17-05-2006

Retrospectiva sobre a execução de Joana e outros

Marcelino_santos_01
“Nós não estamos arrependidos”
Marcelino dos Santos

Emílio Manhique, apresentador do programa “No Singular” na TV pública moçambicana (TVM), entrevistou, em 2005, o antigo membro da Frente de Libertação de Moçambique e mais tarde ministro de Samora Machel, presidente da Assembleia Popular, e membro do Bureau Político (mais tarde Comissão Política Permanente) do Comité Central do partido Frelimo marxista leninista.

Dos arquivos do «Canal de Moçambique» extraímos parte dessa entrevista relativa aos fundadores e combatentes da Luta de Libertação Nacional que defendiam um regime como o que hoje vigora em Moçambique e com a alegação de que por isso eram anti-patrióticos e “reaccionários” foram sumariamente abatidos no fim da década de 70, princípio de 80, já depois de Moçambique ser membro das Nações Unidas, sem que tenham sido observados os mais elementares princípios do Direito consagrado em sociedades civilizadas.

Emílio Manhique : “Lazaro Nkavandame, Gwenjere, Joana Semião foram mortos depois da independência, mas a Frelimo tinha dito que iam ser reeducados, que iam servir de exemplo. Porque é que foram mortos sem sequer nenhum julgamento?”

Marcelino dos Santos: “Naturalmente... primeiro porque consideramos que era justiça.”

Manhique: “Justiça popular?”

Marcelino dos Santos: “Altamente popular, exercida”...

Manhique:... “mas foi uma justiça de um movimento guerrilheiro, não de um partido”.

Marcelino dos Santos: “Justiça contra traidores porque qualquer um deles se aliou ao colonialismo português.”

Manhique: “Mas porque é que a Frelimo primeiro disse que iam servir de exemplo?”

Marcelino dos Santos: “Sim, e depois sobreveio a acção, a tentativa do inimigo de buscar elementos moçambicanos descontentes, em particular aqueles que pudessem ser-lhes bastante úteis. Então, aquela consciência que nós tínhamos inicialmente de que são traidores e que, portanto deveriam ser executados. Bom, numa certa medida podemos dizer que surgiram as condições que forçaram a implementação de uma preocupação e de um sentimento muito, muito, muito antigo porque é bom não esquecer que Lázaro Nkavandame...”.

Manhique: “E porque é que não se informou o povo?”

Marcelino dos Santos: “Porque aí é preciso ver o momento em que isso acontece e naturalmente embora nós sentíssemos a validade da justiça revolucionária, aquela construída, fecundada pela luta armada revolucionaria de libertação nacional, havia, no entanto, o facto de que já estávamos em Estado independente. Quer dizer, Moçambique se tinha ja constituído em Estado embora a Frelimo fosse realmente a força fundamental desse Estado. Então foi isso, talvez, que nos levou, sabendo precisamente ainda que muita gente não estava certamente apta a entender bem as coisas, que nós preferimos guardar no silêncio esta acção realizada. Mas que se diga bem claramente que nós não estamos arrependidos da acção realizada porque agimos utilizando a violência revolucionária contra os traidores e contra traidores do povo moçambicano”.
(TVM – 19.Set.2005 - Programa «No Singular»)
N.E.: De referir que Emílio Manhique é locutor da Rádio Moçambique e sobrinho do moçambicano que deu o nome de Frente de Libertação de Moçambique ao movimento que viria a negociar o país com o regime implantado em Lisboa depois do golpe de Estado do 25 de Abril em Portugal. O tio do jornalista, estava com Marcelino dos Santos em Acra, no Ghana, quando este último criou a partir da inspiração de Fanuel Malhuza o acrónimo Frelimo. Malhuza morreu o ano passado em Maputo sem merecer quaisquer honras se bem que foi o criador da designação que imortalizou o movimento pela Independência de Moçambique.
CANAL DE MOÇAMBIQUE - 17.05.2006
NOTA:
Na realidade, para quem confunda FRELIMO com POVO DE MOÇAMBIQUE não está mal explicado...
Fernando Gil
MACUA DE MOÇAMBIQUE

16-05-2006

ILHA DE MOÇAMBIQUE: FINALMENTE, NA ROTA DA SUA VOCAÇÃO TURÍSTICA !

Vasco Fenita
Desta vez parece que será mesmo de vez.
Ao contrário do que sucedeu no passado, com organizações que se proclamavam predispostas a desencalhar a Ilha de Moçambique do profundo marasmo em que, penosamente, se encontra mergulhado. E que, afinal, não eram senão meros simulacros.
Aliás, por inerência das funções que exercia, na altura , eu mesmo fui compelido a assumir o cargo de presidente do Conselho Fiscal da primeira dessas instituições, a Associação dos Amigos da Ilha de Moçambique. De que, entretanto, me viria a resignar (lógicamente), pouco depois, quando me apercebi que, afinal, não passava de uma instituição fantoche e que nós, os membros dos diversos órgãos constituintes éramos, reflexamente, uns simples títeres. Porque da profusão dos donativos provenientes, principalmente, do exterior do país, apenas uma parte insignificante era drenada para a nossa gestão, na Ilha de Moçambique (destinatária legítima). A “parte de leão” era extraviada, sem qualquer explicação plausível, algures na capital do país.
À Associação dos Amigos da Ilha de Moçambique, sucederam-se muitas outras agremiações congéneres, aparentemente imbuídas do mesmo espírito solidário (ou “altruísta”), que, naturalmente, acabaram, também, por soçobrar acossadas pelas mesmas deformidades.
Porém, as notícias chegadas, há dias de Lisboa, revestem-se de perspectivas bastante animadoras porquanto dão-nos conta de foi constituída uma parceria bastante consistente para resgatar a histórica cidade, constituída por representantes de Portugal, Moçambique, Suiça, Banco Africano e UNESCO, Os quais voltarão ainda a encontrar-se no final deste ano, já em território moçambicano (previsivelmente, na própria Ilha de Moçambique), com a finalidade de definir o plano estratégico destinado a pôr cobro à totalidade dos problemas que inibem a vetusta cidade de se adequar ao estatuto de Património Cultural da Humanidade, que lhe foi outorgado, em 1991, pela UNESCO.
A reunião da capital portuguesa, a que esteve presente o nosso ministro da Educação e Cultura, Aires
Aly, pressupõe, pois, que tudo se conjuga para que, desta feita, a Ilha de Moçambique seja contemplada com um manancial de requisitos que, finalmente, viabilizarão a assunção plena da sua vocação intrínseca para o turismo industrial.
Entretanto, está prevista para Agosto próximo a conclusão das obras de reabilitação da ponte longelínea
(de 3.800 metros) que estabelece o hífen entre a Ilha de Moçambique e o continente fronteiriço (Lumbo). Foram já substituídos cerca de 200 pilares dos 500 que se encontravam em avançado estado de degradação.
Observe-se que, inaugurada em 1967, aquela ponte nunca beneficiou do processo de manutenção recomendado pelo respectivo engenheiro, de nacionalidade portuguesa, Edgar Cardoso, aquando da sua deslocação a Moçambique, a convite de Samora Machel.
WAMPHULA FAX – 16.05.2006

15-05-2006

MORTOS COM OS «SAFANÕES» ORDENADOS POR SALAZAR E CAETANO

Retirado do Blog 25 de Abril - O antes e o agora
A guerra não é uma partida de xadrez ou damas calma e bucolicamente disputada à sombra dum imbondeiro, dum coqueiro ou duma azinheira.
Entre os mortos e outras vítimas há os «profissionais» da guerra e aqueles que lhe sofreram as consequências, por estarem livre ou conscientemente ou não dum dos lados em confronto, quaisquer que sejam as razões que assistam a cada um deles.
Não tenho e não sei se existe o balanço das vítimas do «corporativismo» português de Salazar e Caetano, designadamente dos civis ditos «portugueses» negros (sem direitos de cidadania no Portugal do Minho a Timor) que foram mortos pela polícia política (leia-se PIDE/DGS, Flechas e similares) e pelas Forças Armadas Portuguesas nos teatros de guerra ou não a partir de 1960. ... ... ...
Leia tudo em:
Download vn_mortos_com_os_safanoes.doc

NOTA:
-Para melhor compreensão de alguns factos aqui descritos, aconselho a leitura dos seguintes textos, colocados no MOÇAMBIQUE PARA TODOS:
http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2004/11/quantos_morrera.html
http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2004/10/que_ligar_mtele.html

Fernando Gil
MACUA DE MOÇAMBIQUE

13-05-2006

Uma “revolução sem sangue...”?

Sol Português
Já o sabíamos. Já o tínhamos escrito. Agora, porém, é a toda poderosa RTP a dar o mote para, uma vez mais... mais políticos e mais altos militares, alguns ainda vivos, se cobrirem de vergonha. Talvez não tanto pelo que fizeram... mas pelo que deixaram fazer.
Com testemunhos insuspeitos, preto no branco, ficámos a saber que Portugal, enquanto Pátria, servida por uns quantos políticos de pacotilha e por algumas patentes militares de opereta... entregaram, na Guiné, às forças que em 75 passaram a dominar o País... os soldados que nos tinham sido fiéis. Entregaram-nos, pronto. Sem cuidar de saber o que lhes iria acontecer. Pois... umas quantas centenas foram fuziladas. Ou nos campos de futebol. Ou nas “fugas” inventadas dos terríveis campos de concentração. Que Portugal permitiu. Que Portugal “abençoou”, embora agora todos nós juremos a pés juntos que não. Pragmaticamente até somos capazes de dizer que... não havia mais nada a fazer.
O “25 de Abril”. Efeméride que, aos poucos, se vai perpetuando nos meandros da História. Com razões de glória. Com motivos de vergonha. Sobretudo quando os apaniguados que ainda existem teimam em atirar aos ares com atoardas que querem que fiquem na História. A falar (só) de heroismo e a querer apagar coisas que a História está a começar a alinhar. Neste caso, pelas mãos de quem menos pensaríamos, como foi o caso da RTP.
Soldados guineenses que serviram Portugal nas Unidades de Comandos. Entregues à morte por fuzilamento. Entregues, afinal, por quem assinou as chamadas “negociações” de Argel. Alguns dos poucos sobreviventes aos “massacres” ainda têm forças para gritar frente às câmaras televisivas o seu amor a Portugal. “Eu jurei bandeira... por Portugal”. “Sou leal a Portugal”. “Sou ainda... português”. Por sobre tudo, o bacoco do Nino Vieira a atirar mais umas quantas atoardas, ele que tem também as mãos cheias de sangue, a dizer que “sim... que Portugal tem o dever moral de ajudar aquelas famílias”.
Ouvimos. Pasmámos. E ainda temos dificuldade em entender ser possível ouvir dizer – e ainda agora aconteceu – que o “25 de Abril” foi uma revolução sem sangue. É que a Guiné foi apenas um exemplo. Angola e Moçambique também tem páginas... que nos deveriam cobrir de vergonha. Entregar soldados – que eram, tecnica e realmente soldados de Portugal – aos seus algozes não é mais do que “massacrar”.
O “25 de Abril” deu a Portugal algo de bom, sim. Mas a meditação não deveria toldar-nos a mente para não vermos que, de facto, a chamada “descolonização exemplar” nos cobriu, igualmente, de vergonha. Uma vergonha que há-de cair sobre a cabeça dos nossos filhos e netos. E mesmo que se diga que Portugal respondeu a crimes feitos pelos extremistas... que não tinha outra solução senão fazer o que fez... entendemos que não há forma de entender... a vergonha que é entregar à morte – todos deveriam saber que era a morte que os esperava – milhares de soldados guineenses, angolanos e moçambicanos, que serviram Portugal. Que tinha jurado bandeira por Portugal. Que tinham jurado fidelidade ao velho... Portugal.
Foi, então, uma “revolução sem sangue”? Com muitos cravos vermelhos, não é? Talvez que em Portugal... talvez que nas fileiras das Forças Armadas lá no “puto”. Talvez... Mas e os milhares que entregámos à morte? Não se contabilizam? Não são gente...? Não têm sangue, talvez!
Por mim... continuo envergonhado! Angustiado! Com a certeza de não saber explicar aos netos – se algum dia eles me perguntarem – porque é que os da minha geração atraiçoaram leais servidores de Portugal. E só não choro, porque de tanto amargor... as lágrimas de há muito me secaram nos olhos. Talvez seja uma meditação que muitos chamarão de “reaccionário” ou mesmo “fascista”. É possível. Mas como também já houve quem alinhasse, frente a mim, outros “istas” – mesmo esse que está a pensar... – não me apoquenta o epíetto. Apoquenta-me, isso sim, essa vergonha... que colectivamente me vai roendo as entranhas.
Fernando Cruz Gomes - Canadá
Veja:
http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2006/05/rfos_de_ptria_d.html

12-05-2006

Petição "A VERDADE SOBRE A DESCOLONIZAÇÃO"

Relembro estar a decorrer a recolha de assinaturas. Não deixe de subscrever!

Um grupo de cidadãos empenhados em que se discuta "A VERDADE SOBRE A DESCOLONIZAÇÃO" lança uma PETIÇÃO para a recolha de 4 000 assinaturas, ao abrigo do disposto na alínea a) ponto 1 do artigo 20 do Texto da Lei nº 43/90, publicado no Diário da República I Série n.º 184 de 10 de Agosto de 1990 com as alterações introduzidas pelas Leis nºs 6/93 e 15/2003, publicadas respectivamente nos Diários da República I Série A n.º 50 de 1 de Março de 1993 e n.º 129 de 4 de Junho de 2003.

Entre em (com o som ligado)
http://descolonizacao.net/

leia e subscreva (apenas cidadãos portugueses eleitores) a petição. E não deixe de a divulgar. Pela internet ou imprimindo para recolha de assinaturas a enviar para a morada indicada.

Assim:
Exige-se tão-só

A REPARAÇÃO MORAL, AFINAL, A QUE TEMOS JUS

com a

REPOSIÇÃO DA VERDADE

. pela revisão dos manuais escolares de História Contemporânea,

. pela abertura da radiodifusão áudio e audiovisual do Estado à revelação do modus vivendi das distintas comunidades no PERIODO ANTERIOR AO DO ABANDONO,

com a

REABILITAÇÃO de cada um e todos os que nados e criados ou só criados além-mar ergueram sob o signo do trabalho honesto verdadeiros IMPÉRIOS

. por um pedido formal de escusas, pelos altos dignitários do Estado aos representantes eleitos das associações de espoliados.

E, à semelhança do que sucedeu noutras paragens, a consagração de um

DIA NACIONAL DOS REFUGIADOS DO ULTRAMAR.

Daí que formulemos a PETIÇÃO que visa a veicular uma tal pretensão.

A memória de PORTUGAL ETERNO impõe-no, exige-o veementemente, numa revisão de processos, a que a História há-de proceder.

Assine e divulgue
Grato
Fernando Gil
MACUA DE MOÇAMBIQUE

11-05-2006

França comemora pela primeira vez abolição da escravatura

A abolição da escravatura será comemorada pela primeira vez em França quarta-feira, depois do anúncio feito pelo Presidente francês, Jacques Chirac, a 30 de Janeiro.
A comemoração da abolição da escravatura em França continental pretende levar o país a assumir tanto as "páginas gloriosas" como as épocas de "sombra", disse Jacques Chirac, quando anunciou a data oficial da celebração da data.
"A grandeza de um país é assumir toda a sua história. Com as suas páginas gloriosas, mas também com a sua parte de sombra", disse o chefe de Estado, num discurso solene no palácio do Eliseu.
O 10 de Maio de 2001 foi a data em que o Senado (câmara alta do sistema parlamentar francês) adoptou por unanimidade a lei que reconhece o tráfico e a escravatura como um crime contra a Humanidade, tendo sido a França o primeiro país no mundo a fazê-lo.
Christiane Taubira, deputada da Guiana e autora da proposta de lei para o "reconhecimento do tráfico e da escravatura como um crime contra a humanidade", felicitou-se com a comemoração.
"Já não estamos em conflito. É a história de França assumida por toda a comunidade nacional", afirmou a deputada.
A França tem uma população negra de cerca de cinco milhões de pessoas.
A escravatura foi abolida definitivamente em França a 27 de Abril de 1848, mas na memória persiste o sofrimento de muitas vítimas, habitantes das antigas colónias e dos territórios que hoje são províncias ultramarinas francesas.
Muitas destas províncias já têm datas oficiais de comemoração da abolição da escravatura, pelo que o 10 de Maio será apenas celebrado na França metropolitana, que inclui a ilha da Córsega.
Jacques Chirac sugeriu ainda que as celebrações sejam realizadas em locais de homenagem à escravatura e que o 10 de Maio seja também assinalado em território africano.
LUSA - 09.05.2006

“Viúvo” de Joana Semião diz porque exige divórcio

“Eu sei que ela foi executada”
- Francisco Joaquim Manuel

“Estou a ser injusto com a mulher de casa que me deu seis filhos. E já temos netos”
O “viúvo” de Joana Semião, explicou ontem ao «Canal de Moçambique», as motivações que o levaram a mover um processo de “Divórcio letigioso” contra a “falecida”.

“Eu sei que ela foi executada” afirmou Francisco Joaquim Manuel, candidato da Renamo União/Eleitoral às últimas eleições autárquicas da cidade de Inhambane.
“Os caminhos que eu segui para chegar a fase de pedir um divórcio litigioso foram longos e penosos”.
Francisco Joaquim Manuel diz que contraiu matrimónio Joana Semião, em 1974, e que a separação foi única e exclusivamente devido “a problemas políticos”.
“A nossa separação foi uma coisa forçada”.
Um novo matrimónio em vista com a sua companheira dos últimos anos é a razão da tentativa desesperada que está a empreender junto do Tribunal Judicial de Inhambane no sentido de finalmente conseguir divorciar-se daquela a que a Frelimo pôs termo à vida – tal como assumiu – sem que tenha providenciado o acento do óbito num cartório notarial o que teria evitado a Francisco Joaquim Manuel mais do que a separação forçada da mulher que era sua esposa agora mais esta de sendo viúvo ainda ter de andar a tentar separar-se judicialmente.
Estas cenas macabras alimentam as mais diversas interpretações mas a motivação parece ser tão simples quando um homem de idade querer voltar a casar-se.
“Estou a ser injusto com a mulher de casa que me deu seis filhos. E já temos netos”.
O “viúvo” diz que soube das morte de Joana Semião e outros “reaccionários”, por alturas da execução, por via de informação veiculada na imprensa mundial que divulgou o “massacre”.
“Houve conhecidos meus em Lichinga que me informaram”.
“Dai para frente até à introdução no país do multipartidarismo e com a nova Constituição, na busca das minhas pretensões invoquei na justiça as declarações de Sérgio Vieira, que indicavam que a Joana foi executada”.
“Tinha que ter um documento escrito e ninguém de direito se dignou a passar-me”, afirmou. Adiantou que, na Justiça, sempre lhe exigiram uma prova médica, dando conta do óbito.
“Isso não consegui, apesar de muito esforço”
O “viúvo” conta que o director nacional dos Registos e Notariado, Manuel Didier Malunga aconselhou-o assim pelo que “optei por pedir um divórcio litigioso evocando abandono de lar”. “Ele disse que era a única saída que eu tinha”.
Francisco Manuel, diz que tem a certeza absoluta de que Joana Semião “não vai comparecer em tribunal” porque “a falecida teve a sorte que teve e todo o mundo sabe, porque ouviu”.
Manuel diz que após a sentença, que certamente lhe será favorável, “quem quiser contestar que conteste”.
Um reputado jurista que está a seguir este “enredo” com muita atenção disse que os interessados em obter uma certidão de óbito de Joana Semião, no caso, o “viúvo”, a filha, e parentes de primeiro grau podem pedir uma “declaração de presunção de morte”. Essa declaração, é passada no caso de pessoas “em parte incerta” acima de dez anos.
“Ai juntado as declarações de Sérgio Viera, Joaquim Chissano, Marcelino dos Santos, o documento de Jacinto Veloso, tenho a certeza que eles obteriam. É de lei” explicou.
A fonte acrescentou ainda que o juíz José Sampaio “não pode agir de outra forma. É assim em direito”.
“Não basta que todo o mundo saiba”, concluiu a fonte.
Luís Nhachote - CANAL DE MOÇAMBIQUE - 11.05.2006

Samora Machel contra a execução de Uria Simango

CRÓNICA exotérica

por Yahia ben Yokhanon
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(Segundo texto apócrifo de Zoao Kraveirinya na era do Tsuname)

Nachingueia, Farm 17, sul de Tanzânia. Manhã de um dia diferente no mês de Janeiro de 1975. Alguns Homens e mulheres abatidos estão perfilados perante Samora Machel e o então 1º Ministro Joaquim Chissano, passando revista e verificando até que ponto a “sessão” da noite anterior no mato (até ao amanhecer), tinham causado danos físicos aos apresentados. O destino desses homens e mulheres estão em jogo.
Samora Machel dirige-se ao veterano nacionalista, Adelino Gwambe, com a saudação: - “kundjane uá li kaya?” (Como estás patrício da terra?).
- Adelino Gwambe responde com altivez de mãos nos bolsos: …”chauane mufana uá mina”…(olá meu miúdo) …
Leia em:
Download samora_no_queria_matarjc.doc

10-05-2006

ÓRFÃOS DE PÁTRIA do Jornalista António Mateus Nº 1

Sinopse da RTP:
Neste Programa

Uma história sobre o que aconteceu aos comandos africanos que combateram na Guiné durante a guerra colonial, integrados no Exército Português.
Todos os oficiais daquele corpo de comandos foram fuzilados depois da independência. As familias nunca beneficiaram de qualquer pensão de sangue
Os que tinham patentes abaixo de oficial e escaparam, vivem hoje situações de pobreza e descriminação.

Apresentado na RTP1 em 09.05.2006

Veja em:
http://www.macua.org/orfaosdepatria/index.html

Comentário:
Além de outros é de "agradecer" esta situação, que também ocorreu nos restantes territórios, à lei da Nacionalidade então promulgada na qual prevaleceu a vontade de Almeida Santos, segundo declarações do próprio. É sua opinião que mais de 2 milhões de naturais dos ex-territórios escolheriam a nacionalidade portuguesa, se a lei portuguesa o consentisse. Todos "eles" sabem porque nada foi perguntado aos respectivos povos.
Sobre este assunto escrevi em 1979:
Download as_responsabilidades_morais_do_estado_portugus.doc

Fernando Gil
MACUA DE MOÇAMBIQUE

Registos Verbais

“A pena de morte é uma arma dos trabalhadores na dura luta de classes que travamos no nosso país.” – Dr. José Óscar Monteiro (Assembleia Popular 26 Junho 1979)

***

“A Lei dos Crimes Contra a Segurança do Povo e do Estado Popular tem por isso como objectivo prevenir e reprimir qualquer acto das classes capitalistas e seus agentes regionais e locais, internos ou externos, contra o nosso poder.” - idém
CANAL DE MOÇAMBIQUE - 10.05.2006
NOTA:
Para quem se não lembra aqui se transcreve a "Lei da Chicotada", só revogada depois do Acordo Geral de Paz:
Download lei_chicotada.pdf
Se retomada nos dias de hoje, quem seriam os principais arguidos?
Fernando Gil
MACUA DE MOÇAMBIQUE

Joana Semião e “outras 16 pessoas”

“Primeiro mataram depois houve processo”

“O Dr. Sérgio Vieira foi enviado para formalizar e executar”, diz Máximo Dias e acrescenta: “Não sei onde está esse processo, se calhar está no SISE (antigo SNASP) a aguardar ainda o julgamento”.
“Não acredito que tenha sido ordem do ex-presidente Samora Machel”
(Maputo) Joana Semião primeiro foi morta e depois elaborou-se um processo, afirmou ontem ao «Canal de Moçambique» o jurista Máximo Dias, correligionário e contemporâneo dela, ambos então apelidados de “reaccionários”.

Leia em:
Download joana_semio_e_outros_16.doc
CANAL DE MOÇAMBIQUE - 10.05.2006

09-05-2006

Uria SIMANGO, a INDEPENDÊNCIA E A TEORIA DA CONSPIRAÇÃO!

CRÓNICA exotérica
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Reverendo URIA SIMANGO
segundo texto apócrifo rehausser de Zoao Kraveirinya publicado em Moçambique a 19 Outubro 2004
na era do Tsuname
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por Yahia ben Yokhanon
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Uria SIMANGO, a INDEPENDÊNCIA E A TEORIA DA CONSPIRAÇÃO!
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” OS QUE ESQUECEM O PASSADO ESTÃO CONDENADOS A REPETÍ-LO” …escreveu George Santayana (1863 - 1952), filósofo espanhol / norte-americano...

Nas vésperas da Independência, de 11 a 12 de Maio 1975, Samora Machel Presidente da FRELIMO, recebia os Presidentes da Tanzânia Julius K. Nyerere e Keneth Kaunda da Zâmbia, em Nachingweia (Nachingu-eia); Quartel-general da Frente de Libertação na Tanzânia. Desse encontro ficariam registados para a História os discursos dos quais transcrevemos alguns excertos proferidos pelo Presidente do Movimento de Libertação moçambicano, Samora Moisés Machel, no dia 12 de Maio de 1975:
- ...”Antes de vocês falarem (camaradas Kaunda e Nyerere), gostava de vos mostrar um batalhão de agentes (...), quadros que se transformaram em agentes do inimigo”...

Leia em:
Download uria_simango_crnica_exotricajc.doc
PÚNGUÈ - 09.05.2006

Frelimo mandou fuzilar Joana Semião e outros

“No espírito das tradições, usos e costumes da luta de libertação nacional, o Comité Político Permanente da Frelimo reuniu e condenou por fuzilamento os seguintes desertores e traidores do povo e da causa nacional, os quais já foram executados: Uria Simango; Lázaro Kavandame; Júlio Razão Nilia; Joana Semião e Paulo Gumane”, ministro da Segurança, Jacinto Veloso - Maputo, 29 de Julho 1980.
CANAL DE MOÇAMBIQUE - 09.05.2006
Leia em:
Download frelimo_mandou_fuzilar_joana_semio_e_outros.doc

08-05-2006

Caso do “divórcio” de Joana Semião

Pelo seu interesse e porque muitas vezes passam despercebidos os comentários aqui colocados, anexo os que até esta data foram feitos ao "Caso do divórcio de Joana Simeão".
Veja em:
Download commentarios_joana_semio_08.05.2006.doc

Caso do “divórcio” de Joana Semião

“Os que declararam a morte dela, que passem a certidão de óbito”, Dr. Domingos Arouca

“Não há ninguém neste país que não ouviu que a Joana Semião foi executada”, idém

(Maputo) Joana Semião, certamente não irá responder à convocatória do juiz presidente do Tribunal Judicial da província de Inhambane no processo de divórcio litigioso que foi movido pelo seu ex-marido (Vsff «Canal de Moçambique» n.º 60). Ela, a acreditar-se em declarações públicas de três destacadas figuras do partido Frelimo que governa o país desde a Independência em 1975, foi executada, “foi morta”. O Tribunal, por princípio soberano, julgará de acordo com os factos. E os factos são os do processo. Se Joana não se apresentar “será julgada à revelia”. E tudo leva a crer que o juiz, com base nas peças do processo, concederá o “divórcio” ao seu ex-marido, Francisco Joaquim Manuel. O caricato, no entanto, é que com base no Direito o Tribunal de Inhambane vai dar o divórcio a um reconhecido viúvo.
Leia tudo em
Download caso_do_divorcio_joana_simeao.doc

Veja e os comentários:
http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2006/05/um_exmarido_de_.html

06-05-2006

Para encerrar o dossier HCB - Primeiro-Ministro português em Maputo

Caborabassa04
O Primeiro-Ministro de Portugal, José Sócrates, deverá escalar Maputo ainda na primeira quinzena de Maio corrente, para selar definitivamente o dossier sobre HCB, relativo á transferência da maioria do capital social do empreendimento para Moçambique.
Ao que apuramos de fonte previlegiada, a última data que havia sido acordada para a assinatura do acordo final era entre 17 e 22 de Abril, mas tal não aconteceu porque Lisboa não tinha ainda recebido o parecer do Eurostat, a entidade da União Europeia (UE) que valida as contas públicas dos Estados membros.
Fontes bem abalizadas na matéria indicam que o Eurostat tem estado a acompanhar com muito interesse as negociações entre Moçambique e Portugal á volta de Cahora Bassa, tendo como objectivo inteirar-se das implicações que a transacção poderá ter nas contas públicas de Portugal.
Ao abrigo do memorando de entendimento assinado no dia 2 de Novembro em Lisboa, Moçambique deverá pagar ao tesouro português um total de 700 milhões de dólares para passar a accionista maioritário da HCB, com 85 por cento das acções. Ainda ao abrigo do memorando de entendimento, em tanto que empresa, a HCB deverá remeter ao Estado português 250 milhões de dólares.
Entretanto, em declarações ao parlamento, a Primeira-Ministra, Luísa Diogo garantiu que Moçambique já tinha encontrado um financiador que garante o pagamento dos 700 milhões de dólares ao Estado português.
O SAVANA apurou que esse financiador será o Banco Chinês para as Exportações e Importações (China Eximbank), entidade que se comprometeu a suportar os encargos da construção da Barragem de Mpanda Mkwua, bem como alguns projectos de desenvolvimento do Gabinete do Vale do Zambeze.
SAVANA - 05.05.2006

03-05-2006

MOÇAMBIQUE : - CRÓNICAS DE ONTEM E DE HOJE

Apresentação exclusiva em Vídeo de aspectos inéditos da História de Moçambique, em Maqueta para Televisão (1998/2000), de Projecto-piloto de João Craveirinha (JC).

Algumas das pessoas entrevistadas na peça, faleceram após as filmagens, como Dona Emília Simango em 2002, sobrinha – neta de nuáMatidjuana Zixaxa (chefe ronga do Combate de Marracuene em 2 de Fevereiro de 1895). Outra figura falecida (2001) é Henrique Albasine (alcunhado pelo Poeta José Craveirinha, de Brandão – nome de crack do futebol brasileiro dos anos 1940). Henrique Albasine era neto de João Albasine fundador do Grémio Africano (1905) e trineto do caudilho luso – italiano João (Luiz) Albasine (1813 – 1888), fundador da Colónia portuguesa de São “Luiz”, situado no actual Kruger National Park no Transval.

O guião desta maqueta de JC inspirou o mesmo autor no seu livro “Moçambique – Feitiços, Cobras e Lagartos” – Crónicas Romanceadas editado em 2001, simultaneamente, em Moçambique e Portugal.

Base para apresentação do vídeo

http://www.macua.org/jcvideo/index.html

MOÇAMBIQUE

Quadrojcvideo_2

CRÓNICAS DE ONTEM E DE HOJE

Projecto  para  Série  de  Televisão

AUTORIA e PINTURA – JOÃO CRAVEIRINHA   

PROIBIDA  A  REPRODUÇÃO  COMERCIAL 

Um ex-marido de Joana Semião quer divorciar-se dela

Tribunal Judicial de Inhambane prepara-se para considera-la “em parte incerta”
Joana_simeao

Será desta que a verdadeira história daquela proeminente “reaccionária” vai ser desvendada ou o juiz José Sampaio vai fazer tropeçar a Justiça?

Joana Semião (Joana Francisco Fonseca Simeão), uma incontornável figura da história política moçambicana, para uns “reaccionária” para outros “heroína”, volta a ser notícia. Desta vez por motivo de uma notificação assinada pelo juiz presidente do Tribunal Judicial da Província de Inhambane, José António Cândido Sampaio e respectivo escrivão de Direito, Gulamussene Nurmamade Mamade Cane.
Um anúncio daquele Tribunal, cujo fac-simile reproduzimos a ilustrar este artigo, considera Joana Semião como sendo “residente em parte incerta” e concede-lhe um prazo de “VINTE DIAS, que começa a contar depois de finda a dilação de TRINTA DIAS, contada da data da segunda e última publicação deste anúncio, com a advertência de que a falta de contestação importa o prosseguimento dos autos os ulteriores termos à sua revelia”. (N.R.: vsff cópia do anúncio em caixa anexa)

Leia em:
Download joana_simeo_divrcio.doc

NOTA:
Será que Joana Simeão e outros não aparecerão nos pesadelos de Victor Crespo e seus "compadres"?
Fernando Gil
MACUA DE MOÇAMBIQUE

02-05-2006

O lado oculto do 25 de Abril – 32 anos depois

A ‘JIHAD QUE A PIDE DESEJAVA

Serafim Lobato
(Jornalista, Licenciado em História, Mestre em estudos Portugueses pela Universidade Aberta)
Os anos passam e uma nova história é escrita. Numa altura em que se comemora 32 anos sobre a ‘Revolução dos Cravos’, que pôs fim a 48 anos de uma ditadura obscurantista, continuam a descobrir-se dados novos sobre uma época recheada de acontecimentos que, por um ou outro motivo, permanecem nas brumas do esquecimento.
Uma das áreas menos conhecidas dos últimos tempos do ‘Estado novo’ é a da política ultramarina. Dizia-se que, ao contrário de Salazar, Marcelo Caetano, o último Presidente do concelho do ‘tempo da outra senhora’, estaria disposto a negociar a autonomias das ex-colónias com os movimentos independentistas. Dados mais recentes, porém, revelam uma outra face da política africana, em que o governo de Lisboa parecia disposto a tudo para pôr cobro às pretensões de quantos perseguiam a independência. Inclusivamente ao apoio de uma autêntica ‘guerra santa’, em que colocaria as populações muçulmanas contra ao principais movimentos que lutavam pela independência.
Leia em:
Download o_lado_oculto_do_25_de_abril_focus.doc
NOTA:
Que mais surpresas nos dará o futuro?
Fernando Gil
MACUA DE MOÇAMBIQUE

Educação de Adultos em Moçambique: Uma Cronologia de Factos, de 1964 a 2002

Débora Nandja
Departamento de Educação de Adultos
Universidade Eduardo Mondlane, Moçambique
[email protected]

Introdução
“Olhar para trás” é uma atitude apropriada para se iniciar o processo de compreender o presente.
A compreensão dos caminhos percorridos numa determinada área científica auxilia-nos a examinar as actuais práticas, o significado contextual de alguns conceitos, a extensão e a dispersão das actividades existentes, os programas implementados. A Educação de Adultos não foge a esta regra. O estudo da história ajuda-nos a compreender melhor as forças culturais, sociais, políticas e económicas que influenciam a aprendizagem de adultos. Estas forças determinam não apenas o que os adultos aprendem, mas também como e onde eles aprendem. A aprendizagem de adultos acontece com várias intenções (alfabetização, desenvolvimento profissional, diversão, desenvolvimento das comunidades), sob várias abordagens (formal, não formal e informal), em vários lugares (sob uma árvore, numa escola, nos campos agrícolas, nas igrejas, teatros, etc.) e ao longo da vida adulta (15 anos em diante) (Torres, 2003).
Em Moçambique, a Educação de Adultos tem sido caracterizada como um ... ...
Leia em:
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30-04-2006

“A Política Educativa do Colonialismo Português em África - Da I República ao Estado Novo (1910-1974)”

A África Debate tem o prazer de convidar V. Exa para o evento abaixo mencionado:

A África Debate (www.africadebate.iscte.pt)associação de investigadores na área de Estudos sobre África, vai apoiar o laçamento, na RDP África, do livro “A Política Educativa do Colonialismo Português em África - Da I República ao Estado Novo (1910-1974)”, da autoria do associado José Guimarães, editado pela Profedições / Jornal A Página.
O lançamento será realizado na próxima 4ª feira, 3 de Maio, às 18.00 horas.
A apresentação da obra será da responsabilidade da Presidente da África Debate, Isabel Lopes Ferreira.

Do livro em apreço extrai-se o seguinte texto:

“A política educativa do colonialismo português em África manifestou uma coerência de propósitos que nunca foi alterada em função da natureza do regime que, em cada momento, a traçou e aplicou.
É assim que, apesar das profundas diferenças entre a I República e o Estado Novo, não se verificou qualquer alteração do rumo da política educativa levada à prática por aqueles regimes nas colónias portuguesas de África. A sua continuidade traduziu-se, antes, no reforço de uma prática obscurantista ao serviço da dominação colonial. É dessa política educativa que aqui se trata”.

Reflexões sobre a História e os diferentes ângulos de visão

Por Victor Nogueira
Hoje pode dizer-se mal livremente do 25 de Abril, pode louvar-se o Salazar, pode divagar-se sobre a descolonização ou a pretensa entrega de Portugal em África a Russos e Cubanos e de Timor à Indonésia, embora o petróleo e os diamantes, por exemplo, nunca tenham saído das mãos dos americanos e associados, mas no Estado Novo não se podia dizer mal do Salazar nem expressar ideias divergentes. Até o industrial Champalimaud teve um discurso «abafado» porque defendia o fim do «condicionamento industrial» e a «independência» de Angola.
Leia em:
Download reflexes_sobre_a_histria_vn.doc

Achegas para a chamada "Herança Salazarista"

Temo que, de facto, as ideias "fascisantes" continuem a campear por aí. Há coisas que não se perdem nunca nos meandro mais sombrios e secretos da alma humana - o "Lado Negro da Força" ‹ como falava a "Guerra das Estrelas".
Quem de alguma forma sentiu na carne o que foi a perda de décadas de trabalho, certamente estará receptivo a aceitar argumentos que, de alguma forma, lhe tragam algum consolo para a sua amargura. Não compreender isto é uma grave demonstração de intolerância e depois taxar de "porcos fascistas" quem sofreu os embates da descolonização vai fazer com que essas camadas de portugueses se identificam de forma mais enraizada ainda com o Antigo Regime.
Apelidá-lo de "Fascista", parece-me um exagero. Fascismo (como o praticaram os italianos e os nazis e um bocado até, os espanhóis, nunca nós tivemos). Quem folhear uma obra que considero isenta, como o é a Enciclopédia Larousse( edição dos princípios de 1960 )vai lá ver designado o regime que então vigorava em Portugal como " Ditadura Paternalista".
Mas, claro, se por "Fascismo" tivermos todos os regimes de partido único, sem liberdades formais, controlo da imprensa e polícia política, termos entre as mãos um "Pacotão Gigante", pois houve, há e continua a haver muitas nações e regimes que caberão nesta mesma designação. Portugal, era sim, uma Ditadura. E isto está loge de ser uma designação "macia". Eu vivi 38 anos debaixo da Ditadura. Sinto-me, por isso, habilitado a analisar desapaixonadamente o facto. E devo dizer, para ser honesto, que não gostava. Não gostava mesmo nada. Haver alguém que mandava na Nação sem que para isso tivesse sido legalmente mandatado pela maioria dos seus concidadãos, era uma coisa que me indignava. Mas o pior de tudo, a causa de todos os males, a coisa que eu mais abominava na Ditadura, essa coisa era a Censura!
Os senhores do antigo regime, com Salazar à cabeça, estavam longe da natureza dos chefes nazi/fascistas que dominaram a Itália e a Alemanha. Dirigiam o País em Ditadura e quem julgar que uma Ditadura é uma "brincadeira", está redondamente enganado. O regime perseguia, sim, os membros de organizações políticas como o Partido Comunista, e quem militasse, consequentemente, nestas organizações, garanto que se caisse nas mãos da PIDE, estava metido num sarilho e dos grandes.
Lembro-me, certa vez, em fins dos anos sessenta, na minha empresa apareceram elementos da Polícia Política e detiveram algumas pessoas, uma dessas uma jovem bem enérgica chamada Diana Adringa (não sei se conhecem). Mas mais ninguém foi incomodado. Eu até, nessa altura eu tinha subscrito uma petição para libertar um membro do PC, julgo, que se encontrava gravemente enfermo. Mas nunca fui abordado por ninguém da Polícia Política do Estado. Estive a recolher fundos para a campanha de Humberto Delgado, na empresa onde trabalhava na altura e não fui incomodado. Nos anos setenta, já no consulado de Caetano, eu fazia parte do staff de Artur Portela Filho quando ele publicou as "Fundas", que foram bastante mal recebidas pelo Regime ‹ ninguém apareceu a incomodar fosse quem fosse. Pouco tempo depois, o nosso staff dava curso ao livro de Spínola "Portugal e o Futuro" ‹ que deu uma bronca "desse tamanho" e ninguém apareceu a incomodar-nos nem sequer com atitudes intimidatórias. Disto eu fui protagonista e testemunha.Os comunistas, esses, sabia eu, sofriam e sofriam a sério nas mãos da polícia para que "falassem". Uns falaram outros não ‹ ninguém nasce para ser duro ou para ser mártir e herói; ou se é ou se não é!
Mas então o que é que faziam os Regimes Comunistas aos seus adversários políticos? Ali também havia Partido Único. Faltavam Liberdades Formais. Havia Censura à Imprensa. Polícia Política ‹ também eles eram "Fascistas?"
Fascismo, que eu saiba, tinha o nome baseado nos antigos símbolos judiciais romanos, representados por um molho de varas, que incluiam um machado, e cuja coesão era mantida por "faixas" (fascio) que significavam" a união faz a força"
Benito Mussolini ‹ que foi o inventor do Fascismo ‹ aproveitou isto para designar o seu Partido como o fascio (a força que mantinha a coesão) da União Nacional. União Nacional, respeito pela Ordem e trabalho em prol da Nação não são nem nunca foram motivo para censuras. O pior, claro, foi o aproveitamento que Mussolini e depois Adolf Hitler fizeram destes sentimentos nobres e patrióticos. Por isso houve tanta gente, na altura, para quem o Fascismo era um motivo de esperança, como o foram os movimentos comunistas e socialistas para outros. Sob as piores realizações estão sempre Ideais Nobres que merecem entusiasmo e aprovação. A Ditadura do Estado Novo foi um erro. Era destestável. Abominável. Não é possível encará-la de outra forma. Mas o seu derrube representou também uma onda de arbitrariedades, de violência e de tudo aquilo que o espírito humano é capaz de fazer ‹ a coberto das melhores das intenções!
E houve quem se visse, de um dia para o outro, submerso nessa onda de violência e visse vidas e fazendas destruídas da forma mais bábara e impiedosa. Como não sentir comiseração e solidariedade com esses infelizes portugueses? De que serve agora denegrir quem sofreu e se queixa, com epítetos de "bafientos salazaristas", "fascistas" e outros mimos? Porque é fácil? Então antigamente, quem reprimia quem falasse contra o regime, era "fascista". E agora quem se queixa e sabe "onde lhe aperta a bota" é ele quem vê a sua liberdade de se lamentar coarctada e passa a ser acoimado de "fascista"? Então quem reprime as liberdades alheias o que é, afinal? Voltámos a ter uma "verdade única"? Que não se pode contestar? Que é proíbido pôr em causa? Então agora que nome vamos nós dar a quem se sente "autorizado" a reprimir quem abrir a boca (se calhar de forma menos correcta, é verdade) para protestar contra possíveis injustiças de que foi vítima? Fascista? Em que ficamos? Vamos lá a ter um pouco de tolerância e compreensão para com quem ainda tem chagas abertas no corpo e na alma. Valeu? Paz e compreensão, são coisas que continuam a fazer falta a nós, portugueses. Muita falta, mesmo!
Com amizade
José Pires

25-04-2006

«Cooperação Portuguesa» salva Arquivo Histórico de Moçambique

Os fundos disponibilizados por Portugal para se enfrentar os problemas de degradação do «Arquivo Histórico» são insuficientes, mas podem salvar de imediato a difícil situação por que passa o Arquivo Histórico de Moçambique.
Fomos ouvir o doador. A verba não dá para se proceder a uma construção de raiz ou seja de novas instalações, começou por dizer ao «Canal de Moçambique», José Guedes de Sousa representante da Cooperação lusa em Moçambique. Dão para se providenciarem algumas soluções e perspectivar outras, mas não resolvem todo o problema do eficiente e bem afamado «Arquivo Histórico de Moçambique» que peca pelas precárias infraestrutras de que hoje dispõe.
A verba existente é de cerca de “600 mil Euros” e esse valor está sob gestão da «Cooperação Portuguesa» de acordo com Guedes. Segundo ele o valor será aplicado em reabilitação de novas instalações onde passará a funcionar o «Arquivo Histórico» e ainda na reabilitação do depósito de documentos e fotografias no «Campus Universitário» da UEM (Universidade Eduardo Mondlane).
As novas instalações provisórias do «Arquivo Histórico» irão ser em edifícios que serão reabilitados com parte da verba de 600 mil Euros, mas ainda não começaram as obras. Uma notícia dada pela Lusa há um ano atrás dizia que por esta altura certas instalações novas deveriam já estar prontas. Ainda não começaram as obras em algumas, mas já terminaram noutras.
Uma parte dos 600 mil Euros “já foi aplicada” na reabilitação (concluida) do «Centro de Conservação e Preservação de documentos e serviços de digitalização e microfilmagem de imagens, num edifício localizado, na Av. 25 de Setembro, entre a Biblioteca Nacional e a Imprensa Nacional.
De acordo com Guedes com outra parte da mesma verba já se produziu só o projecto arquitectónico do que poderão vir a ser as futuras instalações de raiz do «Arquivo Histórico», se houver um dia dinheiro para isso. Nunca esteve previsto mais do que o projecto na tranche existente.
Os 600 mil Euros, segundo Guedes de Sousa, foram disponibilizados, em Fevereiro de 2005, pelo «Instituto Português de Acção e Desenvolvimento» (IPAD), «Instituto Português» (IP), «Instituto Português do Património Arquitectónico» (IPPAR), «Universidade Eduardo Mondlane» (UEM) – esta moçambicana – e pela «Torre do Tombo». “A gestão foi confiada à «Cooperação Portuguesa»”.
“Nós neste momento atingimos a primeira fase que era a reabilitação do edifício da Avenida 25 de Setembro onde vão funcionar as futuras instalações do Centro de conservação e preservação de documentos e serviços de digitalização e microfilmagem do Arquivo Histórico de Moçambique”, disse Sousa. Acrescentou que com parte da mesma verba de 600 mil Euros, vai-se dar seguimento a outras obras de reabilitação e remodelação de um edifício da “Travessa de Varietá” na Rua do Bagamoio, nas proximidades do Cinema Matchedge, em Maputo, onde vão funcionar as novas instalações-sede do Arquivo Histórico de Moçambique em substituição do actual na Av. Filipe Samuel Magaia.
Segundo de Sousa a segunda fase do projecto inclui a reabilitação da “Travessa Varietá” e o depósito do Campus da UEM. Nenhuma começou. “Estimativas indicam que (depois de iniciadas) vão durar aproximadamente quatro meses, arrastando-se até Dezembro”.
O «Canal» quis saber de Guedes de Sousa se haverá algum dia fundos portugueses para um novo edifício de raiz para o Arquivo Histórico de Moçambique. Ele disse existir, neste momento, apenas o projecto arquitectónico já desenhado, mas não há verba para construção.
O chefe da Cooperação Portuguesa em Moçambique esclarece que a prioridade foi fazer-se o que se descreveu. Agora vão seguir-se os trabalhos de reabilitação do futuro depósito do Arquivo Histórico de Moçambique no campus da Universidade Eduardo Mondlane, (UEM) e na “Travessa de Varietá”.
A Cooperação Portuguesa vai transformar e apetrechar o edifício localizado no campus da UEM para futuro depósito do Arquivo Histórico de Moçambique de modo a guardarem-se fotografias.
Sousa disse também que neste momento o Instituto Português do Património Arquitectonico, (IPPAR) está a trabalhar na programação da construção do edifício de raiz para futuras instalações do «Arquivo Histórico» conforme o plano arquitectónico já produzido.
Entretanto, o director-adjunto do «Arquivo Histórico», Eugénio Monteiro, disse ao «Canal», que ao nível da sua instituição decorrem contactos com entidades externas com vista a aquisição de equipamentos para o apetrechamento do futuro centro de conservação e preservação de documentos e serviços de digitalização e microfilmagem. Como via alternativa acabarão por usar o equipamento obsoleto, o existente no actual «Arquivo Histórico».
Conceição Vitorino - CANAL DE MOÇAMBIQUE - 25.04.2006
Veja:
http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2006/03/arquivo_histric.html

24-04-2006

O GOLPE DE ESTADO de 25 de ABRIL

De: JVerdasca O 25 de A B R I L

Muitos confundem o GOLPE de ESTADO efectuado a 25 de Abril de 1974, com a Revolução que se lhe seguiu, acentuada e agravada com a renúncia de Spínola, e, principalmente, com o Golpe do 11 de Março de 1975, que levou Portugal à anarquia, à indisciplina nas Forças Armadas na cidade e no campo, e a violências de toda a ordem, abusos e injustiças, que só terminariam com o 25 de Novembro do mesmo ano, chefiado pelo legalista Eanes, coadjuvado por Tomé Pinto e apoiado por Jaime Neves. Só quem lá estava pode aquilatar o ... ...

Leia em:
Download o_golpe_de_estado_de_25_de_abriljv.doc

25 de Abril – reflexão e alguns dados

Do Massacre dos judeus em Lisboa ao Estado Novo

Neste ano de 2006 celebram-se 500 anos sobre o massacre de judeus em Lisboa, judeus que em resultado da política de alianças para a unificação das coroas de Castela e Portugal levou à conversão forçada ou à expulsão dos judeus de Portugal (1498), entre os quais se encontravam sábios, médicos, cientistas e banqueiros. A instauração da Inquisição em Portugal (1536) foi uma arma para perpetuar a permanência no poder duma classe «nobre» cada vez mais parasitária e o Tratado de Methween (1703) transformou Portugal numa colónia Britânica, impedindo o desenvolvimento da industrialização portuguesa.
.....
Leia tudo em:
Download vn_25_de_abril_e_antecedentes.doc

Download vn_25_de_abril_de_1974_a_revoluo_e_as_conquistas_dos_trabalhadores_e_das_populaes.doc

Vitor Nogueira

Estamos hoje a 24 de Abril, véspera da comemoração dos 32 anos do 25 de Abril de 1974

Miudos_vitimas
MOÇAMBIQUE PARA TODOS oferece aos seus visitantes uma retrospectiva de situações, factos e comentários de vários textos editados pelo prestigiado Jornal Português de Economia e Finanças, no seu número de Dezembro de 1983, de que reproduzimos os temas, quer políticos, económicos ou de História, preferencialmente relacionados com Portugal e o ex-Ultramar, que a uns reavivará a memória e a outros (especialmente os mais novos) dará a conhecer factos e situações de que ninguém fala.
Fernando Gil
MACUA DE MOÇAMBIQUE

Veja em:
Download EF443DEZ1983.pdf

NOTA: Devido à extensão do documento aconselhamos a sua impressão

23-04-2006

O Caso do Navio ANGOCHE - Faz hoje 35 anos que aconteceu

Uma versão:
Navio_angoche


ÓSCAR CARDOSO- CRIADOR DOS FLECHAS
.....
"Ingressei em miúdo na Mocidade Portuguesa, quando tive de ingressar. Fi-lo, curiosamente, quando estudava no Colégio Moderno, do Dr. João Soares. Mais tarde entrei para a Legião Portuguesa e frequentei o Instituto Superior de Estudos Ultramarinos. Interrompi o curso para fazer o serviço militar na Índia. Depois fui para a Guarda Nacional Republicana até que, em 1965, entrei para a PIDE. Na estrutura da PIDE, Barbieri Cardoso era inspector superior. Mas depois apareceu São José Lopes, um homem com grande influência em Angola, e era necessário dar-lhe outra situação para compensar o bom serviço que tinha feito. Então, nomearam-no inspector superior do Ultramar. Entretanto, havia na PIDE um indivíduo muito mais antigo do que o Dr. São José Lopes, o inspector Coelho Dias, que era subdirector, e que também queria ser inspector superior. Criaram-se assim os lugares de subdirector-geral para Barbieri Cardoso, de inspector superior do Ultramar para São José Lopes e de inspector superior do Continente para Coelho Dias. Havia uma divisão de tarefas entre os três. A PIDE tinha muito boas relações com todas as polícias e serviços secretos do seu género na Europa e no mundo. É conhecida a ligação de Barbieri Cardoso aos serviços secretos franceses, dirigidos pelo conde Alexandre de Marenches. Mas dávamo-nos bem com todas as polícias congéneres e também com os americanos da Central Intelligence Agency (CIA). Operávamos muito em África, através de informadores, sobretudo nos países vizinhos de Angola, Moçambique e Guiné. Por exemplo, havia informadores na Tanzânia em ligação a Oscar Kambona, o chefe da oposição a Julius Nyerere. Mas o controlo era feito através de Lisboa, pela secção central na António Maria Cardoso, chefiada por Álvaro Pereira de Carvalho. Tínhamos de facto bons informadores em África, onde os nossos serviços faziam um trabalho sobretudo de intelligence, em colaboração estreita com os militares.
Foi precisamente através da nossa rede na Tanzânia que soubemos o que se tinha passado com o navio Angoche. O navio Angoche levava material para a nossa Força Aérea, material sofisticado, essencialmente material explosivo, bombas para os aviões, etc., e creio que ia para Porto Amélia. Soubemos que o Angoche foi abordado em 23 de Abril de 1971 por um submarino da União Soviética e que os seus tripulantes foram levados para a Tanzânia, para a base central da Frelimo, Nachingwea. Foi uma operação executada por soviéticos, o que nos foi possível confirmar pelas análises que fizemos dos vestígios encontrados no barco. A primeira pessoa que fez a investigação a bordo do Angoche foi o inspector Casimiro Monteiro. Verificou que as armas não estavam lá. A tripulação foi levada para Nachingwea e depois, penso eu, terá sido aniquilada. Penso que iam no Angoche à volta de vinte e três pessoas. Mais de metade eram africanos, de Moçambique, e os outros europeus. O navio não era de passageiros mas levava um passageiro a bordo, a quem se deu uma boleia, o que era estranho. Houve uma outra coisa curiosa: a mudança, à última hora, do radiotelegrafista. O radiotelegrafista que era para ir resolveu não ir. Pode ter sido uma mera coincidência, mas é curioso que assim tenha sido. Na nossa opinião, tratou-se de uma operação soviética, feita em colaboração com o Partido Comunista Português. Fala-se que houve oficiais da Marinha, hoje oficiais generais, que estariam envolvidos nisso. Houve também o estranho caso de uma rapariga que foi "suicidada" na cidade da Beira e que estava ligada aos meios esquerdistas da Marinha portuguesa. Esta versão dos factos constou dos nossos relatórios na altura. Tínhamos um relatório secreto sobre o Angoche que desapareceu da sede da DGS, na Rua António Maria Cardoso, depois do 25 de Abril. Foi um dos processos que desapareceram. O caso estava a ser investigado....
Bruno Oliveira Santos, Histórias secretas da PIDE/DGS (p. 401-402)

NOTA:
A última notícia relacionada com o navio "Angoche" tive-a de Fernando Taborda, o último administrador português de Quionga:
"Saiba o povo português que, em Março de 1974, foi descoberta, na foz do Rovuma, uma baleeira do navio "Angoche", com insígnias começadas por NA confirmada pelo cabo de mar de Palma e que, sobre ela, nunca me foi dada resposta à circular que mandei para a Capitania de Porto Amélia."
In Quionga, meu amor

UMA ACHEGA:
NAVIO “ANGOCHE”

No dia 23 de Abril de 1971 - faz hoje 35 anos - o navio "Angoche" foi assaltado em alto mar, na costa de Moçambique, quando ia em viagem para o Norte.
Os 22 tripulantes foram levados para a Tanzânia e assassinados em Nachingwea, uma base da Frelimo.
Supõe-se que o assalto tenha sido feito por meios navais soviéticos, talvêz um submarino e foram encontradas manchas de sangue no navio, o que prova que foi usada violência contra os tripulantes.
O jornal "Notícias" de Lourenço Marques foi impedido pela Comissão de Censura de divulgar qualquer informação, o mesmo acontecendo com os jornais de Lisboa.
O jornal "Star" de Joanesburgo, que era vendido na esquina do "Continental", em Lourenço Marques, começou a referir-se ao assunto a partir da última semana desse mês de Abril de 1971. As informações eram poucas e as suposições eram muitas. "Diz-se", "fala-se", "supõe-se"...
O mesmo acontecia com a Rádio Brazaville e a Rádio RSA de Joanesburgo, que transmitiam em português. Ou com as emissões em inglês da BBC e da Voz da América. Todas escutadas por mim em Onda Curta.
Nunca ouvi a Rádio Moscovo e a "Voz da Frelimo" (através da Rádio Tanzânia) referirem-se ao assunto em Abril/Maio de 1971, apesar de eu as escutar todos os dias para o efeito.
Ainda hoje permanece o mistério sobre o que teria contecido aos tripulantes e a um provável passageiro, que viajavam a bordo do navio "Angoche".
Só 3 dias depois, a 26 de Abril de 1971, o navio foi abordado pelas autoridades coloniais portuguesas, pelo que houve quem se interrogasse em Moçambique se não teria sido tempo demais para dar pela falta de um navio daquele tamanho e com uma carga daquela natureza.
Usou-se o clásico raciocínio do "Motivo, Meios e Oportunidade" para tentar peceber o que se tinha passado:
- Motivo e Oportunidade: a Frelimo e a União Soviética, porque o "Angoche" transportava material de guerra;
- Meios: apenas a União Soviética, porque a Frelimo não tinha meios navais para um assalto em alto-mar.
Por motivos óbvios estratégicos e porque um acto de pirataria contra um navio mercante civil não honra particularmente quem o pratica, a URSS nunca falou no assunto.
Quatro anos depois, com o golpe militar de 25 de Abril em Lisboa, desapareceu o relatório secreto sobre o assunto.
Assim se passaram 35 anos sem que a opinião pública tivesse tido o direito de saber o que se passou.
Haverá pessoas daquele tempo que sabem o que aconteceu ou que tiveram acesso ao relatório.
É tempo de quebrarem o silêncio!
SW

21-04-2006

Banco chinês financia construção segunda hidroeléctrica no Zambeze

Maputo, 21 Abr (Lusa) - O governo moçambicano assinou em Maputo um memorando de entendimento com o banco chinês China Exim, destinado ao financiamento em cerca de 1,9 mil milhões de euros da construção da hidroeléctrica de Mpanda Nkua, no rio Zambeze.
A construção de Mpanda Nkua, a 70 quilómetros a jusante da Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB), é um sonho antigo do governo moçambicano, que quer elevar a capacidade de aproveitamento do potencial energético do rio Zambeze e capitalizar uma previsível crise no sector eléctrico na África Austral, a partir de 2007.
O memorando de entendimento para o financiamento daquela infra- estrutura foi rubricado, quinta-feira, pelo ministro moçambicano da Energia, Salvador Namburete, e pelo presidente do banco China Exim, Li Ruogu.
"O memorando abre perspectivas, não posso precisar para quando, para que as equipas técnicas possam trabalhar nos detalhes, por forma a assegurarem as condições necessárias que permitam a disponibilização dos fundos", sublinhou Namburete.
O arranque do projecto vai depender da conclusão do acordo de financiamento com o China Exim Bank, uma etapa que deve ser antecedida por estudos detalhados sobre o modelo do projecto, acrescentou Namburete.
O ministro moçambicano da Energia afirmou que a primeira turbina de Mpanda Nkua estará em funcionamento num prazo de seis anos a contar a partir da construção da barragem.
Sobre os receios de graves prejuízos ambientais com a edificação de mais uma hidroeléctrica no vale do Zambeze, manifestados por diversos ambientalistas, Salvador Namburete disse que estudos sobre o impacto ambiental do projecto asseguram que o mesmo não provocará quaisquer danos.
"Não há qualquer associação negativa entre a construção destas infra-estruturas e a ocorrência de sismos ou quaisquer outros tipos de perturbações. Em 2002, realizámos um estudo em que gastámos cerca de 14 milhões de euros, que foi actualizado em 2005. As conclusões destes estudos confirmam que não riscos nenhuns", sublinhou Salvador Namburete.
O acordo de reversão da HCB entre Moçambique e Portugal contém uma cláusula de direito de preferência para empresas portuguesas em futuros projectos eléctricos em Moçambique.
"O governo moçambicano e o accionista Estado moçambicano (na HCB) reconhecem o direito de preferência, em condições de igualdade, às empresas portuguesas em futuros projectos do sector de energia a detalhar em futura ronda negocial", sublinha o memorando de entendimento assinado em Outubro de 2005.
Ao abrigo do referido acordo, Portugal deve reduzir de 82 para 15 por cento a sua participação na HCB, ascendendo Moçambique à qualidade de accionista maioritário, com 85 por cento, face aos actuais 12 por cento.
Moçambique tem de pagar uma dívida de 785 milhões de euros a Portugal, em compensação pela construção e manutenção da hidroeléctrica, ainda no quadro do mesmo entendimento.
PMA.
Veja:
http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2006/03/a_construo_da_b.html

HCB - Acordo final ainda sem data

A cerimónia formal da assinatura dos documentos finais do acordo de reversão da HCB, entre o Presidente da República de Moçambique, Armando Guebuza e o Primeiro-Ministro português, José Sócrates, continua sem data.
Em Março, delegações de Moçambique e Portugal concluíram, em Maputo, a negociação de aspectos práticos sobre o processo de reversão e transferência do controlo do empreendimento, ao abrigo de um memorando de entendimento rubricado a 2 de Novembro de 2005 em Lisboa.
Finalizado este processo, as partes acordaram que o passo seguinte seria a assinatura formal dos documentos finais do acordo, em cerimónia a realizar-se no nosso país em data a acordar entre o presidente Guebuza, e o primeiro-ministro José Sócrates.
Entretanto, informações postas a circular davam conta de que as duas partes se iriam encontrar ontem, 20 de Abril, mas tal não sucedeu devido à indisponibilidade do chefe do Governo português.
Em Maputo, o Ministro da Energia, Salvador Namburete, que aliás, em Março último testemunhou, juntamente com o Secretário de Estado Português para o Tesouro e Finanças, Carlos Costa Pina, a conclusão das negociações técnicas e validaram a acta da última ronda de negociações iniciadas logo a seguir á cerimónia do memorando de Lisboa, envolvendo técnicos de ambos os países. Namburete negou que se tenha aventado o dia 20 de Abril como data provável do encontro entre o chefe do Estado moçambicano e o chefe do Governo português. `Desconheço qualquer data que tenha sido aventada para o referido encontro´.
Ante uma insistência sobre as razões que estariam por detrás da não marcação, até hoje, da data para a referida cerimónia, Namburete disse que neste momento está tudo dependente das partes envolvidas neste processo, nomeadamente o Chefe do Estado, Armando Guebuza e o Primeiro-Ministro português, José Sócrates.
NOTÍCIAS - 21.04.2006
NOTA:
Era claro que o Governo Português dilataria a assinatura até que Moçambique tivesse financiador firme...
Fernando Gil
MACUA DE MOÇAMBIQUE

Governo diz que já encontrou financiador

Cahorabassa_barragem
Para a reversão da HCB
O governo moçambicano já encontrou um financiador para o pagamento dos 785 milhões de euros a Portugal, permitindo a Moçambique deter 85 por cento da Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB), anunciou a primeira-ministra Luísa Diogo.

Ao abrigo do memorando de entendimento assinado em Outubro último em Portugal, Moçambique deve pagar o equivalente a 785 milhões de euros, para adquirir 73 dos 88 por cento do capital detido por Portugal naquele empreendimento.
A primeira prestação, no valor de cerca de 203 milhões de euros, devia ter sido paga em Janeiro deste ano, mas a falta de um acordo final entre os dois países inviabilizou a entrega do dinheiro.
Falando quinta-feira na Assembleia da República de Moçambique, Luísa Diogo garantiu que «já há uma clareza em relação ao nome do financiador» da verba que Moçambique deve pagar a Portugal.
«Agora está mais chegado ao fim o processo (de reversão da HCB), mas ainda não podemos revelar o nome do financiador», sublinhou Luísa Diogo.
Logo após serem conhecidos os termos do acordo que coloca Moçambique na posição de accionista maioritário da HCB, vários círculos de opinião em Moçambique colocaram a questão de saber quem irá pagar a verba acordada por Portugal, dada a manifesta incapacidade do Governo moçambicano de suportar tal encargo.
EXPRESSO AFRICA - 21.04.2006
NOTA: Não quero fazer futurologia mas a "mão" de Almeida Santos deve estar aí metida. Ainda vai ser um dos acionistas da HCB...
Moçambique já tem financiador... diz a 1ª Ministra.
Então Moçambique fica a dever. E vai ter de pagar.
E o financiador vai certamente cobrar juros.
Além do aumento do número de "administradores", que é que o povo de Moçambique vai beneficiar.
Exactamente ainda ninguém disse nada. Só se ouve falar de investimentos de brasileiros, chineses e portugueses.
Afinal como é?
Fernando Gil
MACUA DE MOÇAMBIQUE

20-04-2006

O Turismo em Moçambique

Pretende o Governo Moçambicano dinamizar o Turismo em Moçambique, e muito bem.
Mas como? O Património Histórico está destruído. Até o Museu da Revolução está como está. Como, volto a perguntar?

Vejam o exemplo de Macau.
Visitem:
http://www.macautourism.gov.mo/index_pt.phtml
Quanto a Moçambique é ver, entre outros:
http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2006/03/ilha_capela_da_.html
http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2005/11/moambique_turst.html
http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2005/11/museu_nacional_.html
http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2005/07/legado_histrico.html
http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2004/10/macau_fala_port.html
Fernando Gil
MACUA DE MOÇAMBIQUE

19-04-2006

Graça Machel ia perdendo a vida nas vésperas do Acidente de Mbuzini

Tupolev presidencial de Samora Machel
Poucos dias antes do desastre de Mbuzini, a então primeira-dama, Graça Machel, por um triz não perdeu a vida quando o avião em que viajava se despistou ao tentar aterrar na aeroporto de Mocimboa da Praia. O avião em causa era o Tupolev presidencial pilotado na altura pela mesma tripulação que viria a envolver-se no desastre em que perdeu a vida o primeiro chefe de Estado moçambicano.
Graça Machel integrava uma delegação de alto nível que incluía funcionários das Nações Unidas, membros do governo central e da província de Cabo Delgado.

Leia em:
Download tupolev_presidencial_de_samora_machel.doc

18-04-2006

Historiador moçambicano distancia-se da Linha Oficial

por João Cabrita

Título: Escapar aos Dentes do Crocodilo e Cair na Boca do Leopardo
Autor: Yussuf Adam
Editora: Promedia (Maputo, 2006), 478 pp ; 150,000MT

A tese de doutoramento do historiador moçambicano Yussuf Adam, defendida na Universidade de Roskilde, Dinamarca, acaba de ser publicada em livro, com o título, Escapar aos Dentes do Crocodilo e Cair na Boca do Leopardo. É um trabalho originalmente publicado em inglês em 1996, e que trata da "evolução do quadro sócio-económico em Moçambique após a independência”. Adam apoia-se em três factores distintos, designadamente as estratégias de desenvolvimento e políticas complementares seguidas pelo governo da Frelimo, a ajuda externa prestada ao país, e a chamada "desestabilização".
Leia em:
Download escapar_aos_dentes_de_crocodilo.doc

Degradação de património histórico-cultural

Governo não tem dinheiro
– diz vice-ministro da Educação e Cultura

“«Museu da Revolução» não é do Estado, é do partido Frelimo”

(Maputo) Neste momento o Governo não possui dinheiro para investir na preservação do património cultural nacional, nem sequer para reabilitar ou reparar os museus, monumentos, arquivos, e outras infra-estruturas de natureza histórico-cultural, disse ontem ao «Canal de Moçambique», o vice-ministro da Educação e Cultura, Luís Covane. Mas a grande novidade é que o «Museu da Revolução» não é do Estado mas sim do partido Frelimo.
Leia em:
Download degradao_de_patrimnio_histrico.doc

17-04-2006

Almeida Santos escreve livro

Almeida_santos09
O ex-presidente da Assembleia da República e presidente do PS, Almeida Santos, anunciou ontem em Maputo o lançamento para breve de um livro sobre as suas memórias da “vivência da era colonial” e da descolonização.
“O livro já está escrito, espero que a verdade seja reposta”, disse Almeida Santos, referindo-se à imagem negativa da descolonização que admitiu existir em “muitos portugueses”.
CORREIO DA MANHÃ - 16.04.2006

16-04-2006

Colocando as “idiotices” de Sérgio Vieira no seu contexto!

O colunista do semanário “domingo”, Sérgio Vieira, disserta, a 9 de Abril corrente, sobre “escrever idiotices”, onde, entre vários tiros disparados no escuro contra a classe jornalística, desagua numa posição de ataque frontal a um pensamento nosso veiculado em editorial há semanas atrás.
Escreve o colunista, a dado passo, o seguinte:
“ Um colega desse articulista na ignorância ou apenas na precipitação de escrever e agradar a alguém lá fora, a propósito do assassinato, a todos os títulos, condenável do deputado Mascarenhas, especula e brinda-nos com esta estultíci : Parece que estamos a voltar aos tempos do SNASP, aos tempos de grave limitação das liberdades fundamentais dos cidadãos, incluindo a liberdade de viver tranquila e livremente”.
Continuando, Sérgio Vieira, que já foi ministro do SNASP, acrescenta:
“Esse jornalista, no passado afastado de uma escola, docente, por comportamento indevido, o que sabe do SNASP? As vidas salvas pelo SNASP? A neutralização de tentativas de crimes pelos serviços rodesianos? A descoberta das provas da cumplicidade de Banda com os crimes cometidos contra as populações de Moçambique? As intervenções que bloquearam tráfico de armas para desmobilizar países vizinhos e amigos? O resgate de reféns? O desmascarar as violações da DMI sul-africana de acordos firmados visando abaixar o nível de confrontação militar no sub-continente? O haver provado se dotava de armas nucleares para atacar Moçambique e Angola? O que pretende atingir esse jornalista?....”
Vamos olhar, de perto, os arrazoados deste ilustre colunista da praça.
Começa por dizer que o nosso escrito ou foi “por ignorância ou por precipitação de escrever para agradar a alguém lá fora”.
Nem uma coisa nem outra. Não somos ignorantes sobre o que dizemos e escrevemos. Somos moçambicanos atentos e contribuintes do processo de desenvolvimento do País, muito antes da criação do SNASP. A nossa vida não começa com o SNASP, pelo que possuímos elementos de comparação entre os períodos anterior, durante e depois do SNASP. Também nunca escrevemos para agradar a “alguém de lá fora”, pois o nosso público-alvo está cá dentro de Moçambique, o nosso público-alvo são leitores residentes em Moçambique. É por isso que temos bancas de revenda do jornal em todas as províncias do País e ainda não conseguimos ter nenhuma banca lá fora. Portanto, se conseguimos agradar a alguém, esse alguém é o nosso leitor principal e ficamos satisfeitos com isso. Mas, também desagradamos alguns leitores, como o demonstra a raiva escrita do colunista Sérgio Vieira.
Vieira escreve, logo a seguir, uma lamentável mentira, insinuando coisas que a termos que debatê-las abertamente iríamos, tristemente, lembrar em público o racismo e outras coisas feias envolvendo a pessoa da falecida Dra. Luisa Vieira (Paz à sua alma!), esposa do colunista.
São processos históricos que o colunista Vieira não possui capacidade nem serenidade para debatê-las com a isenção necessária porque não os viveu, pelo que, a não ser que nos peça, nós preferimos ser superiores a intrigas de pessoas habituadas a “lixar” os outros.
Em nosso modesto entender, Sérgio Vieira labora em vários equívocos, sendo o principal deles o de continuar a pensar que ainda detém os poderes que detinha como chefe do SNASP, incluindo o poder de mandar calar e matar as pessoas que tinham uma opinião contrária à sua.
Felizmente, hoje as coisas mudaram e não mudaram graças a pessoas como Sérgio Vieira, pois para essas pessoas, felizmente poucas, o tempo do SNASP era o áuge do bem-estar das populações e, sobretudo, deles próprios que tanto podiam enganar, como chicotear e/ou fuzilar, pública e impunemente, parte dessas populações.
Portanto, temos a plena consciência de que estamos a discutir com um homem parado no tempo do SNASP e que até lhe convém uma defesa acérrima dessa instituição, de trsite memória, da qual foi chefe máximo durante uma parte da sua vida.
Se o SNASP possui todas as glórias e virtudes acima evocadas por Sérgio Vieira, qual foi a razão do seu desmantelamento? Ou seja, se o SNASP fazia tão bem ao povo moçambicano por que é que foi desmantelado? Ou por que é que o Senhor Sérgio Vieira, que foi parlamentar durante uma infinidade, nunca propôs a sua recuperação, só o fazendo como colunista de jornais?
Nós, que nunca colaboramos com organizações repressivas do povo, estamos muito à-vontade ao falarmos deste assunto e desafiamos o ex-ministro do SNASP a provar que alguma vez fizemos algo similar com uma colaboração com o SNASP.
Enquanto Sérgio Vieira só vê coisas floreadas sobre o SNASP, Samora Machel, digníssimo tribuno desta nação, via o SNASP como o povo o via, isto é, como uma organização demasiado infiltrada por pessoas de conduta duvidosa e que se serviam dela para reprimir, torturar e assassinar o povo, razão pela qual Samora convocou um comício popular no dia 5 de Novembro de 1982, no qual disse o seguinte sobre as Forças de Defesa e Segurança, em particular sobre a “dama” do colunista Sérgio Vieira:

· “Elementos infiltrados nas Forças de Defesa e Segurança (FDS) espancam e torturam o povo sob vários pretextos. A agressão e tortura são usadas como um meio de punição de erros, muitas vezes imaginários; como um meio de fazer as pessoas confessar crimes, cometidos ou não, como um meio de intimidação, de impedir que a população denuncie crimes cometidos por esses infiltrados; para extorquir bens da população e como forma de vingança pessoal.

· Elementos infiltrados nas FDS fazem prisões arbitrárias nas seguintes circunstâncias: como forma de resolver querelas pessoais, como vingança contra pessoas que apresentam queixas de abusos cometidos por eles, para intimidar a população, para roubar os bens dos detidos, para ficar com as casas dos detidos, para abusar das esposas e filhas dos prisioneiros, para abusar das mulheres detidas.

· Infiltrados nas FDS também abusam das mulheres em outras circunstâncias tais como: violação sexual usando a força física ou ameaçando com arma; violação sexual de menores tanto usando a força ou usando o prestígio do uniforme ou da estrutura a que estão infiltrados; seduzindo e engravidando raparigas depois de promessas de casamento que não são cumpridas; sedução de mulheres casadas usando prestígio do uniforme ou das estruturas; ofensas contra o pudor forçando mulheres a despirem-se sob ameaças ou falsos pretextos.

· Infiltrados nas FDS roubam da população, particularmente nas seguintes circunstâncias: ataques armados, extorsão na estrada e nos pontos de controle fronteiriço, usando o pretexto de que confiscam os bens para o Estado; arrombamentos de casas nos arredores dos quartéis em que os ladrões escondem-se dentro dos próprios quartéis.

· Infiltrados nas FDS recrutam seus familiares e amigos para estas forças na base do nepotismo criando assim uma rede de compromissos que muitas vezes transformam-se em cumplicidade nos desvios e crimes cometidos.

· Infiltrados nas FDS, em particular no SNASP, reproduzem o estilo e métodos de trabalho da polícia secreta capitalista na tentativa de intimidar e aterrorizar a população”.(In “The Enemy Within”, Colecção Bulding a Nation, 1982, Maputo).

É a isto, caro colunista Sérgio Vieira, que nós não queremos regressar mais. É a isto que nos referimos quando alertamos que não devemos aceitar voltar ao período de grave limitação das liberdades dos cidadãos, como acima está descrito.
À pergunta do colunista Vieira sobre “o que pretende atingir esse jornalista”, respondemos que pretendemos atingir um estágio democrático em que jamais seja possível voltar ao tempo do SNASP.
Não queremos, jamais, que esse período sinistro da História Nacional se repita!
Salomão Moyana - ZAMBEZE - 13.04.2006

13-04-2006

A MULHER MOÇAMBICANA E SUAS FASES DE TRANSFORMAÇÃO 1975-2005

Por: Linette Olofsson

Dedicação as mulheres moçambicanas nascidas na década 70


“Tudo no homem depende da civilização. É portanto, sobre o Estado social que se apoia o edifício da sua grandeza”

-D’ Olivet Antonie-França- 1767-1825

Ainda na esteira do 7 de Abril, urge olhar para a mulher como uma das importantes forças motrizes para um desenvolvimento humano a partir da base da sua primária socialização. Numa sociedade de exclusão como a nossa, seria de certa forma muito vago se se pretendesse penetrar na questão “mulher” descurando-se as fases pelas quais ela passou. Tal como na pretérita reflexão, continuo afirmando que não pretendo fazer um estudo profundo sobre a matéria, pois o assunto “mulher” é multifacetado. É matéria de estudos em diversos ângulos. Aqui importa apenas reflectir sobre a “dor” da mulher; sobre aquilo que a minha visão, de cidadã, me mostra ao longo destes anos todos de “independência”. Para tal, vou dividir este texto em duas etapas, tal como se segue:

Veja tudo em:
Download a_mulher_moambicana_e_suas_fases_de_transformao_1975.doc

12-04-2006

A Propósito do 7 de Abril - Dia da Mulher Moçambicana

Uma Reabilitação importante da História:
CELINA MUHLANGA SIMANGO


Uma Mártir paradigmática, ignorada em Moçambique. (Muhlanga, lê-se aproximadamente Mux.Lhanga – (Muchanga)

Ensaio
A Propósito do 7 de Abril - Dia da Mulher Moçambicana
por João Craveirinha

PREÂMBULO ETNO-HISTÓRICO XINDAO / INGUNI:
Excerto de saudação laudatória (de louvor) muito antiga – mais de 100 anos. Xithopo / xithoko – zelo: «Davuka! Muhlanga! Duva!... Va Ka Muhlanga Va Huma Musapa i Vandau». (Acorda Muchanga! Zebra!... Os Muchangas saiem de Mussapa são vaNdao) …«xa ku remero ra re kure, bare» (nascidos de algo pesado que veio de longe).

Segundo a História o Clã Muchanga veio de muito de longe. Originário para lá do Sul de Moçambique (Cordilheira dos Libombos - Suazilândia). De uma origem muito antiga iNduanduê (iNguni), derrotados em guerras com os Muthétuas – Zulos da era de Tchaca Senzagakhona iZulo (1816 / 1828). Alguns são integrados nos Zulos. Um dos generais vaNguni convertidos do Imperador Tchaca Zulo (n.1787 / m.1828), era Muhlanga. Outros Muhlangas (Muchangas), fogem mais para Norte (Zimbabué e Manica), integrados nas hordas vaNguni (dos Grandes). Em 1825, iNgunis reconquistam Mussapa e Mossurize chefiados pelo iNkôssi Soshangana, General do derrotado Zuide, Rei iNduanduê. Soshangana, mais tarde avô de Mundungazi (alcunhado inGungunhane), segundo filho de uMuzila na linha de sucessão do Império da velha Gaza em Manica (e Sofala). (O nome Mundungazi provém de Mundu = pessoa – iNgazi = sangue (real). Palavras de origem shona / indao). O verdadeiro nome de inGungunhane era iNdao e isto nunca havia sido dito antes.
Na invasão do Sul do Save (1889), o Imperador Mundungazi, de alcunha inGungunhane o iNgonhamo (leão), marcha com cerca de 100 mil vaNdao (despovoando Mussapa e Mossurize), rumo a Mandlha – inKaze (Mandlakaze - Mandjacaze), massacrando os vaLengue (chopes) em maioria –, do rio Limpopo ao rio Save. Um dos dois principais tiNduna – chefes de inGungunhane era o todo poderoso General Simango e outro de nome muTazabano, veteranos do tempo de seu pai uMuzila, sepultado em Udengo – Manica (Sofala), onde permanece. Outros Muhlangas (Muchangas) fixam-se no Sul do Save na Nova Gaza, depois da conquista.
Os Muchangas, anteriormente (1820/30), ocupam Mussapa – Manica (dos dois lados de Moçambique e de Zimbabué), zona dos Shonas, conquistando-os. Surge o fenómeno de aculturação mútua – vencedores iNgunis Muchangas com Shonas derrotados. Mais tarde os Shonas de Moçambique são denonimados – iNdao. (Vide livro de Crónicas Históricas, 2ª edição: - Moçambique, Feitiços, Cobras e Lagartos, pag. 45, último parágrafo).
A saudação laudatória final dos Muchangas entoada em xiNguni é elucidativa: «Hlambasi wa Mafukuthe, wa Ucenga. Yebo!». Indicação de que na realidade o Clã Muchanga é vaNguni e veio do Sul, o mesmo se aplicando aos Dhlakamas (De – lha – kamas).
Na origem de Mamã CELINA MUHLANGA (n.1937? / m.1981?), esposa do reverendo Uria SIMANGO (antigo vice - Presidente da FRELIMO), correm genes (ADN) de lendários guerreiros Muhlangas (Muchangas) e na descendência de seu casamento (filhos), se misturam ainda genes de avós Tivanes dos iMpfumos (rongas de Maputso) e Shonas de Zimbabué da parte do pai Uria Simango (n.1926/m.1981?); outro grande mártir do Nacionalismo Africano e de Moçambique. (ADN = ácido desoxirribonucleico).

Mas que crime terá cometido Mamã Celina? O “Crime” de ser MULHER, ESPOSA e MÃE MOÇAMBICANA?! Ou na realidade, Celina Muhlanga Simango, terá sido uma Mártir da Independência e da Liberdade simbolizando todas as outras MULHERES MÁRTIRES ignoradas que a Luta pela Independência gerou?
“Mama” Celina foi Presidenta da LIFEMOLIga FEminina MOçambicana que daria origem ao D.E.F (1968) e à OMM a 16 Março 1973. Ao citarem a OMM sem dúvida um dia na História, o nome de Celina Muhlanga Simango, terá de ser lembrado como uma das pioneiras na organização política feminina na Luta anti-colonial em Moçambique e em África.
A 4 Março 1968, é extinta a LIFEMO e criado o D.E.F – Destacamento Feminino da FRELIMO do qual Josina Muthemba viria a participar como dirigente. Josina Abiatar Muthemba (mais tarde Machel), nasce em 1945. É mãe a 23 de Novembro 1969. Morre em 7 de Abril 1971, em Dar-es-Salaam (Hospital Chinês de Kurassine). Sucumbe ao esforço físico de acompanhar a situação das crianças afectadas pela guerra, no interior de Moçambique – Cabo Delgado e Niassa. Daí o 7 de Abril, Dia da Mulher Moçambicana.
No entanto, Celina Muhlanga Simango, sofreria no corpo e na alma rasgada de dor o destino cruel de todas as mártires de uma Luta de Libertação. Fiel ao lado de seu marido cumprindo a jura celebrada no casamento cristão: “até que a morte nos separe” – na realidade nem na morte separados. Estariam unidos para sempre na entrega total pela causa de uma Independência de Moçambique para outros a desfrutarem sem a merecerem. “Os primeiros serão os últimos” –, reza a Bíblia que seu marido, Uria Simango, tão bem conhecia assim como os Cânticos dos Salmos de que se serviu para atenuar a dor física das bastonadas a oito mãos que recebia na tortura em 1975 no campo de Nachingueia em Tanzania.
No dia das Mulheres Moçambicanas, resgato a memória de Mamã Celina Muhlanga Simango, humilhada, torturada, somente por não renegar seu marido Reverendo Uria Simango – Presidente interino da Frelimo após a morte de Eduardo Mondlane, em 3 Fevereiro 1969. Em Novembro de 1969, Uria Simango é oficialmente expulso da Frente de Libertação de Moçambique – FRELIMO.
Na figura dessa Mulher – Esposa – Mãe, Celina, se resgatam todas as MULHERES Moçambicanas ou Moçambicanizadas que foram caluniadas, presas e enviadas a fatídicos campos da morte por Moçambique fora e em Niassa, nas diversas operações produção desde 1975. MULHERES violentadas na condição humana, e, outras, na fuga, devoradas por leões ou mortas por metralhadoras kalashenikove.
In Memoriam a essas MULHERES MÁRTIRES, este Dialogando de hoje, sem diálogo, chora lágrimas de silêncio!
(João Craveirinha)
Celina_simango_01
Tanzânia – Nachingueia – Janeiro 1975 – Apresentação dos ditos “reaccionários” depois de uma noite de tortura. Da esquerda para a direita: pintor João Craveirinha (autor desta crónica); estudante José Francisco, 1º Comdt. de mísseis Pedro Simango; Dr João Unhai (médico); Prof. Dr. Faustino Kambeu (Direito Internacional); professora Celina Muchanga Simango (esposa do Rev. Uria Simango). Todos dissidentes da FRELIMO. (Foto arquivo de J.Craveirinha).
Publicado em O AUTARCA e CANAL DE MOÇAMBIQUE - 12.04.2006

11-04-2006

A jóia dos “históricos” está a apodrecer aos bocados

Museu da Revolução
“Desde 1984 que não é reabilitado” - director Adriano Mariquele
O Museu da Revolução, paragem obrigatória de todas as delegações no tempo do «socialismo científico» implantado na Av. 24 de Julho em Maputo – mesmo ao lado do hoje esplendoroso e bem conservado edifício ismaelita de «Sua Alteza Aka Khan» e da «Igreja Universal do Reino de Deus» – encontra-se praticamente “abandonado” e a apodrecer aos bocados. A degradação vai tomando conta do seu edifício à medida que os dias vão passando sem que alguém se preocupe em locar verba para a sua reabilitação.
O seu director, Adriano Mariquele, diz mesmo que desde 1984 que não há um metical para a manutenção do templo que guarda a herança viva dos heróis da Luta Armada de Libertação Nacional.
O edifício possui quatro pisos. As escadas apresentam os corrimãos danificados. Quase todos os vidros das suas janelas estão partidos. As casas de banhos estão danificadas. As paredes das salas apresentam fissuras. Há infiltração de água. E o mais sintomático, conforme testemunhámos, quando passam viaturas pesadas pela avenida a que dá a fachada, o edifício treme.
O director do Museu, Adriano Mariquele, em entrevista ao «Canal de Moçambique» diz que aquele património cultural desde 1984 que não é reabilitado, razão pela qual apresenta o actual estado miserável.
Aquele edifício que contém parte da história da «Frente de Libertação de Moçambique» e da própria luta anti-colonial. Ninguém liga àquilo. Está a deteriorar-se dia após dia.
O director afirma que o edifício precisa de uma reabilitação de raiz. Quanto muito o governo devia prestar mais atenção a trabalhos de manutenção de rotina às estruturas físicas do «Museu da Revolução». Mas nada disso acontece desde 1984. Dois anos depois morreu Samora Machel.
A degradação não afecta apenas a estrutura do edifício como também atinge os materiais expostos.
Mariquele disse ainda ao «Canal» que a estrutura das vitrinas que protegem as fotografias, brochuras, fardamentos e armamento militar expostos, também não se encontra em bom estado de conservação, “razão pela qual o material nele contido está deteriorar-se”.
Segundo o director do Museu as obras expostas estão a ser conservadas de uma maneira não convencional, ou seja, grosso modo, “ao jeito da imaginação dos funcionários porque os produtos que deveriam ser aplicados quer no papel, pau e tecidos não existem”.
No rol dos problemas que o museu está atravessar Mariquele vincou ainda a falta de condições de trabalho, equipamento e segurança dos funcionários. Segundo ele existem vezes que estes ao fazerem limpeza das vitrinas ficam intoxicados com poeiras devido à antiguidade do material exposto. Mais grave ainda, sem o tratamento adequado.
Para Mariquele, caso o actual cenário persista o museu vai deixar de existir. “Assim com essas dificuldades todas corremos o risco de fechar os museus”.
De acordo com a nossa fonte, o problema existente no «Museu da Revolução» não afecta unicamente aquela instituição mas, sim, a todos os outros museus do país.
“O nosso País está atravessar problemas graves com relação a manutenção e reabilitação de raiz do património cultural existente nos nossos museus”.
“Os nossos museus têm problemas graves de manutenção e reabilitação”, realçou.
“O governo deve injectar dinheiro para pelo menos conservarem-se de uma melhor forma as obras do Museu da Revolução”.
Não obstante a situação, o director do Museu da Revolução mostrou-se ainda mais preocupado com os problemas referentes ao edifício, mais concretamente, às fissuras nas paredes, infiltração de água, casas de banho danificadas, vidros partidos, paredes a escamar das salas de exposição de obras e alguns corrimões das escadas partidos.
Enquanto isso
O director do Museu de História Natural, Luís Cabral, disse num outro desenvolvimento que os museus, incluindo o que dirige, têm muitos problemas que disse acreditar não vão ser resolvidos a curto prazo porque “o dinheiro desembolsado não dá para custear” os trabalho de manutenção, reparação rotineira e reabilitação.
(Conceição Vitorino) – CANAL DE MOÇAMBIQUE – 11.04.2006

10-04-2006

Entrevista de Manuel Monge -1995

Manuel_monge
Manuel Monge, General na Reserva, é hoje Governador Civil de Beja. Em 1995 concedeu uma importante entrevista a Maria João Avilez que recordo integralmente. Realço, no entanto, as seguintes passagens:

P. - Entretanto, acompanha, a Londres, Mário Soares, então ministro dos Negócios Estrangeiros, para a primeira negociação do cessar-fogo na Guiné. Que descolonização pensavam fazer os militares que rodeavam Spínola? Que "instruções" havia?
R. - Fomos a Londres e, depois, a Argel negociar o cessar-fogo com o PAIGC. A situação militar no terreno era muito difícil e, no campo político, a independência da Guiné, proclamada unilateralmente em 1973, fora já reconhecida por dezenas de países. Apesar disto, o povo da Guiné bem precisaria que não tivéssemos saído com a pressa com que o fizemos... Em Londres, o PAIGC propôs-nos um prazo largo para a nossa saída da Guiné. Só que a situação na Guiné foi pressionada para se reflectir em Moçambique e, principalmente, em Angola, onde não havia problemas militares. Sentimos essa pressão e vislumbrámos essa estratégia, inspirada pela União Soviética e conduzida pela OUA. E que, em Portugal, tinha como grandes aliados a ala radical do MFA e o PCP.
P. - Mas não me respondeu sobre se havia ou não algum tipo de "instruções" para a condução das negociações...
R. - Na véspera de partir para Londres, em 26 ou 27 de Maio de 1974, houve, à noite, uma assembleia do MFA na Manutenção Militar...
P. - O MFA continuava a reunir, a deliberar...
R. - Naquela altura, havia decisões que era difícil serem tomadas por outra instância. Perguntei aos meus camaradas se, nas negociações onde ia tomar parte, devíamos mostrar firmeza no sentido de acautelar os nossos interesses - ainda que nos pudesse acarretar dificuldades militares no terreno - ou se devíamos, como o Otelo defendia (e veio, aliás, a fazer com o Samora Machel!), considerar os movimentos emancipalistas credores de total apoio e confiança. Numa acalorada discussão, a maioria da assembleia concordou com a minha posição. Com essa disposição segui para Londres. Mas os líderes radicais do MFA faziam o jogo da parte negociadora adversa (chegando a encontrar-se às escondidas com os líderes africanos...), inviabilizando assim, totalmente, os esforços dos negociadores portugueses, nomeadamente dos ministros Mário Soares e Almeida Santos.
P. - Quem se encontrou às escondidas com quem? Quem fazia o jogo da parte adversa?
R. - O marechal Spínola conta tudo isso em pormenor no seu livro "País sem Rumo". Os nomes estão lá todos!
P. - Estou a entrevistá-lo a si e não ao marechal Spínola... A sua ideia da descolonização é negra! Não é vulgar ouvir um militar com responsabilidades no 25 de Abril acusar outros militares de forma tão frontal...
R. - Só para a descolonização era preciso uma entrevista! Apesar de feita tardiamente (reconheço isso), deveria ter sido conduzida doutro modo. Na altura, o MFA radical e os seus aliados políticos chamaram-lhe descolonização exemplar; agora dizem que foi a descolonização possível. É falso. Foi a descolonização que os líderes do MFA quiseram, inclusive curto-circuitando, secundarizando, ultrapassando os ministros civis do Governo que tomaram parte nas mesmas. Perseguindo e prendendo, e deixando levar à morte em África e Timor - como Joana Simeão, Magiolo Gouveia e tantos outros -, aqueles que tentaram opor-se. Começou a sua série de entrevistas com o tenente-coronel Melo Antunes, que nos acusou - a nós, o grupo próximo do general Spínola - de lhe termos dificultado os seus projectos descolonizadores. Foi óptima essa confissão de Melo Antunes. É que não me revejo nessa descolonização exemplar que provocou a terrível guerra civil de Angola, o genocídio do povo de Timor e a mais horrorosa miséria em Moçambique. Mas, em Macau, provou-se que poderia ter ocorrido uma descolonização diferente...
P. - Porquê?
R. - Também ali havia uma célula do MFA radical a desestabilizar... E o governador Garcia Leandro teve a clarividência e a coragem de a expulsar de Macau... Recordo-me de que um deles, o Quitério de Brito, quando cá chegou, foi logo nomeado pelo Vasco Gonçalves para o V Governo! Gostaria de acrescentar que, há pouco tempo, o ex-Presidente Aristides Pereira disse aquilo que muitos de nós bem sabíamos... O povo de Cabo Verde teria preferido ficar a fazer parte de Portugal, obviamente com um estatuto autonómico, que depois se definiria. E assim teria sido se se tivesse cumprido o estabelecido no Programa do MFA. Vou contar-lhe um episódio da descolonização de Cabo Verde: poucos dias depois do 11 de Março, estava eu preso em Caxias, ao passar por um corredor vi uma cela cheia de indivíduos de cor. Soube pouco depois que se tratava dos líderes dos dois partidos cabo-verdianos que, após o 25 de Abril, se organizaram em Cabo Verde... Um belo dia, foram presos e enviados para Caxias. E soube também que as segundas figuras desses partidos foram mandadas para o Tarrafal... Algum tempo depois, o PAIGC conseguia implantar-se em Cabo Verde. Mas quando, anos depois, houve eleições livres, foi o que se viu...

Leia a entrevista completa:
Download entrevista_com_manuel_monge.doc

NOTA:
Não deixe também de ler:
http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2005/10/ainda_a_entrevi.html

09-04-2006

30 anos como médico em Moçambique

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Contribuições para a História de Moçambique por Aires Sartro Fernandes
30 anos como médico em Moçambique
Intervenção do autor no Dia dos Médicos, de 2006

Quero começar por agradecer à Direcção da AMM (Associação dos Médicos de Moçambique) o honroso convite que me fiz para falar sobre a minha experiência como médico do grupo dos mais velhos. Vou vos falar essencialmente sobre o que vivi e o que senti e o que penso como médico de medicina curativa nos últimos 30 anos:

Uma semana depois de concluir o meu curso na Faculdade de Medicina da «Universidade de Lausanne», na Suiça, nos finais de 1975, voltei para Moçambique, para cumprir um dever patriótico como moçambicano e membro da Frelimo. Comecei a trabalhar logo no dia seguinte à chegada, no actual Hospital Central de Maputo.

Leia tudo em:
Download 30_anos_como_mdico_em_moambique.doc

06-04-2006

EM MEMÓRIA DE JOANA SIMEÃO

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Por: Linette Olofsson
A Mulher é a guardiania da espiritualidade humana. É a matriz da vida. É a personificação da grande Deusa. É a que acolhe, cria e desenvolve os processos de vida. É a perfeição mais perfeita e completa do Universo. Contudo, todos estes atributos podem não passar de poesia quando olhamos para o passado e presente da mulher no nosso país.
Esta reflexão vem a propósito de mais um 7 de Abril, dia consagrada pela Frelimo como sendo o dia da mulher moçambicana.

Veja tudo em:
Download emmemriadejoanasimeo2.doc

Para recordar como era, e o que ainda não foi feito

UNIVERSITY OF PENNSYLVANIA - AFRICAN STUDIES CENTER

Noticias de Mocambique 68, (11/08/'95)

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NotMoc - Noticias de Mocambique
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No 68 8 de Novembro de 1995 Maputo ================================================================

PARLAMENTO: A AVENTURA

Reportar o parlamento atraves dos dados que aparecem nos jornais, na radio e na TV eh uma autentica
aventura. Convidamos a seguirem-nos neste exercicio de navegacao a vista.

Informe do Procurador Geral da Republica:

Sinai Nhatitima apresentou o seu relatorio de prestacao de contas no dia 2/11. Foram 60 paginas
distribuidas com atraso. (Savana 3/11) Este relatorio foi debatido nos dias 6 e 7 de Novembro. Debate
politicamente polarizado.

Das varias intervencoes do Procurador Geral da Republica, extraimos os seguintes pontos:
(Not.7/11)

- Intensificacao das inspeccoes aas unidades prisionais para verificar a legalidade;
- A luta contra a corrupcao serah feita na observancia da lei; "Vamos agir,independentemente da
posicao social e politica do agente. Sabemos que alguns dirigentes e ateh mesmo deputados gozam de
imunidades, mas isso nao significa a irresponsabilizacao. Vamos seguir o processo ateh ao fim."
- Ha casos que jah estao esclarecidos. Outros vao levar tempo. Kennedy foi assassinado em 1963
mas as investigacoes continuam.
- Trafico de droga esta a ser investigado. A legislacao mocambicana atribui a exclusividade da
investigacao a PIC. Esta estah a ser feita.

As perguntas e comentarios da Assembleia:

- Em Mocambique continua a vigorar a pena de morte por fuzilamento apesar de ser inconstitucional.
Dois casos ocorreram na Zambezia: um em Quelimane e outro na Maganja da Costa.
- Policia inviabiliza visitas a instituicoes policiais e prisionais.
- Reclusos morrem nas cadeias sem que se deh conta do facto; - O Procurador da Republica nao deve
fazer os deputados de parvos porque apresenta um documento sem indicar casos concretos de combate aa
corrupcao e criminalidade;
- Que se faca tudo para que nenhum criminoso saia impune do pais;
- Combate a corrupcao passa pela identificacao dos cabecas;
- Abertura dos dossiers sobre:
desaparecimento de Joana Simeao, Uria Simango e outros; mortes de Samora Machel, Eduardo Mondlane e Shafurdin Khan. (Not 7/11)

......................................................................
Este numero de NotMoc - Noticias de Mocambique foi feito por: Yussuf Adam
([email protected]) - redaccao Wenke Adam ([email protected]) - edicao ----
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Pedidos de assinatura: [email protected] Qualquer correspondencia sobre o conteudo deste
jornal deve ser dirigida aos autores ou ao endereco [email protected] ---------------
Message-Id: [email protected]
From: Wenke Adam [email protected]> To: [email protected]
Date: Wed, 8 Nov 1995 16:35:11
Subject: NotMoc 68
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Editor: Ali B. Ali-Dinar

GUERRAS DE ÁFRICA - MOÇAMBIQUE, da Academia de História de Portugal

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Com a chancela da Academia de História de Portugal, está o jornal Correio da Manhã a distribuir a colecção BATALHAS DA HISTÓRIA DE PORTUGAL.
É o nº 20 da colecção dedicado à GUERRA DE ÁFRICA - MOÇAMBIQUE.
Quando anunciada a edição desta colecção, sempre pensei ser obra profunda, correcta na descrição dos factos, enfim preocupada com a Verdade. Foi uma desilusão que tive. É leve e com erros de palmatória.
Por ainda ser recente o período histórico em causa (das Guerras de África) existem ainda felizmente vivas muitas pessoas que, para além dos relatórios, muitas vezes tendenciosos e até contraditórios consoante o lado que os difundia, poderiam, se consultadas, trazer clareza a muitas situações.
Pelos vistos isso não aconteceu. Como a causalidade de muitos factos e situações também não foi escalpelizada.
Para além dos erros, há omissões de factos essenciais para a compreensão de determinadas situações, algumas das mais marcantes em todo este processo.
Provando a leveza dos textos, diz-se que Pimentel dos Santos, Engenheiro e Governador Geral de Moçambique, era "Major". Onde é que o autor descobriu que a "banja" de Mueda foi por causa do algodão? Etc, etc,...
Enfim, quem nada souber do que na realidade se passou, ao chegar ao fim da leitura deste volume dedicado a Moçambique, chegará inevitavelmente à conclusão de que a FRELIMO nunca fez nada de errado.
Certamente que houveram atitudes menos correctas de ambas as partes.
E, ou se vai ao âmago das questões, ou é melhor ficar quieto. A não ser que as motivações não sejam as da procura da VERDADE.
Em próximas intervenções procurarei chamar a atenção para os mais importantes erros e omissões.
É evidente serem benvindas todas as contribuições e testemunhos para o esclarecimento da VERDADE.
Fernando Gil
MACUA DE MOÇAMBIQUE

05-04-2006

Nove milhões de metros quadrados livres de minas no centro do país

Cerca de nove milhões de metros quadrados, quase dez vezes a área de Portugal, foram desminados em 2005 nas províncias de Sofala, Manica e Tete, no centro de Moçambique, anunciou hoje o Instituto Nacional de Desminagem (IND).
A grande quantidade de minas colocadas ao longo dos 16 anos de guerra civil moçambicana, que terminou com o acordo de paz de 1992, tem impedido a população do centro do país de retomar em pleno as suas actividades produtivas, sobretudo a agricultura.
Segundo o delegado do Instituto Nacional de Desminagem no centro do país, Juma Caneiras, três operadores internacionais estiveram envolvidos na limpeza dos nove milhões de metros quadrados na região: a Norwegian People Aid, da Noruega, a Ronco, dos Estados Unidos, e a Handicap International.
A Ronco, envolvida na chamada desminagem comercial, removeu 46 minas anti-pessoal, 413 munições e 53 engenhos por explodir em cinco distritos, numa área de mais de oito milhões de metros quadrados.
Por sua vez, a Norwegian People Aid, com actividade sem fins lucrativos, limpou mais de 570 mil metros quadrados em quatro distritos, desactivando 51 minas anti-pessoal, sete munições e 264 engenhos por explodir, ainda de acordo com o balanço do Instituto.
A Handicap International, que também trabalha na desminagem humanitária, limpou nove distritos numa área de 111 mil metros quadrados, neutralizando 18 minas anti-pessoal, 48 munições e 214 engenhos por explodir.
O centro de Moçambique foi a região mais atingida pelo violento conflito civil moçambicano, por ser ali que se situavam as principais bases da antiga guerrilha da RENAMO.
Para a zona centro foram igualmente destacadas forças de alguns países vizinhos, com o objectivo de protecção do corredor da Beira, que permite o escoamento de mercadorias para os países da África Austral sem acesso a rotas marítimas, como o Zimbabué e Zâmbia.
NOTÍCIAS LUSÓFONAS - 05.04.2006

03-04-2006

José Sócrates instado a acabar com a guerra no território

Partido independentista de Cabinda lança apelo
O presidente de uma das facções dos independentistas de Cabinda apelou ao primeiro-ministro português, José Sócrates, para interceder junto do Governo angolano no sentido de acabar com a guerra neste território, durante a sua visita oficial de quatro dias a Angola, que se inicia na próxima terça-feira.

Em comunicado, o presidente da Frente de Libertação do Enclave de Cabinda - Conselho Superior Alargado (FLEC-CSA), José Liberal Nuno, fez este apelo a José Sócrates para que se crie «um clima político propício ao diálogo e negociações» para o fim da guerra em Cabinda.
«Em nome do martirizado povo de Cabinda solicito encarecidamente o empenho pessoal de vossa excelência para que durante o período em que estiver em Angola se empenhe no sentido de envidar esforços de modo a apelar às autoridades angolanas a enveredarem, com coragem e determinação políticas, na via do diálogo», escreveu o presidente da FLEC-CSA.
A FLEC surgiu em 1963 para defender a independência de Cabinda mas o movimento tem-se caracterizado por várias disputas internas pela liderança, o que tem servido de argumento para o Governo angolano alegar que fala apenas com um interlocutor.
Além da FLEC-CSA, a FLEC/Forças Armadas de Cabinda, de Nzita Tiago, e a FLEC-Renovada, liderada por António Bento Bembe, fundiram-se, criando um governo no exílio (França), mas os dois líderes também já se desentenderam depois do afastamento de Bento Bembe da direcção do Fórum Cabindês para o Diálogo.
Cabinda, responsável por cerca de 90 por cento da produção petrolífera de Angola, é palco desde 1975 de uma luta armada, com os independentistas a alegarem que o território é ainda um protectorado português, como ficou estabelecido no tratado de Simulambuco, em 1885.
José Sócrates inicia terça-feira uma visita oficial de quatro dias a Angola.
O primeiro-ministro angolano, Fernando Dias Piedade dos Santos «Nandó», admitiu terça-feira passada, numa sessão de perguntas ao Governo, no parlamento angolano, a possibilidade de ser atribuído um «estatuto especial» ao enclave de Cabinda e considerou que a situação evoluiu de forma «francamente positiva»
EXPRESSO AFRICA - 03.04.2006

30-03-2006

Arquivo Histórico de Moçambique

Degradação do edifício põe em risco arquivos
Infra-estruturas destruídas, casas de banho avariadas, inundações decorrentes de esgotos entupidos, documentos danificados, águas negras dentro das instalações, paredes do edifício húmidas, passagem de corrente eléctrica deficitária e funcionários debilitados completam o quadro negro do iminente desastre à vista nas instalações do «Arquivo Histórico de Moçambique» disse o respectivo director Joel das Neves Tembe em entrevista ao «Canal de Moçambique». Mas tudo indica que em Dezembro possa haver solução que se estima venha a custar cerca de 700 mil Euros, sensivelmente 1 milhão de USD. Até lá muito da História poderá perder-se. Uma nova morada poderá ser a solução.
Joel das Neves Tembe, disse ao «Canal» que o edifício do Arquivo Histórico de Moçambique está “doente” quanto às infra-estruturas físicas, mas o mais grave ainda é que a conservação de vários documentos ali depositados e de valor inestimável corre o risco de não poder ser feita e tudo aquilo se perder.
“Os problemas de deterioração do edifício como também de documentos acentuam-se cada vez mais”, disse.
O apelo do director do «Arquivo Histórico de Moçambique» não é novo, como também não é nova a indiferença. Só as sucessivas promessas de vontade política, repetidamente apregoada, de se combater o «deixa andar», nos impele a associar o «Canal» àquela instituição que, tanto de valor tem feito pelo futuro conhecimento do passado.
Segundo Tembe, como alternativa à degradação, paulatinamente crescente, optou-se por arranjar-se um espaço dentro daquele edifício que ainda apresentava boas condições; relativas boas condições. No entanto, ainda conforme Tembe, aquilo que era o tal espaço alternativo começa também a ficar afectado e já, daqui a algum tempo esse espaço também vai deixar de ser útil.
O cenário das instalações do «Arquivo Histórico» está tão negro que as paredes das diversas salas apresentam-se com rachas, fungos e tinta a escamar-se. Algumas salas já não têm soalho e há águas negras a correrem para além do próprio tecto apresentar fissuras. O grande problema é que as instalações do «Arquivo Histórico» situam-se no rés-do-chão e na cave dum prédio que por sinal tem deficiências de manutenção, e, consequentemente, todo o sistema de canalização de água para consumo e de esgoto, em geral de todos os andares acima, desagua nelas.
Segundo o director do Arquivo Histórico de Moçambique, devido à situação que estão a passar de momento, viram-se na obrigação de desenhar dois cenários transitórios de remoção do pessoal do edifício e de transferência da documentação importante, até Dezembro do ano em curso, para outras instalações, na baixa da cidade.
“A iminente situação no Arquivo Histórico de Moçambique obrigou-nos a desenhar dois cenários transitórios de remoção do nosso pessoal do edifício e de transferência de documentação importante, até Dezembro próximo, para futuras instalações na baixa da cidade”, garantiu.
Neves adiantou a dado passo que estão em vista planos futuros no sentido de transferir as instalações do Arquivo Histórico de Moçambique para a baixa da cidade, mais precisamente para a Rua de Timor Leste, ao lado das instalações onde funcionam as «Alfândegas».
Segundo Neves a transferência do «Arquivo Histórico de Moçambique» para a nova morada atrás referida acontecerá na base de um protocolo entre Moçambique e Portugal e em parceria com o Instituto Português de Acção e Desenvolvimento (IPAD) e a Universidade Eduardo Mondlane (UEM), processo orçado, numa primeira fase, em 700 mil euros, cerca de 1 milhão de usd.
Num outro desenvolvimento, Joel das Neves disse ao «Canal» que os funcionários, investigadores e leitores do Arquivo Histórico de Moçambique estão expostos a péssimas condições de trabalho derivadas não só da degradação atrás referida, mas também pelo facto de não existirem gabinetes para que aqueles possam exercer as suas actividades.
“As condições de trabalho que o Arquivo Histórico de Moçambique oferece aos funcionários, investigadores e até leitores são péssimas”, desabafou.
A fonte disse ainda que “os cerca de dois mil milhões de meticais, que a Universidade Eduardo Mondlane (UEM) injecta anualmente como bolo orçamental, é irrisório, porque não dá para fazer face às necessidades da casa”. “Temos enormes necessidades e o bolo orçamental é irrisório de tal forma que não dá para cobrir as nossas despesas”, concluiu Joel Tembe.
Conceição Vitorino - CANAL DE MOÇAMBIQUE - 30.03.2006

NOTA:
Antes de comentar transcrevo a notícia abaixo e que o MOÇAMBIQUE PARA TODOS transcreveu em 14 de Fevereiro de 2005:
Portugal apoia com 600 mil euros reabilitação de Arquivo Histórico de Moçambique
Portugal vai apoiar com mais de 600 mil euros a reabilitação do Arquivo Histórico de Moçambique (AHM), num projecto que visa a adaptação de um edifício a oficinas de micrografia e restauro de três depósitos históricos do país.
Um acordo de parceria entre a cooperação portuguesa - através dos institutos de Apoio ao Desenvolvimento (IPAD), do Livro e das Bibliotecas (IPLB), dos Arquivos Nacionais/Torre do Tombo (IAN/TT) e do Património Arquitectónico (IPPAR) - e a Universidade Eduardo Mondlane (UEM) será quarta-feira assinado em Maputo.
O acordo tem em vista o apoio à revitalização do maior depósito histórico de Moçambique, numa extensão de 26 quilómetros de estantaria de documentos nos três edifícios contemplados.
O director do Arquivo Histórico de Moçambique, Joel Tembe, disse hoje à Agência Lusa que o valor destina-se a execução de um projecto de arquitectura, de especialidade, fiscalização e adaptação de um edifício a oficinas de micrografia.
No âmbito da reabilitação do AHM, a UEM decidiu desactivar o edifício sede por não oferecer condições para o restauro e englobá-lo num dos três estabelecimentos a serem reabilitados com fundos portugueses e que passarão a funcionar como centro de investigação científica, referiu Joel Tembe.
Aquele responsável disse ainda que a UEM pretende informatizar as bibliotecas e instalar um programa de computador, avaliado em 200 mil euros, que permitirá a digitalização de todo AHM, numa iniciativa que se enquadra num outro projecto que contará com o apoio do governo do Japão.
"Pretendemos combinar as tecnologias, o que se traduz na aquisição de novas técnicas de informação digital combinadas com a microfilmagem, que é uma mais valia por poder conservar os filmes, em média, durante 500 anos", sublinhou.
Durante a sua presença em Moçambique, o IPLB e o IPPAR irão oferecer equipamento informático à Casa Museu José Craveirinha, em Maputo.

Agência Lusa - 14.02.2005

Assim, resta-me lançar um desafio ao CANAL DE MOÇAMBIQUE: Saber se Portugal não honrou este compromisso ou, se o honrou, saber onde está o dinheiro e desde quando. Será que está a render juros durante um ano ou dois até que seja disponibilizado?
Fernando Gil
MACUA DE MOÇAMBIQUE

Carta de demissão do primeiro vice-governador do BM

Contribuições para a História de Moçambique
Após a independência de Moçambique foi criado um banco central sobre os alicerces do então Banco Nacional Ultramarino (BNU). Alberto Cassimo viria a ser o primeiro governador do novo banco emissor - o Banco de Moçambique. Carlos Adrião Rodrigues, advogado com cartório na capital moçambicana e ligado ao sector progressista da burguesia colonial, ascendeu à posição de vice-governador daquela instituição bancária.
Membro do grupo de pressão denominado «Democratas de Moçambique», Adrião Rodrigues havia-se evidenciado, conjuntamente com João Afonso dos Santos, Pereira Leite e William Gerard Pott, num famoso processo jurídico conhecido pelo «Caso dos Padres do Macúti» em que dois prelados católicos, detidos na Beira pela PIDE/DGS no âmbito duma conspiração engendrada por Jorge Jardim, eram acusados da prática do “crime contra a harmonia racial”, algo não contemplado no Código Processual então em vigor na colónia portuguesa do Índico. Desiludido com a política seguida pelo regime da Frelimo, mormente no tocante à perseguição movida contra as minorias étnicas do país, Carlos Adrião Rodrigues optou por se demitir do cargo para o qual havia sido nomeado pelo governo de Samora Machel. Idênticos passos viriam a ser dados por outros membros daquele grupo de pressão, como Pereira Leite, Sérgio Espadas, entre outros. William Gerard Pott, causídico moçambicano oriundo da Zambézia, viria a ser detido pelo SNASP.
Como consequência dos maus tratos e sevícias de que fora alvo por parte da polícia política, Pott viria a falecer poucas semanas depois, vítima de colapso cardíaco.

A seguir se transcreve o texto integral da carta de demissão que Carlos Adrião Rodrigues endereçou ao Presidente Samora Machel:

Carlos Adrião Rodrigues
Rua de Infantaria 16, n° 103 2° Dto.
LISBOA

Exmo. Sr.
Presidente da República Popular de Moçambique
Excelência,
Venho apresentar a V.Exa a minha demissão do cargo de Vice-governador do Banco de Moçambique.
Em resumo as razões que me levam a tomar esta decisão, são as seguintes:
1. - A política de afastamento das minorias étnicas residentes em Moçambique. Esta política - cuja determinação voluntária por parte do governo não me oferece dúvidas e é facilmente demonstrável - além de pôr em causa a existência de uma sociedade pluriracial em Moçambique, em que eu pessoal-mente apostara, empurrou o país para o caos económico e social.
Por virtude de uma injustiça decorrente da situação colonial, mas que ao governo revolucionário seria fácil corrigir, parte importante dos conhecimentos necessários ao país estavam concentrados nessa gama populacional (brancos, indianos, chineses e mulatos).
Ora, grande parte dessas minorias étnicas ficaria no país, caso lhes fossem dadas determinadas garantias básicas (direito a não ser preso excepto nos casos permitidos por lei, respeito pela sua propriedade pessoal, garantias de julgamento rápido e de defesa em caso de prisão legal, respeito da sua identidade cultural própria.
Em troca destas garantias fundamentais (que não seriam uma excepção porque se deveriam aplicar a toda a população) elas dariam ao país o seu trabalho, que enquadrado numa economia socialista, era essencial para o arranque económico.
Em vez de se aproveitar essa parte da população, preferiu-se acossá-la. Multiplicaram-se as prisões arbitrárias, as violências verbais, o des-respeito pelos bens pessoais. Procurou-se substituir essa população pelos cooperantes e por uma apressada formação de quadros, mais apregoada que executada.
Escorraçou-se do país para fora homens que eram absolutamente insubstituíveis, para já, e que num outro contexto teriam ficado. Lembro só para exemplo os quadros agrícolas e veterinários escassos mas extremamente impor-tantes, apostados em ficar mas que um a um se foram embora, bem contra vontade; os quadros de geologia e minas, falsamente acusados de desvio de ouro, nas primeiras páginas dos jornais locais, e que depois de se ter constatado a sua inocência jamais mereceram uma reparação.
Os Zecas Russos, os Macamos e outros marginais ainda em circulação foram promovidos a autênticos heróis nacionais, só porque espoliavam as pessoas de seus teres e haveres o que, parece, era considerado altamente patriótico e revolucionário. Verdade que eles espoliavam as maiorias e as minorias, o que resulta em fraco consolo para umas e outras.
E, neste caminho, acabou-se na pequena truculência anti-branco ou anti-mulato, como foram os casos da expulsão dos agricultores brancos do Vale do Limpopo - gente pobre que trabalhava a terra - e a expulsão dos chamados “comerciantes de nacionalidade” isto é, de pessoas que ao abrigo de uma lei ridícula e que devia ser revogada, mas que existia e tinha sido publicada pelo governo da República Popular de Moçam-bique, tinham mudado de naciona-lidade, para se garantirem um pouco mais contra as arbitrariedades que apontei. Ora, esta expulsão veio afectar a economia do país, na medida em que afastou os últimos operários com alguma especialização e de capacidade de direcção que não fossem negros. E quanto a estes últimos ainda está por fazer o balanço dos que fugiram. Mas segundo me consta, a zona do Rand, na África do Sul, está cheia de carpinteiros, mecânicos, electricistas, operários da construção civil, fugidos de Moçambique.
Durante muito tempo conven-ci-me que esta política era, não uma política mas sim erros, próprios do processo. Ou tentei convencer-me. Mas a constância dos erros e sobretudo o reforço da posição das pessoas que eram o esteio desta política, surgido do 3° Congresso, convenceu-me que se tratava de uma política sistematicamente prosseguida. Ora eu tinha apostado noutra: a manutenção das minorias étnicas, o respeito pelos seus direitos, mas contrariando severamente todos os privilégios que, indiscutivelmente os beneficiava.
E Moçambique, porque um país onde tais minorias étnicas eram em número reduzido, podia ser o laboratório experimental de uma política que me parecia poder ser exemplo extremamente importante para a África Austral.
Por outro lado a força e o prestígio da FRELIMO permitiam-lhe fazer a experiência. Não se fez e o resultado está à vista: o fracasso económico, e a redução quase a zero das possibilidades de recuperação; um profundo desengajamento do povo, tanto no trabalho da construção do país como na actividade política; uma cada vez maior dependência da África do Sul que hoje, mais que no tempo colonial é a grande fonte das nossas disponibilidades externas e o grande fornecedor dos bens de consumo essenciais que a nossa produção reduzida torna vitais.
2 - Convencido como fiquei de que a sobrevivência das minorias étnicas e o projecto de uma sociedade pluri-racial estavam condenados em Moçambique em virtude da política prática seguida - que contrariava a linha política anunciada - cheguei à conclusão que eu, como branco e ainda por cima não nascido em Moçambique, não tinha lugar nessa sociedade, pelo menos enquanto não mudar a sua praxis e não se decidir a assumir como sua toda a população (que era escassa) habitante do território. Portanto saio. Creia que não lhe minto se lhe disser que o faço com a morte na alma.
E saio já porque também devo pensar um pouco mais em mim e que os meus anos se vão passando para iniciar vida nova utilmente noutro país.
3 - A pressão sobre as minorias não resultou em qualquer benefício para a maioria. Antes pelo contrário - a quebra na produção e a incapacidade de recuperação que se nota em quase todos os sectores da economia, fazem prever um acentuado decréscimo no nível de vida da população.
Postas as razões convém-me ainda esclarecer que considero V.Exa ainda hoje, apesar das reservas expostas à política seguida, como o mais autêntico representante do povo moçambicano, o verdadeiro líder nacionalista de que Moçambique precisa.
Por outro lado, e como vacina contra boatos, quero afirmar que nas minhas actuações sempre procurei defender com toda a honestidade os interesses que me foram confiados por Moçambique. Mas a corrupção a alto nível dentro do aparelho de estado existe, e dela tive confirmação em Lisboa.
Pelas razões que exponho para a minha saída, acho ser meu direito, e também meu dever, pedir a V.Exa que autorize a saída dos meus bens pessoais que me fazem mais falta e que só com dificuldade poderia substituir: mobílias, electrodomésticos, livros, discos e um carro Simca 08-75, com 5 anos de uso. Caso V.Exa autorize, pessoa amiga, que indico ao Cassimo, tratará das demarches necessárias. Mas se V.Exa achar que não deve autorizar, também passarei sem elas. Aceite V.Exa os cumprimentos meus e de minha mulher e os nossos desejos das maiores prosperidades para o Povo Moçambicano.

(Carlos Adrião Rodrigues)

18-03-2006

RECORDANDO: Cahora Bassa Inicia Pagamento a Portugal

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A dívida

A Hidroeléctrica de Cahora Bassa começou a pagar a Portugal a sua dívida de 2,5 mil milhões de dólares (2,57 mil milhões de euros), tendo já entregue uma tranche de 15 milhões de dólares ((15,4 milhões de euros), o que ocorre pela primeira vez em 30 anos de história da empresa luso-moçambicana. Hoje, o fornecimento de energia à República do Zimbabwe surge como a principal fonte de receitas da barragem hidroeléctrica, cujo principal cliente é a África do Sul.
A iniciativa de entregar 15 milhões de dólares ao Estado português, a título de amortização da dívida, assume carácter simbólico, na medida em que é a primeira vez que Cahora Bassa - que ficou operacional para vender energia em 1977 - está em condições de "honrar" os seus compromissos financeiros, desde que recomeçou a funcionar há cinco anos. A dívida total contraída junto de Portugal ronda 2,5 mil milhões de dólares e foi assumida durante a guerra em Moçambique, entre a Renamo e a Frelimo, que obrigou a sucessivas obras de recuperação, assim como à paralisação da actividade, impedindo a sua viabilização económica. Durante este período, Portugal, por via do seu orçamento de Estado, suportou as despesas internas, os juros da divida, bem como os trabalhos de recuperação do empreendimento.
Nesta fase, a República do Zimbabwe aparece como a principal fonte de receitas anual de Cahora Bassa, apesar da África do Sul ser o país que mais importa energia de Moçambique - o Zimbabwe paga à empresa luso-moçambicana cerca de nove vezes mais do que a África do Sul. De acordo com a administração da Hidroelétrica de Cahora Bassa, presidida por Carlos Veiga Anjos, os pagamentos a Portugal podem manter-se regulares desde que as relações comerciais com o Zimbabwe se mantenham estáveis e desde que ultrapassado o diferendo com Pretória, quanto aos termos financeiros do contrato de fornecimento de electricidade à África do Sul, nomeadamente, o preço das tarifas de energia.
Cahora Bassa, tem a sua sede no Songo, e é detida em 82 por cento pelo Estado português e em 18 por cento pelo moçambicano - construída numa "garganta" (parte do vale mais apertada) do rio Zambeze, a barragem é formada por uma parede de betão com 160 metros de altura e 303 de comprimento. Apresenta 450 mil metros cúbicos de betão e uma albufeira com 270 quilómetros quadrados com capacidade para receber 52 mil milhões de metros cúbicos de água. A construção de Cahora Bassa foi posta a concurso em 1967.
PÚBLICO - 07.07.2002

17-03-2006

Lisboa e Maputo estão empenhados no desenvolvimento sector energético

O ministério das Finanças assegurou hoje que os governos português e moçambicano estão empenhados no desenvolvimento do sector energético de Moçambique, tal como prova o acordo hoje alcançado da transferência do controlo da Hidroeléctrica de Cahora Bassa para Moçambique.
Num comunicado conjunto hoje emitido em Lisboa, o ministério das Finanças confirma que Portugal e Moçambique concluíram as negociações técnicas que permitirão a assinatura do acordo final para reversão da Hidroeléctrica de Cahora Bassa para Moçambique em data a fixar, de acordo com o comunicado conjunto entre as delegações dos dois países.
Moçambique passa de uma posição de 18 para 85 do capital da HCB e Portugal reduz dos actuais 82 para 15 por cento.
O executivo de Maputo deverá pagar uma dívida de 787,4 milhões de euros a Portugal em compensação pela construção e manutenção da barragem construída durante o período de colonização portuguesa a Moçambique, terminado em 1975, ano da independência do país.
Em 2005, o ministério das Finanças tinha dito à agência Lusa que esta operação teria um impacto nulo no défice público português, porque seria tratada como uma privatização.
O Governo português deve recorrer a uma excepção nas regras do Eurostat (SEC 95) que prevê que um Estado possa anular ou assumir dívida de uma empresa pública num processo de privatização, sem que isto seja contabilizado no défice.
Esta é uma excepção à regra que determina que quando um Estado anula dívida, a operação deve ser registada nas contas públicas, porque é uma transferência de capital, ou seja, corresponde a reconhecer que o Estado abdica de receber a dívida a que tinha direito, pelo que tem reflexos negativos no défice público.
A agência Lusa tentou confirmar se o registo contabilístico da operação está acordado desta forma, mas até ao momento, o Ministério das Finanças não respondeu.
NOTÍCIAS LUSÓFONAS - 17.03.2006
NOTA:
Resta saber então quem financiou Moçambique.
O Ministro Fernando Teixeira dos Santos afirmou em Novembro passado "...que (não) se esteja perante um perdão de dívida, mas sim face a uma situação de custos irrecuperáveis, associados à situação de guerra vivida por Moçambique. Em termos técnicos pode considerar-se estar perante um tipo de operação harmónio, ou seja, redução de capital com diminuição de posição accionista." Ora se o estado Português abdica de "receber a dívida", há ou não perdão?

Fernando Gil
MACUA DE MOÇAMBIQUE

16-03-2006

Quem são os heróis?

Contribuições para a História de Moçambique por Marcelino Síthole

É uma pergunta, que vem ao espírito de quem acaba de ler o relatório de Fanuel Guidion MAHLUZA, que o «Canal de Moçambique» publicou há dias.

Mahluza apressou-se a escrever (em inglês) e enviar para «Amnesty International» (Amnistia Internacional) este relatório, pouco depois de chegar a Nairobi, em proveniência do campo de "reeducação" de «Ruarua», planalto de Mueda de onde se tinha evadido, a 27 de Agosto de 1977, com Artur Janeiro da Fonseca, Atanásio Filipe Muhate e Lumbela.

Cansado pela viagem e traumatizado pelas privações e a perda de dois dos companheiros de evasão, a principal preocupação de Mahluza era a sorte dos numerosos combatentes da liberdade, estudantes e intelectuais, que a FRELIMO tinha internado nos seus campos de concentração, oficialmente designados por campos de "reeducação". Como se sabe, também o governo de Hitler, na Alemanha, tinha designado os seus campos de concentração e exterminação por campos de "trabalho": Die Arbeií machlfrei! (O trabalho liberta!), era a divisa destes campos.
CANAL DE MOÇAMBIQUE - 16.03.2006
Leia tudo em:
Download contribuies_para_a_histria_de_moambique_quem_so_herois.doc

Veja a Sétima Parte NA MÃO DOS ALGOZES de URIA SIMANGO - UM HOMEM UMA CAUSA em:
http://www.macua.org/livros/NASMAOSDOSALGOZES.htm

Conheça em:
http://fotw.fivestarflags.com/mz-polit.html

Recorde em:
http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2006/03/contribuies_par.html

15-03-2006

Ilha: Capela da Nossa Senhora do Baluarte

A pequena capela de Nossa Senhora do Baluarte é a primeira instalação cristã na Ilha de Moçambique e, portanto, em todo o Moçambique. Singela é certo, é o primeiro (e único, diz-se) exemplar do estilo manuelino na África Oriental. Está lá bem na ponta da ilha, até para além da fortaleza, pequeno promontório. Olhando/orando (a)o mar.
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Acompanhando a degradação da cidade de "pedra-e-cal" a capela foi-se deteriorando. Há cerca de 10 anos foi recuperada, um financimento da Comissão dos Descobrimentos portugueses, como antes informava uma placa, entretanto retirada (eu sorrio. Se tivesse sido um qualquer financiamento "sueco" e ninguém se lembraria de arrancar a placa, mas isso são outras histórias). De meu conhecimento as instituições portuguesas financiaram até hoje esta recuperação (por via da importância do manuelino, creio; e do simbólico, a primeira igreja em Moçambique, o extremo norte da ilha) e uma intervenção no Palácio de S. Paulo, actual Museu da Ilha. Pouco, muito pouco, para um Estado e uma sociedade tão ligados a este património mundial.
Quanto à capelinha não posso deixar de resmungar. O pobre coitado que teve a ideia de a recuperar (por catolicismo? por lirismo?) esqueceu-se de prever o seu futuro acompanhamento, de o desenhar, de o associar a um enquadramento institucional. Deve ter sido arranjar o financiamento, cortar a fita e ficar contente, ufano ... Saberia ele, não teria ele obrigação de saber?, da necessidade de caiar a capela todos os anos (pelo menos, correcto, correcto, será duas vezes por ano)? E de acompanhar o seu estado?
Como chega essa gente aqui?
Bem, templo vandalizado é templo importante, isso é universal. Este apontamento não está como denúncia, mas como sinal da vida da zona. Foi quebrada na crença de se encontrar ouro. Como tal não aconteceu as outras sepulturas ficaram intactas. Já o mesmo não poderei dizer do desaparecimento das ossadas que habitavam a sacristia, em caixa aberta. Os que recuperaram, os que acompanharam a recuperação, terão eles achado por bem deixar ossos "à mão de semear"?]

Retirado do blog Ma-Schamba http://maschamba.weblog.com.pt/
Releia:
http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2005/11/moambique_turst.html

14-03-2006

Contribuições para a história de Moçambique

Mahluza_fatenda1Irene_buque
A carta que mais abaixo ides ler é prova mais que provada que o conluíu MFA (Melo Antunes/Mário Soares/Almeida Santos) com a FRELIMO já há muito existia.
Sempre pelos descolonizadores portugueses foi referida apenas a existência de um único movimento armado em Moçambique quando existiam dois: a FRELIMO e a COREMO.
Eis agora a explicação de como a COREMO foi silenciada, com a ajuda da Zambia e da Tanzânia.
Já faleceu o autor da carta e está sepultado em Moçambique.
Quanto ao destino de muitos dos nomes referidos, sabemos o que lhes aconteceu no campo de Mtelela e em outros locais: FORAM ASSASSINADOS SEM JULGAMENTO.
Leia a carta publicada hoje no CANAL DE MOÇAMBIQUE em:
Download contribuies_para_a_histria_de_moambique_mahluza.doc
NOTA:
A foto da esquerda é de Mahluza na Gorongoza e a da direita de Irene Buque
Fernando Gil
MACUA DE MOÇAMBIQUE

08-03-2006

Quem se lembra da Praça 7 de Março de Lourenço Marques?

Rufino_lm_kiosque
Denomina-se hoje, em Maputo, como Praça 25 de Junho.
Mas porquê 7 de Março?
Socorrendo-me do livro de João Craveirinha "MOÇAMBIQUE FEITIÇOS, COBRAS E LAGARTOS!", ficamos a saber que:
"A povoação de Lourenço Marques passa a ter estatuto de vila em 1876.
No dia 7 de Março de 1877 um corpo expedicionário de engenharia das Obras Públicas portuguesas desembarca em Lourenço Marques, vindo a bordo do navio África (o mesmo que anos mais tarde transportaria Gungunhana). Este famoso corpo voluntário de engenheiros era chefiado pelo engenheiro militar coronel Joaquim José Machado (mais tarde chegaria a general e a governador geral); veio com a missão de planificar e edificar a futura cidade. O nome da vila de Machadodorp, no Transval, foi dado em sua homenagem. Joaquim Machado foi o responsável pela conclusão do Caminho de Ferro de Lourenço Marques que fez a ligação com Pretória, "resultando num autêntico êxito da engenharia portuguesa". Esta expedição foi enviada de Lisboa por João de Andrade Corvo, grande visionário colonial. Foi ministro da Marinha, do Ultramar e dos Negócios Estrangeiros de 1867 a 1886 "intercaladamente".
Em 6 de Setembro de 1877 toma posse o primeiro presidente da Câmara Municipal de Lourenço Marques, almirante Augusto Vidal de Castilho Barreto e Noronha, também governador. Foi activo na resolução do diferendo luso-inglês sobre a Baía de Lourenço Marques, que culminou com a sentença favorável a Portugal, proferida em Versalhes a 24 de Julho de 1875 pelo presidente francês marechal Mac-Mahon, duque de Magenta. Augusto de Castilho, no conflito dos caminhos-de-ferro (CFLM), teve um grande tacto político-diplomático."
NOTA:
Embora a efeméride tenha sido ontem, só hoje tive tempo de a ela me referir. Na foto a Praça 7 de Março em 1929, num trabalho de Santos Rufino.

Desenvolvimento Integrado de Moatize

“Companhia Vale do Rio Doce” beneficia de várias isenções
(Maputo) A “Companhia Vale do Rio Doce” que tem como projecto âncora a exploração de minas de carvão em Moatize, na província de Tete, goza de vários incentivos fiscais e cambiais que o Governo de Moçambique acaba de conceder-lhe. Eles estão estampados no Decreto nr.51/2005 de 20 de Dezembro em BR que acaba de ser publicado pela Imprensa Nacional.
O projecto consiste em trabalhos de prospecção e pesquisa de carvão e desenvolvimento das respectivas infra-estruturas bem como a realização de estudos com vista à instalação de outras actividades, nomeadamente, fundição de alumínio, central eléctrica, fábrica de ferro-ligas, siderurgia, fábrica de cimento, fábrica de coque, fábrica de carvão vegetal e produção de bio-diesel.
A referida companhia brasileira vai também beneficiar de incentivos fiscais na realização de projectos de carácter social.
A primeira fase do projecto tem o seu término fixado para Novembro de 2006. Em caso de ocorrer qualquer prorrogação ao prazo dos trabalhos será também, igualmente, prorrogado o prazo da validade dessa fase do projecto em que vigoram os incentivos fiscais, refere o decreto.
O projecto será implementado pela empresa “Rio Doce Moçambique, limitada” registada em Moçambique e associada do grupo brasileiro CVRD – Companhia Vale do Rio Doce.
Foram aprovadas as seguintes isenções fiscais ao “projecto “Rio Doce Moçambique – Desenvolvimento Integrado de Moatize”:
Isenção do pagamento de direitos aduaneiros devidos na - importação de equipamentos, aparelhos, materiais, sobressalentes e viaturas para a prospecção e pesquisa ou exploração mineira.
Ainda nesta operação de importação dos referidos bens, a empresa estará isenta do pagamento do IVA (Imposto sobre o Valor Acrescentado) e do Imposto sobre Consumos Específicos.
O decreto autoriza também a importação temporária de bens de equipamentos, aparelhos, utensílios, ferramentas e máquinas mediante a prestação de garantias, nomeadamente Termo de Responsabilidade.
A empresa está isenta de Imposto sobre Rendimentos resultantes da aplicação de capitais (taxa liberatória), a título de financiamento de terceiros.
Vai também ter direito a redução da taxa de retenção na fonte estabelecida no Código sobre rendimentos das pessoas Colectivas (IRPC), para 5%, aplicável sobre o rendimento concernente aos serviços adquiridos a fornecedores estrangeiros destinadas ao projecto.
Fica ainda isenta do pagamento do SISA na transmissão de propriedade do Estado a favor da companhia, assim como beneficiará da redução em 50% da taxa de SISA na aquisição de imóveis quando estes destinarem-se exclusivamente à implementação do projecto.
Projectos sociais
Na realização de projectos sociais, a Companhia Vale do Rio Doce terá isenção do pagamento de direitos aduaneiros devidos na importação de equipamentos, aparelhos, materiais, sobressalentes e viaturas, estando isenta de pagar o IVA e o Imposto sobre Consumos Específicos (ICE) em “conformidade com as disposições dos códigos do IVA e do ICE”.
Regime cambial
O projecto vai gozar também de um regime cambial especial para abertura e movimentação no exterior de contas que tenham apenas por finalidade “proceder ao pagamento de despesas de investimento, incluindo os empreiteiros; garantir o pagamento de empréstimos e juros e custos operacionais, bem como efectuar pagamentos a empresas seguradoras ou seus agentes”. (J.C.)

07-03-2006

Linha d'água: Aplausos a quem os merece

Por Luís Loforte
TREMOR DE TERRA
Como muitos cidadãos, também abandonei os aposentos e me postei na rua quando há dias a terra sentiu arrepios. Entre toda a sorte de episódios que cada um tinha para contar sobre a forma como percepcionou o fenómeno, lá via os citadinos aguardando de ouvido colado ao “transístor” por vozes mais autorizadas para lhes falarem um pouco mais acima dos seus conhecimentos. Debalde. À hora daquele acontecimento, os que mais sabem dormiam ou viviam o desespero com os leigos. Pior ainda, os que deveriam indagar, ... também dormiam.
O rádio também me não saía do ouvido, mas devo assinalar que pouco dele me servi, à excepção de alguns assomos de informação proporcionados por um locutor da RM um pouco antes da uma hora da madrugada, mas apenas para nos dizer que a todo o momento teríamos notícias mais elaboradas sobre o tremor de terra. E pouco mais.
De regresso à casa resolvi mesmo desligar o receptor de rádio e lá fui fazendo alguns “zappings” pelos canais disponíveis na televisão. Surpreendeu-me positivamente encontrar a STV com as emissões retomadas, tentando informar e informar-se, quando à minha saída precipitada a deixara em simultâneo com a BBC World, como é seu hábito. À hora em que as coisas se passaram, não se esperavam grandes primores por parte da STV e muito menos o ideal, mas ao menos tentava o melhor. A pública, essa, ressonava ao som das diáfanas barras policromáticas.
Fechara e pronto, nem que o céu desabasse sobre nós. E foi então que me deu a pensar que vinte e cinco anos não só podem mudar gerações de homens, como também mudar mentalidades de gerações de jornalistas. Veja-se apenas um exemplo neste mesmo nosso solo pátrio:
Em 1980, Moçambique vivia no silêncio a pior seca depois da sua Independência. No silêncio porque em tempo de lançamento das bases ideológicas em nada interessava dizer que centenas de pessoas morriam à míngua de água e de comida. Afinal, todos deveríamos saber que o socialismo era a panaceia de todos os males. O que diria o mundo expectante das nossas capacidades?
Era o tempo em que as coisas só aconteciam depois que o chefe as visse e dissesse que as viu e como as viu. Depois disso, sim, todos as viram. Tal como em certa medida hoje, o problema é que todos ficamos à espera que o chefe não só diga, como também nos dê a dose e a forma em que as coisas devem ser informadas. Exemplo recente foi com o imbróglio das caricaturas, onde todos, sem excepção, foram ao reboque do governo, inclusive por parte do próprio sindicato de jornalistas. Mas eu falava da seca de 1980.
Naquele ano, todos os estudantes universitários foram chamados a envolver-se no primeiro recenseamento geral da população depois da proclamação da Independência. Marcelino Alves, também colega na Rádio Moçambique, foi destacado, ao que julgo, para integrar as brigadas de Inhambane, zona fortemente afectada pela seca e onde, como mais tarde viríamos a saber, as pessoas morriam às centenas.
Perante o infortúnio, Marcelino mandou às urtigas o censo e começou a mandar “despachos” por todos os meios ao seu dispor sobre os dramas da estiagem.
Ouvia-o eu estando na longínqua Mocímboa da Praia, em Cabo Delgado. E foi assim que a dramática seca de 80 passou a fazer parte do quotidiano da informação nacional, os governantes começaram a fazer “briefings” e o país despertou para o desastre social que os “responsáveis” sabiam, mas esperavam por “orientações superiores”.
Para os que não sabem, naqueles anos falar ao telefone era um autêntico sortilégio. Hoje, apesar de toda a parafernália de meios de comunicações ao nosso dispor, onde avultam os celulares, os quais até os vendedores de amendoim nas esquinas os têm de sobra, poucos são os jornalistas que conseguem pôr em tempo útil uma notícia de que o público está necessitado. E isto faz com que nos recordemos do preceito primordial de um jornalista perante um acontecimento: antes de mais, tomar uma atitude.
Atitude essa, afinal, que faltou até nos que a isso eram obrigados, mas que sobrou naqueles que a isso não eram obrigados, designadamente a STV, que foi, a todos os títulos, credora dos nossos maiores encómios.
Aplausos, pois, a quem os merece. Mas aqui a lembrança de que é assim que uns perdem e outros fixam as audiências. Tomara: se uns têm-no garantido todos os meses (e até por via compulsiva), os outros têm que fazer de tripas coração para tê-lo!
CORREIO DA MANHÃ(Maputo) - 07.03.2006

ILHA DE MOÇAMBIQUE - Onde está o dinheiro?

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Como todos sabem sou natural da Ilha de Moçambique, único lugar do mundo onde todos os habitantes eram amigos. Amigos sem distinção de cor ou credo. Esta é a verdade!

Visitei-a em Novembro passado (agora resido em Portugal) e os amigos que lá tinha continuaram a ser os amigos que lá tenho. Isto é, os poucos que lá ficaram.
Foi com tristeza que verifiquei que pouco ou nada ainda se havia feito para a reabilitação de tão ímpar lugar. Reabilitação física e humana, continuando a suportar uma carga excessiva de população residente.
E lembrei-me desta notícia aqui publicada em 16 de Junho de 2004:

"A fortaleza de São Sebastião, na Ilha de Moçambique, vai ser recuperada graças a um projecto da UNESCO financiado pela cooperação japonesa e pela União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA).
A fortaleza foi construída para defender o caminho marítimo para a Índia.
O projecto está orçado em 1,6 milhões de dólares, sendo um milhão financiado pela cooperação japonesa e 600 mil (500 mil euros) pela UCCLA que assina hoje, em Lisboa, o contrato com a UNESCO."

Foi-me garantido que até hoje nem um metical ali havia chegado.

Será que alguém o tem a render? Que afinal não foi doado? Quem explicará?
Fernando Gil
MACUA DE MOÇAMBIQUE

05-03-2006

A HISTÓRIA SECRETA DO IMPERADOR VÁTUA: GUNGUNHANA

Gungunhana "era filho do rei de Portugal!".
Assim foi apresentado o dono do vasto império vátua - que no século XIX englobava grande parte do território de Moçambique - na cerimónia que assinalou os 110 anos da batalha de Chaimite, decorrida no passado dia 28 de Dezembro, no Museu Militar, em Lisboa.
O que aconteceu então para que este "filho do rei de Portugal", admirado e respeitado tanto pelas tribos nativas como pelas potências estrangeiras da altura, tenha sido capturado e enviado para Lisboa onde foi humilhado e vergonhosamente exposto à população após a sua chegada?

Texto de Sílvia Fernandes
Fotos de Gil Garcia e Arquivo Pessoal

A resposta surgiria no decorrer da própria cerimónia no Museu Militar, através do orador, coronel Américo José Henriques. Entre a assistência, sentados lado a lado, os descendentes de Gungunhana e de Mouzinho de Albuquerque, o imperador africano detido e o oficial português que o deteve. Um cenário que muitos defendem ser possível apenas entre os portugueses, cujos laços amigáveis criados com os povos em tempos colonizados prescindem de teorias, estudos e discursos políticos, podendo ser facilmente testemunhados em momentos como este. ... ... ...
Leia tudo em
Download gungunhana_magazine.pdf

In Magazine - Grande Informação de Fevereiro de 2006
Veja também
http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2005/12/1895_28_de_deze.html

02-03-2006

Heróis de ontem, de Hoje e do Amanhã

Será este debate um tema para a ordem do dia?
Se quisermos ter resultados mais apalpáveis, a comissão criada pelo Governo deveria incluir a participação da Renamo como maior partido da oposição representado na Assembleia da Republica, partidos extra parlamentares sociedade civil e religiosa; pois apesar dos pesares o debate seria mais transparente e credível.
Moçambicanos de todos os quadrantes, foram surpreendidos ao serem chamados numa altura em que Pais se debate com as fúrias das águas, a contribuir para este debate que só hoje a Frelimo entendeu por em cima da mesa.
Está na hora de forte união, regada pelo sentimento nativista, para darmos um basta a toda a espoliação e miséria de todas as formas que atingem o Pais, com o sentimento traduzido pelo mais puro nacionalismo, o nacionalismo aberto, aquele que é derivado do Amor à Pátria, eivado do mais profundo sentimento da Moçambicanidade e que coloca, em primeiro lugar, os interesses nacionais e não partidários; onde não se admitem exclusões de ordem politica, social económica, tribal, religiosa, e racial.
Povo é o único pelo seu peculiar caldeamento... ... ...

Leia o texto completo em
Download herois_linnete.doc

Linette Olofsson
Deputada Suplente
Circulo Eleitoral Zambézia

28-02-2006

CAMPO DE INSTRUÇÃO MILITAR DE BOANE

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Fomos e ainda são milhares os "passantes" do Campo Militar de Boane: portugueses e moçambicanos. Eu fui um deles. E considero aquele local como o primeiro "cadinho" da formação de um novo espírito de ser moçambicano.

Conheça a sua história, contada pelo Cor. Abranches Pinto, em:
http://www.macua.org/livros/boane.html

Fernando Gil
MACUA DE MOÇAMBIQUE

Contribuições para a história de Moçambique por Uria Simango (Novembro, 1974)(2)

Após ler o artigo com o título acima (ver http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2006/02/contribuies_par.html) mais uma vez confirmo que Mário Soares, Almeida Santos e outros nunca disseram a verdade sobre a descolonização de Moçambique.
A quase totalidade dos portugueses e moçambicanos julga que o único movimento armado em Moçambique era a Frelimo, o que não é verdade, pois a COREMO, especialmente em Tete estava activa há já bastante tempo. Não fossem os conluíos com a Frelimo e com a Zambia,também com este movimento armado se teria que dialogar em pé de igualdade com a Frelimo. Em Angola tiveram os descolonizadores que aceitar 3 movimentos. Não fora a ajuda da Zâmbia e assim teria sido em Moçambique com 2 movimentos armados.
Muito me admira também que todos os historiadores portugueses, para já não falar dos moçambicanos, tenham escamoteado esta verdade. Custa-me dizê-lo: estarão todos vendidos?

Fernando Gil
MACUA DE MOÇAMBIQUE

MOÇAMBIQUE ACOLHE PRIMEIRO FESTIVAL INTERNACIONAL DE TURISMO CULTURAL

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Moçambique vai acolher o Primeiro Festival Internacional de Turismo Cultural de 28 de Agosto a 10 de Setembro deste ano. A iniciativa denominada "Avante Moçambique" visa continuar a colocar o país no mapa turístico mundial.
O lançamento do Primeiro Festival Internacional aconteceu ontem num dos hoteis da cidade de Maputo.
O evento, considerado espectacular e histórico, vai celebrar a paz que já dura há mais de dez anos no país e, ainda, celebrar a harmonia social e solidariedade internacional, expor a variedade de culturas em diversos pontos identificados como destinos turísticos.
Pretende-se igualmente apresentar e promover as potencialidades culturais de Moçambique, envolvendo vários grupos étnicos, através da sua cultura.
O festival vai ser marcado por várias realizações, desde concerto musical internacional, que vai juntar artistas moçambicanos da velha e nova gerações, de africanos, e do resto do mundo, bem como prestar tributo aos heróis e campeões a vários níveis, celebrar a arte tradicional e cultura das dez províncias de Moçambique, exposição de artes visuais e apresentação de cinema moçambicano e seminários.
O Ministro do Turismo considera que o evento se reveste de grande importância para o Governo de Moçambique, uma vez que, vai criar maior visibilidade projectando o país além fronteiras e estreitando mais a amizade com parceiros internacionais na área de turismo.
O primeiro festival internacional de turismo cultural vai coincidir com o período da Feira Internacional de Maputo, FACIM, momento considerado de mais valia para o país sob ponto de vista turístico.
A realização do festival já tem comité de organização que integra Egas Mussanhane, António Maló, Leonardo Simão, Salomão Manhiça, Reverendo Arão Litsuri, Américo Magaia e Renato Matusse.
O Presidente da República, Armando Guebuza, é o patrono do evento que conta com o patrocínio dos Estados Unidos da América
STOP - 28.02.2006

Cahora Bassa - A "reversão"

A dar fe ao que aqui se diz, confirma-se o meu cepticismo em relacao a esta "segunda independencia do povo mocambicano". Nao percebo como uma operacao visando a reversao da posicao accionista de 82 para 18; para 15 e 85%, de accoes detidas por Portugal e Mocambique, respectivamente. Pior ainda se tomarmos em consideracao que se trata de um empreendimento que:

a) E o maior que Portugal jamais realizou, no "ëxterior";
b) Desde a sua construcao, Portugal nao produziu o retorno que seria de esperar do volume de investimentos (a estabilidade politica actualmente prevalescente em Mocambique, cria alguma expecativa de que o cenario mude), mesmo tendo em linha de conta que a HCB nao perseguia objectivos meramente economicos, mas principalmente estrategicos, como forma de estancar a luta de libertacao nacional da FRELIMO, nao so sob o ponto de vista militar como tambem no diplomatico no concerto das nacoes ( a guerrilha deixaria de ter "sentido", etc. ect.....).Alias, Marcelo Caetano, se a minha memoria nao me atraicoa no seu livro "O meu compromisso", escrito e editado durante o seu exilio no Brasil, apos o 15 de Abril, que deu origem a chamada Revolucao dos Cravos.

Por conseguimte, ou os ilustres dignatarios das partes "estavam distraidos" ou a "reversao"nao passou de uma operacao de charme para o ou os eleitorados.
Queira Deus que esteja redondamente errado. A ver vamos.
Santos Chitsungo
In Moçambique Online

Veja:
http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2006/02/eurostat_acompa_1.html
http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2006/02/cahora_bassa_st.html

Contribuições para a história de Moçambique por Uria Simango (Novembro, 1974)

Um alerta que o mundo desconheceu
Situação actual em Moçambique
De modo a informar todos aqueles que se interessam pelos acontecimentos em Moçambique, decidi escrever estas breves linhas na esperança de que elas possam vir dar uma visão geral da situação.
O golpe de estado de 25 de Abril em Portugal, foi seguido de promessas dadas pela junta militar dirigida pelo General Spínola de que às colónias iria ser conferida a liberdade de escolherem o seu futuro. Deste modo, a independência seria concedida após eleições gerais, nos princípios de 1975, em que todos os partidos políticos poderiam participar. Com efeito, foi concedida uma amnistia a todos os políticos e aos movimentos de libertação, autorizando-se o seu regresso aos seus respectivos países de forma a terem a oportunidade de expressar os seus ideais antes das eleições.
Leia tudo:
Download contribuies_para_a_histria_de_moambique_por_uria_simango.doc

CANAL DE MOÇAMBIQUE - 28.02.2006

25-02-2006

Cahora Bassa still stalled

MOZAMBIQUE/PORTUGAL

In spite of pressure from the Mozambican government, the matter of handing back to Mozambique the majority of the equity of Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB, the firm operating the dam of the same name) was not settled before the presidential election in Portugal last month. The government of Maputo will therefore have to continue negotiating this matter with the new President of Portugal, Anibal Cavaco Silva, who is to take up his functions at the beginning of March. President Armando Guebuza of Mozambique has already informed his Portuguese opposite number that he is concerned about the delays being built up in completing this issue, which should have been closed by December 2005. The Mozambican authorities are all the more disquiet since certain people close to Cavaco Sliva could now find themselves in jobs of advisor and blow hot and cold on this subject. Hence, the Portuguese former Minister of Finance, Manuela Ferreira Leite is in favour of “complete and full settlement of the Mozambican debt” concerning Cahora Bassa. But on the other hand, Ambassador Martins da Cruz, a former Minister for Foreign Affairs and Cavaco Silva’s diplomatic advisor for ten years, defends a more flexible and diplomatic approach to this question. The reason is that he has in mind holding a Euro-African summit in Lisbon when Portugal holds the rotating Presidency of the European Union (EU) next year.
Indian Ocean Letter - 25.02.2006
NOTA:
- Afinal para que foi todo aquele "show off"? Estavam com medo de Cavaco Silva? Cavaco Silva não está metido em negócios de "compadres".

24-02-2006

País está interessado em receber o museu africano da escravatura

Moçambique está interessado em abrir no seu território um museu dedicado à escravatura criado em colaboração com outros países africanos, disse hoje em Paris a historiadora moçambicana Benigna Zimba.

O anúncio foi hoje avançado durante uma conferência de imprensa na Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), no final da primeira reunião do novo comité científico para a "Rota da escravatura", a que pertence Benigna Zimba.
"Queremos lançar um grande museu regional, instalado provavelmente em Moçambique ou na Tanzânia", acrescentou, indicando que vai começar em breve uma campanha de angariação de fundos.
Moçambique está empenhado em trazer este museu para o país, de forma a "dar um ênfase aos países lusófonos, porque até agora tem sido dado destaque aos países africanos anglófonos e francófonos", disse a historiadora à Agência Lusa.
Alguns dos locais possíveis para a sua instalação são a província de Inhambane, a Ilha de Moçambique ou Cabo Delgado, acrescentou Benigna Zimba, apesar de o projecto estar ainda num estado muito embrionário.
"Isto ainda vai demorar algum tempo, mas talvez em 2007 já haja algo de concreto", declarou a professora na Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo.
O museu, que pretende ser "muito interactivo" terá em exposição "cartas de pessoas sobre o comércio de escravos, fotografias, vários objectos e filmes com testemunhos de familiares de antigos escravos", exemplificou.
Este espaço deverá centrar-se na divulgação de locais e rotas menos conhecidas do comércio de escravos, principalmente no Oceano Índico, e reunir obras literárias ligadas ao tema, acrescentou.
Por outro lado, lamentou que a criação do referido museu preencha um espaço deixado vazio pelo Museu da Escravatura em Angola, que "por motivos financeiros não se desenvolveu" e hoje "não tem a dinâmica desejável", A ideia de criar um museu na região sudeste do continente africano surge no seguimento de um projecto lançado em 2001, no âmbito da campanha sobre a escravatura lançada em 1994 pela UNESCO.
Este projecto deu origem a um livro, lançado no final de 2005 em língua inglesa, intitulado "Slaves Routes and Oral Tradition in Southeastern Africa", que reúne artigos de vários autores.
"Estamos a fazer um esforço para o traduzir para português e francês", disse a historiadora, organizadora da obra, em conjunto com Edward Alpern e Allen Isaacman.
Apesar da campanha sobre a escravatura ter culminado na comemoração, em 1994, do Ano Internacional da Luta contra a escravatura e a sua abolição, a UNESCO pretende agora "reactivar o comité científico e torná-lo mais operacional", explicou o director- geral, Koichiro Matsuura, na quarta-feira, na abertura da reunião.
Matsuura defendeu a necessidade de recordar o comércio de escravos e a escravatura pois "esta tragédia continua no centro das questões polémicas actuais", nomeadamente no que respeita à construção de identidades nacionais e novas cidadanias.
Durante a conferência de imprensa, os membros do comité comprometeram-se a impulsionar o estudo da escravatura e divulgá-lo junto das novas gerações, não só nos países onde ela existiu, como nos países ocidentais.
Criticando a "História estabelecida e estratificada" que é estudada na Europa, o francês Jean-Michel Deveau lamentou a ignorância que se mantém sobre outras culturas.
"Queremos quebrar o muro de silêncio", sublinhou.
O comité científico internacional sobre a Rota da Escravatura é composto por 20 académicos e especialistas de diferentes regiões do Mundo, entre os quais se encontra a portuguesa Isabel Castro Henriques, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
NOTÍCIAS LUSÓFONAS - 24.02.2006

Adelino Chitofo Gwambe

Canal de Opinião por Luís Nhachote

Um desafio para os historiadores

Na contramão da(s) verdade(s) que se instala(m), livros e/ou documentos tem a virtude sublime de resgatar das trevas da história – ainda que da idade moderna, ou pós-modernista – elementos escurecidos que podem servir como ponto de partida para a compreensão da maneira como se constrói essa mesma História que alguns dos seus protagonistas contam quase como que a seu bel-prazer além de a pretenderem eterna. É como se vai dizendo: “a história é escrita pelos vencedores”...
Entretanto vivem-se anos, décadas, e em alguns casos séculos, debaixo de mentiras, as tais que nem sempre têm pernas curtas.
“Se não sabes de onde vens, não sabes para onde vais” reza um velho adágio que pode servir de peça chave para os historiadores e/ou pretendentes, sobre a ímpar figura do moçambicano Adelino Chitofo Gwambe.
Era um jovem que aos 20 anos de idade, funda o primeiro movimento nacionalista moçambicano (UDENAMO-União Nacional Democrática de Moçambique) que já em 1960 apontava o caminho da libertação nacional com recurso à luta armada.

A «UDENAMO» antecedera assim à criação que viria a acontecer só em Junho de 1962, da Frente de Libertação de Moçambique. E antecipou-se 4 anos à proclamação da insurreição armada que os “sobreviventes da Frente de Libertação de Moçambique” só em Setembro de 1964 viriam a perceber que era o único caminho a seguir para convencer o governo colonial a ceder aos desejos de emancipação dos moçambicanos.
Será que Adelino Chitofo Gwambe não cabe nos manuais da história? Num país que se pretende virado para a reconciliação, rumo a um futuro isento de máculas do passado, por que razão não se reconhece essa ímpar figura? Será apenas porque não fazia parte do grupo dos auto-proclamados heróis nacionais?
Será apenas porque o nome de Adelino Gwambe não cativa os detentores das ferramentas da história? Ou é antes eles estarem militantemente inibidos de o fazer, pelas benesses de que necessitam e usufruem? Será que toda uma sociedade pode continuar a acreditar em historiadores viciados no vício da sobrevivência? Conhecerão eles toda as vertentes da História para que nos apresentem uma versão incompleta como o tempo vem provando que é? Não se apercebem disso? Como assim (?) se já todos perceberam...
Dos documentos disponíveis, o então jovem Gwambe é mesmo a primeira referência do movimento de libertação nacional. Nem ele nem Mondlane terminaram a história que começaram. Mas Guwambe começou primeiro a fazer essa história. Ele tinha os ideais bem definidos, sobre aquilo que viria a ser a realização das suas aspirações. Foi apelidado de traidor por defender um caminho com que os seus confrades da primeira hora do movimento de libertação nacional se diziam em desacordo. Mas os seus detractores acabaram, quatro anos mais tarde, por seguir as suas teses.

A via armada, como, aliás, bem teorizara, Franz Fanon sobre a descolonização como um processo violento, era já a tese dos que depois foram por aí e sempre esconderam aos moçambicanos a figura de Gwambe.
Deambula entre nós, ainda, o histórico Marcelino dos Santos, que à altura da formação do primeiro movimento de libertação nacional, a UDENAMO, tinha 36 anos. Foge à verdade, chegando mesmo a ameaçar com a violência, sempre que se fala do seu ex-chefe Adelino Gwambe que, tal como Uria Simango, viriam a ser abatidos extra-judicialmente naquilo que começa a ser tido pelos cidadãos deste País como um crime de Estado.
Uria Simango – qual outro eliminado – tal como dos Santos foi também subordinado desse cérebro moçambicano jovem que um dia teve a ousadia de chefiar “os mais velhos”.
Metendo a mão na consciência, Joaquim Chissano já reconheceu, por via de uma comunicação, que foi graças às conexões com Gwambe e de Gwambe, que ele próprio chegou pela primeira vez a Dar-Es-Salam, na Páscoa de 1962, ido de Paris.
Será que Marcelino dos Santos não é capaz de meter também a mão na consciência, deixar-se de ameaçar jornalistas e envergonhar o seu partido, e em nome da reconciliação com a própria história, decidir-se finalmente a contar – ainda que em memórias – as peripécias e o papel do seu primeiro chefe pela causa nacional?
Gwambe, que por Eduardo Mondlane e outros dos seus detractores ainda vivos neste «mundo cão», foi rotulado de “miúdo” e “aventureiro”, é, primeiro, pela idade que tinha, um “estudo de caso” para os historiadores deste país. Só assim os meninos de hoje poderão soletrar amanhã, as verdades.

Em nome da reconciliação com a História.
Armando Guebuza diz que não é juiz, para a atribuição do título de heroicidade a Gwambe, Feliciano Gundana não sabe se ele deve sê-lo,...e blá, blá, blá, enfim... o blá dos critérios.
Com este desafio de resgatar os feitos de Gwambe, os historiadores, iluminariam os sinuosos caminhos da génese da criação da Frelimo, que dados indicam que terá sido anunciada por Gwambe em Acra, Gana, antes de Mondlane e seus discípulos.
De facto, tal como sentenciara Henry Lefevre, num dia registado do século passado, a “história é uma sequência de factos sem encadeamento”.
Os “dois” lugares da morte de Mondlane espelham isso, embora qualquer homem só possa ter um lugar para morrer.
Estão preparados para o desafio caros historiadores?
A verdade dói, mas liberta. Não sei onde já li Isso!?(x)
CANAL DE MOÇAMBIQUE - 24.02.2006

21-02-2006

A verdade ainda poderá ser contada

Sobre o verdadeiro local da morte de Mondlane

( Maputo) As autoridades da Educação aventam a hipótese de corrigir o local da morte de Eduardo Mondlane nos manuais de história, apurou o «Canal de Moçambique» junto do director do InstitutoNacional de Desenvolvimento Escaolar (INDE). Joaquim Chissano, ex-presidente da Frelimo e da República de Moçambique, Janet Mondlane, viúva do primeiro presidente da Frente de Libertação de Moçambique e Feliciano Gundana, actual ministro dos Assuntos dos Antigos Combatentes e também ele proeminente figura da luta de libertação nacional, todos eles confirmaram ao «Canal de Moçambique» que Eduardo Chivambo Mondlane não morreu no seu escritório em Dar-es-Salaam mas em casa da americana Betty King que era secretária de sua mulher.
O director do Instituto Nacional do Desenvolvimento de Educação (INDE), Abel Assis, organismo do Ministério da Educação e Cultura (MEC), que tem por vocação elaborar os curricula escolares, disse ao «Canal de Moçambique» que não está posta de parte a hipótese de nos novos manuais de História, do ensino secundário, a vigorarem a partir de 2008, vir a “estar detalhado” o verdadeiro local da morte de Eduardo Mondlane, primeiro presidente da Frente de Libertação de Moçambique.
No entanto, o director do I.N.D.E., relativamente à supressão da inverdade relativa à morte de Mondlane que até hoje consta dos livros das 4.ª e 5.ª classes do ensino básico, foi evasivo. Isto porque, os livros deste grau de ensino, terem sido recentemente revistos e estarem a ser ainda distribuídos gradualmente, não se sabendo quando voltarão a sê-lo.
Apesar desse contratempo Assis adiantou que talvez venha a ser julgado improcedente o argumento de que a história está a ser ensinada de forma falsa aos alunos do ensino básico. Ainda vai carecer de discussão se será pertinente a correcção ou não, alega Abel Assis.
“Temos que nos perguntar até que ponto isso é relevante para alunos do ensino primário”, concluiu o director do INDE. Os actuais manuais escolares referem, evasivamente, que Mondlane morreu nos escritórios da então Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) em Dar-es-Salam, na Tanzânia em 3 de Fevereiro de 1969. Na verdade Mondlane não morreu naqueles escritórios, nem em qualquer outro escritório pois que, tanto quanto se sabe, o Dr. Eduardo Chivambo Mondlane nunca teve um segundo escritório seja em que bar fosse.
O que se passou de facto foi que ele acabou sendo vítima de uma cabala numa casa/residencial/bar, particular, onde gostava de passar os seus momentos de lazer e era propriedade de uma senhora amiga da família, de nacionalidade americana e por sinal até secretária da viúva do primeiro presidente da Frente de Libertação de Moçambique, Janet Mondlane.
A casa de Betty King, onde se deu o tragédia, situava-se em Oyster Bay (Baía das Ostras) também em Dar-es-Salam. Até hoje ainda não houve uma explicação pública por parte de quem de direito sobre os objectivos que nortearam os mentores da “mentira” que foi sendo propalada aos quatro ventos a ponto de constar nos curricula ao longo dos últimos anos no país. Pertinente ou não, o certo é que entre os escritórios da Frelimo em Dar-es-Salam e a casa de Betty King vai uma grande distância.
Celso Manguana - CANAL DE MOÇAMBIQUE - 21.02.2006
NOTA:
Na realidade o local do incidente até poderá parecer irrelevante. Mas alguém lhe levou a correspondência. Quem? Os responsáveis da segurança não tinham a obrigação de verificar o correio que era dirigido a Mondlane? Quem não verificou? Sendo que até era um volume mais volumoso, que uma simples carta, não obrigava a cuidados redobrados? Na casa de Betty King só estava um empregado. Seria normal à hora em que se deu o incidente só estar um empregado? Quem contou a história que se tornou "oficial"? Há muito por esclarecer e quem o pode fazer ainda está vivo. Porque espera?
Fernando Gil

Quando os “Outros” também clamam pelos seus “Gwaza-Muthini”

por Noé Nhantumbo

Pelo que ouvi e observei, os moçambicanos estão aprendendo rapidamente a reclamar quando algo lhes parece menos justo. É por exemplo o facto de só se comemorarem e terem relevo na comunicação social pública datas e factos relativos aos heróis da luta anti-colonial de individualidades de uma maneira ou de outra afins ao «Império de Gaza». Após mais um Gwaza-Muthini não foram poucas as vozes discordantes que se fizeram ouvir na Beira sobre tal facto. As pessoas não discutem o mérito de Gungunhana ou de outro interveniente famoso na luta contra a invasão colonial, mas, sim, a exclusão dos outros moçambicanos do Centro e do Norte daquilo que é hoje Moçambique.
A unidade nacional e o sentido de Nação constroem-se com respeito pelos outros e isso se faz também dando proeminência àquilo que é dos outros. Unidade na diversidade é isso e não simplesmente palavras vãs pronunciadas quando convém a certas figuras.
As outras pessoas, ao mais uma vez serem confrontadas e praticamente obrigadas a engolirem o “sapo” de «Gwaza-Muthini», sem se importarem do que seus partidos digam, estão, à boca cheia, clamando por verem seus heróis, como Makombe, Kamba Simango e outros, também inscritos e celebrados com o mesmo peso que os do «Império de Gaza» o são. Foi e é interessante verificar que a moçambicanidade é construída no dia-a-dia pelos moçambicanos, conversando, discutindo, confrontando-se muitas vezes fora dos mecanismos partidários. O que de útil está acontecendo entre os actores, acontece fora das estruturas partidárias asfixiantes. Para todos os que querem ver Moçambique acontecendo no dia-a-dia é deveras interessante observar que os moçambicanos conseguem consumir artigos provenientes de fora dos quadrantes ou parâmetros partidários. E esta dos heróis anti-coloniais já tardava a aparecer.
CANAL DE MOÇAMBIQUE - 21.02.2006

Fórum provincial debate perfil de herói nacional

A Escola Nacional de Aeronáutica de Maputo acolhe, dia 23 do mês em curso, o fórum provincial para o debate do perfil de herói nacional.
O encontro será dirigido pela governadora da cidade, Rosa da Silva, e estarão presentes os membros da comissão executiva central encarregues de auscultar diversas sensibilidades sobre a matéria e representantes de diferentes sectores sociais.
A realização do fórum provincial é o culminar de um trabalho levado a cabo por diferentes brigadas da comissão executiva destacada para a cidade de Maputo, chefiada pelo director da educação e cultura, Dinis Mungói, junto de diversas sensibilidades, entre elas estudantes, confissões religiosas, partidos políticos e funcionários do Aparelho do Estado.
Ontem, a reportagem do `Notícias´ testemunhou o debate sobre o perfil de herói nacional na Escola Secundária da Polana.
A síntese apresentada na ocasião define um herói como sendo aquele que se revela pelos seus feitos gloriosos em várias áreas e em prol do país. Os participantes defenderam que só deve ser consagrado herói um indivíduo depois de morto que tenha reunido alguns requisitos definidos por uma legislação.
Foram consideradas duas categorias de heróis, nomeadamente local e nacional. Um herói nacional, segundo os participantes do debate, deve ser depositado na cripta. Um indivíduo que se destaca a nível local pelos seus feitos em prol da sua comunidade ou dum determinado grupo ou organização pode ser distinguido ou agraciado com uma medalha ou menção honrosa.
Uma vez titularizado herói nacional depois de morto, os familiares do indivíduo devem beneficiar de apoios do Estado.
NOTÍCIAS - 21.02.2006

20-02-2006

Mbuzini mexe com África do Sul

20 anos depois de Moçambique se preocupar

O «Sunday Independent», semanário da Cidade do Cabo, noticiou que “o antigo regime do apartheid teria pago uma indemnização ao navegador/piloto do avião sinistrado” em Mbuzini. O pagamento, acrescenta o jornal, “foi efectuado através da embaixada sul-africana em Moscovo, no início da década de 90”.
“Esta seria uma prova concludente do envolvimento do apartheid no caso” – sugere jornal.

(Maputo) Uma sondagem levada a cabo pela «News24», um serviço de notícias da África do Sul, revelou que 65% de um total de 1,500 pessoas inquiridas, opõe-se à reabertura do «dossier-Mbuzini» referente à tragédia que vitimou o fundador da primeira República em Moçambique. A sondagem foi efectuada na sequência das declarações feitas pelo presidente Thabo Mbeki, da África do Sul, segundo as quais o seu governo tenciona “desvendar o mistério” por detrás da morte de Samora. Para os inquiridos, “em vez de realizar o inquérito à morte do Presidente Machel, o governo devia solucionar os crimes ainda por resolver no nosso próprio país.” Apenas 6% dos inquiridos pela «News24» concordou que se devia reabrir o inquérito.

Nas investigações já efectuadas pela África do Sul, como Estado de ocorrência do desastre em que morreu Samora Machel, a tripulação do Tupolev presidencial foi responsabilizada pela ocorrência.

A imprensa sul-africana tem dado destaque ao anúncio feito pelo presidente Mbeki no início do corrente mês. O «Sunday Independent», semanário publicado na Cidade do Cabo, noticiou que “o antigo regime do apartheid teria pago uma indemnização ao navegador/piloto do avião sinistrado” em Mbuzini. O pagamento, acrescenta o jornal, “foi efectuado através da embaixada sul-africana em Moscovo no início da década de 90.”

“Esta seria uma prova concludente” – sugere o «Sunday Independent» – “do envolvimento do apartheid no caso”.

Só mecânico sobreviveu

Dados confirmados na altura do acidente, no entanto, referem que tanto os pilotos como o navegador do Tupolev presidencial pereceram. A tripulação soviética era composta de cinco membros. Apenas o mecânico de bordo, Vladimir Novoselov, sobreviveu.

O mesmo jornal afirma que “novos dados sugerem que agentes sul-africanos encontravam-se em Matsapha a proceder à instalação e testes de uma nova estação emissora VOR na noite em que ocorreu o desastre”.

Tanto Moçambique como a União Soviética, note-se, rejeitaram a hipótese do VOR de Matsapha ter estado na origem da volta prematura que o Tupolev transportanto Machel e a sua comitiva efectuou antes de colidir contra os Montes Libombos na região de Mbuzini, próximo da Namaacha. Num parecer apresentado à comissão de inquérito sul-africana, Moçambique alegou que o trajecto seguido pelo Tupolev presidencial não coincidia com o radial emitido pelo VOR de Matsapha. Já a União Soviética argumentou que o Tupolev não poderia ter sido capaz de interceptar tal sinal devido a obstruções causadas pela montanha de Bembegazi que faz parte da cadeia dos Libombos.

Desconhecem-se pormenores sobre a composição da nova comissão de inquérito ou se a mesma irá conduzir os seus trabalhos à porta-fechada, à semelhança do que aconteceu com as sessões da Comissão da Verdade e Renconciliação Nacional perante a qual depôs a ex-primeira dama moçambicana, Graça Machel.

É de prever que o antigo ministro da segurança de Moçambique, Sérgio Vieira, venha a ser convocado a prestar declarações perante a nova comissão de inquérito sul-africana para esclarecer a alegação por ele feita repetidas vezes de que os governos dos Estados Unidos e da Inglaterra estavam em posse de informações de que o antigo regime do apartheid fora o responsável pelo desastre de Mbuzini. Segundo Vieira – actual director-geral do GPZ e tido por algumas sensibilidades como o futuro PCA da HCB – tanto os Estados Unidos como a Inglaterra preferiram não vir a público com uma revelação desse teor pois uma tal postura ser-lhes-ia favorável às disputas que mantinham com o bloco soviético no âmbito da chamada «Guerra Fria».

Numa edição recente, o «África Monitor» afirmou que a versão que apresenta o acidente como tendo sido resultado de uma conspiração “nunca mereceu aceitação da CIA ou do SIS (britânico).” Aquela publicação editada a partir de Lisboa por um analista de referência sobre assuntos relacionados com países africanos de língua oficial portuguesa, Xavier de Figueiredo, refere que “quanto às suspeitas de que a África do Sul através de sofisticados sistemas de intercepção, teria provocado interferências nos sistemas de comunicação do avião, dando-lhe uma rota errada, a análise da CIA é a de que Pretória não só não tinha nenhum interesse na queda do avião (nele viajavam alguns dos seus melhores interlocutores moçambicanos, como Fernando Honwana, Aquino de Bragança e até o próprio Samora Machel), como, em tal caso, evitaria sempre que o avião caísse no seu território.” (Redacção)

CANAL DE MOÇAMBIQUE – 20.02.2006

18-02-2006

Lançamento do livro 'Cabora Bassa - A Última Epopeia'

Palácio de Belém é «um espaço menor» para a «homenagem que tarda» aos heróis

Na zona exposicional do Café Santa Cruz - paredes-meias com a igreja onde está sepultado o primeiro rei de Portugal, D. Afonso Henriques - foi lançado na noite de quinta-feira passada o último livro do jornalista A. Santos Martins - 'Cabora Bassa - A Última Epopeia'.

Apresentou o livro o também historiador e vereador da Cultura da Câmara Municipal de Coimbra, Dr. Mário Nunes, que fez o elogio do autor e confessou aos presentes ter-se interessado tão vivamente pela obra que a leu «de um só fôlego».

Para Mário Nunes, o trabalho daquele autor conimbricense desperta o que de melhor há no orgulho patriótico português, sublinhando que ficou bem vincado no livro que, mesmo no período anterior à descolonização de 1975, como aconteceu na região do Zambeze moçambicano, os Portugueses escreveram em África epopeias que não desmereceram das dos séculos das Descobertas e da Expansão.

De acordo com o autor, também este seu livro - fruto de quase quarenta anos de investigação histórica e de 'memórias' que trouxe do Vale do Zambeze, onde fez Jornalismo antes, durante e até à conclusão daquela que é uma das maiores barragens hidroeléctricas do mundo -, foi escrito «quase de um só fôlego», depois de o actual Presidente de Moçambique, Armando Guebuza, ter visitado Portugal no início de Novembro de 2005 e o Governo de Lisboa assinar um protocolo para a entrega «ao desbarato» da posição portuguesa na «Hidroeléctrica de Cahora Bassa».

O lançamento do livro aconteceu precisamente no dia em que o Conselho de Ministros tomou decisões sobre as privatizações a fazer em 2006 e 2007 - e o autor sublinhou que metade do «perdão» do Governo de José Sócrates a Moçambique, no caso daquela monumental barragem, daria para evitar as privatizações a fazer na EDP, na Galp-Energia e na REN (Rede Eléctrica Nacional).

«Se o perdão servir apenas o Povo Moçambicano, tudo bem, mas se for para engordar a Geocapital de Stanley Ho e Almeida Santos ou outros grupos capitalistas internacionais, então... tudo mal» - disse o autor de 'Cabora Bassa - A Última Epopeia, antes de referir que a HCB começou a gerar lucros de exploração em 2004, depois de muitos anos de exigências aos contribuintes portugueses (fala-se em 15 milhões de euros por ano), devido à longa e sangrenta guerra civil (Renamo-Frelimo) que se travou no território após a entrega de Moçambique ao movimento guerrilheiro liderado por Samora Machel.

O autor lembrou também que o Vale do Zambeze moçambicano («onde Portugal cabe várias vezes»), foi o território ultramarino onde os portugueses penetraram mais profundamente, logo a partir do início do século XVI.

«O habitual era instalarem-se feitorias fortificadas junto ao Índico, como aconteceu em Sofala e na Ilha de Moçambique. Mas logo nos primódios do século XVI os portugueses subiram o rio Zambeze até 800 quilómetros da costa, erguendo povoações, igrejas, organizando feiras para o comércio. Sena, Tete, Chicoa e o Zumbo são testemunhos da coragem dos nossos sertanejos e missionários. Mas também nos derramámos, naquele século, pelo território que é hoje o Zimbabwe».

Santos Martins, depois de lembrar que há cem anos (1905), «o nosso almirante Gago Coutinho» foi o primeiro europeu a subir à montanha do Kassongo (onde se desenvolveu Cabora Bassa)», não foi «nada meigo» com o britânico David Livingston.

«Livingston foi, sem dúvida, um grande explorador na segunda metade do século XIX. Mas também um grande mentiroso, pois chamou a si descobertas que os Portugueses haviam feito... 300 anos antes»!

Depois de referir que Cabora Bassa foi erguida no meio de um território fortemente afectado pela subversão armada da Frelimo - «que para ali orientou todo o seu esforço de guerra» -, ainda assim a majestosa barragem foi erguida, até lá chegaram todos os grandes equipamentos para a sua central hidroeléctrica e «o enchimento do seu imenso lago artificial, com quase 300 quilómetros de extensão, começou na data prevista e sem qualquer interrupção».

Para que isso acontecesse, houve um «esforço sublime de milhares de civis e militares», muitos dos quais morreram ou ficaram estropiados «para que se consumasse a última epopeia dos portugueses em África».

Para o autor, o Palácio de Belém é «espaço menor» para «a condecoração que tarda». Se o novo Presidente da República decidir homenagear aqueles heróis anónimos, «pois que o faça no anfiteatro que existe no Monumento das Descobertas e da Expansão, junto à Torre de Belém».

17-02-2006

Gaza não é berço da resistência anti-portuguesa

Mais um “iceberg” da falsidade que é a história de Moçambique:

A batalha de Coolela, ou seja, de Gwaza Muthine, é tida como a mais emblemática e arrojada dos moçambicanos contra a dominação portuguesa, conforme o relevo que anualmente o Governo lhe tem conferido. Procurando entretecer as várias linhas e iluminando-as às zonas de penumbra, o Púnguè apurou que à escolha sobrepõe-se razões puramente tribais.

“O nacionalismo ( chamemos – lhe antes proto- nacionalismo ) brotou no Centro e Norte, antes do Sul.

Nunca vi esta tese defendida pelas oficinas de História oficiais”, segundo uma entrevista do falecido escritor moçambicano, Aníbal Aleluia, ao também escritor nacional Nelson Saúte, a qual consta no livro “Os Habitantes da Memória” (de Saúte).

Segundo Aleluia, esse escritor culto, “o berço da resistência antiportuguesa não é Gaza, como se convencionou oficialmente por razões que me parecem tribais, mas Angoche onde desde do tempo de Mogossurima, no século XVII, até ao sultanado de Farley, já no limiar deste século, os sultões cotis, de origem quiloana, puseram-se à Cruz”.

A personagem central é Mu bin- aufo- Suahib, Namuli de seu nome de guerra. Um Mcóti para as gentes da praia, o Mussa, conforme Aleluia.

“Muçá derrotado pelos Macololos e pelos Vaz – dos –Anjos aliados a muzungos Mpassue (João Bonifácio Alves da Silva), no regresso do noroeste saqueia aringas do Errive e Bajone do prazo do João Bonifácio, arrasando tudo. O Prazeiro, seis anos depois invade Angoche e encontra a morte durante a travessia da vau de Quíloa, mas Mussa perde a batalha”, disse Aleluia.

O comandante do exército Magangeiro, Mateus o Grande, aprisiona a esposa, quatro filhos e a irmã caçula do sultão e leva-os para a Ilha de Moçambique , cujo o governador os vende aos esclavagistas das ilhas indicas.

Há ainda, de acordo com os escriba de “M’belele e Outros Contos”, o facto de Muçáter ter aprisionado a guarnição portuguesa de Parapato para fazer reféns a fim de resgatar a família por ter confiado os prisioneiros aos filhos que, no entanto, os manda executar na ausência do pai o qual, ao regressar dando se conta da atitude do jovem submete-o julgamento que condena-o à pena capital “por desobediência”. Mas há mais incidentes.

Ele sustentou que “Muçá foi a principal barreira contra a ocupação da Macuana pelos portugueses, a única força que deteve e reteve no Ibo e na Ilha de Moçambique durante muitos anos”.

Sobre Gungunhana, há testemunhos que duvidam da sua estatura e heroísmo. Por exemplo, Raúl Bernardo Manuel Honwana, escreve que o rei vatswa tinha três mil soldados quando o aprisionaram em 1895.

Honwana regista a indiferença dos populares à sua detenção: “vai-te embora, seu abutre, que dizimavas as nossas galinhas”.

Enquanto oficialmente Gungunhana é tomado por herói, populares há que o repudiam, como atestaram há alguns anos as cenas de vandalismo ao lugar onde foi erguido um monumento seu em Marracuene, esse várias vezes apeado.

“Do mesmo modo se questiona que o nomeiem herói quando se sabe que este celebrou um acordo com os portugueses, ao qual Portugal lhe pagava dinheiro como militar do seu exército. Assim, se Gungunhana é herói, então Matsangaísse que teve sua retaguarda na Rodésia de Ian Smith há-de sê-lo também. De contrário, é tribalice”, conforme análise de um cidadão identificado por José Félix, professor primário numa escola algures na Beira.

“Numa relação de causa e efeito Matsangaísse seria herói mais por mérito próprio do que por conveniência ideológica ou tribal. Como se vê, a história acabou por atribuí-lo a devida razão, isto é, a Frelimo sujeitou-se a sentar com a Renamo à mesa das conversações que culminaram com o AGP em 1992”, palavras de Félix.

Conforme a nossa fonte, o Governo da Frelimo sonega a “Revolta do Báruè, que quanto a mim, é a mais relevante na fase derradeira de ocupação portuguesa a Moçambique”. (Redacção)

PUNGUÈ – 16.02.2006

NOTA:

Rebuscando a História do que é hoje Moçambique, verificamos que nenhuma revolta ou confrontação com os portugueses foi por Moçambique. Todos lutavam pelos seus interesses e pelo seu canto. Inclusive Gungunhana, este abertamente apoiado pela Inglaterra. Ainda não vi nenhum historiador, especialmente moçambicano, a colocar as consequências da vitória de Gungunhana sobre Mouzinho. Seria que hoje haveria Moçambique e se falasse o português? Aqui fica o desafio.

Fernando Gil

Nos alvores de um país novo

António Sopa

A recente publicação do álbum “Do Rovuma ao Maputo: A Marcha Triunfal de Samora Machel”, do tenente-coronel na reserva Raimundo Domingos Pachinuapa, celebra os 30 anos de independência moçambicana, homenageia o primeiro líder do país, Samora Moisés Machel, e, se se quiser, inaugura informalmente as celebrações que irão decorrer durante todo este ano, no âmbito do vigésimo aniversário da sua morte.

Há, após trinta anos de país independente, um claro défice de publicações sobre a “luta armada de libertação nacional” e os primeiros anos que se seguiram à proclamação da independência, em 25 de Junho de 1975. Há uma lacuna ainda mais grave de memórias dos próprios participantes que viveram esse período, apesar de promessas regularmente enunciadas e de projectos desenvolvidos em diversas instituições nacionais. O lançamento de livros, cujos autores tiveram uma participação relevante na saga independentista e na construção do projecto socialista, é, por isso mesmo, esperado com interesse e emoção pelo grande público, na perspectiva que novos dados e explicações sejam sugeridos, iluminando períodos ainda tão profundamente desconhecidos.

Assim, o livro do combatente, que viria posteriormente a ocupar importantes cargos governamentais no Moçambique independente, foi igualmente esperado com ansiedade. Mas aquilo que procurávamos encontrar ali, o que pensamos ser mais precioso, e que passa pelo registo pessoal do autor, a partir da vivência do acontecimento, pura e simplesmente não se encontra ainda nestas páginas. O leitor fica elucidado da sólida e profunda amizade que ligava Samora e Raimundo Pachinuapa, expressa na “nota pessoal” e em algumas das fotografias do livro, mas o que se segue é apenas a visão da imprensa da época, a partir de extractos publicados em obra antiga (“Datas e documentos da história da FRELIMO”, org. de João Reis e Armando Pedro Muiuane) e de imagens recolhidas nos diferentes arquivos do país.

Ora, o tenente-coronel Raimundo Pachinuapa foi um actor privilegiado da “viagem do Rovuma ao Maputo” e de muitas outras situações vividas no passado, não só pelo lugar que ocupava na estrutura do movimento independentista moçambicano mas até pelas relações de amizade que tinha com a liderança da FRELIMO, pelo que está em condições para fazer um relato diferente, mais pessoal, trazendo à superfície acontecimentos que possam ajudar a conhecer melhor a figura de Samora e a recepção do seu discurso nos vários cantos do país, em vésperas de alcançar a sua liberdade.

Parece-nos claro que a “viagem do Rovuma ao Maputo” serviu simultaneamente para mobilizar a população do país para os objectivos que se enunciavam e que se podem exprimir, de forma grosseira, na “sociedade nova”, sobretudo em áreas onde a influência da guerra libertadora não se tinha ainda feito sentir, ao mesmo tempo que uma parte da direcção da organização tinha um primeiro contacto directo com as populações, apesar das viagens regulares de informação do Primeiro-Ministro do então “Governo de Transição”, Joaquim Chissano, à Tanzânia. Mas é também uma “viagem” pelas emoções, de reencontros com pessoas (com o pai, Mandande Moisés Machel, por exemplo), rememorização de situações vividas e de tomada de decisões fundamentais (V Sessão do Comité Central, na praia do Tofo). Seria interessantíssimo saber dos preparativos da viagem, a despedida e o agradecimento à Tanzânia, a entrada em território nacional, a receptividade do discurso, já que sabemos que não foi o mesmo em todos os locais, os contactos com o povo miúdo e as personalidades locais, um interminável rol de grandes e pequenos acontecimentos, num hipotético diário a ser construído pelo autor.

Este comentário, que exprime a insatisfação dum leitor interessado, mais do que traduzir um desapontamento, serve igualmente para lançar um repto ao autor, que se traduz pela elaboração das suas próprias memórias pessoais, sabendo que elas terão uma importância excepcional para o conhecimento dos períodos referidos.

O livro é uma bonita peça bibliográfica, graficamente impecável, com um preço acessível.

Do Rovuma ao Maputo: A Marcha Triunfal de Samora Machel: Primeiro

Presidente de Moçambique

Raimundo Domingos Pachinuapa

Maputo, Edição do Autor, 2005, 63 p.

SAVANA – 17.02.2006

Distinção

Atalhe de Foice

Por Machado da Graça

Debate-se hoje no país a questão de saber quem deve ser considerado herói nacional.

Poder-se-ia perguntar se não há nada de mais importante para os moçambicanos debaterem, no nosso país empobrecido.

Mas a verdade é que, a propósito ou a despropósito, se debate quem é herói nacional.

Para definir tão complexa atribuição de título foi mesmo criada, pelo governo, uma comissão. Coisa séria.   A cobrar, decerto, mais uma fatia do bolo nacional.

Mas quais serão as razões deste súbito interesse por uma tal questão?

À primeira vista vejo duas:

A primeira é o número, cada vez mais reduzido, de gavetões no monumento da Praça dos Heróis.

Com o passar do tempo e o passar à história de quem vai morrendo, muitos andarão fazendo as contas ao número de gavetões ainda existentes e ao número de possíveis heróis, ainda vivos,  para tentar descobrir se ainda lhes sobra lugar para o repouso definitivo.  E as contas já devem ser bastante preocupantes para muitos, porque é cada dia mais claro que o espaço não vai chegar para todos.

A outra razão é de carácter político: Normalmente, quem decide quem são os heróis são os vencedores das guerras. Ora a guerra entre o governo e a Renamo e seus apoiantes externos, terminou por um empate. Como se diz muito, agora, terminou sem vencedores nem vencidos. E, portanto, é difícil determinar quem foi herói nessa guerra.

Daí que se vá definindo como herói, ou heroína, gente que se distinguiu na luta armada de libertação, em que o vencedor foi claro, mas ninguém se atreva a definir heróis desta outra guerra, de final negociado.

Só que a oposição se sente diminuída neste retrato da heroicidade nacional. Não tendo participado na luta armada de libertação nacional, não tem nenhum dos seus membros candidato a herói, por essa razão, ao passo que a Frelimo pode, à vontade, ir escolhendo os seus membros mais antigos, não pela sua actuação na guerra mais recente mas sim pela guerra mais antiga.

Porque, num país ainda traumaticamente dividido pelo que aconteceu na guerra de desestabilização, segundo uns, civil, segundo outros, os critérios estão a anos luz de ser os mesmos. Um determinado personagem histórico é, para uns, um herói que lutou, de armas na mão, pelo estabelecimento da democracia no país. Para outros, o mesmo personagem histórico é o chefe de bandos armados, de enorme selvajaria, a soldo do apartheid e do regime racista da Rodésia. Tarefa difícil, senão impossível. Pelo menos enquanto não passarem algumas gerações.

Mas mesmo entre os participantes da luta armada de libertação nacional, as coisas começam a não ser tão simples. Aqueles que cometeram actos heróicos e morreram ao cometê-los, ou morreram pouco depois, são casos que não levantam grandes dúvidas.

O pior são os casos daqueles que cometeram actos heróicos na sua juventude mas continuaram, incomodamente, vivos. E que, ao longo de vidas longas, tal como qualquer outra pessoa, foram cometendo actos sociais positivos e actos negativos. Muitas vezes actos muitíssimo negativos.

Continuaremos a considerar herói aquele que o foi, aos 25 anos, mas se transformou, depois,  num ricaço graças à corrupção e ao crime?

Difícil tarefa, a da tal comissão.

Mas penso que uma forma de descongestionar um bocado o problema seria reanimar o hábito de condecorar os cidadãos que se vão distinguindo nas mais variadas áreas da vida nacional.

Em muitos países a condecoração de cidadãos é uma actividade regular. Por vezes realizadas em datas nacionais importantes, outras vezes sem qualquer data associada, as condecorações permitem ir distinguindo aqueles que se destacam, sem ter que chegar à atribuição do título de herói.

Entre nós as condecorações foram sempre coisa muito rara, mais excepção do que regra e até, por vezes, a reboque de outros países que condecoraram cidadãos moçambicanos.

Um alargamento desse tipo de distinção iria aliviar, muito provavelmente, a pressão sobre o título de herói nacional, na prática a única distinção que Moçambique reserva hoje aos seus cidadãos.

SAVANA - 17.02.2006

HCB é segredo da Frelimo

Canal de Opinião por Prof. Dr. André Thomashausen *

Li com muito interesse o vosso artigo “«HCB É Nossa» - Quem Paga a Factura?” (Canal nr.3). Gostaria de acrescentar algumas informações a respeito dos preços de (re)venda da energia da HCB praticados presentemente pela Eskom da África do Sul.

Em resposta a uma série de perguntas que haviam sido levantadas, o ministro das empresas públicas, Alec Erwin, referiu, perante a Assembleia Nacional sul-africana, em Novembro de 2005, que a «Botswana Power Corporation» pagava 13,16c./Rand por kilowatt-hora (kWh) fornecido pela Eskom.
A «Swaziland Electricity Board» pagava 11,59c./R; a «Zambia National Energy Corporation» 21,45c./R; e a «Zimbabwe Electricity Supply Authority» 21,17c./R kWh.

Erwin disse ainda que estas tarifas iriam ser aumentadas brevemente.

Aos consumidores industriais da África do Sul, a Eskom cobra entre 15c./R e 18c. por kWh.

Em contrapartida, o acordo firmado entre a Eskom e a HCB em 2004 indica que a empresa sul-africana estava a pagar pelos fornecimentos da hidroeléctrica do Songo o preço já por si ridículo de 3,6c.R/kWh (três ponto seis cêntimos do Rand por quilowatt/hora), reflectindo ainda a já muito ultrapassada “conspiração” dos governos do apartheid e do colonialismo português.

Entre a Eskom e a HCB ficou concordado, em 2004, que a tarifa seria aumentada para os 12,52 c.R/KWh, mas a vigorar somente a partir de 2007. Quer dizer que, mesmo depois da eventual entrada em vigor dessa nova tarifa, a África do Sul continua a comprar energia à HCB para depois vender essa mesma energia pelo dobro do preço, sem lhe acrescentar nem um mínimo de mais valia.

Significa isto que a viabilidade de uma “nacionalização” a favor de Moçambique ou, em termos gerais, uma privatização, mesmo que parcial, da HCB, continua a deparar com um obstáculo fundamental que é a falta de capacidade (ou será de vontade?) por parte da actual administração daquela hidroeléctrica em fazer valer os seus direitos e praticar preços de mercado realistas na venda da energia à África do Sul.

Acho estranho que o parlamento moçambicano – a Assembleia da República – como órgão supremo de soberania nacional, em nenhuma ocasião se tenha lembrado de exigir uma prestação e publicação das contas da HCB (uma empresa plenamente sujeita ao direito moçambicano), incluindo uma contabilização da “triste divida” e dos custos da gestão, que são considerados dos mais elevados do mundo (quando se faz a comparação a nível global com semelhantes empresas). Quantas outras empresas com o simples estatuto de “sociedade limitada” gozam do privilégio de não terem de publicar os relatórios de contas, seja em Moçambique ou em Portugal?

E, além da questão das contas secretas, há a questão da transparência nas negociações sobre o que se pode considerar a conclusão da descolonização de Moçambique, quer dizer a entrega de Cahora Bassa ao Estado moçambicano. Será que a democracia em Moçambique se encontra ainda de tal forma subdesenvolvida e enfraquecida, que a Assembleia da Republica não tem o direito de exigir a apresentação dos acordos firmados para aprovação e ratificação parlamentar? Estranho ainda que em Portugal também não haja um único deputado a exigir a prestação de contas, nem um debate tendo em vista a ratificação parlamentar dos acordos. Uma verdadeira teia de segredos que parece longe de encontrar o seu desfecho.

Com os meus melhores cumprimentos e felicitações pelo lançamento do “Canal de Moçambique”.

(*) Director do Instituto de Direito Internacional e Comparado, Universidade da África do Sul (UNISA)

CANAL DE MOÇAMBIQUE - 17.02.2006

NOTA: Estranha o Dr. André Thomashausen que "em Portugal também não haja um único deputado a exigir a prestação de contas, nem um debate tendo em vista a ratificação parlamentar dos acordos". Ora não podem os Srs. Deputados da Assembleia da República Portuguesa desconhecer o assunto, pois o mesmo lhes foi posto pelo signatário, pela segunda vez, no dia 9 do corrente mês.

Poderão ler e imprimir o texto em:

Download cahora_bassa_2.doc

Fernando Gil

15-02-2006

Disputa por status foi "motor" da história, diz Fragoso

RAFAEL CARIELLO
da Folha de S.Paulo

João Fragoso defende, desde a sua tese de doutorado --"Homens de Grossa Aventura" (Civilização Brasileira)--, que a montagem da economia colonial brasileira não foi orientada pelas exigências de "acumulação de capital" das economias dos países europeus colonizadores --idéia que de alguma maneira unifica os trabalhos clássicos de Caio Prado Jr., Celso Furtado e Fernando Novais.

Contra a lógica desses autores, que tendiam a ver a sociedade brasileira como mera cópia imperfeita --e reflexo econômico-- da sociedade européia, Fragoso propõe que a sociedade que se criou no Brasil obedece a uma lógica própria.

Veja tudo em:

Download disputa_por_status_foi.doc

14-02-2006

Torre do Tombo assinala centenário do nascimento de Humberto Delgado

Lançamento de arquivo em suporte digital

O Instituto dos Arquivos Nacionais/Torre do Tombo vai assinalar esta quinta-feira o centenário do nascimento do general Humberto Delgado com o lançamento do seu arquivo em suporte digital, entre outras iniciativas.

De acordo com o instituto, a documentação existente na Torre do Tombo sobre o general estará disponível no endereço na Internet www.humbertodelgado.pt, incluindo o arquivo pessoal, parte do arquivo da Polícia Internacional e da Defesa do Estado (PIDE) e da Legião Portuguesa.
A apresentação, feita em colaboração com a Fundação Humberto Delgado, decorrerá a partir das 15h00, com uma conferência proferida pelo professor António Rebelo de Sousa e a exibição de um documentário sobre a vida do general.
"Meu Pai, Humberto Delgado", com guião da autoria da filha, Iva Delgado, foi realizado por Francisco Manso numa co-produção do canal 2, Take 2000 e Junta de Extremadura (Espanha), onde o general foi assassinado pela PIDE.
Na mesma altura será lançado o livro "Uma Brasileira contra Salazar", da autoria de Arajaryr Campos, secretária de Humberto Delgado, também assassinada pela PIDE em 13 de Fevereiro de 1965.
A obra, publicada pela editora Livros Horizonte, é o relato inédito na primeira pessoa sobre a entrada clandestina de Arajaryr Campos em Portugal, no final de 1961.
Nascido em Brogueira, Torres Novas, em 1906, Humberto Delgado foi assassinado em 1965 nos arredores de Olivença, perto da fronteira com Portugal.
Formado na Escola do Exército, participou na Revolução de 28 de Maio, foi adido militar em Washington e promovido a general das Forças Armadas, candidatando-se à Presidência da República em 1958, seguindo-se a sua suspensão e demissão das Forças Armadas.
Asilou-se no Brasil, mas em 1961 envolveu-se no assalto ao navio "Santa Maria", pelo qual foi julgado à revelia, e participou na Revolta de Beja, instalando-se depois na Argélia onde assumiu a chefia da Junta Patriótica de Libertação Nacional. Mais tarde fundou a Frente Portuguesa de Libertação Nacional.
Em 1990 foi nomeado, a título póstumo, marechal da Força Aérea.

PÚBLICO - 14.02.2006

13-02-2006

Porque a FRELIMO não nacionalizou Cahora-Bassa

Cabora_bassa_capa_3 Para quem julga que Salazar não era previdente e que não sabia que a independência das colónias haveria de chegar e não em tempo muito distante, leia os termos em que a adjudicação da obra foi feita.

Coma devida vénia, extraio do livro CABORA BASSA - A ÚLTIMA EPOPEIA, a ser lançado em Coimbra no próximo dia 16, as seguintes passagens do Capítulo VI:

.......

A 12 de Março, tal como programado, foram abertas as propostas para o «aproveitamento de Cabora Bassa». Na cerimónia, Arantes e Oliveira tinha a seu lado um outro futuro governador-geral de Moçambique (o Eng°. Manuel Pimentel dos Santos), precisamente aquele que viria a cessar funções na província - já então chamada Estado de Moçambique e com larga autonomia - por força do golpe militar de 25 de Abril de 1974.

Novamente três consórcios internacionais a concorrer, com a ZAMCO ('Zambeze Consórcio Hidro-Eléctrico'} a apresentar a proposta mais baixa: - 7.033.048.345 escudos!

Sete milhões de contos, à época, era uma importância que provocava 'tonturas'! Mas o projecto era por demais grandioso, os seus benefícios iriam derramar-se por toda a África Austral e daí o envolvimento - dizia a Imprensa - «dos mais categorizados meios técnicos e financeiros mundiais».

Na sala das sessões do Conselho Superior de Fomento Ultramarino, à mistura com técnicos e dirigentes empresariais de vários países, havia representantes de «agências noticiosas internacionais, dos órgãos de Informação estrangeiros, além dos jornalistas da Imprensa, Rádio, Televisão e Cinema nacionais».

...........

Dado o seu interesse histórico, aqui fica o programa então divulgado:

1 - Execução das obras principais de construção civil do aproveitamento hidroeléctrico, que compreende, na fase actual: construção da barragem; construção da central situada na margem sul (central subterrânea) com os respectivos circuitos hidráulicos (tomadas de água, condutas forçadas, chaminés de equilíbrio, difusores e galerias); tomadas de água para a futura e segunda central, que será situada na margem norte, também subterrânea; edifício de comando e subestação de emissão de energia; e subestação de recepção de energia na República da África do Sul. 

2 - Trabalhos de injecções nas obras de desvio provisório e nas obras principais de construção civil.

3   -   Fornecimento,   transporte,   montagem   e   ensaios   dos equipamentos electromecânicos e eléctricos correspondentes às obras de desvio provisório e às obras principais. Na fase actual serão instalados 3 grupos com a potência de 400.000 KW cada um.

4 - Sistema de transporte de energia desde o barramento da subestação do aproveitamento hidroeléctrico de Cabora Bassa até ao barramento da subestação receptora, na República da África do Sul (1). A capacidade de transporte do sistema é da ordem dos 2 milhões de KW e a linha terá uma extensão de 1.400 Km.

5 - O programa inclui ainda a execução da segunda fase das obras de desvio provisório do rio Zambeze, destinadas apor a seco a zona das fundações da barragem;

a) No concurso, cujas propostas foram recebidas no dia 10 de Janeiro p.p., o programa de trabalho consistia apenas na abertura dos acessos entre as bocas de cada uma das duas galerias de desvio, na execução das testas de montante e jusante das galerias e na construção dos encontros da ensecadeira de montante.

b) Na consecução das obras de desvio provisório, fazem parte deste concurso a abertura das galerias e as obras de fecho do rio, isto é, construção da pré-ensecadeira de jusante e, finalmente, execução das ensecadeiras de jusante e de montante.

6 - Execução das obras acessórias:

a) pavimentação da estrada entre Moatize (terminal de caminho de ferro) até Matundo (povoação localizada na margem oposta à cidade de Tete) e do troço da estrada Tete-Changara, desde aquela cidade até ao entroncamento com a estrada de acesso a Cabora Bassa;

b) construção do novo traçado, incluindo pavimentação, desde o entroncamento com a estrada Tete-Changara até à entrada do estaleiro das obras;

c) construção do bairro definitivo destinado ao alojamento do pessoal da exploração do aproveitamento hidroeléctrico e da subestação de emissão da linha de transporte, abrangendo o respectivo acesso e os arruamentos e ainda os sistemas de abastecimento de água e de esgotos e as redes de energia eléctrica e telefónica.

7 - Paralelamente com as obras do empreendimento de Cabora Bassa, e embora delas não façam parte, têm interesse, para os trabalhos correspondentes ao aproveitamento, as facilidades que resultam da programação observada para o plano rodoviário da Província de Moçambique. Com a melhor conexão serão, portanto, levadas a efeito a pavimentação da estrada Vanduzi-Changara-Tete, ficando desta forma ligada, em condições de boa utilização, a cidade de Tete ao porto da Beira. No troço Changara-Tete será construída a última obra de arte em falta, aponte sobre o rio Mazoe e para ligação Moatize-Tete será ainda construída a ponte sobre o rio Zambeze que ligará aquela cidade à outra margem do rio.

     As propostas sobre o grande empreendimento do Alto Zambeze moçambicano foram analisadas pêlos peritos dentro dos prazos previstos e, ainda na primeira quinzena de Julho de 1968, o Doutor Oliveira Salazar fez reunir o Conselho de Ministros, que decidiu «fazer a adjudicação provisória» ao consórcio ZAMCO.

     A entrega definitiva da obra ficava, porém, «dependente de ser dada satisfação, pela adjudicatária, a um certo número de condicionamentos de ordem legal, administrativa, técnica e financeira, a definir em negociações ulteriores, que deverão estar concluídas até ao final do corrente ano».

    Aqui, merece ser referido um pormenor importante, que terá condicionado a participação portuguesa na exploração de Cabora Bassa após a entrega - pelos chamados 'capitães de Abril' e seus comparsas civis - de Moçambique ao grupo guerrilheiro Frelimo.

     Lê-se num documento de 1968, a que o autor teve acesso:

«O financiamento da obra será, por imposição do concurso, inteiramente assegurado pelo adjudicatário, ficando garantida a cobertura integral dos encargos de juro e amortização pelo produto da venda de energia,   retirada deste a parcela consignada à exploração    do    aproveitamento.    A    amortização    total    do financiamento estará completada dentro do prazo de 20 anos, contados a partir da data do início da exploração do aproveitamento (2). 

«A protecção das actividades nacionais interessadas no empreendimento é objecto de atenção especial». 

A 7 de Setembro de 1974, Mário Soares, Almeida Santos, Melo Antunes e os outros subscritores portugueses - e, por banda da Frelimo, Samora Machel - , seriam, também por força daquela «imposição do concurso» de Cabora Bassa, obrigados a firmar esta cláusula no chamado 'Acordo de Lusaka':

    «A Frente de Libertação de Moçambique declara-se disposta a aceitar   a   responsabilidade   decorrente   dos   compromissos financeiros  assumidos pelo  Estado  Português  em  nome  de Moçambique,   desde que  tenham sido  assumidos  no  efectivo interesse deste território».

Caso para dizer: - o Doutor Oliveira Salazar «não dava ponto sem nó»\ Mas será que aquela cláusula foi respeitada, em 2005, no protocolo assinado com Moçambique pelo governo socialista de José Sócrates, não obstante o estado calamitoso em que sucessivos executivos 'abrilistas' (tal como os da Primeira República) deixaram as finanças públicas portuguesas?

1 - A República da África do Sul garantiu ao Governo do Doutor Salazar que, se necessário, compraria até 2/3 da energia produzida em Cabora Bassa.

2 - Em 2001, o presidente do Conselho de Administração da HCB, Carlos Veiga Anjos, dizia ao 'Expresso': «Cahora Bassa é uma empresa muito rentável se o seu preço de energia (então a ser negociado com a África do Sul de Nelson Mandela) estiver de acordo com o que se pratica no mercado, criando-se as condições para o seu (da barragem) normal funcionamento e retomando assim o seu desígnio inicial».

E assim vemos que Cahora Bassa teria de pagar-se em 20 anos, o que não aconteceu. Foi o POVO PORTUGUÊS que, pagando cerca de 3 milhões de contos anuais, liquidou aos credores a dívida existente. E um dos principais credores era a Suécia, também apoiante da Frelimo. Um dos motivos da sua não nacionalização?

A partir de 2004 passou a Hidroeléctrica a dar lucro.

Ninguém ainda explicou concretamente como as contas foram feitas para a "reversão" de Cahora Bassa para Moçambique. E qunto é que isso custou a cada português.

Recomendo pois a leitura do livro de A. Santos Martins para se compreender como o "elefante branco", até agora existente, não foi obra de Salazar mas de outros, devidamente identificados.

Fernando Gil

MACUA DE MOÇAMBIQUE

Morte de Mondlane e os livros escolares

(Maputo) “Existe uma comissão para prestar esclarecimentos” sobre as circunstâncias do assassínio do primeiro presidente da Frente de Libertação de Moçambique, disse ao Canal de Moçambique o Ministro da Educação, Aires Aly.

“Tenho estado a acompanhar as notícias no vosso jornal”, disse o ministro momentos antes de embarcar por um périplo pelas províncias “em missão de serviço”.

Os curricula escolares apontam como local da morte de Mondlane os escritórios da sede da Frente de Libertação de Moçambique.

(L. Nhachote) - CANAL DE MOÇAMBIQUE - 13.02.2006

NOTA( Em repetição): É uma tristeza que a juventude moçambicana esteja a ser deliberadamente enganada acerca da verdadeira HISTÓRIA de Moçambique. É o caso de Mueda, do Chai, de Uria Simango, etc.etc.

E acrescento agora: guias de marcha, campos de reeducação, lei da chibatata, etc.etc. Quem se lembra?

Fernando Gil

12-02-2006

Cahora Bassa - "Processo complexo" atrasa acordo

O director de Energia de Moçambique considerou ontem que o atraso na
assinatura do acordo com Portugal sobre a Hidroeléctrica de Cahora
Bassa (HCB) "reflecte a complexidade do processo", ressalvando
a "grande preocupação" dos governos na sua resolução.
Em declarações à agência Lusa, Pascoal Bacela disse que os governos
de Portugal e Moçambique têm "uma grande preocupação" em ver
rubricado um acordo final sobre a reversão da HCB para Moçambique,
inicialmente previsto para 17 de Dezembro, mais tarde adiado para 31
de Janeiro último e actualmente sem data. "Mas", assinalou, "o
processo é complexo, pois quando é traduzido em acordo torna-se um
instrumento que deve ser articulado numa base legal a ser definida
pelos dois Estados".
O ministro moçambicano de Energia, Salvador Namburete, e o ministro
das Finanças de Portugal, Fernando Teixeira, assinaram a 2 de
Novembro último um memorando de entendimento que estabelece condições
para o controlo de 85 por cento das acções pelo governo moçambicano.
O memorando preconiza que Portugal reduza sua participação na HCB
para apenas 15 por cento, contra os actuais 82, mas tornando-se
num "accionista de referência e parceiro estratégico" de Moçambique.

PÚBLICO - 11.02.2006

NOTA: Então para que foi aquela pressa em assinar o "memorando de entendimento"? Quere-me parecer que "há gato escondido com o rabo de fora".

11-02-2006

Ao Encontro dos Mambos - Autoridades tradicionais vaNdau e Estado em Moçambique

Encontro_mambos_capa_1  Fernando Florêncio

O Estado moçambicano, à semelhança do Estado colonial, invoca as autoridades tradicionais vaNdau como veículo de penetracão, controlo da população rural, e de legitimação do próprio Estado. Processo esse que se institucionalizou em 2000. As autoridades tradicionais participam assim activamente no processo de formação do Estado distrital, que se constitui como uma arena política local, onde interagem diferentes actores. A tese desenvolvida nesta obra pretende sublinhar que as autoridades tradicionais vaNdau desempenham uma pluralidade de papeis sociais, políticos, administrativos, jurídicos, simbólicos. É nessa multidimensionalidade de papéis que se joga a legitimidade das autoridades tradicionais, face às populações que representam.

Data de Publicação: 01-11-2005
Nº de Páginas:
298
ISBN:
972-671-160-6
Pedidos em    http://www.ics.ul.pt/imprensa/det.asp?id_publica=147

10-02-2006

RSA: Entrevista com P.W. Botha

Pw_botha SABC baniu transmissão

(Joanesburgo) O canal televisivo estatal, SABC, retirou da sua grelha de programas uma entrevista com o antigo presidente sul-africano, P.W. Botha, que em princípio deveria ter ido para o ar por ocasião do 90° aniversário natalício do antigo chefe do regime do “apartheid”, no dia 12 de Janeiro. A entrevista foi conduzida por Cliff Saunders, antigo jornalista do mesmo canal de televisão e conotado com o então governo sul africano de minoria branca. Saunders acusou a actual direcção da SABC de ter “anulado o

contrato que havia assinado com a empresa produtora da entrevista” e de ter “privado milhões de telespectadores de uma entrevista de grande importância histórica e política.”

Um porta-voz da estação emissora estatal declarou ao “Sunday Times” de Joanesburgo que a SABC apenas pretendia adquirir direitos sobre a entrevista para uso como “material de arquivo”.

O semanário sul-africano refere que, na entrevista, Botha negou ter sofrido um derrame cerebral tal como o seu sucessor, Frederick de Klerk e diversos membros do seu governo alegaram, na altura em que foi substituído na chefia do regime segregacionista a que o termo do “apartheid” pôs fim.

Na entrevista de 60 minutos, Botha afirma que “a África do Sul teria ido por água abaixo caso um governo de maioria tivesse tomado o poder nos anos 60 ou 70.”

Para Botha, a política de “acção afirmativa seguida pelo governo do ANC é uma forma de apartheid que tem feito com que o pessoal especializado sul-africano abandone o país.”

Ainda sobre a questão do “apartheid”, Botha é citado como tendo declarado a Saunders que “os ingleses

foram os que inventaram o sistema do apartheid” e que “os Afrikaners apenas o haviam ‘herdado’ de Lord Milner e Cecil Rhodes.”

Botha disse ainda que “pessoalmente nunca havia considerado os negros como uma raça inferior ou uma espécie subhumana”, frisando que “muitos negros e mestiços colaboraram connosco (o seu regime).”

Na entrevista, o antigo presidente sul-africano comenta o papel desempenhado por individualidades influentes tais como o antigo primeiro-ministro rodesiano, Ian Smith, o Presidente Samora Machel, Jonas Savimbi (UNITA) e Henry Kissinger, secretário de estado norte-americano durante as administrações Nixon e Ford.

No tocante a Angola, Botha afirma que a decisão da África do Sul em retirar as suas forças da antiga colónia portuguesa após a declaração da independência pelo MPLA em Novembro de 1975 foi devida ao facto “do Congresso dos Estados Unidos ter proibido o Presidente Ford de cumprir com o que havia

prometido.” De acordo com Botha, o antigo secretário de estado norte-americano Kissinger viria a apresentar desculpas à África do Sul pelo facto dos Estados Unidos “não terem cumprido com a promessa feita.”

(J.M.C.) – CANAL DE MOÇAMBIQUE – 08.02.2006

Alguém tem que chamar atenção a Marcelino dos Santos

Tentou censurar o antigo PR em público?
A ser verdade o que acabo de ler esta manhã, o caso Marcelino dos Santos merece reflexão séria dos órgãos de soberania deste País.

Diz o número 1 do Canal de Moçambique, novo jornal por fax produzido em Maputo que quando esta publicação estava a entrevistar o antigo Presidente da República Joaquim Chissano, Marcelino dos Santos interrompeu a entrevista e disse a Chissano “não responda”.

Isso aconteceu na Praça dos Heróis, portanto numa cerimónia pública e não privada e o assunto que estava em discussão entre o jornalista e o antigo estadista moçambicano é de interesse público.
O jornalista pretendia saber de Chissano se era verdade que Mondlane fora assassinado fora dos escritórios da Frelimo na capital tanzaniana e o antigo PR estava a confirmar que sim, o fundador da Frente de Libertação de Moçambique fora morto na residencial de Betty King e não nos escritórios.
Achando que isso ( a confirmação de Chissano) bradava os céus, Marcelino dos Santos em tom arrogante gritou: “não responda” e acto contínuo, ordenou um segurança a agir, de maneira a impedir a normal continuação do trabalho.
Sendo que Joaquim Chissano é antigo Presidente deste País, independentemente dos laços de camaradagem que unem os dois, este gesto é de uma gravidade tal que a ser verídico, exige a intervenção de quem de direito, para que chame à atenção do velho camarada para que páre com os seus maus exemplos que começam a enjoar as pessoas civilizadas.
Estamos recordados todos do mau exemplo que deu em plena cerimónia na casa de todos (a Ponta Vermelha), com o seu famoso gesto indigno e mau para a reconciliação nacional.
E agora, acabamos de saber que em público interrompeu o antigo Chefe de Estado de falar à comunicação social, num gesto de autêntica censura a Chissano e ao jornal.
Repito aqui o que escrevi na semana passada: os dirigentes devem dar exemplo na sua conduta pública, sobretudo porque há gerações jovens que devem aprender do seu exemplo. As querelas internas na Frelimo, sobretudo em véspera de Congresso, não têm nada que nos perturbar cá fora, nós que não pertencemos ao grande partidão.
Se abundam por lá, anarquistas e indisciplinados, arrogantes e arruaceiros, isso não tem que se reflectir em actos de Estado, sob pena de banalizá-los e ir dar razão aos que boicotam tais actos de Estado.
Por outro lado, Marcelino dos Santos não pode continuar a dar exemplo de intocabilidade, sob pena de cair por terra a famosa música do Dr. Joaquim Madeira de que “ninguém está acima da Lei”.
Ora impedir uma entrevista ao antigo PR afigura-se uma violação da Lei, nomeadamente a Lei de Imprensa. Também afigura-se uma aguda falta de educação para quem o faz. E calha mal que seja Marcelino dos Santos, velho intelectual e libertador cujos pregaminhos de nacionalista reconheço e são inquestionáveis.
PS 1 e longo: No passado sábado, acabamos de ver mais uma lição de grandeza dos nossos presidentes. O antigo PR, recebendo os hóspedes também como anfitrião de Chaimite, perfilou durante largos minutos ao sol à espera da chegada do Presidente Armando Guebuza.
Com a humildade que lhe caracteriza, Joaquim Chissano cumprimentou Guebuza como seu chefe e acompanhou, no meio de outros sequazes, o actual PR nas cerimónias que se seguiram.
Na hora do almoço, foi bonito ver os dois líderes em animada cavaqueira, saboreando o ucanho em copo típico e tradicional, durante largos minutos.
E foi a pensar nisto que desde o oitavo Congresso eu venho escrevendo em público que bem precisávamos nós de termos um antigo presidente vivo, a cruzar connosco em cerimónias públicas ou privadas e a ser nosso património.
E depois da partida de Guebuza, em grande como PR, Chissano ficou alguns minutos em bate-papo com a gente e também partiu.
E devia ser assim de cima para baixo. Os cessantes conviverem com os que estão no activo e juntos e publicamente trocarem experiências. Infelizmente, há quem jura que não quer ver o seu antecessor nem morto. E a gente pergunta onde foram eles buscar tanto ódio, uma vez que os seus chefes não aparentam isso pelo menos publicamente?
PS2 e curto: Numa das raras vezes em que a Justiça actua de forma rápida, o juiz Dário Ossumane da 3ª Secção do Tribunal Judicial da Cidade de Maputo interditou a produção e distribuição em Moçambique da Revista “Nova Mais” por razões que o leitor encontrará expostas e fundamentadas noutro espaço desta edição.
Para além de tudo o que na deliberação vem dito, a medida dá um claro sinal de que apesar da lentidão normal, a porca está a acordar nestas terras e os moçambicanos tendem a despertar ante a ameaça do regresso dos antigos patrões.
O sinal foi bom sobretudo para o nosso Gabinete de Informação, na pessoa do Director Ricardo Malate, que afirmou por mais de uma vez que para eles, a revista Mais e a revista Nova Mais eram coisas diferentes.
Pensar é muito difícil senhor Director substituto do Gabinfo. Não custava nada, antes de se pronunciar nestes termos, ouvir a gente da praça ligada ao assunto. Ai compreenderia certamente que o público, ficava defraudado com a “Nova Mais” que então foi autorizada e que o tribunal, em boa hora, decidiu banir, por enquanto.
Assim, não se encorajarão futuras burlas nem com “renovadas” nem com “novas ou velhas”...

Lourenço Jossias - ZAMBEZE - 10.02.2006

Adelino Gwambe é herói nacional?

- “Eu não sou juiz” Armando Guebuza, PR
(Maputo) “Consta que Adelino Gwambe foi o fundador da Udenamo e um dos pioneiros da causa de libertação nacional. Merece ou não ser herói nacional?”, perguntou o repórter do Canal de Moçambique a Armando Guebuza. “Eu não sou juiz”, respondeu o presidente da República. Decorriam as cerimónias centrais do Dia dos Heróis, na cripta em Maputo. Estava assim acrescentado mais um dado ao debate sobre quem deve ou não ser considerado herói nacional ficando agora por se saber a quem caberá arbitrar as dezenas de cenários que o tempo tem vindo a desenhar à medida que o país parece virado para o supérflo num momento em que a sua economia parece estagnada e desesperadamente à procura de um rumo.
Adelino Gwambe foi fundador da UDENAMO, precisamente a primeira formação política a manifestar-se disposta a lutar pela Independência de Moçambique. A UDENAMO viria a juntar-se a outras duas UNAMO e MANU na simbiose que acabou por dar origem à “Frente de Libertação de Moçambique”, designação proposta por Fanuel Malhuza, a que Marcelino dos Santos acrescentaria o acrónimo FRELIMO.
O Canal perguntou ainda ao PR se o actual debate, em curso, não será uma futilidade. Armando Guebuza acha que “é um debate necessário”.
Quem é Adelino Gwambe?
Adelino Gwambe foi o percursor da União Democrática de Moçambique, o primeiro partido político moçambicano, em 1960, com apenas 20 anos de idade. Marcelino dos Santos, Fanuel Malhuza e Uria Simango – todos estes muito mais velhos, com acima de 35 anos, foram seus subalternos na Udenamo.
À altura da formação da Frelimo, resultante da fusão da Udenamo, Unami e Manu, Gwambe já tinha um passado de militância revolucionária, sob influência de revolucionários zimbabweanos.
Em meados de 1961, quando se radicou em Dar-Es-Salam, Gwambe era considerado uma figura com ideias pouco ortodoxas. Ele advogava a guerrilha imediata contra o colonialismo português muito antes de esse percurso vir a ser decido por Mondlane e seus continuadores.
A ligação de Adelino Gwambe com então governo do Gana, por via do seu amigo pessoal e presidente daquele país africano Kwame NKruma, não terá sido bem vista pela Tanzania, antogónico ao do Gana no que respeita ao pan-africanismo. Julius Nyerere, presidente da Tanzania, e Kwame Nkruma disputavam a partenidade da causa de libertação de Moçambique.
O governo de Nyerere acabaria por declarar mais tarde Adelino Gwambe “persona non grata” na Tanzania alegadamente porque nas vésperas da independência deste país declarou, numa conferência de imprensa, que a Udenamo já havia feito preparativos para o início da luta armada em Moçambique.
As suas notas biográficas referem que Adelino Gwambe nasceu na província de Inhambane, em 1940. Sabe-se igualmente que trabalhou no Buzi, então distrito de Manica e Sofala, antes de se refugiar em Bulawayo, segunda maior cidade da então Rhodesia do Sul, hoje Zimbabwe.
As rixas com Eduardo Mondlane
Quando se dá a eleição do presidente da Frente de Libertação de Moçambique de que viria a emanar, já depois da independência, uma ala que adoptaria o mesmo acrónimo – Frelimo – ao criar o partido hoje no poder, Adelino Gwambe não esteve presente. Decorria o 1.º Congresso da Frente e Adelino Gwambe estava na Índia.
No seu regresso, na contra-mão da unanimidade da eleição de Mondlane como lider do movimento, as rixas entre ambos agudizam-se. Gwambe acusava Mondlane de estar “sob vassalagem do imperialismo americano”.
As ligações de Eduardo Mondlane aos Estados Unidos da América estão hoje bem documentadas. A CIA, através da Fundação Ford, apoiou financeiramente a construção do Instituto Moçambicano para formar quadros moçambicanos no exilio. O jornal Freedom Fighter, na altura, publicou um artigo em relatava que Mondlane recebera 96 mil USD, naquele tempo uma quantia avultada.
Mais tarde, afastado da Frente de Libertação de Moçambique, Adelino Gwambe funda a Coremo, e embora ainda hoje não provado há dados que indiciam que possa ter sido também executado por decisão extrajucial, em M´telela, pelos seus pares de primeira hora. (Luís Nhachote)

CANAL DE MOÇAMBIQUE - 08.02.2006

'Cabora Bassa - A Última Epopeia' (2)

Cabora_bassa_capa_1 CABORA BASSA - A ÚLTIMA EPOPEIA será lançado no próximo dia 16, em Coimbra, pelas 18 horas, no histórico Café Santa Cruz.

Veja:

http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2006/02/cabora_bassa_a_.html

09-02-2006

Assassinato de Mondlane

O Livro escolar da 5ª Classe
(Maputo) As circunstâncias em que morreu Eduardo Mondlane estão claras. Hoje, fala-se publicamente dos factos, sem qualquer tipo de preconceitos, apesar de temores ainda não esclarecidos denunciados pela atitude de Marcelino dos Santos (Canal nr.1) ao presenciar a tentativa de certificação de dados que o repórter do Canal possuía de várias fontes mas nunca anteriormente reveladas publicamente por qualquer alto dignatário da Frelimo na imprensa moçambicana. No entanto, nos livros em que a história se ensina às crianças nas escolas primárias a versão de que Mondlane pereceu no seu escritório continua a constar.
“O assassinato de Mondalene” deu-se “em 3 de Fevereiro de 1969, Mondlane estava a trabalhar na sede da Frelimo em Dar-Es-Salaam. Entre as encomendas que recebeu naquele dia vinha um livro. No livro havia uma bomba armadilhada. Quando Mondlane abriu o livro, ela explodiu e matou-o. Foi assim que os colonialistas, ajudados pelos traidores, assassinaram Mondlane, um dos homens que mais lutou pela unidade de todos os moçambicanos” (sic).
A SAPA reportou de Dar-es-Salam, no próprio dia da ocorrência, que Eduardo Mondlane, primeiro presidente da Frente de Libertação de Moçambique, foi vítima de uma bomba em casa da americana Betty King.
O jornal “Notícias” do dia seguinte (ver Canal nr.2) reproduziu o despacho da agência. Vários documentos da época e posteriores, inclusive fontes em livro, referiram-se, mais tarde, ao sucedido, uns clarificando a identidade da amiga do defunto, outros fazendo apenas menção à “casa de uma amiga” sem revelar o seu nome. Joaquim Chissano, secretário de Eduardo Mondlane na circunstância, ex-presidente do partido Frelimo e ex-PR, confirmou o facto ao Canal de Moçambique (Canal nr.1).
Janet, viúva de Mondlane, falando ao Canal, também não escondeu que o seu marido morreu em casa da sua secretária, uma vivenda residencial/bar, em Oyster Bay. Tudo está muito claro. Mas o livro do ensino primário (5.ª Classe) “A história da minha pátria”, continua a esconder a verdade às crianças.
O livro de história da 5ª classe foi elaborado em 1986, durante a vigência do regime monopartidário. A viúva de Samora Machel, Graça Machel era então Ministra da Educação e Cultura.
A equipa que elaborou o livro foi dirigida por Luís Filipe Pereira. Do colectivo de autores constam os nomes de José Negrão (já falecido), Luís Palma Ramos, Narciso Hofisso e Lucas Sitói. Foi editado pelo Instituto Nacional do Desenvolvimento da Educação (INDE), e distribuido para todo o país, aquando da introdução do Novo Sistema de Educação (NSE), em substituição do Antigo Sistema (AS). (Luís Nhachote)

CANAL DE MOÇAMBIQUE - 09.02.206

NOTA: É uma tristeza que a juventude moçambicana esteja a ser deliberadamente enganada acerca da verdadeira ´HISTÓRIA de Moçambique. É o caso de Mueda, do Chai, de Uria Simango, etc.etc.

Fernando Gil

07-02-2006

Eduardo Mondlane morreu em casa de Betty King

A história “oficial” não é verdadeira

- O assassinato não teve lugar nos escritórios da Frelimo em Dar-es-Salam

- Joaquim Chissano e Janet Mondlane destapam a mentira perante Marcelino dos Santos

(Maputo) O Dr. Eduardo Chivambo Mondlane não foi assassinado no seu escritório em Dar-es-Salam. A história que há 37 anos se ensina oficialmente aos moçambicanos e faz parte dos curricula escolares é falsa.

É mentira. A verdade é outra. O primeiro presidente da Frente de Libertação de Moçambique morreu num edifício da secretária da esposa, em Oyster Bay, na capital tanzaniana. Janet Mondlane encontrava-se na Suiça e só soube do crime, à noite. O caso registou-se às 9 horas da manhã de 3 de Fevereiro de 1969 na Residencial/Bar da americana Betty King.

Na Praça dos Heróis, nas cerimónias centrais do 37.º aniversário da morte de Mondlane, na última sexta-feira, Joaquim Chissano confirmou o facto ao repórter do “Canal de Moçambique”.

Marcelino dos Santos, outro histórico, estava presente. Ficou histérico. Muito nervoso por não ter ido a tempo de impedir que a verdade fosse finalmente confirmada a tão alto nível, tentou, chegou mesmo a ordenar a um agente da sua segurança para actuar contra o jornalista. E o jagunço actuou mesmo, a tal ponto de o diálogo com o ex-Presidente da República ter ficado por concluir.

“Reza a história oficial que Eduardo Mondlane morreu no seu escritório na sede da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique), mas dados em nossa posse indicam que morreu em casa de Betty King, em Oyster Bay...”, pergunta o repórter do “Canal”, de chofre, a Joaquim Chissano.

“Sim. Confirmo que foi em casa de Betty King. Fui lá para ver o corpo”, respondeu Chissano que se encontrava ladeado pela sua esposa, por Marcelino dos Santos. A viúva, Janete Mondlane, e dois dos três filhos do casal, Edy e Nyelete Mondlane estavam atrás.

De recordar que Joaquim Chissano, quando se deu o assassinato, era o secretário particular do presidente da Frente de Libertação de Moçambique.

Ao confirmar que Mondlane foi assassinado numa residencial da americana Bettty King e não na sede da Frelimo, Chissano levantou o véu que cobriu uma mentira que durava há 37 anos, mais precisamente desde 3 de Fevereiro de 1969, cerca das 9 horas da manhã, quando Mondlane tombou.

Está por ser explicado aos moçambicanos e ao mundo porque razão a Frelimo e os sucessivos governos de Moçambique andaram, até hoje, a propalar uma falsidade crassa.

A versão “oficial” da história de Moçambique, escrita pelos “historiadores” que se têm vindo a julgar a si próprios indesmentíveis e a acusar os outros que a questionam de charlatães tem sido ensinada nas escolas a partir de livros oficiais aprovados pelo Ministério de Educação e Cultura de Moçambique.

Mondlane foi de facto assassinado por um livro-bomba, mas não no seu escritório. Antes, sim, na casa/restaurante de Betty King, que era secretária da esposa da vítima, Janet Mondlane, no Instituto Moçambicano, em Dal-es-Salam. O local onde pereceu era predilecto do primeiro presidente da Frente de Libertação de Moçambique nas horas de lazer.

Na fatídica segunda-feira em que se deu o atentado, a residencial que normalmente era muito movimentada, sobretudo devido ao restaurante, encontrava-se deserta. Nem Betty King, nem a maioria dos empregados, estavam lá. Apenas estava o cozinheiro que serviu um chá a Mondlane.

A casa residencial/bar tinha 12 empregados. Poucas horas depois do livro bomba explodir, Marcelino dos Santos, sua esposa Pamela dos Santos, Joaquim Chissano e Betty King, foram detidos pela Polícia tanzaniana para averiguações.

À margem das cerimónias do 37.º ano da morte de Mondlane, na Praça dos Heróis, onde anualmente a nata da Frelimo cumpre o seu ritual de deposição da coroa de flores aos seus heróis, o antigo estadista moçambicano, Joaquim Chissano, apesar de ter confirmado a versão que o “Canal de Moçambique” lhe colocou, escusou-se a clarificar as razões da sua alegada detenção.

Marcelino dos Santos irritado

Marcelino dos Santos ficou nervosíssimo quando a pergunta do Canal foi dirigida a Chissano. “Não responde!” disse, dos Santos a Joaquim Chissano, ao mesmo tempo que, virado para o repórter, dizia repetidamente: “O senhor não brinca comigo!”. Depois fez sinal a um latagão e disse: “Actua!”. E ele pôs mesmo termo ao interessante diálogo com Joaquim Chissano que, apesar do incidente, acabou deixando, finalmente, a verdade abafar a mentira que perdurava há 37 anos.

Janet Mondlane

A viúva Janet, que se encontrava acompanhada de dois dos três filhos do casal, Eduardo Mondlane Jr. e Nyelete Mondlane, diz que soube da morte do marido, só à noite, no dia do crime.

Encontrava-se na Suiça.

“Eu estava em Genebra quando recebi a informação” contou ela ao “Canal de Moçambique”.

Janet disse ainda que chegou a Dar-Es-Salaam dois dias depois. Segundo ela circulavam muitos rumores sobre o assassinato do seu marido.

“A minha preocupação naqueles dias eram os meus filhos”.

Janet também confirma que Eduardo Mondlane não morreu no escritório da Frelimo como há 37 anos se propala. “Sim, ele morreu em casa da Betty King. Era lá onde ele ia passar os seus momentos de lazer”.

A casa de Eduardo Mondlane estava localizada em “Msasani Bay” (Baía Msassani) e não era muito distante da Residencial de Betty King, em Oyster Bay (Baía das Ostras).

A versão “oficial”, segundo a qual Mondlane encontrou a morte nos escritórios da Frelimo cai por terra, e encontra aconchego no pantanoso charco da história recente do país. Resta-nos aguardar o que irá fazer a partir de agora o Ministério da Educação para que a falsa história não continue a ser ensinada às crianças de Moçambique.(Luís Nhachote)

CANAL DE MOÇAMBIQUE – 07.02.2006

Veja

http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2004/06/assassnio_de_ed.html

20 anos depois - África Sul quer divulgar este ano investigação à morte de Machel

O governo sul-africano vai tentar divulgar este ano as conclusões da investigação à morte de Samora Machel, o primeiro presidente moçambicano, ocorrida num acidente aéreo, em 1986, assegurou o ministro da Segurança sul-africano, Charles Nqakula.

A garantia foi dada no fim-de-semana, em Maputo, durante a cerimónia que marcou o 25º aniversário do assassínio de 12 membros do Congresso Nacional Africano (ANC), na cidade da Matola, durante um ataque realizado da força aérea sul-africana do regime do "apartheid". "O presidente sul-africano, Thabo Mbeki prometeu tentar resolver o assunto (sobre a morte de Samora Machel) durante o presente ano", disse Nqakula, que acrescentou ser necessário "descobrir quem é que cometeu este vil crime". "Esta é a dívida que temos com o povo moçambicano. É uma dívida que vamos pagar", sublinhou o governante.

Na sexta-feira, o presidente sul-africano Thabo Mbeki, fez inesperadas referências ao desastre aéreo de Mbuzini que matou Machel, durante o discurso que proferiu sobre o estado da nação, em Pretória. Na ocasião, Mbeki referiu-se à "misteriosa queda do avião" de Samora Machel, na zona de fronteira entre os dois países e reiterou que o caso "continua a exigir uma explicação satisfatória".
Machel morreu quando o avião em que seguia, transportando outras 33 pessoas da comitiva presidencial, embateu contra os montes Libombos, na região de Mbuzini, na África do Sul, no regresso de uma reunião na Zâmbia.

As causas do desastre foram atribuídas ao regime do "apartheid", mas resultados preliminares de um inquérito efectuado, à margem, por peritos russos, que cederam a aeronave ao governo moçambicano, indicam o envolvimento de moçambicanos na morte de Machel.

Graça Machel, viúva do ex-presidente moçambicano, também acusou, há anos, que "do lado de Moçambique, alguém facilitou o processo" que conduziu ao desastre do avião "Tupolev"-134A. Após a tomada de posse, no ano passado, o presidente moçambicano, Armando Guebuza, que chefiou a comissão de inquérito da parte moçambicana, assegurou a publicação dos resultados, mas não avançou qualquer data.

LUSA - 07.02.2006

06-02-2006

Recama lança “História de Moçambique”

Um resumo de diferentes obras

Um manual intitulado “História de Moçambique, de África Universal”, da autoria de Dionísio de Recama, licenciado em Administração pública pela Faculdade de Letras e Ciências Sociais da Universidade Eduardo Mondlane (UEM), foi recentemente lançado em Maputo.

“História de Moçambique, de África e Universal” consiste em resumos de diferentes obras historiográficas, abrangendo temas abordados ao longo das classes com a disciplina de história nos currículos educacionais moçambicanos até 12ª classe. A obra é editada pela Plural Editores.
ZAMBEZE - 05.02.2006

05-02-2006

No bicentenário da morte de Gonzaga

“O autor de Marília de Dirceu escreveu a coleção de poemas líricos mais popular da língua portuguesa, com um número de edições só superado por Os Lusíadas, de Camões”

ADELTO GONÇALVES - Especial para o Jornal Opção

TOMÁS GONZAGA: EM BUSCA DA MUSA CLIO, de Danyel Guerra. Porto, Armazém Literário, com apoio da Legião da Boa Vontade, de Portugal, 189 págs., 2004. E-mail: [email protected]

Daqui a quatro anos, entre 25 de janeiro e 1º de fevereiro, será assinalada a passagem do bicentenário da morte do poeta Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), nascido em Miragaia, no Porto, e falecido na Ilha de Moçambique, na costa oriental da África. Embora Gonzaga tenha sido um dos maiores poetas da língua portuguesa — capaz de se rivalizar em vida com Bocage (1765-1805) em citações na Gazeta de Lisboa, embora estivesse bem longe do Reino —, a levar-se em conta algumas experiências recentes, não se pode esperar grandes comemorações para a data.

Faz-se este aviso com tanto tempo de antecedência com a esperança de que as forças vivas da Invicta e, quem sabe, do Estado de Minas Gerais, onde fica a cidade de Ouro Preto, a antiga Vila Rica, da qual Gonzaga foi ouvidor antes de se envolver na conjuração mineira de 1789, deixem de lado a indiferença que tem marcado o seu relacionamento com a figura do autor de Marília de Dirceu, a coleção de poemas líricos mais popular da língua portuguesa, com um número de edições só superado por Os Lusíadas, de Camões, como assinalou o poeta Manuel Bandeira (1886-1968).

Só um fato dessa envergadura, estivesse em causa um poeta de língua inglesa ou espanhola, já seria suficientemente forte para que fossem realizadas festividades da maior repercussão em ambos os lados do Atlântico. Infelizmente...

Seja como for, da direção da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, por ocasião do Colóquio Internacional Leituras de Bocage nos séculos XVIII-XXI, ao final de novembro, que marcou o bicentenário da morte do poeta, este historiador literário trouxe para o Brasil a promessa da realização de um congresso similar em 2010. Conhecendo-se a garra das docentes da faculdade, sob a direção da professora Maria de Fátima Marinho, pode-se confiar que pelo menos esse colóquio haverá de ser realizado.

Também se pode esperar da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Ouro Preto, que, por iniciativa do historiador Luiz Carlos Villalta, venha a dar a sua contribuição, promovendo colóquio e outros eventos em homenagem ao poeta.

Gonzaga no supermercado — No que respeita a este articulista, já dei a minha contribuição com o livro Gonzaga, um Poeta do Iluminismo, biografia do vate, a primeira desde que o professor M. Rodrigues Lapa publicou um ensaio biográfico há mais de meio de século. E que assinalou o meu doutoramento em letras na área de Literatura Portuguesa pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo em 1997, sob a orientação do professor Massaud Moisés e com o apoio do professor Fernando Cristóvão, da Universidade de Lisboa.

Lançado em 1999, pela Editora Nova Fronteira, do Rio de Janeiro, pelo empenho do poeta Alberto da Costa e Silva, ex-embaixador do Brasil em Portugal e ex-presidente da Academia Brasileira de Letras, autor do prefácio, não se pode dizer que o livro tenha constituído um êxito de livrarias, embora tenha sido largamente citado em ensaios acadêmicos e resenhado em periódicos do Brasil e Portugal.

Nos últimos dias, talvez porque estivesse ocupando espaço em seu depósito, a Nova Fronteira vendeu o resto da primeira edição, com outros tantos livros encalhados, para a rede de supermercados Extra, do Grupo Pão de Açúcar. Assim, os exemplares, que inicialmente custavam 44 reais cada, estão sendo liquidados nestes primeiros dias de 2006 pela bagatela de 9,90 reais, em meio a beterrabas, chuchus, bananas, cocas-colas e bugigangas chinesas. Como as pilhas de livros decrescem a cada dia, conclui-se que a pouca cultura do povo brasileiro está diretamente ligada à falta de dinheiro no bolso.

Diante disso, parece claro que a Nova Fronteira não deve estar muito animada a discutir uma segunda edição. Mas, como detém os direitos exclusivos para a língua portuguesa, se alguma editora portuguesa quiser aventurar-se a uma edição terá de chegar a um acordo com a sua congênere carioca, o que, convenhamos, é sempre um obstáculo a mais.

Pouco ânimo — Aparentemente, porém, nem mesmo a proximidade do bicentenário da morte do poeta parece animar as editoras portuenses a colocar no mercado a biografia de um ilustre filho da cidade: pelo menos a Campo das Letras e a Edições Caixotim, ambas do Porto, já declinaram gentilmente o oferecimento, tendo em conta as atuais circunstâncias do mercado livreiro em Portugal, sobretudo nas áreas de ensaísmo, biografia literária etc. Pelo jeito, o bicentenário da morte de Gonzaga passará sem que sua nova biografia ganhe edição portuguesa.

Aliás, antes da assinatura do contrato com a Nova Fronteira, o original havia sido aprovado para publicação pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda, de Lisboa. Depois, com o interesse da Nova Fronteira, houve até a possibilidade de uma edição conjunta, mas a oferta que partiu do Rio de Janeiro não animou a IN-CM, que desistiu de vez.

Em razão disso, em Portugal, quem quiser conhecer o livro terá de consultá-lo na Biblioteca Pública Municipal do Porto, na Biblioteca Nacional de Lisboa ou na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra — para onde enviei, à época, exemplares de minha cota de autor. No Porto, o interessado pode também passar pela Livraria Nova Fronteira, na Galeria Brasília, na Rotunda da Boavista, que lá, até dois meses atrás, havia alguns raros exemplares em exposição.

Em busca da Musa Clio — A outra alternativa, mais fácil porque em edição portuguesa, é adquirir o livro Tomás Gonzaga: Em Busca da Musa Clio, de Danyel Guerra, em que Gonzaga, um Poeta do Iluminismo está fartamente citado e elogiado. Trata-se de um belíssimo ensaio de um jornalista brasileiro, nascido em Bangu, no Rio de Janeiro, radicado no Porto e licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

O principal objetivo desse trabalho de divulgação histórica, segundo seu autor, é tornar conhecido (e reconhecido) o homem oculto sob o criptônimo Dirceu, antes de mais, na sua cidade natal. Com isso, por meio de Tomás Gonzaga: Em Busca da Musa Clio, o autor procura iluminar a história pessoal e evocar a memória dessa figura tutelar da poesia neoclássica luso-brasileira, cujo estro antecipou o Pré-Romantismo.

Vivendo há mais de 20 anos no Porto, Guerra surpreendeu-se com o desconhecimento que o portuense dedica a seu conterrâneo, cuja memória está preservada numa ruela de Miragaia e numa placa afixada no prédio onde nasceu. “Muitos portuenses julgam-no nascido em Coimbra ou em Lisboa. (...) Alguns arriscam o Brasil como país natal. Hipótese que, ainda hoje, é aventada pela maioria dos brasileiros”, lamenta-se Guerra. Não é só. Como lembra Guerra, um autor brasileiro, Júlio José Chiavenato, no livro Inconfidência Mineira: As Várias Faces, publicado em 2000, teve a desfaçatez de admitir que Gonzaga nasceu em Moçambique.

Não é o caso de repetir aqui dados biográficos do poeta, mas apenas lembrar que, para Guerra, Gonzaga, um Poeta do Iluminismo é um sólido contributo para o que designa de “processo de dessacralização dos inconfidentes”, que, de certa maneira, foi iniciado pelo historiador inglês radicado nos Estados Unidos Kenneth Maxwell, autor de A Devassa da Devassa (Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1977).

Já que elogio em boca própria soa como vitupério, passamos ao leitor a incumbência de tirar as suas próprias conclusões, inteirando-se cada vez mais da história de vida e da obra do poeta que sonhou transformar-se no paladino daquela que teria sido a primeira república da América do Sul.

Sem assumir-se como uma ação investigativa, Tomás Gonzaga: Em Busca da Musa Clio, segundo seu autor, constitui “um ensaio historizante, a vocação mágica de agir como um fósforo que, repentinamente aceso, “com’on baby and light my fire” está fadado para deflagrar um fogo intenso, duradouro e purificador”. Que ajude a despertar instituições públicas e privadas, editoras, universidades e, principalmente, estudantes para a importância da obra de Gonzaga é também o que esperamos. 2010 logo chega.

ADELTO GONÇALVES é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: [email protected]

-Saiu hoje no Jornal Opção, de Goiânia (wwww.jornalopcao.com.br)

Os pais da mascote de guerra estão vivos

Sabadino1

Sabadino2

Com a ajuda dos fuzileiros e do CM, moçambicano concretiza sonho de 43 anos

João Sabadino Portugal estre­meceu. A notícia caiu como as bombas que ouviu há muitos anos em África, de onde foi trazido ainda criança por soldados portugueses. Tinha mais esperança em ganhar o Euromilhões do que em ouvir o que o amigo João Serra tinha para lhe dizer: "Encontraram os teus pais!" Sabadino ficou incré­dulo. "Não, não pode ser, isso é im­possível! Disseram que eu era ór­fão", diz ainda espantado, antes de arrancar a carta das mãos de João Serra. Tinha que ver com os pró­prios olhos para acreditar.

Não é para menos. Até ontem à noite João Serra, um antigo fuzileiro de guerra, anunciar a boa nova, João Sabadino Portugal julgava que os seus pais estavam mortos. Agora, aos 43 anos, a ex-mascote que os mi­litares portugueses trouxeram meni­no de África, recebeu a novidade que sempre sonhou ouvir. "É o dia mais lindo da minha vida", repetiu vezes em conta, invadido pela emoção.

A notícia chegou directamente de Moçambique, de onde João Sabadino é natural. Veio em forma de resposta a um apelo de João Serra ao Governo de Cabo Delgado e de uma reporta­gem da revista Domingo do CM, na procura de algum familiar de Sabadi­no. Ontem, chegou a resposta. E logo que a recebeu, o antigo fuzileiro pre­parou uma surpresa ao amigo. Quando se encontraram, leu-lhe a carta em alto e bom som, fazendo nascer lágrimas contidas nos seus olhos. "Isto é melhor do que ganhar o Euromilhões", desabafou João Sa­badino, nervoso, surpreendido, feliz.

Agora, o seu maior desejo passa por poder legalizar-se e partir rumo a Moçambique ao encontro dos pais. Enquanto o sonho não se concretiza, olha embevecido para as fotografias que viajaram lá de longe, juntamen­te com a carta e brinca "a minha ve­lha, é mesmo velha", diz, já mais descontraído. "Este é mesmo o meu pai, tens a certeza?", questiona, ain­da desconfiado.

Com esta notícia, João Sabadino descobriu também o seu verdadeiro nome. Coincidentemente o João mantém-se, mas em vez de Sabadino Portugal - como foi baptizado pêlos fuzileiros portugueses - é Lourenço Gonçalves Muicumba. E ao contrá­rio do que pensava, também não nasceu a 24 de Junho de 1962, mas a 12 de Julho desse ano.

MENINO SEM IDENTIDADE

” A história de João Sabadino Portugal foi divulgada pela revista Do­mingo a 17 de Setembro de 2005. Na altura, esta antiga mascote do Destacamento de Fuzileiros Especiais portugueses em Moçambique lutava por conseguir a sua identidade. Capturado em pleno mato pelas tropas portuguesas, quando ainda era uma criança, foi adoptado pelos militares como mascote e, mais tarde, trazido para Portugal. Anos de­pois, já adulto, descobriu que estava ilegal devido a uma questão bu­rocrática. Apesar dos esforços, ainda hoje a situação não está resolvi­da. »

JANETE FRAZÃO CORREIO DA MANHÃ – 04.02.2006

Recorde em:

http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2005/09/fora_da_lei.html

Inconfidentes e traficantes negreiros

Adelto Gonçalves

Adelto_gonalves_2 De um tempo a esta parte, historiadores brasileiros e portugueses estão cada vez mais integrados no seu ofício com uma troca constante de experiências e visões que só têm contribuído para o crescimento dos estudos sobre a história comum dos países de língua portuguesa. Um exemplo disso é o livro Modos de Governar: idéias e práticas políticas no Império português — séculos XVI a XIX (São Paulo, Alameda Casa Editorial, 2005), organizado pelas professoras Maria Fernanda Bicalho e Vera Lúcia Amaral Ferlini.
A obra é produto dessa troca de experiências que vem desde Julho de 2001, quando foi organizado o grupo de trabalho “Modos de Governar: política, negócios e representações do Império Português ao Império do Brasil”, surgido no âmbito do XXI Simpósio Nacional de História da Associação Nacional de Professores Universitários de História (Anpuh), realizado na Universidade Federal Fluminense, em Niterói, com a presença de historiadores brasileiros e portugueses. ...

Leia o texto completo em:

Download inconfidentes_e_traficantes_negreiros.doc

04-02-2006

Pachinuapa lança livro sobre Machel

Antigo combatente

Um livro sobre Samora Machel, Primeiro Presidente da República de Moçambique, é o tema da obra de estreia de Raimundo Pachinuapa.

O livro tem como título "Do Rovuma ao Maputo, a Marcha Triunfal de Samora" e é da autoria do antigo combatente e tenente general na reserva, Raimundo Pachinuapa.

ZAMBEZE - 01.02.2006

Dia dos heróis marcado pela polémica sobre atribuição do título

Praca_herois_maputo Moçambique assinala hoje o dia dos seus heróis, data em foi assassinado o primeiro presidente da FRELIMO, Eduardo Mondlane, enquanto se intensifica a discussão sobre o critério de atribuição do título de herói nacional.

Passados 37 anos sobre a morte de Mondlane, atribuída à PIDE, a polícia política da ditadura portuguesa, o país que, entretanto se tornou independente e passou pelas experiências do regime de partido único, da guerra civil e do multipartidarismo, continua dividido sobre quem deve ter o estatuto de herói nacional.
Até agora, no panteão do regime apenas estão destacados dirigentes da FRELIMO, como os seus primeiros presidentes, Mondlane e Samora Machel, ou 'compagnons de route' do partido que lançou a luta anti-colonial contra Portugal, como o poeta José Craveirinha e o maestro Justino Chemane.
Da RENAMO, o principal partido da oposição que reclama que a guerra civil de 16 anos que lançou em 1976 resultou na actual situação de liberdade e democracia, não há nenhum representante no monumento aos heróis na capital moçambicana.
Recentemente, o governo criou uma comissão, presidida pelo ministro da Educação, Aires Aly, para apurar os critérios de atribuição do estatuto de herói nacional, que é da competência do Presidente da República.
Mas várias vozes criticam a partidarização dessa comissão, apontando o facto de não integrar nenhum representante dos partidos da oposição, nomeadamente da RENAMO.
O principal partido da oposição considerou errada a criação pelo governo da comissão, defendendo que essa responsabilidade deveria caber ao parlamento.
"A Assembleia da República é um órgão que representa o povo, por isso que deve caber a esta instituição estabelecer os critérios para o debate. Não se deve enveredar por um pseudo-debate público à semelhança do que, alegadamente, aconteceu com os símbolos nacionais", disse o porta-voz da RENAMO, referindo-se à discussão, no
último ano, sobre a bandeira e emblema nacionais, que acabou por deixar tudo na mesma.
"O título de herói não pode ser atribuído somente àqueles que pegaram em armas para lutar contra o colonialismo português, mas aos que lutaram e sofreram pela democracia", acrescentou Fernando Mazanga.
Há muito que a RENAMO pretende, sem êxito, que entre os "novos" heróis, esteja André Matsagaíssa, fundador do partido e morto em combate em 1979.
Mas o porta-voz do principal partido da oposição moçambicana acrescentou agora novos candidatos ao estatuto de "legítimos heróis", como o jornalista Carlos Cardoso, assassinado em 2000, e a ex-campeã mundial do atletismo Lurdes Mutola.
Estes terão mais hipóteses de serem consagrados do que nomes geralmente associados à oposição moçambicana, como Joana Simeão e Uria Simango que a FRELIMO continua a considerar traidores.
Intervindo no debate, que se arrasta desde meados de 2005, o reverendo Dinis Matsolo, do Conselho Cristão de Moçambique e o líder muçulmano de Maputo, xeque Abdul Carimo, defenderam que o estatuto de herói "tem de estar acima dos interesses partidários".
"Um herói é uma pessoa que contribuiu de forma significativa e singular para o desenvolvimento do país ou a sua acção é notória e reconhecida como tendo contribuído para o bem de todos", frisou Matsolo.
"O perfil e a dimensão do herói nacional não devem ser politizados", porque "os heróis não são somente aqueles que combateram de armas na mão", juntou Abdul Carimo.
Por seu lado, o escritor Mia Couto descreveu a discussão em curso como "uma tentativa de apropriação por parte de forças políticas" e defendeu "um debate aberto" sobre a questão.
O ministro da Educação e Cultura de Moçambique, que preside à comissão encarregue de receber propostas, reconheceu a pertinência de uma "discussão aberta sobre a matéria também a nível das localidades, distritos ao invés de se centrar nas cidades".
"Seria proveitoso também ouvir o parecer das instituições, tais como escolas, locais de trabalho, corporações da polícia e demais organizações", disse Aires Aly.
Enquanto não se chega a uma conclusão definitiva, permanece apenas a certeza de que as comemorações, hoje, do Dia dos Heróis, não vão contar com a presença do presidente da RENAMO, Afonso Dhlakama, à semelhança do que sempre aconteceu desde a assinatura dos Acordos de Paz, em 1992.
Dhlakama acusa a FRELIMO de usar a data de hoje "para tirar proveito", enquanto o partido no poder responde que a RENAMO "não tem heróis" para apresentar. 
NOTÍCIAS LUSÓFONAS - 03.02.2006

03-02-2006

'Cabora Bassa - A Última Epopeia'

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Tal como Sofala - onde os Portugueses instalaram a sua primeira Capitania de Moçambique (em 1505) - Cabora Bassa mereceu novo livro de A. Santos Martins neste início de 2006, servindo-lhe de pretexto o facto de o Governo de Lisboa ter decidido entregar aquele majestoso empreendimento hidroeléctrico (um dos maiores do mundo) ao Governo de Maputo.

Para o autor, Sofala foi o 'Alfa' da presença portuguesa em Moçambique; e Cabora Bassa o 'Omega', donde lhe chamar «a última epopeia, o derradeiro esforço entre os actos mais sublimes dos Portugueses no meio milénio que passou desde as Descobertas marítimas que deram 'novos mundos ao mundo' até à chamada 'Revolução dos Cravos' (1974) e à política seguida pelos seus responsáveis, civis e militares, de entrega das Províncias Ultramarinas a movimentos ditos 'de libertação'».

Com o livro 'Cabora Bassa - a última epopeia' - que será lançado em Coimbra no decorrer do mês de Fevereiro -, o autor pretende homenagear todos aqueles que resistiram em Moçambique aos chamados 'ventos da História'. Mas com ele também se dirige às novas gerações de portugueses e moçambicanos, tratando do que foi o grandioso Plano do Zambeze, esse 'pinhal de naus por fazer' com que gente lusa, nas últimas décadas da sua presença naquele novo país do Índico, tentou fazer nascer «uma nova Civilização» que libertasse os povos da vasta região - e outras regiões da África Austral - do subdesenvolvimento que continua a fustigar, da forma mais atroz, os povos do Continente Negro.

Para que o Plano do Zambeze chegasse onde chegou e Cabora Bassa nascesse, milhares de portugueses e moçambicanos deram o melhor do seu esforço e muitas vidas se perderam, sobretudo depois de a Frelimo para ali dirigir o seu esforço de guerrilha, com o objectivo de impedir - o que não conseguiu! - a monumental barragem hidroeléctrica e a formação da sua imensa albufeira.

'Cabora Bassa - a última epopeia' é fruto do trabalho de um jornalista instalado em permanência naquela região moçambicana, durante alguns anos, precisamente para acompanhar o Plano de Desenvolvimento do Vale do Zambeze. Mas há capítulos sobre a presença portuguesa ao longo de quase meio milénio, onde se revela um empenhado estudioso da História de Moçambique.

NOTA: Pedidos à Feira Permanente do Livro, com sede no Arco de Almedina, 33-35, 3000 COIMBRA (telefone 351.239 838 192)

'Sofala - O primeiro templo da Igreja Católica na África Oriental Portuguesa'

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Mais um livro do jornalista e historiador conimbricense A. Santos Martins, desta vez um livro (lançado em finais de Novembro de 2005) contra o esquecimento a que foi votado, em Portugal, o Quinto Centenário (1505-2005) do estabelecimento da primeira Capitania portuguesa em Moçambique (a feitoria fortificada de Sofala) e do primeiro templo da Igreja Católica na África Oriental. E sobre esse esquecimento o autor faz uma 'provocação' à hierarquia da Igreja, ao Poder Político e às autoridades académicas do seu país.

Porque foi, pura e simplesmente, ignorada a efeméride, o autor - que viveu 13 anos em Moçambique - passa a livro todo o seu trabalho de investigação histórica de muitos anos sobre a instalação dos portugueses em Sofala, a progressão de agentes do Estado, aventureiros, comerciantes e missionários para o Alto Zambeze moçambicano, o que se passou com o Islão - que «estava lá» - e tanto mais que ocorreu, ao longo de quase cinco séculos, desde aquela primeira Feitoria até a região do interior africano onde ficava a Corte do Monomotapa.

Breve biografia do Autor

Santos_martins_1 Armando dos Santos Martins (A. Santos Martins) nasceu em Coimbra de família com fortes raízes nos contrafortes da Serra da Estrela e no Baixo Mondego. Depois dos seus estudos como Aluno Salesiano, ingressou na Força Aérea Portuguesa e partiu para Moçambique, com 19 anos de idade, integrado nas forças expedicionárias que foram combater a subversão armada naquela antiga Província Ultramarina. Ali nasceram três dos seus quatro filhos. Já como profissional da Imprensa (e Rádio), foi Correspondente de Guerra nos distritos flagelados pelo conflito. Deslocado em permanência, pelo 'Notícias' de Lourenço Marques, para a cidade de Tete, exerceu aqui também as funções de director do Emissor Regional do Rádio Clube de Moçambique. Acompanhou como jornalista os últimos anos do Plano de Desenvolvimento do Vale do Zambeze e a construção da barragem hidroeléctrica de Cabora Bassa. Regressado a Portugal em 1976, nesse ano trabalhou como redactor no 'Diário de Coimbra'. Ingressou nos quadros de 'O Comércio do Porto' em 1977, onde permaneceu até 1999, com funções de chefia e direcção. Entretanto, fundou e dirigiu na sua cidade natal o semanário 'Jornal Vale do Mondego'. Estudioso da Epopeia lusa, tem numerosos trabalhos publicados sobre a Expansão Marítima e a presença dos Portugueses no Índico. Em 2005 foram editados os seus livros 'História da Casa do Minho' (2º. volume), 'Santa Maria Lúcia de Jesus e do Coração Imaculado' (já traduzido em Espanhol), 'Os 5 Papas que peregrinaram em Portugal', 'João Paulo II em Coimbra' e 'Sofala - o primeiro templo da Igreja Católica na África Oriental Portuguesa'.

NOTA:

Pedidos à Feira Permanente do Livro, com sede no Arco de Almedina, 33-35, 3000 COIMBRA (telefone 351.239 838 192)

02-02-2006

PR “caça” voto nas cerimónias do Gwaza Muthini

PRESENTE, HOJE, EM MARRACUENE

Supostamente fazendo jus à teoria de Maquiavel de que os fins justificam os meios, o Presidente da República, Armando Guebuza, vai presenciar hoje, no distrito de Marracuene, Maputo, as cerimónias tradicionais de Gwaza Muthini, evento celebrado todos os anos a dois de Fevereiro, e que marca a revolta do povo moçambicano contra o jugo colonial português, ocorrido em mil oitocentos noventa e cinco.

A participação de Guebuza naquele evento (é a primeira vez como PR) é vista, por alguns renomados analistas políticos da praça, como uma “maneira antecipada de persuadir o eleitorado”, dado que nos anos que se avizinham haverá eleições das assembleias provinciais,

autárquicas e legislativas e presidenciais, sendo estas últimas as que vão fechar o ciclo em dois mil e nove. Sendo assim, este consitui o “momento oportuno para o partido pedir o voto”.

Aliás, durante a Quinta Sessão do Comité Central da FRELIMO, realizada a dezoito de Dezembro do ano findo, Armando Guebuza, presidente deste partido, teria dado aos filiados instruções claras sobre o que deviam fazer para se alcançar a vitória no ciclo eleitoral retrocitado.

Todavia, a presença de Guebuza no evento de hoje, além de outras tantas que se sucederão, é vista como “estratégica”, pois resume-se, única e exclusivamente, à conquista do eleitorado para que, no momento crucial, dedique o seu voto à FRELIMO.

Na mesma senda, explicam as nossas fontes, está o maior partido da oposição no País: a RENAMO, cujo líder visitou semana pretérita a província de Inhambane para se “inteirar” do quotidiano dos locais, bem como para “fiscalizar” as actividades desenvolvidas pelo novel executivo, desde a tomada de posse no ano passado.

Contudo, devassámos a batalha de Marracuene, ou Gwaza Muthini. Ela deu-se dez anos depois da Conferência de Berlim, a qual determinou a “ocupação” efectiva de África pelas potências colonizadoras. Os portugueses, comandados por Caldas Xavier, envolveram-se numa sangrenta

batalha com os guerreiros de Nwamatibyana.

De recordar que, anualmente, as celebrações do Gwaza Muthini são presididas por anciãos, e estes evocam os espíritos através do “kupahla”, e, para além de altos membros do Governo, têm acorrido ao evento numerosos populares vindos de diversos cantos do País.

Laurindos Macuácua – DIÁRIO DE NOTÍCIAS(Maputo) – 02.02.2006

Renamo distancia-se do dia 3 de Fevereiro

Oficialmente a Renamo não vai participar amanhã nas cerimónias de 3 de Fevereiro, dia dedicado aos heróis Moçambicanos. A data segundo Fernando Mazanga, porta-voz da organização peca por ser discriminatória, ou seja, por considerar a uns de heróis e outros não quando tanto uns como outros deram a si a bem deste país.

"Temos heróis que lutaram pela libertação Nacional. Mas também temos heróis que lutaram pela democracia. Temos heróis na cultura, na economia, no desporto e noutras esferas de actividades que não são consideradas como tal.
Logo, não faz sentido para a Renamo participar num acto discriminatório quanto este", disse Fernando Mazanga.
Instado de dar exemplos sobre quem são essas figuras, cujos feitos não são reconhecidos a fonte deu exemplo de figuras como o jornalista Carlos Cardoso, o economista Siba Siba Macuácua e a desportista Lurdes Mutola que tanto fizeram por este país mas cuja heroicidade não lhes é reconhecida.
Comentando tal ausência Edson Macuácua, Secretário do Comité central para a Mobilização e Propaganda do Partido Frelimo, disse que a auto-exclusão da Renamo só prejudica a ela própria, pois se marginaliza cada vez mais da vida política Nacional.
O secretário da Frelimo elucidou ainda que qualquer povo, em qualquer parte do mundo, tem a sua história, os seus valores, os seus heróis e suas referências sobre os quais se inspira toda sociedade.

NOTÍCIAS - 02.02.2006

01-02-2006

COMBATE de MARRACUENE

crónica ilustrada em texto de João Craveirinha

«…Fambane Pambene va-Landííí – Nhimpííí…»Tradução: - «para a frente gente da terra – guerra – ataque» (Em Guaza Muthine, voz de comando do jovem príncipe Ronga, nuã-Matidjuana caZixaxa iMpfumo, chefe da revolta contra as forças coloniais Portuguesas saídas da cidade de Lourenço Marques (caMpfumo), na Terra dos Rongas em Moçambique, actual Província de Maputo).

As forças coloniais (militares portugueses e praças “indígenas” de Angola e da ilha de Moçambique), entrincheiradas num “Quadrado militar clássico”, conseguiram rechaçar os assaltos dos revoltosos Rongas que por duas vezes romperam o “Quadrado” com...

Veja o texto completo em

Download combate_de_marracuene_jc.doc

Nota: Texto sem fotos

JEZEBELA:

http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2005/04/jezebela.html

MOÇAMBIQUE Feitiços, cobras e lagartos

http://www.macua.org/livros/feiticos.html

31-01-2006

Reconhecido contributo negro para a nação francesa

10 de Maio «Dia em Memória da Escravatura»
O Presidente Jacques Chirac anunciou ontem que de agora em diante, todos os anos, a França invocará a «memória da escravatura, longamente abafada, honrará as vítimas deste comércio ignóbil» e celebrará a sua abolição a 10 de Maio. Em 2001, nesta data, a França tornou-se o primeiro pais do mundo a considerar a escravatura como um «crime contra a humanidade».

Numa mensagem à nação, Chirac convidou os franceses a «olhar para a história do seu país tal como ela aconteceu» e a «assumir tanto as páginas sombrias como as páginas gloriosas». Apelou, ainda, para que o período da escravatura ocupe um «justo lugar» nos programas de ensino público.
O Presidente francês anunciou, também, a criação de um Centro Nacional de Investigação sobre a Escravatura e o Comércio negreiro e prometeu apadrinhar uma iniciativa europeia e internacional na luta contra o trabalho forçado, forma moderna de escravatura.
Recorde-se que foi o próprio Chirac quem, por iniciativa pessoal, conseguiu eliminar um artigo de uma lei de 2005 que aconselhava os docentes a destacar «o papel positivo da presença francesa no Ultramar, nomeadamente na África do Norte».

Passados alguns meses desde a «crise des banlieues» e dos incêndios em automóveis e prédios degradados - que puseram em evidência os problemas de integração que enfrentam os franceses descendentes de imigrantes árabes e africanos - o presidente francês propõe agora o reconhecimento do «o contributo cultural considerável dos escravos e seus descendentes» para a formação da nação francesa.

Um dos representantes do CRAN foi recebido ontem no palácio presidencial. Segundo dados demográficos há cerca de cinco milhões de negros em França mas esta minoria é ainda menos representada politicamente que os magrebinos apesar de ser numericamente equivalente.

Chirac condenou o racismo, «crime do coração e da mente», que «suja e destrói». Uma tomada de posição importante face a subida do racismo e da xenofobia em França e na Europa. Segundo uma sondagem recente um francês em cada três se declara racista e seis em cada dez considera excessivo o número de estrangeiros.

AFRICAEXPRESSO - 31.01.2006

EFEMÉRIDES no Espaço GRAFITTI Multicultural (Portugal)

Sexta-feira, 03.02.2006, Início 18:30hs – Olival de Basto

INTERVENÇÃO MUSICAL E GASTRONOMIA AFRICANA

(organização Mick Trovoada – [email protected])

Rua ilha da Madeira nº 16 – Olival de Basto 2675 – Portugal

Telefone: 219371948 (Transportes: Metro Lisboa - Sr. Roubado – linha amarela Odivelas; próximo Teatro Malaposta, a descer – autocarro 7 – Mapas - http://www.metrolisboa.pt/sr_ai.htm 

http://www.cm-odivelas.pt/Site/Freguesias/OlivalBasto/Mapa_JFOlivalBasto.asp

MASSACRE de BATEPÁ - São TOMÉ  (e Príncipe), -  Efeméride de 3 de Fevereiro de 1953

Data em que proprietários coloniais portugueses reprimiram violentamente  uma manifestação da população africana contra as condições de vida na colónia africana de Portugal. Na Enciclopédia Wikipedia consta em mais de 1.000 (Mil) mortos as vítimas da violência nesta data.

(Alocução – Prof. Dra. Inocência Mata)

Dia dos HERÓIS MOÇAMBICANOS 3 Fevereiro 2006.

Data Comemorativa do Sacrifício dos Moçambicanos pela Independência de Moçambique.Efeméride do assassinato a 03.02.1969 em Tanzânia, do Doutor EDUARDO MONDLANE, Alto Funcionário da ONU e Professor Universitário.

(Alocução - João Craveirinha)

30-01-2006

O GENERAL CATEDRÁTICO A METER ÁGUA...

Na memória do General Catedrático Sérgio Vieira, parece que estou nos primeiros lugares.  É logo no primeiro bosquejo dos seus “Testemunhos da Memória”, publicado a 16 de Setembro de 2005, no “Boletim Informativo do Partido FRELIMO”, que ele se lembrou da minha humilde pessoa.  Será uma homenagem, que presta a virtude ao vício, ou o vício à virtude? 

Depois de muito matutar, assim espero que seja e, por isso, me senti com a responsabilidade moral de vir ajudar o General Catedrático, esta verdadeira “biblioteca viva” ambulante, “corrigindo, acrescentando”, afastando alguma “inverdade” indeliberada ou sem intuito, assim o espero também, porque não quero, aqui, arquitectar processos de intenções, só desejo lembrar factos. 

Queria só cingir-me à minha “parte limitada do todo”, até, porque uma velha camaradagem me liga ao General Catedrático.  Camaradagem que nasceu, no verão de 1963, quando, aos 18 anos de idade, desembarquei do cargueiro “África Ocidental” da CUF, em Casa-Branca, para pedir asilo político às autoridades marroquinas...

Veja o texto completo em

Download o_general_catedrtico_a_meter_gua.doc

Artur Janeiro da Fonseca

23 de Janeiro de 2005

NOTA: Para compreender este texto não deixe de ler

             http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2005/09/a_fuga_dos_estu.html

             com o texto de Sérgio Vieira.

29-01-2006

ALFARRABISTAS E LIVREIROS ANTIQUÁRIOS EM PORTUGAL

Embora não exaustiva, junto uma listagem dos principais alfarrabistas de Portugal.

Veja em:

Download alfarrabistas_e_livreiros_antiqurios.htm

24-01-2006

MAAC e UP rubricam acordo de cooperação

O Ministério para os Assuntos dos Antigos Combatentes (MAAC) e a Universidade Pedagógica (UP) acabam de rubricar um formulário de cooperação com vista a investigação, tratamento, elaboração e divulgação  dos factos, fenómenos e processos da Luta de Libertação Nacional.

Assinado na passada segunda-feira, pelo Ministro do pelouro do  (MAAC), Feliciano Gundana e pelo reitor da UP, o Professor Doutor Carlos Machili, igualmente constitui objecto do presente protocolo, a realização de estudos, assessoria e/ ou consultoria sobre eventuais projectos económicos de enquadramento de Combatentes da Luta de Libertação de Moçambique.

Conforme a cláusula segunda do acordo, os elementos acima descritos serão realizados sob forma de projectos em que cada uma das partes, através do seu pessoal especializado, será competente para propor matérias passíveis de investigação, publicação, assessoria e consultoria.

O mesmo objecto será pesquisado por docentes/investigadores da UP e por investigadores do MAAC, onde serão privilegiados projectos de investigação que nas equipas de pesquisa incluam estudantes de cursos afins da UP.

O reitor da UP considerou que pouco mais de 50 por cento dos documentos são branqueados, dai a falsidade da história.   

O protocolo determina como obrigações do MAAC a entrega à UP da lista de assuntos e matérias que pretende ver pesquisados e publicados com cientificidade, assim como a colocação à disposição da UP os “dossiers” que directa ou indirectamente estejam ligados à luta de libertação.

Por outro lado, a MAAC terá como obrigação facilitar o acesso à recolha e tratamento de dados às equipas de pesquisa e, estar disponível a esclarecer dúvidas e fornecer dados complementares solicitados por equipas de investigação.

Relativamente aos fundos para a prossecução das pesquisas, caberá as partes diligenciar a criação dos fundos de pesquisa destinados a suportar os encargos com a investigação e publicação  da História de Libertação.

No que concerne a formação profissional, a UP vai realizar cursos de formação profissional de curta duração para os Combatentes da Luta de Libertação Nacional envolvidos  nos projectos económicos e sociais.

Conforme o documento em nosso poder, enquanto perdurar o presente protocolo, a UP reservará anualmente, em cada uma das suas delegações o mínimo de cinco vagas para frequência de cursos superiores de que serão beneficiários os combatentes da luta de libertação de Moçambique e seus descendentes.

DIÁRIO DA ZAMBÉZIA – 11.01.2006

20-01-2006

A ROTA EXTERNA PARA A FORMAÇÃO E CONSOLIDAÇÃO DA FRELIMO (3)

Sergio_vieira01_2 TESTEMUNHOS DA MEMÓRIA

Sérgio Vieira

Gwambe aliou-se, ou vivia às expensas do Bureau, Mondlane com realismo e nisso apoiado por Ahmed Ben Bella e a Argélia, entendeu que o Tanganhica e a Rodésia do Norte (mais tarde Zâmbia), com o Niassalândia (depois Malawi), constituíam as retaguardas geográficas da causa da libertação da África Austral.

A decisão da OUA de fixar a sede do Comité de Libertação em Dar Es Salaam, encerrou um debate bem falso. George Magombe dirige o Comité de Libertação, no início dos anos 70 substituído por Hashim Mbita até ao final da existência útil do Comité, com a independ6encia da Namíbia e a queda do apartheid.

Em 1963 Mocumbi e Chissano são chamados para Dar Es Salaam e eu enviado para Marrocos.

Em Rabat estava a Amália (Maya) da Fonseca (PAIGC) e o seu esposo, o médico Africano Neto (MPLA) e Aquino de Bragança, com a Mariana sua mulher, a Maya e Aquino ligados à CONCP a quem me juntei no trabalho. Lá vivia, mas na UGEAN (União Geral dos Estudantes da África Negra Sob Domínio Colonial Português), encontrava-se o Belli Bello e dois companheiros da Guiné Bissau.

O Aquino, a Mariana e os filhos, pouco depois partem para a Argélia, para o Aquino trabalhar no semanário argelino Révolution Africaine e a Mariana leccionar.

Mário de Andrade vivia em Rabat, assim como a primeira esposa de Amílcar e a filha mais velha. Connosco e em Rabat estavam ainda o João Mungwambe e o Joel Maduna, Ambos haviam sido expulsos da FRELIMO pelas manobras do agente Léo Aldridge Milas, desmascarado por Mondlane. Mondlane recupera os dois camaradas, que viviam no Cairo, e envia-os para Rabat.

O Jorge Rebelo junta-se a nós pouco depois. Mungwambe irá abrir a representação na Argélia, em 1964 e Maduna vai treinar na Argélia, é enviado para abrir a frente sul, onde a PIDE o assassinou na cadeia em Lourenço Marques, privando-o totalmente de comida e água, quando capturado. Rebelo segue para a Argélia e daí para Dar Es Salaam.

A saída dos caciques da MANU, da UDENAMO e da UNAMI, embora criando tensões diversas, libertou a FRELIMO das visões tribais e regionais e das expectativas vãs que a ONU ou a OUA nos trouxessem a independência numa salva de prata.

Diga-se de passagem, que o saudoso Diallo Telli, primeiro Secretário Executivo da OUA também entretinha esse mito e, formada a OUA pediu a Mondlane que se instalasse com a direcção da FRELIMO em Addis Abeba, pois a África libertaria Moçambique e nos instalaria no governo.

Mondlane respondeu que a tarefa dos moçambicanos era lutar e regar com sangue a libertação e a da OUA apoiarnos logisticamente.

Desde o início Mondlane leva a FRELIMO a agir em três direcções distintas:

Preparação da luta armada. Dois grupos seguem para a Argélia, o último dirigido por Samora, o primeiro creio encabeçado pelo Filipe Magaia. Um segue para o Egipto, dirigido pelo Lopes Tembe. Outro com Samuel Dlhakama e Sumbane para Israel, onde vão receber formação em enfermagem. Mais tarde José Moiane, Sebastião Mabote, Francisco Langa e mais camaradas vão treinar em Nanquim e Joaquim Chissano na URSS.

A organização clandestina, que Jaime Rivaz Sigaúke, dirige, coadjuvado por Mariano Matsinhe. Sigaúke que fazia demasiado confiança a elementos suspeitos de colaboradores da PIDE, é raptado e assassinado pela PIDE, substituindo-o o Mariano.

A formação escolar dos jovens, iniciada no Instituto Moçambicano, construído com o apoio da Fundação Ford. Numa primeira fase os alunos apenas viviam no Instituto e frequentavam as aulas no Kurasini International School, criado pelo African American Institute.

Curiosamente, a decisão de criarmos o nosso próprio sistema de ensino, com as aulas em português, com professores nossos, livros de ensino nossos torna-se, já na segunda parte dos anos 60, uma dos pretextos para o ataque contra a FRELIMO pelo grupo Gwenjere, Simango, Nkavandame.

Após o assassinato do Presidente Kennedy, a administração Johnson devido ao seu envolvimento no conflito do Vietname (o desfolhante Agente Laranja foi experimentado em Cabo Delgado) e aos compromissos com Israel aceita as pressões de Lisboa e leva a Fundação Ford a cortar os apoios ao Instituto Moçambicano.

Tentando prevenir o seu desaparecimento um grupo ligado aos velhos caciques da MANU assassinam um sacerdote estrangeiro em Cabo Delgado em Junho ou Julho de 64.

Continua...

Boletim Informativo do Partido Frelimo nº 173 – 28.11.2005

A ROTA EXTERNA PARA A FORMAÇÃO E CONSOLIDAÇÃO DA FRELIMO (2)

Sergio_vieira01_1 TESTEMUNHOS DA MEMÓRIA

Sérgio Vieira

Como moçambicano e em contacto com o país e os colegas que estavam em Poitiers, Joaquim Chissano e Pascoal Mocumbi, havendo já falado com Marcelino dos Santos, não partilhava da desconfiança dos colegas angolanos, em especial. Conhecia também o papel de Mondlane para a promoção da nossa fuga colectiva.

Eduardo Mondlane falou comigo à parte, levou-me a almoçar num restaurante, que embora sem luxos, sempre me libertava da rotina dos restaurantes universitários, frequentava então o Mabillon e o restaurante dos estudantes muçulmanos, em Saint Michel.

Contou-me a sua visita a Moçambique, deu pormenores sobre o Massacre de Mueda. Falou, depois do imperativo da unidade e das causas dos fracassos anteriores da luta pela independência, mencionou-me o dilaceramento de Angola, onde a UPA mais que combater os colonialistas, procurava aniquilar o MPLA.

Explicou-me, detalhadamente, a situação da UDENAMO e da MANU. Não me recordo de haver mencionado a UNAMI.

Sobre a UDENAMO e a MANU alertou-me sobre o facto de ambos movimentos lhe parecerem padecer de grandes tendências tribais, muito embora houvesse gente sã no seio deles.

Marcelino dos Santos já nos havia contado estas situações preocupantes.

Entre os poucos moçambicanos, ora em Poitiers onde estudavam Chissano e Mocumbi, ora em Paris, onde me encontrava, com o Ganhão, o Almeida Matos, a Elisabete Sequeira, o Américo e o Walter Leitão, o Rui Nogueira e a Isabel Brito (estes quatros últimos abandonaram-nos aos poucos), discutimos e decidimos fazer funcionar a UNEMO, criada pouco antes em Moçambique pelo Chissano e Mocumbi e alguns outros companheiros.

Em coordenação com o pequeno grupo que estudava na Suíça, o Valeriano Ferrão e a Ana Simeão Neto, e com os que estavam nos Estado Unidos decidimos, em bloco, não aderir a nenhum partido e exigir a unidade.

Não me recordo se o Mocumbi, se o Chissano, mas um deles deslocou-se a Dar-Es-Salaam e transmitiu a nossa posição a favor da unidade. A 25 de Junho de 62 todos nos tornamos membros da FRELIMO, como acordado.

Para o I Congresso da FRELIMO creio que foi o camarada Chissano.

Em Maio de 1962, através do Marcelino que estivera em Acra, tomámos nota do protocolo assinado entre a MANU e a UDENAMO, com a sequência no acordo de fusão, assinado a 25 de Junho em Dar-Es-Salaam e marcando o nascimento da Frente de Libertação de Moçambique – FRELIMO-, com Mondlane na direcção. AUNAMI assinou posteriormente.

Considerámos que desde esse dia fazíamos parte da FRELIMO.

Aparentemente, durante o encontro de Acra, quando se tratou de discutir o nome da nova organização, Gwambe sugerira o nome, Frente de Libertação de Moçambique e a sigla FRELIMO. Durante toda a sua vida política pouco mais fez do que criar nomes de organizações e siglas, que tão depressa se formavam como se esvaíam. Assinou o Acordo, não secara a tinta e já criara uma NOVA UDENAMO, seguida duma FUNIPAMO, transformada em MORECO e depois COREMO, etc. No fundo almejava mais presidir do que fazer e, motivado pela ambição, estava pronto a toda e qualquer aliança e mesmo traição.

Pouco depois encontrei-me com Adelino Gwambe em Helsínquia, no Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes. Rapidamente me explicou que não apoiava a FRELIMO porque dominada pelos imperialistas americanos e porque recusava a luta armada, o contrário da informação de que eu dispunha. Abstive-me de o contrariar.

Confesso que na conversa, deambulávamos pelas ruas de Helsínquia, fiquei estarrecido quando me confessou receber revelações do espírito de Lumumba e, por duas vezes, interrompe o que me dizia, fica hirto e diz-me que se está a comunicar com Lumumba! Este primeiro encontro foi o último, nunca mais o vi.

Durante este período inicial da vida da FRELIMO, Gwambe que gozava de apoios no Bureau for African Affairs, no Ghana, lança campanhas de imprensa muito violentas contra Mondlane e a sua esposa, Janet, acusados de agentes do imperialismo americano. O Spark e a sua edição em português A Faúlha são os grandes veículos da campanha anti FRELIMO e anti Mondlane. Lembro-me de na época haver escrito uma carta ao jornal denunciando as falsidades e calúnias propaladas.

Surgia uma certa rivalidade entre o Ghana e o Tanganhica, o Ghana querendo o papel de protagonista na causa da libertação, o Tanganhica, por força das circunstâncias geográficas impondo-se com um real protagonismo.

Continua...

Boletim Informativo do Partido Frelimo nº 172 – 16.11.2005

A ROTA EXTERNA PARA A FORMAÇÃO E CONSOLIDAÇÃO DA FRELIMO (1)

Sergio_vieira01 TESTEMUNHOS DA MEMÓRIA

Sérgio Vieira

Em princípios de 62, possivelmente finais de Janeiro, Mondlane vem a Paris.

Arranjou-me uma bolsa da CIMADE, organização do Conselho Ecuménico que apoiava os estudantes refugiados.

Em Sèvres, nos arredores de Paris, onde se encontrava o lar, estavam dois moçambicanos, o Américo e eu, numerosos angolanos, congoleses (k), argelinos que saiam das cadeias francesas e alguns húngaros que vieram para França na sequência dos eventos de Budapeste em 56. Em Poitiers estavam o Pascoal Mocumbi e o Joaquim Chissano, ambos estudando medicina. Na Suíca a Ana Simeão, nos Estados Unidos já se encontrava o João Nhambiu e o António Butsha Kashiputo, creio que no mesmo momento no Reino Unido estudava o Pastor Mabunda.

Dirigia o Lar da Cimade o Pastor ortodoxo, russo branco, Edvokimov e a sua esposa, uma franco-vietnamita, Therèse. Edvokimov, eminente teólogo, homem de coração grande e sabedoria, impunha a não discriminação entre todos que acolhia. Rezava no início das refeições, mas a ninguém obrigava a benzer-se ou com ele orar.

Quando o Presidente Mondlane chegou a Paris promoveu um encontro com os

estudantes das colónias que aí se encontravam. De Moçambique, nesse momento participaram no encontro apenas o Mocumbi e Chissano e eu, não me recordo se o Ganhão já havia chegado.

Porque estudara nos Estados Unidos e aí leccionara, muitos estudantes das restantes colónias olhavam para Eduardo Mondlane com alguma suspeita. A UPA,

ainda não se tornara FLNA, beneficiava dum grande apoio americano.

Os eventos do Congo (K), a guerra do Vietname, o anti cubanismo da administração Kennedy tornavam odiosa a política americana para uma juventude generosa, solidária com a causa da libertação. Qualquer associação com a América tornava-se suspeita.

Esta desconfiança se agravava pelo facto de que, no segundo semestre de 1961, a convite de Adriano Moreira, Mondlane visitara Moçambique, a imprensa local e portuguesa destacaram o evento. Adriano Moreira, homem de grande lucidez e visão que nesse momento dirigia o Ministério do Ultramar, procurava a todo o custo prevenir que a guerra se estendesse às demais colónias.

Por isso retirara a Comissão Administrativa da Casa dos Estudantes do Império, imposta pelo então Comissário Geral da Mocidade Portuguesa, Silva Cunha. Recebia os estudantes das colónias, multiplicando os gestos de apaziguamento.

Abolira o Estatuto do Indígena e o Código de Trabalho para o Indígena, actos na

sequência esvaziados de conteúdo, pela pressão dos colonos e das companhias

coloniais. Nomeara Sarmento Rodrigues para o governo de Moçambique. O Almirante, tal como Adriano Moreira, sentia-se próximos dos círculos das altas

patentes militares que haviam tentado, em Março de 61, o golpe palaciano falhado

contra Salazar e a guerra.

As ideias de Adriano Moreira não diferiam das de Marcello Caetano, já em rota de

colisão com Salazar. Portugal e o Futuro, do General Spínola, publicado nos

princípios de 1974, reflectiam essas perspectivas, mas com 13 anos de atraso,

com a guerra em três frentes e o exército saturado delas e mais que desmoralizado. Marcello Caetano no poder jamais se esforçou de aplicar o que sonhara e capitulou diante dos ultras, arrastando ainda mais o seu país para a guerra.

Com o seu convite a Mondlane Adriano Moreira prosseguia o duplo objectivo de,

forçar a evolução conducente à autonomia e independência e prevenir a guerra. Ele desejaria fazer de Mondlane o Secretário Geral dum governo colonial de Sarmento Rodrigues em Moçambique. Na sequência e face a delicada recusa de Eduardo Mondlane, buscou a participação de Domingos Arouca.

As lutas entre os grupos ultras e mais liberais do regime saldam-se com a derrota dos liberais e Domingos Arouca pagará com longos de ano de cadeia os sonhos de Adriano Moreira. A factura jamais poderia ser saldada por Sarmento, Moreira ou os liberais, mais do que as conspirações Salazar abominava os escândalos.

No final da história, Adriano Moreira fracassou pois que o regime não estava pronto a qualquer mudança ou sinal de mudança. Adriano Moreira foi afastado do Governo pouco depois, os ultras e colonos não o prezavam.

Mondlane aproveitou o convite para reforçar a ligação interna, escamoteando a manobra de Moreira. Mondlane avaliara correctamente a correlação de forças prevalecente em Portugal e estava mais que consciente de que na melhor das hipóteses lhe reservavam o papel de pretinho de alma branca e bem comportado.

Boletim Informativo do Partido Frelimo nº 171 – 04.11.2005

16-01-2006

MOGINCUAL, SUAS TERRAS E GENTES

Do Professor Dr. Carlos Bento que viveu vários anos em Moçambique, MACUA DE MOÇAMBIQUE e MOÇAMBIQUE PARA TODOS têm a honra de apresentar um estudo sobre o Mogincual, hoje pertencente à Provincia de Nampula, em Moçambique.

Veja e imprima:

Download Mogincual.pdf

15-01-2006

Ratos que detectam minas usados a partir de Março em Inhambane

Dezassete ratos treinados na detecção de engenhos explosivos serão usados a partir de Março para remoção de minas terrestres em Inhambane, sul de Moçambique, num projecto a desenvolver pela organização belga APOPO, até 2007.

O representante da APOPO, Frnak Weetjens, disse hoje que os ratos importados da Tanzânia têm a capacidade de iniciar a abertura de uma cova onde se encontre o engenho numa área de trabalho demarcado em cada 100 metros quadrados.
Também podem avaliar directamente 160 amostras de área suspeita de conter minas anti-pessoal em apenas 20 minutos, exercício que o homem necessita de um dia para fazer.
Comparativamente ao cão, os referidos ratos podem igualmente detectar explosivos plásticos e detectar mais rapidamente as minas anti-pessoais.
Esta é a primeira experiência do género no mundo, que arrancou há dois anos em Moçambique, permitiu a desminagem de várias áreas também na província de Gaza, sul, destacou.
O Governo moçambicano arrancou com o projecto de desminagem na década de 90 e nos últimos cinco anos gastou perto de 90 milhões de euros para destruir milhares de minas terrestres, numa extensão de mais de 50 milhões de metros quadrados.
Dados oficiais estimam que existem em mais de 790 aldeias afectadas por engenhos explosivos, facto que torna Moçambique um dos países mais afectados do mundo por este flagelo.
Segundo as Nações Unidas, as minas terrestres matam, anualmente, cerca de 25 mil pessoas.

NOTÍCIAS LUSÓFONAS - 12.01.2006

13-01-2006

A ALMA LUSA - IMPÉRIO E CULTURA DA MESTIÇAGEM

Não deixe de ver o programa Prós e Contras com a intervenção do  Padre António Colimão, da Associação Fraternidade Damão e Diu, na próxima segunda-feira, 16 de Janeiro, na RTP1, pelas 22H25.

Neste Programa

Hoje o Futebol.
Antes o Império e a cultura de mestiçagem.
Outrora o conhecimento marítimo.
Como será que a nação projecta a sua imagem no mundo e como é que esses valores influenciam as nossas atitudes?
Que importância tem a representação da chefia do Estado e como tem sido concretizada?
No momento em que o país se prepara para escolher o novo presidente Nandim de Carvalho, José Adelino Maltês, Jacinto Lucas Pires, António Colimão, João Carlos Oliveira e Clara Pinto Correia vêm ao Prós e Contras debater a "Alma da Nação". Segunda-feira à noite na RTP.

Do site da RTP

11-01-2006

NO OUTRO LADO DO TEMPO - DVD

Moambique_dvd_capa1

Nesta colectânea de MOÇAMBIQUE - No outro lado do tempo(Parte I e II), poderá ver e rever as imagens de uma época que fez parte da vida de muitos portugueses.

Estas são algumas das imagens únicas, inéditas e inesquecíveis referentes ao início dos anos 70, imagens gravadas algures "No outro lado do Tempo".

Agora em DVD.

Contactos:

Telefone: 351.214348010    Email: [email protected]

06-01-2006

Animais voltam à Gorongosa

Parque Nacional está a ser reabilitado

Búffalos, elefantes, rinocerontes, gazelas e zebras estão a regressar em força ao Parque Nacional da Gorongosa, em Moçambique, ao abrigo de um projecto internacional de reabilitação que envolve os esforços de americanos, portugueses e moçambicanos.

Agora, sob a coordenação da Carr Foundation - uma instituição criada em 1999, pelo milionário e filantropo norte-americano Gregory C. Carr - o Parque Nacional da Gorongosa está no bom caminho para voltar a ser uma das principais reservas naturais de protecção da vida selvagem em África.

O memorando de intenções assinado em Outubro de 2004, com o Ministério do Turismo moçambicano, sob a égide do então Presidente Joaquim Chissano, consagra o investimento global de 36 milhões de dólares (31 milhões de euros) no projecto de recuperação desta área de 3770 quilómetros quadrados, na Província de Sofala, em pleno centro de Moçambique.

Greg Carr frisa o carácter de longo prazo do seu compromisso de desenvolvimento do Parque Nacional da Gorongosa, nos próximos 30 anos. «Temos de planear a nossa intervenção em várias fases: conservação, sócio-económica e turística. Este projecto motivou-me, porque é uma combinação entre uma acção de protecção da natureza e um projecto de desenvolvimento económico. Trata-se de usar a beleza do ecossistema para combater a pobreza».

Prioridade ao repovoamento

Assim, a primeira fase passa pelo repovoamento dos animais dizimados por caçadores furtivos durante as duas décadas de guerra que se seguiram à independência do país. O filantropo americano reconhece que «houve algum esforço de restauração, logo a seguir à guerra, mas o parque precisava de uma nova injecção de dinheiro».

Com recurso aos fundos disponibilizados pela Carr Foundation, está já a ser construída uma vedação em torno de uma área com 5000 hectares, especialmente vocacionada para a reprodução de animais, nomeadamente, rinocerontes e búfalos que serão depois libertados no parque. «Os elefantes estão a regressar - existem cerca de 250 -, mas só temos uma manada de 35 búfalos e, apenas, sete leões», revela. Paralelamente, serão desenvolvidos estudos hidrológicos, da flora e da fauna, com recurso a meios de detecção por satélite, envolvendo cientistas americanos e moçambicanos da Universidade Eduardo Mondlane, do Museu de História Natural de Maputo e da empresa de consultoria ambiental Impacto, liderada pelo biólogo e escritor Mia Couto.

Os responsáveis por este projecto de recuperação também gostariam de ver a Serra da Gorongosa (onde nascem os rios que irrigam a reserva) incluída no perímetro do parque e estão a trabalhar na legislação que visa criar uma "zona tampão" de protecção nas zonas limítrofes, onde existem 12 aldeias tradicionais.

«Estamos muito envolvidos com as populações - assegura Greg Carr - essa é a nossa grande diferença em relação a outros parques, em que há autênticas batalhas para afastar os habitantes locais. Nós, pelo contrário, queremos incluir as pessoas no sucesso do parque, gerando empregos para elas mas, também, possibilitando-lhes a criação dos seus próprios negócios».

No futuro, 20% das receitas do parque reverterão para as comunidades locais, que serão objecto de um recenseamento com vista à determinação das suas necessidades mais prementes nos domínios da saúde, educação e abastecimento de água.

Ecoturismo

Greg Carr recorda que, no passado, «a Gorongosa apresentava a maior densidade de animais em África» e que as razões para isso estão nos diferentes ecossistemas da região. «Existe uma grande diversidade de ecossistemas, numa superfície relativamente pequena: planícies, savanas, rios, lagos e dois tipos de floresta húmida, que criam uma abundância de vida selvagem e cenários de grande beleza. Uma oportunidade para o turismo tremenda», comenta.

Na opinião do milionário americano, «a Gorongosa pode ser o motor económico de Moçambique, atraindo dezenas de milhares de turistas por ano, que vão ao parque, mas também, a outras regiões do país e gastam dinheiro nas viagens, no alojamento e no comércio e serviços». Numa fase inicial, Greg Carr aponta para «um total de 100 mil entradas, um número que considera realista quando comparado com os dois milhões de pessoas que visitam anualmente o Kruger Park, na vizinha África do Sul».

Além do vulgar turista, a promotores do Parque Nacional da Gorongosa querem reunir todas as condições para atrair cientistas e outros estudiosos do mundo animal. Para o efeito, «vai ser construído um centro permanente de Ciência para investigadores convidados», revela Vasco Galante, responsável pelo desenvolvimento turístico do empreendimento.

No próximo ano, será dado início à construção dos primeiros "lodges", mas só em 2007 o parque estará equipado para organizar safaris na rede de picadas, actualmente, em fase de preparação. Todavia, «o parque já está a receber visitas de turistas com um espírito mais aventureiro - revela Vasco Galante - são, normalmente, italianos, suíços e holandeses, que se deslocam nas suas próprias viaturas e com todo o equipamento de campismo. Dispomos de chuveiros e de um pequeno restaurante no Chitengo». O aldeamento construído pelos portugueses no tempo colonial será, posteriormente, transformado num campo educacional para crianças moçambicanas e dotado de um museu, acrescentou o mesmo responsável.

Portugal apoia recuperação

De passagem por Portugal, Greg Carr foi recebido pelo secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação, João Cravinho, a quem o milionário americano apresentou o projecto de recuperação do Parque Nacional da Gorongosa. À saída do encontro e satisfeito com a receptividade demonstrada, Carr revelou que o Governo Português vai facilitar os contactos e apoiar a recolha de documentação sobre o parque no Arquivo Histórico Ultramarino, na Cinemateca e na RTP. «Há muitos portugueses que conservam memórias e fotografias antigas da Gorongosa que gostaríamos de reunir. O Parque Nacional da Gorongosa é um espaço onde portugueses e moçambicanos poderão partilhar a sua história comum», concluiu.

Formado em Harvard, nos anos 80, Greg Carr fez fortuna nos primórdios da economia da informação, à frente de empresas como a Boston Technology e os servidores de Internet Prodigy e Africa Online. Em 1998, renunciou a todos os cargos e vendeu as suas participações para criar o Carr Center for Human Rights Policy, o Idaho Human Rights Education Center, o Market Theater e a fundação com o seu nome.

Conhecido pelas suas campanhas anti-racistas e em prol dos direitos humanos, Greg Carr concentra, aos 45 anos, as suas atenções no desenvolvimento social e na protecção da biodiversidade em África. «Este é o projecto mais belo da minha vida - confessa - sempre pensei que, se algum dia fosse rico, passaria a minha vida a fazer as coisas com que, realmente, me preocupo».

Alexandre Coutinho  - EXPRESSO AFRICA - 03.01.2006

27-12-2005

1895, 28 de Dezembro – Mouzinho de Albuquerque aprisiona Gungunhana em Chaimite, a aldeia sagrada dos angunes.

Passam amanhã, dia 28 de Dezembro, 110 anos sobre a prisão de Gungunhana por Mouzinho de Albuquerque.

Recordo a efeméride através de um texto publicado pela Grande Reportagem em 28 de Agosto de 2004.

Aqui apresento algumas fotos retiradas do livro de Maria da Conceição Vilhena "Gungunhana no seu reino":

http://www.macua.org/gungunhana/index.html

Gungun01

Gungun06

Leia aqui

UM HERÓI PARA MOÇAMBIQUE

Download GungunhanaGR2004.doc

23-12-2005

Desastre de Mbuzini - Piloto quer que Sérgio Vieira seja ouvido pela PGR

por Azarias Mabunda

Está difícil, da parte da Frelimo, obter uma posição clara sobre as causas do desastre de Mbuzini. Julgava-se que com a publicação do livro, A Morte de Samora Machel, em que o autor apresenta todos os dados relacionados com o desastre, as autoridades deste país viessem a público rebater ponto por ponto. Em vez disso, fecharam-se em copas. Quem cala, consente, ou talvez não, se se tomar em linha de conta a posição sempre polémica de um Sérgio Vieira.

Contudente como sempre, reduziu a obra, A Morte de Samora Machel, a uma peça de ficção e a uma invenção da História, pese embora o facto de a não ter lido e de nem ter a certeza da sua existência. Pelo menos é o que se depreende quando afirma, às claras, não estar certo da existência do livro em questão. Transcrevo da lavra do próprio: “Parece que saiu um novo opúsculo em Maputo”, para logo a seguir alegar que a obra em referência contem a versão do apartheid e que se funda em especulações e camuflagens. Também meteu no mesmo saco a PIDE e a Rodésia.

O que há de “invenção da História” no livro, A Morte de Samora Machel?

O que tem a ver a PIDE com o acidente de aviação que vitimou o Presidente Samora Machel?

Se a Rodésia de Smith passou à história muito anos antes de Mbuzini, qual a relação entre uma coisa e outra?

Sou piloto profissional. Li o livro de João Cabrita, compreendi os pareceres de todas as partes tal como contidas em vários capítulos. Acompanhei o debate sobre Mbuzini organizado pela STV e tirei minhas conclusões objectivas. Ficou claro que a história do envolvimento dos sul-africanos e do VOR falso tem sido mal contada.

Foram não apenas sul-africanos, mas também moçambicanos e soviéticos que recolheram os factos sobre o desastre. São dados que revelam, de forma insofismável, que o avião presidencial estava a ser pilotado uma tripulação desleixada e descuidada. Uma tripulação que se abandalhou e baldou. Os tripulantes do Tupolev não efectuaram um plano de voo como mandam as leis da aviação em vigor no nosso país. Eles não abasteceram o avião convenientemente, não cumpriram com as regras basilares de descida e aproximação a uma pista, desrespeitaram as instruções dadas pelo AFIS de Maputo, ignoraram o sinal de alarme dado pelo GPWS do próprio avião e continuram a descer, às escuras, sem saber exactamente onde estavam. E por isso colidiram, causando a morte do Presidente Samora Machel e de muitos que o acompanhavam.

Pode-se varrer todos estes factos para debaixo da carpete para de seguida se lançarem as culpas sobre terceiros?

Todos esses factos foram extraídos das caixas negras do Tupolev. Pelos três países. Longe da África do Sul. Num país neutro (Suíça) e na própria União Soviética. Excluída está a hipótese dos sul-africanos terem viciado o conteúdo das caixa negras.

Sérgio Vieira afirma que há outros dados, outros relatórios, e pede ao estado moçambicano para que sejam “republicados”. Republicar significa publicar de novo. Em que data é que foram publicados pela primeira vez? Nunca os li antes. Apenas tomei conhecimento dos dados do acidente de Mbuzini e dos pareceres de Moçambique e da ex-União Soviética aravés do livro de João Cabrita. O que têm de diferente esses dados quando comparados com os dados recolhidos pelas três partes? Só Sérgio Vieira

pode explicar.

E porquê só falar agora desses novos dados e de novos relatórios?

Quem está, afinal, a proceder a uma “invenção da História”?

Vi, no debate da STV, o autor de A Morte de Samora Machel, a afirmar, sem rodeios, que a embaixada soviética em Maputo havia exercido pressões sobre o Comandante Sá Marques, piloto do voo TM 103 da LAM, que voava em direcção ao aeroporto do Maputo quando se deu o desastre do Tupolev presidencial, para que ele fosse mentir à comissão de inquérito, dizendo que o seu Boeing 737 também havia sido desviado da rota por acção do dito VOR falso.

Se os russos tinham tanta certeza de que houve um VOR falso porque necessitaram de recorrer à mentira para provar a sua existência?

O autor de A Morte de Samora Machel foi posteriormente citado como tendo dito que as pressões da embaixada da União Soviética sobre o Comandante Sá Marques haviam sido exercidas por intermédio do Ministério de Segurança moçambicano, e que pelo facto dele, Sá Marques, se ter recusado terminantemente a mentir à comissão de inquérito teve de abandonar Moçambique.

Sérgio Vieira era quem tutelava o Ministério da Segurança na altura. Terá sido ele o intermediário?

Seja como for, ele era o ministro e como tal deve ser solidário para com os actos praticados pelos seus subordinados.

Mentir a uma comissão de inquérito é tão grave como mentir a um tribunal. Constitui obstrução à justiça.  Segundo o Código de Direito Penal trata-se de um crime de perjúrio. É punível com prisão maior.

Como jurista que é, o antigo ministro da segurança moçambicano certamente que não desconhece tais preceitos legais. Pode não ter praticado tais actos, pode não ter tido conhecimento prévio das demarches da embaixada soviética, e pode não ter consentido que alguém sob sua jurisdição os praticasse. Mas em última instância deve responder pelas acções praticadas ao nível do seu ministério. Em abono da verdade e da transparência. É assim que funcionam as democracias. Os cidadãos deste país, sem excepção, têm de prestar contas. Nínguem pode estar acima da lei.

A Procuradoria Geral da República deve arrolar João Cabrita, o Comandante Sá Marques, Sérgio Vieira, a embaixada russa e demais testemunhas para que esclareçam exactamente o que se passou com essa questão da tentativa de prestação de falsas  declarações a uma comissão de inquérito que investigava a morte de um chefe de estado moçambicano. Em última análise, deve-se apurar quem pretendeu fabricar provas e criar obstáculos ao curso normal da justiça, e com que objectivo. Teria sido apenas para ilibar o país que forneceu a tripulação ao estado moçambicano, como diz o autor de A Morte de Samor Machel? Parece haver algo ainda mais sinistro no meio de tudo isto.

Não à invenção da História, sim. Mas também não a obstruções à justiça. A democracia não se compadece com a mentira.

ZAMBEZE - Maputo, 15 de Dezembro de 2005 pág. 6

20-12-2005

Parlamento rejeita mudança da bandeira e do emblema nacionais

A bancada da FRELIMO, em maioria na Assembleia da República de Moçambique, chumbou hoje a proposta de alteração da bandeira e do emblema nacionais, permanecendo em vigor os actuais símbolos do Estado moçambicano.
A proposta de alteração da bandeira e emblema teve a oposição de 156 votos da FRELIMO, no poder, e 79 votos favoráveis da RENAMO-União Eleitoral, na oposição.
Defendendo a posição do partido no poder, o deputado Edson Macuácuá disse não existirem "razões sociais, históricas e políticas que justifiquem a mudança dos actuais símbolos nacionais".
"A bancada da FRELIMO votou a favor da soberania do povo e da história do país", disse Macuácuá, acusando a RENAMO de ter perdido "uma oportunidade de se reconciliar com o país".
Por seu turno, a RENAMO-União Eleitoral, através do deputado José Manteigas, defendeu que "Moçambique continua sem bandeira e emblema nacionais, pois os actuais são da FRELIMO".
"Esta bandeira não é do país, não é nacional, pois os milhões de moçambicanos não são todos da FRELIMO", vincou Manteigas, argumentando que "quem está interessado na mudança da bandeira é o país e o povo".
Os símbolos do Estado moçambicano, por cuja manutenção o parlamento votou hoje, são os que a FRELIMO adoptou logo após a proclamação da independência do país, em 1975, numa altura em que estava banida a existência de outros partidos políticos.
Nesses símbolos pontificam insígnias do marxismo- leninismo, que a FRELIMO havia abraçado como doutrina do Estado, antes da abertura multipartidária, em 1990.

NOTÍCIAS LUSÓFONAS - 19.12.2005

19-12-2005

Ex-combatentes exigem definição de políticas de reintegração

A Conferência africana sobre ex-combatentes, realizada esta semana em Moçambique, apelou aos governos dos países de pós-conflito para adoptarem políticas de reintegração e exigiu o alargamento do estatuto de combatentes aos prisioneiros de guerra e presos políticos.
A reunião dos ex-combatentes da região austral de África, que terminou sexta-feira no distrito de Maringué, província de Sofala, centro de Moçambique, promovida pelo Instituto de Promoção da Paz de Moçambique (PROPAZ), exortou ainda aos governos a reconhecerem aquele grupo como "parceiros chave em processos de pacificação".
O encontro, que decorreu durante três dias, pretendia debater o estabelecimento de intercâmbios para fortalecer a paz nos países saídos da guerra e discutir formas e acelerar acordos com vista a repor a normalidade em países ainda em conflito armado.
A declaração final sugere que os governos "assegurem a reintegração efectiva do ex-combatente, em termos sociais, económicos, culturais e psicológicos, com particular enfoque na mulher, crianças e portadores de deficiência".
"Nós, ex-combatentes da região austral de África, exigimos que os governos tenham uma política de reintegração" e que "evitem e previnam a violência", sublinha o documento de duas páginas e com 67 assinaturas.
A declaração exorta ao reconhecimento do documento pelas instituições de tomada de decisâo, designadamente a União Africana, a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) e os governos dos países pós-conflito.
A reunião, que também pretendia harmonizar o conceito de ex-combatente a nível mundial, definiu como antigo militar "todos homens e mulheres que tenham participado em forças do tipo militar e que depois de qualquer forma de desmobilização voltaram à vida civil, incluindo menores de idade".
Estiveram presentes no encontro ex-combantentes de Moçambique, África do Sul, Zimbabué, Angola, Malaui, Suazilândia, Lesoto, Namíbia, Quénia, Zâmbia, Colômbia e Bósnia.

NOTÍCIAS LUSÓFONAS - 17.12.2005

18-12-2005

Sérgio Vieira Considera “A MORTE DE SAMORA MACHEL” Livro Inspirado pela PIDE

Semanário Domingo (Maputo, 4 Dez 05 p. 8)

Carta a Muitos Amigos - por Sérgio Vieira

Na invenção da História, parece que saiu um novo opúsculo em Maputo com a versão do apartheid sobre o assassinato de Samora Machel e dos seus colegas. Funda-se na versão do apartheid e em especulações e camuflagens proporcionadas por elementos ligados no passado à PIDE e aos serviços rodesianos e sul-africanos. Veja-se, para comprovar, a lista dos agradecimentos que o autor endereça.

Penso que o estado Moçambicano, para que não se sufoquem os factos, deveria republicar o relatório moçambicano e o soviético assim como os dados das chamadas caixas negras. Igualmente, deveria publicar a comunicação que o presidente Chissano fez à II Legislatura da Assembleia da República.

Um abraço à verdade quando se trata de História e não de ficção.


Autor de  “A MORTE DE SAMORA MACHEL” Responde a Sérgio Vieira


Semanário Domingo (Maputo, 18 Dez 05 p. 9)


Ex.mo Senhor Jorge Matine
Ilmo Director do Semanário Domingo

[email protected]

Na edição do dia 4 do corrente, o V/colaborador, Sr. Sérgio Vieira, proferiu
uma série de alegações francamente difamatórias, lesivas da minha dignidade,
e que merecem o seguinte reparo, no âmbito do direito de resposta consagrado
na Lei de Imprensa em vigor no país:

1. O livro, A Morte de Samora Machel, de minha autoria, não contém a "versão
do apartheid" sobre o acidente de aviação de Mbuzini, mas sim os pontos de
vista dos países que integraram a respectiva Comissão de Inquérito,
nomeadamente a África do Sul, Moçambique e a extinta União Soviética.

2. O livro fundamenta-se no relatório elaborado por aquela comissão, o qual
inclui, entre outros, dados comprovativos dos erros flagrantes cometidos
pela tripulação do Tupolev presidencial e que viriam a causar o acidente.
Tais dados foram recolhidos por investigadores dos três países acima
mencionados.

3. As individualidades a quem, no livro, agradeço o apoio prestado, apenas
me auxiliaram na interpretação de inúmeros pormenores técnicos constantes do
relatório em causa, para além de terem facilitado entrevistas com diversas
fontes, todas elas, aliás, devidamente identificadas.

4. A responsabilidade pelos pontos de vista e interpretação de determinados
factos mencionados no livro é inteiramente do autor, não reflectindo nenhuma
outra posição, tanto oficial, como particular.

5. É, portanto, gratuita, a insinuação feita pelo Sr. Sérgio Vieira de que o
livro, A Morte de Samora Machel, contou com o apoio de antigos agentes da
PIDE e das suas congéneres rodesiana e sul-africana, e isso é facilmente
comprovado pelo facto do V/colaborador, como lhe é peculiar, não ter
fundamentado a atoarda ora propalada e não o poderia ter feito pois nem
sequer havia lido o livro, conforme ele próprio admite.

Sem outro assunto a tratar, creia-me

De V.Exa

Atenciosamente

João M. Cabrita

Recorde em:

http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2005/11/no_escrever_a_h.html

17-12-2005

E DEPOIS DO ADEUS...O MASSACRE DOS COMANDOS NEGROS DO EXÉRCITO PORTUGUÊS

Hugo Gonçalves

Não faz muita diferença quem tu és, nem quanto tempo treinaste, nem se és muito duro. Quando estás no lugar errado, à hora errada, vais  apanhar.

Em A Barreira Invisível, de Terrence Malick

Durante a guerra pisou uma mina. “Nem ouvi o barulho.” Havia trovões e chuva. O capim era alto. Uma emboscada. Os inimigos iniciaram os disparos após a explosão. “Tinha um buraco na minha perna. Via o osso. Rasguei o camuflado, apertei para não sair mais sangue. Continuei a fazer fogo. Fui evacuado uma hora depois.”

Na segunda vez que foi ferido, Sadjo Camara, nascido na Guiné, comando português, entrou no helicóptero e uma bala perfurou-lhe uma nádega.

Houve ainda um terceiro ferimento. “Era o comandante de grupo e, por isso, o primeiro a saltar do helicóptero – saltávamos de muito alto. Fui logo atingido.” Uma bala que lhe entrou de lado, acima da cintura, e que fugiu pelo outro. “Nem sabia onde estava. Lembro-me da enfermeira. Tiveram de coser-me as tripas.”

Leia em

Download e_depois_do_adeusguine.doc

REVISTA ATLÂNTICO - JUNHO DE 2005

15-12-2005

Porcalhices da Política

Porcalhices_capa

O autor, Adulcino Silva, e a Papiro Editora têm o prazer de convidar V. Exa. a estar presentes no lançamento do livro "Porcalhices da Política", que terá lugar no dia 20 de Dezembro de 2005, pelas 18h00, na Livraria Barata, sita na Avenida de Roma, 11 A, em Lisboa.

Papiro Editora: Tel.: 220103900

14-12-2005

Guebuza e Dhlakama em Maríngue?

ZOL - Quarta, 14 Dezembro 2005

O Presidente da República, Armando Guebuza, e o líder da Renamo, Afonso Dhlakama, deverão participar ainda esta semana em Maríngue, província de Sofala, numa conferênciados ex-combatentes da Àfrica Austral, promovida pela PROPAZ, Instituto de Promoção da Paz de Moçambique.

11-12-2005

Acordo militar continua no “segredo dos deuses”(2)

Pois é! Cahora Bassa está entregue. Bem ou mal isso não vem agora ao caso.

Não fora o anúncio por Mariano Matsinha da existência de um "acordo militar" paralelo ao Acordo de Lusaca, talvez as negociações sobre aquele empreendimento ainda prosseguissem...

Recordo:

"O Acordo de Lusaka é de domínio público, contrariamente ao Acordo Militar que se encontra nas mãos do governo do dia, e, sem ainda data para a sua publicação, de acordo com as parcas informações que diz ter.

A não publicação do referido documento até à data, é de acordo com palavras de Mariano Matsinha, fruto de compromissos assumidos entre as duas delegações que estiveram reunidas na “State House.

“Realmente trata-se de um documento importante para se compreender o processo em si, dos Acordos de Lusaka, mas o importante naquela altura era o reconhecimento por parte de Portugal que nós tínhamos direito à independência. Infelizmente não participei na discussão do “Acordo Militar”, e nem sei quais são as cláusulas plasmadas, mas acredito que os portugueses tinham as suas razões em pedir para que não fosse publicado, face à situação em que se encontravam."

Quando o Presidente Guebuza reafirma a premência da resolução deste contencioso, qual a melhor forma de a pressionar?

Anunciar a existência de algo desconhecido e só não publicado a pedido da parte portuguesa: Mário Soares, Almeida Santos, Melo Antunes e mais uns tantos "patriotas".

É pena que a nossa geração, a que viveu o 25 de Abril e a descolonização não venham a conhecer este documento.

Recorde em:

http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2005/10/acordo_militar_.html

Fernando Gil

05-12-2005

A VERDADE SOBRE A DESCOLONIZAÇÃO

Um grupo de cidadãos empenhados em que se discuta "A VERDADE SOBRE A DESCOLONIZAÇÃO" lança uma PETIÇÃO para a recolha de 4 000 assinaturas, ao abrigo do disposto na alínea a) ponto 1 do artigo 20 do Texto da Lei nº 43/90, publicado no Diário da República I Série n.º 184 de 10 de Agosto de 1990 com as alterações introduzidas pelas Leis nºs 6/93 e 15/2003, publicadas respectivamente  nos  Diários da República I Série A n.º 50 de 1 de Março de 1993 e n.º 129 de 4 de Junho de 2003.
Entre em (com o som ligado)
leia e subscreva a petição. E não deixe de a divulgar. Pela internet ou imprimindo para recolha de assinaturas.
O primitivo site em
foi descontinuado por motivos técnicos e legais. Agradece-se a visita dos que aqui assinaram ao novo endereço para actualização da sua inscrição.
Assim:

Exige-se tão-só

                                A REPARAÇÃO MORAL, AFINAL, A QUE TEMOS JUS

                                                                         com a

                                                     REPOSIÇÃO DA VERDADE

. pela revisão dos manuais escolares de História Contemporânea,

. pela abertura da radiodifusão áudio e audiovisual do Estado à revelação do modus vivendi das distintas comunidades no PERIODO ANTERIOR AO DO ABANDONO,

com a

REABILITAÇÃO de cada um e todos os que nados e criados ou só criados além-mar ergueram sob o signo do trabalho honesto verdadeiros IMPÉRIOS

. por um pedido formal de  escusas, pelos altos dignitários do Estado aos representantes eleitos das associações de espoliados.

E, à semelhança do que sucedeu noutras paragens, a consagração de um

DIA NACIONAL DOS REFUGIADOS DO ULTRAMAR.

Daí que formulemos a PETIÇÃO que visa a veicular uma tal pretensão.

A memória de PORTUGAL ETERNO impõe-no, exige-o veementemente, numa revisão de processos, a que a História há-de proceder.

Assine e divulgue
Grato
Fernando Gil

03-12-2005

Medalhas e condecorações de Daniel Roxo entregues à família

As medalhas com que Daniel Roxo foi condecorado pelo Exército Sul-Africano deviam chegar às mãos dos seus familiares e é dessa entrega que vos vou falar agora e que encerra um dos capítulos da vida de Roxo com “chave de ouro”.

Era 17 de Novembro, mês passado. No 7º andar de um prédio na Rua António Sérgio, nas Caldas da Rainha em Portugal, viveram-se  outros momentos grandes. A porta daquele lar franqueou-se e na intimidade do mesmo misturam-se a alegria, o orgulho, a saudade, a emoção, esta vivida por todos, e tantos outros sentimentos que se sentem mas não se descrevem, porfundamente sentidos pelo casal Roxo, Alípio e Irene que ali moram. Ele irmão do Francisco Daniel. As medalhas que, com bravura e heroicamente, este recebera do Exército Sul Africano eram, ao fim de quase 30 anos, entregues à família.

Casal afável este, de cabelos branqueados não só pelo tempo, mas de uma brancura que só a saudade pinta. Saudade de um familiar tão querido, saudade da terra onde viveram tantos anos e que viu um deles nascer, a Irene, e forçados a abandonar. Quem não pode sentir saudades e mágoa por estar ausente daquele que foi solo português em África e não só. E somos tantos, de Angola, Moçambique, etc., etc.. Portugal pequeno no mapa era grande demais e teve necessidade de dar novos mundos ao mundo para se poder estender e, cantando e rindo, deu mundos novos ao mundo, sem dúvida chorando muito mais, mas… esqueceu-se daquela réstea de terra à beira mar plantada… Em África estávamos, sem dúvida, à frente daquele pedaço da nossa Pátria muitas dezenas de anos! Mas ventos contrários soprados por traidores, mentirosos que às crianças das escolas portugueses teimam, anos a fio, em contar uma história enganadora. Mas a mentira é sempre cozinhada em grande potes e a pressa de a cozinhar faz-lhes esquecer de por a tampa… e não percamos a esperança de que um dia a verdade será contada, embora muitos irão ainda morrer sem chegar a conhecê-la.

Traídos, abandonados outros de nós, fugimos da nossa África. Daniel Roxo fugiu, fugiu para este país, África do Sul. Não trazia nada consigo, senão, a bater dentro do peito, o coração de um grande soldado. Um dia tombou e para sempre o coração, que trouxe dentro do peito, deixou de bater. A alma, essa, que Deus a guarde.

Algumas palavras dedicadas às duas senhoras que tão felizes estavam por terem tido o privilégio (no dizer delas) de lhes ter sido pedido que se encarregassem de tão nobre missão, fazer chegar às mãos da família Roxo as condecorações sul africanas daquele nosso querido compatriota que há tantos anos nos deixou, deixando forte a marca dos seus passos nesta vida, donde foi levado tão prematuramente.

O orgulho espelhado nos rostos já envelhecidos daquele casal, a saudade do ente querido e toda a emoção, perdurarão na memória das duas senhoras que eram Carmo Ferreira ex membro das Forças Armadas Sul Africanas e a ex 1º Tenente da Força Aérea Sul Africana Maria José Ferreira.

Falou-se, forçosamente, do Francisco Daniel, contados episódios de família entre outros. Irene recorda então a última vez que falou com ele. O seu coração de mulher temia o pior, pediu ao cunhado que fosse para Portugal, mas a resposta dele foi simples, simples demais para ser rebatida e que a apavorou: “ Sou soldado… e hei-de morrer numa mina…”.  E foi assim que morreu!

Manuel Resende Ferreira

Roxomedalhas1

Carmo Ferreira no acto de entrega das medalhas de Francisco Daniel Roxo

Roxomedalhas2

Ex 1º Tenente da Força Aérea Sul Africana Maria José Ferreira com o casal Roxo

29-11-2005

A Morte de Samora Machel, na televisão moçambicana

Foi a 22 de Novembro à noite, que assisti na STV, um canal de televisão independente em Maputo, à transmissão de um debate sobre o desastre de Mbuzini. Conduzido por Felisberto Langa, o debate teve como participantes João Cabrita, autor do livro recentemente publicado, A Morte de Samora Machel, e Paul Fauvet, um jornalista britânico radicado em Moçambique desde os anos 80. Os erros da tripulação do Tupolev presidencial, que Fauvet pretendeu subestimar, dando realce ao factor destabilização movido pelo antigo regime de Pretória contra os Estados membros da SADC, foram defendidos por Cabrita como a causa do desastre que vitimou o Presidente Machel. A certo passo, Cabrita foi peremptório: “Os que defendem a tese de sabotagem têm de encontrar uma outra explicação porque a história do VOR falso não pega.” E para demonstrar o seu ponto de vista, Cabrita fez uma revelação: “A Embaixada da União Soviética aqui em Maputo exerceu pressões sobre o Comandante Sá Marques das LAM para que ele mentisse à comissão de inquérito, dizendo que a sua aeronave, um Boeing 737, que seguia da Beira para Maputo quando se de seu desastre, também havia sido desviada da rota por acção do alegado VOR falso. Por se ter recusado a mentir à comissão de inquérito, o Comandante Sá Marques teve de abandonar Moçambique em face das pressões de que foi alvo.” Cabrita disse-me mais tarde, quando me encontrei com ele no hotel onde eu estava hospedado, que as pressões sobre Sá Marques foram exercidas por intermédio do Ministério da Segurança, na altura chefiado por Sérgio Vieira.
Fernando Gil

Boletim Africanista

Boletim Africanista, Ano VI, n.º 11, Novembro 2005

Editado pelo Núcleo de Estudos Sobre África do

Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades (CIDEHUS)

Universidade de Évora (UE)

Palácio do Vimioso, Apartado 94 – 7002-554 Évora. 

E-mail: [email protected]

Agenda africanista

-         17 e 18 de Novembro de 2005 - II Colóquio Internacional sobre Trabalho forçado africano ­ experiências coloniais comparadas. Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Organização do CEA / FL / UP. O campo de estudos ...

Veja em

Download boletim_africanista11de2005.doc

25-11-2005

ENTRE AS DUAS FACES DE UMA HISTÓRIA, UM PÉSSIMO SERVIÇO DE PAUL FAUVET

Por Benedito Marime

Na edição de 28 de Outubro último, vem inserida uma entrevista do Reverendíssimo Dom Jaime Pedro Gonçalves, Arcebispo da Beira, o qual, a determinada altura, lembrando os sinuosos caminhos ideológicos da Guerra Fria, com manifestos reflexos no imediato do nosso pós-independência, refere a recusa do falecido Presidente Samora Machel em visitar o Vaticano, para aí se encontrar com o Papa, quando da sua visita à Itália.

Cerca de um mês depois, em edição de 18 de Novembro seguinte, o Centro de Documentação Samora Machel reage em carta ao mesmo Savana, juntando uma fotografia do mesmo falecido Presidente junto do também já falecido Papa João Paulo II, dizendo pretender com esse gesto “repor a verdade, contribuindo assim para o alcance dos objectivos para o qual este centro foi criado, que são a preservação do legado de Samora Machel”.

De posse deste dado, Paul Fauvet, jornalista afecto à AIM, não perdeu tempo: foi, pressuroso, a correr, para as páginas da edição do mesmo dia 18 de Novembro do boletim da AIM, em língua inglesa, insultar e vilipendiar o Arcebispo, sob o sugestivo título de “Archbishop of Beira lied about Samora Machel” ( Arcebispo da Beira mentiu sobre Samora Machel) .

Sem bases para o tema que se propõe, Paul Fauvet agarra-se a velhos estereótipos de serviço, ora rotulando Dom Jaime como o corifeu do imobilismo conservadorista da Igreja Católica em Moçambique, ora acusando-o de ter mentido sobre as relações  entre o Governo de Machel e o Vaticano.

Diz depois que estas relações, afinal anteriores à  Independência, datariam da audiência de Paulo VI a Marcelino dos Santos, em 1970, facto este que ele pretende por muitos anos inédito, a julgar pela forma como o coloca no seu texto, no qual diz que “Samora Machel mencionou este facto em Dezembro de 1982, no encontro que ele dirigiu com os representantes de todas as denominações religiosas do país, incluindo Dom Jaime, então o Presidente da Conferência Episcopal de Moçambique”. Ainda sobre este encontro, diz Paul Fauvet que, na circunstância, Samora Machel fez referência a eclesiásticos que em Moçambique se posicionaram contra as atitudes colaboracionistas da hierarquia, em cuja “lista de honra se não encontra o nome de Jaime Gonçalves”.

Como um dos estudiosos dos episódios que Paul Fauvet aqui se permitiu baralhar, sinto ser meu dever esclarecer quanto segue.

É um facto histórico que, na sua primeira visita à Itália, o Presidente Samora Machel se recusou a ir ao Vaticano ver o Papa. E fê-lo, por razões ideológicas que nunca escondeu.

Na verdade, para além de diversos pronunciamentos anteriores à volta da Igreja Católica em Moçambique e de como não apreciava a ligação desta ao Vaticano e ao Papa, quando da oitava sessão da Assembleia Popular, de 6 a 9 de Outubro de 1981, Samora Machel deteve-se, na recepção de encerramento, em conversa com uma delegação da igreja Católica , na  circunstância representada pelo Presidente da CEM (Conferência Episcopal de Moçambique), Dom Jaime Pedro Gonçalves, pelo Arcebispo do Maputo, Dom Alexandre José Maria dos Santos e pelo Padre Joaquim António Mabuiangue, Vigário Geral da Arquidiocese do Maputo. Do teor dessa conversa, exarado em “Breve relatório da participacao da Igreja Católica na oitava sessão da Assembleia Popular”, distribuído, como documento reservado, aos Bispos e Superiores(as) dos Institutos, transcrevo o seguinte:

  • “Sabe, Dom Jaime, eu vou à Itália. Saio daqui no dia 13 e estou lá no dia 14. Vou visitar o povo e o governo italianos. Mas não vou visitar o Papa. Não vou ao Vaticano. Tenho o escritório cheio de cartas que me aconselham a ir falar com o Papa. Falar o quê? Alguns italianos estão aqui, foram enviados para me convencer a ir ter com o Papa. Dizem que seria bom ir ter com o Papa, dada a compreensão e a aproximação da Igreja e do Estado em Moçambique. Eu não estou a aproximar-me do Papa, mas sim dos Bispos moçambicanos. Os nossos problemas devem ser resolvidos aqui. Se eu for ao Vaticano, como e onde me vai receber o Papa? Na Igreja? Na Biblioteca? Vou beijar o anel? Como vai ser isto?”

Retomando a palavra, depois de mandar calar um alto dignitário que tentara pôr água na fervura, Samora Machel  rematou:

  • Não vou falar com o Papa. Eu sou Chefe de Estado, Presidente da República Popular de Moçambique. O Comité Político Permanente da Frelimo nomeou-me Marechal de Moçambique. O Comité Central constituiu-me Comandante em Chefe das Forcas Armadas de Moçambique. Acima de mim só está Deus, se ele existe. Repito, acima de mim está Deus, se existe”.

Aqui interveio um veterano, a sossegar o Presidente, dizendo-lhe “E como ele não existe...” Animado, o Presidente prosseguiu:

  • “Acima de mim, só está Deus, se ele existe. Portanto, não vou falar com o Papa. Estarei na Itália uma semana, mas não vou falar com ele. Que é que vou dizer? Eu quero resolver os problemas com os Bispos moçambicanos. Depois poderão ir ter com ele, tendo já a cara lavada. Somos um povo independente e livre. Bem, assim como em 25 de Junho brindei com o Bispo de Pemba, vou agora brindar com os Bispos que estão aqui (...)”.

E foi assim que Samora Machel se recusou a ir ao Vaticano. Quero acreditar – e é natural que assim seja – que era a este episódio que Dom Jaime se referia, até pelo facto de, para a segunda visita, o episcopado ter sido, naturalmente, ouvido para a aceitação da visita ao Papa pelo Chefe de Estado Moçambicano, como é da praxe da diplomacia do Vaticano.

De qualquer forma, a ida ao Vaticano quando da segunda ida à Itália não anula o desconfortante episódio que antecedeu a primeira visita à Itália, podendo tão só corrigi-la, o que é bom – só os loucos é que nunca mudam, e Samora Machel não era louco nenhum, quaisquer que tenham sido os seus erros.

Aliás, Samora Machel acabaria cumprindo o que prometera.

  • Em 1982 autorizou, pela primeira vez, os Bispos moçambicanos a efectuarem a sua primeira visita “ad sacra limina apostolorum” (com a periodicidade de cinco anos, destina-se à prestação comum de contas ao Vaticano) e a convidarem o Papa a visitar Moçambique.

  • Não obstante, e por ocasião da tal reunião de Dezembro de 1982 com as confissões religiosas, menosprezou o Delegado Apostólico nela presente, reafirmando alto e bom som que na Itália reconhecia apenas um Governo, não entendendo o papel do Vaticano ali e, ainda menos, o de um Representante deste em Moçambique. O empenho institucional e a paciência do visado (Monsenhor Francesco Colassuono), por um lado, e o tacto diplomático não menos brilhante nem paciente de Joaquim Chissano, Ministro dos Negócios Estrangeiros de Moçambique e o início do “glasnost”soviético (portador, este, de distensão generalizada, mesmo nos níveis ideológico e diplomático), por outro, acabariam, porém, aplainando o terreno e foi assim que Samora Machel esteve no Vaticano em finais de 1985, a essa visita se referindo a foto publicada no Savana.

Só é de lamentar que um centro de documentação tenha levado tanto tempo a localizá-la e a reagir, aparentemente ignorando a anterior visita, à qual se refere a declaração de Dom Jaime.

Não posso terminar estas linhas sem me insurgir, uma vez mais, contra Paul Fauvet. Sempre que se lhe aparece alguma oportunidade de vilipendiar a Igreja Católica, fá-lo sempre com manifesto gosto e ódio, escrevendo, a despropósito, das baixarias mais reles que, só não ofendem, por virem de quem vêm – de uma trânsfuga que precisa, a todo o custo, de se manter em Moçambique, país que, infelizmente e cada vez mais se vai transformando em guarita de toda a espécie de bestas, de entre eles os piores biltres lá das estranjas.

Já escreveu cobras e lagartos contra a Igreja Católica, e até, de viva voz, no recente seminário comemorativo dos 30 anos da Rádio Moçambique, em resposta a uma intervenção do Padre João Carlos Nunes, o indesejável imigrante se deu ares de intervir, não sobre a matéria do seminário, mas sobre a Inquisição e outras coisas que não eram para ali chamadas.

Mais uma vez se saiu mal. Se tem ouvidos para ouvir, e cabeça para pensar (que a careca seja só por fora e não para o interior do couro cabeludo), procure informar-se bem antes de escrever, até para não embaraçar quem finge que quer ajudar. Antes, porém, e como prova da sua integridade, desafio-o a traduzir este meu texto para o Inglês, a inseri-lo em próximo número da edição nessa língua, como forma de dar a conhecer a outra face da estória, nomeadamente a sua desastrada intervenção jornalística neste caso.

SAVANA - 25.11.2005

Não escrever a história a partir dos restos do apartheid!(2)

"Será bom também enfatizar que um avião que aterrou no Maputo antes do Tupolev (Cmdt. Ramiro) não sentiu qualquer VOR que tivesse tentado desviá-lo da rota pretendida. Mais do que isso, o voo 103, que pretendia aterrar no Maputo logo a seguir ao Tupolev, ( Cmdt. Sá Marques) afirmou reiteradamente que também não se apercebeu de qualquer frequência estranha ( de VOR ou outra) que pretendesse desviá-lo da rota pretendida. Pergunta-se se uma emissão rádio pode afectar uma aeronave sem afectar todas as outras nas suas  imediações.
Pode também ficar a saber que este último Cmdt. foi mais tarde pressionado pelos soviéticos (através da segurança do Maputo) para dizer que também ele havia detectado esse suposto VOR. Esta chantagem foi de tal maneira intensa que ele se viu obrigado a sair de Moçambique."
Veja:

D.Jaime e Samora Machel (1981)

D. Jaime, Presidente da C.E.M.:
"Breve relatório da participação da Igreja Católica na 8ª. Sessão da
Assembleia Nacional Popular (Maputo, 6-9 Outubro de 1981; participantes.
  D. Jaime e P. Joaquim Mabuiangue)".
Reservado aos Bispos e Superiores(as) dos Institutos; não se publique.
"Desta vez o convite foi-nos feito para participar na Sessão de abertura e
encerramento. Não tomamos parte nos grupos de estudo: tanto no discurso de
abertura como no de encerramento não houve nada que se referisse à Igreja.
Tudo estava centrado no Plano Prospectivo Indicativo. A referência à
Igreja foi feita na recepção final no Palácio da Ponta Vermelha. Para esta  recepção
foi tambem convidado o Senhor Arcebispo.
Durante o banquete o Presidente da República fez três discursos.
(.)
2º discurso
(.)
- Sabe D. Jaime, eu vou a Italia. Saio daqui no dia 13 e estou là no dia 14.
Vou visitar o povo e o Governo italianos. Mas não vou visitar o Papa. Não
vou ao Vaticano. Tenho o escritório cheio de cartas que me aconselham a ir
falar com o Papa. Falar o quê? Alguns italianos estão aqui, foram enviados
para me convencer de ir ter com o Papa. Dizem que seria bom ir ter com o
Papa dada a compreensão e a aproximação da Igreja e Estado de Moçambique.
Eu não estou a aproximar-me do Papa, mas sim dos Bispos Moçambicanos. Os
nossos problemas devem ser resolvidos aqui. Se eu for ao Vaticano como e onde me vai receber o Papa. Na Igreja, na biblioteca, vou beijar o anel, como vai ser isto?
- De joelhos, respondeu o Chipande.
- Chipande, não fales, ordenou o Presidente que continuou tendo a mão esquerda no bolso.
Não vou falar com o Papa. Eu sou Chefe de Estado, Presidente da República
Popular de Moçambique, o Comité Politico Permanente da Frelimo nomeou-me
Marechal de Moçambique. O Comité Central constitiu-me Comandante em chefe
das Forças Armadas de Moçambique.
Acima de mim só está Deus, se ele existe. Repito, acima de mim está Deus,
se ele existe.
- E como ele não existe. - acrescentou Marcelino dos Santos, com voz pesada.
O Presidente fez uma pausa inesperada e prosseguiu com voz grave:
- Senhor P. Joaquim, D. Jaime e D. Alexandre, não tomem a sério o que  disse Marcelino dos Santos. Repito não tomem a sério o que disse Marcelino dos Santos.
E continuou:

- Acima de mim só está Deus, se ele existe. Portanto, não vou falar com o Papa. Estarei na Italia uma semana, mas não vou falar com ele. Que é que  vou dizer? Eu quero resolver os problemas com os Bispos moçambicanos, depois poderão ir ter com eles tendo já a cara lavada. Somos um povo independente  e livre. Bem assim como em 25 de Junho brindei com os Bispos de Pemba, agora vou brindar com os Bispos que estão aqui. (.)

FONTE: Primeiro publicado (em ingles)em:
Eric Morier-Genoud, «Of God and Caesar. The Relation between Christian Churches & the State in post-colonial Mozambique, 1974-1981», Le Fait Missionnaire (Lausanne), September 1996, 79p.

MUSEU NACIONAL DE ETNOLOGIA EM FRANCA DEGRADAÇÃO

Namp05_1 Localizado em Nampula

O Museu Nacional de Etnologia (MUSET) em Nampula não dispõe de fundo de investimentos para a sua reabilitação, como tinha sido anunciado em meados de 2004, pelo respectivo director, Guilherme Kulyumba, que garantia a existência, nos cofres de Estado, de mais de 800 milhões de meticais.

Para Kulyumba, a promessa então feita pela Direcção Provincial de Finanças não passou de um “falso alarme”, uma vez que chegada a hora do inicio das obras, o dito passou por não dito, alegadamente porque o Museu de Etnologia não tinha cabimento orçamental para a reabilitação daquela infra-estrutura que, por sinal, é de interesse nacional.

Este procedimento, que Kulyumba apelidou de má fé, veio criar grandes constrangimentos, tanto para a instituição, como para o público utente que estava na expectativa de ver o museu com uma face nova e condigna. Aliás, o edifício em referência já há muito que clama por uma reabilitação total, pois o tecto apresenta grandes fissuras, as casas de banho encontram-se degradadas, para além do bloco administrativo se encontrar sem meios materiais à altura duma instituição de dimensão nacional.

A reabilitação total ou parcial deste museu está muito longe de se concretizar, porque não vejo nenhuma luz verde a curto e médio prazos. Enquanto não houver autonomia, continuaremos a depender dos que até agora querem ver isto a afundar, para virem depois chamarem-nos incompetentes - desabafou a fonte.

No entanto, o director provincial de Finanças, Mussa Inze, confirmou a existência de tal montante, justificando que o atraso na concessão dos fundos foi derivada do envio tardio da requisição, que se registou em Janeiro de 2005, depois do encerramento do exercício, que normalmente ocorre em 31 de Dezembro de cada ano.

Se realmente houve culpado, é quem se atrasou na adjudicação da obra e não a nossa instituição. Concluiu Mussa Inze.

Refira-se que o Museu Nacional de Etnologia não dispõe de autonomia orçamental, razão apontada pelo seu director como mais que suficiente para a actual situação de desespero financeiro em que se encontra, porque depende de terceiros, no caso vertente, da Educação e Cultura, que, no seu entender, ainda não enquadrou o museu nas prioridades do sector.

Kulyumba observou, ainda, que a verba atribuída para o funcionamento do museu, que varia entre 18 a 20 milhões de meticais, está aquém das suas reais necessidades.

WAMPHULA FAX – 11.11.2005

AINDA OS ECOS DO MEMORANDO SOBRE A HIDROELÉCTRICA DE HCB

Caborabassa02 Acabou o trabalho*

ANTÓNIO BOTELHO DE MELO

Pese toda aquela pequena comoção ao fim da tarde de quarta-feira passada dia 2 de Novembro de 2005, quando de Lisboa as agências noticiosas informaram que, contrário às declarações dos chefes de estado português e moçambicano em contrário menos de 24 horas antes, seria assinado afinal um memorando de entendimento entre os governos de Portugal e Moçambique quanto à eventual disposição da pasta da empresa Hidroeléctrica de Cahora Bassa, SA, a novidade foi recebida em Portugal com o maior desinteresse, não tendo para nada contribuído as palavras de circunstância de José Sócrates e de Armando Guebuza (que terá vertido uma lágrima) no prime time televisivo da estatal RTP eram cerca das oito horas da noite.

José Sócrates, pródigo em predicados, elogiou como “bom” o negócio em que ainda por cima anunciou o perdão da restante dívida moçambicana a Portugal e o milagre até agora bíblico da multiplicação do pão: baixa de mais que mil milhões de euros do erário público do estado português, mas – precisou – “sem impacto nas contas do Estado”.

Leia o texto completo em

Download ainda_os_ecos_do_memorando_sobre_a_hcb.doc

Nota: Interessante e muito completa, esta visão moçambicana sobre o dossier Cahora Bassa.

Relembre:

http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2005/11/a_oferta_de_cah.html

09-11-2005

Não escrever a história a partir dos restos do apartheid!

Mbuzini

Não escrever a história a partir dos restos do apartheid!

Por Paul Fauvet*

Duvidar sobre a versão oficial de acontecimentos dum passado recente pode ser uma atitude saudável para um jorna­lista.  Mas o artigo sobre a tragédia de Mbuzini de Luís Nhachote (nas páginas centrais do Savana de 21.10.05) rejeita  a versão “oficial” moçam­bicana, só para abraçar a versão oficial do regime do “apartheid”!

É espantoso que não só Nhachote, mas, também, o jornal Zambeze e mesmo a televisão STV declaram que o livro do propagandista

pró-Renamo João Cabrita, com o título “A Morte de Samora Machel”, é alguma coisa nova, espectacular, nunca vista antes.

A obra de Cardoso e Mbu­zini

Na realidade, Cabrita simplesmente re-edita as alegações de 1986/87 do regime então vigente em Pretória. Essas alegações, incluindo o suposto plano para invadir o Malawi, tiveram na altura a resposta das autoridades e da imprensa moçambicanas.

E Luís Nhachote deve saber que o jornalista que mais escreveu sobre Mbuzini foi o nosso colega Carlos Cardoso, na altura director da AIM.

Em vez de escutar fontes moçambicanas, em vez de ler, por exemplo, os artigos que Cardoso escreveu em 1986/87, Nhachote preferiu fazer a sua história a partir da lata de lixo do apartheid.

Para os seus artigos sobre Mbuzini Cardoso gan­hou o prémio sobre o jorna­lismo investigativo da Orga­nização Nacional de Jorna­listas (ONJ). É pena que nos dias de hoje esses artigos  tenham caído no esqueci­mento.

É indicativo da baixa qualidade do livro de Cabrita que Carlos Cardoso e a AIM não sejam citados como fontes — embora sejam, de longe, as fontes mais impor­tantes devido à sua tese de que o desastre foi provocado pelos militares do apartheid.

Para preencher essa lacuna, nada melhor que voltar ao ano distante de 1986, voltar ao trabalho de Cardoso. Na recente bio­grafia de Cardoso, da minha autoria, conjuntamente com Marcelo Mosse, nos capí­tulos sobre Mbuzini, consta o seguinte:

“A primeira indicação de que poderia ter sido uma sabotagem electrónica veio  de onde menos se esperava. Sérgio Vieira recorda que, quando chegou a Koma­tipoort, a caminho de Mbuzini, a 20 de Outubro, o Comis­sário Johann Coetzee, da Polícia sul-africana, depois de apresentar condolências, soltou esta informação: ‘Mi­nis­tro, sabe o que diz a minha tripulação? Tem de se procurar um emissor de radio por ali’. E apontou na direcção das montanhas. Assim, os pilotos de heli­cóptero da polícia, menos de 24 horas após o de­sastre, acreditavam que o Tupolev tinha sido induzido a sair da rota por um rádio-farol pirata....”

As manobras sul-africa­nas

A 21 de Outubro recebi uma chamada do escritório da UPI (agência noticiosa americana) de Joanes­burgo. O correspondente da UPI achava que a AIM devia saber que ele tinha recebido uma chamada anónima de um homem identificando-se como ofi­cial da força aérea sul-africana que alegava saber que a Força Aérea sul-africana tinha colocado um falso rádio-farol algures na região da fronteira e que isso causara a queda do avião.

Fernando Lima ligou dos Estados Unidos. Disse que um oficial da força aérea americana afirmava que isso era possível, usando equipamento elec­trónico em terra, de modo a desviar um avião da sua rota es­tando o piloto con­vencido que seguia a rota certa.

Este oficial disse que conhecia bem o Tupolev 134 e sabia que os militares sul-africanos tinham a tec­no­logia para interferir no sistema de navegação do Tupolev. Usando esta tec­nologia podiam criar uma falsa rota que podia induzir o piloto em erro.

Assim, diferentes fon­tes, a milhares de quiló­metros de distância, tinham tido a mesma suspeita de que não se tratava de um simples caso de erro do piloto, mas que o avião tinha sido deliberadamente atraí­do para fora da sua rota.

O Governo sul-africano sem dúvida que se com­portou como alguém que tinha algo a esconder. A dada altura, Pik Botha anunciou que havia álcool nos corpos dos membros da tripulação soviética. Tecnicamente, a afirmação era correcta, uma vez que o álcool é um dos sub­pro­dutos da decomposição dos corpos. Mas o que Botha queria sugerir é que o avião se despenhara porque os pilotos estavam bêbados....

Mas a manobra de di­versão mais efectiva foi a súbita divulgação de um documento alegadamente retirado do local do de­sastre. Pik Botha convocou uma conferência de im­prensa, afirmando que o documento era a prova de uma conspiração de Mo­çambique e do Zimbabwe para derrubar o governo do Malawi.

Quando as notícias desta conferência de im­prensa chegaram à AIM, Cardoso telefonou imedia­tamente a Teodato Hun­guana (o então ministro de informação). Esta era a primeira vez que Hunguana ouvia falar das afirmações de Botha.

“É uma tentativa grosseira de transformar a vítima em réu, fazer do agredido agres­sor, fazer do invadido invasor, apresentar o desestabilizado como desestabilizador”, ex­cla­mou para Cardoso. Não tinha a menor ideia sobre se o documento apresentado vinha ou não do avião e declarou: “Alertámos a comu­nidade internacional para um facto extremamente grave – a África do Sul está a fazer tudo para impedir o normal procedimento da investi­gação às causas da morte do Presidente Samora Machel”.

Pouco depois as palavras de Hunguana percorriam o mundo através de um des­pacho da AIM. Hunguana recordou este incidente como um dos exemplos do profis­sionalismo de Cardoso: a pronta reacção de Cardoso à conferência de imprensa “ajudou a neutralizar os planos da África do Sul”.

Investigações da AIM

De facto, em cada estágio a AIM estava em cima da notícia, e Pretória concluiu que não podia fazer decla­rações sem a resposta de Maputo...

Uma das áreas-chave investigada pela AIM foi o sistema de radar sul-africano. Porque a pergunta óbvia era: porque é que não foi usado o sistema de controlo aéreo para avisar o piloto que o Tupolev estava fora da rota e em risco de entrar no espaço aéreo sul-africano? Os sul-         -africanos menosprezaram isto dizendo que o avião estava a voar a tão baixa altitude que saiu dos moni­tores do radar e os con­troladores aéreos assumiram portanto que tinha aterrado em Maputo.

Pik Botha afirmou a 1 de Novembro que o Tupolev “simplesmente desapareceu dos monitores. Ninguém em controlo do radar podia ou teria imaginado que hou­vesse alguma coisa anormal nisso”.   Botha pintou um qua­dro que dava o sistema de radar como primitivo ou ineficiente, moni­torado por pessoal desatento.     Mas uma investigaçãozinha da AIM, usando fontes sul-africanas publicadas, de­monstrou que Pik Botha estava a mentir. Mais de dez anos antes, a África do Sul tinha resolvido o problema de “aviões desaparecidos” dos monitores do radar. Em Mariepskop, junto das mon­tanhas do Drakensberg, foi montado um sistema de aviso concebido para alertar sobre “aviões hostis apro­ximando--se da África do Sul”.

O regime do apartheid vangloriou-se disso. O “Star” de Joanesburgo, em Feve­reiro de 1975, escreveu sobre este sistema que “pode detectar a maior parte dos movimentos numa vasta circunferência entre o oeste do Botswana, o norte da Rodésia, o sul de Moçam­bique e o leste do Natal. Calculadores de altitude são posicionados perto e podem calcular a altura de qualquer aeronave detectada pelo scaner. Este material era transmitido por computador ao quartel-general do sis­tema de defesa radar sul-africano, em Devon, que avaliava se a aeronave que se aproximava era amiga ou inimiga.

Em 1982, o sistema sofisticou-se com a aqui­sição do sistema de radar computorizado Plessey AR-3D. A própria empresa Plessey publicitou que o sistema dá “um quadro completo da situação no ar ao pessoal do comando central”.

Um quadro completo, não um quadro parcial, donde um objecto do tama­nho do Tupolev-134 podia desa­parecer miste­riosamente.

Além disso, em Março de 1985, uma nova rede de radar de baixa altitude foi tornada operacional ao longo da fronteira com Moçam­bique. Pik Botha tinha-se vangloriado do novo sistema e as suas palavras podiam encontrar-se na imprensa sul-africana da altura, 19 meses apenas antes do desastre de Mbuzini....

Também em Março de 1985, toda a fronteira do Transvaal ocidental foi de­clarada um “espaço aéreo especialmente restrito” e Malan (ministro de Defesa sul-africano) anunciou que “todas as ajudas tecno­lógicas possíveis estão a ser usadas para garantir a sua eficácia”. Para obter auto­rização para entrar nesta área restrita, os pilotos deviam contactar o quartel-general da força aérea. Mas o Tupolev entrou directa­mente na área restrita e não houve nenhuma ten­tativa para o dissuadir disso.

Em Novembro de 1986, Botha tinha convenien­te­mente esquecido as suas tiradas anteriores sobre as capacidades do radar da África do Sul...

Uma vez saído o relatório factual (da comissão de inquérito tripartida), a coo­peração da África do Sul na investigação do desastre terminou. Pretória tinha feito o mínimo requerido pelas normas da ICAO. Passou então a rejeitar os pedidos de Moçambique para uma investigação do VOR que o avião tinha seguido.

A controversa Comis­são Margo

Em vez disso, os sul-africanos organizaram a sua própria audição pública sobre o acidente, dirigida pelo juiz Cecil Margo, que conseguiu ter êxito em des­viar as críticas ao governo.

A Comissão Margo nem remotamente foi imparcial. De fontes em Pretória Car­doso soube que um dos seus membros era também admi­nistrador da COMAIR, uma companhia aérea usada como frente pelas forças armadas sul-africanas para o reabastecimento da Re­na­mo e da Unita.

Mas, apesar de nem Moçambique nem a URSS estarem representados na Comissão Margo, surgiam de vez em quando per­guntas inconvenientes da parte dos advogados sul-africanos. Foi assim que perguntaram a Pik Botha porquê teria ele feito falsas acusações de que a tri­pulação do Tupolev estava embriagada. Margo inter­veio para impedir mais inter­rogatórios desta natu­reza.

Como se previa, a co­mis­­são de inquérito Margo atirou as culpas para a tripulação soviética e tanto as auto­ridades moçam­bicanas como as soviéticas rejeitaram as conclusões. O relatório Mar­go saiu a 9 de Julho de 1987, mas Armando Guebuza (na altura ministro dos Trans­portes e Comu­nica­ções) reiterou que o trabalho da comissão inter­nacional de inquérito estava longe de ter terminado. “Só se pode chegar a conclu­sões depois de todos os factos terem sido inves­tigados”, disse, “e parti­cularmente este novo ele­mento vital – onde estava este VOR, era uma arma­dilha ou não? Mas os sul-            africanos, na sua maneira arrogante e intransigente do costume, continuaram com o seu próprio inquérito e mandaram-nos o relató­rio”...

Nos finais de Junho de 1987, Magnus Malan de­clarou que não toleraria “a exportação da revolução” não só no sentido de suble­vação violenta, mas, tam­bém, na forma de propa­ganda anti-apartheid. Num artigo de 30 de Junho, Cardoso escreveu: “Esta é a primeira vez que um diri­gente do regime do apar­theid tenta tão aber­tamente impor a jornalistas e políticos nos estados da linha da frente o mesmo nível de censura que impõe aos jornalistas dentro da própria África do Sul”.

A propaganda da SABC e o seguidismo cabritista

A 9 de Julho a SABC celebrava a conclusão do inquérito Margo com um ataque à AIM e a Carlos Cardoso em particular. Éra­mos todos descritos como “agentes soviéticos”.

“Pouco depois do de­sastre, os doutrinadores soviéticos começaram a conceber e efectivar uma intrincada estratégia de desinformação”, clamava a SABC. “Moscovo cooptava a assistência de agentes so­viéticos de influência dentro das agências do governo de Moçambique. Os meios de comunicação de Mo­çambi­que participaram em pleno nesta campanha e serviram para dar ímpeto à operação inteira”.

“Dias antes da morte de Machel, Carlos Cardoso, o director do instrumento de propaganda da Frelimo, AIM, um marxista ortodoxo, es­peculou que a África do Sul ia possivelmente retaliar pela explosão da mina que matou seis soldados sul-africanos. Num artigo, Car­doso decla­rou explicitamente que o Presidente Machel era um alvo provável de uma ten­tativa de assassínio”. Neste ponto a peça da SABC mostrava a fotografia de Cardoso no ecrã.

“Cardoso emergiu mais tarde como figura-chave na estratégia de desinformação soviética”, continuava a SABC. “Na sua capacidade de director da AIM, ele esteve na origem de uma grande percentagem da produção total de desin­formação”...

A isto seguiu-se, dias mais tarde, uma carta formal ao governo enviada por Colin Patterson, chefe da mis­são comercial sul-afri­cana em Maputo, protes­tando contra os artigos de Cardoso. Hunguana mos­trou a carta a Cardoso.

Patterson escreveu: “Con­­­­sidero decepcionante que Moçambique tenha se­guido tão servilmente a linha de Moscovo sobre Mbuzini. O que torna o assunto mais triste é que Moscovo conhece a verdade e tenta defender a sua reputação e posição em África, ao passo que Mo­çambique aparente­mente permite que o empurrem para assumir um ponto de vista totalmente desmentido pela evidência e as con­clusões de peritos mundiais, para promover a sua própria inexplicável campanha de difamação contra a África do Sul”.

Segue-se a ameaça ve­lada: “Deste modo, la­mento dizê-lo, Moçambique  já foi perigosamente longe na via da desconfiança e sus­peição, no que diz res­peito ao povo e governo da África do Sul”.

À distância de 15 anos, as invectivas da SABC e de Patterson sobre a conspi­ração soviética dão vontade de rir. Mas na altura pare­ciam carregadas de amea­ça.

Finalmente, a questão de sucessão. A ideia de que Chissano “golpeou” Mar­celino dos Santos só pode convencer alguém que não estava em Moçambique (Cabrita) ou era jovem demais para recordar o ambiente daquela altura (Nhachote). Na realidade, Chissano era o sucessor evidente. Eu me lembro bem de discussões infor­mais entre jornalistas, anos antes de Mbuzini: ninguém duvidava: Chissano seria o próximo presidente. Assim, a decisão rápida da Fre­limo depois da morte de Samora de eleger Chissano presidente  não tomou ninguém de surpresa (em Maputo pelo menos, em­bora talvez não nas hostes de apartheid).

Falcões de ontem e de hoje

Como Mbuzini contribuiu para a paz

Por Luís Nhachote

O nosso colega media­FAX (edição de 24 de Ou­tubro) noticiou que proe­minentes figuras políticas nacionais afectas ao partido Frelimo puseram em causa o livro do inves­tigador moçam­bicano João Cabrita – “A Morte de Samora Machel”, no tocante à versão do autor sobre a forma como perdeu a vida o fundador da República Popular de Moçambique e também sobre o alegado plano de guerra que visava a invasão da República do Malawi, deposição do presi­dente Banda e instalação de um novo regime no país vizinho.

O veterano e histórico da Frelimo Marcelino dos Santos disse ao mediaFAX que “quem é moçambicano não duvida que Machel foi morto pelo apartheid”.

O conceituado escritor e intelectual Luís Bernardo Honwana, tal como Sérgio Vieira, na sua qualidade de co-fundador do Centro de Documentação Samora Ma­chel, também desmentiu que Samora tivesse morrido numa missão de guerra.

Ambos insistem que o primeiro presidente moçam­bicano morreu no cumpri­mento de uma missão de paz. Minutas de uma reunião realizada no dia 16 de Outu­bro, três dias antes da morte de Samora Machel, na posse do SAVANA, ilustram que este morreu em missão de guerra.

O que diz o livro de Cabrita

O livro de Cabrita, de facto, faz referência e cita documentos sobre um plano militar que terá sido fabricado por Moçambique e pelo Zimbabwe para o derrube do regime do Presidente Kamu­zu Banda, da República do Malawi, tido então como retaguarda da RENAMO-Resistência Nacional Mo­çam­bicana.

Desenvolvendo a sua tese sobre o aproveitamento político do desastre de Mbu­zini, Cabrita trás dados novos afirmando que houve um aproveitamento “genera­lizado”, quer por parte dos Estados da então Linha da Frente e da sua aliada e extinta União Soviética comu­nista, quer da própria África do Sul, quer ainda dos partidos da oposição que se viriam a estabelecer em Moçambique depois de 1992 quando é assinado o Acordo Geral de Paz em Roma.

O autor de “A Morte de Samora Machel” escreve a dado passo: “A própria África do Sul, como que numa tentativa de desviar as aten­ções do seu alegado envol­vimento na morte de Samora Machel, fez uso de um documento da Presi­dência da República moçambicana descoberto entre os des­troços do Tupolev em Mbu­zini, o qual dava conta de um plano concebido pelos Go­ver­nos de Moçambique e do Zimbabwe para se invadir o Malawi e depor o regime de Kamuzu Banda.”

O investigador João Cabrita, que em “A morte de Samora Machel” trouxe ao público peças do inquérito ao acidente de Mbuzini – peças essas de que o nosso governo sempre dispôs, mas manteve sempre, inex­pli­cavelmente, em segredo –, a dada altura  refere que “o documento (da reunião de 16 de Outubro de 1986) deixa transparecer a relu­tância do então presidente zambiano, Kenneth Kaunda, em apoiar o plano (de Samora), cuja fase inicial incluía o encerramento de todas as fronteiras com o Malawi”.

E acrescenta, voltando a citar o documento, que Machel “pretendia asse­gurar, com carácter de urgência, o desdobramento na província da Zambézia de 1500 homens idos de Maputo e Nacala, assim como a transferência de aviões MiG-17 e helicópteros de combate da Beira para aquela província. Aviões MiG-21 seriam transferidos de Maputo para Beira, de onde operariam.”

As minutas de Maputo

O documento a que nos temos estado a referir são as minutas de um encontro entre delegações de alto nível de Moçambique e do Zimbabwe realizado em Maputo a 16 de Outubro de 1986, portanto 3 dias antes do Tupolev de Samora Machel se despenhar em Mbuzini, na África do Sul, a poucos metros da fronteira moçambicana.

O SAVANA conseguiu obter algumas dessas mi­nutas e de uma leitura atenta do documento se pode constatar o ambiente de grande tensão militar então reinante na zona da África Austral. A linguagem utiliza­da nessa reunião é reve­ladora do agudizar do conflito armado em Moçambique e das posições extremadas que o nosso país, assim como o Zimbabwe pareciam estar dispostos a adoptar para se pôr cobro à insta­bilidade político-militar no nosso País.

Dizia Samora Machel na abertura do encontro de 16 de Outubro de 1986, em Maputo: “A atmosfera da nossa região em relação aos bandidos armados está muito elevada. Parece que pela primeira vez sentiram o perigo que representa o banditismo armado na nossa região.”

Em suma, era uma lin­gua­gem de homens de guerra, temperados na guer­ra, dispostos a continuar a fazer a guerra com o fito de  acabar com a guerra. Na sua ordem de ideias, o alcance da paz seria, sem dúvida, o seu objectivo final. Mas o preço em vidas e infra-estruturas teria sido enorme para Moçambique e para a região, mais ainda sem garantias de sucesso, de­preende-se da leitura das minutas de Maputo. A busca da paz com outra estratégia provou-se ser um caminho mais acertado. Hoje todos beneficiamos dela se a lin­guagem belicosa não voltar ao léxico político nacional pela voz de quem parece precisar dela para regressar à ribalta...

Antes do início do en­contro de 16 de Outubro de 1986 (3 dias antes da fata­lidade aeronáutica que pôs termo à vida do primeiro Comandante-em-Chefe das FPLM) que contou com a participação dos ministros de estado da Segurança e da Defesa do Zimbabwe, res­pectivamente Emerson Mu­nangagwa e Ernest Kadan­gure, para além dos co­mandantes do Exército e da Força Aérea de Robert Mugabe, nomeadamente o Ge­ne­ral Rex Nhongo e o Mare­chal Tungamiray, entre ou­tros, o Presidente Samora Machel fez questão de or­denar que o embaixador do Zimbabwe  acreditado em Maputo, senhor Mvundura, abandonasse a sala de reu­niões.

As minutas do encontro citam Samora Machel como tendo dito a-propósito: “Os embaixadores são compli­cados. Quando me reúno com o Primeiro-Ministro estão presentes e quando me reuno com os militares querem também” estar presentes. (NB: Robert Mugabe ainda não era presidente, o PR do Zimbabwe era Canan Bana­na)

Referindo-se ao Malawi, o falecido presidente Machel é citado nas minutas a dizer que “neste momento o que nos interessa é o foco do banditismo armado no Ma­lawi. E, neste momento, a África do Sul está a fazer força, a 80 quilómetros daqui, acusando Moçambique de várias coisas, que é para não atacarmos o centro e eles continuarem a fazer do Ma­lawi a sua base.”

   

O plano de guerra de Sa­mora

Virando-se para o General Rex Nhono, o presidente Machel começou por dizer: “Rex, vamos dar tarefa aos políticos. Primeiro-Ministro (Mário Machungo, de Moçam­bique, hoje PCA do BIM) e Emerson consigam que:

1.  Malawi aceite que as forças de Moçambique atra­ves­sem Zambézia/Tete/Zam­bézia através do seu território [...] assim como dê auto­rização para tropas zimba­bweanas passem de Tete/Zambézia/Tete.

2.  Zimbabwe proponha ao Malawi que utilizemos o porto da Beira... Esta é a parte política e só pode ser feita por gente da segurança e contra-inteligência.

3.  Moçambique e o Zimbabwe descubram nova força no Malawi. Banda está gasto. Não deixemos a África do Sul colocar a direcção no Malawi. Não deixemos os ingleses, os americanos, a RFA escolher líderes para o Malawi.  Os militares sabem como devem fazer as coisas.

4.  Ganhemos o povo inteiro do Malawi. Nas nossas declarações sempre afir­memos que o povo do Malawi é nosso amigo, as auto­ridades é que são más, a sua acção é que prejudica as nossas relações. Ganhemos a maioria. Aqui estamos a seguir a teoria de Mao Tsé Tung: ganhar a maioria, isolar a minoria e aniquilar um por um. Nós podemos também organizar uma frente de libertação do Malawi, equipar e infiltrar no Malawi para liquidar os bandidos lá. Podemos também definir os alvos para essa frente de libertação do Malawi. O melhor combate é transferir a guerra da tua zona para a do inimigo e fazer dela carreira de tiro.”

Kaunda contra a guerra

No prosseguimento da sua alocução na reunião de 16 de Outubro de 1986, o Presidente Samora ordenou que os militares colocassem “todos os meios na Zambézia o mais urgente possível” acrescentando: “Nós fe­chare­mos a fronteira com o Malawi. Sem armas e meios nada podemos fazer. Seria suicí­dio. Se não fazemos isso o Malawi vai continuar a meter bandidos armados. Temos algumas forças especiais para cumprir operações especiais. E temos cerca de 41 MiGs21. A vitória prepara-se. A vitória organiza-se. Exige sangue frio.”

De acordo com  Samora Machel, “o Presidente Ken­neth Kaunda não garantiu fechar a fronteira com o Malawi. Fizeram-lhe a per­gunta e não deu resposta satisfatória.” 

Tanzânia também era alvo

Ainda segundo Machel, “quando fecharmos a fron­teira devemos ter a certeza de que se o Malawi desviar as suas mercadorias para a Tanzânia nós vamos partir as pontes que o ligam à Tan­zânia. Mas terão de ser pontes que levarão 4 a 5 anos a construir. Se desviar a rota através da Zâmbia, não vamos partir as pontes da Zâmbia, mas partiremos as do Malawi que dão saída para a rota Kasangulo/Botswana e entrar para a África do Sul. Se partirmos as pontes que os levam à Tanzânia e à Zâmbia temos o Malawi nas mãos.” 

Virando-se para o vice-ministro da defesa moçam­bicano, Armando Panguene (hoje embaixador nos Esta­dos Unidos da América), e o ministro de estado zimba­bweano para a Defesa, Ka­dan­gure, Samora Machel afirmou:

“Já defini o meu pen­samento. Ponham lá a fun­cionar”.

Ao que Kadangure, de acordo com as minutas, respondeu: “Sim, pode ser feito”.

O antigo presidente mo­çam­bicano informou os seus interlocutores que a 10 de Outubro, isto é, 6 dias antes da reunião de Maputo, ele reunira-se “nesta mesa com moçambicanos, cubanos e soviéticos,” tendo ficado decidido que Sebastião Mar­cos Mabote (então chefe do Estado-Maior das Forças Armadas de Moçambique - FAM-FPLM) “devia seguir imediatamente para a Zam­bézia” a fim de “reconhecer o efectivo dos bandidos arma­dos em cada distrito e pre­parar um campo para receber 1.500 homens que sairão de Maputo e de Nacala.”

Segundo as suas próprias palavras, o presidente Machel queria: “transferir os MIGs21 para a Beira e a partir de lá vão operar. Os Migs17 e helicópteros de combate irão para a Zambézia que é perto do Malawi e de todos os distritos que os bandidos armados ocuparam no nosso país.”

E a finalizar, as minutas citam Machel como tendo dito: “Assim vemos friamente a situação. Esta é a nossa estratégia. O ponto é: como participa o Zimbabwe nisto tudo?”

SAVANA – 04.11.2005

08-11-2005

Dossier de pensões ligado aos antigos funcionários da administração colonial

Em 29 de Janeiro de 2005, declarava o então Ministro dos Negócios Estrangeiros Dr. António Monteiro que:

"0 Governo Português decidiu reabrir o dossier ligado ao pagamento das pensões de reformas aos antigos funcionários da administração colonial portuguesa.

O ministro português dos negócios estrangeiros António Monteiro fez saber que brevemente vai ser reactivada uma comissão técnica encarregue de resolver o diferendo."

Ora acontece que há muito que existe legislação para esse efeito.

Porque não foi a mesma divulgada é que não sei nem entendo. Desconheceria o então Ministro português esta legislação bem como as autoridades angolanas, pois tais palavras foram proferidas em Angola? Talvez porque não passasse pelos Orçamentos de Estado, sendo directamente entregue aos beneficiários. Talvez porque o antigo país colonizador ficaria com uma imagem diferente daquela que interessava propagandear nesse tempo. E tanta gente a falar em nome do povo...

Mas, voltando ao assunto, verifica-se que:

1 — Os funcionários e agentes das ex-províncias ultramarinas têm o direito de requererem a aposentação verificados unicamente dois pressupostos; terem mais de cinco anos de serviço e terem efectuado os descontos devidos para a aposentação.

2 A tal não obsta a perda de nacionalidade portuguesa.

como é comprovado pelo Acordão do Supremo Tribunal Administrativo de Portugal de 17 de Maio de 1994.

Resta-me alertar aos interessados (não esquecendo viúvas e herdeiros) para que requeiram o benefício a que têm direito, para o que sugiro o contacto com os serviços consulares portugueses em Moçambique.

Só lamento que, entretanto, muitos dos beneficiários já hajam falecido.

Podem imprimir o texto completo do acordão em

Download acordo_supremo_tribunal_administrativo1994.doc

Fernando Gil

07-11-2005

MEMÓRIAS ULTRAMARINAS

Virgínia Cabral Fernandes esteve em Moçambique, onde nasceu em 1916, em Goa e Angola. É dessa sua vivência que nos dá o seu relato que poderão encontrar em:

Download memrias_ultramarinas.pdf

05-11-2005

André Matsangaice – O testemunho de uma mulher

Por Linette Olofsson

Foi com grande entusiasmo e apreço que participei no passado dia 17 Outubro nas celebrações de mais um aniversário do passamento físico de André Matadhi Matsangaice, o fundador e primeiro líder da Resistência Nacional Moçambicana, na Vila de Gorongosa.

Sendo eu membro da Liga da Mulher da Renamo, integrada neste movimento após o Acordo Geral de Paz, algo vindo do fundo da minha alma me dizia que era importante e oportuno eu ir a Gorongosa, a Marringwe, para conhecer in loco os testemunhos ali deixados pelo comandante André, a história da Renamo e também como juntar-me a seus  familiares , antigos guerrilheiros  e, porque não? Às pessoas mais importantes que são as populações que deram no passado o seu apoio para que a Renamo se tornasse um partido poderoso, com raízes profundas no seio nas massas.

Leia o texto completo em

Download andrmatadhimatsmarringwe2.doc

04-11-2005

Em 94: vitória da Frelimo foi ditada pela ONU!

Charles Baptista

As primeiras eleições multipartidárias de 1994, que deram vitórias ao partido Frelimo e seu candidato, Joaquim Chissano, não resultaram da expresão dos eleitores, contudo, dos interesses estranhos a Moçambique. A vontade do povo ficou patente, pois, em onze circulos eleitorais, a RENAMO ganhou seis e a Frelimo, as restantes cinco, o que deixou os camaradas apavorados.

Este facto demonstra, de uma forma clara, que as eleições foram ganhas pela RENAMO e seu candidato, Afonso Dhlakama. A Frelimo e Chissano perderam-nas, contrariamente, ao anunciado ao público.

As Nações Unidas, ONU, vinham de uma derrota diplomática de Angola, onde as eleições foram um julgamento popular que forçou a UNITA a regressar para as matas, mergulhando o país numa terrível guerra civil.

Em Angola, a ONU estava desprovida de forças para interposição ou de intervenção. Tanto o governo de Luanda quanto a UNITA dispunham intactos, até às eleições, dos seus artefactos bélicos. Esta experiência inglória interessava, sobremaneira, à ONU

que não se repetisse em Moçambique.

Acertada a estratégia entre a Frelimo e a ONU, munida de um contingente militar capaz de fazer intervenção, quando necessário, iniciou-se a desmobilização dos exércitos, a desactivação, como em nenhuma outra na história das pacificações, dos meios letais. Assistiu-se ao desmantelamento de tanques, carros de assalto, mísseis, bombardeiros, aviões de transporte, à massiva recolha de armas dos esconderijos para desencorajar qualquer tentativa de recomeçar a guerra por parte da RENAMO.

O governo ficou sereno por saber que a vitória estava garantida enquanto a RENAMO deixou-se ficar na sua ingenuidade enquanto era enganada pelos seus “irmãos”. O representante do secretário-geral da ONU, Aldo Ajello, abandonou o País 24 h depois das eleições, lavando as mãos, tal como o fez pôncio Pilatos.

Se a RENAMO tivesse ascendido ao poder, a Frelimo teria criado desordem generalizada, com a violência em espiral tanto no campo como nos centros urbanos.

O País teria sido ingovernável. Tal situação forçaria a RENAMO a regressar às matas. O descrédito e a incompetência teriam invadido as missões de pacificações da ONU.

Para permitir uma transição “pacífica e ordeira”, a ONU e as potências ocidentais desenharam a estratégia de relegar a RENAMO para a condição de derrotada artificial, proclamando a Frelimo e seu candidato vencedores da conveniência. Esta versão fala-se nos corredores das chancelarias em Maputo.

O período 1994-1999, é caracterizado pelas privatizações das empresas do Estado ou sob gestão. Como novos patrões aparecem indivíduos ligados à Frelimo ou a ela associados. Este foi um momento singular que proporcionou às elites políticas da Frelimo detivessem o poder económico.

Doravante, os quadros séniores da Frelimo para além do poder político, passaram a ter também a componente económica, tornando, assim, mais difícil a sua remoção da Frelimo do poder.

CORREIO DA MANHÃ (MAPUTO) – 04.11.2005

A repartição dos 85% do capital que passa a ser detido pelo Estado de Moçambique

"Uma fonte que segue as negociações, disse ao

mediaFAX

a partir de Lisboa, que os 85 por cento das acções detidos pelo Estado, vão ser repartidos entre a empresa de electricidade sul-africana, Eskom , EDP, empresa de energia portuguesa, ainda EDM, companhia moçambicana de electricidade , IGEP, Instituto de Participaçãoes do Estado, INSS entre outros. Desconhece-se por enquanto, o nível percentual a caber a cada integrante no negócio."

Extraído do MediaFax, de 04.11.2005

HCB e o futuro das relações luso-moçambicanas

Embora este texto tenha sido publicado anteriormente à visita de Armando Guebuza e da assinatura do Memorando sobre a Reversão de Cahora Bassa para Moçambique, vale pelos dados contidos, muito superiores aos anunciados por Portugal. Engano de jornalista?

O futuro da barragem hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB) voltará a estar no centro da mesa das conversações, quando o Presidente Armando Guebuza, na sua primeira visita oficial a Portugal, reunir-se, na próxima semana, com o seu homólogo Jorge Sampaio.

Sem dúvida que Cahora Bassa tem sido o elemento mais crítico no relacionamento entre os dois países nos últimos anos.

Por força dos Acordos de Lusaka, que abriram caminho para a independência de Moçambique, a HCB permaneceu propriedade de Portugal, em território moçambicano.

A ideia era que o empreendimento passaria para o controlo de Moçambique passados 25 anos, depois que Portugal tivesse liquidado toda a dívida de mais  de 1 bilião de dólares contraída junto de várias instituições credoras da Europa. A liquidação desta dívida contaria com as receitas provenientes da venda de energia à África do Sul.

Nem Portugal nem Moçambique poderiam prever o que viria a acontecer depois da independência deste último país. A guerra que deflagrou em Moçambique, apenas um ano após a independência, teve como alvo privilegiado os postes de transmissão da energia da HCB para a África do Sul.

Quando a guerra terminou em 1992, 1 895 postes tinham sido totalmente destruídos, e 2 311 precisavam de reabilitação ao longo dos 893 quilómetros que as linhas percorrem em território moçambicano.

Sem o fornecimento de energia à África do Sul, os rendimentos que se esperava da HCB não se materializaram. Por outro lado, como o acordo inicial previa que parte da energia transformada na África do Sul seria revendida a Moçambique a preço baixo, este país acabou comprando-a a preços comerciais.

Os juros acumulados sobre a dívida contraída por Portugal para a construção da HCB, bem como os custos de manutenção do empreendimento durante o período de paralisação e na reposição das torres, representam neste momento cerca de 2,6 biliões de dólares.

Actualmente, Portugal detém 82 porcento das acções da HCB, ficando para Moçambique os restantes 18 porcento.

Para a inversão desta estrutura accionista, Portugal exige que Moçambique lhe pague os 2,6 biliões de dólares. Moçambique oferece muito menos.

Se Moçambique tivesse que pagar o valor solicitado por Portugal, teria que contrair uma dívida pagável, somente em pelo menos trinta anos. Isto, numa altura em que o país pede aos credores o perdão da sua dívida.

Repetidas rondas negociais sempre criaram expectativas de se estar perto de uma solução mutuamente favorável, mas tudo não passava de uma ilusão. 

O arrastamento do impasse torna difícil que Moçambique materialize alguns dos seus projectos de desenvolvimento de longo prazo, tais como a construção da projectada barragem de Mpanda Ncua, igualmente no rio Zambeze, o empreendimento das areias pesadas de Chibuto, e a exploração de todo o potencial do vale do Zambeze.

Sem o poder soberano sobre a HCB, a utilização de mais energia da HCB para Moçambique requer complexas negociações tripartidas com Portugal e a África do Sul, uma vez que este último país terá que ceder a quota que lhe é atribuída ao abrigo do acordo assinado com Portugal, e que permitiu a viabilidade da construção da barragem.

Não se vislumbra no horizonte qualquer solução que venha a sair das conversações da próxima semana em Lisboa, apesar do optimismo expresso pelos dois presidentes no seu encontro de Setembro, em Nova Iorque.

Contudo, será de esperar que findos os três dias de troca de cordialidades protocolares, Guebuza e Sampaio tenham dado um passo decisivo, mais próximo de uma solução definitiva.

Tudo dependerá da capacidade negocial de ambas as partes. Mas, sobretudo, da vontade, determinação e coragem políticas dos líderes portugueses de verem encerrado um longo e tortuoso dossier colonial.

SAVANA - 28.10.2005

“Chissano golpeou Marcelino para se tornar Presidente”

Sugere João Cabrita no seu livro A Morte de Samora Machel

Compilação de Luís Nhachote

A editora Novafrica parece apostada na senda da negação, ou pelo menos de questionamento à história oficial que o establishment frelimiano nos impôs. Primeiro foi a controversa biografia Uria Simango - Um Homem, Uma Causa, em que Barnabé Lucas Nkomo, o seu autor, punha em xeque a tese de que o reverendo e fundador da FRELIMO fora traidor da causa nacional. Agora lança o livro A  Morte de Samora Machel, no qual João Cabrita, historiador mal visto por figuras do regime, sugere que Chissano usou o argumento étnico para, num golpe palaciano, afastar o sucessor natural, Marcelino dos Santos, e ascender a Presidente da República — como veio a acontecer —, após a morte do Marechal em Mbuzini. Assustador!

Veja o artigo completo em

Download joo_cabrita_no_seu_livro_a_morte_de_samora_machel.doc

A " oferta de Cahora Bassa"

Texto que acabei de enviar aos senhores Deputados da Assembleia da República de Portugal:

Senhor Deputado

Cahora Bassa é tão só a quinta maior barragem do mundo. Cahora Bassa produz a energia eléctrica a um dos custos mais baixos do mundo. Cahora Bassa é fruto do querer de Portugal. A Frelimo, da qual ainda faz parte Armando Guebuza, tudo fez para que a sua construção não fosse levada adiante. Custou vidas de portugueses e moçambicanos. Na construção e na defesa dessa mesma construção.
Não nacionalizou Samora Machel a Hidro-Eléctrica de Cahora Bassa, pois que a dívida da sua construção ascendia, em 1975, a 30 milhões de contos portugueses. E os credores principais eram a Alemanha, Noruega e África do Sul. Estivesse ela já paga e também tinha sido nacionalizada, como o foram os bens de meu falecido Pai.
Não sei quanto valerão agora os 30 milhões de contos, dinheiro de Portugal e de Moçambique, então Província Ultramarina.
Só sei que Portugal transfere para Moçambique, 67% do seu capital e a dívida que estava inscrita no orçamento português de 2,3 milhões de dólares, é remida por 950 milhões de dólares.
Friso não estar a pôr em causa a reversão do controle da Barragem para o Estado de Moçambique. Mas assim não!
Dizem os nossos governantes ser preciso que os portugueses "apertem o cinto".
Diz o Ministro das Finanças de Portugal não se estar perante um perdão de dívida, mas sim face a uma situação de custos irrecuperáveis. Como? Agora que a exploração da hidro-eléctrica já é positiva... Que fosse amortizada em dez, quinze anos, por exemplo. Porque não?
Não haverá nenhum Senhor(a) Deputado(a) que inquira do actual Governo de Portugal, quando impõe tantos sacrifícios ao povo português, de como e porquê se pôde chegar à conclusão agora anunciada. Será Vossa Excelência?
Relembro-lhe, Senhor Deputado, o que escrevi no então existente Jornal Novo, em 17 de Abril de 1979:

A Factura de Cahora Bassa

*por Fernando Inácio Gil

Em artigo publicado no passado dia 9 do corrente, após escrever “Somos vítimas, mas vítimas maiores serão os nossos filhos”, acrescentava:

“Não os obriguemos a pagar a factura que outros ficaram a dever, nem que tenhamos que ser nós a pagá-la.

Mas muito mais honrados se sentirão se tivermos a coragem de a fazer pagar por quem na realidade a ficou a dever.”

Será pois que, quando o Ministro Álvaro Barreto, na televisão, aludiu a uma carta de Vasco Gonçalves ao Presidente da Frelimo, tencionaria começar a endossar responsabilidades a quem efectivamente as tem?

Se assim foi, “haja Deus” que já não é sem tempo!

E, em tão boa hora o fez, que logo um semanário, além de publicar a carta perdão de Vasco Gonçalves, igualmente deu à estampa uma anterior subscrita por Samora Machel, prenhe de insultos a todos os nossos maiores.

São, na verdade, dois documentos históricos que bem atestam, a prevalecer uma maioria de esquerda no nosso país, qual seria o seu destino final.

Só que a tal maioria de esquerda não é mais que um slogan, embora a tenhamos ainda de suportar – moral e materialmente – até que novas eleições exprimam a vontade do povo português.

Dizia Vasco Gonçalves, na sua missiva de 9 de Maio de 1975, a Samora Machel que “só posso (re)afirmar-lhe(sem margem para qualquer hesitação), e como resultado de profundo empenhamento pessoal, do Governo e do povo português no processo em curso, que se pretende claro (o itálico é nosso) e gerador de novas e decisivas solidariedades”, concluindo que “Portugal considera definitivamente encerrado aquilo que se tem designado por “contencioso económico e financeiro”(de que se tem ocupado a comissão B das negociações), reforçando-se, assim, o já afirmado pelo MNE major Melo Antunes, como enviado do Governo, no recente encontro de Haia, havido com o Vice-Presidente da Frelimo.”

Não indo por agora comentar a carta de Samora Machel dirigida ao primeiro-ministro do Governo Provisório da República Portuguesa, em 18 de Abril de 1975, à qual aquela serviu de resposta, não resistimos a sua parte final:

“11.1        É nesta perspectiva ( de 500 anos de dominação colonial) e só nela, que pode ser avaliado o  “contencioso económico e financeiro”, e determinada exactamente a parte exigível a Portugal e a parte que Portugal pode exigir a Moçambique em consequência dos benefícios que Moçambique recebeu de cinco séculos de pilhagem colonial e de dez anos de guerra de agressão.

11.2                         No caso de o balanço ser favorável a Portugal, Moçambique engaja-se a pagar integral e imediatamente a totalidade da sua dívida.

11.3                         Entretanto, a Frelimo declara a sua vontade de que se interrompam as negociações em curso e se anulem os documentos já publicados, a fim de se reiniciar  oportunamente a discussão global da nova perspectiva.”

E andam tantos políticos e governantes a dizer que a democracia é a política da verdade!

Então, só quatro anos depois, e porque alguém o forçou, é que o povo português vem a saber que uma então existente Comissão Nacional de Descolonização se não opôs a que um Governo Provisório da República Portuguesa, liderado por um qualquer Vasco Gonçalves, todos sem o mínimo de representatividade, decidisse que “Portugal considera definitivamente encerrado aquilo que se tem designado por “contencioso económico e financeiro” com Moçambique.

Irra, que é demais!

E afirma Vasco Gonçalves que tudo isto se conseguiu com o empenhamento do povo português no processo que se pretende claro...

Mas já que a ponta do véu se começa a levantar, muito gostaria o povo português de saber qual o montante e, se possível, a discriminação de mais esta dádiva feita em seu nome, felizmente que com o seu “empenhamento”.

Mais, que fossem explicadas ao povo português as reais consequências daí advindas.

E, igualmente, se o Estado Português está disposto a indemnizar todos quantos foram lesados por acto, já para não falar no montante que a si mesmo, isto é, a todos nós  pertence.

E, pelo que correu em tempo em certos círculos, qual o valor e o destino dos auxílios estrangeiros que expressamente cobriam tal ou outras cedências?

Ou será que tais auxílios não passaram de falsas promessas?

Por tudo isto, sr. Ministro Álvaro Barreto, não esteja tão optimista quanto a Cabora-Bassa!

Melhor talvez seja ir preparando o Povo Português para ir pagando mais estes 30 milhões de contos de responsabilidade externa portuguesa.

Repare, sr. Ministro, que Portugal aceitou no Acordo de Lusaca que a Frelimo só indemnizasse o nosso país daquilo que entendesse ser em benefício do povo de Moçambique.

Qualquer arbitragem está fora de causa, apenas o que os senhores da Frelimo decidirem.

Aliás tudo é lógico da parte de Moçambique já que Vasco Gonçalves e o Governo português de então aceitaram continuar a negociar com a Frelimo:

         - É que se as negociações continuaram foi aceite integralmente a perspectiva da Frelimo que condicionava o seu prosseguimento à aceitação dos tais “cinco séculos de dominação colonial e dez anos de guerra de agressão”...

É pois mais que hora de se começar com o “julgamento dos responsáveis”.

Vamos a cartas na mesa que, quem tiver a consciência tranquila, nada terá a temer.

Bastas razões terá pois o dr. Mário Soares para afirmar que ainda é cedo para se discutir a descolonização.

Razões tinha pois o dr. Jorge Sampaio para nada dizer acerca dos resultados das negociações que ia tendo com Sérgio Vieira.

Razões têm pois todos os implicados no processo para se calarem e não deixarem ninguém falar.

Só vergonha é que não têm!

Mas sobejas razões temos nós, o povo português, de não mais sustentar quem o traiu e não soube defender os seus reais interesses – morais e materiais.

Será que, se Vasco Gonçalves fosse um verdadeiro português, se quedaria, aliás em tom subserviente, no seu magnânimo perdão?

Mousinho, Neutel, Capêlo, Gago Coutinho e tantos outros não lhe dizem nada, sr. Brigadeiro Vasco Gonçalves?

Tenhamos, pois nós, os verdadeiros portugueses, vergonha do juízo dos nossos filhos.

* Membro Directivo da Associação Projecto I

Moçambique está na posição correcta. Se eu puder comprar por 10, porque irei pagar 30 ou 40?

Cordiais saudações

Fernando da Silva Inácio Gil

Funcionário Aposentado

03-11-2005

RENAMO prudente sobre acordo Portugal-Moçambique

A RENAMO, principal partido da oposição moçambicana, reagiu hoje com prudência ao acordo assinado quarta-feira entre os governos de Lisboa e Maputo visando a reversão para Moçambique da maioria do capital da Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB).
"Ainda não fomos informados oficialmente" sobre o memorando de entendimento aprovado quarta-feira em Lisboa, disse o porta-voz da RENAMO, Fernando Mazanga, recusando um "comentário oficial" enquanto o seu partido não conhecer "todo o processo".
"Temos que ver os processos antes de tomar uma decisão", insistiu Mazanga que, no entanto, considerou "bem-vindo o regresso" da HCB à tutela moçambicana.
"É sempre bom que os moçambicanos tenham o usufruto do seu património", disse Mazanga que questionou o facto de Cahora Bassa ter sido "o único empreendimento construído pelos portugueses que não foi imediatamente devolvido a Moçambique após a independência, como aconteceu com as casas e fábricas".
"É preciso que os moçambicanos reflictam por que é que Cahora Bassa foi sendo adiada", insistiu.
A barragem no rio Zambeze, a maior na África Austral, foi um dos principais alvos da guerrilha conduzida pela RENAMO contra o governo da FRELIMO, de 1976 a 1992.
Os ataques, nomeadamente a destruição dos postes de transporte de energia, conduziram à paralisação do empreendimento durante longos períodos.
O memorando assinado quarta-feira em Lisboa pelo ministro das Finanças português e o ministro da Energia de Moçambique, na presença do primeiro-ministro de Portugal e do presidente moçambicano, estabelece que Cahora Bassa passa a ser controlada em 85 por cento por Moçambique, ficando o Estado português como "accionista de referência" e "parceiro estratégico" e os restantes 15 por cento.
O documento prevê também o pagamento a Portugal de 950 milhões de dólares (787,4 milhões de euros), que é menos de metade do valor total da dívida estimado pelas autoridades portuguesas - 2,3 mil milhões de dólares (1,9mil milhões de euros).
De acordo com o memorando de entendimento, as negociações para a reestruturação e transmissão da HCB ficam concluídas até ao final deste ano, ficando marcadas duas reuniões entre os ministros da Energia de Moçambique e das Finanças de Portugal para 21 e 22 deste mês e 16 e 17 de Dezembro.
NOTÍCIAS LUSÓFONAS - 03.11.2005

Cahora Bassa passa para Moçambique

acordo

Encontro de José Sócrates com Guebuza acelerou negociações Anunciado perdão da dívida   

Abarragem de Cahora Bassa vai passar a ser gerida por Moçambique. Após 30 anos de negociações arrastadas, a antiga colónia portuguesa vai passar a deter 85% do capital da Hidroeléctrica e Portugal mantém-se como accionista de referência e parceiro estratégico, com 15%. É este o enquadramento geral do acordo assinado ontem entre os dois estados. "Este acordo exprime uma mútua confiança entre os dois países", disse o primeiro-ministro, José Sócrates no final da cerimónia que decorreu na residência oficial de S.Bento. "É um acordo que nos honra e honra a nossa história", acrescentou.

O acordo foi assinado pela mão do ministro das Finanças, Teixeira dos Santos e do ministro da Energia de Moçambique, Namburete. O presidente moçambicano, Armando Guebuza, por seu lado louvou por seu lado o esforço feito por Portugal para concluir o acordo.

Na manhã de ontem, num encontro entre o chefe de Governo português e o chefe de estado de Moçambique que decorreu em Sintra foram acertados os últimos detalhes do documento assinado ao final da tarde. Estão em curso, ainda, as negociações para alterar a composição accionista, nomeadamente a indemnização de 1,8 mil milhões de euros pela construção e manutenção da barragem.

Sócrates anunciou o perdão integral da dívida moçambicana a Portugal, dependente apenas da negociação de uma formula de inserção na contabilidade nacional desse perdão.


Acordo de cooperação melhorado

Foi assinado ontem o Programa Anual de Cooperação (PAC), no valor de 19,6 milhões de euros, que Sócrates disse reflectirem a vontade do Governo de "participar no desenvolvimento de Moçambique".

O Programa incide nas "áreas do desenvolvimento, e este ano foi facilitada a verificação se os projectos são concretizados. Sócrates referiu que "Portugal está nos primeiros lugares de investimento estrangeiro".

JORNAL DE NOTÍCIAS - 03.11.2005

Portugal garante investimentos com redução em Cahora Bassa

Construção é o sector mais beneficiado. Dívida paga até ao final de 2006 

ana tomás Ribeiro
Helena Garrido

Moçambique vai passar a deter 85% do capital da Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB) e Portugal reduz a sua posição de 82 para 15 %, segundo o acordo ontem assinado entre os dois países. Maputo pagará 950 milhões de dólares a Portugal até final de 2006 e os empresários portugueses ficam com direito de preferência em projectos na área da energia. O acordo final será assinado até ao final deste ano.

"Cria-se um ambiente favorável ao investimento de empresas portuguesas", disse ao DN o ministro de Estado e das Finanças, Fernando Teixeira dos Santos que ontem assinou o acordo em São Bento com o ministro da Energia moçambicano, Salvador Namburete.

O acordo final será assinado até ao final do ano. Nestes próximos dois meses as duas partes terão de acertar algumas questões que estão em aberto, como é o caso da transição da gestão da HCB e do estatuto dos trabalhadores portugueses que lá se encontram.

É explicitado no documento ontem assinado que os acordos subsequentes não podem ter efeitos negativos no défice orçamental português. O memorando resolve o problema da dívida da empresa a Portugal, questão que impediu a resolução desta problema desde a independência de Moçambique em 1975. Nesse quadro, o Estado de Moçambique paga a Portugal 700 milhões de dólares no prazo de um ano a contar da data da assinatura do acordo final agendado para o fim de 2005. Este calendário pode ser prorrogado por um máximo de seis meses, desde que se tenha pago pelo menos 50% daquele valor. A empresa HCB amortiza 250 milhões de dólares também em 2006.

No seu conjunto, são amortizados 950 milhões de dólares, valor abaixo dos 2,3 mil milhões de dólares que estavam inscritos nos livros como dívida de Cahora Bassa ao Estado português.

O ministro de Estado e das Finanças não considera que se esteja perante um perdão de dívida, mas sim face a uma situação de custos irrecuperáveis, associados à situação de guerra vivida por Moçambique. Em termos técnicos pode considerar-se estar perante um tipo de operação harmónio, ou seja, redução de capital com diminuição de posição accionista.

"Cria-se um ambiente positivo que vai beneficiar as empresas portuguesas", afirma o ministro das Finanças, que recentemente se deslocou a Moçambique exactamente para desbloquear um problema com 30 anos.

Construção com ganhos. O sector português da construção e engenharia será um dos mais beneficiados, a curto prazo, com este acordo. "As empresas portuguesas vão ter direito de preferência nos projectos de energia que Moçambique está a desenvolver", afirmou Fernando Teixeira dos Santos nas declarações que fez ao DN. Segundo afirmou, o sector que mais beneficiará com este acordo será o da construção já que, sublinhou, "as empresas portuguesas têm grande 'know how' na construção e barragens".

O memorando consagra explicitamente o direito de preferência "em condições de igualdade" em futuros projectos no sector da energia, particularizando a
concretização da Central Norte de Cahora Bassa. Um projecto hidroeléctrico considerado fundamental para aumentar a produção da barragem, posicionando Moçambique como o grande exportador de energia da África Austral. A central funcionará ainda como um reservatório de água para o vale agrícola do Zambeze.

Segundo o comunicado ontem difundido pelo Ministério das Finanças, o entendimento "permitirá realizar importantes investimentos no sector energético, a consolidação de diversos projectos industriais e o desenvolvimento agro-industrial do vale do Zambeze".No quadro do acordo, os Estados deixam de ter responsabilidade do fornecimento da energia de Cahora Bassa, como acontecia até agora. Serão as empresas, a HCB e a Eskom a assumir essa responsabilidade.

Sócrates satisfeito. A assinatura do memorando de entendimento sobre a Hidroeléctrica de Cahora Bassa "é um acordo histórico para Portugal e Moçambique", disse ontem o primeiro-ministro José Sócrates, manifestando a sua "satisfação pessoal por ter sido agora possível concluir uma negociação que já se arrastava desde 1975". Na sua opinião, "este é um bom acordo para os dois países, reflecte uma múltipla confiança entre ambos e potencia boas relações para o futuro." Sócrates salientou que este entendimento também "honra a nossa história".

Por seu turno, o presidente moçambicano, Armando Guebuza, confessou que já desde a manhã de ontem estava "convencido que isto tinha de acabar hoje. E acabou mesmo. O acordo aconteceu e demonstra o nível de bom relacionamento e de amizade existente entre os dois governos e os dois povos". E anunciou "Daqui a pouco Cahora Bassa passa a ser gerida por Moçambique".

* com Daniel Lam

DIÁRIO DE NOTÍCIAS - 03.11.2005

01-11-2005

Nkomo: desculpa-me a chateação!

ADELINO BUQUE

“Se Buque procurasse informar-se sobre as condições então exigidas para a travessia na ponte de Púnguè talvez não passasse pelo espanto que passou e não nos chateasse, hoje.”, (Nkomo).

Francamente. Aceite o meu pedido de desculpas.

Não era minha intenção chatear o senhor e muito menos as pessoas a que se refere no seu artigo. Na verdade, escrevi pensando que fosse um diálogo entre Nkomo e eu. Nem sabia da existência de um grupo que se ocupava da investigação de seja o que fosse quando, a dado passo do seu artigo, diz e cito: “O artigo referido por Buque

surge apenas em resposta à nossa consciência de cidadania, no âmbito de um exercício democrático reinante no nosso país”.

Mas vamos ao que interessa.

Em resposta a tal carta, que chateou o grupo do senhor Nkomo, aparece um dado interessante, que revela a ingenuidade militar do Matsanga. Na verdade, como é que um comandante que se preze age como agiu no fatídico 17 de Outubro? Segundo conta o grupo, “durante o tiroteio de 17 de Outubro de 1979 na Gorongosa, apercebendo-se da presença de um tanque militar governamental que ia disparando a torto e a direito, escudando-se os atacantes no interior dele, Matsangaíce entendeu pegar numa granada e correr com ela para introduzí-la na escotilha daquela máquina, de modo a imobilizá-la. Exactamente no momento em que ia atirar o engenho para o interior do tanque, uma bala disparada por um soldado governamental atingiu-o mortalmente”.

Acredite, caro leitor, eu não sou militar nem entendo lá muito dessa técnica, mas acredito que um homem que goza da sanidade mental não vai se expor tal como se relata que o fez o comandante André Matsangaíce, para quem começava a simpatizar com a estória fica com a impressão de que o seu líder não passava de um aventureiro,

nada mais.

Só um pequeno detalhe: não existe um “rebanho” de buques e julgo que por essa via está claro também que não há imagens a serem cuidadas, aqui e neste artigo está o meu exclusivo exercício de pensamento, não é, por conseguinte, um pensamento do grupo e nem sei se o partido a que pertenço subscreve isto, por uma razão muito simples: nunca ninguém desse partido me disse particularmente ou em público que tinha feito bem em defender este ou aquele posicionamento.

É interessante como busca o termo nó-górdio para sustentar as operações militares no período de guerra de desestabilização, há, de facto, referências inegáveis da nossa história de luta de libertação mesmo olhando de um ângulo difícil, que bom!

Eu disse e reitero a minha admiração pela forma frontal como Nkomo aborda as questões que para uns são autênticos tabus. Este debate, embora tenha chateado o grupo de Nkomo, só é possível porque Nkomo deu a cara e disse o que disse, muitos de nós nunca tínhamos visto a imagem do Matsanga, mas graças às suas publicações passamos a conhecer o homem que é herói para uns e bandido para outros, quando em 2004 publicou o livro sobre o Reverendo Uria Simango de entre o público que lotava o Franco estava lá este Buque exactamente porque gosto das suas abordagens sem pretender assimilar os seus ideais sócio-políticos como é óbvio, será possível para si, caro Nkomo, esta relação sem ferir a ninguém!

Pela forma como apresenta o seu pensamento me parece o único com direitos constitucionais não admitindo que eu pense diferente sem que isso signifique inimizade.

Se aceita o meu conselho, continue a publicar o que souber sobre a estória da nossa sociedade, não se importando em agradar a este ou àquele, quanto questionar o que escreveres isso vai acontecer sempre e não deve ser motivo de se antagonizar com os leitores mesmo que esse leitor se chame Adelino Buque. Valeu, Nkomo!

CORREIO DA MANHÃ (MAPUTO) – 01.11.2005

Veja:

http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2005/10/andr_matsangace.html

31-10-2005

Malawi alvo de guerra de Samora Machel

MediaFAX está na posse de documentação que indicia tal facto

Maputo- O falecido presidente Samora Machel, tinha o Malawi, como alvo de guerra para derrotar o então MRN (Movimento de Resistência Nacional), então denominado oficialmente por bandidos armados.

De recordar que o Malawi nessa altura era um importante bastião do movimento de Afonso Dhlakama, no seu combate contra o Governo liderado pela Frelimo.

De acordo com alguns documentos recuperados em Mbuzini, local onde despenhou o avião presidencial, cujas cópias estão em poder do mediaFAX, na véspera dos factos, mais concretamente em 16 de Outubro de 1986, Samora reuniu-se com uma delegação zimbabweana em Maputo, para traçar-se a respectiva estratégia.

No encontro em que a delegação zimbabweana era chefiada por E. D. Munangagwa, então ministro da Defesa, Samora traçou uma estratégia que assentava em duas saídas.

A primeira, com o envolvimento do Zimbabwe, consistia em persuadir o Malawi a aceitar que as FPLM (Forças Populares de Libertação de Moçambique) fizessem um desdobramento Zambézia/Tete/Zambézia através do seu território na luta contra os guerrilheiros do MRN, actualmente Renamo.

Segundo Samora só assim o Malawi iria provar não ser inimigo.

“Essa é a maior prova de que ele (Malawi) não é a base do inimigo, prova evidente de que não quer guerra em Moçambique”, disse Samora nesse encontro.

O plano incluía ainda a permissão do trãnsito de militares zimbabweanos pelo Malawi em direcção a Moçambique no seu apoio às FPLM.

Por outro lado, o Malawi deveria participar na protecção das colunas de camiões no corredor, Beira/Chimoio/Tete/Malawi.

“Esta é a parte política, e, só pode ser feita por gente da segurança e contrainteligência”, defendeu Samora na reunião.

A segunda saída que devia ser em paralelo com a outra era derrubar o governo de Kamuzu Banda, então presidente do Malawi e colocar nova liderança.

“Moçambique e Zimbabwe devem descobrir nova força no Malawi. Banda está gasto. Não deixemos a África do Sul colocar a direcção no Malawi. Não deixemos os ingleses, os americanos, a RFA (República Federal da Alemanha) escolher os líderes para o Malawi”.

“Ganhemos o povo inteiro do Malawi todo”. “Ganhemos a maioria”. “Aqui estamos a seguir a teoria de Mão Tsé Tung: ganhar a maioria, isolar a minoria e aniquilar um por um”, argumentava Samora Machel.

No plano defendido por Samora , este advogava que também devia-se “organizar uma frente de libertação do Malawi, equipar e infiltrar no Malawi para liquidar os bandidos lá”.

“O melhor combate é transferir a guerra da tua zona para a do inimigo e fazer dela uma carreira de tiro”.

“No boxe mexemos o inimigo com a mão esquerda, para apanhar uma abertura e dar o golpe final: na boca do estômago (o adversário vai-se dobrar três vezes)”, disse Samora nessa reunião que teve lugar três dias antes da sua morte, um encontro em que Samora fez questão de mandar fora da sala do encontro o embaixador do Zimbabwe em Maputo, H. E. M. Vundura.

(JC).

MEDIA FAX – 31.10.2005

29-10-2005

Homenagem aos pára-quedistas tombados nas lutas travadas entre 1974 e 1996

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No dia 22 de Outubro foi descerrada no museu militar de Joanesburgo uma lápide de justa homenagem, constando nela o nome de todos os pára-quedistas heroicamente tombados pela causa que os fez lutar na guerra de 20 anos compreendidos entre 1974 e 1994 prolongando-se ainda nas lutas por este país até 1996.
Entre eles estão nomes de Portugueses e entre estes os dos nossos queridos compatriotas 1º Sargento Francisco Daniel Roxo HC, Sargento José Correia Pinto Ribeiro "Carnaval" e Sargento Ponciano Soeiro.
A lápide foi descerrada pelo Coronel Jan Breytenbach o "Pai" de todos eles.
Os nossos referidos compatriotas tinham feito neste país o curso de pára-quedista militar.
Mais um motivo de orgulho, mais uma vez os nossos corações palpitaram felizes, mais uma justiça foi feita e vem-me de novo à lembrança Camões:
Tudo vale a pena... A nossa alma não é pequena!
Manuel Resende Ferreira.
Legendas:
Foto 1 Homenagem a pára-quedistas tombados em combate 22 de Outubro 2005.
Foto 2 Coronel Jan Breytenbach.
Foto 3 Coronel Jan Breytenbach e o Sargento Fred Kruger, o homem desta nobre e feliz ideia.

24-10-2005

Samora morreu numa missão de guerra

Mbuzini, 19 anos depois
O desastre de Mbuzini, ocorrido vai para 19 anos, continua na mente de todos os moçambicanos. As opiniões divergem quanto ao que terá realmente acontecido na noite de 19 de Outubro de 1986. Acidente ou sabotagem? Eis a grande questão.
[ZAMBEZE - 10/18/2005]
 

Leia em  Download mbuzini_samora_morreu.doc

Almeida Santos não diz a verdade

Porque será que, tantos anos depois, continua Almeida Santos a não querer dizer a verdade, misturando factos não acontecidos, com outros mal contados.

Peço-vos para atentarem neste pequeno video antes de continuarem:

Download sicalmsantos.wmv

São dois pequenos excertos de um programa da SIC  "Marcelo Caetano, A corda na garganta" apresentado em 1999.

Na primeira parte pode-se ouvir Almeida Santos a dizer que já se não ia tranquilo à Nammacha ou ao Bilene. Se bem me lembro, só depois de Setembro de 1974 tal aconteceu. Mas ainda há milhares de testemunhas vivas para desmentirem o Dr. Almeida Santos.

No segundo trecho resume a história da Companhia de Omar, contando uma história em que teria sido entregue à delegação portuguesa uma cassete que depois trouxe e entregou ao General Spínola.

A verdade é que Almeida Santos esteve em Dar-es-Salam apenas a 15 de Agosto de 1974, quando, na realidade,  a cassete foi entregue ao Major Melo Antunes a 2 de Agosto, tendo sido ele que a trouxe para Portugal e entregue ao General Spínola na realidade na companhia de Almeida Santos.

Vê-se assim que em 1999 ainda se branqueava a ida de Melo Antunes a Dar-es-Salam de 31 de Julho a 2 de Agosto de 1974.

E o segredo só foi desvendado quando o Comandante Almeida e Costa o relatou em 2004.

Veja em

http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2005/08/1_de_agosto_de__2.html

e faça depois o seu juízo.

Será que tudo isto virá no seu livro? Em que termos?

Fernando Gil

21-10-2005

ANDRÉ MATSANGAÍCE: DA REALIDADE HISTÓRICA; DO MITO, ATÉ A MORTE DE UM HOMEM

Por Barnabé Lucas Ncomo

Comemorou-se no passado dia 17 de Outubro mais um aniversário do passamento físico de um homem. Passaram então 26 anos desde o dia em que André Matsangaíce, bandido para uns, herói nacional para outros, de pés firmes na terra que o viu nascer, caía em combate por uma causa.

Passados que são estes 26 anos, a nós, nada nos resta senão “ensinar” aos homens de amanhã:

Na história da humanidade jamais existiu bandido ou terrorrista algum que vergou um regime político de um estado soberano. Existiram, sim, homens munidos de ideais políticos, que lutaram contra alguns regimes políticos até a queda destes. É que, longe de ser um atributo político, o conceito de bandido ou terrorista é sempre uma atribuição política.

Leia o texto integral em

Download andr_matsangaice_1.doc

ZAMBEZE, 20.10.2005

É tempo de dizer a verdade sobre Mbuzini!

Passam 19 anos após a morte trágica do primeiro Presidente de Moçambique, o Marechal Samora Moisés Machel, vítima de um acidente aéreo ainda não esclarecido ocorrido na região de Mbuzini na cordilheira dos Libombos, a noroeste de Maputo.

Vários foram os palpites publicamente lançados sobre as verdadeiras causas da morte de Samora, avultando a versão, ainda não comprovada, do governo moçambicano, segundo a qual, Samora Machel foi assassinado pelo então regime do “Apartheid” da África do Sul.
Essa vaga acusação nunca chegou a ser substanciada em instâncias apropriadas, isto é, Moçambique nunca fundamentou as suas acusações contra o regime do “Apartheid” e nunca se queixou desse regime em nenhum tribunal internacional apropriado. Apenas acusou na imprensa nacional e internacional.
Por seu turno, a União Soviética, proprietária do avião e da tripulação, fez coro às acusações vagas contra o regime do “Apartheid”sem, no entanto, ajudar Moçambique a consubstanciar tais acusações em foros apropriados.

O ponto principal é que existem três versões fundamentais sobre as prováveis causas do acidente fatídico de Mbuzini:

• “O terrorismo de Estado” perpetrado pelo regime do “apartheid”, insistentemente alegado pelo governo de Moçambique;
• “alguém em Moçambique que facilitou tal acto”, como publicamente o declarou Graça Machel, em várias ocasiões;
. ou tudo foi “consequência de erros e negligência da tripulação”, como parece ser a conclusão principal da Comissão internacional de inquérito, que investigou o acidente e publicou o seu relatório.

Depois de longos meses de trabalho da Comissão de Inquérito sobre o acidente, o governo de Moçambique declinou aceitar as suas conclusões recomendando a continuação das investigações, o que, na prática, não tem acontecido, uma vez que o próprio governo de Moçambique pouco ou nada tem feito para que algo de novo viesse à superfície sobre a morte de Samora Machel.
Quanto à senhora Graça Machel, que acusara publicamente “alguém” de Moçambhique de ter facilitado a morte de seu esposo, a mesma Graça Machel veio, mais tarde, declarar que não tinha provas do que dizia.
A questão de possíveis erros técnicos da tripulação na origem do acidente de Mbuzini está, razoavelmente, documentada em relatórios e pareceres da comissão investigadora e dos governos participantes.
O livro de João Cabrita, “A morte de Samora Machel”, lançado esta semana em Maputo, proporciona muito útil informação para se tirar as conclusões sobre o que, realmente, se terá passado na fatídica noite do dia 19 de Outubro de 1986.
Os defensores da teoria de “terrorismo de Estado” sustentam a sua tese, baseando-se num hipotético VOR (Rádio-ajuda à navegação aérea) falso, instalado algures nas montanhas, que teria desviado o Tupolev presidencial da sua rota com destino a Maputo.
“Os que defendem a versão de que o desastre de Mbuzini se tratou de um crime premetidado alegam que teria existido uma rádio-ajuda – o chamado VOR – transmitindo na mesma frequência que a do VOR do aeroporto de Maputo, e que fez com que o Tupolev presidencial se desviasse da sua rota, acabando por provocar a colisão do mesmo”, escreve Cabrita no seu livro, acrescentando que “os argumentos apresentados por Moçambique e pela União Soviética para provar não apenas a existência mas também o recurso a um VOR falso como forma de se provocar o acidente, simplesmente, não convenceram.
Ambos os países, aliás, defenderam pontos de vista de tal modo contraditórios que acabariam por tornar inconsistente a tese do VOR falso.
Sintomático da insustentabilidade dessa tese é o facto de ainda hoje, passados que foram 19 anos desde a data em que ocorreu o desastre, as autoridades moçambicanas continuarem a admitir ser difícil provar a existência do VOR falso”.
Presume o livro de Cabrita que ao insistir na teoria do VOR falso, Moçambique pretendia fazer um aproveitamento político da morte de Samora Machel com um duplo propósito em mente.
Por um lado, utilizar a morte de Samora Machel no âmbito da luta contra o “apartheid”, apresentando o desaparecimento físico como mais um exemplo de agressividade de Pretória em relação aos seus vizinhos.
Por outro lado, ajudar a União Soviética a encontrar uma forma airosa de se desenvencilhar do embaraço de ter que admitir publicamente que, por negligência, uma tripulação sua causara a morte do chefe do Estado de um país aliado.
Ainda os investigadores não haviam concluido a fase da recolha de dados, já o vice-ministro soviético de aviação civil dizia que o acidente de Mbuzini só poderia ter sido consequência de uma das três causas por ele enumeradas, nomeadamente o abate da aeronave por fogo disparado a partir do solo; uma explosão a bordo do avião; ou ainda interferência provocada por aparelhos radiotransmissores situados em território sul-africano. Excluida estava, pois, a hipótese de erro da tripulação”.
O livro de Cabrita sublinha que Moçambique viria a dar o seu aval à teoria soviética sobre o VOR falso, “não obstante o facto de contrariar flagrantemente o parecer emitido por peritos moçambicanos”.
A dado passo, o livro sobre a morte de Samora Machel elucida que “tanto Moçambique como a União Soviética nunca acusaram formalmente a África do Sul de ter utilizado o VOR falso, se bem que, para o consumo público, se alegasse o contrário.
Inexplicavelmente, o governo de Moçambique, apesar de ter rejeitado as conclusões da Comissão de Inquérito, nunca contestou, junto da Organização Internacional de Aviação Civil (ICAO), o teor do respectivo relatório, com a agravante de um jurista moçambicano representar o país no Conselho de Administração daquele organismo das Nações Unidas.
E não obstante o facto de as autoridades moçambicanas publicamente declararem que Samora Machel foi vítima de um crime de terrorismo de Estado, elas nunca recorreram às instâncias jurídicas internacionais para fazerem valer a sua tese, especialmente quando os acusados de presumíveis autores ainda detinham o poder em Pretória e que facilmente poderiam ter sido levados à barra dos tribunais pois representavam um regime que havia atraído contra si a antipatia quase generalizada da comunidade internacional”.
Chegados aqui, ocorre-nos indagar o por quê de o governo moçambicano, sendo sério no que diz sobre a sua convicção em relação aos presumíveis autores da morte de Samora Machel, não fez mais do que falar para demonstrar sua indignação em relação à morte e sua convicção em relação aos presumíveis autores?
Quando o governo de Moçambique afirma que, do lado moçambicano, as investigações sobre a morte de Samora prosseguem o que é que, exactamente, pretende comunicar? Pretende comunicar que o governo ainda está a investigar ou que o governo, de facto, nunca fez o necessário para demonstrar a sua vontade em esclarecer a morte de Samora?
Por que é que a senhora Graça Machel abandonou a sua tese da conspiração interna na morte de Samora? Terá deixado ela de estar convencida de que alguém de dentro tinha interesse em matar Samora ou, pura e simplesmente, abandonou essa tese em troca de sua acomodação no seio da família Frelimo?
Assim, e por ocasião de 19 de Outubro de 2005 exigimos que as autoridades moçambicanas mostrem a sua coerência e seriedade em relação à morte de Samora Machel. Basta de evasivas e de acusações vagas não consubstanciadas em actos jurídicos pertinentes.
É tempo de o governo de Moçambique, por sinal chefiado pelo ainda chefe da Comissão Nacional de Inquérito sobre o Acidente de Mbuzini, Armando Guebuza, encontrar uma forma de explicar ao povo moçambicano quem matou Samora Machel e por que é que o mataram. Trata-se de um imperativo histórico que jamais caduca.
É tempo de ouvirmos a verdade sobre as partes nebulosas da nossa História!

Salomão Moyana - ZAMBEZE - 20.10.2005

Ainda a entrevista de Almeida Santos ao DN

Em continuação da nota de rodapé colocada após a entrevista de Almeida Santos ao Diário de Notícias e que encontra em

http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2005/10/almeida_santos_.html

acrescento, pensando nos menos informados e para os que se fazem de esquecidos, a transcrição de dois parágrafos do livro de Ruy Miguel ( ao tempo jornalista do Diário de Notícias)  no seu livro "25 de Abril, O Marxismo na Revolução":

"No seu livro "Tempo de Subversão", o conhecido dirigente comunista Carlos Brito, deu preciosas achegas para a nossa tese de que o Movimento dos Capitães primeiro, o Movimento das Forças Armadas depois, foram controlados pelo Partido Comunista Português. E, curiosamente, "lendo nas entrelinhas", o panorama torna-se suficientemente claro para não ter dúvidas.

Recordando um encontro entre as direcções do PCP e do PS recém criado, escreve que: "Foi deste último(encontro Cunhal-Soares) que saiu o importante comunicado conjunto reclamando o fim da guerra colonial e a relização de negociações com vista à independência imediata de Angola, Guiné-Bissau e Moçambique." e recorda que isso "representava um grande progresso" pois em 1970, em Roma, o representante da ASP recusara "subscrever a defesa do direito à independência imediata dos povos das colónias"."

Estas considerações de Carlos Brito(PCP), só vêm confirmar a notícia seguinte, aliás nunca desmentida:

"REPORTAGEM ESPECIAL

Por John C. Wahnon

Os Secretários-Gerais do Partido Comunista Português (PCP) e Partido Socialista (PS, juntamente com outros membros dos Partidos, reuniram-se em Paris em Maio de 1973 para estudarem as possibilidades de canalizarem o descontentamento então evidente em certos sectores das Forças Armadas Portuguesas no sentido de estruturarem um movimento militar capaz de derrubar o Governo Português. Desde o inicio, o PCP provou ser tão altamente organizado e conhecedor da situação que maravilhou e convenceu o PS a juntar-se ao movimento.

0 PCP tinha fichas detalhadas de todos os oficiais portugueses e contava com um número surpreendente de membros e simpatizantes nas Forças Armadas e nos sectores de Serviço Público. 0 Secretário-Geral do PCP decidiu, contudo, par razões óbvias, que não se aventuraria em certas actividades para evitar que riscasse a posição que tinha adquirido. Portanto, delegou no PS, então praticamente desconhecido e por consequência menos susceptível de causar suspeita, a responsabilidade de fazer o trabalho sujo. 0 PS atacou as medidas do Governo Português enquanto o PCP generosamente financiou as operações. Moscovo, a fonte desses fundos, só impôs uma condição:

- Independência imediata a todas as colónias portuguesas e transferência das respectivas soberanias, sem eleições, aos movimentos pró-russos.

0 Acordo final, respeitante às condições impostas pela Rússia, foi assinado numa reunião a que compareceram cinco comunistas e quatro socialistas, no primeiro andar de um restaurante de Paris adjacente a Farmácia da Ópera. Há quem afirme que o PCP ou o PS, mas não ambos, assinou o acordo final com a Rússia. Seja como for, o acordo tinha duas cláusulas:

1- Entrega de dinheiro: a Rússia contribuiria inicialmente com dois milhões de dólares para financiar a organização do golpe de Estado que derrubaria o Governo Português.

2 - Compromisso: 0 PCP e o PS comprometiam-se a dar Independência imediata às Colónias Portuguesas representadas na Reunião, para a ocasião, pelo PAIGC, MPLA e FRELIMO.

0 que sucedeu em Moçambique, Guiné, Cabo Verde e Angola, foi de tal forma vergonhoso, que os responsáveis pela concessão da independência, só se atreveram a cobrir a sua traição a Portugal, e às populações locais, com loucas generalidades de óbvio cultivo soviético. Os partidos opostos à FRELIMO em Moçambique, ao PAIGC na Guiné e Cabo Verde e ao MPLA em Angola, foram perseguidos e por decisões totalitárias e fascizantes, proibidos de defender os ideais que sustentavam.

In Newsletter Boston, MASS-USA - Agosto de 1976 Volume I- N.º 2."

Voltando ao livro atrás referido, de Ruy Miguel, aproveito para transcrever mais o seguinte:

"O 25 de Abril foi um autêntico "jogo de guerra". Jogou-se com o factor psicológico, com a falta de comando (por vontade de Marcello) e, portanto, com a falta de reacção das tropas que, disciplinadamente aguardaram ordens para sair dos quartéis.

Vem a propósito recordar que, o Comandante da Região Militar de Tomar apenas se rendeu ao fim da manhã do dia 26 de Abril.

Tanto os carros de combate como os soldados que participaram no "golpe" não dispunham de munições reais. Só ao fim da tarde, já depois da saída de Marcello do Carmo, andaram camionetas a distribuir munições.

Salgueiro Maia, o falecido capitão de Cavalaria, que avançou de Santarém, com carros de combate, infelizmente já não pode responder à pergunta: quem lhe terá dito que não encontraria oposição de fogo, em Lisboa, à qual não poderia responder com as suas granadas de instrução?

Quem o teria informado? O comando do MFA, o PCP, ou tratou-se apenas de "um espírito santo de orelha"? Estou firmemente convencido que Salgueiro Maia tinha a certeza que as forças leais ao Governo não abririam fogo sobre si e os seus soldados."

Será que Almeida Santos se lembrou destes factos para o seu livro? Ou Mário Soares o lembrará? Ou serão irrelevantes?

Fernando Gil

20-10-2005

Livro critica falhas da segurança na morte de Samora Machel

Maputo, 19 Out (Lusa) - Os serviços de segurança moçambicanos cometeram diversos erros durante a viagem aérea de Samora Machel, denuncia um livro publicado em Maputo sobre o desastre que vitimou o presidente moçambicano, passam hoje 19 anos.

João M. Cabrita, autor de "A morte de Samora Machel", hoje lançado em Maputo, sobre o desastre aéreo de 1986 que vitimou Machel e mais 33 passageiros e tripulantes do voo presidencial, critica o comportamento do Ministério da Segurança - SNASP, na época dirigido por Sérgio Vieira.

"Terá forçosamente de explicar para a história da nação moçambicana as razões das graves lacunas observadas no sistema de segurança nacional no dia em que ocorreu o desastre", escreve Cabrita, sobre Sérgio Vieira, um dos defensores da tese de que o presidente moçambicano foi vítima de terrorismo de Estado, possivelmente do então regime de "apartheid" sul-africano.

A queda do Tupolev-134A, com tripulação soviética, ocorreu ao princípio da noite de 19 de Outubro de 1986, quando o aparelho regressava a Maputo, vindo da Zâmbia, onde Machel participara numa cimeira com os seus homólogos zambiano, Kenneth Kaunda, angolano, José Eduardo dos Santos, e zairense, Mobutu Sese Seko.

Por razões que continuam a gerar polémica, o aparelho embateu numa montanha na África do Sul, já bastante perto da fronteira com Moçambique, quando deveria estar a aterrar no aeroporto de Maputo.

De acordo com o autor do livro a "secreta" moçambicana falhou ao não garantir que o voo se mantivesse afastado do espaço aéreo sul- africano, "demais a mais estando aquele Ministério na posse de informações de que (a África do Sul) preparava um ataque directo contra Maputo e o derrube do regime de Samora Machel".

Falhas em "todas as estações de radar situadas na região sul de Moçambique", que não informaram do desvio de rota, inexistência de protecção eficaz à estação VOR (Rádio VHF Omnidireccional), na cabeceira da pista principal do aeroporto de Maputo, e o lançamento de operações de busca apenas quatro horas depois da perda de contacto da torre com o aparelho presidencial são outras situações denunciadas por Cabrita.

"Este livro é mais uma tentativa que tenho feito para apresentar uma versão diferente dos acontecimentos daquela que é hoje tida como a única", disse à Agência Lusa João Cabrita, em declarações por telefone a partir da Suazilândia, onde vive.

No livro, o autor denuncia igualmente o comportamento da tripulação soviética que acusa de estar "distraída com questões estranhas ao voo".

"O comandante procurava por uma caneta para anotar o número de cervejas e coca-colas a encomendar do bar da aeronave para a tripulação levar para casa após a aterragem em Maputo (Ó) o co-piloto escutava uma estação de rádio da União Soviética, que transmitia um boletim de notícias, seguido de um programa musical", refere Cabrita sobre o ambiente no +cockpit+, numa altura em que já havia sinais contraditórios sobre a rota seguida.

O lançamento de "A morte de Samora Machel" (edição Nováfrica, Maputo, 2005) realizou-se à margem das poucas iniciativas oficiais que hoje assinalam o 19º aniversário da morte do carismático primeiro presidente de Moçambique.

As cerimónias evocativas, dirigidas por Maria da Luz Guebuza, mulher do actual presidente de Moçambique, Armando Guebuza, decorrem no local do acidente, Mbuzini, nelas participando cerca de 600 pessoas, a maioria jovens do movimento "Continuadores".

Também hoje, o Centro de Documentação Samora Machel, dirigido pela sua viúva, Graça Machel, inicia um programa de comemorações culturais e recreativas que decorrerá durante um ano.

LAS.

19-10-2005

Almeida Santos em entrevista à RDP Africa e publicada no Diário de Notícias

Almeida_santos10 Traz, hoje, o Diário de Notícias a transcrição da entrevista de Almeida Santos ontem dada à RDP África.

Devido à importância que a acção de Almeida Santos teve para com Portugal e os ex-territórios portugueses em África, transcrevo a mesma, seguida de comentários e chamadas de atenção minhas, que poderão encontrar em

Download AlmeidaSantos_esntrevista_DN19.10.2005a.doc

E não deixe de colocar aqui o seu comentário.

Acordo militar continua no “segredo dos deuses”

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Revela Mariano Matsinha

O Acordo de Lusaka ainda não é do domínio público, sobretudo a parte militar que continua secreta. Ela existe, está guardada a sete chaves pelo Governo da Frelimo, de acordo com o veterano Mariano Matsinha, um dos seus negociadores. 


ZAMBEZE - 9/8/2005

Samora Machel, Joaquim Chissano, Armando Guebuza, Alberto Chipande, Óscar Monteiro, Bonifácio Gruveta, Sebastião Mabote, Jacinto Veloso, Mariano Matsinha, Xavier Sulila, Joaquim Munhepe, Mateus Malichocho, João Phelembe, Joaquim de Carvalho, José Mosane e Graça Simbine, são os filhos da pátria moçambicana que há 31 anos, num frente a frente na “State House” em Lusaka, na Zambia, confrontaram-se com a delegação portuguesa liderada por Mário Soares para a assinatura do memorando que ficou conhecido nos anais da história por “Acordos de Lusaka”.

Volvidas três décadas da assinatura dos Acordos de Lusaka, um memorando de entendimento que pôs fim à guerra travada pela Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) contra a dominação colonial, o povo moçambicano ainda continua refém desse acordo assinado há 31 anos, em seu nome. Não obstante a data ser comemorada anualmente com pompa e circunstância, os que comandam os destinos da nação moçambicana, nunca lograram sequer pronunciarem de forma clara e ampla sobre as cláusulas deste acordo, até hoje, mergulhado naquilo que se chama de “segredo de Estado”. Estamos a falar do “acordo militar”, ainda não tornado público, mas que no decurso das negociações em Lusaka, constituiu o prato forte.

De acordo com o veterano da Frelimo Mariano Matsinha, um dos que constituiu a delegação moçambicana em Lusaka, “o Acordo de Lusaka é de domínio público, contrariamente ao Acordo Militar que se encontra nas mãos do governo do dia, e, sem ainda data para a sua publicação, de acordo com as parcas informações que diz ter.

A não publicação do referido documento até à data, é de acordo com palavras de Mariano Matsinha, é fruto de compromissos assumidos entre as duas delegações que estiveram reunidas na “State House”.

“Realmente trata-se de um documento importante para se compreender o processo em si, dos Acordos de Lusaka, mas o importante naquela altura era o reconhecimento por parte de Portugal que nós tínhamos direito à independência. Infelizmente não participei na discussão do “Acordo Militar”, e nem sei quais são as cláusulas plasmadas, mas acredito que os portugueses tinham as suas razões em pedir para que não fosse publicado, face à situação em que se encontravam.

O documento está guardado a sete chave pelo governo. Não conheço o seu prazo, mas acredito que a breve trecho será tornado público”, explicou o veterano da Frelimo.

A uma pergunta do ZAMBEZE sobre o cumprimento ou não das cláusulas dos Acordos de Lusaka, Matsinha garantiu que tudo até aqui corre (u) de feição e não há nada ainda por cumprir, tendo acrescentado que tudo quanto está plasmado no acordo de Lusaka, excepto o Acordo Militar é do domínio público e não sofreu alterações e nem omissões.

Hoje, passados 31 anos da assinatura dos “Acordos de Lusaka”, Mariano Matsinha, ora reformado da vida política activa, faz um balanço positivo sobre os mesmos acordos, sobretudo ao período em que o governo de transição tomou os destinos da nação moçambicana.

“Faço balanço positivo do governo de transição, pela coragem e determinação. É de louvar a coragem dos nossos homens que depois do cessar-fogo tiveram coragem de cair no quartel-general dos portugueses. É óbvio que os portugueses já não tinham muitas alternativas, porque o grosso já não queria continuar com a guerra. Mas nesse período, assistiu-se a distúrbios e sabotagens por parte dos portugueses e nós agimos com muita paciência, refere o veterano da Frelimo.

Recuado no tempo, como que a fazer o rescaldo dos acontecimentos, o nosso interlocutor referiu que a assinatura dos Acordos de Lusaka foi o culminar de um processo que iniciou com o golpe de Estado em Portugal, a 25 de Abril de 1974.

Foi assim no dizer de Matsinha que dois meses antes da assinatura dos Acordos de Lusaka, em Junho de 1974, as delegações moçambicana e portuguesa, chefiadas por Samora Machel e Mário Soares, respectivamente se encontraram pela primeira vez em Lusaka, mas sem no entanto se atingir os seus objectivos.

O interlocutor explica da seguinte forma: “A Frelimo ia com um poder máximo para negociar tudo, enquanto os portugueses apenas pretendiam assinar o acordo sobre o cessar-fogo, deixando tudo em suspenso. Estas foram algumas das dificuldades que tivemos em Junho, dai termos em conjunto elaborado um documento no qual informamos a Portugal que tínhamos negociado mas que ainda não se tinha chegado a um acordo definitivo. Eles por exemplo não sabiam qual era o destino a dar às colónias. A delegação Portuguesa de Junho não tinha poder. O poder político e militar estava nas mãos das forças armadas daí que mais tarde a Frelimo teve que encetar negociações secretas com o movimento militar, na Bélgica, Argélia, Tanzânia, entre outros países. Em linhas gerais, nós educamos os portugueses que era preciso resolver o problema das colónias. Enfrentamos outros percalços porque o general António Spinola continuava amarrado a ideias de federalismo porque tinha esperança que as suas ideias iam vingar.

Ainda sobre os acordos, nós já tínhamos comunicado aos nossos camaradas sobre a data e a hora da entrada em vigor do cessar- fogo e nessa altura os nossos homens já estavam nos quartéis portugueses, e enviamos Alberto Chipande para o quartel general Português em Nampula e depois para Lourenço Marques para restabelecer o processo de paz e evacuar as tropas portuguesas”, explicou.

O nosso interlocutor acrescentou que depois das manifestações havidas depois do 7 de Setembro de 1974, houve uma pressão em Portugal para se parar porque caso os reaccionários portugueses continuassem com os desmandos a guerra iria continuar.

A rematar, Matsinha que manteve dois dedinhos de conversa com a equipa de reportagem disse sentir-se lisonjeado por ter feito parte da delegação das negociações que culminaram com a assinatura dos Acordos de Lusaka e explica porquê: “Moçambique hoje tem um grande prestígio a nível mundial, contrariamente ao tempo colonial em que eram vistos como deslocados de guerra. Por outro lado, sinto-me prestigiado por ter vivido e sentido o peso do período colonial (o racismo, a humilhação, entre várias dificuldades) dai ter uma experiência especial”, salientou.
Celso Ricardo

Nota: Por lapso, só agora aqui publico este texto tão importante para portugueses e moçambicanos. As minhas desculpas. Fernando Gil

16-10-2005

António Guterres responde (1974)

Ant_guterres  

Perguntas:

-Há quem diga que se perdermos as colónias estamos destinados a ser uma província espanhola.

-Acha que Portugal pode manter a sua independência política, viver e desenvolver-se, sem as colónias?

António Guterres

Antes de mais importa referir que, bem acima dos eventuais problemas económicos que daí pos­sam decorrer, está o direito indiscutível dos povos das colónias à sua emancipação.

Emancipação que, para além do estatuto de in­dependência política, deve compreender a libertação das sujeições económicas de tipo neocolonial. Mesmo que isto criasse a Portugal graves dificuldades eco­nómicas, estas em nada poderiam afectar o reconhe­cimento e a aplicação prática desse direito.

Não me parece, porém, que o povo português tenha muito a temer com a separação dos territó­rios africanos. A exploração a que estes têm vindo a estar sujeitos nunca foi conduzida em termos de beneficiar generalizadamente a população, mas foi sim utilizada sistematicamente como instrumento ao serviço da riqueza e do poder dos grupos econó­micos dominantes, em perfeito paralelismo aliás com a própria exploração das classes trabalhadoras do continente. A estratégia desses grupos, no entanto, apontava cada vez mais para a sua inserção numa lógica europeia, em detrimento da dependência de relações coloniais.

Poderemos talvez analisar com um pouco mais de cuidado os dois elementos económicos que con­sidero mais importantes nas relações de Portugal com as colónias. Em primeiro lugar a exploração de matérias-primas, em segundo lugar as possibili­dades de exportação em condições preferenciais para os mercados africanos.

Quanto ao primeiro, há que referir que essa ex­ploração sempre foi feita de forma incipiente e na maioria das vezes ao serviço puro e simples de in­teresses estrangeiros. Nunca foi empreendida a va­lorização sistemática dos recursos naturais ultra­marinos, e o aproveitamento destes, quando feito directamente por portugueses, sempre se revelou deficiente. E se é indiscutível que foi possível às empresas portuguesas a importação a baixo custo de algumas matérias-primas, como o algodão ou o sisal e mais recentemente o acesso a fontes seguras de minério de ferro e petróleo bruto, não é menos verdade que a mesma política colonial impedia a Portugal a compra desses mesmos produtos, em condições por vezes concorrenciais, noutros merca­dos que se fechavam.

Quanto às exportações para a África, cujos dois principais elementos têm sido os têxteis e o vinho, há que reconhecer que os próprios grupos econó­micos autóctones vinham protestando já há algum tempo com a forma como decorriam, e com a sujei­ção que em nome dos exportadores europeus era imposta às possibilidades de desenvolvimento das indústrias locais. Manter este tipo de relação, aliás cada vez mais difícil mesmo antes do 25 de Abril, só servia a subsistência de algumas empresas mais re­trógradas, menos capazes de reconverter e moder­nizar as suas instalações industriais e de conseguir condições de competitividade nos mercados europeus que, pela sua dimensão, se afiguram bem mais pro­missores. Se é verdade que o principal estrangula­mento ao desenvolvimento industrial português está na exiguidade do mercado interno, então há que saber reconhecer que é no contexto europeu que pode encontrar-se solução para esse problema. An­gola e Moçambique, no seu conjunto, não represen­tam mais, em termos de consumo, que escassos dois milhões de consumidores europeus.

Apesar de tudo nada impedirá, mesmo com a independência, a importação de bens portugueses, sobretudo de equipamento, se estes forem os que corresponderem às necessidades de desenvolvimento dos novos países e se a indústria portuguesa souber encontrar uma competitividade que, mais uma vez, só lhe é possível com a inserção simultânea nos mercados europeus. Assinale-se ainda que se abrirão a Portugal novos mercados, quer os dos países socialistas, quer os do Terceiro Mundo, cujo acesso estava vedado por razões políticas e que, no
seu conjunto, mais do que compensam aquilo que eventualmente se perca.

Finalmente e talvez mais importante que tudo o resto, está o impacte que pode causar na economia portuguesa a canalização pelo Estado para in­vestimentos produtivos e de alcance social das verbas até agora consignadas às defesas militares. Se o Governo tiver o carácter e a força política capazes de as pôr ao serviço de todo o povo portu­guês e não do simples benefício e expansão dos grupos económicos privados e da classe dominante em geral, creio ser possível o início de um período acelerado do desenvolvimento. Desenvolvimento para o qual espero possa concorrer também o estancamento da emigração, e mesmo o seu retrocesso, e o próximo regresso do contingente militar em ser­viço nas colónias.

Não é hoje possível no Mundo, a um país como o nosso, uma situação de total independência. Penso no entanto que, desse ponto de vista e pelas ra­zões apontadas, Portugal só tem a ganhar com o fim da actual situação de exploração colonial. O que comprometia a independência nacional era sim o caminhar obstinado para um beco sem saída, en­quanto cada vez mais os trabalhadores mais válidos do país iam emigrando, na luta por condições míni­mas de vida e de trabalho.

In Portugal pode viver sem as colónias? - 1974

Dhlakama escala Gorongosa e Marínguè

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Para celebrar 26 anos da morte de Matsangaíssa

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O presidente da Renamo, Afonso Dhlakama, desloca-se no próximo dia 17 de Outubro ao distrito de Marínguè, província de Sofala, para celebrar o vigésimo aniversário da morte de André Matsangaíssa, primeiro líder daquele antigo movimento rebelde.

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Soube o Zambeze on-line de fontes da perdiz que as cerimónias comemorativas dos 26 anos da morte de Matsangaíssa começam no próximo dia 16 de Outubro, na vila de Gorongosa e serão liderado por Dhlakama.
“A vila de Gorongosa e um local histórico para Renamo, pois foi nesse local que André Matsangaíssa iniciou a luta pela democracia e liberdade para Moçambique, e, foi na mesma zona onde perdeu a vida”. Indica a fonte. Acrescenta que no dia 17, data da efeméride, na vila de Marínguè, serão realizadas as cerimonias centrais que incluirão um comício popular orientando pelo presidente da Renamo Afonso Dhlakama.
De referir que os distritos de Gorongosa e Marínguè foram bastiões do então movimento rebelde. Ė nas mesmas zonas onde até hoje se propala a existência de homens armados e esconderijos de armas.
Raul Senda - ZAMBEZE - 14.10.2005

15-10-2005

A MORTE DE SAMORA MACHEL (2)

"A Morte de Samora Machel"

© João M. Cabrita 2005

Edições Novafrica - Maputo – Moçambique

Introdução

Cerca de duas décadas após a morte do Presidente Samora Machel, persistem dúvidas quanto às circunstâncias do desastre ocorrido em território sul-africano, envolvendo a aeronave que o transportava. E não é para menos: antes de se ter nomeado a Comissão de Inquérito que investigaria as causas do desastre, já corria célere a versão de que o mesmo resultara de um acto de sabotagem. Posteriormente, os factos apurados pela referida comissão e as conclusões a que chegou viriam as ser considerados, unilateralmente, como tendo sido "cozinhados" pelo então regime da África do Sul de modo a se apresentar a ocorrência como um mero acidente.

Leia em:

Download introduo.doc

Veja:

http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2005/10/a_morte_de_samo.html

Recorde:

http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2004/10/dois_pronunciam.html

14-10-2005

A Morte de Samora Machel

Livro_capa_w200 19 anos após o desastre de Mbuzini persistem dúvidas sobre o que terá realmente acontecido na fatídica noite de 19 de Outubro de 1986 quando uma aeronave do tipo Tupolev-134A, sob os comandos de uma tripulação cedida ao governo de Moçambique pela então União Soviética, embateu contra a região montanhosa dos Libombos, em território sul-africano, causando a morte de Samora Machel e de outras 33 pessoas.

Será que de facto se tratou de um "acto de terrorismo de Estado" como insistentemente alegam as autoridades moçambicanas?

Terá havido alguém em Moçambique que facilitou tal acto, como publicamente o declarou a viúva do primeiro chefe de Estado moçambicano?

Ou foi tudo consequência de erros da tripulação?

Estas e outras questões pertinentes são tratadas em A Morte de Samora Machel. O autor reconstrói com rigor os momentos que antecederam o desastre, e desmistifica tudo quanto de fantasioso se tem propalado a respeito do sucedido há 19 anos, apoiando-se para tal num minucioso relatório da comissão de inquérito que investigou o acidente de Mbuzini, mas que em Moçambique continua a não ser do domínio público.

Para encomendar

http://www.samoramachel.com/encomendar.htm

13-10-2005

Bispo da Beira apela para maior divulgação acordo de paz

O bispo da Beira, Jaime Gonçalves, apelou quarta-feira para maior divulgação do texto do acordo geral de paz assinado em Roma há 13 anos entre a FRELIMO e a RENAMO, como implementação do diálogo em Moçambique.
Jaime Gonçalves, que participou nas conversações de 1992 na capital italiana que puseram termo a 16 anos de guerra civil em Moçambique, ilustrou o seu apelo com o facto de existirem poucas edições em língua portuguesa do acordo geral de paz.
"As casas editoriais a todos os níveis não fizeram uma publicação do acordo. Eu mesmo, que participei nas negociações, o texto que tenho está em inglês que foi publicado numa revista inglesa em Roma, apesar do acordo ter sido escrito em português", queixou-se o prelado. Jaime Gonçalves, que falava numa conferência evocativa dos acordos de Roma, considerou que o ambiente de paz se encontra "degradado" no país e apelou ao diálogo entre o governo e a RENAMO na questão dos homens armados que a oposição mantém no centro de Moçambique.
"Não posso dizer que temos que voltar a Roma para se ultrapassar o caso dos homens armados da RENAMO. É preciso que o governo e a RENAMO, tal como foi em Roma, dialoguem", exortou o bispo católico da Beira, capital da província de Sofala.
No mesmo dia em que Jaime Gonçalves fez estas declarações, o líder da RENAMO, Afonso Dhlakama, condicionava a resolução do caso dos homens armados do seu partido à sua integração na Polícia da República de Moçambique (PRM).
Afonso Dhlakama, afirmando interpretar correctamente o acordo de Roma, exigiu que aqueles homens continuem a providenciar a segurança a dirigentes e quadros da RENAMO embora fardados e pagos pelo Estado moçambicano.

NOTÍCIAS LUSÓFONAS - 13.10.2005

12-10-2005

Professora em Palma, nos anos 20 de 1900

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Sobre a minha Avó, posso dizer-te que se chamava Alice dos Santos Carreira, nascida em Bragança no dia 29 de Outubro 1901. Mãe de quatro filhos, António Carreira hoje com 80 anos, Natália Carreira., falecida com 76 anos em 1990 no hospital Curry Cabral, Telmo Carreira (meu Pai) já falecido com 72 anos em 2000 em casa, chegou a Moçambique e depois seguiu para Palma em 1923/25 não sei precisar.

Esteve um ou dois anos a dar aulas numa escola, e depois desse tempo seguiu para Mossuril, e depois para Porto Amélia onde esteve a leccionar também.

Aqui em Porto Amélia nasceu o seu 4º  filho o mais novo, meu tio Bebé Carreira, conhecido jogador de Basquetebol do Sporting de Lourenço Marques, hoje com 73 anos.

Mais tarde seguiu para Lourenço Marques onde esteve muitos anos a dar aulas na escola ??? Sepulveda  (João Belo), na Malhangalene , onde chegou a Directora da Escola.

Em 1976 veio para Portugal contrariadíssima, foi para Valença do Minho viver, depois veio para Cascais, Mem Martins , onde adoeceu gravemente,  vindo a falecer em Lisboa no Hospital de S. José em 1986...

Já agora o meu avô, seu marido, chamava-se Humberto Anastácio Carreira e morreu bastante novo em Lourenço Marques, em 1940, quando meu pai tinha 13 anos.

Esta é uma pequena história da minha avó contada pelo seu neto mais velho.

Rogério Carreira hoje com 50 anos.

Nota: O meu obrigado ao Rogério Carreira, por mais este exemplo de amor a Moçambique.

11-10-2005

Afinal o que é Madina do Boé?

Do livro de Manuel Domingues UMA CAMPANHA NA GUINÉ 1965/67 - HISTÓRIA DE UMA GUERRA, retiro este depoimento e as fotos que apresento, donde poderei concluir que a Inde pendência da Guiné-Bissau ão foi proclamada em zona libertada, mas antes "abandonada" e sem ninguém residente:

2.2 - Afinal o que é Madina do Boé?

Por Jorge Monteiro Capitão Mil0 da CCaç 1416

Nota: Este documento foi-me entregue por Jorge Monteiro e reproduz uma entrevista que concedeu ao Semanário de Luanda " A. Palavra", em 1 de Fevereiro de 1974. O motivo próximo, conforme é referido pelo entrevistador, cujos comentários aparecem no texto em itálico, tem a ver com o facto de o PAIGC, em 24 de Setembro de 1973, ter proclamado a unilateralmente a Independência, exactamente em Madina do Boé.

O significado político deste acto era muito mais importante do que o valor que Madina do Boé militarmente pudesse representar para o Exército Português, o que na altura parece ter passado despercebido aos estrategas militares. Mantivemos o texto integral da entrevista de quem viveu onze meses, naquele que em 1966/67 era considerado o pior local da Guiné. MD

Leia em

Download afinal_o_que_madina_de_bo.doc

Campanha_guine_capa Madina__bo_1966                          Mapa_guine

Assessora de Agostinho Neto foi informadora do KGB

ACÇÃO DO KGB JUNTO DA FRELIMO
- 11-Oct-2005

Uma "assistente política" do primeiro presidente de Angola, Agostinho Neto, foi durante anos informadora dos serviços secretos da antiga União Soviética, KGB, segundo documentos incluídos num livro agora publicado nos Estados Unidos.

Por José Pestana
da Agência Lusa

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O livro "The World Was Going Our Way - The KGB and the Battle for the Third World" é de autoria do historiador britânico Christophher Andrew e do antigo agente e arquivista do KGB Vasili Mitrokhin, que em 1992 fugiu da União Soviética com o auxílio dos serviços secretos britânicos, levando consigo milhares de documentos que havia desviado ou copiado durante anos.

Mitrokhin, com a ajuda de Andrew, publicou em 1999 um primeiro volume baseado nesses documentos e intitulado " The Sword and the Shield", que confirma alegações anteriormente feitas pelo antigo agente do KGB Oleg Kalugin de que o Partido Comunista Português entregou aos serviços secretos soviéticos centenas de quilos de documentos dos arquivos da antiga PIDE/DGS e documentos de identidade portugueses para fabricar falsas identidades.

Mitrokhin morreu no ano passado, antes da publicação deste novo volume de mais de 600 páginas que visa essencialmente as actividades do KGB no Terceiro Mundo, com um capítulo dedicado a África.

No prefácio, Andrew faz notar que devido ao facto dos documentos trazidos para a Grã-Bretanha por Mitrokhin serem ainda considerados secretos o livro foi submetido a análise das autoridades britânicas que aprovaram a nível ministerial a sua publicação "após longos atrasos".

O livro revela que na hierarquia soviética havia grandes diferenças de opinião sobre Agostinho Neto, que não contava com a confiança do Ministério dos Negócios Estrangeiros soviético, nem do Departamento Internacional do Partido Comunista Soviético.

O livro afirma que embora os representantes do KGB em Luanda (designados por "residência") tivessem "contactos privados" com Neto "a mais importante fonte para conhecer as intenções de Neto, em 1976, era uma assessora politica (do presidente)".

"Com o nome de código VOMUS dado pela KGB, (a assessora) tornou-se um contacto confidencial da residência de Luanda, segundo a qual ela exerceu uma +influência+ favorável sobre Neto e outros elementos da liderança do MPLA, no combate à ideologia maoísta", lê-se no livro.

Sem identificar VOMUS, o livro afirma que esta informadora do KGB foi detida em Junho de 1977 na sequência da tentativa de golpe de Estado de Nito Alves.

No prefácio, Andrews sublinha que era prática do KGB dar nomes de código não só aos agentes da organização, mas também a quem quer que fosse alvo de acções de aliciamento ou mesmo apenas personalidades em governos estrangeiros.

"Nomes de código não são só por si prova de que os indivíduos a quem se referem eram conscientemente ou por vontade própria agentes ou fontes do KGB," diz o historiador britânico. Por escolha própria, o livro não revela os nomes dos agentes do KGB mencionados com nomes de código.

O livro afirma que "tal como Moscovo, a embaixada soviética em Luanda tinha a maior fé em Nito Alves e lamentou que o golpe tivesse falhado".

Um dos elementos do KGB que sempre apoiou Agostinho Neto foi Oleg Nazhestkin, director da divisão em Angola do directório do KGB no exterior, que pela primeira vez contactou Neto pouco antes da independência, em Novembro de 1975, para informar o dirigente angolano que a URSS estava pronta a reconhecer um governo do MPLA.

Esse primeiro encontro começou de forma fria, pois Neto estava convencido que Nazhestkin vinha pressioná-lo a formar um governo de coligação com a FNLA e a UNITA, como Moscovo afirmara pretender até então.

Moscovo mudou de atitude depois do KGB ter avisado o bureau político do Partido Comunista que, sem apoio externo, o MPLA não seria capaz de continuar a controlar Luanda. Esse documento foi assinado por Viktor Chebrikov, vice-director do KGB.

O livro afirma que já depois da independência e por altura do golpe de Nito Alves, Neto queixou-se a Nazhestkin que o KGB estava a passar em revista a "roupa suja" para tentar encontrar "material comprometedor para o usar contra ele".

Anteriormente, Nazhestkin tinha defendido Neto junto do "Centro" (a direcção do KGB) de acusações provenientes de "fontes de confiança", segundo as quais o dirigente do MPLA estaria a desviar fundos soviéticos para uma conta bancária na Suíça.

Num documento enviado ao "Centro", Nazhestkin fez notar que como condição para esse apoio foi exigido que apenas um ou dois indivíduos no MPLA estivesse ao corrente e que só ele deveria decidir sobre questões ligadas à referida ajuda.

"Onde é que ele deve manter os fundos em moeda forte? Na sua gaveta ou numa mochila quando se desloca às zonas libertadas?", escreveu Nazhestkin.

O livro não avança pormenores sobre esta questão, mas revela a vasta rede de informadores e agentes que o KGB infiltrou em movimentos de libertação através de África.
MOÇAMBIQUE: A acção do KGB junto da FRELIMO
Assim, por exemplo, o livro refere que nos anos 60 o "Centro" não ficou bem impressionado com o primeiro presidente da FRELIMO, Eduardo Mondlane, "tendo mais confiança num membro mais jovem da liderança da FRELIMO com o nome de código TSOM, que até há pouco tempo tinha sido estudante em Paris".

"Em 1970, uma proposta do Centro para o recrutar como agente foi vetada pelo Departamento Internacional (do partido), mas TSOM permaneceu um contacto confidencial do KGB que forneceu informações sobre a FRELIMO e Moçambique," diz-se no livro também sem identificar TSOM.

O KGB teve também, nos anos 60, profundas dúvidas sobre a capacidade da FRELIMO de levar a cabo uma campanha com sucesso contra Portugal.

"O Centro ficou inicialmente abismado com a qualidade dos guerrilheiros da FRELIMO," lê-se no livro.

"Entre 1966 e 1970, o KGB forneceu treino a 21 especialistas da FRELIMO em sabotagem, mas considerou-os todos ideologicamente +primitivos+ e ignorantes da União Soviética, excepto como fonte de armas e dinheiro," afirmam os autores.

A KGB manteve igualmente, durante anos, um agente no conselho de guerra da ZAPU, um dos movimentos de libertação do Zimbabué. Esse agente tinha o nome de código NED e passou mais tarde para o controlo dos serviços de informações militares da URSS, o GRU.

Em 1976, o KGB recrutou dois agentes dentro da SWAPO o movimento de libertação da Namíbia então com sede em Angola.

Um deles era uma "familiar" do presidente da SWAPO, Sam Nujoma, que recebeu o nome de código KASYTONO e que "mais tarde passou a operar como agente dos cubanos".

O outro, com o nome de código GRANT, era membro do comité central da SWAPO e "recebeu pagamentos para fornecer informações sobre os movimentos de libertação na África Austral e sobre as actividades dos chineses e de países ocidentais na região".

O livro revela que o agente do KGB em Londres Oleg Gordievsky entregou, em 1982, ao secretário-geral do Partido Comunista sul- africano, Yusuf Dadoo, 118 mil libras para o ANC e 54 mil para o próprio PC sul-africano, durante um período de seis meses, dinheiro esse que Dadoo em vez de colocar numa mala levou da embaixada "nos bolsos do seu fato e sobretudo".

10-10-2005

Estátua causa discórdia

O presidente de Moçambique, Armando Guebuza, afirmou que a RENAMO tem de respeitar a lei se quiser construir uma estátua em memória do seu fundador, André Matsangaíssa, na Gorongosa, centro do país.

«Para a RENAMO fazer qualquer coisa tem que seguir as normas legais e não acredito que possa contrariar a lei, sobretudo depois de o líder da RENAMO (Afonso Dhlakama) ter declarado publicamente que se conforma com a lei vigente», disse o chefe do Estado moçambicano, durante o fim-de-semana, sobre a polémica em torno da estátua a Matsangaíssa. O principal partido da oposição moçambicana anunciou na semana passada que vai erguer, no dia 16 de Outubro, uma estátua do seu fundador numa das suas sedes na Gorongosa, província de Sofala, centro. Este anúncio foi recebido com irritação por sectores dos governos provincial e central que alertaram para a necessidade de uma autorização oficial para a colocação de estátuas em espaços públicos. «Não vamos permitir a estátua a Matsangaísse», declarou no fim-de-semana Arssalão Chabala, administrador do distrito de Maringué, onde a RENAMO pretende homenagear o seu fundador.

Hoje, o porta-voz da RENAMO, Fernando Mazanga, revelou que a estátua será erguida no pátio da sede do partido naquele distrito, considerando que tal não viola a lei moçambicana. «A estátua será erguida dentro do quintal da nossa sede» na Gorongosa, e isso «não fere a Constituição» moçambicana, disse Fernando Mazanga. «É o mesmo que as pessoas fazem para os seus entes queridos, só que isso incomoda a FRELIMO porque foi este jovem que uniu os militantes da RENAMO para lutar contra o comunismo», acrescentou Mazanga. «Se o senhor Armando Guebuza não quer o multi-partidarismo no país, que o diga. Mas não nos venha com atitudes belicistas de incitação à violação», acusou Mazanga. Matsangaíssa foi morto em combate a 17 de Outubro de 1979, na Gorongosa, durante a guerra civil (entre 1977 e 1992), que opôs a FRELIMO e a RENAMO, antigo movimento rebelde.

Evocando a efeméride, a RENAMO agendou igualmente a realização de diversas actividades em Maringué, para as quais convidou 800 pessoas, incluindo representantes do corpo diplomático em Moçambique. A propósito, Armando Guebuza disse acreditar que a cerimónia da RENAMO estará em «consonância com a lei» moçambicana e descreveu a iniciativa como bem vinda se a mesma for para aquele partido da oposição se tornar mais democrática. «Não conheço quais são as intenções da RENAMO, mas acho que é sempre benvindo quando a RENAMO se reúne para se tornar mais democrática», sublinhou o chefe de Estado moçambicano.

EXPRESSO AFRICA - 10.10.2005

Radio Moçambique Livre

Emissão, do então proclamado "Movimento Moçambique Livre", no dia 8 de Setembro de 1974, nas instalações do Rádio Clube de Moçambique.

Ouça em

http://www.malhanga.com/mocambique-livre/index.html

04-10-2005

QUO VADIS ÁFRICA?

Rafael Shikhani

HOJE, passados quarenta e tais anos desde as independências africanas, que leitura se pode fazer do período pós-independência? No contexto da Bipolarização, sem entrar ne­cessariamente na Guerra Fria, o panorama po­lítico africano era dominado pelo sentimento e ideologia, vamos assim considerar, do Não-Alinhamento. Este, associado a outras corren­tes, tornou-se um importante catalisador da fundação da OUA. Em termos cronológicos e de uma forma bastante resumida podemos estabelecer dois grandes momentos na histó­ria recente do continente africano.

O primeiro vai das independências ao fim da Guerra Fria (1989, Queda do Muro de Berlim) e nele temos uma África recém in­dependente e com alguma normalidade po­lítica, económica e social, mercê da herança das estruturas económicas coloniais, e algu­ma condescendência nos termos de trocas comerciais a nível mundial e, politicamente, progressista. Este período caracteriza-se so­bretudo pela bipolarização que determina a vida ideológica, política, económica e social do mundo de então. No final desaparecem os movimentos progressistas e o continente fica à deriva.

O segundo vai do pós Guerra Fria aos dias de hoje, onde os antigos regimes são postos em causa e em alguns casos contestados de forma extremamente violenta, Neste período caem alguns ícones das elites libertadoras de África e são introduzidos novos elementos políticos (democracia, multipartidarismo) e económicos (ajuda e programas de reajusta­mento estrutural).

Se tivermos em conta o ideário das in­dependências e analisarmos os períodos referidos, havemos de convir que muitos elementos concorreram para desvirtuar esse ideário. Ora vejamos: em muitos casos o processo não passou de uma mudança cosmética do opressor. Muito rapidamen­te foram-se desenvolvendo elites políticas cujo objectivo principal era única e exclu­sivamente a conquista do poder político. Será difícil esquecermo-nos de pessoas como Jean Bedel Bokassa, Idi Amin Dada, Mobutu Sesse Seko, Éden Kodjo, Sekou Touré, Mohamed Siad Barre, numa lista interminável na qual perfilam ainda alguns vivos. As independências não foram sufi­cientes, ainda, para criar nos africanos (a nível nacional e continental) uma persona­lidade nacional, um espírito de igualdade, unidade e pertença a um país (primeiro) e a um continente (segundo).

Muito embora existam dois conceitos que mudaram a vida do continente e do mundo, Independência e Democratização, muitas nações africanas são hoje uma péssima e lastimosa sombra do que foram outrora. As classes políticas não estão comprometidas com o desenvolvimento, preocupando-se mais com o enriquecimento pessoal. E o (pseudo) sistema democrático que se usa no continente (com algumas excepções) não passa de um modelo que permite uma ro­tação periódica de dirigentes corruptos e o agravamento da situação do continente.

REVISTA MAIS(Maputo) – JUNHO2005

A descolonização da Faixa de Gaza, e a dos Soares e Cunhais

a.santos martins*

TRINTA anos depois do abando­no das antigas províncias ultra­marinas portuguesas de África, pelos políticos e político-militares que tomaram o Poder depois da Abrilada de 1974, veja-se como foi diferente a descolonização da Faixa de Gaza, empreendi­da pelo governo israelita de Ariel Sharon — um governo «de direita», escla­recido, firme e corajoso.

António Almeida Santos, que foi o ministro da Coordenação Interterrito­rial no período da nossa «descolonização exemplar» e, depois, presidente da As­sembleia da República, escreveu já as suas «memórias» daquele período, mais de duas mil páginas que o ministro dos Negócios Estrangeiros da altura, Mário Soares, disse há dias (na SIC) que está a rever...

Espero ansiosamente a publicação, para ver se Almeida Santos vai habilitar, finalmente, os jovens portugueses, com a verdade verdadeira. E não «aquela» com que tantos trampolineiros, desde há trinta anos, vêm manipulando os «parolos». Que, segundo eles, só «têm direito» às versões (fraudulentas) que dão cobertura a criminosos que por aí se pavoneiam como «pais da democracia» e alimentam (também com «jobs» na «acção cultural») os seus filhotes políticos.

...........

Leia o texto completo em

Download a_descolonizao_da_faixa_de_gaza.doc

Veja igualmente

http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2005/08/marcelo_os_jude.html

O DIABO - 04.10.2005

O «revivalismo colonialista» de Fernando Rosas

brandão ferreira(*)

    Dr. Fernando Rosas (FR) i está preocupado. Assim o afirma em artigo saído no «Público» do passado dia 27 de Abril.

E está preocupado porque o autarca-mor de Coimbra, Dr. Car­los Encarnação, segundo diz, re­solveu inaugurar um monumento de homenagem aos «Combatentes do Ultramar», numa praça apelida­da - ela também! —, «Dos Heróis do Ultramar».

O escrito é todo ele uma aleivosia pegada, cheio de rancor e into­lerância. E se tal fica mal a qual­quer cidadão, acresce o ónus face às responsabilidades do Dr. Ro­sas, como político e como deputa­do. E como, ainda por cima, se assina como «historiador», as coi­sas ficam piores dadas as inverdades propaladas e a falta de hones­tidade intelectual (e crassa igno­rância!), evidenciadas, de todo in­compatíveis com aquele título.

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Veja o texto completo em

Download o_revivalismo_colonialista_de_fernando_rosas.doc 

O DIABO - 04.10.2005

Estariam Amílcar Cabral e o PAIGC, ainda no início dos anos 70, abertos a uma solução negociada para a guerra na Guiné?

Estariam Amílcar Cabral e o PAIGC, ainda no início dos anos 70, abertos a uma solução negociada para a guerra na Guiné, na base de uma solução comunitária, ou mesmo federal, que envolvesse Portugal, a Guiné e Cabo Verde? Declarações nesse sentido, praticamente desconhecidas até à data, e a que o «DN» teve acesso, parecem confirmar claramente esta hipótese.

Em Outubro de 1971, Amílcar Cabral, dirigente máximo do PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde), está em Londres, na sequência de um périplo europeu de sedução ao Ocidente (pouco depois de ter sido recebido, no Vaticano, pelo papa Paulo VI, com outros dirigentes independentistas da África portuguesa).

Na capital britânica, o secretário-geral do PAIGC concede uma entrevista a duas publicações de exilados portugueses - Polémica e Anticolonialismo, representadas, respectivamente, por José Manuel Medeiros Ferreira e por Pedro George -, no decurso da qual fala da independência da Guiné e de Cabo Verde, num quadro de uma comunidade lusófona. Que disse Amílcar Cabral, dois anos antes da declaração unilateral de independência (24 de Setembro de 1973), quando interrogado sobre «o futuro das relações entre a Guiné e Portugal»?

Disse o seguinte: «Se porventura em Portugal houvesse um regime que estivesse disposto a construir, não só o futuro e o bem-estar do povo de Portugal, mas também o nosso, nós não veríamos nenhuma necessidade de estar a fazer a luta pela independência. Mas em pé de absoluta igualdade. Quer dizer, se o presidente da República pudesse ser, quer de Cabo Verde, da Guiné, como de Portugal; se todas as funções estatais, administrativas, etc., fossem igualmente possíveis para toda a gente, nós não veríamos nenhuma necessidade de estar a fazer a luta pela independência, porque já seríamos independentes, num quadro humano muito mais largo e talvez muito mais eficaz do ponto de vista da História».

Publicada em Dezembro de 1971 na revista Polémica (Genebra, Suíça), a entrevista de Amílcar Cabral poderia representar um passo táctico, propagandístico mesmo, de um chefe que desejava afirmar a luta do seu movimento independentista, nomeadamente no Ocidente. Interrogado sobre a interpretação das declarações de Amílcar Cabral, o ex-presidente de Cabo Verde, Aristides Pereira (e sucessor de Amílcar Cabral na liderança do PAIGC, após o assassínio deste dirigente), disse ao DN: «Não se tratava de uma declaração táctica ou meramente propagandística, correspondia ao nosso pensamento».

A entrevista de Amílcar Cabral contém outros passos de interesse, no sentido do precisar do «pensamento» dos dirigentes principais do PAIGC. Disse Amílcar: «Como sabe, nós temos uma longa caminhada com o povo de Portugal. Eu estou aqui falando português, como qualquer outro português, e infelizmente melhor do que centenas de milhares de portugueses que o Estado português tem deixado na ignorância e na miséria».

E, depois da afinidade linguística, o líder guineense refere outras, históricas e culturais: «Nós marchamos juntos; e, além disso, no nosso povo, seja em Cabo Verde, seja na Guiné, existe toda uma ligação de sangue - não só histórica, mas também de sangue - e fundamentalmente de cultura com o povo de Portugal».

Depois de referir a possibilidade de «uma independência num quadro humano muito mais largo e talvez muito mais eficaz do ponto de vista da História» (sublinhado nosso), Amílcar aborda a questão mais profundamente ideológica das condições da construção desse quadro ideal, regressando ao refrão comum a todos os dirigentes independentistas.

«Nós somos povos africanos, ou um povo africano», sublinha Amílcar, «lutando contra o colonialismo português, contra a dominação colonial portuguesa. Nós estamos absolutamente convencidos de que, se em Portugal se instalasse amanhã um Governo que não fosse fascista - mas fosse democrático, progressita, reconhecedor do direito dos povos à autodeterminação e à independência -, a nossa luta não teria razão de ser.»

Quinta-feira, 24 de Setembro de 1998 - José Manuel Barroso, in «Diário de Notícias»

26-09-2005

Presidente pede envolvimento das forças armadas no combate no pobreza

O presidente moçambicano apelou às forças armadas para que se envolvam em acções de combate à pobreza absoluta no país, em discurso proferido hoje por ocasião do 41º aniversário do início da luta armada contra o colonialismo português.
O 25 de Setembro é também conhecido como o Dia das Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM).
"Tal como ontem - disse Armando Guebuza -, hoje, os moçambicanos são, uma vez mais, chamados a libertar a sua pátria de um novo inimigo, a pobreza. O sector da defesa nacional tem um papel preponderante neste combate".
Actividades culturais, comícios e homenagens aos heróis nacionais assinalaram hoje em Moçambique a passagem do 41º aniversário do início da luta contra a dominação colonial portuguesa.
Segundo a história oficial moçambicana, foi a 25 de Setembro de 1964 que o general Alberto Chipande, à frente de uma unidade militar da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), disparou o primeiro tiro contra a administração colonial portuguesa, em Chai, província de Cabo Delgado, norte de Moçambique, dando início à guerra de libertação do país.
A FRELIMO, sob a direcção do seu primeiro presidente, Eduardo Mondlane, morto em 1969 num atentado à bomba atribuído à PIDE, viu-se forçada a pegar em armas, perante a recusa do regime colonial português de António Oliveira Salazar de aceitar a independência de Moçambique.
O conflito só terminou a 07 de Setembro de 1974, depois de o governo português saído do golpe de Estado de Abril de 1974 ter aceite o histórico "Acordo de Lusaca", que lançou as bases para a independência de Moçambique, proclamada a 25 de Junho de 1975 pelo primeiro Presidente de Moçambique pós-independência, Samora Machel.
Contudo, um ano depois, o país mergulhou numa devastadora guerra civil de 16 anos, opondo as tropas governamentais da FRELIMO e a antiga guerrilha da RENAMO, primeiro apoiada pelo regime colonialista da Rodésia, hoje Zimbabué, e mais tarde pelo antigo regime do "apartheid" da África do Sul.
A guerra civil terminou a 4 de Outubro de 1992, por força do Acordo de Roma.

NOTÍCIAS LUSÓFONAS - 25.09.2005

24-09-2005

CHAI - 25 DE SETEMBRO DE 1964

Cumprem-se amanhã 41 anos sobre a data oficial do início da luta armada em Moçambique.

Já é altura de se escrever a verdadeira história, não se continuando a propagar fantasias sobre o que, naquele dia, se passou no Chai, em Cabo Delgado.

Será que Alberto Chipande continua a manter o relatório apresentado na altura? Ou será que finalmente dirá a verdade?

Para recordar vejam:

MANU disparou primeiro tiro e não a FRELIMO (em Agosto de 1964)

http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2005/03/manu_disparou_p.html

MACUA DE MOÇAMBIQUE

25 DE SETEMBRO DE 1964

CHAI – CABO DELGADO - MOÇAMBIQUE

http://www.macua.org/chai25092003.htm

21-09-2005

CAHORA BASSA - Antes e depois de 1975

Como é do conhecimento geral a FRELIMO, durante a denominada "luta de libertação nacional" tudo fez para evitar a construção da Barragem de Cahora-Bassa, a quinta maior do mundo, obra que deveria ser orgulho dos portugueses, não só quanto à sua dimensão, como às circunstâncias que rodearam a sua construção.

Hoje, Cahora Bassa produz e transporta electricidade para  Moçambique, República da África do Sul, Zimbabué, Botsuana e, em breve, para o Malwi.

Na sua albufeira, com 270 km de comprimento e até 30 km de largura, são pescadas, diariamente,  toneladas de peixe.

Mais tarde, em 1986, em visita ao local, é descerrada por Samora Machel a placa cuja imagem apresentamos:

Cabora_bassa12a_1

                                                                                                   A inscrição:

"Esta maravilhora obra humana do género humano constitui um verdadeiro hino à inteligência, um promotor do progresso, um orgulho para os empreiteiros, construtores e trabalhadores desta fantástica realização.

Cahora Bassa é a matriz do desenvolvimento do Moçambique independente. Os trabalhadores moçambicanos e portugueses, fratrenalmente, juntando o suor do seu trabalho e dedicação, garantem que este empreendimento sirva os interesses mais altos do desenvolvimento e prosperidade da R.P.M.

Moçambicanos e Portugueses consolidam aqui a unidade, a amizade e solidariedade cimentadas pelo aço e betão armado que produziu Cahora Bassa.

Que Cahora Bassa seja o símbolo do progresso, do entendimento entre os povos e da paz no mundo."

Samora Machel - Songo 17 de Setembro de 1986

P.S.: Como as opiniões mudam...

Veja:

http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2005/06/o_ltimo_constru.html

19-09-2005

A FUGA DOS ESTUDANTES EM 1961 (1)

  TESTEMUNHOS DA MEMÓRIA

Sérgio Vieira

O Partido pediu-me que iniciasse uma crónica regular. Sempre recusei escrever memórias, porque de um modo ou doutro o autor só possui uma parte limitada do todo e, igualmente, há que o reconhecer, tendemos por razões justas ou injustas a calar certos factos e a enaltecer outros.

Lamento, porém, que muitos escritos que surgem sobre a nossa História mais recente estejam repletos de inverdades, quantas vezes deliberadas e com o intuito de nos impor uma revisão adulterada do acontecido.

Muitos camaradas estão ainda e felizmente vivos, bibliotecas verdadeiras. Naquilo que de errado ou incompleto, involuntariamente, escreverei, eles poderão sempre contribuir, corrigindo, acrescentando. Para isso também serve esta publicação do nosso Partido. Optei, assim, por escrever o que chamo “Testemunhos da Memória”. Bosquejos daquilo que vivi, sem dispor nem da documentação, nem do tempo necessário para uma verdadeira investigação escolhi a solução mais fácil e porque não, preguiçosa.

Começo pelo ano da minha fuga.

Antes, no seio da Casa dos Estudantes do Império – CEI —, ali na Duque de Ávila em Lisboa, eu e muitos outros nos iniciámos numa actividade política mais orientada, onde com confiança, dialogávamos e aprendíamos dos mais experimentados.

Marcello Caetano, quando ainda Ministro das Colónias, nos anos 40, criara a instituição, no intuito de enquadrar e apoiar, essencialmente, os filhos dos colonos. Aconteceu, porém, que uma primeira geração, digamos assim, de angolanos, cabo verdianos, guineenses (B), moçambicanos e s.tomenses se apossaram, progressivamente da CEI. Entre eles, e que me perdoem por omitir outros, Agostinho Neto, Amílcar Cabral, Marcelino dos Santos, Mário António, Gualter Soares, Eduardo Mondlane, Francisco José Tenreiro, Tomás Medeiros, João Mendes, os irmãos Dáskalos.

Quando entrei na CEI o Fernando Vaz a presidia. Quando o Governo a mandou dissolver, o Óscar Monteiro a dirigia.

Pelo percurso numerosas comissões administrativas nos foram impostas no intuito de nos quebrar.

A sessão de 1960 da Assembleia Geral das Nações Unidas que aprovara a célebre Resolução 1514 (XV), que os nossos alunos deviam conhecer, marcara um novo impulso na luta contra o colonialismo. A independência do Congo (K), a conspiração para destruir o país e salvaguardar os interesses sórdidos das grandes companhias mineiras, o assassinato de Lumumba tocara-nos profundamente. Antes, a capitulação francesa em Dien Bien Phu, o começo da insurreição argelina, a nacionalização do canal do Suez por Nasser, a independência do Ghana e da Guiné haviam-nos estimulado profundamente.

A minha geração situa-se neste contexto.

O ano de 1961 assinala uma viragem maior na história do colonial-fascismo português e no avanço da causa da libertação.

Sob a direcção do Capitão Henrique Galvão, opositor ferrenho de Salazar, o ano iniciou-se com o sequestro do paquete Santa Maria, baptizado durante a operação de Santa Liberdade. Galvão e os seus companheiros são acolhidos em triunfo, no Brasil de Jânio Quadros.

Curiosamente, a PIDE escolhe um seu informador, grumete ou moço de limpeza a bordo, oriundo da Beira, Janeiro da Fonseca, para içar o pavilhão português no barco, quando o Governo retoma o seu controlo.

Este Artur Janeiro da Fonseca fingiu fugir de Portugal para o Marrocos em 1963. Em Rabat foi recebido na CONCP e contou várias histórias bem mal contadas. O camarada Amílcar Cabral decidiu ouvi-lo na minha presença. Contou, de novo, as diversas historietas e, mencionou diversos nomes para corroborar o que narrava. Ignorando com quem estava a falar, citou os nomes de Amílcar Cabral e o meu.

No final da conversa o camarada Amílcar apresentou-se e apresentou-me, imagine-se comoficou o senhor. Vários anos depois instalou-se na RFA onde veio a representar a RENAMO, parece que até hoje está ligado a essa organização.

A 4 de Fevereiro militantes do MPLA atacam, em Luanda, prisões e outros objectivos de natureza militar. A 15 de Março a UPA desencadeia acções armadas contra variados alvos, sobretudo empresas agrícolas coloniais dedicadas ao café, no Norte de Angola.

Pouco depois os Altos Comandos militares portugueses tentam forçar a saída de Salazar do Governo, de modo a prepararem uma solução negociada e pacífica do fim do colonialismo. (Cont. na próxima Edição)

In Boletim Informativo do Partido FRELIMO – 16.09.2005

14-09-2005

Fora da lei

Joao_sabadino_portugal MASCOTE ILEGAL

Nasceu em 1962. O dia e o mês ninguém sabe. Nem o nome original. Aos cinco anos roubaram-lhe o colo materno. Dois anos depois veio para Portugal com um grupo de Fuzileiros de quem era mascote. Anos mais tarde descobriu que estava ilegal.
MOÇAMBIQUE, JUNHO DE 1967

Um Destacamento de Fuzileiros Especiais portugueses veste o camuflado e arranca para a primeira operação na zona de Mocimboa da Praia, Cabo Delgado. Devidamente artilhados, os soldados entranham-se mato adentro à procura de presença inimiga.

Alguns passos adiante deparam-se com um grupo de mulheres indígenas. Seguem-lhes o rasto, discretamente, até à aldeia mais próxima. Logo que se apercebem da chegada de militares, os locais começam a fugir, apavorados. Procuram por um abrigo, arranjam uma forma de escapar à chacina.

Enquanto isso, um dos fuzileiros tenta impedir a sua fuga com disparos contínuos e ensurdecedores de metralhadora. Findo o carregador faz-se silêncio, e um manto de capim ruma ao céu, deixando a descoberto uma aldeia sem vivalma. Deserta. Por instantes, pensou-se que todos estivessem mortos. Puro engano. Um buraco estrategicamente cavado na terra serviu-lhes de escudo.

Escapam à morte, mas não de serem capturados e, posteriormente, entregues ao cuidado dos serviços competentes, em Porto Amélia (Pemba). Durante o regresso, os militares aproveitam uma curta paragem para se refrescarem no mar. Os indígenas, que nunca tinham vislumbrado tamanha imensidão de água ficam perplexos. Eufóricos. Durante breves momentos a aflição cede lugar à descompressão. A uma felicidade que parece não ter fim. O brilho espelhado no olhar de uma das crianças, que corre despreocupadamente pelo areal, desperta a atenção do grupo de fuzileiros. E como naquela época era comum os Destacamentos terem uma mascote, um dos militares , por impulso, coloca a hipótese de o adoptar. Assim foi.

João Sabadino Portugal. Foi desta forma que se passou a chamar o petiz. João, porque era dia 24, o mesmo em que se comemora o S. João – passando a ser também esse o dia em que comemora o seu aniversário. Sabadino, porque era sábado. Portugal, porque, afinal, tratava-se de um Destacamento de Fuzileiros Especiais portugueses. Com a autorização da mãe, o rapaz foi viver para o quartel dos soldados.

O petiz tinha a própria camarata, o próprio armário e uma farda igual à dos seus novos compinchas. Durante dois anos foi a coqueluche dos militares. Em 1969, quando a Comissão chegou ao fim, aos 70 oficiais que se preparavam para regressar a Portugal, juntou-se o pequeno João, à responsabilidade de um Oficial Imediato. Tinha sete anos. E uma vida pela frente. Agora, em Portugal.

João guarda poucas recordações desses tempos. "Lembro-me do quartel, de um macaco, de quem tinha muito medo, mas que estava sempre a atiçar, recordo-me de andar vestido com uma farda que me fazia sentir muito importante, e de ser bem tratado por todos eles", confidencia. "Os maus tratos vieram depois ", deixa escapar acompanhando as palavras com um ligeiro abanar de cabeça. Prenúncio de um sentimento mal resolvido.

CASCAIS, JUNHO DE 1969

Meia dúzia de dias após a chegada a Portugal, João foi entregue aos cuidados da mãe do Oficial Imediato que o adoptou: "Foi ela que me criou e educou, a ele só via ao fim-de-semana", começa por contar. "Mas ela era muito mazinha comigo", acrescenta, sem disfarçar um nervoso miudinho, que se acentua quando recorda a dura vida que levou ainda muito novo. "Sabem o que é ter que aspirar, lavar loiça, coisas que não me competiam Era como se eu lhes tivesse que dar algo em troca da educação, da comida Era um escravo", conclui, inconformado.

A gota de água foi quando, já após a morte da senhora, João levou uma violenta tareia de mangueira do pai adoptivo que lhe deixou marcas que ficarão para sempre gravadas na cabeça. E no corpo. Sempre que se vê ao espelho, a antiga mascote tem de enfrentar duas enormes cicatrizes nas costas que lhe trazem à memória lembranças que luta para esquecer. "É verdade que fiz uma coisa estúpida na escola, algo que agora não posso estar aqui a dizer, mas ", começa por revelar. " Só sei que foi a primeira e a última vez que me bateram assim".

Revoltado, João fugiu de casa. Mas logo que o encontrou, e para que o episódio não se repetisse, o Oficial decidiu mandá-lo para casa de familiares, nos Açores. "Fui para lá estudar e trabalhar na pesca. Mas se nós saíamos para o trabalho à noite, como é que eu ia conseguir acordar de manhã para ir para a escola!?", interroga.

Com a ajuda dos companheiros de pesca conseguiu arranjar dinheiro para comprar um bilhete de regresso ao Continente. Apanhou o primeiro avião e mal desembarcou em Lisboa foi bater a casa do pai adoptivo. Este, sem dó nem piedade, virou-lhe as costas.

João fez-se à estrada, sozinho, com vinte escudos no bolso. "Estava com uma raiva tão grande dele que comecei a andar, a andar. Fui de Carcavelos até Lisboa, precisava de gastar toda a energia que tinha no corpo. Cheguei à Rua das Flores e parei porque estava cansado. Depois, passei a viver ali. Batia à porta de casa das pessoas para pedir comida. Dormia perto dos bombeiros, no jardim ou em carros abandonados", recorda sobre os sete anos como sem-abrigo.

LISBOA, DE 1979 EM DIANTE

Durante esses tempos, João Sabadino Portugal fez amizades de ocasião, outras que, apesar das curvas e contracurvas da vida, mantém. Tentou o amor. "Éramos amigos, depois apaixonámo-nos, mas aquilo deu azar." Arranjou biscates em troca de comida. E, como a vida não lhe corria de feição, deixou-se enveredar por caminhos mais sinuosos. Meteu-se na droga. "Fumei uns charros, mais nada." Esteve preso. "Eu não sabia para o que é que ia, fui com eles, e olha, assaltámos um café." Conseguiu sobreviver a tudo.

No meio do turbilhão de emoções, certo dia, para piorar as coisas, João perdeu o Bilhete de Identidade. Naturalmente, tratou rapidamente de obter a segunda via. "Fui a Alvaiázere, onde estava registado, buscar a minha certidão de nascimento, preenchi a papelada, meti lá o dedo para impressão digital e disseram-me para ir levantá-lo dali a uma semana."

Quando lá voltou disseram-lhe que tinha de se dirigir aos registos centrais. Foi o que fez. Preencheu mais uma série de papéis, sem perceber muito bem para o que é que rabiscava, e ficou a saber que para receber o novo B.I. tinha que arranjar comprovativos dos locais onde tinha vivido e trabalhado nos últimos anos. Uma missão quase impossível para alguém com uma vida desregrada. "Tentei explicar-lhes, mas parece que ninguém me ouviu".

Entretanto, passaram-se vinte e sete anos. João Sabadino Portugal continua fora da lei.

Todos estes anos, trabalhou esporadicamente através de empresas de cedência de pessoal, fez os devidos descontos para a Segurança Social, uma vez que tem cartão de contribuinte. No que respeita a saúde, nunca necessitou de cuidados médicos que justificassem a apresentação de um cartão de identificação. E a polícia nunca o abordou. É caso para dizer que, no meio de tanto azar, tem tido alguma sorte.

Mas esta não é uma situação confortável. "Preocupa-me muito, se um dia quero ir a algum lado, dar uma volta maior, não posso. Se eu tenho registo, para quê tudo isto!? Estou baralhado, estou baralhado", diz repetidamente, em alto e bom som, como quem se esforça por se fazer ouvir. Mas a burocracia tem orelhas moucas.

No seu caso, a dificuldade na obtenção de um novo B.I. prende-se com o Decreto Lei 308-A/75 de 24 o Junho, que regulamenta a legalização dos oriundos das ex-colónias. Ou seja: se o João Sabadino tivesse chegado a Lisboa antes de 25 de Abril de 1969 não haveria problema, mas como só chegou em Junho não pode ser considerado português, sendo que também não é moçambicano. O problema só foi detectado porque, entretanto, perdeu o Bilhete de Identidade. “Parece que antes de sair a dita lei davam B.I. a todos, mas depois, para se nacionalizarem, teriam que preencher determinados requisitos, como casar com um portuguêsa, estar cá há mais de cinco anos...”, explica.

SEIXAL, JULHO DE 2005

Quis o destino que em Maio deste ano João Sabadino Portugal se cruzasse com um dos fuzileiros que o trouxeram para a então Metrópole. Há trinta anos que João Serra o procurava. "Após o regresso de Moçambique, ainda mantivemos o contacto. Tinha uma banda de música, os 'The Tigers', e costumava ir buscá-lo aos fins-de-semana para participar nos espectáculos."

Mas a determinada altura, a coisa mudou de figura. "Um dia liguei para casa da senhora que tomava conta dele e ela disse que eu só estava a prejudicá-lo, a desencaminhá-lo. Então deixei de o fazer", revela João Serra, que, a partir daí, perdeu o rasto ao pequeno João. Nunca o esqueceu.

Anos depois, o ex-fuzileiro iniciou uma busca incansável pelo menino traquina que fez as delícias do Destacamento de Fuzileiros. "É incrível ter sido tão difícil dar com ele. Afinal, andou todo este tempo por Lisboa", reflecte João Serra que não descansou enquanto não soube do paradeiro da 'pequena mascote'. "Abordei pessoas na rua, procurei em circos, andei por conservatórias. Ele era como se fosse um filho para mim. Nunca perdi a esperança."

Esperança é a palavra que melhor descreve aquilo que João Sabadino Portugal voltou a sentir depois de reencontrar João Serra. Já não se recordava dele, mas assim que soube de quem se tratava foi incapaz de conter as lágrimas. "Era como se estivesse em frente a alguém da minha família", explica. Após o encontro com o velho militar, a vida de João Sabadino Portugal deu uma volta de 180 graus. Foi viver para a outra margem do rio Tejo, arranjou um novo trabalho e até fez novas amizades. "Estava cansado. Queria um futuro melhor. Tinha lá pessoas de quem gostava, mas nem sequer pensei duas vezes quando ele me fez o convite. Precisava de sair dali, tinha que fazer alguma coisa para fugir daquele ambiente", explica a antiga mascote.

Agora, a prioridade máxima de João Serra é ver a situação deste homem legalizada – a última tentativa para resolver esta “novela de difícil solução”, como lhe chama, foi redigir uma carta ao cuidado do Ministério da Administração Interna – Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. Até à data, ainda não obteve qualquer resposta.

Por seu lado, João Sabadino Portugal vive a aguardar por dias mais felizes. Para contrariar os ponteiros do relógio, quando não está a trabalhar – e para não pensar muito –, este homem, pouco sociável, fechado, aproveita o difícil passar das horas para ler e ver televisão. "Leio tudo o que me passam para a mão. Na televisão, gosto de ver documentários, filmes e futebol, pelo menos quando é o meu Benfica", conta, folheando nervosamente o 'Baudolino' de Umberto Eco. "Já o li duas vezes, foi o meu afilhado – filho da mulher com quem vivi – que me ofereceu", diz, cabisbaixo.

Para João Sabadino Portugal – assim como para muitos de nós, a ficção é a melhor forma de fugir a uma triste realidade.

HÁ VIDA DEPOIS DO SOFRIMENTO

João Sabadino Portugal está a viver uma segunda vida. Passado o pesadelo reaprende a sorrir. E o culpado por esta metamorfose é João Serra. O antigo soldado do Destacamento de Fuzileiros Especiais portugueses em Mocimboa da Praia deu-lhe a mão que precisava para tentar dar um novo rumo à sua vida. É um esforço desmedido, uma luta de todos os dias. Mas ele não desiste, apesar de saber que a caminhada não será fácil.

João Serra tem feito tudo o que está ao seu alcance para que este homem consiga reencontrar a felicidade. Desde casa, a trabalho, o ex-fuzileiro tem-lhe proporcionado momentos únicos em família. Momentos que nunca teve, uma família que nunca teve. Aos fins-de-semana, João Serra leva a antiga mascote para sua casa, junto da mulher, filhos e amigos. Juntos passam agradáveis momentos de convívio. “Acho que lhe devemos isso, quando o trouxemos de Moçambique, ele era como um filho para todos nós”,sublinha. Dito isto conclui: ”Ao longo de todos estes anos, nunca o esqueci, apesar do afastamento. Agora, sinto que tenho que fazer algo por ele, e faço-o de boa vontade.”

EM BUSCA DA FAMÍLIA PERDIDA

O reencontro com João Serra trouxe a João Sabadino Portugal nova luz. A antiga mascote descobriu que, ao contrário do que sempre lhe foi dito, afinal a mãe pode estar viva. "Achei que era impossível. Sempre me disseram que a minha família tinha morrido", conta,emocionado. E confidencia que apesar de ter acreditado nessa realidade, nem sempre a aceitou. “Houve alturas em que chorava pelos cantos, sentia-me sozinho, sentia a falta de uma mãe", acrescenta.

Encontrá-la é agora a sua prioridade.

O seu grande sonho. "Tirava-me este peso todo que tenho cá dentro, esta mágoa. Seria uma alegria." Com o auxílio de João Serra, até já enviou um email para a televisão de Nampula a expor a situação. Enquanto não há novidades, contempla a mãe, com saudade, através da fotografia que registou o momento da despedida em Moçambique. A imagem foi-lhe oferecida por João Serra e agora vive numa moldura pregada na parede do seu novo quarto.

E-MAIL PARA A TV DE NAMPULA

Data: Quinta-feira, 30 de Junho de 2005

Para: [email protected]

Assunto: PROCURA-SE FAMILIARES

Ex.mos Senhores,

Peço a vossa ajuda com o objectivo de João Sabadino Portugal, hoje com 43 anos, saber se tem família em Moçambique. Em 1968, foi adoptado por uma unidade militar portuguesa, que o trouxe para Portugal em Junho de 1969. Até ao momento, desconhecia a possibilidade de existência de familiares, devido a informações deturpadas que lhe foram transmitidas. Agora, foi confrontado com fotografias que lhe foram mostradas por um antigo militar da unidade. A sua família vivia na zona de Mocimboa da Praia e pensa-se que mais tarde se deslocaram para Porto Amélia.

Agradecendo a atenção dispensada para esta acção humanitária, apresento os meus melhores cumprimentos, João Serra.

MOÇAMBIQUE - DATAS COM HISTÓRIA

- 25 de Setembro de 64 Início, em Mueda, da luta de libertação nacional.

- 25 de Abril de 74 golpe militar em Portugal abre caminho para a independência do território.

- 25 de Junho de 75 é proclamada a independência. Samora Machel torna-se no primeiro presidente do país.

Se tiver informações que possam ajudar este cidadão contacte:

João Serra, antigo fuzileiro

Telemóvel: 93 51 00 952

E-mail: [email protected]

Janete Frazão
CORREIO DA MANHÃ - 11.09.2005

11-09-2005

1 de Agosto de 1974 - Companhia de OMAR entrega-se à FRELIMO(4)

Vozcombatente_87_2005

Alferes_monteiro_2005          OMAR - 1 DE AGOSTO DE 1974

Em 5 de Março de 2005, os prisioneiros de Ornar, alguns acompanhados de suas esposas e filhos, pela primeira vez reuniram em convívio, em Leiria.

Compareceu uma delegação da nossa associação, presidida pelo Vice-Presidente Eng.° Neto, que em comissão imediatamente anterior serviu como furriel em Ornar.

       Combinámos entrevistar o antigo alferes miliciano José Carlos Monteiro que comandava interinamente a Companhia no dia 1 de Agosto de 1974.

O entrevistado, depois do serviço militar, fez a sua carreira Profissional nos correios, onde é hoje responsável de zona.

VC- Qual a denominação local de estacionamento Batalhão e tempo de permanência da sua Companhia em Omar? Caracterize operacionalmente a zona nessa época?

AM- 1a Companhia de Cavalaria Batalhão 8421 Base de Omar Província de Cabo Delgado.

Estacionada nesta Unidade de 18.08.1973 a1.08.1974.

Zona 100% operacional, cuja missão era impedir a entrada e saída da Frelimo para a Tanzânia e impedir os reabastecimentos que eram efectuados via Rio Rovuma.

VC – Quais as bases de guerrilha da Frelimo que existiam na

área de actuação da Companhia?

AM - Havia a base Limpopo e outras pequenas bases avançadas que serviam de passagem para esta base.

        VC – Como foi acolhida a notícia da ocorrência do 25 de Abril em Portugal? A vossa actividade operacional continuou ou houve alterações?

          AM - A guerra entre o Exército Português e a Frelimo é apresentada como a principal premissa no contexto do Movimento das Forças Armadas. Iniciam-se conversações no sentido de acabar com um confronto entre dois povos. Trabalha-se para um cessar fogo em Moçambique, objectivo para o qual o Exército Português imediatamente caminhou, deixando de efectuar operações de carácter ofensivo e acordando em restabelecer diálogos a nível local, com elementos da Frelimo. As emissoras de rádio, de Moçambique, frequentemente anunciavam ostensivamente esses contactos. Houve inicialmente urna fase em que o cepticismo e a vontade de alcançar objectivos mais complexos levaram a Frelimo a não compreender claramente a boa vontade e o espírito colaborador do Exército Português. Passados algumas semanas, porém, o endurecimento iluminou as forças emancipalistas moçambicanas, altura a partir da qual se começou definitivamente a caminhar para a paz.

          V C  -  Recebeu algumas instruções para entabular negociações de cessar fogo com a Frelimo? De quem?

AM - A mensagem 2008/OI/74 do Comando Sector B transcreve a mensagem 71 65/P da 5a Repartição: «... Devem todos os comandos tentar criar condições locais passíveis de conduzir ao cessar fogo na sua ZA. Para o efeito lançarão campanha de panfletos, cartas deixadas no mato, e acima de tudo servir-se como intermediários, bem como todos os meios achados convenientes. Só deve ser prometido respeito e confiança mútuos e desejo para a paz. Todos os militares serão esclarecidos destes acontecimentos e finalidades, tendo em vista evitar quaisquer incidentes ou atitudes inconvenientes e todos os resultados alcançados serão comunicados a este Comando...»

Dentro do mesmo espírito e baseado nesta mensagem, o Comando Militar de Mocímboa do Rovuma elaborou um comunicado, com o fim de ser distribuído durante os patrulhamentos efectuados por forças do BCAV 8421:

- «O Governo Provisório Português está seguindo uma política ditada pelo Movimento das Forças Armadas que visa o seguinte: a paz entre os portugueses de todas as raças e credos em Moçambique e restantes províncias ultramarinas; Conceder a independência a Moçambique a curto prazo, bem como nas restantes províncias ultramarinas... Todos sabemos que a Frelimo e as Forças Armadas Portuguesas têm forças para continuar a lutar por muitos anos, porém, agora é imoral e desumano continuar a fazer mais mortos e feridos de ambas os partes. Os nossos Presidentes já começaram o diálogo franco e aberto, que vai continuar, e só este poderá conduzir a paz que todos desejamos. As Forças Armadas estão dispostas a não atacar o povo da Frelimo, se esta não atacar as picadas e quartéis portugueses. Vamos cessar fogo em conjunto, aguardando que na mesa das negociações seja negociada a paz com vista à independência de Moçambique. Enquanto não houver paz, as Forças Armadas continuam em Moçambique para segurança de todas as populações, raças e credos. Só em paz será possível construir um Moçambique melhor.

Aguardamos a vossa resposta por escrito ou emissário que será bem recebido».

VC - Descreva-nos os acontecimentos de Ornar a 1 de Agosto de  1974 e todos os posteriores até à data da vossa libertação em 19.09.1974.

AM - Na madrugada do dia 1 de Agosto de 1974, na orla da mata do estacionamento ouviram-se vozes de megafone, dizendo: « Atenção aquartelamento de Omar, nós não estamos contra vocês, lutamos contra o fascismo e o colonialismo, e esses terminaram no dia 25 de Abril. Queremos falar com vocês. Mandem um mensageiro à pista, pois nós estamos sem armas. Queremos apenas falar convosco, não queremos mais derramamento de sangue».

        Perante estas palavras o soldado Joaquim da Silva Piedade ofereceu-se voluntário para ir à pista como mensageiro. Todo o restante pessoal continuou nas valas e em diversas posições de fogo. Quando o referido mensageiro ia a chegar à pista, novas vozes de megafone se ouviram, pedindo para que o Comandante viesse também à pista. Perante isto, o comandante do aquartelamento, alferes miliciano José Carlos da Silva e Costa Monteiro, acedeu em ir também à pista juntamente com o referido soldado Piedade.

Surgiram então cerca de 8 a 10 indivíduos desarmados, munidos com gravadores portáteis, máquinas de filmar e máquinas fotográficas. Quando o alferes Monteiro se encontrava a falar com o comandante deste pequena força ele repetiu as palavras já ditas pelo megafone e pedia para falar com os soldados da Companhia na pista. Perante esta insistência o comandante do aquartelamento de Omar alvitrou que poderia entrar e falar com a Companhia dentro do aquartelamento, o que lhe foi contestado, alegando medo de qualquer reacção das nossas tropas ou da força aérea.

Perante isto, e como não se notava qualquer presença de indivíduos armados, foi aceite que parte Companhia fosse para a pista. Ficaram nas posições as secções de obuses 8,8 morteiros e postos de sentinela.

Quando se encontravam na pista, houve uma força de cerca de 100 indivíduos, que pela porta de armas traseira, que dava saída para a lixeira, entraram de assalto, tomando as nossas posições dentro do quartel. A reacção das secções de obus não era possível, e como tal, a força que entrou obrigou o pessoal das restantes posições a abandonar e sair. No mesmo momento em que a força toma o quartel, há uma outra força emboscada na orla da mata da pista que cerca todo o pessoal que nela se encontrava.

A partir daí não foi possível qualquer reacção. Imediatamente o Comandante de Omar e outros graduados perguntam ao comandante da força invasora o que é que se passava, no que ele respondeu que iriam falar com o Comandante Joaquim Chipande no meio da mata. Foram levados para uma base avançada de Frelimo onde se encontraram com os Chefes Silésio e Alberto Joaquim Chipande. Aí pernoitaram, dormindo à volta duma fogueira.

No dia 2 iniciaram a marcha até nova base da Frelimo onde ficaram dois dias. Aí os graduados tiveram a primeira reunião com uma comitiva da Frelimo chefiada por Joaquim Chipande. Foi-lhes lido todas as conversações de Lusaca às quais Chipande havia estado presente. Explicou este Chefe que uma das razões porque tinham tomado OMAR era pelo facto de não só ser uma base de importância vital, mas também porque já haviam escrito uma carta ao Comandante do Sector B/AV (Mueda) Tenente Coronel Andrade Lopes, onde a Frelimo punha como condições a retirada de determinados quartéis e reunião dos mesmos em Mueda. Não o quiseram fazer e a Frelimo sabia, pelo barulho de rebentamentos e por um mainato civil, que fugiu da nossa Companhia, que Omar estava a destruir os materiais. Esta reunião terminou cerca das 10H00 e aí os graduados iniciaram a marcha para se irem juntar aos restantes soldados que já se encontravam numa outra base da Frelimo.

No dia 5, seguiram para o distrito de M’Napa onde pernoitaram.

No dia 6 seguiram com destino à base Limpopo, onde foi distribuído arroz e sopa aos militares. Daqui avançaram em direcção ao Rio Rovuma, onde chegaram cerca das 18H00. às 00H30, os últimos homens encontravam-se em território da Tanzaniano.

No dia 7, foi distribuído o fardamento da Frelimo a todos os militares portugueses, tendo estes entregue a roupa que levavam vestida. À tarde, iniciou-se o transporte de todo o pessoal em viaturas do exército tanzaniano para Newala, onde se pernoitou numa prisão em construção.

No dia 8, dá-se o primeiro encontro com o Presidente da Frelimo, Samora Machel, bem como a restante comitiva. Aí, Machel falou a todos os militares, tendo cumprimentado todos um por um. Nessa tarde seguiram ao longo da Tanzânia até Nashinguwea onde ficaram instalados num quartel do exército tanzaniano. Aí ficaram até à libertação que se processou em 19.09.1974.

Enquanto permaneceram como prisioneiros, não houve qualquer mau trato a ninguém. Funcionava uma enfermaria dia e noite, com um sargento enfermeiro da Tanzânia, pronto para qualquer serviço. Um médico da Frelimo ia frequentemente dar consultas a quem queria, tendo feito inclusivamente o tratamento de uma anemia, com transfusão de sangue, a um soldado artilheiro português. Receberam diversas visitas, entre elas, a de Samora Machel três vezes, Chefe do Estado Maior do Exército Tanzaniano, Ministro da Agricultura da Tanzânia, diversos dirigentes do partido Tanu, muitos jornalistas e fotógrafos.

VC – Li algures que Spínola, então Presidente da República, terá visto uma reportagem da rendição de Omar e se terá declarado muito incomodado. Entende que poderia ter tido outro comportamento? Estás arrependido das suas decisões?

AM – O General Spínola deve ter ficado incomodado foi por ter dado determinadas ordens ao Major Otelo e ao Dr. Mário Soares para as conversações de Lusaca e eles terem alterado tudo o que havia sido combinado!!! Todas as reportagens foram feitas sobre Omar não correspondem à verdade, pois os actores principais nunca foram ouvidos, e ao fim de 31 anos é a segunda vez que conto a verdadeira história.

VC – Que influência terão tido os acontecimentos de Omar nas conversações de Lusaca, já que o acordo foi assinado mais de que um mês depois, a 09.09.1974?

AM – Pode ter servido para haver moeda de troca em termos de prisioneiros, pois só nós e um pelotão de açoreanos é que estávamos vivos e visíveis para a comunicação social. Onde estão os homens do navio Angoche?

VC - O Sr, era o Comandante Interino da Companhia. Alguma vez a hierarquia militar ou o poder político o incomodaram ou molestaram pela responsabilidade dos acontecimentos?

AM – Não.

VC - Quando foram libertados e após o regresso a Moçambique, como foram tratados pelos comandos militares. Quem vos recebeu e o que vos disseram? Que apoio receberam?

AM – Fomos recebidos em Nampula pelo Coronel Travassos, na altura Comandante do Sector B. Fomos bem recebidos e dados novos fardamentos e dinheiro.

VC – Trinta e um anos depois dos acontecimentos, o que sente? Em relação aos subordinados, aos superiores e aos guerrilheiros da Frelimo?

AM – Relativamente aos acontecimentos, não tenho qualquer ideia definida, tão somente a satisfação por ter regressado a Portugal com todos os meus homens, sãos e salvos, e creio termos tido um comportamento digno, pois soubemos dignificar a missão para a qual fomos solicitados: saber fazer a paz é tão dignificante como ganhar uma guerra.

Veja:

http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2005/08/1_de_agosto_de__2.html

09-09-2005

Homenagem prestada a militares portugueses na África do Sul (2)

Recordar em

http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2005/08/homenagem_prest.html

Notícia publicada hoje(na 1ª página e à esquerda), pelo Semanário O INDEPENDENTE, e a resposta de Manuel Ferreira à mesma:

Independente0909_04

Portugal homenageia Apartheid

Embaixada em Pretória esteve representada numa homenagem a três mercenários portugueses que combateram pelo Apartheid. Entre os quais um ex-agente da PIDE

Francisco Teixeira

e Mónica Moniz Ribeiro 

[email protected]         

O Estado Português esteve oficial­mente representado numa cerimó­nia de homenagem a um grupo de mercenários do antigo Batalhão Búfalo, a unidade militar de elite utilizada pela África do Sul para sustentar o regime racista do! Apartheid. Entre os três portugueses distinguidos está um antigo agente da PIDE-DGS.

As explicações das partes envol­vidas não coincidem. O Ministério dos Negócios Estrangeiros "des­conhece" a presença de represen­tantes portugueses nesta cerimónia e o embaixador português em Pretória garante que foi surpreen­dido pela notícia "quando regressa­va de férias da Grécia", mas a verdade é que chegou um convite oficial à embaixada e Portugal fez--se representar pela chefe da chan­celaria, Margarida Rosas de Oliveira. Mais. A diplomacia portuguesa entregou uma coroa de flores em nome de Portugal para se associar ao evento.

Homenagem aos mortos. Este epi­sódio começou quando a embaixada portuguesa foi contactada por um ex-membro do Batalhão Búfalo, colega dos homenageados e promotor da iniciativa. Perante a indisponibilidade de agenda do embaixador, foi dito a Manuel Ferreira que Portugal seria repre­sentado por Margarida Rosas de Oliveira, chefe da chancelaria da embaixada. Ou seja: Portugal ace­deu a participar na cerimónia, de forma oficial e com uma coroa de flores.

A homenagem aos três militares portugueses que estiveram ao ser­viço do regime do Apartheid decorreu em Pretória no dia 23 de Agosto. Cenário: o cemitério de Thaba Tshwane. Fritz Loots, ex--comandante das unidades espe­ciais que combateram em Angola e no Sudoeste Africano (Namíbia), descerrou a lápide negra onde foram inscritos os nomes dos três portugueses. Por um lado, para prestar um tributo ao desempe­nho de Francisco Daniel Roxo, José Correia Pinto Ribeiro e Ponciano Soeiro (ex-agente da PIDE-DGS), mortos em combate na década de 70. Por outro lado, para lhes "dar um tratamento à altura" com a trasladação dos corpos, que se encontravam em campas rasas e sem qualquer inscrição.

Batata quente. Contactado pelo In­dependente, o embaixador portu­guês em Pretória, João Barbosa, confirmou a presença da funcio­nária consular, mas garante que não foi "previamente consultado" para conceder a devida autorização hie­rárquica para que participasse na cerimónia.

Caso tivesse sido, o representante de Portugal na África do Sul "teria que ponderar a presença" e "infor­mar o Ministério dos Negócios Estrangeiros antes de tomar uma decisão".

João Barbosa garante ainda que não se tratou de uma cerimónia de homenagem aos três portugueses. Tese desmentida pelo próprio organizador do evento. Manuel Ferreira, ex-membro do Batalhão Búfalo, confirmou ao Indepen­dente o carácter da cerimónia: "Eram profissionais exemplares que estavam maltratados" e que mereciam ser "enaltecidos" e "devidamente homenageados".

Independente0909_01_1 

O QUE ERA O BATALHÃO BÚFALO

>> É também conhecido por Batalhão 32. Trata--se de uma antiga unidade de elite da África do Sul criada em 1975 para defender o regime racista do Apartheid. Foi utilizado em diversas frentes de combate externas para aniquilar os movimentos marxistas na África Austral. Casos de Angola e Namíbia.

Na sequência da vitória do M P LA na guerra civil angolana, os combatentes derrotados refugiaram-se numa região do Sudoeste Africano. Nessa altura, o coronel sul-africano Breytenbach contratou-os para formar uma unidade de elite composta por militares angolanos, ingleses, portugueses e norte--americanos. Todos eles mercenários ao serviço do governo sul-africano do Apartheid. O Batalhão Búfalo acabou por ser dissolvido em 1993, depois de ter sido rejeitada a sua presença na "nova África do Sul", renascida com a libertação de Nelson Mandela e o fim da discriminação racial.

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.....................................................................................................................

A resposta esclarecimento de Manuel Ferreira:

Manuel de Resende Ferreira

P.O.Box 9001

Centurion

0046

África do Sul

E-mail: [email protected]

Centurion,9 de Setembro de 2005

Por direito, venho responder ao vosso artigo, publicado hoje, dia 9 de Setembro, na Secção Política e sob o título "Portugal homenageia Apartheid". É um artigo maldosa e vergonhosamente deturpado, com falsas afirmações --- um artigo que não merece qualquer crédito, mas merece o meu direito à resposta.

Chamo -me Manuel de Resende Ferreira, fui um dos organizadores do evento, não sou, como afirmam, ex-membro do Batalhão Búfalo ( mas este artigo está cheio de mentiras!...) sou ex-militar das Forças Armadas Sul Africanas.

Neste evento de carácter singelo e muito sentido, não só foi prestada homenagem a três valorosos combatentes como e principalmente dar-lhes aquilo que ainda não lhes tinha sido dado e que qualquer ente merece quando deixa de viver, pedir religiosamente e com fé a paz das suas almas.

Por que se tratavam de Portugueses valorosos e condecorados anteriormente pelo o Exército Português a Embaixada Portuguesa por nós convidada, fez-se representar pela secção Consular com tal dignidade que sentimos Portugal connosco. Tratavam-se de três compatriotas. Entre os convidados encontravam-se também membros das Forças Armadas Sul Africanas alguns ainda no activo e alguns, também, não de raça branca.

Onde estão os portugueses que foram vendidos e abandonados em África? Já se esqueceram? Para alguns a memória é curta, para mim não. Olhem que os vendilhões da Pátria ainda estão no activo. Um deles, velho e gágá, volta a candidatar-se à Presidência da República.

Sou Português, não sou Luso-descendente. Foi em África que nasceu o sol do meu primeiro dia, sob a bandeira das Quinas. Ainda miúdo com os meus pais e irmãos, depois de vendidos e abandonados, fomos acolhidos pela África do Sul. Abandonados foram também aqueles valentes condecorados soldados Portugueses.

Nós os acolhidos por este País, aos milhares, ao atingirmos a idade militar, fomos obrigatoriamente chamados a cumprir o Serviço Militar, o que fizemos com orgulho sem sermos mercenários. E, como ao serviço do apartheid? se servimos lado a lado com negros nas trincheiras!

Não houve só um Vasco da Gama, um Pedro Alvares Cabral ... felizmente houveram muitos, exemplo:

Daniel Roxo chefe das Milícias no Niassa, condecorado pelo Exército Português com a Cruz de Guerra e a medalha de Serviços Distintos. José Correia Pinto Ribeiro, Sargento Para- Quedista Português e mais tarde membro dos GEPs ( Grupos Especiais Para-Quedistas) em Moçambique. Ponciano Soeiro ex agente da DGS em Angola ( Defensor da Portugalidade em África) e posteriormente como os outros dois colegas, Operador Especial das Forças Especiais Sul Africanas.

A imprensa Sul Africana quase de norte a sul, reagiu positivamente a esta homenagem prestada aos nossos compatriotas, que for falta de espaço a que não tenho direito aqui não transcrevo os seus artigos.

Tarda infelizmente em aparecer novos Mouzinhos de Albuquerque, Paivas Couceiros, Artur Paivas mas proliferam, infelizmente, Migueis de Vasconcelos. Judas também não houve só um, como no vosso artigo vende-se a alma da Pátria por dinheiro, pelo artigo sensação ...

A nossa velha, ensolada Pátria Portuguesa está doente, doença virulenta, purulenta, a cheirar mal por todos os poros. Vendida, esquartejada, apenas lhe resta um pequeno rectangulo de areia e telhas já quase sem arvoredo ...

Mas que grandes homens foram estes três que depois de mortos há quase trinta anos fazem estremecer tanta gente!...

Manuel de Resende Ferreira 1º Sargento das Forças Armadas Sul Africanas (Reformado)

08-09-2005

Acordo militar continua no “segredo dos deuses”

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Revela Mariano Matsinha
Acordo militar continua no “segredo dos deuses”
O Acordo de Lusaka ainda não é do domínio público, sobretudo a parte militar que continua secreta. Ela existe, está guardada a sete chaves pelo Governo da Frelimo, de acordo com o veterano Mariano Matsinha, um dos seus negociadores. 


ZAMBEZE - 9/8/2005

Samora Machel, Joaquim Chissano, Armando Guebuza, Alberto Chipande, Óscar Monteiro, Bonifácio Gruveta, Sebastião Mabote, Jacinto Veloso, Mariano Matsinha, Xavier Salila, Joaquim Munhepe, Mateus Malichocho, João Phelembe, Joaquim de Carvalho, José Mosane e Graça Simbine, são os filhos da pátria moçambicana que há 31 anos, num frente a frente na “State House” em Lusaka, na Zambia, confrontaram-se com a delegação portuguesa liderada por Mário Soares para a assinatura do memorando que ficou conhecido nos anais da história por “Acordos de Lusaka”.

Volvidas três décadas da assinatura dos Acordos de Lusaka, um memorando de entendimento que pôs fim à guerra travada pela Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) contra a dominação colonial, o povo moçambicano ainda continua refém desse acordo assinado há 31 anos, em seu nome. Não obstante a data ser comemorada anualmente com pompa e circunstância, os que comandam os destinos da nação moçambicana, nunca lograram sequer pronunciarem de forma clara e ampla sobre as cláusulas deste acordo, até hoje, mergulhado naquilo que se chama de “segredo de Estado”. Estamos a falar do “acordo militar”, ainda não tornado público, mas que no decurso das negociações em Lusaka, constituiu o prato forte.

De acordo com o veterano da Frelimo Mariano Matsinha, um dos que constituiu a delegação moçambicana em Lusaka, “o Acordo de Lusaka é de domínio público, contrariamente ao Acordo Militar que se encontra nas mãos do governo do dia, e, sem ainda data para a sua publicação, de acordo com as parcas informações que diz ter.

A não publicação do referido documento até à data, é de acordo com palavras de Mariano Matsinha, é fruto de compromissos assumidos entre as duas delegações que estiveram reunidas na “State House”.

“Realmente trata-se de um documento importante para se compreender o processo em si, dos Acordos de Lusaka, mas o importante naquela altura era o reconhecimento por parte de Portugal que nós tínhamos direito à independência. Infelizmente não participei na discussão do “Acordo Militar”, e nem sei quais são as cláusulas plasmadas, mas acredito que os portugueses tinham as suas razões em pedir para que não fosse publicado, face à situação em que se encontravam.

O documento está guardado a sete chave pelo governo. Não conheço o seu prazo, mas acredito que a breve trecho será tornado público”, explicou o veterano da Frelimo.

A uma pergunta do ZAMBEZE sobre o cumprimento ou não das cláusulas dos Acordos de Lusaka, Matsinha garantiu que tudo até aqui corre (u) de feição e não há nada ainda por cumprir, tendo acrescentado que tudo quanto está plasmado no acordo de Lusaka, excepto o Acordo Militar é do domínio público e não sofreu alterações e nem omissões.

Hoje, passados 31 anos da assinatura dos “Acordos de Lusaka”, Mariano Matsinha, ora reformado da vida política activa, faz um balanço positivo sobre os mesmos acordos, sobretudo ao período em que o governo de transição tomou os destinos da nação moçambicana.

“Faço balanço positivo do governo de transição, pela coragem e determinação. É de louvar a coragem dos nossos homens que depois do cessar-fogo tiveram coragem de cair no quartel-general dos portugueses. É óbvio que os portugueses já não tinham muitas alternativas, porque o grosso já não queria continuar com a guerra. Mas nesse período, assistiu-se a distúrbios e sabotagens por parte dos portugueses e nós agimos com muita paciência, refere o veterano da Frelimo.

Recuado no tempo, como que a fazer o rescaldo dos acontecimentos, o nosso interlocutor referiu que a assinatura dos Acordos de Lusaka foi o culminar de um processo que iniciou com o golpe de Estado em Portugal, a 25 de Abril de 1974.

Foi assim no dizer de Matsinha que dois meses antes da assinatura dos Acordos de Lusaka, em Junho de 1974, as delegações moçambicana e portuguesa, chefiadas por Samora Machel e Mário Soares, respectivamente se encontraram pela primeira vez em Lusaka, mas sem no entanto se atingir os seus objectivos.

O interlocutor explica da seguinte forma: “A Frelimo ia com um poder máximo para negociar tudo, enquanto os portugueses apenas pretendiam assinar o acordo sobre o cessar-fogo, deixando tudo em suspenso. Estas foram algumas das dificuldades que tivemos em Junho, dai termos em conjunto elaborado um documento no qual informamos a Portugal que tínhamos negociado mas que ainda não se tinha chegado a um acordo definitivo. Eles por exemplo não sabiam qual era o destino a dar às colónias. A delegação Portuguesa de Junho não tinha poder. O poder político e militar estava nas mãos das forças armadas daí que mais tarde a Frelimo teve que encetar negociações secretas com o movimento militar, na Bélgica, Argélia, Tanzânia, entre outros países. Em linhas gerais, nós educamos os portugueses que era preciso resolver o problema das colónias. Enfrentamos outros percalços porque o general António Spinola continuava amarrado a ideias de federalismo porque tinha esperança que as suas ideias iam vingar.

Ainda sobre os acordos, nós já tínhamos comunicado aos nossos camaradas sobre a data e a hora da entrada em vigor do cessar- fogo e nessa altura os nossos homens já estavam nos quartéis portugueses, e enviamos Alberto Chipande para o quartel general Português em Nampula e depois para Lourenço Marques para restabelecer o processo de paz e evacuar as tropas portuguesas”, explicou.

O nosso interlocutor acrescentou que depois das manifestações havidas depois do 7 de Setembro de 1974, houve uma pressão em Portugal para se parar porque caso os reaccionários portugueses continuassem com os desmandos a guerra iria continuar.

A rematar, Matsinha que manteve dois dedinhos de conversa com a equipa de reportagem disse sentir-se lisonjeado por ter feito parte da delegação das negociações que culminaram com a assinatura dos Acordos de Lusaka e explica porquê: “Moçambique hoje tem um grande prestígio a nível mundial, contrariamente ao tempo colonial em que eram vistos como deslocados de guerra. Por outro lado, sinto-me prestigiado por ter vivido e sentido o peso do período colonial (o racismo, a humilhação, entre várias dificuldades) dai ter uma experiência especial”, salientou.
Celso Ricardo

07-09-2005

Independência do Brasil

Passa hoje mais um aniversário da Independência do Brasil.

Ao povo irmão as minhas felicitações

Fernando Gil

Hino da Independência

Musica: D. Pedro I
Letra: Evaristo da Veiga

Já podeis da Pátria filhos
Ver contente a mãe gentil
Já raiou a liberdade
No horizonte do Brasil
Já raiou a liberdade
Já raiou a liberdade
No horizonte do Brasil

Brava gente, brasileira
Longe vá temor servil
Ou ficar a Pátria livre
Ou morrer pelo Brasil
Ou ficar a Pátria livre
Ou morrer pelo Brasil

Os grilhões que nos forjava
Da perfídia astuto ardil
Houve mão mais poderosa
Zombou deles o Brasil
Houve mão mais poderosa
Houve mão mais poderosa
Zombou deles o Brasil

Brava gente, brasileira
Longe vá temor servil
Ou ficar a Pátria livre
Ou morrer pelo Brasil
Ou ficar a Pátria livre
Ou morrer pelo Brasil

Não temais ímpias falanges
Que apresentam face hostil
Vossos peitos, vossos braços,
São muralhas do Brasil
Vossos peitos, vossos braços,
Vossos peitos, vossos braços,
São muralhas do Brasil

Brava gente, brasileira
Longe vá temor servil
Ou ficar a Pátria livre
Ou morrer pelo Brasil
Ou ficar a Pátria livre
Ou morrer pelo Brasil

Parabéns, ó Brasileiros!
Já com garbo juvenil
Do universo entre as nações
Resplandece a do Brasil
Do universo entre as nações
Do universo entre as nações
Resplandece a do Brasil

Brava gente, brasileira
Longe vá temor servil
Ou ficar a Pátria livre
Ou morrer pelo Brasil
Ou ficar a Pátria livre
Ou morrer pelo Brasil

7 de Setembro - feriado, Dia da Vitória

Foi a 7 de Setembro de 1974 que se assinaram os Acordos de Lusaka, que consagraram a independência de Moçambique.

Reunidas em Lusaka de 5 a 7 de Setembro de 1974, as delegações da Frente de Libertação de Moçambique e do Estado Português, com vista ao estabelecimento do acordo conducente a Independência de Moçambique, acordaram nos seguintes pontos.
1. O Estado Português, tendo reconhecido o direito do Povo de Moçambique a Independência, aceita por acordo com a Frente de Libertação de Moçambique a transferência progressiva dos poderes que detém sobre o território nos termos a seguir enunciados.
2. A Independência completa de Moçambique será solenemente proclamada em 25 de Junho de 1975, dia do aniversário da fundação da Frente de Libertação de Moçambique.

IMENSIS - 06.09.2005

Foi há 31 anos...

Jornal_noticias_791974_1

Reveja:

http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2004/09/moambique_7_de_.html

Nota: Foto cortesia de AVM

03-09-2005

DOIS NOVOS LIVROS

MEMÓRIAS DA GUERRA EM ANGOLA
O Despertar dos Combatentes

AUTOR Joaquim Coelho
EDITORA Clássica
384 págs.

O grosso volume "O Despertar dos Combatentes - Fotos com estórias em
Angola" é o resumo de uma série de rascunhos que o militar Joaquim de
Sousa Coelho escreveu durante os primeiros anos da guerra colonial,
na década de 60, ficando assim como testemunho de uma época.

O autor procurou trazer mais luz para "aqueles anos de angústia e de
sofrimento" em que dezenas de milhares de jovens portugueses seguiam
anualmente para África, de onde alguns nem sequer voltavam. E fê-
lo "em memória dos que morreram como heróis inocentes e dos
estropiados do corpo e da alma", recordando que "ainda estão por
resgatar algumas centenas de corpos dos combatentes que o Poder
renegou e que, por falta de dinheiro para os trasladar e entregar às
famílias, ficaram enterrados nos tocais mais recônditos".

Trata-se do primeiro livro de uma anunciada série de três sobre o
quotidiano dos soldados em Angola, Moçambique e Guiné, os três
teatros da guerra que se travou de 1961 a 1974 e que muitos dos
portugueses com menos de 35 anos não sabem hoje o que teria sido,
apesar de ela haver afectado seus pais e outros parentes. Navios como
o Vera Cruz e o Massa andavam então em viagem constante do Tejo para
os portos africanos, a transportar carne para canhão arrancada das
lavras e oficinas, para defesa de uma política que acabou por se
revelar impossível.

Os dias de terror de Março de 1961 no Norte de Angola estão bem
documentados nas fotografias com que Joaquim Coelho ilustra este
impressionante documento, sobre tudo o que se passou em Damba,
Maquela do Zombo, Nambuangongo e tantos outros lugares que antes do
25 de Abril povoavam o nosso imaginário.

Meios de transporte insuficientes para tanta tropa, comida e bebida
por vezes escassas, quando se estava no mato, armamento inadequado -
tudo isso é denunciado por este homem, natural de Penafiel, que
esteve na Força Aérea Portuguesa e nas Tropas Especiais de
Intervenção, havendo colaborado como repórter fotográfico com o
jornal diário Província de Angola e com a revista semanal Notícia, de
Luanda. Para que a memória perdure e se consigam esconjurar os
fantasmas de um passado recente. JORGE HEITOR


ESTÓRIAS EM LUSO-QUIMBUNDO
Macandumba
AUTOR José Luandino Vieira
EDITOR Caminho 184págs.,

Acaba de ser publicada na Editorial Caminho uma reedição de três
estórias de José Luandino Vieira, inicialmente publicadas em 1978,
sob o título "Macamdumba", para ficarmos a conhecer melhor a obra de
quem julgou ser possível a simbiose entre uma língua europeia e o
quimbundo, do grupo banto.

O sapateiro-andante Pedro Caliota, os brancos de baixa condição, os
cabo-verdianos, os naturais de São Tomé e, sempre, sempre, a gente
dos musseques, os bairros de areia grossa da periferia de Luanda, são
os protagonistas destas estórias sobre a paradigmática década de
1960, quando os povos de Angola pegaram em armas para acabar com a
colonização. Escritor de leitura extremamente difícil, válida
sobretudo como documento de uma época, sinal de revolta, Luandino
(nome de adopção) dá-nos aqui o retrato do tempo em que ainda não
fora possível alfabetizar devidamente as populações e que por isso
mesmo elas tinham de fazer uma ginástica tremenda entre o falar dos
seus pais e a língua do colono.

O contista que se começou a revelar no fim dos anos 50 e que escreveu
o seu primeiro romance em 1961, precisamente o ano em que começou em
Luanda e no Norte do país a luta pela independência de Angola, foi um
dos primeiros e quiçá um dos últimos a usar em grande escala
expressões em quimbundo pois que os novos poderes viriam a
privilegiar claramente o português.

A crioulidade e o hibridismo são coisas patentes na autêntica ponte
entre dois continentes que é a escrita deste autor de 11 livros
essencialmente dedicados à cidade que o viu crescer e onde foi
durante largos anos uma figura de proa da intelectualidade. As
estórias que ora nos são dadas sob uma bela capa de António Ole já
tinham conhecido, pelo menos, edições em 1978, 1989 e 1997,
designadamente em braille.

JORGE HEITOR - PÚBLICO - 03.09.2005

31-08-2005

Marcelo, os judeus de Gaza e os retornados do Ultramar

     Na habitual conversa com Ana de Sousa Dias, na RTP, no último sábado, Marcelo Rebelo de Sousa, que apostou, de novo, forte, na candidatura de Cavaco Silva, vaticinando-lhe uma vitória que nem Manuel Alegre nem Mário Soares, a candidatarem-se, serão capazes de evitar, criticou algumas das afirmações do fundador do Partido Socialista, ao responder ao entrevistador António José Teixeira, relativamente à displicência com que aquele encara a necessidade de o futuro presidente da República possuir vastos e bem alicerçados conhecimentos de economia, lembran­do, a propósito, Marcelo, ter dito, Soares, que não tinha culpa de estar com 81 anos, retorquindo-lhe que também, os portugueses, nomeadamente os eleitores, desse facto muito menos culpa têm -ressaltando as condições exigidas para que alguém possa ser proposto à mais elevada magistratura da Nação - exíguas, na verdade, e até ridículas, diremos nós.

     Tempo, ainda, para comparar a saída, à força, dos judeus, pelas tropas israelitas, dos colonatos onde viviam desde há 38 anos, aí fixados, estimulados, incentivados e ajudados pelos diversos governos que sempre acreditaram na construção de um Grande Israel bíblico, e consideravam, os territórios, historicamente parcelas que cumpria anexar em definitivo - contra evidências, violências, ventos, e marés - tal qual aconteceu aos pejorativamente acoimados de "retornados" das antigas Províncias Ultramarinas Portuguesas.

Esqueceu-se, Marcelo Rebelo de Sousa, que, jovem estudante, visitou o Ultramar, era, seu pai, governador-geral de Moçambique - e o general Kaúlza de Arriaga, comandante-chefe das Forças Armadas - de explicar em que é que é comparável a situação e a odisseia de uns e de outros.

Há diferenças abissais.

Ainda ninguém se dispôs a fazer uma digressão histórica comprovatória de que os territórios, ditos lusos, eram, antes da chegada dos navegadores, países organizados, com língua, com fronteiras, com um vínculo que unisse regulados, sobados, clãs, e muito mais, sem falar em estruturas básicas, inclusive invocando-se, amiúde, a escravatura -foram os portugueses a acabar com ela, em primeiro lugar, em todo o mundo (e o Padre António Vieira, nisso, foi pioneiro), assim como com a pena de morte, nessa análise, avultando a factualidade da época, a gesta protagonizada à sombra da Dilatação da Fé e do Império, sendo, os portugueses, os mais benignos, os mais humanos, os mais solidários, os mais respeitadores, os menos rapaces, dando, aqui, lições à Inglaterra, à Itália, à Alemanha, à Holanda, à França, à Espanha, aos Estados Unidos da América.

     Na comparação ao episódio da expulsão dos hebreus de Gaza. há. na realidade, similitude, até na intervenção das forças judias contra compatriotas seus, no respeitante ao comportamento dos militares portugueses, que em nada ficaram desfavorecidos na brutalidade, na desumanidade, na obediência cega a chefes que ora, anchos, com o país a arder, alcandorados a principescas mordomias e reformas chorudas, vêm crescer as panças, num culto vesgo a Epicuro, a Sade, a Dionísio, ao Ventre, morada, oirescente, do seu Deus, segundo os moralistas do velho Lácio.

Os judeus, extraditados, não regressaram de mãos a abanar.

Os portugueses vieram com uma mão à frente e outra atrás - não ao cabo de 38 anos, mas de mais de 5 séculos! -, e continuam, vítimas inocentes da cupidez, à margem do que lhes é devido, entregues ao Deus-Dará, ostracizados na página mais negra da História de Portugal - à espera que, um dia, já no outro mundo, se faça justiça.

A História, às vezes, repete-se.

Vergonhosamente.

Tristemente.

Soando lugubremente, o aviso de Camões, saciado, à míngua, pelo escravo Jau, a ferretear os protagonistas desse crime:

- "Entre portugueses, traidores houve (há) algumas vezes".

Francisco Junqueira

JORNAL DE MATOSINHOS – 26.08.2005

24-08-2005

Homenagem prestada a militares portugueses na África do Sul

Brochura_1  Brochura_2

Homenagem04 Homenagem02_2