11-05-2006

A GLOBALIZAÇÃO(1)

Érico Manjate
[email protected]

A globalização refere-se a aspectos muito diversificados e complexos que são anteriores ao uso do termo, como por exemplo:
1.. A crescente integração das nações aos mercados globais, ou descrevendo com realismo o que ocorre, a desintegração da maior parte dos mercados mundiais, pela expansão e consolidação de uma minoria,
1.. A crescente interacção cultural com acentuada ascendência de uma que infesta todo o planeta e que apresenta-se como melhor, olhando as outras no máximo como academicamente interessantes ou excêntricas, mas nunca, nunca como iguais,
1.. A crescente troca de tecnologias e conhecimento, em que um lado aparece esteriotipadamente adjectivado como provedor de soluções globais, pois tudo sabe e tendo espírito humanitário vem para ajudar(se) - nos, mas que na prática usa os mais fracos para solucionar os seus problemas independentemente das consequências que tal solução trará para os mesmos, pois o seu horizonte não vai para além dos seus umbigos estranhamente iguais aos dos demais.
Leia em:
Download a_globalizao_1.doc

07-05-2006

UMA ESCOLA CHAMADA PRIVADA

Érico Manjate
Nesta de como capim miúdo estar condenado à marginalização, tenho ludibriado o meu desemprego de engenheiro petiscando salários de professor contratado em inúmeras escolas do sector privado nesta urbe denominada Maputo, deparando-se-me neste contexto com espectáculos de antologia; quer de alunos, de professores e dos donos/gestores das mesmas e não nego poder nalguns casos invisíveis a meus olhos, surpreendentemente ser a olhos de outros um espectáculos de notável aparato.
Nestas escolas, encontra-se um mosaico de discentes: alunos querendo estudar, vagabundos que nem fingem estudar, jovens no apogeu das dúvidas e facilmente corrompíveis pelos vagabundos, pequenos e veteranos elitistas achando que o dinheiro da propina resolve a questão da passagem, inocentes largados nesta selva por pais que pretendem acomodar a consciência e alhearem-se a responsabilidade paterna de acompanhar o filho nesta área pagando (pois embora não pareça é mais fácil pagar que ser um pai presente) e outros postos ali com esforço por pais que acreditam ser naqueles locais a
formação melhor que no ensino oficial: destes sinto realmente pena e pretendo alertar.
Nesta miscelânea discente, o professor rodopia feito pião a mercê de:
1. Alunos que nada fazem em prol de um aproveitamento positivo, mas exigem-no e a olhos da direcção devem tê-lo por que magia, que o descubra o pobre diabo do professor.
2. De uma direcção dependente cega das propinas dos alunos e por isso tolerante até ao absurdo com os mesmos fazendo sob ordem praticamente explicita destes exigências ao professor que só facilitam uma ostensiva oferta de notas a cabeças ocas, pois se o professor aparece com percentagens negativas a culpa é inquestionavelmente dele e ele será potencialmente despedido, pois estas notas desagradam aos alunos (patrões verdadeiros que perigosamente já descobriram isso), e podem mudar de escola para outra que não asteie sua incamuflável ignorância e desleixo acadêmico.
3. De alunos que querendo de facto aprender vêm seus intentos frustrados pela desordem prevalecente e institucionalizada a qual ele não pode fazer face ou acomodou- se pela dependência/necessidade do salário.
4. Da sua agenda de estudante em instituições não exigentes mas doentias gerida por indivíduos que tem como hobbie fazerem aos outros vida negra, e que confundem a rima entre faculdade e dificuldade como sinônimia com prevalência da semântica da segunda.
5. De seu diploma em laboriosa construção de uma lactente frustração perigosa, fruto do alheamento da sociedade ao seu nível e direitos, aliada a um desrespeito gritantemente evidente de ignorantes injustamente/casualmente bem instalados na vida ao quais ensina.
Como Resultado do primeiro e do segundo ponto, os alunos são deixados (para não dizer forçados) a passar a granel nas classes sem exame, mas reprovam em massa nas classes com exame e sem paralelismo completo. Para quem não percebe atente ao exemplo seguinte; numa escola o aproveitamento da 8a, 9a, 11a classes são superiores a 95 % (chegando em alguns casos a 100 % isto porque não é possível mais - que perfeição –) mas nas classes com exame e sem paralelismo completo este brilhantismo cai para valores abaixo de 20 %, acho que o cenário, apela a raciocínios mesmo aos desatentos e explicações fácil mesmo a olhos leigos: gostava eu de saber e perceber que ilações tiram destes cenários aqueles que devem fiscalizar o funcionamento destas instituições e se não for pedir muito que medidas tomam.
Quando aos primeiros dois se junta o terceiro, o professor esta num dilema de notável ostentação e interesse clínico, se por fim acrescenta-se qualquer um dos dois últimos a miscelânea vira uma salada Russa de paladar indescritível mas inquestionavelmente intragável.
Senhores, a formação é algo sério e creio determinante para o almejado desenvolvimento pelo que apelo que o tomemos com a justa medida de atenção que merece; quer sejamos alunos, pais/encarregados de educação, inspectores do ministério da Educação e Cultura, donos/gestores de escolas privadas ou professores.
Com quem de direito, sei não poder contar muito com a sua cooperação para melhorar a situação, citando-os apenas por descargo de consciência, agora, com os pais preocupados com a formação dos seus filhos espero poder contar, sendo para eles que escrevo estas linhas e em jeito de finalização proponho:
Instalem nestas Escolas uma activa comissão de pais e encarregados de educação que ajude o professor que deseja trabalhar e aos alunos que realmente pretendem estudar ter espaço para tal, expulsando destes espaços os elementos estranhos ao processo de ensino e aprendizagem e que trazem as direcções das escolas presas pela canina coleira das mensalidades, pois sendo esta a única linguagem que elas entendem, um aluno indisciplinado representa uma coleira, vocês juntos representarão de certeza mais coleiras que de certeza lhes dará em que pensar. Um abraço perfeitamente Moçambicanizado.
VERTICAL - 02.05.2006

30-04-2006

Reflexões sobre a História e os diferentes ângulos de visão

Por Victor Nogueira
Hoje pode dizer-se mal livremente do 25 de Abril, pode louvar-se o Salazar, pode divagar-se sobre a descolonização ou a pretensa entrega de Portugal em África a Russos e Cubanos e de Timor à Indonésia, embora o petróleo e os diamantes, por exemplo, nunca tenham saído das mãos dos americanos e associados, mas no Estado Novo não se podia dizer mal do Salazar nem expressar ideias divergentes. Até o industrial Champalimaud teve um discurso «abafado» porque defendia o fim do «condicionamento industrial» e a «independência» de Angola.
Leia em:
Download reflexes_sobre_a_histria_vn.doc

28-04-2006

A ÁFRICA NEGRA COMEÇOU MAL?

Coluna
DIALOGANDO
A ÁFRICA NEGRA COMEÇOU MAL?
por João Craveirinha
[email protected]
(Ensaio escrito em 2003 e lido, em 2004, por David Borges na RDPÁfrica em Lisboa - Portugal)

“O PODER – UMA MOTIVAÇÃO COMO DROGA E UM FIM EM SI MESMO”

(in WOLE SOIYNKA, escritor e filósofo Nigeriano Prémio Nobel)
O livro “L'AFRIQUE NOIRE EST MAL PARTIE” (A África Negra Começou Mal), seria como uma “profecia” do cientista social e engenheiro agrónomo francês, René Dumont, ao escrevê-lo em 1966 sobre o modelo económico, social, urbano e rural adoptado pelos novos Países Africanos Independentes, repetindo erros coloniais. Mal poderia supor René Dumont (n.13. 03. 1904 – m.18.06. 2001), o quão perto andaria da actual realidade africana. René Dumont foi um dos ideólogos de uma Agricultura auto – sustentada – integrada numa Política Ambientalista de Ecologia Consciente.
Actualmente, África cresce dentro de um ritmo de Idade Média em simultâneo com a era moderna dos mísseis Stingers. São os conflitos armados, as questões étnico – geográficas mal resolvidas da era colonial. Crises políticas fruto da ganância do poder e do dinheiro. São também as más planificações dos espaços geográficos populacionais gerando os excessos demográficos nas cidades focos de marginalidade e crime organizado a aluguer muitas das vezes com o beneplácito de políticos corruptos que alugam esses serviços. Só que de quando em vez esses mesmos políticos perdem o controlo e são engolidos pelo crime que incentivaram. Temos entre outros, os exemplos da Libéria, Serra Leoa, Costa do Marfim, Ruanda, Congo ironicamente dito democrático e mesmo muito próximo de nós; o Zimbabué.
(O caso da região de Darfur no Sudão é outro exemplo de “milícias” Djan – dja - uid a soldo do Governo, eventualmente, não obedecendo a seus “clientes” governamentais, continuando, na insanidade de uma limpeza étnica.)
No caso moçambicano o governo, ao negligenciar uma política de emergência urbana e suburbana de contenção demográfica e de regresso “às origens” rurais da maioria da população excedente das cidades, adia um problema que cresce monstruosamente. Necessária uma política que estude a dinâmica populacional das migrações e implemente soluções “draconianas” pois poderá afectar a nossa Democracia incipiente pela insegurança civil criada nas cidades em particular Maputo, Beira, Quelimane e Nampula. As populações “fogem” do mato e das zonas rurais engrossando as já saturadas áreas periurbanas ou suburbanas. Antes era a guerra e agora?
NÃO TENHAMOS DÚVIDAS: A MAIORIA da CONCENTRAÇÃO POPULACIONAL em MOÇAMBIQUE ENCONTRA-SE NOS CENTROS URBANOS E SUBURBANOS. Dizer o contrário é pura demagogia eleitoral. Quantos habitantes têm as cidades de Maputo, Beira, Tete, Quelimane, Nampula, Pemba? São muitos milhões concentrados, citando somente as principais urbes.
Fora dos centros urbanos as populações vivem em povoações dispersas e grosso modo a vida pouco mudou depois da Independência exceptuando a Bandeira e a possibilidade de VOTAR em ELEIÇÕES – aí sim a grande EVOLUÇÃO CÍVICA visível mas somente após a assinatura a 4 de Outubro de 1992 do Acordo Geral de Paz – AGP, entre a FRELIMO e a RENAMO. Na passada segunda – feira Moçambique celebrou os 12 anos do AGP em Itália, Roma. (Nota: em 2004).
Em Moçambique, as estratégias políticas e económicas irrealistas adoptadas após a Independência, utilizando modelos que haviam falhado noutras partes do mundo, teriam o seu catastrófico efeito aos dias de hoje. As teorias económicas de Charles Bettlelheim sobre “Planificação e Crescimento Acelerado” até que ponto seriam mal interpretadas? A Guerra-fria teria de certa forma mantido o “status quo” da “estável” instabilidade política e social, contraditoriamente. Era o fenómeno da “quietude” das águas lodosas e turvas de um pântano.
Que Futuro Melhor para Moçambique e uma África dilacerada e cada vez mais a saque? No passado os grandes saqueadores vieram de além-mar – da Arábia e da Europa e na Escravatura tiveram o apoio de muitos chefes, Reis e sobas africanos. Actualmente muitos políticos africanos delapidam o erário público e convidam os antigos e novos senhores ao festim das riquezas naturais de seus próprios países. A Comunidade Internacional fechando os olhos às prepotências e arbitrariedades os têm legitimado no poder. A própria Democracia enxertada, tem servido para perpetuar os sistemas autocráticos africanos (e não só), até que um milagre de mudança aconteça. Só que não se sabe se para melhor ou para pior! Ou ainda estaremos perante uma nova RECOLONIZAÇÃO de África pela Europa e pela América?
A África Negra começou mal? Só a História o dirá !!
Livros de René Dumont:
- L'Afrique noire est mal partie – 1966, Editora Seuil
- Cuba est-il socialiste ? – 1970 (Cuba é Socialista ?)
- Démocratie pour l'Afrique. (Democracia para África)
- L'Afrique étranglée (África estrangulada)
- L'Utopie ou la Mort – 1974 (Utopia ou a Morte)
- La Croissance... de la famine (O Crescimento…da fome)
- Le Mal - Développement en Amérique latine (O Mau Desenvolvimento na América Latina)
- Pour l'Afrique, j'accuse – 1989. - Editora Pocket (Por África eu Acuso)
- Un monde intolérable. Le libéralisme en question. - Editora Seuil (Um Mundo intolerável. O Liberalismo em questão).
João Craveirinha
In O Autarca da Beira
Nº 1060 de 28 Abril 2006 sexta – feira

26-04-2006

Que venha 1 de Julho e depressa!

Editorial
Dívidas das empresas ao Estado e dívidas do Estado às empresas – uma questão binómica – crédito dos privados sem juros de mora, compras de luxo e dinheiro público para manter instituições do Estado improdutivas, são cenários que podem desaparecer a partir de 1 de Julho. Chegam boas notícias do «IDA» (International Development Association) um organismo do Banco Mundial.
Ontem veiculámos que a delegada do Instituto Nacional de Segurança Social na província deu a conhecer que as empresas em Tete devem àquela instituição um certo montante que não é importante quantificar. Apenas referir que se trata de dívida ao Estado.
Ao lermos e ouvirmos a comunicação social assente em despachos dos “jornalistas” instalados em gabinetes de comunicação e imagem dos organismos e instituições públicas ou de assessoria aos respectivos ministros e/ou PCA´s de SARL de maioria de capital público (qual E.E.´s privadas!), ficamos com a sensação de que o País está a trilhar caminhos seguros. Bem haja quem dá ânimo a quem tanto precisa!...
Contudo, para além da propaganda «alucinogénica» há o Moçambique real. Neste, as preocupações avolumam-se. E uma das mais vincadas é a dos empresários relativa à dívida interna.
É por demais sabido que as empresas estão com «as calças na mão». Está aí a razão de muitas delas se estarem a socorrer de verbas que já deveriam ter sido entregues ao INSS. É mero exemplo porque não será o caso de todas; algumas até eventualmente estarão de má fé e com o desígnio de apenas fugirem às suas obrigações, porque terão dado caminho não adequado ao dinheiro que não lhes pertence. A maior parte, cremos, está apenas a tentar socorrer-se extemporaneamente dos valores que o Estado diz estar a haver. Essas estarão seguramente de boa fé.
Também queremos crer que o governo está de boa fé quando fala em moratórias e em perdão de 90% dos juros de mora devidos pelas empresas que ainda não entregaram os valores ao INSS.
Conhecido o perdão total da dívida de Moçambique como noticiamos nesta edição, espera-se que o Estado comece também a pagar as suas dívidas às empresas. São elas afinal que têm estado a financiar o Estado com o IVA antecipado de facturação ao próprio Estado; com o crédito desses fornecimentos sem juros de mora; com as verbas do IVA que não estão a ser devolvidas, designadamente os montantes consideráveis devidos a quem exporta; e..., e... Em suma, a tal dívida interna que não estando a ser paga asfixia completamente os empresários, o País.
Que venha 1 de Julho e depressa!
O Estado que pague o que deve e acabe também com as despesas de luxo – como a de mais de 100 mil dólares que a Primeira-Ministra se prepara para fazer com a aquisição de um automóvel de luxo «Audi A8», outros desvarios do Estado a todos os níveis, e serviços públicos de “lazer” como é o caso do «GPE» de que falamos também nesta edição. Moçambique merece!
CANAL DE MOÇAMBIQUE - 26.04.2006

25-04-2006

Jorge Rebelo, uma entrevista

Por Luis Patraquim
“Velho mundo que és percorrido/A galope pelo cavalo/Branco e negro do dia e da noite,/És o triste palácio aonde//Cem Djemehids sonhando de glória,/Cem Bahrams sonhando de amor/Estiveram adormecidos/E despertaram soluçando.” Omar Khayyam, “Rubaiyat”, tradução de Manuel Bandeira a partir das versões francesas de Franz Toussaint.
Na morte de António Quadros, o Mutimáti Frei Grabato, José Craveirinha publicou, no “JL”, um epigrabático poema sobre o discreto homem dos limões que à sua casa chegava, ofertando-os, à entrada do portão, na Rua Fernandes Farinha, em Maputo. Refiro esta só aparentemente desconexa evocação porque a entrevista de Jorge Rebelo ao “Notícias” teve sobre mim um efeito de ocupação e sobreaquecimento da memória, quadrícula e dispersão guerrilheira, num palco amplo que a todos nos implica.
Os da “geração da revolta”, como refere o antigo Ministro da Informação. E se me ocorreu lembrar limões, em respeitosa e mediterrânica pose trocados, é porque quero confessar os assaltos ao quintal de uma certa casa, ali onde começava a Estrada de Lidemburgo, depois da garagem dos Wilson, com um belo limoeiro mesmo junto ao muro. Sumarentos os gomos, carnuda a casca verde-lima, ingredientes para o achar improvisado nas tardes de pé descalço e bola de trapos depois do jogo na segunda travessa. Só muitos anos mais tarde soube que, nos anos já longínquos da infância – Helas! – , a senhora que às vezes nos enxotava da janela era familiar do camarada Ministro com quem nos reuníamos no antigo Ministério da Informação.
Para que serve lembrar isto? Que relação com o conteúdo da desassombrada entrevista ao jornal?
Julgo encontrar algumas razões. Mas antes de as formular, apraz-me poder afirmar que tenho por Jorge Rebelo um respeito que, embora crítico, não gostaria que passasse em claro. Nas vicissitudes e no desvario neo-liberal, revisionista, amnésico e tudo, do pós-samorismo, as suas intervenções públicas trouxeram sempre a marca de um imperativo ético sobre o sentido da “revolução” que se esvaía, uma exigência de memória a que não será alheia a condição de discreto poeta que também é, um posicionamento ideológico que, evoluindo, nunca traiu os valores em que acreditava. Tudo isto e mais o não despiciendo pormenor de poder intervir, alcandorado numa autoridade moral e cívica incorruptíveis. Mas falemos de limões e na sua metaforização. Leio as declarações de Jorge Rebelo e não posso deixar de concordar com ele quando afirma que havia censura.
Era para defender a revolução, acrescenta; para unir o povo, e que tudo isso deve ser analisado num “determinado espaço e contexto histórico”. Consequência desse controlo ideológico, o exacerbamento de alguns a quererem ser mais papistas do que o papa. Depois, dá o exemplo de Carlos Cardoso e refere as mil contingências da “liberdade” de agora, desde os conteúdos que não chegam aos destinatários – o povo - , ao profissionalismo e à competência que devem presidir à profissão, sempre na defesa do interesse nacional.
É difícil não concordar com quase tudo, excepto os limões de que se não fala. Dando de barato o que agora percebe como uma quase evidência, os famosos “checks and balances” da tradição anglo-saxónica, mesmo que tossindo só ao de leve ante a defesa, em conjuntura histórica, do Partido único, a verdade é que as declarações de Jorge Rebelo sabem a percurso de solidão. E não dele, a pessoa que se expressa, mas de todo o processo, como então se dizia.
Socorro-me de um título famoso e que é uma biografia intelectual do México: “O Labirinto da Solidão”, de Octávio Paz.
Sem querer fazer revisão da História, julgo que a inevitabilidade do Partido único poderá não ser assim tão evidente. Bastava que a FRELIMO tivesse continuado como Frente de Libertação, aglutinando ou percebendo ou simplesmente suscitando o mais diverso tipo de enquadramentos e modos de expressão para riquíssima diversidade cultural, ideológica também, que no país se queria exprimir. O Partido único foi um desenho formal de uma construção ideológico-intelectual para moldar a realidade aos conceitos propugnados.
Na complexa diversidade de que a luta de libertação foi feita, houve uma espécie de esquecimento estratégico, assim assumido por total recusa das correspondências, das osmoses, das trocas, da sedimentação cultural que se vivia. Ao maniqueísmo da pura lógica colonial sucedeu outro, com generosidades e iras, com messianismos de época e decisões entre o óptimo e o desastroso. Pouca ou nenhuma porosa membrana foi deixada para que as águas se misturassem.
Descendo do norte, “com toda a sua força virada para o sul”, muitos dos protagonistas e dirigentes da FRELIMO recusaram, atrevo-me a dizê-lo, o que era uma parte de si, a anterior, a que saboreava os limões. Decorrente disso, veio a fronteira hostil entre os que, “homens novos”, chegavam das zonas libertadas, e os outros, no suspeitoso espaço urbano devorando-se em vício.
Foi este auto-imposto ”labirinto da solidão”, vivido como uma ascese de eleitos, dos que tinham visto a luz, que voltou a pôr a “granada” que deflagrou no meio de nós, para parafrasear Rui Knopfli. O tempo era de uma narrativa de sentido único e essa tentação ainda está bem marcada no sub-texto das declarações de Jorge Rebelo.
O percurso vem sendo longo e doloroso. Há um país ex-cêntrico, no rigor etimológico do termo, o país que começa “a dez quilómetros de Maputo”, para citar o entrevistado. Há exílios e derivas. E há, felizmente, uma pluralidade de narrativas que se começam a exprimir. Entrecruzá-las é sair do labirinto, é deixar o lugar mais ou menos ensimesmado, reflectido embora, da solidão que ainda nos tolhe. E saborear os limões.
SAVANA - 21.04.2006

“ Made in Mozambique”: O que é?!

ADELINO BUQUE
Aquilo que, aparentemente, foi criado para nos orgulhar até pode acabar por nos ridicularizar, quando não soubermos o seu real âmbito de aplicação!
Eu, tal como muitos outros cidadãos, sabemos que o “Made in Mozambique” pretende chamar o nacional para o orgulho do que faz e assenta em três pilares base, a saber:
1) Produção nacional, aqui subentende-se tudo o que é produzido localmente sem respeitar as famosas regras de origem.
2) Consumir moçambicano, com este slogan pretende-se dar primazia ao consumo de tudo o que é produzido localmente. Entende-se por local a produção nacional.
3) Exporte moçambicano, com este slogan pretende-se incentivar a produção que seja exportável, quer dos produtos tradicionalmente exportados quer através de novos produtos exportáveis, diríamos até de forma ousada novos mercados.
Diríamos que estes são os pilares, mas naturalmente para se aceder a este título e ser designado por tal deve reunir uma série de requisitos que se quiser contacte o Ministério da Indústria e Comércio. Digo isso porque, contrariamente aos slogans, os mecanismos de aceder nunca foram publicitados!
Talvez por isso fiquei indignado quando, na semana finda, vi estampado num avião das Linhas Aéreas de Moçambique o “Made in Mozambique, ORGULHO MOÇAMBICANO. A ESTAMPAGEM ESTÁ LIGEIRAMENTE AFASTADA DO NOME DA COMPANHIA, PORTANTO LAM, o que, à primeira vista, este “Made in Mozambique” nada tem a ver com a LAM, pelo menos para quem lê pode, de forma inocente, pensar que Moçambique se orgulha de ter produzido um avião ao serviço da LAM, ou por esta companhia adquirido, o que deixaria muita gente que nos conhece estupefacta.
Na verdade e em boa verdade, até nos pode doer: é que nós não produzimos sequer uma bicicleta no país. Produzíamos, mas, hoje por hoje não, não produzimos uma bicicleta sequer e agora um avião?!
Aquilo que foram os discursos dos dirigentes locais quer os ministros quer o próprio Eng. Viegas serviu para quem esteve atento ao discurso, não o será para quem venha a ler aquela estampagem, que certamente orgulha a Linhas Aéreas de Moçambique, o Governo da República de Moçambique. Segundo as expressões faciais dos ministros Munguambe e António Fernando, de certo não irá convencer os diferentes utilizadores daquele meio, salvo se reproduzirem os discursos ao longo de cada voo!
Esteja claro, eu não digo que a LAM não pode aceder ao “Made in Mozambique” naquilo que faz, mas estampar isso num avião penso que se excederam um pouco, até cheira a ridículo, mas, como diria um emergente treinador da nossa praça quando questionado sobre as vitórias que não aparecem na sua equipa, “os cães ladram e a caravana passa”. Tal é a força da caravana!
Coincidentemente, este treinador está na colectividade patrocinada por este novo e primeiríssimo
“Made in Mozambique”.
A terminar, sugiro que, quando emprestamos termos sobejamente conhecidos para designar aquilo que nós convencionamos, temos de ter presente o cuidado de não criar confusão. O termo made in é usado mundialmente para traduzir a expressão “produzido em”, daí que o seu âmbito de aplicação deve ser
cuidadoso, mas que éridículo ver naquele avião “Made in Mozambique” é.
CORREIO DA MANHÃ(Maputo) - 25.04.2006

21-04-2006

Política Externa de Moçambique não promove desenvolvimento

-considera o docente Manuel de Araújo
A política externa de Moçambique não é sustentável. Não promove desenvolvimento nacional. Assentando numa lógica constante de pedir, ou seja “de mão estendida”, não induz crescimento económico. Prova-o, o facto de cada vez que se esgotada ou escasseia a ajuda externa, tudo pára e, consequentemente, deixa de haver continuidade no que vinha sendo desenvolvido.
Este cenário, entretanto, implica novo ciclo de peditório, considerou ontem Manuel de Araújo, docente do Instituto Superior das Relações Internacionais (ISRI), durante uma palestra subordinada ao tema: “Desafios da política externa para Moçambique”.
Leia em:
Download poltica_externa_de_moambique_no_promove_desenvolvimento.doc

Sobre a Ausência de Políticas Públicas em Moçambique (1)

Custódio Duma*
Não é a primeira vez que abordo publicamente o tópico. Mas desta vez pretendo dar uma caminhada mais conceituada à questão. É que o problema está indo de mal a pior, a preocupação ou o interesse em solucioná-lo nunca é manifestado e o cidadão moçambicano continua a pagar um preço muito alto por essa falta de vontade política.
Prefiro desde logo, em vez de perder-me num discurso longo e sem conclusão, afirmar que a razão fundamental do problema em Moçambique reside na falta de vontade política e falta de postura administrativa nos nossos dirigentes.
Importa também dizer que quanto ao conceito de políticas públicas não há ideia consensual, concordando todos num ponto: tudo aquilo que o governo implementa para todos cidadãos, conjunto de acções relativas a alocação imperativa de valores. Ou então programas de acção governamental visando garantir o bem-estar social e tais programas podem ser para garantir o direito à saúde, o acesso à educação, o direito a habitação, a segurança pública, o desporto, o lazer, o direito ao meio ambiente saudável entre outros.
Leia tudo em:
Download ausencia_politicas_publicas1.doc


16-04-2006

Colocando as “idiotices” de Sérgio Vieira no seu contexto!

O colunista do semanário “domingo”, Sérgio Vieira, disserta, a 9 de Abril corrente, sobre “escrever idiotices”, onde, entre vários tiros disparados no escuro contra a classe jornalística, desagua numa posição de ataque frontal a um pensamento nosso veiculado em editorial há semanas atrás.
Escreve o colunista, a dado passo, o seguinte:
“ Um colega desse articulista na ignorância ou apenas na precipitação de escrever e agradar a alguém lá fora, a propósito do assassinato, a todos os títulos, condenável do deputado Mascarenhas, especula e brinda-nos com esta estultíci : Parece que estamos a voltar aos tempos do SNASP, aos tempos de grave limitação das liberdades fundamentais dos cidadãos, incluindo a liberdade de viver tranquila e livremente”.
Continuando, Sérgio Vieira, que já foi ministro do SNASP, acrescenta:
“Esse jornalista, no passado afastado de uma escola, docente, por comportamento indevido, o que sabe do SNASP? As vidas salvas pelo SNASP? A neutralização de tentativas de crimes pelos serviços rodesianos? A descoberta das provas da cumplicidade de Banda com os crimes cometidos contra as populações de Moçambique? As intervenções que bloquearam tráfico de armas para desmobilizar países vizinhos e amigos? O resgate de reféns? O desmascarar as violações da DMI sul-africana de acordos firmados visando abaixar o nível de confrontação militar no sub-continente? O haver provado se dotava de armas nucleares para atacar Moçambique e Angola? O que pretende atingir esse jornalista?....”
Vamos olhar, de perto, os arrazoados deste ilustre colunista da praça.
Começa por dizer que o nosso escrito ou foi “por ignorância ou por precipitação de escrever para agradar a alguém lá fora”.
Nem uma coisa nem outra. Não somos ignorantes sobre o que dizemos e escrevemos. Somos moçambicanos atentos e contribuintes do processo de desenvolvimento do País, muito antes da criação do SNASP. A nossa vida não começa com o SNASP, pelo que possuímos elementos de comparação entre os períodos anterior, durante e depois do SNASP. Também nunca escrevemos para agradar a “alguém de lá fora”, pois o nosso público-alvo está cá dentro de Moçambique, o nosso público-alvo são leitores residentes em Moçambique. É por isso que temos bancas de revenda do jornal em todas as províncias do País e ainda não conseguimos ter nenhuma banca lá fora. Portanto, se conseguimos agradar a alguém, esse alguém é o nosso leitor principal e ficamos satisfeitos com isso. Mas, também desagradamos alguns leitores, como o demonstra a raiva escrita do colunista Sérgio Vieira.
Vieira escreve, logo a seguir, uma lamentável mentira, insinuando coisas que a termos que debatê-las abertamente iríamos, tristemente, lembrar em público o racismo e outras coisas feias envolvendo a pessoa da falecida Dra. Luisa Vieira (Paz à sua alma!), esposa do colunista.
São processos históricos que o colunista Vieira não possui capacidade nem serenidade para debatê-las com a isenção necessária porque não os viveu, pelo que, a não ser que nos peça, nós preferimos ser superiores a intrigas de pessoas habituadas a “lixar” os outros.
Em nosso modesto entender, Sérgio Vieira labora em vários equívocos, sendo o principal deles o de continuar a pensar que ainda detém os poderes que detinha como chefe do SNASP, incluindo o poder de mandar calar e matar as pessoas que tinham uma opinião contrária à sua.
Felizmente, hoje as coisas mudaram e não mudaram graças a pessoas como Sérgio Vieira, pois para essas pessoas, felizmente poucas, o tempo do SNASP era o áuge do bem-estar das populações e, sobretudo, deles próprios que tanto podiam enganar, como chicotear e/ou fuzilar, pública e impunemente, parte dessas populações.
Portanto, temos a plena consciência de que estamos a discutir com um homem parado no tempo do SNASP e que até lhe convém uma defesa acérrima dessa instituição, de trsite memória, da qual foi chefe máximo durante uma parte da sua vida.
Se o SNASP possui todas as glórias e virtudes acima evocadas por Sérgio Vieira, qual foi a razão do seu desmantelamento? Ou seja, se o SNASP fazia tão bem ao povo moçambicano por que é que foi desmantelado? Ou por que é que o Senhor Sérgio Vieira, que foi parlamentar durante uma infinidade, nunca propôs a sua recuperação, só o fazendo como colunista de jornais?
Nós, que nunca colaboramos com organizações repressivas do povo, estamos muito à-vontade ao falarmos deste assunto e desafiamos o ex-ministro do SNASP a provar que alguma vez fizemos algo similar com uma colaboração com o SNASP.
Enquanto Sérgio Vieira só vê coisas floreadas sobre o SNASP, Samora Machel, digníssimo tribuno desta nação, via o SNASP como o povo o via, isto é, como uma organização demasiado infiltrada por pessoas de conduta duvidosa e que se serviam dela para reprimir, torturar e assassinar o povo, razão pela qual Samora convocou um comício popular no dia 5 de Novembro de 1982, no qual disse o seguinte sobre as Forças de Defesa e Segurança, em particular sobre a “dama” do colunista Sérgio Vieira:

· “Elementos infiltrados nas Forças de Defesa e Segurança (FDS) espancam e torturam o povo sob vários pretextos. A agressão e tortura são usadas como um meio de punição de erros, muitas vezes imaginários; como um meio de fazer as pessoas confessar crimes, cometidos ou não, como um meio de intimidação, de impedir que a população denuncie crimes cometidos por esses infiltrados; para extorquir bens da população e como forma de vingança pessoal.

· Elementos infiltrados nas FDS fazem prisões arbitrárias nas seguintes circunstâncias: como forma de resolver querelas pessoais, como vingança contra pessoas que apresentam queixas de abusos cometidos por eles, para intimidar a população, para roubar os bens dos detidos, para ficar com as casas dos detidos, para abusar das esposas e filhas dos prisioneiros, para abusar das mulheres detidas.

· Infiltrados nas FDS também abusam das mulheres em outras circunstâncias tais como: violação sexual usando a força física ou ameaçando com arma; violação sexual de menores tanto usando a força ou usando o prestígio do uniforme ou da estrutura a que estão infiltrados; seduzindo e engravidando raparigas depois de promessas de casamento que não são cumpridas; sedução de mulheres casadas usando prestígio do uniforme ou das estruturas; ofensas contra o pudor forçando mulheres a despirem-se sob ameaças ou falsos pretextos.

· Infiltrados nas FDS roubam da população, particularmente nas seguintes circunstâncias: ataques armados, extorsão na estrada e nos pontos de controle fronteiriço, usando o pretexto de que confiscam os bens para o Estado; arrombamentos de casas nos arredores dos quartéis em que os ladrões escondem-se dentro dos próprios quartéis.

· Infiltrados nas FDS recrutam seus familiares e amigos para estas forças na base do nepotismo criando assim uma rede de compromissos que muitas vezes transformam-se em cumplicidade nos desvios e crimes cometidos.

· Infiltrados nas FDS, em particular no SNASP, reproduzem o estilo e métodos de trabalho da polícia secreta capitalista na tentativa de intimidar e aterrorizar a população”.(In “The Enemy Within”, Colecção Bulding a Nation, 1982, Maputo).

É a isto, caro colunista Sérgio Vieira, que nós não queremos regressar mais. É a isto que nos referimos quando alertamos que não devemos aceitar voltar ao período de grave limitação das liberdades dos cidadãos, como acima está descrito.
À pergunta do colunista Vieira sobre “o que pretende atingir esse jornalista”, respondemos que pretendemos atingir um estágio democrático em que jamais seja possível voltar ao tempo do SNASP.
Não queremos, jamais, que esse período sinistro da História Nacional se repita!
Salomão Moyana - ZAMBEZE - 13.04.2006

13-04-2006

MISSA PAGANIZANTE de LADRÕES da ESCRITA

Conto Pindérico
de João Craveirinha

MISSA PAGANIZANTE
de LADRÕES da ESCRITA

“A Tico Dji Bolili, A Kê Ê Na Nau!”
(Provérbio ronga com mais de 100 anos. Tradução: - o País caiu na podridão, já não há respeito!)

Na savana ausente de ideias e de cócoras, um candidato a escriba de jornais, próximo de uma barraca de cerveja, vai recopiando textos alheios. Em simultâneo, copioso se espuma no esforço de olhar de amiúde o fundo da garrafa em busca de ideias ausentes que tardam em surgir para iluminar o “galo” inchado luzindo, no alto do seu corocoto, coroca, da última queda das suas incursões nocturnas ao som da shigumbaza na discoteca improvisada do John Muzamba, refugiado da Serra Leoa, ali p’rós lados da Polana Caniço.

Leia tudo em:
Download missa_paganizante_de_ladres_da_escrita.doc

A MULHER MOÇAMBICANA E SUAS FASES DE TRANSFORMAÇÃO 1975-2005

Por: Linette Olofsson

Dedicação as mulheres moçambicanas nascidas na década 70


“Tudo no homem depende da civilização. É portanto, sobre o Estado social que se apoia o edifício da sua grandeza”

-D’ Olivet Antonie-França- 1767-1825

Ainda na esteira do 7 de Abril, urge olhar para a mulher como uma das importantes forças motrizes para um desenvolvimento humano a partir da base da sua primária socialização. Numa sociedade de exclusão como a nossa, seria de certa forma muito vago se se pretendesse penetrar na questão “mulher” descurando-se as fases pelas quais ela passou. Tal como na pretérita reflexão, continuo afirmando que não pretendo fazer um estudo profundo sobre a matéria, pois o assunto “mulher” é multifacetado. É matéria de estudos em diversos ângulos. Aqui importa apenas reflectir sobre a “dor” da mulher; sobre aquilo que a minha visão, de cidadã, me mostra ao longo destes anos todos de “independência”. Para tal, vou dividir este texto em duas etapas, tal como se segue:

Veja tudo em:
Download a_mulher_moambicana_e_suas_fases_de_transformao_1975.doc

12-04-2006

A Propósito do 7 de Abril - Dia da Mulher Moçambicana

Uma Reabilitação importante da História:
CELINA MUHLANGA SIMANGO


Uma Mártir paradigmática, ignorada em Moçambique. (Muhlanga, lê-se aproximadamente Mux.Lhanga – (Muchanga)

Ensaio
A Propósito do 7 de Abril - Dia da Mulher Moçambicana
por João Craveirinha

PREÂMBULO ETNO-HISTÓRICO XINDAO / INGUNI:
Excerto de saudação laudatória (de louvor) muito antiga – mais de 100 anos. Xithopo / xithoko – zelo: «Davuka! Muhlanga! Duva!... Va Ka Muhlanga Va Huma Musapa i Vandau». (Acorda Muchanga! Zebra!... Os Muchangas saiem de Mussapa são vaNdao) …«xa ku remero ra re kure, bare» (nascidos de algo pesado que veio de longe).

Segundo a História o Clã Muchanga veio de muito de longe. Originário para lá do Sul de Moçambique (Cordilheira dos Libombos - Suazilândia). De uma origem muito antiga iNduanduê (iNguni), derrotados em guerras com os Muthétuas – Zulos da era de Tchaca Senzagakhona iZulo (1816 / 1828). Alguns são integrados nos Zulos. Um dos generais vaNguni convertidos do Imperador Tchaca Zulo (n.1787 / m.1828), era Muhlanga. Outros Muhlangas (Muchangas), fogem mais para Norte (Zimbabué e Manica), integrados nas hordas vaNguni (dos Grandes). Em 1825, iNgunis reconquistam Mussapa e Mossurize chefiados pelo iNkôssi Soshangana, General do derrotado Zuide, Rei iNduanduê. Soshangana, mais tarde avô de Mundungazi (alcunhado inGungunhane), segundo filho de uMuzila na linha de sucessão do Império da velha Gaza em Manica (e Sofala). (O nome Mundungazi provém de Mundu = pessoa – iNgazi = sangue (real). Palavras de origem shona / indao). O verdadeiro nome de inGungunhane era iNdao e isto nunca havia sido dito antes.
Na invasão do Sul do Save (1889), o Imperador Mundungazi, de alcunha inGungunhane o iNgonhamo (leão), marcha com cerca de 100 mil vaNdao (despovoando Mussapa e Mossurize), rumo a Mandlha – inKaze (Mandlakaze - Mandjacaze), massacrando os vaLengue (chopes) em maioria –, do rio Limpopo ao rio Save. Um dos dois principais tiNduna – chefes de inGungunhane era o todo poderoso General Simango e outro de nome muTazabano, veteranos do tempo de seu pai uMuzila, sepultado em Udengo – Manica (Sofala), onde permanece. Outros Muhlangas (Muchangas) fixam-se no Sul do Save na Nova Gaza, depois da conquista.
Os Muchangas, anteriormente (1820/30), ocupam Mussapa – Manica (dos dois lados de Moçambique e de Zimbabué), zona dos Shonas, conquistando-os. Surge o fenómeno de aculturação mútua – vencedores iNgunis Muchangas com Shonas derrotados. Mais tarde os Shonas de Moçambique são denonimados – iNdao. (Vide livro de Crónicas Históricas, 2ª edição: - Moçambique, Feitiços, Cobras e Lagartos, pag. 45, último parágrafo).
A saudação laudatória final dos Muchangas entoada em xiNguni é elucidativa: «Hlambasi wa Mafukuthe, wa Ucenga. Yebo!». Indicação de que na realidade o Clã Muchanga é vaNguni e veio do Sul, o mesmo se aplicando aos Dhlakamas (De – lha – kamas).
Na origem de Mamã CELINA MUHLANGA (n.1937? / m.1981?), esposa do reverendo Uria SIMANGO (antigo vice - Presidente da FRELIMO), correm genes (ADN) de lendários guerreiros Muhlangas (Muchangas) e na descendência de seu casamento (filhos), se misturam ainda genes de avós Tivanes dos iMpfumos (rongas de Maputso) e Shonas de Zimbabué da parte do pai Uria Simango (n.1926/m.1981?); outro grande mártir do Nacionalismo Africano e de Moçambique. (ADN = ácido desoxirribonucleico).

Mas que crime terá cometido Mamã Celina? O “Crime” de ser MULHER, ESPOSA e MÃE MOÇAMBICANA?! Ou na realidade, Celina Muhlanga Simango, terá sido uma Mártir da Independência e da Liberdade simbolizando todas as outras MULHERES MÁRTIRES ignoradas que a Luta pela Independência gerou?
“Mama” Celina foi Presidenta da LIFEMOLIga FEminina MOçambicana que daria origem ao D.E.F (1968) e à OMM a 16 Março 1973. Ao citarem a OMM sem dúvida um dia na História, o nome de Celina Muhlanga Simango, terá de ser lembrado como uma das pioneiras na organização política feminina na Luta anti-colonial em Moçambique e em África.
A 4 Março 1968, é extinta a LIFEMO e criado o D.E.F – Destacamento Feminino da FRELIMO do qual Josina Muthemba viria a participar como dirigente. Josina Abiatar Muthemba (mais tarde Machel), nasce em 1945. É mãe a 23 de Novembro 1969. Morre em 7 de Abril 1971, em Dar-es-Salaam (Hospital Chinês de Kurassine). Sucumbe ao esforço físico de acompanhar a situação das crianças afectadas pela guerra, no interior de Moçambique – Cabo Delgado e Niassa. Daí o 7 de Abril, Dia da Mulher Moçambicana.
No entanto, Celina Muhlanga Simango, sofreria no corpo e na alma rasgada de dor o destino cruel de todas as mártires de uma Luta de Libertação. Fiel ao lado de seu marido cumprindo a jura celebrada no casamento cristão: “até que a morte nos separe” – na realidade nem na morte separados. Estariam unidos para sempre na entrega total pela causa de uma Independência de Moçambique para outros a desfrutarem sem a merecerem. “Os primeiros serão os últimos” –, reza a Bíblia que seu marido, Uria Simango, tão bem conhecia assim como os Cânticos dos Salmos de que se serviu para atenuar a dor física das bastonadas a oito mãos que recebia na tortura em 1975 no campo de Nachingueia em Tanzania.
No dia das Mulheres Moçambicanas, resgato a memória de Mamã Celina Muhlanga Simango, humilhada, torturada, somente por não renegar seu marido Reverendo Uria Simango – Presidente interino da Frelimo após a morte de Eduardo Mondlane, em 3 Fevereiro 1969. Em Novembro de 1969, Uria Simango é oficialmente expulso da Frente de Libertação de Moçambique – FRELIMO.
Na figura dessa Mulher – Esposa – Mãe, Celina, se resgatam todas as MULHERES Moçambicanas ou Moçambicanizadas que foram caluniadas, presas e enviadas a fatídicos campos da morte por Moçambique fora e em Niassa, nas diversas operações produção desde 1975. MULHERES violentadas na condição humana, e, outras, na fuga, devoradas por leões ou mortas por metralhadoras kalashenikove.
In Memoriam a essas MULHERES MÁRTIRES, este Dialogando de hoje, sem diálogo, chora lágrimas de silêncio!
(João Craveirinha)
Celina_simango_01
Tanzânia – Nachingueia – Janeiro 1975 – Apresentação dos ditos “reaccionários” depois de uma noite de tortura. Da esquerda para a direita: pintor João Craveirinha (autor desta crónica); estudante José Francisco, 1º Comdt. de mísseis Pedro Simango; Dr João Unhai (médico); Prof. Dr. Faustino Kambeu (Direito Internacional); professora Celina Muchanga Simango (esposa do Rev. Uria Simango). Todos dissidentes da FRELIMO. (Foto arquivo de J.Craveirinha).
Publicado em O AUTARCA e CANAL DE MOÇAMBIQUE - 12.04.2006

03-04-2006

CADA POVO TEM UMA MISSÃO A REALIZAR

Na pista das falhas do 25 de Abril!
Portugal sofre de mal crónico geral. As crises sucedem-se de geração em geração. Já Alexandre de Gusmão dividia os portugueses em dois grupos: Os que esperam pelo Messias e os que continuam a esperar por D. Sebastião. Com a decadência que se seguiu aos descobrimentos perdemos também de vista o realismo característico da nossa antiga sociedade dos concelhos em que homens bons e os vizinhos se dedicavam directamente à resolução dos problemas do concelho numa atitude preparadora de futuro, que culminou no apogeu da nação no século XVI, sublimemente cantado por Camões.
Veja tudo em
Download cada_povo_tem_uma_misso_a_realizar.doc
António da Cunha Duarte Justo
Pedagogo e Teólogo
Alemanha
03.04.2006

27-03-2006

Que solução para os crimes violentos em Hode?

Por: Ricardo MAPOISSA
Hode é um povoado, no Posto Administrativo de Muxúngué, a cerca de 40 kms da Estrada Nacional n.1. Foi recentemente visitado pelo governador de Sofala, Alberto Vaquina, no quadro dos preparativos da visita do Chefe de Estado a esta província, que aproveitou para verificar o grau de cumprimento do programa quinquenal do governo.
Hode pertence ao distrito de Chibabava, um dos que registam maiores índices de crimes violentos, mormente homicídios voluntários; crimes que segundo apuramos tem origem principal problemas de natureza passional, pois não se tolera em Chibabava "meter a foice em seara alheia" (entenda-se: co-meter adultério). Isso pune-se com a morte, à catanada, do infractor. Não é assunto recente, nem é influência do último conflito armado onde as catanas tinham lugar de destaque.
Em Chibabava, a questão assume outros contornos, senão vejamos: Não são apenas os homens que reagem violentamente ao adultério, mas também as mulheres que agridem as suas rivais com contundência.
Dizia-me um amigo conhecedor profundo dos ndaus de Chibabava que estes tem um grande medo de serem aprisionados. Só que nem isso, porém, lhes consegue frear os maus instintos. E, co-mo dizia acima, esta agressividade não é consequência de problemas de hoje, já assim o são desde que são eles.
A construção duma cadeia é fundamental num local daqueles em que o crime prolifera e a corporação dispõe de meios exíguos para transportar os eventuais condenados aos locais de encarceramento. Entretanto, quer me parecer que a solução deste problema não reside aí. Não é pela existência de uma cadeia em Hode que o crime vai reduzir.
Existe ainda outro fenómeno em Chibabava que se pode concluir através destes dois pequenos episódios: Contava um responsável distrital que, uma vez, exactamente na sede do povoado, onde se ergueu o posto policial, as autoridades interpelaram um cidadão para exibir a licença da sua bicicleta. Gerou-se uma discussão porque o pobre do camponês não entendia porque o representante da autoridade insistia e, por via disso explicou ao camponês que deveria organizar-se para vir legalizar a sua bicicleta. Inconformado com a ordem, o camponês voltou à calada da noite e enforcou-se no local da discussão. Outro com contornos semelhantes ocorreu numa escola, onde dois irmãos vindos de Chibabava se encontravam internados no Centro. Quis o acaso que um professor se apaixonasse e começasse a namorar com uma estudante, por sinal irmã do mano. Este, o irmão, não aprovava a relação e disse à mana que não estava a gostar daquelas cenas que se protagonizavam no Centro. A mana transmitiu o recado ao professor-namorado que se sentiu ferido no seu orgulho. Quem julgava que era ele para interferir na sua relação? Que esperasse que havia de ver. E Viu. Não mais passou de classe a partir daí.
O moço enforcou-se, não sem antes amaldiçoar o professor que hoje, de professor já nada tem e faz das tripas o coração para continuar a vegetar.
Anda, o nosso país e a nossa província também, cheios de gente saída de instituições de ensino superior, graduada em Sociologia, Antropologia e outros que tais.
Não é momento de os governantes locais procurarem encorajar esses estudiosos para buscarem as causas sociais destes comportamentos e, melhor do que isso, apresentar soluções que ajudem a reduzir tantas mortes violentas em Chibabava?
E, como dizia o doutor Boaventura Aleixo, na sua aula de sapiência, por ocasião da abertura do Ano Académico 2006, na UP-Beira, urge que a Universidade prove a sua existência, melhorando o modo de pensar e de agir da comunidade onde está inserida. E Sofala já se pode considerar robusta quanto a instituições do Ensino Superior.
Será que não vale a pena experimentar ao menos?
O AUTARCA – 24.03.2006

24-03-2006

Sentido de trabalho governativo!

Editorial
Moyanasalomao
Para um camponês, trabalhar significa lavrar a terra, semear algo e colher o resultado. Para um escritor, trabalhar significa produzir e colocar no mercado obras literárias.
Para um jornalista, trabalhar significar produzir notícias, reportagens e/ou crónicas e colocá-las a consumo público, através dos meios de comunicação social. Para um músico, trabalhar significar produzir obras musicais e colocá-las a consumo público através de fitas magnéticas, cassetes-áudio, vídeo, DVD e/ou espectáculos públicos.
E para um governante, trabalhar é o quê? Será que visitar uma aldeia assolada pela seca e dali sair com promessas de “vamos estudar a situação”, é trabalhar?

Será que visitar uma aldeia com camponeses aflitos pelas cheias que dizimaram as suas culturas e sair dali repetindo o refrão de que o “governo vai analisar a situação”, ou “vamos canalisar a vossa preocupação para quem de direito” é trabalhar?
É que estamos a ficar cada vez mais estarrecidos com a multiplicação de deslocações de ministros, governadores de províncias, administradores de distritos, chefes de posto administrativo para diversas localidades do País, apenas para ir “constatar a situação” e prometer “estudar a solução”, estudo do qual nunca volta nenhum “feedback” para as populações que continuam a aguardar, anos a fio, pela promessa feita.
Estes dias, está na moda a deslocação de ministros e vários outros dirigentes de nível central para as fronteiras nacionais, alegadamente, para verificar a situação da gripe aviária. A nossa pergunta é: chegados à fronteira, o que é que, exactamente, verificam os senhores ministros? Abrem as bagagens dos viajantes para ver se levam ou trazem alguma ave morta ou com febre? Será isso trabalho ou turismo de mau gosto?
Esta semana, a Rádio Moçambique citou fontes governamentais a dizer que para prevenir a febre aviária, Moçambique necessita de 15 milhões de dólares mas, caso não consiga prevení-la, e a mesma comece a contaminar pessoas, então, serão necessários cerca de 500 milhões de dólares americanos para salvar vidas humanas! Esta informação, veiculada assim como foi veiculada, deixa, no ar, muitas perguntas preocupantes, a exigirem um rápido esclarecimento da parte das fontes dessa informação, nomeadamente:
Os 15 milhões de dólares necessários para a prevenção são para comprarem o quê, exactamente?;
 Estarão eles já assegurados pelo governo do País? Estará uma parte já a ser utilizada para a tal prevenção? Quanto é que está sendo aplicado, e em quê?;
 E os cerca de 500 milhões de dólares badalados, alegadamente, para salvar vidas humanas são para salvar quantas vidas?
 Desse meio bilião de dólares quanto é que já está, preventivamente, assegurado?
 E qual é a estimativa da mortalidade populacional, caso não se consiga assegurar tão elevada soma pecuniária? E qual foi a base de cálculo para se chegar à conclusão de que o País precisa de 500 milhões de dólares?
 Qual é o plano de emergência que o governo de Moçambique está, neste momento, a aplicar para impedir a entrada e propagação da gripe aviária no País? Quantas pessoas estão a fazer o quê nesse sentido?
Como já conhecemos bem o funcionamento do nosso País, estamos muito preocupados com a “dolarmania” dos nossos dirigentes, para financiar a inacção generalizada.
Quer dizer, depois, na hora de balanço, alguém poderá verificar, com a mesma tristeza com que já verificámos muitas vezes, que parte significativa do dinheiro de prevenção da febre aviária foi gasta em aluguer de viaturas, ajudas de custo, passagens aéreas, “perdiems”, alojamento em hotéis, lanches, almoços, jantares de confraternização, ou seja, tudo, aparentemente, nada parecido com trabalho preventivo da febre aviária.
O resultado final disso, é termos muita movimentação de pessoas, muito dinheiro gasto e nada de concreto realizado, como já aconteceu, nesta terra, em diversas ocasiões.
O problema de fundo, é que os nossos governantes deviam trabalhar sob indicadores claros e inequívocos de seu desempenho, o que permitiria a todos nós fiscalizarmos o seu dia a dia, pois eles são funcionários do Estado, pagos pelos impostos da população, para servir a essa população, de forma produtiva e menos onerosa.
Visitar um aviário, visitar uma aldeia, uma escola, lamentar e de lá voltar sem ter deixado nenhuma medida concreta e de realização verificável, não é trabalhar, é esbanjar o dinheiro do povo, é enganar os incautos deste País.
Visitar um povoado assolado pela seca, à beira de um rio de curso permanente, e sair de lá sem ter deixado instruções e ensinamentos claros sobre como o povo pode transportar aquela água do rio para combater a seca nas suas machambas, não é trabalhar, é brincar, à custa do dinheiro do povo.
Pegar em milhões de dólares do PROAGRI e comprar four by four, mobiliário de luxo para os gabinetes, distribuir ajudas de custo a “torto e direito”, e não se lembrar de comprar motobombas para as populações mudarem do tipo de agricultura que as empobrece há séculos, não é trabalhar, é abusar da ignorância deste povo, é sugar o seu sangue, para o enriquecimento de uma elite de tecnocratas apadrinhados pelo poder político.
Neste sentido, desafiamos os nossos governantes a mostrarem-nos trabalho palpável e concreto, trabalho mensurável através de resultados no terreno, e não espectáculos ridículos só para garantir uma visibilidade gratuita na ribalta da comunicação social.
Este País precisa, muito rapidamente, de mostrar seriedade em tudo o que faz e diz, sob pena de continuar subalternizado no contexto das nações.
Quando o povo elege um governo, quer ver esse governo a produzir coisas concretas e não a realizar “visitas” folclóricas só para se dizer que alguém “está a trabalhar no terreno”.
Salomão Moyana - ZAMBEZE - 23.03.2006

22-03-2006

A versão hodierna da Torre de Babel

Por Fernando Manuel
Desde aquele trágico acontecimento de finais de tarde de 29 de agosto de 1997 entre as seis faixas de rodagem da avenida Eduardo Mondlane, cheguei à definitiva conclusão de que – definitivamente – a minha relação com a Babilónia que é o tráfego em Maputo, principalmente às horas de ponta, jamais seria pacífica.
Esta convicção tornou-se mais premente e dolorosa nos últimos tempos – de há dois ou três meses, por aí – com a entrada em vigor do Novo Código de Amurabi que são os sinais de trânsito semeados ao deus dará pelas ruas e avenidas e travessas e pracetas da cidade das acácias : a proibir, a intercalar, a impôr sentidos únicos sem sentido absolutamente nenhum, numa demonstração mais que eloquente da plena ignorância dos mentores da sinalética sobre a geometria de Maputo, cidade bem concebida e melhor desenhada pelo génio do arquitecto Joaquim de Araújo, ainda o século XIX tomava o leite pelo peito da mãe.
Ao que se chega! Mais atrevida que a ignorância só ela própria. Porque a ousadia, essa é filha da sapiência.
Digo pois que numa bela e solarenga manhã de junho de 1996 alguém bateu à porta da minha casa. Coisa que me deixou sobremaneira contrariado porque vivo sózinho e quando é assim tenho que ser eu próprio a abrir a porta, o que era chato, no caso, porque eram 7H30 da manhã e ainda me encontrava estirado na cama, de costas, a deitar contas à vida, que nunca me foi senão madrasta.
Levantei-me, contudo, e fui abrir. À minha frente estava um mocetão de por aí um metro e sessenta, mais escuro que as entranhas de uma mina de carvão, lábios porém finos e firmes, olhar decidido mas a implorar, no momento, compreensão humana, não ia para cima dos 25 anos de idade.
Com a porta entreaberta – o seguro morreu de velho – perguntei-lhe ao que vinha.
“ Venho pedir emprego, como criado “.
“ E quem te disse que eu preciso de criado ?”
“ Ninguém. Só estou a tentar. Estou a tentar todos os dias, desde que cheguei “.
“ E chegaste quando ? “
“ 27 do mês passado “
“ Vindo de onde? “. O ângulo de abertura da porta ia aumentando, sem ser por vontade expressa minha nem mesmo com consciência clara disso.
“ Sou de Maganja da Costa “
“ O que é que sabes fazer ? “
“ Lavar roupa, engomar, arrumar a casa. Sei fazer uma boa sopa de nabiça, galinha com mucapata, kaputchethe com batimento de xima ao lado, fazer compras no mercado e pagar a conta de energia e água “. Fez uma pausa e declarou, triunfalmente: “ meu pai é alfaiate. Ensinou-me a pregar botões nas calças e camisas. Sei também cerzir peúgas“
“ E como é que te chamas? “
“ Deucleciano das Neves Mukuane “.
Na semana seguinte começou a trabalhar, com o salário de um milhão e duzentos e cinquenta ao mês, fim de semana completo de repouso e direito a pequeno almoço e almoço. Em havendo restos – ele fazia questão de que os houvesse sempre, pois fazia refeições que dariam para um batalhão de chineses famintos – ele leva para casa.
Mas gosto muito dele: é discreto – odeio tagarelas e metediços – eficiente e parcimonioso no roubo de produtos alimentares. De dinheiro, roupa, loiça e electrodomésticos e cd”s nunca dei por falta, embora nas minhas longas ausências ele reine plena e absolutamente sobre toda a casa.
E, de facto, cozinha de forma simples e informal mas de forma mui delicada e saborosíssima. E trata bem as minhas várias companhias femininas que vão e vêm como cometas errantes em escalas técnicas etéreas no resguardo azul dos meus aposentos de solteiro radical.
Cerca de um ano depois, em julho, dei-lhe férias. Ficou felicíssimo e confidencou-me que vinha mesmo a calhar – “ estava mesmo para lhe pedir, tio. Preciso de ir à terra buscar a minha mulher. Homem com juízo não pode viver sem mulher e filhos”. Engoli esta com um sorriso paternal..
Foi e voltou 27 dias depois: “ tenho que ter três dias, pelo menos, para ambientar a minha mulher ao grande Maputo. Ela tem 20 anos e nunca tinha saído da Maganja “.
“ Muito bem, Deo.És um homem com tino. Pode ser que tenhamos que negociar um pequeno aumento no teu salário, quando recomeçares. Vais passar a ter mais despesas, naturalmente “.
Nunca vi tanta felicidade estampada num rosto jovem como vi no de Deocleciano nos dias subsequentes.
Mas, naquela manhã chuvosa de segunda feira 30 de agosto de a997, chegou lavado em lágrimas: “ tio, perdi a minha mulher “.
Fiquei estarrecido: “ como? “
“ Ia com ela à Baixa, para fazer compras no mercado Central. Quando íamos a atravessar a Eduardo Mondlane, íamos a meio da primeira faixa, assustou-se com um carro que vinha a grande velocidade ( eu estava tranquilo, porque o sinal estava vermelho ) e saltou para trás, enquanto eu já estava nas faixas do meio. Entretanto o sinal abriu e criou-se uma barreira de motores entre nós os dois. Quando tudo cessou voltei ao ponto de separação mas ela já não estava lá. Entrou em pânico. Era a primeira vez na vida que se via perante o tráfego de uma avenida com 6 faixas, abarrotada de carros e gente “.
Só voltou a encontrá-la 18 mese depois, grávida de outro homem – por sinal de Maganja da Costa – que a tinha recolhido na penumbra das escadarias de um prédio em frente à RONIL, chorosa, faminta e desalentada, por volta das 9 da noite:
“ Ao menos tá viva, né tio ? “, perguntou-me o Deo, com o sorriso mais triste e desconsolado que já vi no rosto de um jovem.
Definitivamente: odeio a Babilónia que é o trâfego nas ruas de Maputo!
SAVANA - 17.03.2006

12-03-2006

Ser africano é ser negro?

Fico virado do avesso quando, e aqui em Portugal isso é mais do que comum, africano é sinónimo de negro e angolano é sinónimo de empregado da construção civil ou de mulher da limpeza. Dir-me-ão que não é uma questão de racismo mas, talvez, de ignorância. Na melhor das hipóteses admito que seja uma simbiose das duas. De qualquer modo chateia ver, por exemplo, uma Comunicação Social supostamente nada racista e intelectualmente válida a confundir a estrada da Beira com a beira da estrada.

Por Orlando Castro

Estou farto de, entre dois eventuais autores – um negro e outro branco - de um qualquer crime, o suspeito principal ser sempre o negro. Estou farto dos discursos e das práticas racistas que, depois de tantos anos de democracia, associam a população negra a toda a criminalidade.
Para além de os dados estatísticos da população prisional portuguesa não permitirem tão leviana conclusão, os problemas devem ser analisados não em função da cor mas sobretudo da realidade social, económica, política e cultural em que se inserem.
Curiosamente, a dita Imprensa de referência em Portugal só agora descobriu que, por exemplo, há angolanos que são brancos. A ida, ou não, de Pedro Emanuel para a selecção de Angola que estará presente no Mundial de Futebol fez com que se descobrisse tal coisa. Levou tempo...
Por alguma razão Portugal está na cauda Europa e, com a sua manifesta mas não assumida ignorância, contribui para que Angola (por exemplo) esteja (ainda esteja) no estado em que se encontra.
Ao passar a imagem de que africanos só são negros, de que os culpados são quase sempre negros, Portugal corre o sério risco de arcar com o rótulo de – para além de último descolonizador – ser um país racista.
Mas, em Angola passa-se algo de semelhante. E Portugal sou angolano, em Angola sou português. Ou seja, esteja onde estiver nunca sou o que, de facto e de alma, sou: Angolano.
Quando digo, e digo sempre que posso, que sou angolano (branco por circunstâncias que nada têm de opção pessoal...), não o faço por inferioridade de qualquer tipo nem por superioridade de qualquer espécie. Digo-o porque o sou e o sinto, sem que isso constitua uma maior ou menor valia. Será difícil entender isso?
E, já agora, continuo sem perceber (será também racismo? Será ignorância?) a razão que leva a Comunicação Social portuguesa a dar mais importância ao que se passa numa qualquer comunidade que nunca ouviu falar de Portugal e da qual os portugueses nada sabem, do que aos países africanos, ditos irmãos, que estão mesmo aqui ao dobrar da esquina.
[email protected]
NOTÍCIAS LUSÓFONAS - 11.03.2006

Um ano sem Chissano na presidência

Editorial
Um ano após Joaquim Chissano ter cessado as funções na presidência da República e a há igual período da ascensão de Guebuza ao “trono”, o País navega incerto na direcção do porto, que parece errante, no destino que se pretende atingir desde a independência nacional.
Qual é o plano de Guebuza?
Combater a pobreza absoluta, o HIV/ SIDA, burocracismo e a corrupção. Irá ele conseguir atingir o seu objectivo?
Talvez sim.
Onde é que peca o Governo de Guebuza a ponto de o mesmo não ser nada relevante comparativamente ao do Chissano?
Simplesmente por dar primazia aos discursos, em detrimento de acções.
Irá Guebuza combater a pobreza com discursos? Irá Guebuza, só, capitanear um barco, onde os seus coadjuvantes, hibernados, procuram atingir os propósitos anteriores à sua nomeação?
É aqui onde não há excepção à regra. O Governo de Guebuza entrou num período de hibernação (por exemplo o atendimento público a cidadãos lançado por Alberto Vaquina na Casa dos Bicos parou como iniciou –abruptamente), que esperamos seja um momento de revitalização. De tempo em tempo assistimos o emergir do ministro Garrido, esse, qual o chefe da casa das máquinas, vem desmentir o evidente sinal de um barco encalhado, no rumo que auguraram iriam encetar em direcção à costa, depois o mesmo volta à posição estanque.
Portanto, embutidos em receios os passageiros seguem a bordo do barco. Ao presidente Guebuza não lhe falta arrojo nem imaginação.
Enunciou visíveis sinais e métodos capazes de distrair a maioria, primeiro, reacendendo a discussão do herói e não-herói deste País, depois o círculo vicioso do Gwaza Muthini, inaugurações à época de Canhú e o compulsivo alistamento de cidadãos na Frelimo. Ele procura encontrar aquilo que falta no seu Governo: uma plateia delirante. Será a mesma que funcionará como a sua caixa de ressonância, sabido os ministros, governadores, o que é extensivo a comissários do partido, o têm imitado com “sucesso”.
A visão que este Governo pretende trazer é que só é nacionalista aquele que se faz ao seu caminho, ou senão, à “linha correcta” do partido que dirige.
Eis porque um ano depois Guebuza nada trouxe de novo ou em nada veio a acrescentar à visão de Chissano, que se dizia caíra em letargia, permitindo toda a espécie de desordem: assalto aos bancos e ao tesouro, com que lucrou o próprio “establishment”.
O povo moçambicano não estava a espera e nem tinha saudades do amargo período monolítico, em que por regra o partido e o presidente se converteram em religião, a qual a sociedade devia professar, como o seu ópio.
Em nossa óptica, deste Governo que faz questão de reunir os métodos e instrumentos para distrair o povo, se espera sirva de guardião da justiça, no lugar de apertar o cerco às liberdades dos cidadãos. Deste Governo espera-se que venha a recuperar parte ou a totalidade dos 400 milhões de dólares de créditos malparados dos Bancos Austral e ex-BCM.
Deste Governo que se diz implacável no combate ao deixa andar espera-se que ponha ao fim à inércia que reina sobre a nossa justiça, onde processos criminais dormitam há vários anos (Casos Beirão, Chivavice Muchangage – ironicamente por este Executivo nomeado para dirigir um dos distritos de Tete, Alcido Ngoenha, registo do Património do estado em nome da Frelimo, assassinato a sangue frio e em série do juiz N’kutumula, sua esposa e cunhado, 40 toneladas de haxixe, Amin-Amin que nos anos 80 roubou quatro biliões ao estado, tentativa de assassinato ao advogado Albano Silva, assassinato do músico Pedro Langa, cinco toneladas de haxixe sem dono na Beira).
Espera-se que este Governo venha imprimir mudanças efectivas, que possam viabilizar a atracção do investimento externo, pois não se entende o motivo porque o processo corre por 116 dias. Em contrapartida, sem investimento, num País com 54 por cento de cidadãos na pobreza absoluta, será vão falar do combate à HIV/SIDA.
Tudo aponta que Guebuza não tem procurado superar a imagem alcançada por Chissano no respeitante a promoção da democracia e boa governação. O clientelismo político tende a ser um instrumento para premiar os seus correligionários (veja-se o caso de Filipe Paúnde, governador de Nampula, tido como facilitador de seus amigos em concursos públicos).
E não só, as medidas avançadas no sector da saúde não constituem o prenúncio da xenofobia, num País carente de médicos que possam realizar com sucesso a tarefa que será deixada em aberto pelos especialistas russos?
Resultado das expectativas defraudadas, ganha impulso um amplo movimento constituído por saudosistas de Chissano. São os mesmos que se acercando do Presidente Guebuza o ofuscam, enquanto ele vai embalado na coisa do culto ao poder, ao que Chissano, diferentemente de Samora Machel, em nada se importava.
Em suma: um ano depois da ascensão de Guebuza nos parece que a maior oposição que este Governo enfrenta é a do Chissano, que de resto, dando o dito pelo não dito, continua em força na política activa, contrariamente ao real líder oposicionista, Afonso Dhlakama, que se mostra inflexível e sem faro político para lançar uma visão alternativa às Frelimo de Chissano e Guebuza.
PÚNGUÈ – 07.03.2006

11-03-2006

Não fechem o Parlamento!

Salomão Moyana
Durante os últimos 18 anos, Moçambique ganhou bastante popularidade internacional, precisamente, pela sua abertura à liberdade de expressão e à liberdade de imprensa.
É que desde que Joaquim Chissano chegou ao poder, em 1986, acabou a repressão que havia à liberdade de expressão e à liberdade de imprensa, abrindo, desse modo, caminho para a implantação de um sistema democrático saudável, embora ainda incipiente.
Se quisermos ser justos, devemos reconhecer que Moçambique percorreu dois caminhos distintos, no que diz respeito à liberdade dos cidadãos: o caminho que vai da Independência Nacional até 1986, e o caminho que vai de 1986 até 2005.
Da Independência Nacional a 1986 vai um período negro, no que diz respeito às liberdades fundamentais dos cidadãos, o período da repressão verbal e física à liberdade de expressão dos cidadãos, o período da vigência do SNASP (Serviço Nacional de Segurança Popular), uma polícia política concebida para prender, torturar e matar os cidadãos tidos como inimigos da então Revolução.
Leia tudo em:
Download naofechemprlamento.doc

07-03-2006

Linha d'água: Aplausos a quem os merece

Por Luís Loforte
TREMOR DE TERRA
Como muitos cidadãos, também abandonei os aposentos e me postei na rua quando há dias a terra sentiu arrepios. Entre toda a sorte de episódios que cada um tinha para contar sobre a forma como percepcionou o fenómeno, lá via os citadinos aguardando de ouvido colado ao “transístor” por vozes mais autorizadas para lhes falarem um pouco mais acima dos seus conhecimentos. Debalde. À hora daquele acontecimento, os que mais sabem dormiam ou viviam o desespero com os leigos. Pior ainda, os que deveriam indagar, ... também dormiam.
O rádio também me não saía do ouvido, mas devo assinalar que pouco dele me servi, à excepção de alguns assomos de informação proporcionados por um locutor da RM um pouco antes da uma hora da madrugada, mas apenas para nos dizer que a todo o momento teríamos notícias mais elaboradas sobre o tremor de terra. E pouco mais.
De regresso à casa resolvi mesmo desligar o receptor de rádio e lá fui fazendo alguns “zappings” pelos canais disponíveis na televisão. Surpreendeu-me positivamente encontrar a STV com as emissões retomadas, tentando informar e informar-se, quando à minha saída precipitada a deixara em simultâneo com a BBC World, como é seu hábito. À hora em que as coisas se passaram, não se esperavam grandes primores por parte da STV e muito menos o ideal, mas ao menos tentava o melhor. A pública, essa, ressonava ao som das diáfanas barras policromáticas.
Fechara e pronto, nem que o céu desabasse sobre nós. E foi então que me deu a pensar que vinte e cinco anos não só podem mudar gerações de homens, como também mudar mentalidades de gerações de jornalistas. Veja-se apenas um exemplo neste mesmo nosso solo pátrio:
Em 1980, Moçambique vivia no silêncio a pior seca depois da sua Independência. No silêncio porque em tempo de lançamento das bases ideológicas em nada interessava dizer que centenas de pessoas morriam à míngua de água e de comida. Afinal, todos deveríamos saber que o socialismo era a panaceia de todos os males. O que diria o mundo expectante das nossas capacidades?
Era o tempo em que as coisas só aconteciam depois que o chefe as visse e dissesse que as viu e como as viu. Depois disso, sim, todos as viram. Tal como em certa medida hoje, o problema é que todos ficamos à espera que o chefe não só diga, como também nos dê a dose e a forma em que as coisas devem ser informadas. Exemplo recente foi com o imbróglio das caricaturas, onde todos, sem excepção, foram ao reboque do governo, inclusive por parte do próprio sindicato de jornalistas. Mas eu falava da seca de 1980.
Naquele ano, todos os estudantes universitários foram chamados a envolver-se no primeiro recenseamento geral da população depois da proclamação da Independência. Marcelino Alves, também colega na Rádio Moçambique, foi destacado, ao que julgo, para integrar as brigadas de Inhambane, zona fortemente afectada pela seca e onde, como mais tarde viríamos a saber, as pessoas morriam às centenas.
Perante o infortúnio, Marcelino mandou às urtigas o censo e começou a mandar “despachos” por todos os meios ao seu dispor sobre os dramas da estiagem.
Ouvia-o eu estando na longínqua Mocímboa da Praia, em Cabo Delgado. E foi assim que a dramática seca de 80 passou a fazer parte do quotidiano da informação nacional, os governantes começaram a fazer “briefings” e o país despertou para o desastre social que os “responsáveis” sabiam, mas esperavam por “orientações superiores”.
Para os que não sabem, naqueles anos falar ao telefone era um autêntico sortilégio. Hoje, apesar de toda a parafernália de meios de comunicações ao nosso dispor, onde avultam os celulares, os quais até os vendedores de amendoim nas esquinas os têm de sobra, poucos são os jornalistas que conseguem pôr em tempo útil uma notícia de que o público está necessitado. E isto faz com que nos recordemos do preceito primordial de um jornalista perante um acontecimento: antes de mais, tomar uma atitude.
Atitude essa, afinal, que faltou até nos que a isso eram obrigados, mas que sobrou naqueles que a isso não eram obrigados, designadamente a STV, que foi, a todos os títulos, credora dos nossos maiores encómios.
Aplausos, pois, a quem os merece. Mas aqui a lembrança de que é assim que uns perdem e outros fixam as audiências. Tomara: se uns têm-no garantido todos os meses (e até por via compulsiva), os outros têm que fazer de tripas coração para tê-lo!
CORREIO DA MANHÃ(Maputo) - 07.03.2006

04-03-2006

O que esperamos de Guebuza

É verdade irrefutável que o primeiro ano de graça do Governo de Armando Guebuza, foi para estribilhos ensurdecedores. Serviu para que os ministros e os chefes de dez casas aprendem-se e cantassem de cor cantigas moribundas como as de combate ao espírito de deixa andar, combate ao burocratismo, corrupção e tais.
Inquieta-nos o facto de o Governo, durante o tal período de graça que serviu para conhecer os quatro cantos da casa por habitar, não ter descido a base para informar ao povo o que está a ser feito com muitos dos processos encalhados nos tribunais e nas procuradorias à espera de julgamento.
Inquieta-nos o facto de sabermos que o grosso da população moçambicana vive basicamente da agricultura, mas esta revela-se ainda medieval e não se conhece plano nenhum para se sair da dificuldade que a mesma enfrenta, e era natural que o Governo explicasse ao camponês o que vai fazer da sua enxada que não consegue amanhar a terra, por ser árida.
Inquieta-nos o facto de sabermos que a justiça eximiu-se das suas funções de proteger o cidadão comum, contribuinte dos impostos, para conluiar-se com o crime organizado que tem vindo a desenvolver os seus tentáculos criminosos a seu bel prazer.
Inquieta-nos o facto de vermos alguns cidadãos que na pobreza eram idênticos a nós, mas quando sobem para lugares de chefia, começam a exibir four by fours e uma conta bancária de fazer inveja, quando não desenvolvem algo para o bem estar do contribuinte do erário público.
Talvez, não sabemos, o alto magistrado da nação tenha uma explicação convincente sobre a quantas anda a “utopia” do PARPA II, e a que se destina e se vai servir com sucesso.
Talvez haja uma sábia explicação do que se colheu ao gastar-se balúrdios de dinheiro para injectar no PROAGRI, porque para nós, o povo, tudo continua na mesma e se o gráfico mostra alguma coisa, é o decréscimo da nossa produtividade.
Mesmo depois dos primeiros anos após a conquista da independência nacional, o País podia se orgulhar de ter o regadio de Chókwè, onde abundantes hectares de arroz faziam inveja a qualquer humano.
A nossa castanha de caju era de fazer inveja aos países vizinhos. Poucas, mas tínhamos indústrias têxteis que finaram com o tempo dando espaço ao desemprego desenfreado que grassa o cidadão comum.
Contrariamente ao que almejamos, o que estamos a ver são debates, que não levam a desenvolvimento algum, nos hotéis de luxo, sobre quem deve ser herói nacional, sobre HIV/SIDA, e outros supérfluos.
Não porque esperamos que Armando Guebuza tire, sozinho, o País da pobreza em que se
encontra. Queremos que, sendo ele quem segura as rédeas de todo o território nacional, nos dê a ferramenta necessária para o nosso desenvolvimento.
Dele não precisamos de aprender a cantar essas cantigas sem nenhuma tonalidade de combate ao espírito de deixa andar.
Queremos enxadas, ancinhos, sementes, motobombas, para desenvolvermos a nossa agricultura!
Dele esperamos que as reformas anunciadas convertam-se em realidade, porque até aqui são uma absoluta utopia!
Laurindos Macuácua – DIÁRIO DE NOTÍCIAS – 03.03.2006

03-03-2006

Um País interessante, onde todos cabemos

Tenho estado a analisar o País nos últimos tempos e chego a bonitas conclusões. Afinal, todos cabemos nele.
Ao assistir à gala da TVM na passada Sexta-feira, cheguei a esta conclusão com o Dr. Jamisse Taimo. O que torna Moçambique um País interessante é o facto de todos encontrarem espaços para existirem e para se exporem.
Naquela noite, por exemplo, estivemos com a primeira familia do país, o PR, Armando Guebuza e a primeira Dama, Maria da Luz Guebuza.
E vimos logo a seguir a dupla Adelino Branquinho e Mário Mabjaia a fazerem das suas, à frente de Guebuza e de Canana.
E vimos a Neyma a cantar e dançar e como dançou à frente daqueles dignatários todos e das senhoras ministras, algumas estavam visivelmente embaraçadas.
E ouvimos no jantar as anedotas pornográficas de Búfalo e Wantsongo, em frente do primeiro casal do país.
E vimos e ouvimos as sete gordas a dançarem como dançaram. Com gosto.
Durante a Gala, tinhamos visto o habitual MC Roger com as suas bailarinas numa boa. E eu sentado na mesa, conversava com o Dr. Jamisse Taimo, como se sabe um mafundissa. Um pouco embaraçado, introduzi eu o tema e ele, academicamente a resumir as minhas ideias.
“Sim sim. As pessoas têm que existir. Exporem as suas ideias. As suas formas de verem as coisas”. Neste País todos cabemos.
“Assim, ninguém se sente discriminado e com motivos para se zangar”. Em resumo, ele disse: “É deixarmos as coisas acontecerem”.
E fiquei a imaginar como é então difícil gerir as democracias. Gerir as sensibilidades e acomodá-las. Fico a imaginar como é difícil acomodar os interesses de grupo, das tribos, das religiões, das raças e dos sexos.
Mas se, realmente, a meta final é deixar que as pessoas vivam e se exprimam livremente, vale a pena apostar neste caminho.
Mas confesso que é muito difícil compreender certos fenómenos.

Lourenço Jossias - ZAMBEZE - 02.03.2006

02-03-2006

Heróis de ontem, de Hoje e do Amanhã

Será este debate um tema para a ordem do dia?
Se quisermos ter resultados mais apalpáveis, a comissão criada pelo Governo deveria incluir a participação da Renamo como maior partido da oposição representado na Assembleia da Republica, partidos extra parlamentares sociedade civil e religiosa; pois apesar dos pesares o debate seria mais transparente e credível.
Moçambicanos de todos os quadrantes, foram surpreendidos ao serem chamados numa altura em que Pais se debate com as fúrias das águas, a contribuir para este debate que só hoje a Frelimo entendeu por em cima da mesa.
Está na hora de forte união, regada pelo sentimento nativista, para darmos um basta a toda a espoliação e miséria de todas as formas que atingem o Pais, com o sentimento traduzido pelo mais puro nacionalismo, o nacionalismo aberto, aquele que é derivado do Amor à Pátria, eivado do mais profundo sentimento da Moçambicanidade e que coloca, em primeiro lugar, os interesses nacionais e não partidários; onde não se admitem exclusões de ordem politica, social económica, tribal, religiosa, e racial.
Povo é o único pelo seu peculiar caldeamento... ... ...

Leia o texto completo em
Download herois_linnete.doc

Linette Olofsson
Deputada Suplente
Circulo Eleitoral Zambézia

01-03-2006

Os Perigos da Democracia

A Guerrilha como Forma Futura de Intervenção – A Democracia em Perigo?

A nossa democracia cada vez tem mais críticos e adversários. O trato dos valores culturais tradicionais que deram identidade e coluna vertebral à cultura europeia tem deixado muito a desejar. Dançarinos da ilusão não respeitam processos de desenvolvimento dos povos confundindo, por vezes, liberdade com libertinagem, cultura com ideologia, democracia com lobbies. O globalismo e a precária situação nacional, em que se precisa de menos estado, menos burocracia e menos impostos, questionam os orçamentos do estado e constituem uma incógnita na tentativa de manter o equilíbrio e a paz social. A economia social de mercado, o modelo europeu por excelência, é cada vez mais questionado atendendo às consequências dum liberalismo económico feroz sem respeito por Estados nem pelas necessidades humanas mais legítimas ao tender fugir à responsabilidade social.
Com a progressiva desmistificação dos valores e a sua desconexão superior assiste-se a um processo contínuo de afastamento da natureza e com isto dos biótopos naturais. Uma mentalidade microscópica e microbiológica...
António Justo
Alemanha
Leia tudo em
Download os_perigos_da_democracia.doc

27-02-2006

Recordações, impostos e persuadidos

«Animus meminisse horret»
(“a minha alma horroriza-se ao recordar”)

Com o artigo sobre a banca e o «leasing» o «Canal de Moçambique» abriu a edição da última sexta-feira (Canal nr.14). Ficámos todos a saber pelo Tribunal Administrativo (T.A.) que a maior parte das empresas desse ramo contribuem com zero para o erário público. Pior!... nalguns casos o erário público ainda lhes está a dever.
A má gestão governamental está reflectida nos números divulgados. Os empréstimos da Banca ao Estado estão lá reflectidos. E os comentários do TA no Relatório e Parecer sobre as Contas do Estado de 2004 denotam que a mão da Banca está a lavar a mão do Governo e os contribuintes a lavar as mão de ambos.
Quando os contribuintes pagam impostos e no fim sobram-lhes as migalhas, moraliza-os acreditarem que o seu dinheiro irá ser bem aplicado. O que se confirma pelo relatório do TA de 2004 é que o governo desgoverna as contas e a banca financia o déficit com as exorbitâncias que cobra pelos serviços (que até deixam a desejar) e com que lucra, entretanto, o suficiente para continuar a aplaudir a “orquestra” e o fausto com que ela passeia a arrogância.
Já não pode haver dúvidas. Os números falam. Neste caso a suspeitar-se da fonte (T.A.) será apenas por se saber que também ela não tem condições para ir mais longe do que a coragem já lhe permitiu. E, bem haja gente daquela estirpe!
É sabido que a banca tem balcões abertos em Moçambique mas não presta quaisquer serviços mais úteis à sociedade do que os já conhecidos. E a que preços!?...E a que juros!?... Só está onde lhe apetece e não está onde poderia contribuir ainda mais para o progresso do País. Pelo visto e até mais ver está apenas para ter lucros e a “curtir”. Tem feito o seu papel característico. Nada mais!
Em qualquer país, não é de esperar outra coisa da banca e do «leasing». Mas, em Moçambique só poderíamos dizer o mesmo se não soubéssemos quem são os PCA´s dos bancos que não pagam cheta ao Estado. E, ai de quem investigue melhor!...
Do «Banco Austral» conhecem-se as razões do descalabro e percebe-se porque ainda não paga impostos. Os outros também se sabe porque acabam a rir-se de todos os contribuintes – dirão os assumidamente cínicos. Nós preferimos deixar aqui registado que, a partir de hoje, certos senhores sem vergonha saberão o que está escondido por detrás dos nossos sorrisos.
«Aurun suadente, nil potest oratio» (“Quando o dinheiro persuade, nada valem as palavras”).
CANAL DE MOÇAMBIQUE - 27.02.2006

23-02-2006

Quando os adiamentos já não servem...

Canal de opinião por Noé Nhantumbo
Das constatações à realidade da corrupção
O ano judicial brevemente começará e com ele os moçambicanos esperam decerto que o discurso de combate cerrado contra a corrupção se torne a nova maneira de estar dos governantes deste país.
São muitos os casos arrolados pelas diversas instituições de administração da justiça nos diferentes pontos do país. Existem casos que se julgados darão ao país uma nova postura, de seriedade naquilo que os seus governantes afirmam como seu compromisso. O passado mais recente de compadrio quase que aberto entre os administradores da justiça e os agentes de crimes de “colarinho branco”, tráfico de influências, foi um dos cavalos de batalha da presidência actual do país aquando das últimas eleições presidenciais e legislativas. Os moçambicanos, na sua grande maioria querem ver os rostos dos que durante décadas cometeram crimes e até estão impunes. O tempo em que as conveniências de um certo grupo de pessoas eram suficientes para travar processos judiciais e em que de uma maneira clara existiam pessoas acima da lei tem que, incondicionalmente, conhecer um fim para que este nosso país tenha a oportunidade de ver seus cidadãos ganhando a possibilidade de beneficiar da independência política nacional e de se sentirem também parte integrante da pátria em construção.
Não há moçambicanos superiores aos outros ou os que tenham mais direitos que os outros. O país é de todos os moçambicanos, compartilhável, e soberano na medida em que todos eles no seu conjunto o sejam. Colocar os moçambicanos numa situação de primeira classe e segunda conforme a sua posição nas hierarquias político-sociais é contra os ideais que guiaram a luta pela independência nacional.
Os casos quentes ou frios que a última presidência do país deixou numa situação de indecisão devem ser tratados com a urgência necessária, pois está em jogo a credibilidade das instituições de soberania e todo um povo.
Aos que ganham o seu pão administrando a justiça e velando pela ordem pública, cabe exigirem, no quadro legal e institucional, remuneração que os torne alvos cada vez mais difíceis dos corruptores. Mas, independentemente disso, urge que trabalhem com afinco, destreza, persistência de modo a superarem as armadilhas legais ou legalistas que por diversas vezes fazem processos judiciais esbarrarem com empecilhos “legais”. Recrutar magistrados cada vez mais competentes e renovar a máquina da administração da justiça a partir do topo parece que é umas das vias que deve ser seguida, pois está claro que os que perpetuamente se encontram em sectores vitais tendem a ser vítimas do “amolecimento progressivo”, acabando mesmo por perderem perspectiva sobre as obrigações ético-profissionais.
Não se pode permitir que mais um ano judicial termine sem que processos que lesaram o Estado e os cidadãos na Beira, Nampula, ou Maputo transitem para 2007 só porque alegadamente alguém sonante “fez uso do telefone”...
Como expoente máximo que vela pelo bem estar de seu povo, este espera ansiosamente que o presidente da República ordene que os “impunes” já acusados sejam tratados conforme a lei prevê.
A questão das “chamadas costas quentes” não deve continuar a impedir que haja gente acima da lei. É tempo de se governar com sentido nacional e não a pensar e funcionar com base no nepotismo ou o seu “primo directo sistema das cunhas”.
Sem caçar bruxas ou inventar criminosos onde eles não existam Moçambique tem necessidade de ganhar e desenvolver-se através de acções.
Que o novo ano judicial seja também o inicio de uma nova era na administração da justiça de que o povo está tão carente. Que o tempo dos intocáveis esteja de facto terminando para bem da nação moçambicana em construção. Os beirenses e os moçambicanos em geral, querem, por exemplo, saber o que se passa e o que acontecerá com os casos famosos dos senhores Chivavisse Muchangage, ex-edil da Beira, José Beirão, ex-director Provincial de Finanças de Sofala e os respectivos acompanhantes nos processos que foram investigados pela Brigada Anti-Corrupção da Procuradoria Geral da República. É de processos iniciados e concluídos que se pretende que se caracterize o novo ano judicial. (x)

CANAL DE MOÇAMBIQUE - 23.02.2006

21-02-2006

Quando os “Outros” também clamam pelos seus “Gwaza-Muthini”

por Noé Nhantumbo

Pelo que ouvi e observei, os moçambicanos estão aprendendo rapidamente a reclamar quando algo lhes parece menos justo. É por exemplo o facto de só se comemorarem e terem relevo na comunicação social pública datas e factos relativos aos heróis da luta anti-colonial de individualidades de uma maneira ou de outra afins ao «Império de Gaza». Após mais um Gwaza-Muthini não foram poucas as vozes discordantes que se fizeram ouvir na Beira sobre tal facto. As pessoas não discutem o mérito de Gungunhana ou de outro interveniente famoso na luta contra a invasão colonial, mas, sim, a exclusão dos outros moçambicanos do Centro e do Norte daquilo que é hoje Moçambique.
A unidade nacional e o sentido de Nação constroem-se com respeito pelos outros e isso se faz também dando proeminência àquilo que é dos outros. Unidade na diversidade é isso e não simplesmente palavras vãs pronunciadas quando convém a certas figuras.
As outras pessoas, ao mais uma vez serem confrontadas e praticamente obrigadas a engolirem o “sapo” de «Gwaza-Muthini», sem se importarem do que seus partidos digam, estão, à boca cheia, clamando por verem seus heróis, como Makombe, Kamba Simango e outros, também inscritos e celebrados com o mesmo peso que os do «Império de Gaza» o são. Foi e é interessante verificar que a moçambicanidade é construída no dia-a-dia pelos moçambicanos, conversando, discutindo, confrontando-se muitas vezes fora dos mecanismos partidários. O que de útil está acontecendo entre os actores, acontece fora das estruturas partidárias asfixiantes. Para todos os que querem ver Moçambique acontecendo no dia-a-dia é deveras interessante observar que os moçambicanos conseguem consumir artigos provenientes de fora dos quadrantes ou parâmetros partidários. E esta dos heróis anti-coloniais já tardava a aparecer.
CANAL DE MOÇAMBIQUE - 21.02.2006

19-02-2006

Intervenção de Sua Alteza o Aga Khan

Agakhan Discurso de Sua Alteza o Aga Khan

Intervenção de Sua Alteza o Aga Khan no Simpósio da Universidade de Évora:
“Sociedade Cosmopolita, Segurança e Direitos Humanos em Sociedades Pluralistas e Pacíficas”
12 de Fevereiro de 2006

Veja em:

http://www.akdn.org/speeches/2006Feb12a3.htm

18-02-2006

Mutilação Genital Feminina

Uma Barbárie ao Serviço dos Machos e da Poligamia

          Em 28 países africanos, nalguns países árabes, no Iraque, Indonésia e Malásia é praticada a circuncisão da mulher. Esta consiste na mutilação genital,

na amputação do clítoris e dos lábios vaginais às meninas, geralmente a partir

dos cinco anos. Uma danificação irreparável para o corpo e para a alma.

Cientistas avaliam em cerca de 10 a 25% as meninas que morrem em consequência desta operação sem higiene que é efectuada com uma navalha ou caco. Os peritos avaliam em 130 milhões o número de mulheres mutiladas.

          Assim se elimina o prazer sexual das mulheres. É o mesmo que cortar a glande, o pénis ao homem. É uma tortura e um abuso sexual, a repressão da mulher e da sua sexualidade. Os homens ao roubarem o prazer sexual à mulher reduzem-na à função reprodutora. São medidas preventivas machistas. Assim impedem nas mulheres a masturbação, o desejo e impedem-nas de terem

relações sexuais antes do casamento. Por outro lado estas mulheres não têm demasiadas exigências aos homens na prática da poligamia.

          Apesar das Nações Unidas terem exigido tolerância zero no que respeita

a esta prática, continuam a ser vítimas deste costume três milhões de meninas

por ano.

Porquê o corte do clítoris?

          Porque é tradição e os homens o querem. Homens não aceitam casar com uma mulher que ainda tenha o clítoris. Consideram impura quem tenha o clítoris.

O prazer sexual é um direito reservado aos homens. A mulher está totalmente dependente do homem económica e socialmente. Não tem outra hipótese que não seja obedecer. Para não serem marginalizadas pela sociedade as mulheres aceitam tal barbaridade. Estas tradições das tribos obrigam ao desprezo da

mulher e à sua discriminação obrigando-as a sofrer toda a vida.

          Já em 1994 a ONU queria acabar com esta praga em dez anos. Mas nada, a tradição abominável continua na mesma. Umas dão-se em público outras em segredo.

         As meninas ou donzelas que não morrem precisam de meses até a ferida cicatrizar. Uma agravante do problema são as dores que acompanham a mulher durante toda a vida e a cicatriz rebenta repetidamente. As mulheres circuncidadas também não podem andar de bicicleta.

          Na Europa há dezenas de milhares de mulheres exiladas que sofreram

esta tortura. Aqui já começa a haver sensibilização para o problema, atendendo a que tem havido mulheres afectadas que denunciam tais práticas. Assim o tribunal alemão DGH determinou em 2005 (cfr. Acta: AZ XII ZB 166/03) que o desejo

duma mãe levar a sua filha para a Gambia pode ser suficiente para que lhe seja tirado o direito de cuidado da filha. Na Gambia 80 – 90 % das mulheres são mutiladas. Também o Tribunal Administrativo do Hesse reconhece o direito de

asilo quando há ameaça de mutilação genital. Neste caso foi reconhecido asilo a uma jovem de 18 anos e a uma menina de 9 anos da Serra Leoa onde 80 – 90 % das mulheres são mutiladas.

          Só na medida em que mulheres que sofreram esta discriminação se

dirigem a instituições poderão ser organizados projectos de colaboração

tendentes a fazer campanhas de esclarecimento nas regiões donde provêm. É preciso que os pais e jovens dispostos a quebrar com tão bárbara tradição sejam apoiados e honrados.

          Estas práticas constituem um testemunho de pobreza e de indiferença para os países ocidentais. Humanismo compromete. É totalmente incompreensível que estados civilizados onde os direitos humanos são tão apregoados como na Europa e onde há até um certo respeito por animais, se feche os olhos a  tal barbaridade e injustiça para com as mulheres. Só resta às mulheres, solidarizem-se já que os homens se escondem por detrás do respeito dos valores culturais. Respeito não, cobardia!

António Justo

Alemanha

17-02-2006

As caricaturas de Maomé

Carta

Por: Grácio Abdulá Portugal

As caricaturas de Maomé têm ocupado a actualidade mundial, com debates e mais debates... Não é pertinente perguntar qual a diferença entre um fundamentalista ocidental e um fundamentalista islâmico? Claro que a resposta é sim. Pessoalmente não vejo qualquer diferença entre a arrogância ocidental e o fundamentalismo islâmico. Ambas pecam por excesso. Uma pela suposta "superioridade" civilizacional que os torna cegos, outra pela suposta superioridade religiosa que os torna surdos.

Não! É falso o argumento do choque de religiões, porquanto estamos perante posições radicais de civilização e religião. Se é verdade que a liberdade de expressão tem limites, também não é menos verdade que as manifestações tenham que ter limites. E isto é quase como o problema antiquíssimo de saber quem é que apareceu primeiro, O OVO OU A GALINHA?

Os ocidentais dirão que foi o ovo, por isso a liberdade de expressão não deve ter limites e por conseguinte está acima de qualquer religião. Por sua vez os fundamentalistas islâmicos dirão que quem apareceu primeiro foi a galinha, por isso a religião é intocável e está acima de qualquer liberdade de expressão.

Este assunto é complexo e não pode ser tratado de forma simplista. Por um lado temos um valor supremo para as democracias ocidentais que é a liberdade de expressão, por outro lado temos também um valor supremo para os muçulmanos que é a Fé, a Religião e a Crença. O Profeta Maomé faz parte desse valor supremo para os muçulmanos.

Ora caricaturar de forma abusiva e provocatória aquilo que é Sagrado para os outros é liberdade de expressão? Seguramente que não! Da mesma forma que é negativo que os muçulmanos não sejam capazes de compreender quão Sagrado é para as democracias a liberdade de expressão, que é o meio através do qual cidadãos anónimos têm voz e vêem acender-se uma luz no fundo do túnel para a realização da justiça.

As massas não podem ser manipuladas em nome da civilização, nem em nome de Allah. Sou africano, muçulmano, defensor convicto da liberdade de expressão e da liberdade de credo, com plena consciência de que a democracia é o menos mau de todos os sistemas políticos. Como africano sofro por ver o meu Continente desprezado, roubado e maltratado muitas vezes pelos seus próprios filhos. Como muçulmano sofro por saber que existe um grupo que em nome de Allah comete atrocidades, colocando-me numa posição desconfortável perante ocidentais ignorantes. Como democrata no ocidente sofro por não aceitar a arrogância baseada numa suposta civilização que tende impor a todo o mundo a democracia como se esta fosse a única via perfeita conducente à felicidade dos povos!

O AUTARCA – 17.02.2006

Distinção

Atalhe de Foice

Por Machado da Graça

Debate-se hoje no país a questão de saber quem deve ser considerado herói nacional.

Poder-se-ia perguntar se não há nada de mais importante para os moçambicanos debaterem, no nosso país empobrecido.

Mas a verdade é que, a propósito ou a despropósito, se debate quem é herói nacional.

Para definir tão complexa atribuição de título foi mesmo criada, pelo governo, uma comissão. Coisa séria.   A cobrar, decerto, mais uma fatia do bolo nacional.

Mas quais serão as razões deste súbito interesse por uma tal questão?

À primeira vista vejo duas:

A primeira é o número, cada vez mais reduzido, de gavetões no monumento da Praça dos Heróis.

Com o passar do tempo e o passar à história de quem vai morrendo, muitos andarão fazendo as contas ao número de gavetões ainda existentes e ao número de possíveis heróis, ainda vivos,  para tentar descobrir se ainda lhes sobra lugar para o repouso definitivo.  E as contas já devem ser bastante preocupantes para muitos, porque é cada dia mais claro que o espaço não vai chegar para todos.

A outra razão é de carácter político: Normalmente, quem decide quem são os heróis são os vencedores das guerras. Ora a guerra entre o governo e a Renamo e seus apoiantes externos, terminou por um empate. Como se diz muito, agora, terminou sem vencedores nem vencidos. E, portanto, é difícil determinar quem foi herói nessa guerra.

Daí que se vá definindo como herói, ou heroína, gente que se distinguiu na luta armada de libertação, em que o vencedor foi claro, mas ninguém se atreva a definir heróis desta outra guerra, de final negociado.

Só que a oposição se sente diminuída neste retrato da heroicidade nacional. Não tendo participado na luta armada de libertação nacional, não tem nenhum dos seus membros candidato a herói, por essa razão, ao passo que a Frelimo pode, à vontade, ir escolhendo os seus membros mais antigos, não pela sua actuação na guerra mais recente mas sim pela guerra mais antiga.

Porque, num país ainda traumaticamente dividido pelo que aconteceu na guerra de desestabilização, segundo uns, civil, segundo outros, os critérios estão a anos luz de ser os mesmos. Um determinado personagem histórico é, para uns, um herói que lutou, de armas na mão, pelo estabelecimento da democracia no país. Para outros, o mesmo personagem histórico é o chefe de bandos armados, de enorme selvajaria, a soldo do apartheid e do regime racista da Rodésia. Tarefa difícil, senão impossível. Pelo menos enquanto não passarem algumas gerações.

Mas mesmo entre os participantes da luta armada de libertação nacional, as coisas começam a não ser tão simples. Aqueles que cometeram actos heróicos e morreram ao cometê-los, ou morreram pouco depois, são casos que não levantam grandes dúvidas.

O pior são os casos daqueles que cometeram actos heróicos na sua juventude mas continuaram, incomodamente, vivos. E que, ao longo de vidas longas, tal como qualquer outra pessoa, foram cometendo actos sociais positivos e actos negativos. Muitas vezes actos muitíssimo negativos.

Continuaremos a considerar herói aquele que o foi, aos 25 anos, mas se transformou, depois,  num ricaço graças à corrupção e ao crime?

Difícil tarefa, a da tal comissão.

Mas penso que uma forma de descongestionar um bocado o problema seria reanimar o hábito de condecorar os cidadãos que se vão distinguindo nas mais variadas áreas da vida nacional.

Em muitos países a condecoração de cidadãos é uma actividade regular. Por vezes realizadas em datas nacionais importantes, outras vezes sem qualquer data associada, as condecorações permitem ir distinguindo aqueles que se destacam, sem ter que chegar à atribuição do título de herói.

Entre nós as condecorações foram sempre coisa muito rara, mais excepção do que regra e até, por vezes, a reboque de outros países que condecoraram cidadãos moçambicanos.

Um alargamento desse tipo de distinção iria aliviar, muito provavelmente, a pressão sobre o título de herói nacional, na prática a única distinção que Moçambique reserva hoje aos seus cidadãos.

SAVANA - 17.02.2006

Reservas em relação a Guebuza

Segundo o “The Economist”

A presidência de Guebuza marca o fim de um período de pluralismo político e reconciliação nacional que caracterizou a presidência anterior, considera a unidade económica do “Economist” de Londres.

A publicação, um dos guias informativos incontornáveis para a comunidade de negócios e o circuito diplomático internacional, trata com particular dureza o novo Presidente, que considera alinhado com “a linha dura da Frelimo” e de ter colocado no Governo elementos ligados “à esquerda tradicional da Frelimo e à sua ideologia anti-colonial”.

Observadores consideram não ser surpreendente esta análise que coincide com a prudência com que a comunidade doadora tratou o novo Governo moçambicano e a figura de Guebuza que consideram “menos maleável” face às políticas das instituições de Bretton Woods e às pressões dos parceiros externos.

“Os doadores estão apreensivos com o estilo mais autoritário e menos inclusivo do Governo”, lê-se.

Veja em:

Download the_economist.doc

16-02-2006

MARCO DO CORREIO - Machado da Graça

Olá amigo Jesuino

Como vai essa saúde? Nós, do nosso lado, estamos bem.

E parece que a actuação do Governo também está bem. Eles próprios reuniram-se para avaliar o seu desempenho durante o primeiro ano de actividade e acharam que a avaliação era positiva.

E isto recorda-me, meu caro amigo, que desde a morte de Samora Machel nunca mais ouvi falar de uma avaliação negativa da actuação do Governo.

No tempo dele éramos chamados, de vez em quando, à praça pública onde o ouvíamos criticar duramente, este ou aquele ministro, este ou aquele governador ou director nacional.

Mas essa prática parece ter morrido, também, em Mbuzini.

A partir dessa data vemos sempre pessoas com ar risonho e auto-satisfeitas a dizer que foi feita uma avaliação e ela foi positiva.

Isto num país governado por esses dirigentes tão positivos, há dezenas de anos, e que está no estado em que está.

Pelo contrário, quando a avaliação positiva não vem dos próprios mas sim da população que é servida pelos órgãos que eles dirigem, as coisas parecem já não correr tão bem.

Veja-se o caso dos Correios. Aqui há uns anos estavam num estado caótico, as cartas não chegavam, ou eram violadas, os roubos eram constantes, um mau aspecto geral das instalações.

Entretanto foi nomeado para director Benjamim Pequenino e, rapidamente, as coisas começaram a mudar para melhor.

Eu, pessoalmente, uso bastante os serviços dos Correios, para receber e enviar correspondência. Pois notei que essa correspondência passou a chegar, a tempo e horas, sem ser violada nem roubada.

A sede da empresa foi pintada e está limpa e os funcionários são atenciosos.

E, por cima disto tudo, dizem-me que a empresa dá lucros para o Tesouro Nacional.

Pois ouvi agora que o Conselho de Ministros achou por bem retirar a Benjamim Pequenino a direcção da empresa. O pretexto foi que tinha terminado o seu mandato.

Ora quantos directores de empresa vemos nós permanecerem no cargo, apesar de os sectores que dirigem irem de mau a pior? Conta-os tu, meu caro Jesuino, que eu não tenho paciência para isso.

É verdade que Benjamim Pequenino tem uma má característica negativa e uma péssima característica positiva. A primeira é não ter um cartão do Partido FRELIMO. A segunda é ter um cartão do Partido RENAMO.

E, muito provavelmente, foram estas duas características que ditaram a sua saída do lugar que, tão competentemente, parecia estar a ocupar.

E isto nos mostra, meu bom amigo, que é a fidelidade partidária e não a competência e honestidade que determinam as nomeações em órgãos que são do Estado e não dos partidos.

E assim não se vai longe.

Por muito que as avaliações, feitas pelos próprios, continuem a ser positivas.

Um abraço para ti, Jesuino, do

Machado da Graça

CORREIO DA MANHÃ (Maputo) – 16.02.2006

14-02-2006

Resistências dificultam primeiro ano de Guebuza em Moçambique

ANA DIAS CORDEIRO

A Frelimo afastou Chissano para não arriscar perder a corrida presidencial de 2004, diz Joseph Hanlon. Mas desde a tomada de posse de Armando Guebuza na Presidência, pouco mudou em Moçambique.
No primeiro aniversário da tomada de posse de Armando Guebuza como Presidente da República, em Fevereiro de 2005, o sentimento em Moçambique é de que este ano foi um ano perdido. A reforma da justiça e o combate à corrupção - temas centrais na campanha de Guebuza - tardam em ser aplicados.
O semanário independente Savana, na sua edição de 10 de Fevereiro, adianta duas explicações para o actual "cepticismo" dos moçambicanos: ou a campanha de Guebuza foi "um discurso de caça ao voto para marcar uma clara ruptura com o passado", ou o actual bloqueio resulta das "lutas intestinas" dentro "da Frelimo" (Frente de Libertação de Moçambique).
O jornalista e académico americano da Open University de Londres, Joseph Hanlon, privilegia a segunda hipótese. Em entrevista ao PÚBLICO, este autor de várias obras sobre Moçambique, diz: "Está a ser muito difícil para Guebuza tomar o poder. A resistência no aparelho do Estado é muito severa.
Chissano esteve na Presidência 17 anos, durante os quais se criaram feudos. Muitas pessoas aproveitavam isso para a corrupção, para pagar favores, para conseguir contratos. Permanecem em lugares muito importantes do poder e resistem às mudanças." E conclui: "Guebuza não esperava a resistência da facção de Chissano que está a encontrar.
Mesmo dentro da Presidência, houve resistência à sua tomada de poder, as coisas estão bloqueadas. Este primeiro ano foi uma perda".
Recentemente em Lisboa onde apresentou no ISCTE uma conferência sobre Moçambique como "um Estado de partido predominante" (a Frelimo), Joseph Hanlon diz que o antigo partido único só venceu as eleições de Dezembro de 2004 porque afastou Chissano da corrida presidencial: "Com Chissano, a Frelimo teria perdido. A corrupção endémica associada aos anos em que esteve no poder provocou um grande descontentamento popular, mas também um descontentamento no partido."
Armando Guebuza encarnou a mudança entendida dentro da Frelimo como necessária para recuperar o partido do mau resultado das eleições de 1999.

Eleições de 1999 foram sinal de alarme

Nessas segundas eleições multipartidárias no país - nas quais vieram a confirmar-se irregularidades sem que nunca fosse avaliado o seu impacto - o candidato presidencial da Renamo, Afonso Dhlakama, ficou a poucos pontos de Joaquim Chissano.
"O facto de a Frelimo quase ter perdido nas eleições de 1999 foi um choque para muitos militantes, que tomaram consciência de que podiam ser derrotados. Foi o próprio partido que impediu Chissano de se candidatar de novo, apesar de a Constituição lho permitir."
Em 2004, esse descontentamento já não era tão palpável. "Penso que foi porque Guebuza se apresentou como alternativa credível", continua o autor de Peace Without Benefit (James Currey, Oxford). "Antes das eleições, Guebuza passou mais de um ano a percorrer o país e voltou com uma mensagem anti-corrupção e em prol do desenvolvimento", lembra Hanlon. "A sua campanha, no fundo, não era contra Dhlakama, mas contra Chissano. A oposição era dentro do partido. Guebuza era em grande medida uma oposição [a Chissano]. Este é um bom exemplo de que existe democracia num Estado de partido predominante. O próprio partido respondeu às exigências de mudança que vinham do eleitorado".
Um ano depois, contudo, esta é ainda "uma mudança sem rumo", titula o Savana. Contrastando com a "grande expectativa quanto a uma rápida mudança", e um discurso sobre o combate à corrupção e à pobreza absoluta, "bem recebido por uma população frustrada pela falta de alternativas", a governação de Guebuza "ainda não foi capaz de produzir nada de grande impacto", conclui este jornal.

Lentidão da justiça é "intencional"

O ex-Presidente da República Joaquim Chissano permanece nos órgãos-chave da Frelimo (de que foi líder até ao ano passado) onde "tem muitos aliados e representa uma facção muito forte". Joseph Hanlon vê uma ligação entre essa influência e o facto de o sistema judicial não funcionar: "É intencional. Há pessoas na elite da Frelimo que não querem ser acusadas de corrupção", diz.

Uma das provas do "controlo do sistema judicial" por parte de "Chissano e dos seus aliados" é, para este professor universitário, a falta de continuidade dada ao processo autónomo contra Nyimpine Chissano (filho do ex-Presidente). Este é considerado suspeito da autoria moral do assassínio do jornalista de investigação Carlos Cardoso desde que foi acusado por uma testemunha durante o primeiro julgamento em 2003, que apenas condenou os autores materiais do crime. O processo autónomo que visa Nyimpine permanece, há mais de dois anos, no gabinete do Procurador-Geral da República, Joaquim Madeira, reconduzido para o cargo antes de Chissano deixar a Presidência.

"Penso que há muitas pessoas em redor de Chissano que prefeririam não ver esse processo ir para a frente. É mais fácil fazer isso quando se tem controlo dos ministérios do Interior e da Justiça." E a luta de influência em torno desses ministérios é notória.

Não há sinais de que outras investigações sobre corrupção e o sistema bancário avancem: um dos exemplos é o absoluto silêncio sobre a existência ou não de uma investigação ao caso do ex-director da supervisão bancária do Banco Austral, Siba-Siba Macuácua, morto em Agosto de 2001, quando investigava crimes financeiros relacionados com a privatização da instituição.

As pessoas não vêem a Renamo como oposição credível
JOSEPH HANLON

Existe pressão sobre pessoas que assumem posições de predominância nos partidos da oposição, diz Hanlon. Moçambique é um Estado de partido predominante, diz Joseph Hanlon, jornalista e académico americano da Open University de Londres. Poderá ver nos próximos anos uma oposição emergir, mas apenas em votações locais e regionais.

PÚBLICO — O que significa um Estado de partido predominante?
JOSEPH HANLON—Significa que há uma oposição, que há eleições mas há um partido que toma sempre o poder. Ao mesmo tempo, a continuada predominância desse partido significa que os seus militantes estão em todas as posições-chave do Governo e na administração.

P- Isso põe em causa o multipartidarismo?
J- É um sistema multipartidário no sentido em que há sempre a possibilidade de outro partido ser eleito. A oposição controla cinco das 33 câmaras municipais no país. Voltará a haver eleições regionais em 2007 e eleições municipais em 2008 e a Renamo vai decerto conseguir algumas vitórias. E há uma forma de democracia porque todos os cinco anos, o partido dominante tem de se apresentar [a eleições nacionais] para ser eleito e responder à vontade dos eleitores.

P- A predominância da Frellmo limita a acção da oposição?
J- Um dos aspectos mais marcantes nas eleições de 2004 foi o colapso total do voto da oposição. A Renamo [Resistência Nacional Moçambicana] praticamente desceu de dois milhões para um milhão de votos. Ficou claro que as pessoas já não a viam como oposição credível ou Dhlakama como um potencial Presidente. A campanha foi muito negativa, nunca explicou o que tencionava fazer. Mas também havia um terceiro partido, de Raul Domingos, visto como uma potencial terceira força a surgir, que teve muito poucos votos. Juntando o fracasso destas duas forças, concluímos que as pessoas não sentiram a necessidade de votar na oposição.

P- Em certas províncias moçambicanas há Intimidação de membros da oposição.
J- Eu não diria intimidação, mas discriminação. Se houver necessidade de obter qualquer coisa do Governo, é uma grande vantagem ser-se membro da Frelimo. Isso é claro. Existe discriminação contra as pessoas da Renamo. E existe alguma pressão sobre pessoas que assumem posições de predominância nos partidos da oposição com ameaças, por exemplo, de perderem os empregos. Mas existe oposição nos média, e no terreno há pessoas que contestam e se assumem como militantes da oposição.

P- Como vê o futuro da Renamo?
J- A Renamo não será oposição credível enquanto Dhlakama for líder.
Ele expulsou ou marginalizou qualquer pessoa com capacidade de organização das estruturas partidárias. Isso, em parte, explica o colapso de 2004. E também o facto de não ter conseguido mobilizar o voto. É muito semelhante ao que acontece na África do Sul, onde o ANC é visto como o partido natural do Governo. Dentro de dez a vinte anos, uma oposição surgirá a nível local, em Moçambique, mas não será a Renamo.

PÚBLICO - 13.02.2006

Chega uma ética de liberdade diplomática e a verdade do politicamente correcto?

Até parece que já vivemos num mundo virtual! Um jornal dinamarquês publica umas caricaturas e quatro meses depois o mundo resolve reclamar. Foi tanto tempo preciso para os islamistas prepararem a reacção no mundo árabe ou convinha isto na contextuara actual do Irão e dos Palestinianos? Precisamente aqueles que nas suas sociedades publicam as piores caricaturas contra a EUA, a EU e os Judeus, abalofam-se como se não tivessem telhas de vidro. Não reconhecem o direito de outros estados. Não aceitam a separação de poderes e exigem dos governos uma desculpa como se estes tivessem mão no que sai nos jornais. Neste momento, uma cruzada contra a sociedade livre vem mesmo a matar!... Servem-se os interesses de extremistas dum lado e do outro. Na sua reacção, a sociedade ocidental mostra que já está cansada de tanta liberdade. Esta só interessa à margem, tendo sido predisposta para a libertinagem.

A violência já não escandaliza

          Os extremistas seculares e vanguardistas querem uma liberdade à la Marx e os extremistas muçulmanos querem-na à la árabe. Os islamistas ganham mais esta batalha à custa do Islão. Os europeus, pretensamente humanos, não reagem; ou melhor, reagem mal. Um país europeu em que a liberdade era um pregão forte foi difamado e ninguém o defendeu. Todos, atemorizados encolhem-se com declarações à volta da moralidade ou imoralidade de 12 caricaturas. O petróleo e o petro-dolar podem muito. A ofensiva islamista vem mesmo a calhar! Em tempos de terrorismo torna-se cada vez mais necessária uma liberdade controlada!... A violência não escandaliza. Estamos na época do moralismo e da ética de liberdade diplomática e da verdade do politicamente correcto. Os secularistas europeus cedem aos islamistas para mais ferozmente atacarem a sociedade judaico-cristã a quem devem o ser.

A eterna religião e o adorado sexo

          Partidários conservadores encontram-se receosos e preocupados com a economia sem predisposição para notar o que se passa. Partidários da esquerda marxista, embora habitualmente façam o seu negócio com moralismos, reservam as suas forças para as gloriosas batalhas do aborto e de quejandos em torno dos órgãos reprodutores.

          É estranho que uma esquerda sempre ciosa em combater e difamar o Catolicismo seja agora tão pacífica em relação a reacções islamistas. É costume usarem duas medidas!... Ou será que os seus factores, os extremos ( neste caso Deus e o Sexo) se tocam e prometem imortalidade e poder?  Uns extremistas apoderaram-se de O Corão para o instrumentalizarem como sua palavra de Deus. Os outros apoderaram-se da fonte da vida: o sexo, para o seu proselitismo e sobrevivência na controvérsia política.

          Numa altura em que se deveriam preocupar em promover a procriação para continuarmos uma sociedade vital capaz de pagar as reformas às próximas gerações, preocupam-se com o sexo como brinquedo querendo distribuir preservativos aos meninos da escola a partir dos 16 anos. Parece que já chegamos à África. Ou será que se trata apenas do aproveitamento de alguns fundos reservados à família, isto é, à família humana?! Enfim, todos têm algo a oferecer: uns oferecem religião e os outros oferecem sexo. Por vezes tem-se a impressão que política e religião são usadas para domínio dos próprios problemas em reacção às próprias falhas de carácter.

          Felizmente que entre muçulmanos intelectuais se levantam vozes defensoras dum Islão moderno, contra os islamistas que querem que os muçulmanos readoptem as normas tribais pré-islâmicas em que dominava a lei da vingança e da retaliação. A violência é filha da falta de esperança. Os fanáticos têm Deus nas palavras mas não no coração. Como poderia um Deus ser menos misericordioso que eu e exigir dos seu súbditos que matem os seus filhos, o próximo, quando eu não o faria?

Os radicais dominam a praça pública

          A maioria do povo Islão, aquele que não vai para as ruas cometer atrocidades e difamar a própria religião, é pacífica. O mundo islâmico fica em casa. Os radicais possuem a praça pública em toda a parte. Isto mostra que os islamistas têm uma rede bem organizada em todo o mundo sendo capazes de dar expressão à insuflação global. Com as mesquitas estão em condições de agir internacionalmente em todo o lugar. Esta força da base não suporta uma instituição hierárquica com uma cúpula capaz de responsabilidade global. Uma força dos sargentos em que os generais operam discretamente ao longo da sua história. Não há guerra, apenas guerrilha.

          É natural que a burguesia dos países islâmicos se sente incomodada com presença militar ocidental nos seus países e com a organização do Ocidente contra o terrorismo islamista. Na base de toda a agressão está a frustração contra o estrangeiro e contra a dominância do Ocidente na política e na economia. Aqui haverá que fazer grandes acertos numa verdadeira política de normalização. É também urgente uma discussão de conteúdos com o Islão. As reacções do mundo ocidental só mostram que não conhecem o Islão. Muita gente fala e nem sequer o livro sagrado muçulmano, o Corão leu. Contenta-se com uma opinião para trazer por casa.

         Os intelectuais muçulmanos têm no mundo uma grande responsabilidade para fazerem valer a razão desta maioria que representa a outra realidade do Islão. O fanatismo é fruto da ignorância, doutro modo não agiriam como agem nem difamariam os outros como incrédulos. Não há estado muçulmano nenhum em que as outras religiões sejam tratas com equidade..

No Islão, o suicídio e o assassínio deveriam ser declarados blasfémia. Como é que o assassínio pode conduzir ao paraíso? Os verdadeiros difamadores da religião são os homicidas e os terroristas que actuam com ciladas ou fazendo emboscadas.

          Urgente é fazer frente contra a desumanidade, contra a barbaridade na religião em vez de se exigirem desculpas.

          O Islão que, por natureza, é anti-secular ao não condenar oficialmente as acções dos islamistas demonstra que o mundo secular, muitas vezes, é mais razoável e mais capaz de gerir possíveis potenciais de agressões que surgem em nome da religião.

          Uma cruzada dos direitos humanos seria a resposta da Europa adequada à cruzada islamista contra a liberdade, só que a sua ética o impede. Nestas campanhas os islamistas procuram atemorizar e calar a voz de intelectuais islâmicos críticos. Assim impedem a formação duma atitude crítica que bem seria capaz de contribuir para a modernização da sociedade islâmica e para o seu prestígio

          Não se pode sacrificar tudo nem no altar da religião nem no altar da política.

António Justo (Alemanha)

10-02-2006

Alguém tem que chamar atenção a Marcelino dos Santos

Tentou censurar o antigo PR em público?
A ser verdade o que acabo de ler esta manhã, o caso Marcelino dos Santos merece reflexão séria dos órgãos de soberania deste País.

Diz o número 1 do Canal de Moçambique, novo jornal por fax produzido em Maputo que quando esta publicação estava a entrevistar o antigo Presidente da República Joaquim Chissano, Marcelino dos Santos interrompeu a entrevista e disse a Chissano “não responda”.

Isso aconteceu na Praça dos Heróis, portanto numa cerimónia pública e não privada e o assunto que estava em discussão entre o jornalista e o antigo estadista moçambicano é de interesse público.
O jornalista pretendia saber de Chissano se era verdade que Mondlane fora assassinado fora dos escritórios da Frelimo na capital tanzaniana e o antigo PR estava a confirmar que sim, o fundador da Frente de Libertação de Moçambique fora morto na residencial de Betty King e não nos escritórios.
Achando que isso ( a confirmação de Chissano) bradava os céus, Marcelino dos Santos em tom arrogante gritou: “não responda” e acto contínuo, ordenou um segurança a agir, de maneira a impedir a normal continuação do trabalho.
Sendo que Joaquim Chissano é antigo Presidente deste País, independentemente dos laços de camaradagem que unem os dois, este gesto é de uma gravidade tal que a ser verídico, exige a intervenção de quem de direito, para que chame à atenção do velho camarada para que páre com os seus maus exemplos que começam a enjoar as pessoas civilizadas.
Estamos recordados todos do mau exemplo que deu em plena cerimónia na casa de todos (a Ponta Vermelha), com o seu famoso gesto indigno e mau para a reconciliação nacional.
E agora, acabamos de saber que em público interrompeu o antigo Chefe de Estado de falar à comunicação social, num gesto de autêntica censura a Chissano e ao jornal.
Repito aqui o que escrevi na semana passada: os dirigentes devem dar exemplo na sua conduta pública, sobretudo porque há gerações jovens que devem aprender do seu exemplo. As querelas internas na Frelimo, sobretudo em véspera de Congresso, não têm nada que nos perturbar cá fora, nós que não pertencemos ao grande partidão.
Se abundam por lá, anarquistas e indisciplinados, arrogantes e arruaceiros, isso não tem que se reflectir em actos de Estado, sob pena de banalizá-los e ir dar razão aos que boicotam tais actos de Estado.
Por outro lado, Marcelino dos Santos não pode continuar a dar exemplo de intocabilidade, sob pena de cair por terra a famosa música do Dr. Joaquim Madeira de que “ninguém está acima da Lei”.
Ora impedir uma entrevista ao antigo PR afigura-se uma violação da Lei, nomeadamente a Lei de Imprensa. Também afigura-se uma aguda falta de educação para quem o faz. E calha mal que seja Marcelino dos Santos, velho intelectual e libertador cujos pregaminhos de nacionalista reconheço e são inquestionáveis.
PS 1 e longo: No passado sábado, acabamos de ver mais uma lição de grandeza dos nossos presidentes. O antigo PR, recebendo os hóspedes também como anfitrião de Chaimite, perfilou durante largos minutos ao sol à espera da chegada do Presidente Armando Guebuza.
Com a humildade que lhe caracteriza, Joaquim Chissano cumprimentou Guebuza como seu chefe e acompanhou, no meio de outros sequazes, o actual PR nas cerimónias que se seguiram.
Na hora do almoço, foi bonito ver os dois líderes em animada cavaqueira, saboreando o ucanho em copo típico e tradicional, durante largos minutos.
E foi a pensar nisto que desde o oitavo Congresso eu venho escrevendo em público que bem precisávamos nós de termos um antigo presidente vivo, a cruzar connosco em cerimónias públicas ou privadas e a ser nosso património.
E depois da partida de Guebuza, em grande como PR, Chissano ficou alguns minutos em bate-papo com a gente e também partiu.
E devia ser assim de cima para baixo. Os cessantes conviverem com os que estão no activo e juntos e publicamente trocarem experiências. Infelizmente, há quem jura que não quer ver o seu antecessor nem morto. E a gente pergunta onde foram eles buscar tanto ódio, uma vez que os seus chefes não aparentam isso pelo menos publicamente?
PS2 e curto: Numa das raras vezes em que a Justiça actua de forma rápida, o juiz Dário Ossumane da 3ª Secção do Tribunal Judicial da Cidade de Maputo interditou a produção e distribuição em Moçambique da Revista “Nova Mais” por razões que o leitor encontrará expostas e fundamentadas noutro espaço desta edição.
Para além de tudo o que na deliberação vem dito, a medida dá um claro sinal de que apesar da lentidão normal, a porca está a acordar nestas terras e os moçambicanos tendem a despertar ante a ameaça do regresso dos antigos patrões.
O sinal foi bom sobretudo para o nosso Gabinete de Informação, na pessoa do Director Ricardo Malate, que afirmou por mais de uma vez que para eles, a revista Mais e a revista Nova Mais eram coisas diferentes.
Pensar é muito difícil senhor Director substituto do Gabinfo. Não custava nada, antes de se pronunciar nestes termos, ouvir a gente da praça ligada ao assunto. Ai compreenderia certamente que o público, ficava defraudado com a “Nova Mais” que então foi autorizada e que o tribunal, em boa hora, decidiu banir, por enquanto.
Assim, não se encorajarão futuras burlas nem com “renovadas” nem com “novas ou velhas”...

Lourenço Jossias - ZAMBEZE - 10.02.2006

31-01-2006

A opinião de: Augusto Macedo Pinto*

Chegar a Maputo e ter a felicidade de viajar até a província de Nampula, ser recebido por amigos que muito bem nos acolheram, visitar a cidade e Ficar hospedado num novo hotel, recentemente inaugurado, é bom demais para Ser verdade, dirão vós. Mas foi! Mais estaria para vir. Fomos a Nacala, amigos, mais uma vez nos acolheram, visitamos com minúcia o Porto de Nacala.

Está em curso uma grande acção de manutenção e melhoramentos, pois em breve terá de responder a solicitações de grande dimensão que se avizinham.

Senti no local que a Plataforma Logística Internacional de Nacala é uma realidade a ter em consideração pelos agentes económicos nacionais e internacionais.

Caminhamos até á maravilhosa praia Fernão Veloso, a indiscritível cor do mar, aguardava-nos. Aqui não resistimos a uns camarões grelhadas e uma boa cerveja moçambicana.

Foi um repouso necessário aquele que tivemos. A Ilha de Moçambique seria a etapa seguinte, sempre conduzidos pela segura condução do senhor Baulela.

Surpreendemos com a nossa presença, sem aviso prévio, o amigo Salimo, presidente da Associação dos Amigos da Ilha de Moçambique. Ele respondeu-nos á surpresa, com outra surpresa. A sua mulher Kiu Kiu, Maria Vaz, para quem tiver difuldades de pronúncia, dona do restaurante O Paladar.

Honra lhe seja feita. O peixe grelhado que nos ofereceram, não dá para esquecer.

Esta refeição foi acompanhada por uma amena cavaqueira, onde não faltou reflectirmos sobre como exportar o limão pequenino, aquele com que se faz o achar, estão a ver qual é, não é verdade? Mas Camões aguardava pela nossa visita. Fomos render homenagem á sua estátua. Visitámos os monumentos, percorremos a Ilha de lés a lés. É importante o projecto da cooperacção portuguesa, os habitantes da Ilha mais atentos aguardam-no com expectativa.

O hotel é bom e funciona, precisa de ser conhecido, promovido no estrangeiro. Os acessos rodoviários a partir de Nampula até Nacala e Ilha de Moçambique, são de alta qualidade, bom pavimento e rápido acesso. É perfeitamente exequível, fazer este percurso no mesmo dia, sair de manhã e regressar à noite, visitar tudo aquilo que pretendemos, almoçando em Nacala e jantando na Ilha de Moçambique.

Voamos até à Beira, aqui passamos um fim de semana, como sempre, entre amigos. Muito convívio e uma caldeirada de cabrito para vinte e quatro pessoas. O cabrito, era de Tete, claro! Era dia de eleições em Portugal, a comunidade portuguesa acompanhou com interesse o seu desenrolar. Na Beira visitámos o seu moderno porto, bem equipado, seguro e funcional. Quanto à sua segurança o amigo Carlos Salvador está mesmo atento, como tivemos oportunidade de verificar.

Sente-se que a Beira está a despertar da letargia do passado recente. As actividades culturais da sociedade civil também emergem, temos o caso da Associação Cultural promovida pela Maria Pinto de Sá, vem aí o Carnaval e a Feira do Livro de língua portuguesa. O comércio está activo. A hospitalidade é também marcante nesta cidade do centro de Moçambique.

Augusto Macedo Pinto, [email protected]

Texto publicado em «O Primeiro de Janeiro» a 27 de Janeiro de 2006

30-01-2006

Pobreza e os media

Penso, logo existo

Eduardo Sitoe *

HÁ uma dimensão importante da pobreza que se traduz na privação de rendimento e de bens materiais e que significa, fundamentalmente, uma vida que jaz sobre a tirania das necessidades básicas.

Cerca de 50% da população moçambicana encontra-se nesta situação: pobreza absoluta, vivendo com menos de 1 dólar americano ao dia e, sobretudo, uma vida que se resume à luta diária pela sobrevivência, isto é, pela possibilidade – não imediatamente garantida – de ainda se estar vivo no dia seguinte. Que papel para os media aqui? Claro que podem divulgar as situações de catástrofe, chamar a atenção dos que podem fazer algo e fazer alguma diferença. Mas, isto fica-se ainda no domínio da sobrevivência.

A outra dimensão da pobreza – que tem muito a ver com as causas da própria pobreza – diz respeito à ausência total de capacidades para o exercício de direitos entanto uma pessoa humana.

Não raro é a marginalização, o sentido de auto-exclusão, de não pertença, o fatalismo, o medo, o conformismo e a ignorância que engendram e perpetuam a situação de pobreza.

Aqui, entanto que sujeitos privilegiados de formação de opinião pública, os Media podem desempenhar algum papel válido no sentido do empoderamento dos pobres pela via da elevação da proeminência do assunto da pobreza nas agendas políticas e de governação.

Aqui a ideia não é chegar ao extremo de afirmar que se combate melhor a pobreza absoluta atacando ferozmente a riqueza absoluta, mas sim que é importante transformar o combate à pobreza numa prioridade, sobretudo, do segmento dos cidadãos não pobres da sociedade. E esta sociedade deve ser entendida na sua tríplice dimensão local, nacional e internacional.

Esta comunicação visa transmitir a ideia de que ainda que os Media tenham um papel sobretudo modesto no contexto moçambicano – incluindo aqui a questão do combate à pobreza – este papel é, paradoxalmente, fundamental e urgente. Tem uma dimensão imediata de difusão de informações com impacto útil e tangível na mitigação dos efeitos e dinâmicas da pobreza.

Mas tem uma dimensão de empoderamento dos pobres que se traduz, quer pela formação de uma opinião pública mais responsável face à questão da pobreza, quer pela responsabilização directa das pessoas que estão em posições de autoridade face aos destinos dos pobres, pessoas estas que podem estar situadas institucionalmente nos níveis local, nacional e internacional.

* Docente e investigador da UEM

EXPRESSO(Maputo) – 26.01.2006

26-01-2006

OS PERIGOSOS CONTORNOS DE UMA FALSA QUESTÃO

Por Benedito Marine

Conhecida que foi a composição do Conselho do Estado, logo começou a correr, em surdina, que nessa composição haviam sido excluídos os muçulmanos – que não tinham nele qualquer representante seu -, ao mesmo que se alegava que, na mesma composição, haviam sido beneficiado os católicos.

Uns dias mais tarde, em edição de 07 de Janeiro do matutino NOTÍCIAS, vem, a páginas 3, o Vice-Presidente do Conselho Islâmico de Moçambique, SHEIK ABDUL CARIMO SAL, citado a dizer que “lamentou que os muçulmanos não estejam representados no Conselho de Estado” e que teria ainda afirmado – transcrevo – “não que estejamos a reclamar por não termos sido inclusos no Conselho de Estado,  mas os muçulmanos acham que prestam um valioso contributo ao desenvolvimento do país. Há algumas questões que têm atingido os muçulmanos, como esta, porque nos parece que o catolicismo é religião oficial do Estado, quando o Estado é laico. Pensamos que seria uma questão de equilíbrio a inclusão de muçulmanos no Conselho de Estado”. – fim de transcrição.   

Talvez para corrigi-lo, pois a sua intervenção não tinha sido suficientemente contundente, o superior hierárquico do SHEIK ABDUL CARIMO SAL, o Presidente do Conselho Islâmico de Moçambique, SHEIK AMINUDDIN MOHAMAD, veio também a público, em pronunciamento ao semanário SAVANA, a páginas 2 da edição do dia 13... ...

Leia em:

Download os_perigosos_contornos_de_uma_falsa_questo.doc

25-01-2006

"Invejocionites da pretalhada"

Por Florentino Dick Kassotche

 contei esta história por várias vezes a muitos meus amigos de andanças, e hoje decido compartilhá-la com o meu vasto público leitor. È uma história triste, mas interessante ao mesmo tempo. Quando eu comecei a compartilhar a mesma casa com a minha namorada dinamarquesa, as suas duas empregadas, que eram pretas iguais a mim não se sentiram bem em ter um patrão preto. No dia em que levei comigo alguns meus pertencentes e passei a noite naquela casa que viria mais tarde, a ser também minha, logo na manhã seguinte, como se eu não representasse algo para elas, as duas senhoras entraram casa de banho adentro, a assobiar, fingindo que estavam muito preocupadas com a limpeza. Lembro-me que continuei o meu banho num à-vontade que lhes pôs mal dispostas, e desse dia em diante nunca mais viriam a repetir a brincadeira na casa de banho e nem num outro canto da casa, reconhecendo, assim, a presença de um homem e imune a provocações sem concatenação.

Vieram outras provocações, mudanças bruscas de ementas, para o pior, claro, quando soubessem de antemão que a “patroa" delas não viria a uma dada refeição; o uso excessivo e abusivo de telefone fixo, e na minha presença, numa clara demonstração de que eu, antes de fazer parte do agregado daquela casa, tudo aquilo era permitido: jogos de ciúmes em relação às minhas amigas, numa de defenderem a patroa, mas com outros objectivos; a não entrada de mais bocas para a casa de que elas eram verdadeiras donas da cozinha; visitas de seus familiares nas horas em que a patroa não estava em casa, numa de que os parentes de uma funcionária doméstica não podem morrer de fome, enquanto elas estiverem a trabalhar para uma patroa abastada; entre muitas façanhas.

Vendo que eu não me chateava com todas essas provocações, as duas irmãs decidiram aprontar uma pesada: conhecendo o mealheiro da senhora, retiraram de lá uns mil dólares. Passados três dias, a “senhora” em pleno almoço, quis saber:

-Terás levado, por acaso, mil dólares de um dos meus esconderijos? - Ela pergun­tou-me.

-Mil dólares? Não!, e nem sei onde é que guardas dinheiro nesta casa.

-Posso pôr as mão no fogo que as minhas empregadas não são capazes de um acto igual. Estão comigo há mais de cinco anos, e nunca houve uma coisa do género.

-Estás indirectamente a insinuar que fui eu a fazer desaparecer o dinheiro?

    Não posso dizer que sim ou não, só que deve haver uma mão estranha que deve querer aproveitar-se da tua presença nesta casa.

Senti-me ultrajado nesse dia, mas não tinha maneiras da me defender. Mesmo que o quisesse, não sei se a minha sócia tinha ouvidos abertos para mim! De tanto confiar nos seus empregados, o único suspeito, fora a nossa ligação sentimental, era eu,

De um dia para o outro, os tipos da raça dela, que por força de circunstâncias, tinham se tornado meus amigos de convívios, olhavam para mim com um ar do desprezo e desconfiança. A minha própria sócia, embora fizesse esforço de fazer de conta que tudo estava bem, eu sentia nos seus gestos uma certa repulsa, um certo distanciamento.

Fui ter com o meu pai adoptivo, o velho Ismail, e dei-lhe o picture do que se estava a passar comigo.

- E o que esperavas que as pretinhas fizessem? Antes de seres promovido a “patrão” elas eram as verdadeiras donas de casa. Quando a patroa delas viajasse, elas tomavam canta da casa, e agora, com a tua presença tudo mudou na vida delas. Se, controlavam o dinheiro disto ou daquilo, agora, és tu. Se se beneficiavam disto ou da­quilo, por mais que continuem a usufruir desses direitos, mas já não é da mesma maneira como dantes A tua presença ofusca muitas coisas; alterou modus vivendi delas. E para demonstrarem o seu não consentimento com a tua cara-presença, elas preferiram dar-te a entender do jeito que estás a contar-me.

- E não aceito ser acusado sem mais nem menos. Quero pôr esta história em pratos limpos.

- Como, meu filho?

- Quero um bilhete, que hei-de viajar para Tete, e depois para Angónia.

- E achas que essas pretas hão-de ter medo dos teus curandeiros?

- Caso não, hão-de pagar por aquilo que fizeram.

- Não sejas maldoso. Antes de partir, despede-te da tua namoradinha e das ditas empregadas, passando por explicar-lhes o que vais fazer e o que representará isso na vida futura de quem, real­mente, pegou na massa,

E à hora de almoço, a presença das empregadas junto da patroa.

- Chamei-vos que é para vos informar que amanhã, terça-feira, viajo para Angónia, uma das zonas do país onde existem cientistas tradicionais que podem nos ajudar a recuperar o dinheiro que desapareceu nesta casa. Não sei o que há-de acontecer com a pessoa que levou o dinheiro, mas não venham dizer, um dia, que eu fui mau. Com a Angónia não se brinca, minha gente!

E, de facto, eu viajara. Chegado ao destino, quando eram dezassete do mesmo dia, a minha namorada telefonaram-me:

- Eh, podes voltar, que o dinheiro já apareceu!

-Como assim?!

    - Num sitio que nunca esperava - em baixo do meu computador. Dos mil dólares, faltam cento e cinquenta, Antes de te pedir desculpas, tenho que confessar que a magia da Angónia deve ser tão forte que deixou as ladras sem fôlego! Já agora, gostaria de conhecer esses teus curandeiros, que é para tratar o cofre do meu serviço, que tem sido visitado por umas forças estranhas.

- Diga-me uma coisa: quem é que pôs o dinheiro nesse sitio?!

- Forem as duas. Confessaram e estão arrependidas. Queriam que tu saísses sujo dessa jogada e perdesses a confiança da minha gente.

Três dias depois voltei de Tete, Reuni-me de novo com as mesmas pessoas e pedi que fizessem confissões explícitas em frente de mim, caso contrário, corria-se o risco de a pessoa que tinha levado o dinheiro perder todos os dedos da mão que foi autora do crime, um por um. E as duas, com lágrimas nos olhos, confessaram o crime e as intenções da mesma: estavam acostumadas a trabalhar para a branca e a minha presença atrapalhava muita coisa.

      Moçambicanamaniamente reflectindo, os níveis de confiança-desconfiança têm a ver com as cor-cores, etnias, origens, grupos de pertença, formações académicas, ,,,, E na esteira de empregadas, quantas outras, de outros níveis, num jogo de afirmações sociais, preferem acidificar kinships seculares, em troca de reconhecimentos pontuais!? Fabricam-se culpados, esquecendo-se totalmente de que a vida é uma sucessão de tempos: passado-presente-e-futuro. E quem saberá o que reserva o futuro para cada ser existencial? E o futuro a virar-se presente, qual será a contribuição do passado, para uma biografia imaculada de toda uma vivência?

A inveja, um dos sete pecados capitais!

ZAMBEZE - 15.12.2005

Da brilhante sentença à vergonhices entre músicos e jornalistas

Anibalzinho que fique aqui, Ferreira que vá e músicos que se entendam...
O Juiz Dimas leu uma sentença brilhante na manhã daquela sexta-feira. Bem elaborada. Detalhada e tecnicamente bem feita.
A sentença do dr. Dimas vai ao detalhe na descrição dos crimes do Anibalzinho. Faz um enquadramento jurídico claro. Fiquei fascinado quando teorizando sobre a jurisprudência, o juiz disse que a culpa é a questão máxima num processo. Mais ou menos isso.
Gostei que o juiz tenha decidido que Anibalzinho, sendo nosso criminoso, que fique por cá a cumprir a sua pena. Não vale de nada produzirmos criminosos e no momento da verdade, pedirmos aos vizinhos ou outros países que guardem esses criminosos nas suas cadeias. Em algum momento, o País deve ter os seus desafios e este é um desafio nosso.
Concordo também, nesta perspectiva, com o Dr. Joaquim Madeira. As nossas cadeias têm sim senhor condições para que Anibalzinho cumpra cá e bem a sua pena. Doutras vezes, que fique claro de uma vez por todas, ele não fugiu. Abriram-lhe as portas e agora, que fiquem desactivados de vez esses facilitadores de Anibalzinho.
Na nossa classe, está em curso uma vergonha. E a vergonha tem cara. A cara da vergonha é Artur Ferreira.
Numa altura destas, repugna-nos saber que um homem que se supõe ser intelectual, trata assim dos colegas e dos seus colaboradores. A gente a pensar que isso acontece em algumas mentalidades boers, quando na verdade acontece mesmo com gente que usa a mesma língua que a nossa oficial.
Nós que andamos a denunciar injustiças, racismos e comportamentos injustos dos outros afinal somos nós a tratar de desgraçados, p. tas aqui e p. tas acolá às nossas colaboradoras.
E como um mal nunca vem só, a desgraça dos moçambicanos é a de que apesar de insistentes apelos de Guebuza para que tenhamos auto-estima, há que nas burocracias dos gabinetes só vê um caminho onde podia ver muitos.
Essa do Gabinfo de que entre a Mais e a Nova Mais há diferenças só lembra o Diabo.
Então os nossos queridos burocratas, se amanhã alguém ir lá registar o Novo Zambeze ou o ZAMBEZE renovado não terão nenhuma curiosidade. Não farão nenhuma pesquisa no mercado para saber o que se passa. Não temos protecção nenhuma, afinal? Só querem os nossos impostos?
E desaguamos noutra tristeza nesta semana. A dos músicos que sem entenderem bem que estão a ser manipulados por fora, estão em lutas internas sem ganhos nenhuns.
José Mucavele e Wazimbo, vozes que se deviam resguardar para servirem de exemplo nas novas gerações de artistas, estão em guerra sem quartel por causa da autoria de uma música.
Um debate que se se aconselhassem nas suas idades e experiências, podia terminar numa conversa amena de companheiros.
Um debate ridículo, cujo balanço é nulo.
E espero que os jovens músicos não sigam este mau exemplo.
E cuidem-se os artistas com as televisões. Vão vos gastar a imagem e po-los no ridículo. Sem ganhos visíveis.

Lourenço Jossias - ZAMBEZE - 25.01.2006

13-10-2005

Memorias e esperanças: O fruto de uma Liberdade

<>

Um amigo muito atento as minhas escritas, que nos seus matabichos quando tem falta de manteiga chama pelo Jamo, perguntou-me domingo, quando iamos ao mercado de peixe da Costa do Sol, porquê Memórias e Esperanças?

<>

Eu respondi, meu caro, é perceptível que nos tempos de hoje urge um plano contra a erradicação deste mal chamado pobreza.
Portanto, há que nas metodologias de combate estar-se precavido do passado que trazem consequências nos problemas que hoje enfermam. Porém, para combater a guerra de ontem neste tempo de hoje devemos dar uma metodologia diferente da de ontem.
Pois, de contrário, podemos estar guerreando com o inimigo errado, no tempo errado e em ocasiões erradas na medida que a nova pobreza não é a antiga pobreza.
Continuei dizendo que há trinta e mais anos, os moçambicanos andavam nas linhas da emoção, onde num curto retrato podia se observar passos gigantescos e significantes em direcção a um estado soberano e independente concretizado em 1975 com uma Unidade Nacional invejável.
Há menos de trinta anos, não sei porquê, esta onda de festejos e vontades deu uma guerra entre irmãos, representando mudanças de aspirações de muitos moçambicanos. Hoje, os moçambicanos marcam passos enormemente largos para frente sobre a base de unidade nacional, paz e unidos contra a pobreza que já era “slogan” de 75. Disse-lhe, ainda, que embora o slogan de ontem seja igual ao de hoje (combate a pobreza: erradicação da fome e combate ao analfabetismo) não podemos tratar este slogan como se em 75 estivessemos, pois, novos factos, diante do sol ardente que raia sobre Moçambique colocando muitas regiões debaixo de seca, surgem fazendo com que se requeira uma perícia de combate, uma nova política, uma nova visão, tanto mais que entramos num novo século com tecnologias que na altura ainda eram sonhos.
De fato, tanta coisa nova aconteceu ao longo destes 31 anos de Liberdade. Se observarmos as nossas ruas constactámos que a conjuntura de pobreza do passado (bichas para comprar tudo) foi regenerendo novos focos de pobreza a começar pela educação e ética.
Logo, agora já não basta alfabetizar, temos de voltar a educar a nossa gente (como eu, se tivesse forças, gostaria de educar os motoristas dos chapas). Pois, enqunto na altura um aproximar ao cemitério era acompanhado de um silêncio absoluto e o apontar do dedo a este local sagrado tornará-se acto impensável, hoje há gincanas, discotecas móveis e sei lá o quê nos cemitérios.
Na altura, miúdos como eu e, mesmo, os mais velhos desviavam as vistas (mesmo sabendo que ver não tira nenhum pedaço) das nossas mamanas, irmãs que, por não terem sanitários públicos, as razões fisiológicas não lhes deixava outra alternativa senão intoxicar plantas. Os manos, manas, mães, pais, professores, avós, tios, vizinhos eram sinónimos de autoridades, dignos de respeito e consideração. Impensável, naquele tempo, ironicamente, para não dizer malcriadamente, responder as autoridades policiais, aos militares, aos professores e aos mais velhos.
Ontem, depositávamos todo o nosso respeito nos adultos não por serem a biblioteca viva que nos ensinavam aquelas estórias começadas por samba rere, samba rere e que, em uníssono, todos respondiamos wai wai wai mussiro, mas sim porque, em cada um de nós, tínhamos a pessoa mais velha como a nossa defesa fazendo com que temessemos apenas, além do escuro nocturno – tanto mais que se diz a noite é diabólica – , a ausência do nosso mais velho por não pudermos ir ao seu colo quando em Mafarinha, lá pelas bandas do Dondo, começava o ranger das AKM´s, que nos deixavam em sobressalto toda noite, com as incendiárias a clarearem a noite e nos levando a pensar que era certo o pata na manja (ser capturado).
Hoje o medo já não é só das AKM’s (que continuam trazendo tristezas e sofrimentos a tantas famílias), mas também medo de cada um nós (e pelo próximo), começando pelo olhar inocente de crianças desamparadas estendendo as suas mãos em tudo o que é canto, no olhar dos jovens desempregados clamando por emprego, o medo pelo ar cansado dos velhos que não sabem que futuro os reserva depois de reformados tanto mais por verem ainda seus filhos, sem poder caminhar pelos seus próprios pés, em suas casas e com mais companheiras e netos. Por ver a relíquia do medo da altura estar a desaparecer a cada dia, é bom trazermos a nossa memória as combinações do passado para termos esperanças de ....
Para semana estamos juntos!

miko cassamo - Zmbeze - 30.09.2005