --- se existe preconceito do lado europeu em relação
ao relato da etno história africana existirá também do lado africano face
à distorção dos vencedores das limpezas étnicas...e os vencidos ocultarão
a sua derrota adoptando atitudes de assimilação e integração...ainda que
distorcidas......todos assim o fizeram na história universal...uma questão
de sobrevivência psicológica...colectiva...

i) ...e-x. o caso dos indaos shangaans contra os vaLengue (chopes) na era
Gungunhana ...shangaans não representando a linhagem directa mas sim dos
avassalados e das mestiçagens inter étnicas por violação...neste caso
avassalados dos ingunis...

j) ...só para terminar os primeiros shanganas a sério foram os indao/shonas

avassalados por Soshangana em Sofala e mais tarde por uMuzila seu filho em Manica...razão pela qual se encontra sepultado em Udengo onde os da Renamo (de liderança maioritária indao/shona) faziam cerimónias em sua honra durante a guerra civil...os cerca de 100 mil indaos shangaans com Gungu a chefiá-los ao invadirem Gaza de maioria vaLengue na altura, arrasaram tudo à sua frente com o beneplácito das autoridades coloniais lusas...que no Sul do Save além dos rongas de Zixaxa e dos Mazuaias (Magaias) e antes de Amule e Hassan, pai, avô e bisavô de nuáMatibyana (maTidjuana desterrado nos Açores) respectivamente..

k) …dizia, os coloniais lusos temiam a bravura dos vaLengues e dividir para reinar deixaram os vaNdao de Gungunhana e os poucos e já velhos ingunis restantes de seu avô e pai fazerem o trabalho sujo de limpeza étnica culminando com o massacre de Binguane Mondlane (Mond-lhane) no seu Kokolo (sede) e a violação de suas cerca de 700 mulheres pelos guerreiros vaNdao de Gungunhana...na proporção de 1 muLengue para 10 indaos...em Mandla - inkazi...o processo de avassalamento ou de shanganização forçada dos vaLengue (chopes) teve início para sobreviver ...gerando ainda hoje muita confusão de identidade entre os clãs vaLengue dos Mondlanes (Macambanes), Massangos, Muguambes, Langas, Macuacuas, Nhantumbos, Macheles, Manaves, Zandamelas, etc..etc....uma das formas de avassalamento forçado era a cerimónia do iNquaya que consistia numa iniciação de jovens vaLengue (chopes) capturados em canibalismo ritual preparado com coração de criança e um touro...mas isto tudo está no meu livro...os indaos até hoje dançam o genuino iNquaya e não a adulterada maQuayela vinda da África do Sul com influências do "step" euro-afro - norte anmericano importado na década de 30 /40 pra a África do Sul através do cinema e introduzida em Gaza e caMpfumo nos anos 1950 pelos magaízas que vinham do Jone das minas do Rand...Os indaos terão sido dos primeiros em Sofala e Manica a praticarem a iniciação forçada do iNquaya na era de Soshangana e Muzila e continuada por Gungunhana.

L) Caro dDavid Matsinhe, Não se esqueça que o zulo e o suázi (inguni) provém do ronga arcaico e assim em espiral recuando no tempo....aos baCongos, baLubas e Hutus...na África Central...como aliás já citei...para isso a hermeuneutica baNto é auxiliar valioso na linguistica...sem contar com as análises ao sangue...culinária...danças...etc...hoje com os testes na
genética do ADN é mais fácil chegar lá...mas mesmo na década de 30 foram
feitos estudos comparativos do parentesco dos povos do Sul de Africa
...Moçambique incluído...

isto tudo conto nos meus livros...

m) Eu não pretendo entrar em debate sobre este tema ...leia o meu livro e
tire as suas ilações...não tenho mais disponibilidade e é uma perda de
tempo eu repetir o mesmo desde 1997 e descrito no livro fruto de muita
pesquisa e recordações de criança com os anciãos...aguardam-me 3 livros
que tenho entre mãos no PC...e entregá-los até Setembro um dos quais com
CD musical...e poemas épicos...sobre a nossa etno história...ao abrir
excepção a si acho que pequei pelo aspecto didáctico de querer transmitir
algo...ao contrário de muita gente que não fornece pistas grátis como o
fiz de boa fé...daí a ter de me remeter ao silêncio...pois os meus livros
assim me obrigam...sairam 3 livros este ano faltam mais 3...para prefazer
6...

n) Em achega: não existe isso de Tsonga...foi uma forma cómoda de "enlatar" todos dentro de um conceito étnocentrico...sobre a atribuição errada da origem dos nomes dos povos a sul de África consultar o livro sobre a
Educação em Moçambique do filósofo Moussam...e Prof. Universitário na
Suíça Severino iNGoenha (também Mondlane ...pronuncia-se mais ou menos Mond- Lhane)...não existe o som exacto em português...

o) ...mais...os Zulos não surgiram como um grupo étnico mas sim nome de um pequeno de clã de pastores entre os mu - Tétúas que se autodenominaram a si mesmos de filhos do céu ...Izulo originando ZULO...(em ronga arcaico e
actual diz-se Izuluine para se referir a celeste)...

p) A origem do shangaan - idioma hoje (antes dialecto) deriva da fusão do
ronga arcaico (inguni - suázi) com o xiLengue (chope) e indao de Manica e Sofala...não se esqueça que antes da invasão de Soshangana o termo shangaan não existia...mais tarde passou a ser insultuoso (como ainda o é entre os suázis ingunis)...mesmo os portugueses passaram a ser chamados de shangaans pelos velhos ingunis de Gungunhana (ver livro Africa de Antonio Enes) em que Sanches de Miranda no Caniçado - HLanguene - pede ao Comissário Régio que o exército português entre duro contra os cafres "vatuas (!?!)" de Gungunhana pois os cafres(selvagens) já diziam que os portugueses também eram machanganes deGungunhana (isto é vassalos - submetidos) ...pela passividade na expectativa...aguardando ordens de avanço...contra Chaimite...e o Gungunhana...

q) O nome ou alcunha iNgungunhana provem de gungunhar - ku gungunha (som onomatopaico)...pois segundo a tradição Gungu...quando miúdo em Manica /Zimbabué ele com o induco partia as bilhas dos súbditos do pai por
maldade...(leia o livro)...

r) Por hoje chega e não haverá mais...ehehehehe eheheh senão terão de me
pagar meus honorários...ehehehe ehehehe...pois estas aulas grátis me
cansam por serem repetitivas...e na net em directo pior cansam -me a
memória...em directo sem recorrer ás minhas fontes e apontamentos
...disponíveis...na minha modesta biblioteca...e sem revisão / correcção ortográfica…

So long,

Best regards...
JC

( p.s. 1/4 ) ...caro Matsinhe pergunte a seus avós de onde veio a palavra
Matsinhe...mesmo que não goste veio dos rongas Tembes...ehhehehe
hehehe...a palavra ronga não quer dizer gente ou tribo na origem mas sim
provem de vudjonga..poente onde nasce o sol...tal qual Lengue quer dizer
um ponto cardeal)....a origem dos nomes étnicos, apelidos de família,
provem de alcunhas ou títulos normalmente...e quase que é
universal...válido para África, Ásia, Oceânia, Ameríndia, Europa....é o
facto comum da Antropologia...por exemplo Tchaca vem de iTchaca =
escaravelho...do calendário muTétúa...

p.s 2/4 ) Desculpe meu caro, sem desfazer sua prosa, mas em relação a seu texto até
que me deu dor de cabeça pela embrulhada histórica ...e eu tentar
desemaranhar a teia toda embrulhada...confesso que desisti...

Como deve saber ...há séculos...os maTsinhe migraram da caTembe para Gaza e Inhambane (terra dos Nhambes)...e demonstraram ser bons conselheiros (kuTsinya) e de Tembes passaram para maTsinhes...isto anterior à existência dos Zulos como potência regional...provavelmente nos inícos do sec. XVIII quando os portugueses e outros europeus e mais tarde os
baleeiros norte-americanos prestavam ainda vassalagem ao rei Mpfumo e
Tembe na baía do Mpfumos ( reis)...está documentado...

p.s 3/4 ) ...Outra coisa Soshangana poupou os rongas por respeito à origem comum ancestral ...e seu filho uMuzila pediu ajuda em termos familiares ao rei ronga Mashakene Mpfumo na sua residência no local onde hoje é a Igreja Anglicana na av. 24 de Julho perto do ex MK actual "Franca"...

....como sabe os africanos tem por base espiritual a ancestrolatria...o
culto dos antepassados...e mesmo Gungunhana era aliado dos rongas por tal
acolheu Magaia e uãMatidjuane em Chicomo (Gaza), como refugiados políticos e não os entregou até ao último momento dando o pretexto a Mouzinho de Albuquerque e sua gente a avançarem contra Chaimite ao contrário de Antº Enes a caminho de Portugal no seu navio...que queria uma solução política e pacífica em princípio...

p.s 4/4 ) Uf...vaya faena...eehehehe... que trabalheira de resposta....e dor de
cabeça....over time mesmo...tenho de cobrar horas

extras...ehehehehe...eheheheh...se eu fosse americano quanto valia Mr Matsinhe? eehehehe heheheh I' am joking....
p.s, penso que correcto seu apelido seria Matsinha derivado de ..."la va
ku tsinya"...os que aconselham ou conselheiros...de Tsinha mais Ma
...Matsinha...bem não é importante....forget please...

Amanhã não há mais....tenho de voltar ao trabalho que não é pouco...

Best regards
JC (João Craveirinha)

....................................................................................

Última resposta de DM do Canadá a JC sobre etno-História

2/2 - David"David M. Matsinhe" <[email protected]> escreveu:

Estimado JC,

Claro que e cansativo ter que leccionar na net, particularmente quando se
trata de temas complicados como a historia da africa do sul que neste
momento encontra-se penumbrosa (it's fusy) para muitos de nos. Sou o
primeiro a admitir que my knowledge desta historia is very poor. Procurei
fontes ricos de que podia me beneficiar. Mas muitos deles sao inadequados.
This exchange is helpful porque tenho muitos gaps por preencher.
So I
apprecite your time and effort to let your knowledge flow on our computer
monitors. As an act of recognition and appreciation of your dedication to
escavate our history I'll buy ALL, and I mean ALL, your books. I'll buy
them also because I value knowlwdge. So thanks JC. The exchange was
fruitful. It may have been annoying to you. But trust me when I say it was
fruitful not only for me, I think, but also for many of us who bother to
read what's posted in mocambiqueonline. I wish you the best in your
research projects. Buy the way, whenever you happen to pass through

Canada


please let me know. And do you mind adding me to your mailing list, if you
have one? Finally, I will not quote you, as you wish, and I will not
plegiarise. Trust me. I take these things seriously myself. When I cite
I'll do so from your books.
And I'll do it strictly apropriately.

Regards,
David

2 / 2 – última Resposta de JC a DM do Canadá…

Meu caro David Matsinhe,

Caro e ilustre David Matsinhe uá Tembe, la va ku Tsinya (ma - Tsinya), la va ku loya (linhagem dos Tembes feiticeiros do princípe Ingoanaze a uã Djikiza),

Grato pelas suas inquietações online, sempre que as vejo de boa fé tento contribuir no que posso face às nossas trevas no ensino da nossa própria História ...antes e depois utilizadas para fins de "preconceitos" políticos dos regimes no Poder quer colonial quer nacional...

...Sem dúvida seu contacto encontra-se no meu email list desde a sua 1ª abordagem...e Canada (Toronto e Vancouver e agora Calgary...eehhe, estão no meu roteiro de viagem)...talvez next year...

Sabe, o esforço de memória apesar de não ser 100% é sempre compensado porque na transmissão de algum conhecimento alguma coisa fica e esse esforço me põe bem comigo mesmo por ter deixado pistas a outros que investiguem melhor e com condições que não tive...simplesmente fruto de meu interesse herança genética de meu pai que foi professor particular de muita gente para auto-financiar seus próprios estudos... além de dar aulas ao próprio irmão que se tornaria poeta e jornalista laureado muitos anos e anos mais tarde...

Bem hajam os David's Matsinhes que pela sua "fome" de conhecimento das nossas origens  um dia irão trazer  mais luz às trevas que nos foram impostas por designios para não nos conhecermos pois em realidade somos todos em Moçambique uma grande família alargada de costas voltadas muitas vezes...e isso deve-se às guerras étnicas do Império de Gaza e dos Prazos do rio Zambeze, duas grandes guerras coloniais, de revoltas e mesmo da primeira guerra mundial ( do rio Rovuma ao rio Zambeze)...., cujos up and down's andaram a forçar mestiçagens inter étnicas baNtos e mesmo em alguns casos com gente de Angola, Cabo Verde, S.Tomé e  da Guiné Bissao para Moçambique sem contar com o contributo genético indiano de Goa e Europeu e Chinês e ainda vulgo mulatos do Brasil (em xi sena bebida alcoólica tbm se dizia catchaço trazida no rio Zambeze por esses ditos mulatos do Brasil)...e os Senas quiçá até podem reclamar no seu AdN sangue indonésio há cerca de 1000 anos...e malaio (?!) em Inhambane...sem contar o etíope do tempo de Bilkis rainha de Sabá (Ophir!?) do tempo de Salomão do Templo de Jerusalem e ainda sangue judeu (no povo original da Gorongosa), romano e árabe em Sofala e toda a costa norte da Quionga suhaili a Inhambane Cêu / Linga Linga das Baleias...ehehehhe...isto tudo um super melting pot sem contar com a primeira guerra civil Frel / Rena de 16 anos que misturaria o super misturado...AdN Moçambicano...com muito suor , sangue e lágrimas ainda hoje traumas não cicatrizados...por falta de acompanhamento psicológico a traumas de guerra e genocídio...O Acordo de Roma "escondeu debaixo do tapete"... e esses "Milandos de Um Sonho" um dia revelarão de ambos os lados o que realmente se passou...para além das propagandas...(me perdoe a boleia do título do livro de meu amigo Bassani Adamogí de Sofala / Beira / Maputo e Lisboa)....

..mas isso já demais para seguir online...

Best regards, Mr David Matsinhe, my country fellow,

João Craveirinha – JC

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Caro Fergil,

Para agitar teu sensaborão final de domingo te reenvio (já com ordem cronológica), a minha Correspondência na net que anda por aí circulando sobre a ignorada Etno – História de Moçambique que vim a saber e para tua informação que neste momento sou considerado em Moçambique (nos meios académicos), como um dos especialistas Moçambicanos da Etno – História. Se isso me desse dinheiro estava milionário.

Já me tem pedido a reprodução de meus textos “vadios na internet” e às vezes não. Caso queiras utilizá-lo agradecia sem cortes ou amputações pois retiraria o sentido da fonte e cronologia da troca de correspondência que julgo ser útil aos possíveis leitores já de si mesmo muitos deles confusos. (A carapuça que sirva a quem a merecê-la). Mas é um risco sempre a correr. Neste caso por ser reprodução não posso intervir a replicar nada de nada. Não tenho tempo nem pachorra. “Aulas grátis online” e ainda refilanços? Porca miséria e mundo ingrato! Ehhehhh, ehehehehhh! JC.

NOTA: Mais uma vez grato ao João Craveirinha. Um abraço e obrigado

Fernando Gil

11-07-2005

Em favor do fim da “raça”

Adelto Gonçalves*
Qual é a diferença entre EUA e Brasil na questão étnica? É que, enquanto para os norte-americanos basta uma gota de sangue africano para produzir um “afro-americano”, para os brasileiros herdar as características de todos os ancestrais não torna ninguém “afro-brasileiro” ou “euro-brasileiro”, mas apenas brasileiro. É por isso que, no Brasil, as pessoas levam em conta, sobretudo, a aparência física para classificar alguém numa categoria “racial”, que pode ir do preto-azulado ao mulato-claro, passando por mais de 130 variações, segundo já revelou uma pesquisa.

Depois de ler essas observações no livro A persistência da raça: ensaios antropológicos sobre o Brasil e a África austral (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2005), do antropológo britânico Peter Fry, não há quem possa aprovar a atual política de sistema de cotas para “negros” nas universidades públicas e privadas brasileiras.

Naturalizado brasileiro, Fry está no Brasil há mais de 30 anos, desde que, ainda jovem doutor, veio lecionar e pesquisar na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Depois de retornar à África e lá permanecer por um bom período, retornou ao Brasil, desta vez para o Instituto de Filosofia e Ciencias Sociais (IFCS) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, após ter passado, quando saiu de Campinas, um tempo no Museu Nacional.

Segundo Fry, é exatamente com a “cultura” da miscigenação brasileira que esse sistema de cotas pode acabar, ao obrigar as pessoas a se autoclassificarem apenas como “negras” ou “brancas”. Não será difícil que, em poucos anos, diz o antropólogo, tenhamos também no Brasil movimentos radicais e segregacionistas como o de Louis Farrakhan e seu Reino do Islã nos EUA. Afinal, se copiamos as piores experiências de uma sociedade que sempre foi muito mais preconceituosa do que a nossa, fatalmente, vamos importar também suas mazelas.

Isso não quer dizer que sejamos adeptos da idéia de que o Brasil constitui uma “democracia racial”, como imaginara Gilberto Freyre, e outras bobagens do gênero ou que não reconheçamos que os negros sempre foram discriminados no País, a ponto de hoje serem maioria entre as grandes camadas de pobres ou marginalizados.

Até entendemos a argumentação daqueles que apóiam o sistema de cotas: se até aqui, nada se fez para se reparar essa injustiça social, não custa nada tentar procurar diminuir as distâncias pelo menos durante um prazo de dez anos com esse sistema de cotas, imaginam. O pior é que as conseqüências poderão ser desastrosas.

No Brasil, há problemas de preconceito, principalmente quando o negro começa a ocupar espaços que normalmente eram “reservados” aos brancos. Mas há uma diferença brutal entre o preconceito que se vê no Brasil e o que se constata nos Estados Unidos e em países da Europa, inclusive em Portugal. Diferença que, provavelmente, haverá de se encurtar na medida em que, ao introduzir cotas para vagas no ensino superior, o governo brasileiro está criando e celebrando a existência de duas “raças” no País, a branca e a negra, que, com certeza, vão substituir as muitas maneiras que o Brasil inventou para se referir às complexas combinações genéticas que convivem em seu território.

Ora, o que se quer é exatamente o contrário, ou seja, uma sociedade em que as características físicas das pessoas sejam irrelevantes no momento de candidatar-se a um emprego ou freqüentar um lugar. Em outras palavras: uma sociedade que seja cega para as características físicas de seus membros, o que significaria que as oportunidades não estariam reservadas a este ou àquele grupo social, mas abertas a todos.

Uma maneira de começar a buscar essa sociedade seria mostrar à exaustão nas escolas e nos meios de comunicação social que a genética já provou que o conceito de raça não tem qualquer base científica. E que a idéia de raças é uma invenção humana tão estúpida quanto o arianismo ou o nazismo. Mas, como explicar isso numa sala de aula para universitários que acabaram de ser separados entre “negros” e “brancos” como condição sine qua non para o ingresso na faculdade?

Nada disso seria preciso e muito menos acabar com o sistema de cotas, desde que as vagas nas universidades fossem reservadas para pobres e egressos de escolas públicas. Se os negros são maioria entre os pobres — dos 53 milhões de brasileiros que vivem na pobreza, 63% são negros, segundo pesquisa citada por Fry —, bastaria o sistema de cotas para pobres e egressos da escola pública para produzir um aumento mais do que significativo de “negros” e “pardos” nos cursos universitários.

A par disso, é claro que, se o município ou o governo do Estado instalar cada vez mais escolas públicas de melhor qualidade na periferia das cidades grandes e médias, isso irá propiciar mais oportunidades para negros do que para brancos, levando-se em consideração que os pobres são majoritariamente negros. Era nesse tipo de pressão pública aos governos que os ativistas negros deveriam investir com o apoio de lideranças comunitárias e políticos.

De outro modo, como alerta o antropólogo, a reserva de vagas para negros, fatalmente, levará o Brasil a entrar na lógica “racial” do mundo anglo-saxão. Ou seja, a principal conseqüência dessa política será fomentar uma “cisão racial” entre as camadas mais pobres, exatamente no setor em que, praticamente, não há racismo entre brasileiros.

Se vale uma contribuição pessoal, vou contar aqui três experiências que vivi ao tempo em que morei um ano em Oeiras, cidade próxima de Lisboa, por conta de uma bolsa de estudos do governo do Estado de São Paulo. Certo dia, minha mulher conheceu uma vizinha angolana, de quem ficou muito amiga. Essa angolana, Marcela, nascida em Huambo, Sul de Angola, era casada com Sílvio, de uma família de Luanda. Marcela vinha de outro casamento, trouxera uma filha ainda menina e teve dois filhos com Sílvio. O segundo nasceu à época em que estávamos em Oeiras e pudemos ouvir de Marcela muitas queixas em relação à sogra, cinquentona muito elegante e bem posta na vida que, diziam, teria interesses até em minas de diamantes em seu país de origem.

A mãe de Sílvio nunca admitira o casamento por questões étnicas — pelo que pude perceber, sua etnia seria predominante na sociedade angolana e majoritária no governo — e, muito provavelmente, por questões sociais. Afinal, Marcela era de origem humilde, enquanto Sílvio, ainda que não tivesse chegado à universidade, tivera a oportunidade de fazer o colégio em Coimbra. A minha surpresa, porém, deu-se quando soube que a sogra havia, entre outras queixas, reclamado até do nariz achatado do neto, característica física inexistente no pai. Foi a primeira vez que constatei pessoalmente racismo entre negros.

A amizade com o casal Sílvio e Marcela (nomes fictícios, obviamente) permitiu-me também o convívio estreito com outros angolanos que moravam em Lisboa. De vários jovens que cumpriam estágio numa unidade do exército português, em Cascais, por força de um acordo entre os governos de Portugal e Angola, ouvi queixas contra o tratamento que recebiam de superiores e colegas.

Por exemplo: na hora de um jogo de futebol, oficiais e soldados lusos faziam questão de organizar um time com os seus melhores jogadores só para atuar contra os angolanos. E faziam o possível para nunca perder — era quase uma questão de vida ou morte em que entravam até os esforços de um árbitro sempre a favor do time dos brancos. Nunca lhes passava pela cabeça que podiam fazer dois times com os estagiários angolanos misturados nos dois times. Buscavam instintivamente sempre um confronto entre brancos e negros, como no tempo do colonialismo.

Outra experiência passei no Centro dos Correspondentes Estrangeiros do Palácio Foz, em Lisboa, e serviu para que descobrisse a baixa auto-estima que alguns africanos carregam, provavelmente em razão de rixas seculares entre seus povos. Depois de uma entrevista que eu fizera para uma revista semanal brasileira com um representante do Movimento das Forças Democráticas da Casamansa, que luta pela independência dessa região em relação ao Senegal, um jornalista de Cabo Verde, com quem já havia travado amizade, aproximou-se e cochichou ao meu ouvido: “Não confie em africanos”.

Estes episódios ficam aqui à guisa de exemplo para que reflitamos sobre a complexidade do preconceito, questão que ainda deverá perturbar as relações entre os povos por muito mais tempo do que se pode imaginar. Mas, antes de qualquer conclusão, fiquemos com esta idéia de um antropólogo experiente como Fry, que viveu em Moçambique, no Zimbábue e no Brasil: não se vence o racismo celebrando o conceito de “raça”. Afinal, sem a idéia de “raça” o racismo não pode existir.

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A PERSISTÊNCIA DA RAÇA: ENSAIOS ANTOPROLÓGICOS SOBRE O BRASIL E A ÁFRICA AUSTRAL, de Peter Fry. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 348 págs., 2005.

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*Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: [email protected]

10.07.2005