20-04-2006

Uma "vingança" pela positiva

Por A. Luís Moreira

Até aos 9 anos,estudei na Beira na ESCOLA DE ARTES E OFÍCIOS e foi ali que começei a sentir o racismo na pele e de tantos colegas meus "coloridos" como eu!
Naquela escola de padres católicos(supostamente ???),havia separatismo em quase tudo: para os brancos e não brancos! O racismo era tão patente naqueles padres, que embora garoto, comecei também a duvidar muito dos bons princípios da Igreja Católica. Como poderia eu acreditar, se estava a ser vítima de comportamentos declaradamente racistas, contrários ao que eles apregoavam nas missas e outras actividades religiosas, como ?
Para terem um ideia,vou contar este triste e marcante episódio:
No dia anterior à nossa 1ª comunhão, os padres resolveram juntar todos, para que praticássemos a "toma" da hóstia! De repente, dentro da própria capela, resolveram mais uma vez separar os brancos dos "coloridos" (goeses como eu, mestiços, indianos, chineses, etc) e o que fizeram?
Deram hóstias verdadeiras aos brancos e a nós o que deram?
Rolha cortada! Rolha cortada muito fininha, conseguem visualizar a humilhação?
Por muito que alguém quizesse reclamar ou recusar a engolir tal "atrocidade", era impossível, porque senão os padres aplicavam castigos corporais e outros, que não eram nenhuma brincadeira. E eu calava-me em casa, porque meus pais já tinham uma grande cruz e não queria levar mais dores de cabeça. Minha mãe, senhora de forte personalidade, não ficaria quieta ,como não ficou em tantas outras situações que fui dando conta!
Ao longo da minha vida, fui carregando esses traumas comigo, até porque tive um acumular de situações injustas e duma prepotência vil, repudiante não só desses déspotas dos padres como também na vida profissional mais tarde!
Mas jurei a mim mesmo que iria vingar-me e como? Tentando chegar o mais longe possível, em todos os campos da vida, com honestidade e sentido de muita justiça!
Uma Vingança pela Positiva, porque vingarmos pela negativa é descer ao nível de quem nos faz mal.
Trabalhei 35 anos na Manica Trading, tendo sido Chefe de Exportação durante anos a fio, sem hipótese de subir, tal era o racismo (de novo esse mal maior) e só depois de muitos anos, fui gerente adjunto, numa altura em que os ingleses já andavam desnorteados com o rumo que Moçambique estava a tomar depois da Abrilada e quando muitos já estavam de saída! O Luís Moreira já tinha provado e comprovado suas capacidades há muito tempo, modéstias àparte, mas tinha um contra: era demasiado castanho escuro (com muita honra-diga-se aliás)! E embora, o racismo não fosse tão descarado como na Africa do Sul (apartheid) , praticava-se de forma camuflada mas com uma carga humilhante bastante forte!Não eram racistas muitos portugueses humildes e de boa índole, eram aqueles que fazendo uso de sua pele branca e de uma certa esperteza, davam graxa aos ingleses e assim subiam. Nem todos, mas no meu caso, diria, grande parte! E digamos que sua competência era bastante questionável..mas tinham aquela vantagem: eram brancos! A cor da pele contava muito para os patrões ingleses!
Agora vem a minha maior vitória, se me permitem eu expressar isto até com uma certa euforia.
Quando fui convidado para trabalhar na Cargo Services na Antiga Rhodesia (Zimbabwe), para um inglês que tinha sido meu pupilo e que jamais se esqueçeu do facto, o Brett Roberts, foi-me dado o cargo de director sem hesitações!
Na mesma altura, a Manica Trading-Zimbabwe também veio com ofertas fabulosas, porque afinal o A.L.Moreira tinha o seu valor e pela cor da pele, não deram o que era dele por direito adquirido com muito esforço e sacríficio!
Trabalhei 35 anos, sacrificando-me e à minha família, de todas as maneiras e feitios.
Minha mulher dizia: Luís, leva a cama e mesa para o escritório, tal era a minha dedicação e empenho!Meus filhos cresceram sem a minha presença física como deveria ter sido, mas eles sabem que o pai deles, tinha-os em mente em tudo o que fez na vida. E minha Graziela foi mãe e pai, uma autêntica Lady que esteve por detrás do meu sucesso, digo isto com um orgulho desmedido.
Aqui em ZIMBABWE eu tive logo as portas abertas, carta branca para dirigir uma das maiores empresas daquele país e mesmo dentro do continente africano! Trabalhei até aos meus 77 anos de idade, sete -sete !
Podem achar que estou a ser imodesto, gabarolas e sei lá o que mais, mas para quem foi vítima de racismos inqualificáveis, chegar ao ponto a que chegou, num país que era ainda mais racista que Moçambique, como é evidente, para mim, foi sem dúvida uma Vitória!
Quiz vir para perto da família muito mais cedo, mas não me deixavam, não me queriam longe e fizeram de mim, uma espécie de conselheiro profissional, porque oficialmente, já não podia estar ao serviço com tanta idade!
Na injustiça e em situações de grande carga emocional e que nos façam sentir que somos
umas "matujes" de gente, (perdão pela expressão,mas estou um pouco enervado), nunca devemos cruzar os braços. Desde que saibamos do nosso valor, que a nossa consciência esteja tranquila perante nós mesmos e DEUS, é seguir o caminho da honestidade, de cabeça levantada, sem receios, sermos sempe nós mesmos apesar de todas as armas apontadas normalmente com falsos pretextos, pois essa é a lei dos fracos: pisar, aldrabar para brilhar!

Vi já muito disso na minha vida, mas a verdade prevaleçeu e eu venci, com a graça de DEUS e devo muito à minha mulher e sua eterna condescendência a todos que viram o meu valor e deram-me essa oportunidade!
Posso dizer que um dia, partirei desta vida, com o sentimento do dever cumprido e com a certeza de que a honestidade e os bons alicerces que carregamos dentro nós, vençem qualquer barreira que nos surja na vida.
Dia 25 de Abril farei 82 anos de idade e hoje em dia, apenas uma coisa ainda me magoa profundamente: ver os meus a passaram por situações que acho duma injustiça tremenda. Senti-a na pele de variadas formas, superei e penso que não deve haver nenhum pai que ame seus filhos que goste de os ver espezinhados e injustiçados!
E não vou aqui fazer discursos sobre quem é minha filha Carlita,basta que eu saiba da filha de OURO que tenho e que todos que gostem dela de verdade, o saibam. Acredito que tenham bases para já terem visto quem são meus filhos e a Carlita muito em particular.

Para terminar ,apenas direi um recado à minha filha Carlita:
I am so damned proud of you,darling ,always was and always will!
Carry on being what you are and GOD is there,don´t you worry.

Desculpem-me ,minha filha, minha adorada Carlita, luz dos meus olhos desde pequena tem sido tudo para mim e mãe dela e estamos de facto muito orgulhosos de ter aquela filha abençoada por DEUS e fico-me por aqui!
Um abraço de um pai (triste)*
A.L. Moreira
NOTA: O * é meu. Retirado da net http://groups.msn.com/OsAmigosdeVilaPery/_whatsnew.msnw

09-02-2006

O MAR QUE TOCA EM TI

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Inez Andrade Paes nasceu em Porto Amélia. Foi passar o Natal de 2005 a Pemba. E resolveu verter as suas emoções para o papel. Eis O MAR QUE TOCA EM TI.

"É a força desta Natureza que toda a cidade ainda preserva, deste Mar que ilumina as noites sem Lua, que me obriga a escrever. Quem quer ser responsável, o deve fazer com a justiça e a dignidade a que a vida obriga"

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"A véspera de Natal amanheceu cor de chumbo o Mar em cada vaga traz mãos aflitas feitas de água, espuma e areia, um misto de sensações percorreu em mim sempre em dúvida de ter na memória um Mar assim. Só o Mar do Atlântico bate assim e mostra mãos aflitas a sair do fundo.

Saímos para o passeio habitual, os corvos estavam inquietos, com a mesma inquietude e preocupação de alguns olhares que passam por mim.

Na praia vejo homens que apanham as algas e ao fundo um tractor espera que os montes sejam feitos para os recolher. Dirijo-me ao homem que conduz o tractor e pergunto o que vão fazer com as algas.

- É só para limpar. Diz

- Mas não as vão usar para nada?

- Não, senhora!

Nesse momento junta-se mais gente. Em assembleia falo da utilidade que as algas têm. Poderiam ser aproveitadas para adubar algumas terras, amontoadas ali mesmo na praia num lugar mais acima. Como estamos na época das chuvas, a própria água as lavaria. Só a mão-de-obra para as apanhar e as revolver de vez em quando seria precisa, a última camada sempre deixada como um tapete que apanha o sal.

No meio da gente oiço de novo em Macua o nome do meu Pai. Um homem magro e alto destapa serenamente a cabeça num gesto a arrastar o chapéu pelo corpo, até tombar com a mão. Dirige-se a mim num cumprimento dizendo que tinha trabalhado com meu Pai. Os mais jovens olham-me curiosos e escutam o que os mais velhos dizem da minha parecença familiar.

Agradeço aos ouvintes que sorriem, esperando que pelo menos um deles transmita para alguém a utilidade que as algas têm. O Sol apareceu mais forte, desta vez a volta para casa é feita pela estrada. Toco nos muretes ainda resistentes ao tempo com as suas figuras geométricas, alguns já mais desfigurados pela força das raízes das grandes árvores a ondular os passeios e a formar novos desenhos. Como  é bom  sentir estas  sombras.  Impossível deter o  sorriso permanente nos lábios, lambidelas apanham lágrimas de suor que nos refresca e salga a boca.

Do outro lado da rua olho a loja da cooperativa de artesanato local. Desde a minha chegada reparo que homens chineses ali estão todos os dias em conversa com os jovens. Pergunto a um dos jovens quem são e ao que vêm?

- Vem comprar marfim. Diz.

- Marfim? Mas não é proibido?

- Não é proibido não, senhora. E tem muito.

- Os elefantes são a meus olhos animais sagrados pela forma como se dedicam à família desde o nascimento à morte . Esta sacralidade está a ser devastada silenciosamente, por alguém que já destruiu a sua Natureza e vem impor a outros povos a sua forma de estar com Ela.

- Formas e locais sagrados, serão só vistos por alguns. Esses obrigatoriamente e de forma sábia deverão prevenir os incautos.-

Passamos a fronteira de ar condicionado da recepção que dá acesso à casa e entre estalidos na madeira de malas a chegarem e a irem me apercebo que de minha face vem um ar zangado. Lagartixas de cauda azul apontam-me o caminho e desfazem a minha expressão."

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Pedidos : MINERVA OVARENSE   3880-213 OVAR  TEL.:  351.256573323

29-01-2006

ALFARRABISTAS E LIVREIROS ANTIQUÁRIOS EM PORTUGAL

Embora não exaustiva, junto uma listagem dos principais alfarrabistas de Portugal.

Veja em:

Download alfarrabistas_e_livreiros_antiqurios.htm

26-01-2006

"CAMINHOS PERDIDOS NA MADRUGADA" de Costa Monteiro

Caminhos_perdidos_capa

Costa_monteiro Fernando da Costa Monteiro Vouga, nasceu em Lamego, em 1940. Após ter terminado os seus estudos liceais, alistou-se como voluntário no Exército, tendo ingressado na Academia Militar onde frequentou o curso de Cavalaria.
Promovido a oficial, foi colocado em várias unidades da sua arma. Fez três comissões em África nos três teatros de guerra. Depois desempenhou diversas funções, em que se destacam oito anos como professor do Instituto de Altos Estudos Militares, em Lisboa.
Frequentou cursos profissionais, dois dos quais nos Estados Unidos. Terminou a sua carreira militar como oficial de ligação junto à Agência Logística da OTAN, no Luxemburgo, com o posto de coronel. Reformou-se aos cinquenta e dois anos.

Literáriamente Costa Monteiro já tem várias obras publicadas mas são para as cuja acção se desenrola em Moçambique que chamo a vossa atenção: "TRAVESSIA" e "CAMINHOS PERDIDOS NA MADRUGADA". No seu essencial entre Cabo Delgado e a Zambézia. Retrato de uma época que não mais se apagará da memória de quem a viveu, mas que urge dar a conhecer a todos os portugueses.

Ao acaso, transcreve-se o Capítulo VI de "Caminhos Perdidos na Madrugada":

Download CaminhosVI.doc

Em relação a "TRAVESSIA", vejam:

http://www.macua.org/livros/travessia.html

Editor: Editorial Escritor, Lda. R. S. Nicolau, 119 2ºFrente 1100LISBOA

          Tel: 351.213470367

Email autor: [email protected]

26-08-2005

VÍDEOS DE MOÇAMBIQUE

Para relembrar Moçambique e uma grande parte das suas cidades, paisagem e monumentos, clicar no site abaixo...

25-08-2005

O Senhor Doutor Blanche *

Filho de uma sueca e de um francês que se conheceram no Porto, o Senhor Doutor Blanche aí nasceu e aí estudou. Inteligente, aprendeu com os pais a democracia, a tolerância e uma abertura de espírito invulgar para a época. Fez a sua formação num Porto liberal e aderiu aos ideais da Primeira República. Profissionalmente, licenciou-se em germânicas e seguiu a carreira universitária, chegando ao seu topo, a professor catedrático da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Era da sua autoria a que era considerada a melhor gramática de alemão editada em Portugal. Depois da sua morte, houve editoras que solicitaram à sua viúva a reedição da gramática.
Como muitos outros portugueses o Sr. Dr. Blanche não vendeu a sua alma ao Dr. Salazar e foi deportado para Moçambique, para a cidade da Beira, juntamente com a mulher e mais os seus sete filhos. Isto nos fins da década de trinta. Muitas dificuldades passou a princípio mas como era um homem prático resolveu abrir um colégio. Juntamente com os filhos mais velhos pôs mãos à obra e o colégio foi um sucesso numa terra onde, para além do ensino primário, a continuação da formação escolar estava entregue a religiosos.
Moçambique foi sempre uma miscelânea de multiculturalidade – tema sobre o qual, hoje em dia, está muito na moda falar – e a Beira não era excepção. Lá, com os africanos e os portugueses, conviviam, com as suas escolas, igrejas, centros culturais, desportivos e de lazer: espanhóis, italianos, ingleses, alemães, sul-africanos, gregos, indianos e chineses. Para além de toda a miscigenação que os portugueses sempre foram tão hábeis em fazer... Na generalidade, os elementos destas colónias tinham uma boa situação financeira e queriam que os seus filhos estudassem para além do ensino primário. Porém, não lhes agradava muito que os filhos frequentassem os colégios religiosos portugueses. Assim, o colégio do Sr. Dr. Blanche, com um director democrata, republicano e ateu, era o ideal para a continuação da formação escolar dos seus filhos. E assim aconteceu durante uns anos... Mas, mesmo lá longe, Salazar, através da “sua” P.I.D.E., mandou-lhe fechar o colégio. A família que entretanto tinha crescido com o casamento dos filhos e o nascimento dos netos, encolheu-se, apertou-se, compartilhando as mesmas casas, tentando sobreviver. O Sr. Dr. Blanche não desistiu. Com a mulher e os filhos solteiros, alugou uma casa e passou a viver de explicações com muito êxito.
Eu conheci o Sr. Dr. Blanche logo que cheguei à Beira. Conheci-o em casa de um dos seus filhos, de quem o meu pai era amigo e do qual tinha sido colega no Instituto Industrial do Porto. Ora acontece que quando o meu pai conseguiu alugar a nossa primeira casa na Beira, coisa difícil em 1951, passámos a ser vizinhos do Sr. Dr. Blanche: uma parede dividia as nossas salas de estar, um muro de cinquenta centímetros separava os nossos jardins. Os meus pais ficaram muito contentes porque viam no Sr. Dr. Blanche e Esposa uns segundos pais. E eu uns avós... Por essa altura eu fiz os sete anos e fui frequentar a primeira classe da instrução primária, no Colégio Nossa Senhora dos Anjos. Como o nome deixa adivinhar – um colégio de religiosas. Quando fui para o colégio, eu já rezava algumas orações ensinadas pela minha mãe mas no colégio passei a frequentar a catequese e a preparar-me para a primeira comunhão. E foi a partir dessa altura que eu e o Sr. Dr. Blanche passámos a ter as nossas primeiras divergências – um miúdo de sete anos e um homem de quase setenta! Ele com o seu cabelo branquinho, os olhos vivos e um sorriso bondoso, ria que se fartava quando me arreliava:
- Olha lá, ó Manuelzinho! Conta-me cá o que é que aquelas velhas, vestidas com lençóis te ensinam!
- Não são nada velhas! – retorquia eu arreliado – e não são lençóis, são hábitos!
- Ah! São hábitos?! E que te ensinam essas beatas para além de rezar: “Nosso senhor rilha o osso!” e “Avé Maria, lava os pés em água fria!” ?
- Ó Pierre! Não arrelies o menino! Anda cá Manuelzinho! Anda cá comer uma fatia do bolo que eu acabei de fazer – exclamava a sua doce Albertina.
Eu, rubro de cólera, quase a explodir:
- Vou fazer queixa à minha mãe!
E ele ria, ria até às lágrimas. Depois abrandava o riso, punha-se sério, parecia até ficar triste e falar mais para si do que para mim:
- Ó Manuelzinho! Como era bom que existisse deus! Não esse Deus prepotente, injusto, vingativo e cruel de que falam as escrituras. Mas outro diferente, realmente omnipotente e omnisciente, para endireitar isto cá em baixo...
Ficava por uns segundos pensativo mas voltava-lhe depressa aquele brilho ao olhar:
- Vai Manuelzinho, vai ter com a Albertina que está à tua espera para comeres o bolo – dizia ele afagando-me os cabelos.
Inteligência fina e rapidíssima tinha o Sr. Dr. Blanche. E sempre e acima de tudo amante da liberdade: da liberdade de pensamento, da liberdade de opinião, da liberdade de expressão, da liberdade “tout court”. Até o seu cão daquela altura, com quem eu brinquei, se chamava Ipiranga! E a propósito do cão Ipiranga...
- O que é que queres rapaz? – perguntou o Sr. Dr. Blanche ao empregado de uma vizinha.
- Senhor Doutor, a minha Senhora está a dizer para o senhor Doutor não deixar o Ipiranga ladrar, porque o menino está a dormir.
- Olha rapaz, vai dizer à tua Senhora, que eu disse, para ela não deitar o menino quando o cão está a ladrar!
Outra vez, num jantar de cerimónia, uma senhora endinheirada, sem grande instrução mas cheia de vontade de protagonismo, virou-se para ele com a taça de champanhe na mão e exclamou:
- Senhor Doutor! À saúde dos que querem mas não podem!
Respondeu-lhe prontamente o Sr. Dr. Blanche:
- Eu, minha Senhora, saúdo àqueles que podem mas não sabem!
Era assim este grande Homem e a sua adorável Esposa. Sem nunca vergar a espinha, foi ensinando aos seus alunos e explicandos, a rigidez de carácter, a força da palavra e a alegria da liberdade.
Os seus filhos estabeleceram-se, tiveram sucesso e sempre mimaram muito aqueles pais tão singulares. Quase todos os seus netos se licenciaram. São pessoas inteligentes, profissionalmente realizadas e com a ética nos genes.
O Senhor Doutor Blanche chegou ao fim da sua vida deitado na sua cama e rodeado por familiares e amigos. Eu também lá estive com o meu pai. Tinha doze ou treze anos.
A sua doce Albertina, que em determinada etapa da sua vida, já depois da morte do marido, conseguiu ultrapassar um AVC e três semanas de coma, voltou a viver a vida com alegria e rodeada de muito amor. Ainda regressou a Portugal, ao fim de quase quarenta anos, e cá viveu quase até aos cem anos.
M.P.
C.B. 06.08.05
* Os nomes são fictícios para manter a confidencialidade da família “Blanche”.
Retirado da net em A.V.M.